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Improvisos de Bocage

+SONETO XIII.+

Reading edition

Se as arduas Leis da sãa Filosofia Sacra Egíde não são contra a Desgraça, Então em que desdiz a humana Raça Das outras, que Razão não alumia?

Seus venenos distille a Tyrannia, Raivoso o Fado em raios se desfaça: Alma, que o lume da Razão repassa, Sórve tranquilla o néctar d'Alegria.

Quando a Ventura ao pensamento acóde, E não próva revezes o Desejo, Embates d'Afflição qualquer sacóde.

Aos males na constancia ser sobejo A poucos dado foi; Elmano o póde: Dá, que hum novo troféo gloríe o Téjo.

Moniz.

Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage, em resposta ao Soneto pag. 6., pelos mesmos coasoantes.

+SONETO XIV.+

Em teu Genio s'inflamma fogo intenso, Brilhante emanação d'um Deos, d'um Ente, Que as Estrellas, a Lua, o Sol ridente N'um dia fez surgir do Cháos denso:

Teu extasis t'eleva a Espaço immenso, Sentes impulsos, que o Mortal não sente; Eis lúcido clarão te abraza a mente, E o Ser encaras, por quem vivo, e penso.

Pasmado, absôrto no fulgor Divino, Repassado de atónito desmaio, Ant'o Solio do Eterno t'imagino:

Acordas, e do Canto em novo ensaio Dos Athêos aviltando o desatino, Louvas hum Deos, e tremes do seu raio.

Por J. A. Soares.

Ao senhor João Pedro Maneschi, por occasião do incendio em que perdeo todos os seus bens.

+SONETO XV.+

Nos puros Lares teus assoma, irado, Vulcano em ondas de indomavel chamma; Impetuoso cresce, horrivel brama: Parece accezo pela mão do Fado!

Em ferventes vorágens desmandado, Tudo afêa, ennegrece, abraza, inflamma, E em cinza inutil, súbito, derrama Teus merecidos bens, Manéschi honrado.

Mas tu dessa fatal, visivel Péste, Dessa, do Inferno imagem devorante, O damno, estrago, horror baldar pudéste.

Rico de huma Alma singular, constante, Tens, tens tudo: Amizade, que te préste, Dó, que te chóre, e Musa, que te cante.

A composião deste Soneto he anterior á minha molestia, mas a Gratidão me ordena pô-lo aqui.

A huma Donzella de estremada Belleza, de rara Virtude, e morta na flor dos annos.

+SONETO XVI.+

De Homens, e Numes suspirado Encanto, Lilia, innocente como virgem Rósa, Lilia, mais branda, Lilia, mais formósa Que a Nynfa ethérea, de puníceo manto:

Eu, e os Amores (que perdêrão tanto) Damos-te ás cinzas oblação mimósa: Curva goteje minha Dor saudósa Na molle offrenda, que requer meu pranto.

Em teu sagrado, perennal Retiro Disponho, ao som de lânguidas querélas, A rosa, o cravo, a túlipa, o suspiro.

Medrai no chão de Amor, florinhas béllas… Ah Lilia! Eu gózo o Ceo!… Lilia! Eu respiro Tua alma pura na fragrancia déllas!

Pedio-mo Pessôa, que virtuosamente a amava; e a mágoa do assumpto, apurada na tristeza da minha situação, deo hum Soneto, que talvez penhore os corações ternos.

Na gravissima enfermidade do Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage.

+SONETO XVII.+

Elmano! Elmano! Os que te ouvírão rindo, Penhas, e Montes, que teu Metro alçava, Clamar faz hoje a Dôr, que em pranto os lava, E, mais que todos, o Permesso, e Pindo.

Bosques, Paizagens, que teu verso lindo Em dobro enriquecêo, teu mal aggrava: Chorão-te Graças, Nynfas, que elle honrava, O niveo rosto com as mãos cobrindo.

Inda, Cysne do Téjo, inda teu Canto, Bem que rouco, s'escuta; e em desconsolo Já das Musas te chora o Côro santo.

Quando não ergas o mellífluo collo, Quem restará chorar-te? Hum Deos em pranto Se ha de então vêr, chorando o mesmo Apollo.

Por Thomaz Antonio dos Santos, e Silva.

Em resposta ao antecedente: Elmano a Tomino.

+SONETO XVIII.+

Vapor doirando, que me afuma os Lares, (Porque a Morte os bafeja de contino) Sôlto de ti relampago divino, [25] Milton de Lysia, alumiou meus ares.

O bem d'ouvir-te, o bem de me chorares Quasi que irmana desigual Destino: «Tu de assombros Cantor, (Fébo, ou Tomino) «Eu Ave, eu órgão de pavor, de azares.»

Níveo matiz d'auriferas arêas [26], Cysne qual Jove outr'ora [27], e que no alado Extasi aos Céos a melodia altêas!

Vóz, de que adóro o cântico sagrado, Vóz, que a dor minha, o Fado meu prantêas! Dá-me teus sons, e cantarei meu Fado. [28]

[25] Pelo estro, e pela cegueira.

[26] As do Téjo.

[27] Quando se tornou Cysne por Leda.

[28] Porque então a gloria compensa-me a fortuna.

Apesar do que digo a pag. 10, sempre tive occasião de honrar o meu insigne Compatriota.

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