LIVRO QUARTO A VIAGEM DA INDIA
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Dês o primeiro dia que com a vista a experiencia propria me acabei de desenganar do grande erro que até alli me trazia a fama das cousas da India... me nasceu logo um desejo ardentissimo de fazer por esta via um grande e extraordinario serviço.
RODRIGUES DA SILVEIRA, Reformação da milicia e governo do Estado da India oriental.
I D. Francisco d'Almeida
Em 13 de Setembro do anno de 500 chegou Cabral a Kalikodu. Não ia, como Vasco da Gama fôra—como descobridor; ia como embaixador, á frente de uma poderosa armada, para não ser tomado por pirata, mas sim pelo emissario, que era, do nobre monarcha portuguez, portador das suas cartas e propostas de alliança para o rajah de Kalikodu. Como tal foi effectivamente recebido, n'uma audiencia solemne. Os portuguezes, vestindo as suas melhores roupas, as suas armas mais bellas e polidas, pensavam impôr de ricos ao monarcha do Oriente; mas os representantes da pobre e forte Europa iam ficar deslumbrados com as magnificencias da India opulenta. O brilho das armaduras{pg. 224} era offuscado pelo rutilar da pedraria «cujas chammas impediam a vista». O rajah vinha em um palanquim ou andor trazido aos hombros pelos nobres, recostado sobre almofadas de seda, entre colchas lavradas de fio de ouro caíndo em pregas franjadas com borlas cravejadas de pedras preciosas, e pannos de carbaso de linho finissimo, cuja alvura sorria ao lado da vermelhidão sanguinea das sedas e brocados. Corria a compasso o andor coberto por um pallio de seda franjado de ouro, e dentro d'este duplo sacrario via-se o rajah negro rutilante de pedras preciosas. Cegava olhal-o. Aos lados do pallio iam pagens com leques de pennas de pavão agitando o ar, e á beira do palanquim os que levavam as insignias da soberania: a espada e a adaga, e estoque de ouro, a flor de liz symbolica, o gomil de agua, e finalmente a copa onde o rei cuspia o betele, cujo mascar faz os dentes côr de rosa e dá «muito bom bafo».
Em toda a volta e prolongando-se na cauda da procissão, charangas de musicos atroavam o ar com os seus tambores, com os tam-tams de prata e de ouro, suspensos por cordeis em bambus altos, com as trombetas enormes, umas rectas, outras curvas, levantadas para o ar, e que davam aos musicos o aspecto de elephantes com trombas douradas, cujos pavilhões se viam cravejados de rubis e esmeraldas. Vinha uma grande trompa de ouro levada por dois homens a cavallo! Os musicos, negros, iam nús, com manilhas nos braços e nas pernas, e á cinta um panno cobrindo as vergonhas. Nús iam os nayres e mais tropas do rajah, esgrimindo aos saltos em pyrrhicas singulares, parecendo atacados de furia, com as suas armas variadas: alfanges curvos para os golpes de cutilada, espadas largas e ponteagudas para as estocadas,{pg. 225} espadas triangulares com o vertice nos copos e na ponta a base espalmada, arcos e molhos de frechas de bambu delgados, lanças com anneis tilintantes e guizos, correndo, saltando e gritando em brados: «Cucuya!» como na hora das batalhas. Mais ao largo, o povo mudo, n'uma impassibilidade de orientaes, olhava.
A recepção do embaixador fez-se no çarame do rajah, á beira-mar, pavilhão de fórma oitavada erguido sobre esteios, todo rendado de varandas e lavores, marchetado de marfim, chapeado de prata e ouro em folhas, com pinaculos e corucheos que se desenhavam levemente no fundo azul do ceu—tão azul como o do mar onde fundeava a esquadra de Pedro Alvares Cabral. Na longa praia apinhavam-se as choças dos pescadores e galeotes e por entre ellas a multidão negra, espantada. Para o interior avistava-se a cidade, com os palacios e jardins do rei, dos nobres e dos ricos, docemente abrigados contra o sol inclemente pela sombra dos palmares e dos bosques de arvores aromaticas. No meio de um turbilhão de gritos de guerra, de sons de trombetas, o cortejo encaminhou-se para o palacio do rajah.
