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Instrvcçam sobre a cvltvra das amoreiras, & criaçaõ dos bichos da seda

INSTRVCÇAM SOBRE A CULTURA das amoreiras, & criação dos bichos da seda.

Reading edition

I. PARTE.

CAPITVLO I.

Das differenças, & propriedades das amoreiras.

Illustration from Instrvcçam sobre a cvltvra das amoreiras, & criaçaõ dos bichos da seda dirigida a conseruaçaõ, & augmento das manufacturas da seda, estabelecidas pelo... Principe Dom Pedro, Governador, e Regente dos Reinos de Portugal

Como o fundamẽto principal da seda, depende das amoreiras, esta rica aruore, cujas folhas seruem de sustento aos bichos, serà o assumpto dos primeiro Capitulo deste Tratado.

Duas sortes de amoreiras se conhecem, hũas brancas, & outras negras. A differença, que as primeiras fazem das segũdas, começa pello fruto, porque produzem cõmumente amoras brancas, ou pardas, mais pequenas que as negras, & menos saborosas; as folhas saõ de hum verde mais claro, a casca, & a madeira mais branca, & he a razam, porque conseruam o nome de brancas, ainda que algũas produzão amoras negras.

Posto que as folhas de hũas, & outras, siruaõ à nutritura dos bichos, as folhas das amoreiras brãcas se preferẽ às das amoreiras negras, por quatro razoẽs. Primeira, porque saõ mais tenras, & delicadas, & de melhor gosto, & alimẽto aos bichos: Segunda, porque produzem a folha vinte dias primeiro, que as outras, & se anticipa com ellas a criaçaõ dos bichos, de vinte dias, às calmas do mez de Iunho, que lhe saõ cõtrarias: Terceira, porque ellas aruores crecẽ, & se cultiuão mais facil, & breuemente, que as outras: Quarta, porque em algũas terras, a experiencia tem mostrado ser a seda dos bichos, que se sustentaõ da folha destas amoreiras, mais fina, & de mais valor. Porém a experiẽcia tem mostrado, que a seda de Portugal, aõde sô se vza das amoreiras pretas, he melhor, que a mais fina de Italia, como que se podem só plantar as amoreiras brancas, pela segunda calidade de anticiparem as folhas, & suposta esta razam se podem pôr entre dez amoreiras pretas, duas brancas.

Ella aruore he a mais fermosa, & a mais vtil de todas as aruores, que seruem ao ornato dos cãpos, & ao proueito dos homens, quanto à fermosura, o proua bem a sua vista, quanto à vtilidade, o manifestaõ os seus effeitos, que saõ a vnica riqueza de muitas, & grãdes Cidades.

Os seus troncos nam differem dos choupos, & de todas as outras aruores fortes, & resistem à agoa mais que todas, donde se segue, que seruẽ a todo genero de obras de terra, & mar, & alguns naturalistas escreuẽ, que a sua casca serue para fazer cordas, & para hũa fabrica de panos grosseiros.

A natureza prouida na criaçam dos bichos da seda, que hauiam de seruir ao ornato do mundo, izentou esta aruore de toda a sorte de animaes immundos, & venenosos, que comem as folhas, & os frutos de todas as outras aruores, porque nenhum se vio jà mais nas amoreiras; este attributo, & este priuilegio da natureza, he propriedade especifica desta nobre planta.

He esta aruore taõ fertil na producção de seus ramos, que quem tem copia de amoreiras, tem lenha em grande abundancia para o fogo, sem incommodar as aruores.

A riqueza das suas folhas he tal, que duas aruores de justa grandeza, bastaõ para o sustẽto de meya onça de graõs de bichos, os quaes criandose mediocremente, produzem seis, ou sete arrateis de seda, que de ordinario se vende por tres mil reis, o arratel.

As suas folhas, saõ o melhor alimento, que a terra produz para o gado, & o seu fruto o melhor, que se conhece para seuar galinhas, frangos, capoens, & toda a sorte de Aues.

CAPITVLO II.

Varios modas de plantar as amoreiras brancas, & pretas.

Ha quatro modos de plãtar, & criar esta vtil aruore.

Primeiro, por semẽte tirada das amoras.

Segundo, por mergulho dos ramos, que sahem ao pé da aruore, junto à terra.

Terceiro, por estacas, & ramos cortados, & plantados em outro lugar.

Quarto, por enxerto de amoreiras brãcas em pretas, ou em quaesquer outras aruores proprias para sofrer o enxerto.

Quanto ao primeiro modo, he conueniente que seja em lugar fechado, defendido, & abrigado dos ventos frios, & em terra cauada, mouida, & estercada com esterco meudo, & depois lançarlhe a semente na altura de hum dedo, de sorte que os graõs fejão bem cubertos.

O mesmo effeito produzem as amoras inteiras, postas hũa noyte de molho em agoa clara, & nam se meta, ou junto, ou entre as sementes, algũa outra planta.

Se a terra he humida, nam he necessario regalas, porque cria hũa codea que impede, que a plãta saya; & por conseruar a humidade da terra, he bom cubrir o lugar, aonde està a semente, cõ palha, ou jũco, & se se semear na Primauera, conuem defender o lugar de Pardais, ou outras quaesquer Aues.

Ha duas sezoens proprias para esta cultura, por semente.

Primeira: Abril, & Mayo.

Segunda Iulho, & Agosto.

E em Portugal se pode anticipar, de hum mez a primeira.

A sesaõ da Primauera, he a melhor; em hũa, & outra sesaõ, se he possiuel, se deue escolher no quarto crescente da Lua hum dia claro, & sereno; meterseham as sementes em distancia de quatro pés de hũa a outra, & depois de pegadas em dias quentes, se pôdem, & deuem regar com instrumentos de arame, que tenham os buracos meudos.

Nas terras frias, ha outras cautelas, contra giadas, & neues, que entre nòs saõ inuteis.

CAPITVLO III.

Modo de transplantar as amoreiras, nascidas por semente.

Depois de plantadas as amoras (como fica dito) he necessario mouer, & trabalhar a terra, pello menos tres vezes cada anno, nos mezes de Abril, Iunho, & Agosto, quando a terra esteja, humida ou pella chuua, ou pello orualho, mas de sorte, que este trabalho da terra, nam toque as raizes. Quando for necessario, se regaràõ sómente, porque a demasiada agoa, nam faça apodrecer as raizes.

Nos mezes de Março, & Abril seguintes, he necessario podar, & cortar cõ hum instrumento muito fino, os ramos que os troncos lançarem, o que se continuar à todos os annos, cortandose tambẽ o tronco no mais alto, meyo palmo sômente, & quando for crescẽdo, se lhe deixaràõ ao mais, tres ramos.

E como cõ este cuidado, & beneficio, chegarem à altura de seis pés, & à grossura de hum braço, se transplantaràõ nos lugares aonde se quizerem pôr, aduertindo quese se houuerem de transplantar em campo descuberto, & exposto a todo o genero de animaes, serà conueniente deixar crecer as aruores, a outo pés de alto.

Isto mesmo, se obseruarà com as aruores, que vierem de Prouincias distantes, & lugares estrãgeiros; se vierẽ pequenas, se meteràõ em lugares serrados, & defendidos, com distancias proporcionadas, & se terà o mesmo cuidado de as cultiuar.

E se vierem da grandeza de seis, ou outo pès, as transplantaràõ logo (como fica dito) fazendo, se puder ser, que cheguem nos mezes de Setẽbro, Outubro, & Nouembro, que he o tempo em que hũas, & outras se deuem transplãtar, ou ao menos nas Luas nouas de Março, & Abril.

Quando se transplantarem, se abriràõ cauas à proporçaõ das aruores, deixando as aruores mais na superficie, que no fundo da terra; mas he conueniente, que as cauas sejaõ mais altas, porque a agoa da chuua, que nellas entrar, farà pegar mais fortemente as raizes, & se lançaràõ nas cauas eruas arrancadas do campo, que vindo a apodrecer, lhe seruẽ de esterco; mas estas eruas, naõ tenhaõ raizes, & quaesquer outras immundicias, saõ proprias para o mesmo effeito.

Serà necessario regalas no mesmo tempo, que se metem na terra, & nos mezes seguintes de Iulho, & Agosto, para que peguem bem, & cercar o tronco da aruore de alguns paos, & espinhos, da altura de hum pé para as defender nos primeiros mezes, & se mouerà, & trabalharà a terra nos primeiros annos.

A mà, & a boa terra he igualmente fructifera para estas aruores, mas a seca, & ligeira mais propria para a bõdade da folha, ainda que na humida, nos valles, & junto a Ribeiras, saõ mayores as aruores, & crecem mais facilmente; & nisto tem as amoreiras a natureza das vinhas, junto das quaes vem com perfeiçaõ, sem serẽ danosas às vinhas.

Os lugares mais expostos ao Sol, saõ os melhores. Em toda a parte, onde se puzerem, se lhe darà distancia de hũas a outras, de duas, ou tres braças ao menos, porque naturalmente esta aruore he muito copada, & o tronco muito grosso; mas ainda que se ponhaõ mais junta, naõ deixaõ de crecer da mesma sorte.

CAPITVLO IV.

Modo de plantar as amoreiras por mergulho.

Avara, ou ramo da amoreira, que estiuer mais perto da terra, & se poder melhor dobrar, se meterà na terra o mais distante da aruore, que puder ser, sem se arrancar da aruore, nem quebrar, de sorte, que nam possa receber a substancia della, fazendo sahir à superficie da terra hum, ou dous botoens do mesmo ramo, que poderiaõ produzir outros ramos o anno seguinte, & junto do lugar onde se deixarem de fora, se meterà hũa estaca, a qual dentro da terra se atarà ao ramo com hum junco molhado; he necessario regar esta planta, como fica dito das sementes, até que lance raizes.

Esta sorte de planta por mergulho, se farà no outono, no vltimo quarto da Lua, ou na Primauera, a tempo que a aruore comece a mostrar, que quer florecer.

No anno seguinte, quando se entender, que o ramo mergulhado tem lançado raizes, se cortarà da aruore, & se deixarà no mesmo lugar, ou se passarà a outro, para depois se transplantar, cultiuada como fica dito, até seis, ou outo pés de alto, & se se deixar ficar no lugar do mergulho se cortarà sẽpre o ramo do tronco da aruore, no segundo anno, porque de outra sorte tirarà a si a substancia da aruore, & a enfraqueceiâ.

CAPITVLO V.

Modo de plantar as amoreiras por estaca.

As amoreiras nacem com a mesma facilidade por estaca, que por semente, & mergulho.

Quando a amoreira quizer florecer se cortarà hum ramo, que desse jâ dous annos flor, & fruto, & que haja ao menos outo annos, que tenha sahido da aruore, & sẽdo possiuel seja torto, & tenha duas pontas na parte por onde se cortar, para que metido na terra, o ramo saya direito, & o pé entre torto, & possa formar duas raizes.

Estes ramos se meterâõ na terra em regos, como se plantam as vinhas, hum pouco profundos, nam deixando fora da terra mais que dous, ou tres botoens do ramo.

He conueniente fender, & abrir a ponta deste ramo, que entra na terra, de tres, ou quatro polegadas, & meter entre as fenda algũs graõs de trigo, ou ceuada, porque vindo a humedecerse, conseruarâm fresco o tronco, & o farâõ pegar mais facilmente, conuem regalos, quando for necessario, até se entender que tem raizes, & crecendo he necessario podalos, & cultiualos, como fica dito, & diante se dirà.

CAPITVLO VI.

Modo de plantar as amoreiras por enxerto.

Onde ha amoreiras pretas, este he o mais facil meyo de hauer as brancas, enxertando nellas garfos das brancas, & aonde faltaõ, se podẽ enxertar em quaesquer outras aruores.

Os modos dos enxertos, sam os cõmuns, que se tem cõ as outras aruores, o tẽpo mais proprio he na Primauera, mas todo o tempo que serue para os enxertos das outras aruores, serue às amoreiras.

He necessario escolher o garfo das aruores mais velhas, & daquellas que dam a mais fermosa, & a melhor folha, escolhendo os garfos mais nouos, & que estaõ na aruore mais expostos ao meio dia, & mais nas extremidades da aruore, que no meyo, & que tenham a folha muito verde, redõda, & nam manchada.

CAPITVLO VII.

Como se deuem entreter as amoreiras.

Todas as precauçoens necessarias para tirar da amoreiras hum proueito annual, & ter grandes, & fermosas aruores, he de as limpar todos os annos das branchas, & ramos mal formados, & secos, cortar, & podar os ramos, que se separão muito das aruores, & desiguaes aos outros, a fim de fazer a aruore copada, & mais facil de colher a folha.

O primeiro anno, que as aruores seràõ transplantadas ao lugar, aonde haõ de ficar, se deuem cortar todos os ramos, & branchas, deixando sô cinco, ou seis, os melhor situados na aruore.

No anno seguinte, destes cinco ramos, se deixaraõ sò tres os melhores, & em situação triangular, & igual, a fim que a producçaõ da aruore seja igual, & formada sô de tres branchas principaes.

He bom cortar na estremidade do tronco principal, entre as tres branchas, tudo o que estiuer seco, & as branchas, que se cortarem, se forem grossas, a dous, & tres pés de longo da aruore, & tronco principal, a fim de que vindo a secar, naõ se cõmunique à aruore, & se cortaràõ de alto abaixo, por dar queda à agoa da chuua, que naõ penetre o interior; & se as branchas cortadas tiuerẽ no anno seguinte muitos ramos, se cortaràõ sem deixar a cada huma mais que dous, ou tres na forma, que se terà feito às branchas.

Se depois de dous annos, as folhas que as nouas aruores produzirem sahirem manchadas, & de pouca substancia, serâ bom cortar as extremidades dos ramos, & meter nelles enxertos de bõs garfos, & quanto mais garfos lhe enxertarem, serà melhor, mas este enxerto he mais vtil, que necessario.

Ha hũa especie de amoreiras; como terceiras, entra brancas, & negras, a qual tem a folha mais larga, que a das outras, differente em côr, mais tenra, & de melhor gosto aos bichos. As amoras saõ de hum pardo escuro, maiores que todas as outras.

As folhas destas amoreiras sam mais naturaes aos bichos, mas não a comem com tanto apetite, como as folhas das amoreiras brancas. Com tudo he conueniente ter algũas aruores desta terceira especie, para a dar aos bichos na vltima muda, porque o muito que comem da outra folha, lhe faz algũas vezes dano.

Além de que, a experiencia tem mostrado que fazem a seda mais forte, estas amoreiras se chamão cõmumente de Hespanha, posto que a planta he natural de Sicilia.

Onde ha copia de amoreiras, & mais folhas, do que he necessario para o alimento dos bichos, he cõueniente deixar de colher a folha de algũas aruores, ou colher de todas com moderação, porque ainda que o colher a folha, nam trata mal as aruores, no anno seguinte, as folhas saõ de melhor substancia, & vem em maior abũdancia.

He conueniente, deixar as aruores que tẽ melhor, & mais grossa a folha, & o fruto maior, & em grande quantidade, para dar aos bichos nos vltimos dias, por duas razoens.

Primeira porque sendo as folhas melhores, & mais substanciaes, se deue guardar para a vltima muda dos bichos, quando estão mais perto de formar a seda.

Segunda, porque tendo as amoreiras quantidade de amoras, & não lhe tirando logo a folha, chega o fruto a toda a perfeição, & serue para semente de aruores, & para ceuar as Aues; & muitas vezes sucede, que algũas aruores carregão tanto de fruto, que he inutil colher as folhas, por serem muito pequenas.

Como succede, que alguns annos, os bichos sahem, & se animão primeiro que as aruores tenham folha capaz para o seu sustento, se pode com industria apressar a folha, metendo esterco meudo dentro da raiz das aruores, & à roda do pé, na Lua noua de Feuereiro, & regando as com agoa morna em hum dia bom, & de Sol.

Das aruores nouas, & (se puder ser) tambem das velhas, se deue colher a folha, com tal ordẽ, que se nam quebrem os ramos grandes, & dos pequenos se nam devem cortar, os que estão na extremidade da vara, ou ramo grãde.

Os mais curiosos da cultura das aruores, fazem cortar as folhas pello pé, com hũa thesoura, por saluar os ramos, & poẽ lançois ao pé das aruores, para que caya sobre elles.

Mas quem tem muita criação de bichos, não pode guardar esta regra, pella muita folha de que necessita. Mas sempre he necessario, guardar o que fica dito sobre os ramos, pondo cuidado em não quebrar os grandes, & se se quebrão, conuem cortalos por baixo, donde saõ fendidos.

Quando a folha de toda a aruore he colhida, deue visitarse a aruore, & cortar tudo o que nella ha de ramos secos, & podar todos os ramos, que se separarem muito da aruore.

Quem quizer cortar as aruores, ou por velhas, ou por lhe parecer, que necessitão deste beneficio, o não deue fazer pello tronco, mas pellos ramos; porque pello tronco, he totalmente renouala, & perder a folha, por alguns annos, porque nem he boa para os bichos, os primeiros tres, ou quatro annos da aruore noua, nem se pode tirar sem dano da aruore.

O melhor modo de cortar para as melhorar, & o que se vza em Sicilia, he mandar subir à aruore hum homem com hũa fouce de pé longo, & cortar os ramos mais distantes, até onde pode alcançar, no mez de Março em hum bom dia, da Lua noua, ou por não perder a folha daquelle anno, nos mezes de Mayo, & Iunho, ao mesmo tempo, que a folha se vai colhendo.