Ahi o Çamorim estava sentado sobre o véllo preto, insignia da realeza, no seu throno de prata com braços de ouro e as espaldas cravejadas de rubis, diamantes e esmeraldas, no meio da sua côrte, recostado em macias almofadas de seda, sobre fôfos tapetes da Persia, somnolento e immovel. Negro, nú, um véo de linho branco descia-lhe em pregas desde o umbigo até aos joelhos, com a ponta caída e n'ella enfiados anneis de ouro e rubis. Da extremidade pendia uma perola enorme. Os dedos, braços, estavam cobertos de anneis e manilhas. Das orelhas caíam arrecadas de ouro{pg. 226} cravejadas: á cintura trazia um cinto de ouro. Ao pescoço collares roliços, de ouro tambem; e duas voltas de um fio de perolas, grandes como avellans, que desciam até ao umbigo, suspendiam um enorme coração de ouro encastoando a mais bella, a maior esmeralda. Nos cabellos compridos e apanhados em nó no alto da cabeça havia perolas e pingentes, e a corôa era um deslumbramento. O thesouro inteiro de Kalikodu saíra á luz. Ao lado do rajah, em pé, viam-se os pagens nús com pannos de purpura, apresentando as espadas e adagas de copos de ouro cravejados, e junto ao soberano o da copa de ouro com a toalha a tiracollo, e o da boceta cravejada de brilhantes, com o sal delido em agua de rosas, onde molhava as folhas de betele, antes de as dar ao brahmane-mór, que detraz das espaldas do throno as passava religiosamente ao rajah, para mascar. Outros pagens tinham as toalhas, perfumadas de almiscar, com que nas occasiões devidas esfregavam os braços e as pernas núas do soberano reluzentes de manilhas cravejadas de rubis. Em torno havia castellos de alfaias: vasos e urnas de bronze, de prata, de ouro, e os lampadarios de metal amarello sempre accesos, segundo os ritos ordenavam. Os escrivães, de pé, tinham debaixo do braço as longas folhas de palmeira, seccas, onde se registravam as leis e tratados, em sulcos abertos pelos estyletes de ferro, que balouçavam entre os dedos. Em frente de Pedro Alvares Cabral, que, sentado, lia a carta de D. Manoel em arabigo, estava a credencia com os presentes que trazia: uma taça e duas massas de prata, quatro almofadas de brocado e dois pannos de Arraz, de um desenho primoroso. A côrte, de pé, escutava em torno. Mais longe agrupavam-se as mulheres do rajah, untadas de sandalo, e{pg. 227} núas da cintura para cima, com as cabeças coroadas de flôres, e collares de contas de ouro, e pedraria, manilhas grossas nas pernas, braceletes, e anneis fulgurantes. O rajah tinha mais de mil, entre amantes e varredeiras, escravas e embostadoras. Para além das columnatas de alabastro, nos pateos inundados de sol, viam-se os elephantes submissos, com os seus collares de campainhas e guizos, cobertos por xaireis de seda recamada de ouro; viam-se os pallios e leques do cortejo do soberano; os truões e os fakires, rebolando-se no chão, desgrenhados, a uivar gritos. Depois formavam alas, ou esgrimiam com tregeitos e cutiladas, os nayres, bucellarios do rajah, casta singular e polyandra de quem disse o poeta: «geraes são as mulheres porém sómente para os da geração de seus maridos.»[82] Mas o que sobretudo enchia de espanto e cubiça os portuguezes, envergonhados da sua pobreza, eram os rios luminosos da pedraria que, destacando-se do fundo acobreado das pelles indigenas, os cegavam: «As chammas que d'elles saíam impediam a vista!» Sobre o ouro de Sofala, eram os rubis do Pegú, os diamantes do Dekkan e de Narsinga, as saphiras de Simhala (Ceylão) e os seus topazios e turquezas, jacinthos e amethistas. Eram as bellas esmeraldas de Babylonia!
De parte a parte, comtudo, passada a recepção solemne, não se entendiam bem; e os escrivães em balde mostravam as longas folhas de palmeira escriptas, agitando os estyletes de ferro, a indicar as passagens das leis que julgavam oppôr-se ao que pensavam serem os pedidos dos portuguezes. Estes, em tregeitos, esforçavam-se por lhes{pg. 228} fazer perceber que queriam pôr alli feitorias, para trazerem por mar, para a Europa, as preciosidades da India; e não cessavam de affirmar quante el-rey de Portugal era poderoso e forte. Apesar de não ter tantos ouros nem pedrarias tinha o bronze das suas peças e o ferro das suas granadas! accrescentavam com decidida importancia. Os escrivães iam comprehendendo, desconfiados: e os portuguezes desconfiavam tambem dos sorrisos do rajah. Apesar d'isto, porém, foi concedido o que pediam; e Cabral fundou a primeira feitoria portugueza na India, em Kalikodu.
Logo os mouros vieram reclamar contra os intrusos que os despojavam: e favorecidos pelo indigena, caíram sobre a feitoria, trucidando os portuguezes que lá havia: cincoenta ao todo. Começava a historia da India. Seguiram-se logo as terriveis represalias do almirante. Tomou dez náus de mercadores arabes, passou á espada mais de 500 homens tripulantes, e, bombardeando a cidade, poz-lhe fogo. O incendio de Kalikodu, em 16 de dezembro do anno 1500, era a funebre aurora da historia oriental. Se as pedrarias tinham cegado os olhos dos portuguezes, agora as chammas cegavam os olhos afflictos do rajah, n'essa noute de cruel memoria.
Incendiada Kalikodu, o almirante foi com a esquadra entrar em Katchi (Cochim) um pouco ao sul, na mesma costa de Malabar, mas já para além dos dominios do rajah perfido de Kalikodu. O terror da recente façanha abriu-lhe os braços do pequeno soberano de Katchi; e fundou-se ahi, em boa paz e amizade, uma feitoria, tomando o almirante, entretanto, refens, para segurança. Triumphára; o brahmane rajah de Katchi, revoltára-se abertamente contra o Çamorim seu suzerano. No{pg. 229} meiado de janeiro (1501) partiu Cabral para Kananor: ahi carregou as suas náus de pimenta e canella, e regressou ao reino. Dos treze navios com que partira um anno antes, apenas tres o acompanhavam: cinco, desgarrados, voltaram por diversas vias, e outros cinco foram tragados pelo Mar Tenebroso. Esse inimigo terrivel, embora vencido, não estava domado, e a primeira expedição da India, este primeiro acto da tragedia de mais de um seculo, esboçava já todos os elementos da acção: assassinatos e incendios, morticinios e naufragios; a espada e a pimenta; as armas do guerreiro em uma das mãos, as balanças do mercador na outra; uma Carthago moderna—e, no fundo, a voragem aberta do mar, prompto a devorar homens, navios e riquezas; a fonte perenne do vicio, entornando caudaes de torpezas!
Da curta historia anterior da India resultavam dois factos: a inimisade perfida do rajah de Kalikodu, e a feitoria de Katchi. Castigar terrivelmente o primeiro e consolidar, fortificando-a, a ultima, foi o principal motivo da segunda armada, que em 1502 (fevereiro) partiu de Lisboa para o Oriente, sob o commando de Vasco da Gama, o capitão desapiedado, o fidalgo offendido nos brios pelo miseravel Çamorim.
A historia da viagem é um horror; e a desforra do capitão uma prova d'essa frieza sanguinaria, impassivel e cruel, que effectivamente existe no temperamento, quasi africano, do portuguez. Obliterada na sujeição ou na paz, rebentou sempre com o dominio e com a victoria, na guerra. Se taes sentimentos, vivos na alma do Gama, inspiram{pg. 230} os seus actos, a sua campanha não obedece a um plano, nem no seu rude espirito cabem as largas vistas do estadista. Se algumas levava, reduziam-se a espantar a India com a crueldade das suas façanhas, e a dominal-a com o terror dos seus morticinios. Grande sobre as ondas, em lucta com os temporaes, é a imagem da nação, cuja grandeza está na coragem e na teima com que soube vencer o Mar Tenebroso. Um terramoto agitou o mar da India quando o Gama pela segunda vez o trilhava; e o almirante, imagem da bravura épica do povo portuguez, acreditou e disse que até as proprias ondas tremiam com medo nosso—com medo d'elle!
Navegando porém no mar das Indias, com toda a artilheria carregada de metralha, para arrasar Kalikodu, encontra o Gama uma náu de mercadores arabes que ia para Meka ou voltava, nas romarias constantes á santa Kaaba. Além da tripulação, o navio trazia duzentos e quarenta homens passageiros, com suas mulheres e filhos. Era isto no dia 1 de outubro de 1502, «de que me lembrarei toda a minha vida!» escreve o piloto ainda horrorisado, ao recordar como a náu foi cobardemente incendiada, com todos os que continha, e que morreram desesperados no fogo ou no mar. Ia a bordo um flamengo, que assim refere a occorrencia: «Tomámos uma náu de Meka, onde iam a bordo 300 passageiros, entre elles mulheres e creanças; e depois do sacarmos mais de 12:000 ducados de dinheiro e pelo menos 10:000 de fazenda, fizemol-a saltar com os passageiros que continha, por meio de polvora, no 1.º de outubro.» Satisfeito de si, o capitão rumou para Kalikodu. Mandou intimar ao rajah a expulsão de todos os mouros, que eram cinco mil familias, das mais ricas da cidade: dizendo-lhe que qualquer creado{pg. 231} d'el-rey D. Manuel valia mais do que elle, Çamorim; e que seu amo tinha poder para fazer de cada palmeira um rei!—Como era de vêr, o rajah recusou; e o capitão que, ao fundear, apresára um numero consideravel de mercadores no porto, mandou cortar-lhes as orelhas e as mãos, e amontoados n'um barco, foram com a maré varar na praia, levando a resposta do Gama á recusa do afflicto principe.[83] Começou logo o bombardeio (2 de novembro). A cidade ardia outra vez; e á população em choros, respondiam as risadas ferozmente cynicas dos marinheiros, abrigados detraz das amuradas dos navios, junto ás peças que vomitavam fogo. Era uma inepcia, uma barbaridade e uma covardia; porque as curtas lanças e as settas dos indigenas não podiam medir-se com as granadas, despedidas de longe, de bordo das náus.{pg. 232} O Gama, cada vez mais satisfeito de si, foi-se a visitar o porto amigo de Katchi; e decidiu regressar ao reino por Quilua, d'onde trouxe o ouro com que o rei D. Manuel fez uma custodia para o seu templo dos Jeronymos. Vinha contente da brava desforra que tomára: o Çamorim estava punido!