Os homens practicos na Agricultura, fazem isto mesmo, não só às amoreiras, que he a aruore mais vtil, mais a toda a forte de aruores de fruto.

Se se cortarem os ramos cõ folha, conuem cortarlha logo, porque separada dos ramos, se pode guardar dous dias, & conseruada nelles, se perde em poucas horas, & se nam quizerem separala dos ramos, se conseruarà metendo os ramos em vazos de agoa.

Não conuem colher as folhas, quando choue, nem logo depois de chouer, porque tem mostrado a experiẽcia, que colhidas, ou cortadas com agoa, he de grande prejuizo às aruores.

Por euitar este inconueniente, conuem ter folha de resto em tẽpo chuuoso, ou que promete chuua, & guardala em lugares frescos, mas não tão humidos, que se humedeça a folha, porque humida, he danosa aos bichos, & quando està humida, he remedio darlhe ar, & mouela.

Emfim as amoreiras, como todas as outras aruores, amão estar em terra laurada, cauada, & estercada, & he vtil fazerlhe este beneficio de tẽpos em tempos: Guardandose esta regra na agricultura desta rica planta, se tirarà hum proueito inestimauel, se criaràm boas aruores, que duraràõ seculos, como experimentamos nas quese plantarão em França, no Delfinado, Langadoc, Prouença, & outras Prouincias, por ordem de Henrique IU. que hoje se cõseruão perfeitas com grande vtilidade dos proprietarios, os quaes tirão de tres modos o interesse dellas.

Primeiro, criando os bichos, & tirãdo a seda.

Segũdo, alugando as aruores, ou vendendo a folha, sogeitandose quem as aluga, ao dano considerauel, que por descuido, ou malicia se fizer nellas.

Terceiro, dando a folha, & caza para a criação dos bichos, & outra pessoa dando os graõs, & tomando o cuidado de os criar, & sustentar até formarem os casulos, & seda, cuja quantidade se separa, ficando a ametade para o senhor da caza, & aruores, & outra para quem deu os graõs, & criou os bichos.

CAPITVLO VLT.

Modo de colher a semente das aruores, para as semear.

As amoreiras brancas, produzem de ordinario grande quantidade de amoras, particularmente as brãcas, cujas amoras saõ pardas escuras, ou pretas.

As amoras de que se houuer de tirar a semente, se deuem colher maduras, & de aruores, de que se nam colhesse folha, porque o fruto das amoreiras de que se colheo a folha, não chega a inteira perfeição, como fica dito.

Todas as amoras de amoreira branca, que tem semente (porque nem todas a tem) saõ boas, mas as amoras pretas de amoreiras brancas, saõ as melhores.

As amoras, de que se houuer de guardar a semente, se deuem colher na forma seguinte.

Estenderse-hà hum lançol de pouco valor, ao pé da aruore (digo de pouco valor, porque as nodoas das amoras, saõ difficeis de tirar,) & abanarse-ha a amoreira sobre elle, o que baste para que cayão as amoras maduras.

He conueniente, que sejão colhidas sobre hum lançol, porque cahindo no chão, se enchem de terra, & area, de que depois se não distingue a semente.

Colhidas do lançol, se passaràm a hum taboleiro, ou se poràõ sobre hũa meza estendidas, & em caza alta, & de sobrado, onde se deixaràõ cinco, ou seis dias para amadurecerem bem, mouendo as todos os dias para euitar a podridão.

Passados os seis dias, se meteràm em hum saco molhado, ou em huma peneira muito fina, & molhada, & se espremeràõ, & amassaràõ bem com as mãos, para separar as sementes das amoras, & depois se tomarà tudo o que fica no fundo do saco, ou na peneira, & se lançarà em hum alguidar cheo de agoa clara, no qual em breve espaço se distinguirà a semente, porque deceao fundo da agoa, & tudo o mais que fica das amoras, està nadando em cima.

Depois de colhida a semente, se estenderà sobre hũa toalha de linho, & se porâ hũa hora sómente ao Sol, donde depois de passada a hora se limparà de todo o pô, que tiuer, & se guardarà para se semear na sesão, & forma, que fica dito no Capitulo II. onde tambẽ se disse, que basta semear as amoras, que tenhão semente, colhidas por abano, & postas a amadurecer o tempo necessario.

Quem quizer escuzar este trabalho, pode mandar vir de Sicilia, & outros lugares de Italia, as sementes, ainda que ordinariamente não são boas, por duas razoẽs, ou por muito velhas, ou por serẽ colhidas sem cuidado, de amoras podres.

Mas he facil de conhecer, & separar a boa de mà semente, metendo-a em hum vazo de agoa, & a que depois de tres horas cahir no fundo do vazo, he a boa, & a que ficar em cima, se lançarà fora, como inutil.

Tudo o que fica dito das amoras de amoreiras brancas, se pode obrar com as amoras pretas, que se comem cõmumente.

De todas estas quatro sortes, se criaràõ amoreiras em grande cãtidade, em tempo breue, sem trabalho, nem considerauel despeza.

Para conclusaõ desta Primeira Parte, em que tratei do modo de plantar as amoreiras, aduirto que a cultiuação destas aruores, he, & foi sempre a mais geral, nobre, & vtil occupaçaõ dos homens.

Os antigos a começaraõ, & cõ ella se deuertiraõ no deserto os Anacoretas, como os mais Religiosos no principio de suas instituiçoens.

Das obras de S. Ieronimo colhemos, que entre-tinha nesta occupação os ocios dos estudos, & a encomendaua a hum de seus Discipulos, para que os frutos de que se sustentaua, fossem merecidos pello seu trabalho.

Todos os que seguirẽ este louuauel costume, & esta nobre occupação, tiraráõ della tres grãdes ventagens.

Primeira, a satisfaçaõ que teràõ de plantar as aruores, de as ver crecer, & de colher os frutos dellas, que nos sam mais saborosos quando sahem, como obras das nossas mãos.

Segunda, o interesse, & proueito, que resulta deste trabalho, porque he certo, & consta pella experiencia, que em dous campos de igual grandeza, & bondade, hum plantado de todas as aruores de que se pode tirar fruto, & proueito, & outro sô de amoreiras, o custo de cultiuar estas, he menor a ametade, & o proueito he quatro vezes maior.

Terceira, porque a cultiuaçam destas aruores, he vtil, nam sò a quem as plantou, mas a hum numero taõ grande de pessoas, como saõ as que obrão, & trabalhaõ nas sedas, desde a criação dos bichos até a tenda do Mercador.

E os vindouros viuiràõ agradecidos ao nosso trabalho, com a mesma razam, & justiça, com que nòs viuemos ao seu.

Cõmumente se desprezam no mundo, as plantas, & se descuidaõ os homens da cultura dellas, pella desconfiança, que tem, de lhe colher os frutos.

Deste erro, que justamẽte deueser condenado de todos, nos liura a consideração do que deuemos a nossos Auôs, que se tiueraõ, & seguiraõ aquella opiniaõ, nam lograramos hoje, o que elles com o seu trabalho, & com a sua cultura nos deixaram. Somos obrigados todos a cuidar na posteridade, os pays pello que deuẽ aos filhos, & todos pello que deuem à sociedade ciuil, & à terra em que nacéram.

Por que trabalhos passaram os antigos Portuguezes, no descobrimento de tantas Ilhas, Terras, & Reynos, de que hoje lograõ seus sucessores os frutos, & as riquezas?

Mais para nós, que para si, cultiuàraõ os primeiros descobridores as terras, que possuimos, & assim como, nôs abençoamos os seus trabalhos, & agradecemos o seu cuidado, assim os que vierem depois de nôs, teràm muito, que nos agradecer, em lhe deixarmos hũa vtilidade certa na terra, em que viuimos.

Digamos finalmente os louuores, & encomios, que dam os Authores a esta rica planta, a que chamão symbolo da prudencia, porque produz a folha, depois que passaõ as inclemencias do Inuerno, & no mesmo tempo, que os bichos (a cujo sustento a natureza a criou) começão a se animar, & sem produzir flor, produz mais fecunda que as outras, folha, & fruto.

A sua duraçam he tam grande, que se lhe nam sabe termo, em Italia, & em algũas Prouincias de França, ha amoreiras tam antigas, que se perdeo a memoria do tempo em que foram plantadas.

Os que escreuem as excellencias desta aruore, & dos bichos da seda, affirmão, que vieraõ das Prouincias Orientaes, em algũas das quaes, os bichos formão a seda nas campanhas, sem cuidado, & ajuda dos homens,[12] porque naquellas partes fauorece o Ceo esta criaçam com tam singular prouidencia, que nam choue no tempo, em que os bichos fazẽ nas aruores a seda.