Deixára o Gama na India uma parte da sua armada sob o commando de Vicente Sodré, personagem tão eminentemente celebre como o proprio almirante, cujo tio era. Fidalgo, este amava as façanhas brutaes e estrondosas; o outro queria mais á pirataria e ao roubo. Com effeito, assim que o Gama partiu da costa do Malabar, o de Kalikodu, invocando porventura direitos de suzerano sobre o visinho de Katchi, exigiu d'elle a expulsão dos portuguezes da feitoria. Mas os ataques repetidos ao poderoso rajah do Canará ensoberbeciam os seus vassallos, e fomentavam a decomposição do systema politico de Hindustan. O de Katchi resistiu, implorando o auxilio do Sodré, que pouco se lhe dava da feitoria, e a abandonou para ir ao corso das náus de Meka: era trabalho de mais proveito e menor risco piratear de parceria com a corôa portugueza nas costas de Adal e da Arabia, á embocadura do mar Vermelho.[84] O producto das náus de Meka pertencia, metade ao rei de Portugal, metade{pg. 233} ás tripulações: cabendo aos soldados uma parte, aos marinheiros duas, outras duas aos bombardeiros, quatro aos pilotos e outro tanto ao mestre. Pilhavam todos, de braço dado com a Corôa.
Vicente Sodré andava n'isto, ao mesmo tempo que Ruy Lourenço, por sua conta e risco, varria a costa de Zamgebar, caçava navios e cobrava tributos aos sultões.
O dominio portuguez adquiria logo de começo o caracter duplo que jámais perdeu, apesar de todas as tentativas posteriores de regularisação e de ordem. Era no mar uma anarchia de roubos, na terra uma serie de depredações sanguinarias. Vasco da Gama ensinára o modo de imperar com o fogo e o sangue; Sodré indicava o modo de ceifar no mar, pela abordagem, as náus de Meka. A pirataria e o saque foram os dois fundamentos do dominio portuguez, cujo nervo eram os canhões, cuja alma era a Pimenta.
Na artilheria, effectivamente, estava o segredo do poder dos invasores da India. Ao tempo em que o Gama voltava da sua segunda viagem, partia de Lisboa uma terceira esquadra (1503, abril) com Affonso de Albuquerque e Duarte Pacheco a bordo. Foram a Katchi acudir ao rajah, na sua guerra com o de Kalikodu, e construiram a primeira fortaleza na India. Albuquerque voltou ao reino; Pacheco ficou em Katchi com as tropas e navios preparados para o ataque. O heroe—porque este bateu-se como uma féra, no seu covil de Kambalaan, nobre, desinteressada e bravamente—desde logo disse que toda a festa havia de ser de artilheria. De que serviam com effeito as armas brancas e de arremeço, principal equipamento dos indigenas, que mal sabiam usar dos mosquetes e bombardas, perante o vomitar distante da metralha? Isto explica{pg. 234} a possibilidade da resistencia dos setenta homens de Pacheco, brandamente auxiliados pelos naturaes, contra os cincoenta mil que se dão ao exercito do Samudri-rajah de Kalikodu. As surriadas da mosquetaria auxiliavam decerto, mas a defeza decisiva consistia nas ondas de metralha, que n'um instante varriam as jangadas cobertas de gente que vinham por mar, e as columnas cerradas dos nayres armados de settas e lanças investindo por terra. Mas nem por si só a artilheria seria capaz de resistir á onda massiça das columnas inimigas, se a coragem, a rapidez fulminante das marchas, a ubiquidade—póde dizer-se assim—do primeiro heroe soldado do Oriente não animasse os poderosos meios de defeza. Quatro mezes durou o assedio de Katchi, que terminou pela derrota do Samudri-rajah.
A esquadra de Lopo Soares de Albergaria trouxe para o reino (1505) Duarte Pacheco: um homem simples que, por voltar carregado de feridas, mas leve de dinheiro e diamantes, foi parar á capitania de S. Jorge da Mina, para de lá vir em ferros por capitulos que d'elle deram; para jazer no carcere por muito tempo, e acabar esquecido e pobre. A sorte d'este heroe, diz Goes, «foi de calidade que se pode d'elle tirar exemplo para os homens se guardarem dos revezes dos reis e principes e da pouca lembrança que muitas vezes tem d'aquelles a que são em obrigação.» Pacheco voltou, pois, do Oriente, e na India ficou, por capitão do mar, Telles Barreto com a missão de correr as náus de Meca. A armada trazia para o reino, a bordo, Pacheco—um infeliz!—e uma carga abundante de especiarias e cousas ricas. A côrte, o rei, em Lisboa, quizeram muito mais ás segundas, do que ao primeiro.{pg. 235}
Entretanto a este devia D. Manuel a consolidação do seu imperio oriental, incipiente ainda. Pacheco demonstrára aos naturaes e aos arabes que os portuguezes não eram apenas piratas; e podiam fazer mais do que bombardear impunemente uma cidade desarmada, ou tomar náus de indefesos mercadores e romeiros. A façanha de Katchi fôra o baptismo de sangue do novo imperio; e o baluarte, de pé, atestava a força dos novos dominadores.
Mas já do principio, tambem, surgia a ultima das pragas da India: a inveja, a sizania, os odios, a maledicencia, com que, uns aos outros, os homens do ultramar se abocanhavam na côrte; e a inepcia do governo do rei, incapaz de pesar o valor das palavras, de medir o alcance das accusações, e de ser justo e sabio. A lisonja reinava, e sobre ella o favoritismo.
Cinco annos tinham decorrido depois da viagem de Cabral; havia já uma fortaleza em Katchi; estava batido o de Kalikodu; os navios portuguezes pirateavam em liberdade no mar da India; e numerosas náus de Meka iam sendo apresadas. Esboçava-se o futuro imperio, anarchicamente, mas já por fórma tão decisiva, que era mistér organisal-o, dar-lhe uma lei e uma direcção.
D. Francisco de Almeida foi o homem escolhido para governador da India, constituida em vice-reino. Das tres successivas phisionomias que o imperio portuguez no Oriente apresenta, é elle quem lhe imprime a primeira; dos tres vice-reis mais notaveis, é elle o primeiro tambem. Sem o heroismo antigo de Albuquerque, um Annibal;[85] sem a{pg. 236} sympathica pureza ingenua de um Castro, imitador fiel dos typos de Plutarcho; Francisco de Almeida, valente como soldado, habil como almirante, é sobretudo um estadista.
Pondo de parte o merecimento absoluto d'essa politica commercial, fecundo systema de explorar uma região inteira, fielmente executado mais tarde e com tamanho exito pelos hollandezes, o facto é que, para conseguir o fim desejado de roubar aos arabes o imperio, e a venezianos e arabes o commercio do Oriente, a politica de Francisco de Almeida, sem grandeza, é lucida, perspicaz e forte. O governo da India formou tres grandes homens: Castro, que se póde dizer um santo; Albuquerque, a quem melhor cabe o nome de heroe: Almeida, que é um sabio administrador, um feitor intelligente.
No seu caminho para a India, o primeiro viso-rei foi ajustar as contas antigas com o sultão de Mombas, e arrazou-lhe a cidade (1505, agosto 14.) Levava tambem ordens para construir fortalezas em Quilua, Kananor, Anjediva, além da de Katchi, que seria augmentada e reparada, depois dos damnos soffridos no anno anterior. Não iam então as ambições do governo, no reino, mais além d'esse pedaço da costa oriental da Africa, com as estações fronteiras na costa do Malabar. Entretanto no pensamento do viso-rei, maduro pela observação local e pela prova de uma primeira guerra maritima com que o impenitente rajah de Kalikodu o recebera, formulava-se já todo o seu plano de dominio. Não duvidou expol-o a D. Manuel na carta que lhe escreveu, e que é um dos documentos mais importantes da historia portugueza no Oriente.