Estes mesmos Authores escreuem, que ha cento, & dez annos, que foram trazidos a Grecia, & Italia, & na Prouincia de Prouança em França, como mais vesinha de Italia, ha cem annos, que se introduzio o vzo de criar os bichos; & as aruores, que se plantârão naquelle tempo, estão agora com toda a sua força, & vigor, saõ as mais fermosas, as mais lucratiuas, & as menos sogeitas ao rigor dos tempos.

Illustration from Instrvcçam sobre a cvltvra das amoreiras, & criaçaõ dos bichos da seda dirigida a conseruaçaõ, & augmento das manufacturas da seda, estabelecidas pelo... Principe Dom Pedro, Governador, e Regente dos Reinos de Portugal

NOTAS DE RODAPÉ:

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II. PARTE.

CONTEM O MODO DE criar os bichos, até tirar a seda.

CAPITVLO I.

Do lugar proprio para criar os bichos.

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Para fazer hũa copiosa criação de bichos de seda, se deue preparar hum lugar cõmodo, em que se alimentẽ sete semanas, que tem de vida, ao menos nos vltimos trinta dias, porque nos primeiros, se podem criar em lugares mais estreitos, & em quaesquer camaras, a que não fazem nenhum genero de dano, como não sejão sotaõs, ou lugares humidos, mas em camaras claras, & liures ao vento.

Conuem que as camaras, se for possiuel, tenhão janellas hũas defronte das outras, algũas ao meyo dia, porque nos dias calmosos entre o ar liuremente, mas tambem que tenhão vidraças, ou encerados porque nos dias tempestuosos, & frios estejaõ abrigados.

He necessario, que não haja nenhum mao cheiro, & he preciso cerrar todos os buracos de ratos, & impedir, que não entrem na camara, galinhas, frangos, ou pardais.

Na camara destinada a esta criação, se armaràm junto das paredes, partileiros da altura, que se quizer, segundo a criação que se faz, & nelles se meteràm taboleiros diuididos huns dos outros, meyo palmo, & huns sobre outros em distãcia de hum couado, & pello meyo da caza, se pode tambem armar, deixando espaço entre hũs, & outros, capaz de poder andar liuremẽte a pessoa, que tiuer cuidado delles, & para poder meter escadas para sobir aos taboleiros mais altos, a lhe meter folhas.

Os taboleiros, tenhão as bordas altas, para impedir, que os bichos nam cayam, & para maior preuẽçam, he conueniente que os taboleiros debaixo sejão maiores, que os primeiros, porque vindo a cahir os bichos do taboleiro alto, fiquem no baixo, & se nam percam.

Os partileiros, sobre que se ham de armar os taboleiros, em altura de quinze pés, podẽ ter seis ordẽs de taboleiros.

As pessoas que costumão fazer esta criação todos os annos, fazẽ por hũa sô vez a despeza destes partileiros.

He bom pôr sobre elles, papeis, assim para a conseruaçam, & limpeza delles, como para a facilidade, que com elles se tem em mudar os bichos, quando he necessario; muitos escuzão esta despeza a qual nam he considerauel, & toda a casta de papel serue a este effeito.

As pessoas pobres, a que falta a cõmodidade de caza separada, de partileiros, & taboleiros, fazem a criaçam sobre a mesma caza, como seja de taboado, dentro de arcas, cestos, alcofas, ou sobre taboas postas de parede a parede, sem outro cuidado mais, que de os guardar a todos os bichos, & passaros, que os comem.

A frequente entrada de gẽte nas cazas, o fogo, & o fumo não lhe fazem dano, o que lhe faz dano, he o grande estrondo de sinos, a vesinhança de officios mecanicos, como Ferradores, Ferreiros, & outros semelhantes, que lhe causaõ o mesmo dano, que os trouoens, pello que serà conueniente de os apartar, o mais que puder ser, destes estrondos, suposto que sendo nascidos entre elles, lhe naõ fazem dano.

CAPITVLO II.

Regras para conhecer, & escolher os melhores graõs, & fazer sahir os bichos.

Os melhores graõs, sam os que vem de Sicilia, do Leuante, & de Hespanha; sam pequenos, pardos escuros, & muito redondos, & para conhecer sesaõ mortos, ou falsificados, se quebrara hum entre as vnhas, & se lãçar bem de humor luzente, he sinal de bondade.

Os graõs de Piemonte, nam saõ tam bons, como os de Hespanha.

Os de Bolonha saõ iguaes na bondade, pello cuidado, que naquella Cidade se poem, em os tirar, como ordinario trato della.

Os de Messina saõ os que mais se estimaõ em Europa.

Em conhecer os graõs ha algũa difficuldade, porque a semente das borboletas, que se nam jũtarão com os machos, tem a mesma cor, o mesmo pezo, & quebrada lança a mesma humidade, & nam tem seruiço algum, como tambem a semente feita de borboletas, sahidas de casulos pequenos, cuja seda nam tem a bondade ordinaria.

Para euitar estes inconueniẽtes, he preciso, valerse de correspondencias fieis, nos lugares aonde se compram.

Os primeiros a enganàr, & ser enganados, sam os que fazẽ trato desta mercancia, porque comprão quantidades grandes; o mais seguro he, quando se encontram nouidades boasde bichos, ter cuidado de guardar as sementes, na forma, que se dirà no fim deste Tratado.

Nam he necessario guardar, senão a quãtidade, que se pode criar; para hũa onça de graõs, bastaràõ duas, ou tres amoreiras grandes, ou cinco, ou seis pequenas.

Posto que os graõs dos bichos da seda, se animão de si mesmos, logo que o calor da Primauera os aquenta, he conueniente cobrilos, por duas razoens.

Primeira, por anticipar a criação às calmas de Iunho, & antes que as amoras sejam maduras, porque a folha he mais difficil de colher, & as amoras lhe communicaõ demasiada humidade.

A segunda he, porque os bichos sayam hum mesmo tẽpo, o que he mais facil com calor artificial.

Para euitar este inconueniente, costumão em algũas partes, depois de os benzer nas Igrejas, metelos em bom vinho, o espaço de meyo quarto de hora, & depois lançalos sobre hum linho branco, & polos a enxugar ao Sol, se nam for muito ardente, & ao fogo em distancia proporcionada: o tempo conueniente, he a Lua noua de Abril, mas nas terras quentes, aõde a folha se anticipa, a regra principal he, quando as amoreiras tiuerem folhas capazes de se colherem.

Depois que os graõs estiuerem secos, se meteràõ em hũa caixa bẽ cerrada, & limpa, com algodam pellas extremidades, & em que sô caiba a quãtidade dos graõs, que se quizerem cobrir, & se porâ a caixa abrigada, & aonde haja fogo se for em terra, & tempo frio, & nella se meterà a caixa em hũ cubertor de papa, ou de pano, & estando desta sorte dous, ou tres dias, se verà que os bichos começão a se animar, & mouer sobreo algodaõ, o que visto, se meterà sobre a boceta, hũa folha de papel branco com buracos, por onde possaõ caber os bichos, & sobre ella folhas de amoreiras, até que os bichos subaõ, & se peguem nas folhas.

Tanto que as folhas estiuerem cubertas dos bichos, que naturalmente sobem, & se pegam nellas, se tiraràõ com as folhas, & se passaràm aos taboleiros, aonde se ha de continuar a criaçaõ delles.

Esta preuençam de fogo, & vinho, se escuza nas terras quentes, aonde basta a das caixas cubertas em cazas abrigadas.

CAPITVLO III.

Das mudas dos bichos, & como conuem tratalos no tempo dellas.

Os bichos mudão quatro vezes desde o nacimento, até formarẽ os casulos; em cada hũa destas mudas, dormem o espaço de tres, ou quatro dias, & saõ como immoueis, ou doentes, & não comem até mudar as pelles, o que se conhece, quando parecem mais brancos, & mais curtos do que erão.

Depois que mudão, comem outo dias, até tornar a segunda muda, & assim até a quarta, em que chegaõ a toda a sua grandeza, que he a grossura, como de hũa pena de pato, & o comprimento de duas polegadas.

Acabadas as mudas, nam ha regra a guardar, para os mudar de cama ou lhe dar de comer, porque hũa, & outra cousa se deue fazer sempre que tiuerem necessidade.

A ordem, he passalos dos taboleiros, em que estam, a outros taboleiros naõ muito juntos huns dos outros, & darlhes a comer folhas frescas, & limpas de todo o pô, colhidas ao Sol, porque nam tenham orualho, metendo sempre folhas nos lugares vazios, & junto aos bichos, por euitar que se nam juntem huns com os outros o que não he danoso nos primeiros dias.

O modo de os mudar dos taboleiros, he com as folhas, em que estão pegados, hum quarto de hora, depois que estão pegados nellas, & no mesmo tempo meter folhas frescas no lugar donde os tiram, para os bichos, que ficam, porque estas mudanças se fazem para lhe dar mais espaço, quando crecem.