Toda a nossa força seja no mar, dizia; desistamos de nos apropriar da terra. As tradições antigas{pg. 237} de conquista, o imperio sobre reinos tão distantes, não convém.[86] Destruamos estas gentes novas (os arabes, afghans, ethiopes, turkomanos) e assentemos as velhas e naturaes d'esta terra e costa: depois iremos mais longe. Com as nossas esquadras teremos seguro o mar e protegidos os indigenas, em cujo nome reinaremos de facto sobre a India; e se o que queremos são os productos d'ella, o nosso imperio maritimo assegurará o monopolio portuguez, contra o turco e o veneziano. Imponhamos pesados tributos, exageremos o preço das licenças (cartazes) para as náus dos mouros navegarem nos mares da India e isso as expulsará: as nossas armadas darão corso aos contrabandos. Não é mal decerto que tenhamos algumas fortalezas ao longo das costas, mas sómente para proteger as feitorias de um golpe de mão; porque a verdadeira segurança d'ellas estará na amisade dos rajahs indigenas, por nós collocados nos seus thronos, por nossas armadas apoiados e defendidos. Substituamo-nos, pura e simplesmente, ao turco; e abandonemos a idéa de conquistas, para não padecermos das molestias de Alexandre. O que até agora se tem feito é uma anarchia e um esboço apenas; um systema de matanças, de piratarias e desordens, a que é mistér pôr cobro.—A primeira condição de um imperio seguro é um pensamento definido, e tal era o do viso-rei.
As difficuldades appareciam-lhe tanto mais fortes, quanto «as guerras passadas eram com bestas, agora as temos com venezianos e turcos do Soldão». Com effeito, a antiga impunidade, de que os nossos gosavam á sombra da artilheria, desapparecia, desde que o veneziano e o do Egypto,{pg. 238} vendo em perigo o seu poder no Oriente, tinham lançado ao mar Vermelho uma esquadra poderosa, e tão bem artilhada como as nossas. A guerra tomava um caracter novo; e os portuguezes já não se encontravam apenas a braços com as armas brancas do indigena. Apparecera a polvora do lado dos inimigos; e a esta grave e nova phase das cousas veiu juntar-se, no animo do viso-rei, o resultado cruel da temeridade do filho, que em Tchala (Chaul) morrera batido pela esquadra egypcia: a armada de Mirocem, capitão-mór do Soldão do Gram Cairo e de Babylonia—como se dizia no tempo.
Confirmando a doutrina com o exemplo, esporeado pelo desejo de vingar a morte do filho,[87] e pela necessidade de destruir essa armada que{pg. 239} ameaçava matar á nascença o dominio portuguez na India.
... vem o pae com animo estupendo, Trazendo furia e magoa por antolhos.
Descendo pelo Mar Vermelho, a esquadra egypcia viera deitar ferro em Diu, na costa do Gujerât (Guzarate), impondo ao indio a obrigação de ser defendido. Entre mouros e portuguezes, que uns a outros disputavam a presa do commercio do Oriente, os rajahs, perseguidos pela protecção de ambos, não sabiam as mais das vezes por quem se decidir, incertos do lado para onde a victoria final penderia. Os vencedores foram sempre os fieis alliados de todos os fracos. Tal era a situação do indio de Diu. Não teve remedio senão acompanhar os rumes, e aprisionar os portuguezes da esquadra batida de Lourenço d'Almeida, guardando-os como penhor, e base de argumentos e desculpas para com o viso-rei—caso este vencesse com a nova armada em que vinha.
Effectivamente D. Francisco d'Almeida subia ao longo da costa, deixando apoz si o rasto de cinzas e sangue, que por toda a parte annunciava a passagem dos portuguezes. As faulhas do incendio de Deval (Dabul) e os lamentos da população dispersa{pg. 240} chegavam até á ria onde fundeavam as esquadras do egypcio e do de Diu, já engrossadas com as trezentas fustas que o de Kalikodu enviára tambem, para vêr se conseguia exterminar por uma vez os incommodos visitantes.
O egypcio, apesar de victorioso, temia o viso-rei; e fundeada a esquadra, dispozera que picassem as amarras os navios assim que fossem abalroados, dando á costa, e arrastando comsigo os portuguezes, sobre os quaes as lanchas e fustas dos indios cairiam então desapiedadamente. Mas o viso-rei, percebendo o ardil, mandou preparar as ancoras á pôpa, e os navios inimigos foram sosinhos varar na praia. Era 3 de fevereiro (1509) festa de S. Braz, pelo meio dia. A viração do mar soprava fresca pela pôpa dos navios portuguezes, quando a capitaina desfraldou o guião azul á prôa e, toda empavezada, no meio dos gritos de «Senhor Deus; misericordia! Santiago!» ao som das charangas de trombetas, soltou a primeira banda de artilheria. Um clamor immenso de vozes, de trompas, de tiros lhe respondeu, e a batalha generalisou-se com artilheria e arma branca, á abordagem. A confusão de gentes que alli combatiam era inextricavel; e os pavilhões da Cruz e do Crescente, erguidos nos mastros dos navios, abrigavam os sentimentos mais extravagantes, as crenças mais disparatadas. É que não se combatia, nem pela fé, nem pela patria: disputava-se com furor o saque da India; e a cubiça torna irmãos os homens de todas as fés, os filhos de todas as raças. Havia allemães e francezes por bombardeiros a bordo das náus portuguezas; havia indios, brahmanes e até mouros. Havia, do lado opposto, na confusão dos navios, desde o nubio até ao arabe, desde o ethiope até ao afghan; havia musulmanos de toda a casta, persas,{pg. 241} e rumes do Egypto—mercenarios de todas as partes, a que se dava este nome generico; havia ao lado da multidão dos infieis, o veneziano, renegado ou catholico, mas sobretudo mercador, que por ordem da sua republica vinha como artilheiro defender, no mar da India, os interesses solidarios dos seus socios no commercio oriental. Em volta da população confusa da esquadra dos rumes, apinhava-se em seus juncos a massa obscura dos indios, de Diu no Gujerât, de Kalikodu no Kanará.
Os navios portuguezes eram poucos, mas solidos, e ainda bem construidos e artilhados; as suas guarnições não excediam mil homens. Eram náus principalmente; mas tambem galés, bastardas e subtis, e fustas—os avisos d'essas antigas esquadras. As náus vomitavam fogo das amuradas. Nos castellos de pôpa e prôa fusilava a artilharia menor, baptisada com os nomes da monteria feodal, aguias, sacres e falcões, leões e serpes, pedreiras que arrojavam balas de granito, berços, camellos, colubrinas e esperas. Nos bailéos, de pôpa á prôa, os mosqueteiros despediam continuas surriadas de balas; e as xaretas de corda, presas nas amuradas, defendiam as náus das abordagens dos juncos e galeotas dos indios. A bordo das galés, o capitão sobre o chapiteu—Jesus! S. Thomé! Ave-Maria!—excitava os soldados que, de espada e rodella, se juntavam á prôa para a abordagem dos navios inimigos, ou da pôpa, a tiros, caçavam mouros. As enxarcias appareciam crivadas de settas. Da prôa tambem, o castello das galés vomitava fogo; e o ligeiro navio, caíndo perpendicularmente sobre o contrario, rasgava-lhe o ventre com o esporão, despedaçava-lhe os remos, crivava-o de balas. Sentados os forçados, nús e negros, acorrentados aos bancos, remavam agil e poderosamente; obedecendo{pg. 242} aos gritos do comitre que, de espada em punho, corria na coxia, entre as platéas dos bancos, distribuindo cutiladas. Sob a coberta, junto ao paiol defendido por colchas e cobertores escorrendo agua, o capitão-do-fogo distribuia a polvora, tirando-a ás gamellas dos caldeirões. E os bombardeiros, com os murrões e bota-fogos a bom resguardo, obedeciam á ordem de atirar. Os bailéus, d'onde a taifa dos soldados se lançava ás abordagens, defendiam com a mosqueteria os remeiros; e as velas estavam carregadas nos mastros, por causa dos incendios. O fogo punha um elemento novo n'este antigo modo de batalhar no mar.[88] No meio do enxame das galés e caravelas,[89] correndo á caça dos paráos fugitivos, os navios de vela, de typos novos, náus e galeões, urcas e carracas, eram como fortalezas fluctuantes, vomitando lume, estrondos, fumo, naufragios e morte.
Tingiram-se mais uma vez de vermelho as aguas do mar das Indias; morreram innumeros; boiavam feridos, pedindo misericordia e recebendo tiros: e{pg. 243} por fim, depois de todos os episodios e scenas proprias d'estas tragedias, a victoria foi pelo vice-rei que destruiu rumes e indios. Esta batalha naval tinha uma importancia superior ainda á das victorias de Duarte Pacheco em Katchi: porque os indios, meditando e observando, reconheciam que a phalange portugueza não era só invencivel para elles: era-o tambem para os rumes do Egypto, e para a artilharia de Veneza...
O de Diu, que estivera sempre indeciso, ao vêr o resultado da batalha, veiu pressuroso, desculpar-se, entregar logo os prisioneiros da empreza anterior. Guardára-os para os salvar das garras ferozes dos rumes, a quem desejava todo o mal, sem lhes ter podido resistir. Mandava-os carregados de presentes e parabens, por tão grande victoria, que o libertava da odiosa tyrannia dos rumes.
No chapiteu da sua náu, o almirante e vice-rei contemplava a scena de carnagem, agora muda, e os destroços que boiavam com os cadaveres no mar tinto em sangue; e estava glorioso e contente no meio dos seus, que contavam com verbosidade os episodios, o que tinham feito, como se tinham saído, cada qual de seu lance... quando chegaram á borda, n'uma almadia, os prisioneiros forros, gritando alegres, a pedir que os recebessem. O vice-rei lembrou-se então que lhe faltava o filho, e «se foi assentar na tolda com um lenço na mão, que não podia estancar as lagrimas que lhe corriam!» Acudiram todos a consolal-o; e elle, tomando-lhe os animos, ergueu-se, e disse-lhes enxugando os olhos, e tratando-os por filhos, que isso já passára e traspassára a sua alma, que se alegrassem todos agora com a boa vingança que Nosso Senhor por sua misericordia lhes dava!