Os mais curiosos tem agulhas grossas de prata, ou latam, para os hir mudando, em quanto ha perigo, de os mudar com os dedos.

Tres, ou quatro dias depois de animados, conuem mudalos, & que a caza nam esteja exposta a ventos frios; & nas terras frias, se fazem secar os taboleiros ao fogo, para lhe tirar a humidade, & depois de cinco, ou seis dias, os tornam a mudar.

Quando os bichos sam grandes, naõ ha perigo de os mudar, & tocar cõ os dedos, nẽ de os expor, & costumar ao ar, em bons dias.

As pessoas, que nam tem tempo & cõmodidade de mudar os bichos de lugar, & os separar antes que se mudem, he necessario separalos, & mudalos nas mudas, & obseruar com cuidado, quando sahem dellas, para os hir separando, & darlhe de comer logo, porque sahem com apetite, duas vezes no dia, quãdo sahem da primeira muda; quando da segunda, o mesmo; tres vezes no dia se lhe darà de comer, quando sahem da terceira muda, & quãdo da quarta, todas as vezes, que se virem as folhas pella maior parte comidas, porque lhe he danoso estarem sepaço considerauel sem comer, quando estão chegados ao tempo de subir, & para este tempo lhe guardaràm as amoreiras melhores, que tenhaõ as folhas mais fortes, porque lhe faz fazer a seda mais forte.

Deue obseruarse, que algumas amoreiras, antes do S Ioam, produzem segunda ordem de folhas, que sam muito tenras, & humidas, & naõ conuem dar destas aos bichos, porque a demasiada substancia, que lhes daõ, os faz entropecer, estando chegados a subir.

A melhor preuençam cõtra este dano, he começalos a criar com abundancia de boa folha, porque faràm a seda em seis semanas, ou quarenta & cinco dias.

CAPITVLO IV.

Modo de colher, & conseruar as folhas das amoreiras.

As folhas das amoreiras, se deuem colher depois do Sol secar o orualho, ou a agoa de chuua, em tempo chuuoso, porque aos bichos da seda, nenhũa cousa lhe faz maior dano, que folhas molhadas do orualho, ou da chuua.

A folha guardada doze, ou quinze horas, & até dous dias, he melhor para os bichos, do que se se lhe der logo, depois de tirada da aruore, & recen-colhida. E se não ouuer outra folha, que lhe dar, mais que a que se colher em tẽpo de chuua, melhor he fazelos jejuar, que darlhe folha molhada, & he preciso esperar, que se seque, & para este effeito, poràm a folha entre dous lançois, ou entre dous panos de linho, depois de secos ao lume, & os sacudiràm para fazer correr a agoa das folhas, que tambem por este modo se secaràm mais da depressa, com o vento que tomão nesta agitaçam; & depois de sacudidas as estenderàõ sobre camas, ou panos, para que acabem de se secar de todo.

Quãdo se vé, que tẽpo ameaça chuua, conuem fazer hũa boa prouisaõ de folha, para dous, ou tres dias, que he o tempo, que se pode guardar, se estiuer em lugar fresco, em que corra o ar, & he preciso mouela muitas vezes no dia, porque as folhas amontoadas hũas sobre as outras, se esquentaõ, & ficam humidas, & molhadas, como as que se colhem com orvalho, ou chuua, & porque esta sua humidade faz muito mal aos bichos nam podem servir, senam depois de enxutas; entre tanto, se os bichos necessitarem de folha, se lhe reuolueràm as camas, & elles acharàm que roer nas folhas, que tem debaixo de si.

A folha das aruores situadas em lugares humidos, & sombrios, aonde nam chegam os rayos do Sol, faz mal aos bichos, como tambem as folhas amarellas, ou manchadas de pardo escuro, como lentilhas; & naõ saõ menos danosos aos bichos, os renouos, que brotaõ do tronco da amoreira, ou dos ramos mais grossos do mesmo anno.

Conuem, que os que colhem a folha, tenhaõ as maõs limpas, que nam cheirem a cebollas, nẽ alhos, que antes de a hir colher nam tomem tabaco de fumo, & que naõ quebrem os ramos, quando a colhem.

Naõ colheràõ as folhas, às mãos cheas, mas folha por folha (se for possiuel,) porque assim conuem para as amoreiras, & para os bichos; para as amoreiras, porque nam se arrancarâm os renouos do anno; & para os bichos, porque as folhas se colherám inteiras, & nam tomaràm o mao sabor dos ramos, com que se roção, quando se apanhão com violencia.

Em conclusaõ, poràõ as folhas em sacos, ou em cestos muito limpos, & nam as apertaràm muito, porque apertadas se quebraõ facilmente, & em menos de meya hora se esquentam, & ficam molhadas, como se foraõ tomadas da aruore, em tempo de chuva, ou com orvalho.

CAPITVLO V.

Das doenças dos bichos da seda, & dos remedios, que se lhe podem aplicar.

Os bichos estam sogeitos a dous generos de doenças, hũas naturaes, & outras accidentaes.

As naturaes, saõ as quatro mudas, que fazem até o tempo, em que começaõ a fazera seda; em cada muda, deixam a pelle, estam tres, ou quatro dias sem comer, ficam sem mouimento, & como adormecidos, & se apartaõ huns dos outros, quanto podem; & estas mudas, ainda que naturaes, sam causa de algũa quebra nos bichos.

As suas doenças accidentaes saõ causadas do rigor dos tempos; da mà calidade da folha; da pouco sadia situaçaõ do lugar, em que se criaõ; do mao trato, que se lhe dà; & do mao cheiro, que os offende.

Em quanto ao rigor do tempo, a calma lhe faz mais mal, que o frio.

Quando se leuanta algum vento frio, & desabrido, conuem ter a caza bem fechada, & no meyo della alguns fogareiros, com brazas acezas, & naõ caruoens, & cerrar todas as portas, & janellas por onde pode entrar o vento.

Ao excesso da calma, se remedearà com abrir todas as portas, & janellas, para os refrescar, & cõ lhe mudar muitas vezes as camas, porque lhe causaõ muito calor.

Se tal-vez deixarem de comer, ou se as folhas, que se lhe deram de hum pasto a outro, naõ forem comidas, não se lhe deue dar outras, & bom serà mudalos do taboleiro, ou partileiro em que estam, & darlhe nouas folhas, & não lhe pór outras, até que não sejão bem comidas.

E se não estiuerem em estado, que se possa bolir nelles, como quando estão na muda, em que não comem, por adormecidos, ou doentes, pouca folha se lhe deue dar, ou nenhũa, até naõ acabarem de roer a que se lhe deu, & bom he deixalos neste estado, sem lhe fazer mouimento algum, até que elles mesmos acordẽ do letargo, & madorna, em que estão.

Se os bichos não medrarem, & se muitos delles morrerem, bom ser à mudar lhe as camas, & perfumar os partileiros, & se ouuer lugar, melhor serà, mudalos para outra caza, & com particular cuidado, hir sẽpre apartando os doẽtes, darlhe a melhor folha, mas pouca, & mais a meudo, do que se costumaua, para os espertar, & naõ lhe dar folha, se não tiuerem comido a que tem debaixo de si, perfumalos cõ encenso, beijuim, & outros cheiros, & heruas cheirosas do campo, ou com o fumo de toucinho magro, presuntos, & chouriços fritos, ou postos sobre as brazas.

Tambem os perfumaràm pondo no lume hum ferro, & hum calhao, & apagando-o com vinho, ou vinagre, ou maluasia: Estes fumos, & vapores, despertam, alegrão, & sarão aos bichos.

Por esta mesma razam, bom serà borrifar algũas vezes a caza, em que os bichos estiuerem, as paredes, & os taboleiros, com vinho, ou vinagre, & esfregar tudo com eruas, & folhas de aruores, de bõ cheiro, como funcho, alecrim, louro, & outras semelhãtes, principalmente se estiuerem doentes, & se morrerem muitos, porque de outra sorte, estes cheiros seriam inuteis, & poderiam prejudicar, por serem fortes.

O bafo, dos que tiuerem comido alhos, cebollas, ou porros, ou dos que mastigam, & tomão tabaco de fumo, he danoso aos bichos, quãdo estão saõs, & muito mais, quãdo estão doentes, & por isso estes taes nam os tocaràm, nem bolirâm com as folhas, nem quem andar com sal.

As moças, & mulheres, que andarem com suas menstruas purgaçoens, nam boliràm nos bichos, nem entraràm nas cazas, em que estiuerem, em quanto lhe durar este achaque, porque isto os mata.

He necessario que nas cazas, em que esta criação se fizer, haja muita quietação, & que seja em parte donde não se oução de perto tiros de armas de fogo, nem sons de sinos, tambores, ou trombetas, & sobre tudo não se dem pancadas grandes na caza donde estiuerem, deixando cahir algũa cousa de pezo, arrastrando bofetes, & cadeiras, ou outras cousas, que abalaõ os sobrados, porque qualquer destes estrondos, lhes causa doenças nas mudas.

Em quanto os bichos começarem a fiar, & tecer a sua seda & a formar o seu casulo, naõ façaõ bolir os estrados, ou partileiros, em que estiuerem por ser este o tẽpo da força do seu trabalho, em que começaõ a encolher o corpo, & as pernas, & qualquer mouimẽto, que lhe occasionarẽ, lhe faz quebrar o fio da seda, com que tecẽ o casulo, & depois andaõ buscando o fio em quãto o naõ achaõ, passa o tempo de tecer, & se reduzem â figura de hũa faua, & a maior parte rebentaõ nos casulos, que depois ficaõ molles, & naõ daõ a seda, que hauiaõ de dar, se naõ desinquietàraõ os bichos.

Das grandes chuuas com trouoens, que sobreuem, quando os bichos saõ crecidos, se lhe origina a maior parte das doenças, das quaes os poderà liurar o cuidado, que se terà delles.

As chuuas, sô lhe saõ danosas, pella grande humidade, que lhes causa ou pella difficuldade de ter boa folha.

Esta humidade se pode remediar cõ fogareiros de brazas acezas, & nam de caruoens, como fica declarado, & as folhas se poderàõ secar na forma, que tenho dito.

Pello que toca aos trouoens, em algum modo se pode euitar o dano, que fazem aos bichos, perfumando os com o cheiro de talhadas de presumto, ou chouriço fritos, ou postos sobre as brazas, & fazendo entrar na caza, em que se criaõ, muitas pessoas, que farâm algum leue rumor, & poderàm reuoluer os bichos, em quanto durarem os trouoens, isto os aliuia muito, & o estrondo dos trouoens nam os apanha com tam grande sobresalto.

Sinaes das doenças, são quando se fazẽ amarellos, quando inchaõ, quando sam luzidios, ou quando tem nodoas, como de pisaduras, & quando se achão molhados por baixo com humidade amarella, & he necessario separar os doentes dos saõs, & logo lançar fora os que se acharem com esta humidade, a estes bichos, chama o vulgo, Porcas; tem as pernas mui inchadas, & negras nas estremidades, & as nodoas do corpo auultam mais, & sam differentes das dos outros bichos, & hũ dia, ou dous, antes que este humor delles distille, sam muito molles da barriga, & das pernas, & suposto que se lhe pode dar algum aliuio, apartando os dos mais, antes que a inchação seja grande, & vzãdo dos remedios acima declarados, porque assim escapariam alguns; mais acertado he deitalos às gallinhas, do que gastar o tempo em os currar, borrifando os, & passando os pello vinagre, ou por outras agoas que os Authores apontão; & em todo o cazo, he absolutamente preciso, separalos dos saõs, antes que a agoa, que distillam, lhes saya da barriga, para que os mais se nam molhem, & que as folhas, a que a agoa chegar, nam tomem o mao gosto daquella humidade, que he todo o mal, que pode fazer aos bichos, por quanto esta enfermidade nam se communica, porque nam he contagiosa.

Tambem se deuem pôr de parte, os que de ordinario andão pellas bordas dos taboleiros, ainda que nam estejaõ em termos de fazer muda porque a penas podem chegar à quarta muda sem rebentarem por grande cuidado, que se tenha delles, & a causa porque chegam a viuer tanto, he o muito ar, que tomaõ, andando pellas estremidades dos taboleiros.

Eu para mim entẽdo, que a doença dos bichos, he incurauel, & para elles serem de algum proueito, os deitaràõ às galinhas, & para suprir a falta destes bichos inuteis, he forçoso, preuenirse cõ alguma semente mais, para que a criaçam se faça com a desejada quantidade; meia onça de mais, em dezouto, ou vinte onças, bastarà.

Os que nunca criàram bichos, se poderàõ facilmente enganar, imaginando que alguns bichos, que naturalmente sam pardos, & escuros, tem a mesma doença, que os a que chamão porcas, mas esta casta de bichos, he a melhor de todas, & ha muitos delles nos graõs, que vem de Hespanha.

Quando perfumarẽ os bichos, tomaràõ sentido, que entre os perfumes, nam haja certas eruas, sementes, & cascas, que fazem hum cheiro muito danoso aos bichos, como faz o fumo de couros queimados, de sedas de porco, cabelos, & pelos de outros animaes, porque tudo isto, para os bichos, he peçonha.

Passo em silencio muitas outras cousas venenosas para os bichos, para nam dar noticias de hũ mal, que os mal intencionados poderàõ fazer, em dano dos que fazem esta criaçam, porque he tam grande a malicia de alguns, que de proposito vam borrifar de noite as folhas nas mesmas amoreiras, com certas agoas, que empeçonhentão os bichos & vem a ser esta malicia tam refinada, como a dos que vendem as sementes assadas no forno, ou lauadas cõ agoa feruente, com a qual misturão algũa boa para que se entenda, que se nam sahe toda à luz, he falta dos que fazem a criação, & nam dos que vendem a semente.

Isto pratica a gente de hũ Reyno para outro, & isto muitas vezes se experimentou na semente, que se mandou para França, sô a fim de que naquelle Reyno nam houuesse abundancia de sedas, & forçosamente se seruissem das das outras Naçoens.

Por isso ensinarei no seguinte Capitulo, o modo com que neste Reyno poderà hauer daqui em diante, tão boa semente, como nos Reynos estrangeiros, para que possamos escuzar a sua, & juntamente as sedas, que nos vem de fora.

CAPITVLO VI.

Segredo para fazer nascer muitos bichos da seda, sem semente, que daràm excellẽtes graõs com abũdancia.

Nas terràs, em que nam ha semente algũa dos bichos da seda, suprirà a Arte esta falta, com hũa prodigiosa metamorphosi, de que fallão muitos Authores, & que de ordinario se experimenta em muitas partes do Oriente.

No tempo da Primauera, quinze dias depois de começar a sahir a folha das amoreiras, tomaràm hũa vacca prenhe, & antes d’ella parir, vinte dias arreo, a sustentaràm com folhas de amoreira, nam lhe dando erua, nem feno, nem algum outro genero de alimento, nem tam pouco lhe daràm de beber, & depois de nascida a vitella, continuaràm outros outo dias, dar à vacca folhas de amoreira.

Depois disto, mataràm a vitella no tempo em que estiuer farta do leite da mãy, & a cortaràm em pedaços, até as patas dos pés, & das mãos, que deitaràm fora, & não tiraràm nada das mais partes do corpo, mas ajuntaràm tudo, a carne, o sangue, os ossos, a pelle; & as tripas, em hũa gamela de pao, & a porâm no mais alto sobrado da caza, para se nam sinta o fedor.

Toda esta mestura de carnes, ossos, & sangue, se corromperà, & desta corrupção naceràm hũs bichinhos, que se recolheràm com folhas de amoreira, em que naturalmente se pegão, & passados aos taboleiros, se criaràm na mesma forma, que os outros, até fazerem os seus casulos, dos quaes sahirâm borboletas, que ajuntandose, poràm graõs muito melhores, que os dos outros bichos.

Mas porque esta semente perde com o tẽpo a sua virtude, he opinião de alguns, que só pose seruir outo, ou dez annos, no cabo dos quaes, serà preciso renouar esta mesma producção, ou transformação cõ o sangue, carne, & ossos da vitella, como fica declarado.

Esta experiencia se pode fazer com muita facilidade, & cõ pouca despeza, & serà de grànde vtilidade, para os que a fizerem.

O insigne Poeta Ieronimo Vida, Cremonẽse, Bispo de Alba descreue esta marauilhosa obra da arte, & da natureza, no seu segundo Liuro de Bombice.

Eis aqui os versos do Author,[13] para satisfação dos curiosos.

NOTAS DE RODAPÉ:

CAPITVLO VII.

Modo para fazer sobir, & tecer os bichos da seda.

O Fazer a sede, he tam natural aos bichos, que apenas sahem da semente, quando começam a deitar do estamago hum fiosinho de seda, & se bem repararmos, veremos as casquinhas da semente pegadas hũa com outra, com hũas sedinhas quasi imperceptiueis, & as folhas que se deixaõ sobre a semente, & o papel furado, para obrigar os bichos a sahir, tambem ficam pegadas pella tecidura dos raminhos da seda, que os bichos deixaram.

Por onde consta, que em quanto, viuem, sempre tem este fio de seda aparelhado para se pegarem, quãdo querem, porque ainda que depois de sobidos, se deixem cahir, sempre lhes fica a ponta da seda na boca, para tornarem a pegar, assim como fazem as aranhas.

De maneira, que tanto que chegar o tempo destinado para os bichos fazerem a seda, elles mesmos, em achando lugar proporcionado para se agasalharem, começaràõ a fazer o seu casulo, sem arte algũa, ou industria dos que tem cuidado de os criar.

Pouco mais, ou menos de doze dias depois da quarta muda, se achaõ em estado de dar principio à sua obra, o que se pode facilmẽte conhecer, por estes sinaes.

Primeiro, o corpo se lhe faz mais claro, & quasi transparente como hum Alambre, como se verà, tomando-os na mão, & pondo os à luz do Sol de dia, ou ao lume da candea de noite.

Segundo, os circulos, que tem à roda do corpo, passaõ de hũa côr verde, a hũa côr de ouro, em que se representa a seda, que elles tem no esta mago.

Terceiro, o bico da boca, se lhe faz mais agudo.

Quarto, andaõ de hũa parte, & outra, por meyo dos outros, sem se lhe dar de comer, & leuãtando a cabecinha, dão mostras de querer hir à lenha, & fiar a sua seda.

Primeiro que os bichos cheguẽ a esta madureza, & perfeição, he precizo ter nos partileiros as casinhas, ou cabanas armadas, com ramos dobrados, a modo de arco, os quaes seràõ de giesta, ou louro, vide, medronho, vime, feto, ou de outras plantas, ou heruas, que não tenhão humidade algũa nem espinhos, que possaõ offender os bichos, quando sobem, ou quando cahem.

Em cada casinha poràõ a quantidade dos bichos, que parecer cõforme à capacidade do lugar, & os estenderàõ sobre folhas de papel muito limpas, no plano da mesma casinha.

Desde entaõ começaràm a lhe dar pouco de comer, mas boas folhas, & muitas vezes, de dia, & de noite, & jà naõ teram mais o cuidado de os alimpar, nem de os mudar.

Mas sô lhe abriram as portas, & janellas nos dias de calma para os refrescar, & se se leuãtar algum vento frio, & desabrido, as tornaram a fechar para os defender das asperezas do tempo.

Tres dias depois, que os bichos tiuerem principiado o seu casulo, se a maior parte delles estiuer trabalhando na lenha, & se ficarem muito poucos no chaõ da casinha, tomaràõ estes poucos, guardandose de abalar as casinhas, os tirarâõ juntamente com suas camas, & com o papel, deixando as taboas limpas, & os poram em outra casinha vazia sobre outro papel nouo, & limpo, & lhe daram outras folhas frescas como d’antes.

Esta limpeza das casinhas tres, ou quatro dias, depois de sobir a maior parte dos bichos, he muito necessaria, porque a folha, que cõtinuamente se poem para sustento dos que ficaõ em baixo, faz as camas maiores, & o mao cheiro, que dellas sahe, offende os bichos.

Além de que sempre arrebentão alguns nas camas, cuja podridão exhala vapores mui danosos aos bichos, principalmẽte naquelle tempo, em que necessitam de ar fresco, & liure de toda a corrupção.

Em quanto aos bichos preguiçosos, que tardão em sobir, depois de passados a outra cabana, se lhe diminuirà o comer pello espaço de cinco, ou seis dias, & quando se encolherem, & se fizerem vermelhos, os porâm em papeliços, para os ajudar a fiar.

E se nam houuer tempo, ou se nam tiuerem paciencia para fazer a quantidade de papeliços, que basta os porâm todos sobre hum montão de cauacos de vime, ou de outros pedacinhos, & fragmẽtos da lenha, de que se compuzeram as cabanas, aduertindo que nam serue guardar os casulos desta casta de bichos, para fazer semente, porque os que della sahirem, teràm a mesma falta, & quasi todos seràm curtos, & pequenos.

CAPITVLO VIII.

Do tempo, em que os casulos se hão de tirar da lenha.

No primeiro dia, que o bicho começa a fiar, forma a sua anafaya, que he como hũa tea de aranha, no segundo começa o seu casulo, & se cobre quasi todo de seda; no terceiro, não se vé jà, & nos seguintes, vai espessando a sua obra, sem nũca quebrar o fio, que he tão delgado, & juntamente tão comprido, que nam he hyperbole dizer, que com hum destes fios, se pode cingir hũa grande Cidade, porque tem quasi duas legoas de comprimento.

Suposto isto, depois de outo, ou dez dias, tiraràõ cõ destreza os casulos da lenha, & os guardaràõ em cestos, ou alcofas; daràõ algũ tẽpo mais aos vagarosos, mas tambem não esperaràõ, que os que foram mais diligentes na tecidura do seu casulo, o cheguem a furar, porque feria hũa grande perda, para os que os criarão.

Illustration from Instrvcçam sobre a cvltvra das amoreiras, & criaçaõ dos bichos da seda dirigida a conseruaçaõ, & augmento das manufacturas da seda, estabelecidas pelo... Principe Dom Pedro, Governador, e Regente dos Reinos de Portugal

III. PARTE.

CAPITVLO I.

Como se deuem aparelhar os casulos, para delles tirar a seda, & conserualos muito tempo, & impedir que as borboletas nam os furẽ.

Illustration from Instrvcçam sobre a cvltvra das amoreiras, & criaçaõ dos bichos da seda dirigida a conseruaçaõ, & augmento das manufacturas da seda, estabelecidas pelo... Principe Dom Pedro, Governador, e Regente dos Reinos de Portugal

Se os que criaram os bichos, por falta de fiandeiras, ou pella grande abũdancia da nouidade, nam tiuerem tempo, nem commodo, para tirar a seda dos casulos, quatro, ou cinco dias, depois que os casulos forẽ tirados dos ramos, poràm os casulos ao Sol, desde o meio dia até as quatro horas da tarde, tornando-os a pór, & tirar tres dias, sẽpre nas mesmas horas, & por este modo os ardores do Sol, affogaràm os bichos nos seus casulos.

Tambem poderàm pôr em parte separada dos casulos, algumas mantas, ao maior calor do Sol, quatro ou cinco horas ao menos, & nestas mesmas mantas, & cobertores muito quentes, recolherâm os casulos, & os cobriràm, porque com este calor abafadiço, os bichos morrerâm mais depressa.

Depois disto, os casulos se poderàõ guardar muito tempo, & ouue quem os guardou mais de cinco annos, ficando a seda tam boa, como a que fora tirada quinze dias, depois de acabada a criaçaõ; verdade he que nam parece tam lustrosa nas meadas, mas depois de tinta, & aparelhada, tem a mesma bõdade, & perfeiçaõ que a outra, porque no casulo, o bicho transformado em faua, se seca, & se mirra de maneira, que naõ tem, nem toma mais humidade algũa, com que possa fazer dano â seda.

Em tempo pois chuuoso, ou cheo de neuoas, se farâ com o calor do forno o que se hauia de fazer com o calor do Sol.

Porâm os casulos em cestos, alcofas, ou sacos velhos, dentro de hum forno mediocremente quẽte, como quando se tira o pão depois de cozido, & se quatro, ou cinco horas de Sol, eram precisas para fazer morrer os bichos, para este mesmo effeito, bastarà hum quarto de hora do calor do forno muito bem tapado, & chegando os ouuidos â boca do forno, ouuirâm estalar os bichos, & ranger nos seus casulos, como formigas lançadas em cinzas quentes, & logo immediatamente tirarâm os casulos do forno, & os enuoluerâm em cobertores muito quentes, & este calor os acabarâ de matar a todos, porque se ficarem os casulos ao ar descoberto, muitos dos bichos tornaram a viuer, & furaram os casulos.

Depois disto, estenderam os casulos sobre taboas ao ar, ou ao Sol, para os secar, & endurecer, porque alguns delles ficão fofos, em razam da humidade que lhe cõmunicaram os bichos, que estalãdo dentro delles por força do calor, deixaõ ir de si huma agoa, ou humor, com que fica embebida a seda, & assim postos ao Sol, ou ao Ar, os reuolueraõ muitas vezes cada dia, para que tornem a recuperar a sua primeira tesura.

Primeiro que metaõ os casulos no forno, tiraraõ o barbilho, que està a roda delles, como os dedos, sem lhe chegar com as vnhas, & para preseruar os casulos mais altos, do calor do forno, que os poderia torrar, poraõ hum panno de linho, ou folhas de papel sobre os cestos ou alcofas, & naõ amontoaraõ os cazulos em cantidade nem os apertaraõ nos cestos, paraque todos igualmente sintaõ os effeitos do calor, que he preciso, para a extinçaõ dos bichos.

CAPITVLO II.

Como se deuem escolher os casulos, & vnir as borboletas paraque ponham a semente.

Escolheraõ os casulos mais tesos, & mais corados, porque as borboletas, que delles sahem poem a melhor semente; naõ importa, de que cor sejaõ os casulos, com tanto que a cor seja viua & sobida, porem os de cor de verdemar saõ os melhores.

Para fazer huma onça de semẽte, ha mister cem pares de casulos, cem casulos de borboletas machos, & outros cem de borboletas femeas.

Quando apartarem os casulos para a semente aduirtiraõ, que em cada casulo o bicho se moua, solto, & desapegado, o que conheceraõ sacudindo brandamente o casulo, junto dos ouuidos, porque se o bicho naõ bolir, serà sinal, que està podre, & pegado à seda, & neste estado naõ serue para o nosso intento.

Os casulos dos machos, naõ tẽ a seda taõ liza, como a das femeas, saõ cumpridinhos, & agudos por ambas as extremidades do ouado.

Os casulos das femeas tem a seda mais lisa, & saõ mais redondos por huma parte, que por outra, como hum ouo de galinha, & a maior parte são rombos por ambas as partes.

Por estes sinaes, differenciarão os casulos huns dos outros, & porão de parte os dos machos, & das femeas em igual cantidade; & se acontecer, que sahião mais femeas que machos, naõ serà taõ grande a perda, como se succedérà o contrario, porque huma borboleta macho, pode seruir para duas borboletas femeas, suposto que não serà tão boa a semente, como a do que sò se vnir com huma.

Enfiaraõ todos os casulos com huma agulha, & não furarão de todo a seda, mas sò a superficie della, & farão como contas ou coroas de cem casulos cada huma, & as pendurarão, sem bolir mais nellas, esperãdo que os bichos sahião trãsformados em borboletas.

As femeas seram muito mais aluas, que os machos, & terão o ventre tres vezes maior.

Os machos se darão a conhecer logo em rompendo do casulo, porque baterào as azas, cõ muita pressa, & esperteza, o que as femeas não fazem.

Tomarão as borboletas pellas azas, ou pello corpo com os dedos cõ delicadeza, sem os apertar, & os porão sobre folhas de papel, ou sobre estamenhas velhas & outros panos, que não tem pelo, & talvez serâ necessario chegar as borboletas humas âs outras, & como as virem vnidas, as deixarão assim desde a manhaã, a té a noite, depois apartaram os machos, & os deitarão, & as femeas porão a semente.

Esta vnião das borboletas ha de durar noue ou dez horas, quer de dia, quer de noite, & não mais, porque a demaziada dilação desta vnião, prejudicaria à perfeição, & multiplicação da semente.

Farão muita diligencia, por não fazer arrebentar os grãos, quãdo os tirarem do pano, ou papel, em que as borboletas os lançarão, & para os tirar nam se valeram de ferros, ou outros instrumẽtos, que cortão, mas sò vzarão de alguns pedacinhos de ouro, ou prata adelgaçados, & sem talho, & se os vintens del Rey D. Manoel forão hum pouco mayores, seriaõ muito bonspara este effeito.

Quando os grãos sahẽ da borboleta, são brancos, no mesmo dia se fazem como verdes, & depois vermelhos, & pouco a pouco vão tomando huma cor de pardo escuro, que sempre conseruão, & esta vltima cor he o sinal da mais perfeita semente; alguns grãos se achão, que sempre ficão brancos, & estes não prestão para nada.

De ordinario cada borboleta femea lança trezentos grãos, hũas lanção mais, & outros menos, porque muitas não podem lancar todos os que tem dentro de si, & com elles morrem.

Guardaraõ os graõs de todo o genero de bichos, ratos, formigas, grillos, & osteraõ em lugares, a que naõ possaõ chegar galinhas, nem aues, porque saõ mais golosas dos grãos dos bichos da seda, do que dos mesmos bichos viuos.

Porão os graõs dentro de hũa arca ou contador, em caxas bem fechadas, & enuoluidas em panos de lãa ou linho, que naõ tenhaõ humidade, alguma; & as teraõ em lugares izẽtos dos rigores do calor, & do frio.

Por esta razão, não os guardaràm junto das cheminés, em que de ordinario se acende o lume, nem junto das janellas expostas âs inclemencias dos ares, nem em outros lugares frios, & humidos, mas temperados, porque o calor faz nacer os bichos antes do tẽpo, o frio congela os grãos, & a humidade os corrompe.

Com estas precauçoẽs nacerão os bichos a seu tempo, & se conseruarão os grãos de ãno em ãno, seraõ mais copiosas as nouidades, & se perpetuarà em huma casa esta rica semente.

Mas he precioso renouar a semente de tres em tres annos, misturandoa com outros graõs vindos de fora, ou com os que se colherem de huma vitella morta, na forma, que fica declarado no Capitulo 6. da 2. parte porque a semente renouada torna a cobrar a virtude, & actiuidade, que se lhe vai diminuindo com o tẽpo, que tudo gasta, & tudo acaba.

CAPITVLO III.

Da forma do forno, dobadoura, & outros instrumẽtos para a tirar a seda.

Em tirar a seda do casulo, & passala a meadas com huma roda, ou dobadoura, & hũ tacho de agoa quente, jà saõ as camponezas rusticas de Tras-os-montes, taõ peritas, que facilmente podem ensinar esta arte às mais prouincias do Reyno.

Mas porque semelhantes exercicios melhor se aprendem com a vista, & experiencia, do que cõ a liçaõ, & discurso, tratarei com breuidade esta materia, apontãdo só alguns particulares, para aliuiar o trabalho, & apurar a industria das fiandeiras.

O forno se ha de fazer em lugar abrigado da chuua, & do vento, & o tacho nam ha de ser muito profundo, nem muito largo.

A portinha, por onde sa ha de por a lenha no forno, se farà dez polegadas mais abaixo do fundo do tacho, & afastada delle hum palmo, paraque o fumo se perca & se consuma no forno ao redor do fundo do tacho.

Os cazulos se poraõ na agoa hum pouco antes, que comece a feruer, porque na agoa fria, a goma dos casulos se dissolue, & o mesmo succede, quando està feruendo.

Ajũtarà á fiandeira dez ou doze fios, cõforme a seda houuer de ser fina, ou forte; para a fitaria, a seda deue ser muito delgada, & outo fios bastaõ, mas para os panos, & veludos, se deuem ajuntar doze fios ao menos.

Fiarà com a mayor presteza que for possiuel, porque quanto menos estaõ os casulos na agoa, sahe a seda com mayor lustre, & em mayor cantidade.

CAP. VLTIMO.

Do Barbilho, & do modo de o aparelhar.

O Barbilho, propriamẽte falãdo, he a quella primeira seda, a que chamaõ anafaya, que os bichos fiaõ primeiro que comecem a tecer o seu casulo.

Porem de baixo desta palaura, barbilho, se entende toda a seda, que se tira com os dedos do redor dos casulos, quando se daõ a fiar, & juntamente todos os casulos furados pellos bichos, & todos os desperdiços da seda, que a fiãdeira naõ pode inteiramente tirar.

Este genero de seda, naõ pode ser fiado em meadas na dobadoura, mas he preciso cardalo, & depois tiralo na roda, cu na roca, & para este effeito, faraõ primeiro o que se segue.

Ajuntaraõ todas estas reliquias, & sobejos da seda, tiraraõ della os bichos que acharem, & a limparão de toda a immundicia, & depois a meterão em molho em agoa clara, dentro de hum alquidar, ou em qualquer outro vazo de barro, ou cobre, pelo espaço de tres, ou quarto dias; cada dia mudaràm a agoa para que nam se corrompa, & que o barbilho se faça mais aluo.

Nesta agoa os casulos se faràm mais moles, & se dissoluerà a goma, que os bichos communicàram aos casulos, quando os tecéram.

Depois poràm tudo junto a feruer dentro de hũa caldeira, em barella clara, passada por hum pano, & purgada das cinzas, com que foi feita.

Ferueràm os casulos meya hora, & depois de desfeita a goma, que os faz tam tesos, como pergaminho, os lauarâm com agoa clara, & as molheres os fiaràm com o fuso, ou com a roda, mas primeiro os faràm cardar, para os fiar com mais facilidade.

Com este fio de barbilho muito delgadamente fiado, se podem tecer panos tam finos, como os que se fazem com a seda, tirada na dobadoura, outros fazem delle retroz para cozer, dandolhe o lustre.

Finalmente para conclusam desta obra, digamos que nos bichos da seda, tudo he milagroso em quanto viuem, & tudo o que delles fica, depois de mortos, aproueita.

Illustration from Instrvcçam sobre a cvltvra das amoreiras, & criaçaõ dos bichos da seda dirigida a conseruaçaõ, & augmento das manufacturas da seda, estabelecidas pelo... Principe Dom Pedro, Governador, e Regente dos Reinos de Portugal
Illustration from Instrvcçam sobre a cvltvra das amoreiras, & criaçaõ dos bichos da seda dirigida a conseruaçaõ, & augmento das manufacturas da seda, estabelecidas pelo... Principe Dom Pedro, Governador, e Regente dos Reinos de Portugal

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