E regressando, conformado com a sua sorte, ao{pg. 244} passar em frente de Kananor, salvou á terra para celebrar a victoria; mas, para acabar de vingar a morte do filho, mandou amarrar prisioneiros ás boccas das bombardas, e as cabeças e membros despedaçados dos infelizes iam cair na cidade como pelouros... A morte do filho transtornára o seu lucido espirito, mudando as suas opiniões antigas de estadista n'um furor carniceiro, attestado pela devastação da costa do Gujerât. Cedêra tambem ás intrigas e maledicencias dos capitães que tinham vindo de Hormuz, fugindo ao mando terrivel de Albuquerque, atemorisados pela loucura das suas emprezas tytanicas. Bulhavam, o governador que acabava o praso do governo, e Albuquerque já nomeado de Lisboa para lhe succeder; e á côrte haviam chegado noticias perfidas de excessos commettidos pelo sabio vice-rei. Em paga dos seus trabalhos esperava-o a masmorra de Duarte Pacheco; porém, na viagem para o reino, deu á costa da Cafraria, o foi morto pelos negros ás pedradas e zagunchadas.
O seu plano de governo, por ser sabio, era chimerico, pois que a India era uma loucura. Só homens de genio, como Albuquerque, poderiam tornar grande uma empreza condemnada; só, como Castro, um santo podia resalvar o brio portuguez da nodoa de uma ignominia formal.
Para que o nosso dominio fosse maritimo e mercantil apenas, era necessario que essas tradições estivessem na alma portugueza, como tinham estado, n'outras edades, na alma de Carthago, e como agora estavam na de Veneza. Em Portugal, o espirito patrio fôra formado pela religião e pela cavallaria; e exigir dos soldados d'Africa que não{pg. 245} desembarcassem dos navios, convencel-os de que o verdadeiro modo de conquistar fosse prescindir do governo, era querer uma cousa impossivel. Alargar, ao contrario, os dominios portuguezes, avassallar territorios, fazer conquistas, e crear um imperio á antiga, como o de Alexandre e o dos romanos, era o pensamento commum—naturalmente deduzido dos antecedentes militares da nação, e agora fomentado de um modo especial pela cultura classica, enlevo de todos os bons espiritos da Europa. A idéa de que Portugal era uma Roma preoccupava os reis e os escriptores, que se fatigavam a procurar origens e a indicar analogias, de certo verdadeiras. Albuquerque fez vivo em si um tal pensamento, e viu-se o Scipião d'essa Roma[90], ou antes o Alexandre da nova Grecia.
Além dos motivos intimos que tornavam inacceitavel a politica commercial e maritima do primeiro vice-rei da India, havia motivos mais praticos. Uma das suas justas exigencias era a da prohibição do commercio aos soldados, magistrados e capitães do Oriente. Com effeito, o dominio, tal como elle o concebia, não era um saque: era uma protecção armada a um commercio, franco por um lado, monopolio do Estado, ou apanagio da corôa, pelo outro. Os capitães e governadores seriam simultaneamente agentes commerciaes de S. A., excelso mercador da Pimenta. Isto exigia uma fleugma de que só os hollandezes foram capazes, e ainda assim á custa de salarios que supprimem as tentações.
Desde que o rei era o primeiro negociante, porque não seria o vice-rei o segundo, os capitães das fortalezas e das armadas os terceiros, os soldados{pg. 246} os derradeiros? Só isto era, evidentemente, logico; e, apesar de todas as confusões, quem bem observa, descobre sempre que a historia obedece á logica. Ninguem distinguia bem, na era de 500, entre a pessoa individual do rei e a pessoa abstracta ou symbolica do monarcha. Não se separavam Rei e Estado; e só com esta perspicacia moderna poderia convencer-se o rude soldado da India de que o commercio, bom para o rei, era mau para elle; de que uma virtude podia ser um vicio, por mudarem as condições. Além d'isto, os portuguezes lançavam-se, famintos, ao banquete do Oriente, como seculos antes os povos do norte, ao banquete da Gallia, da India, da Hespanha[91]. Ninguem seria capaz de lhes arrancar dos dentes essas carnes palpitantes, que devoravam com ancia; e eram inevitaveis as consequencias funestas, que D. Francisco d'Almeida previa sabiamente.
Fleugmatico e pontual no cumprimento dos seus deveres duplos de capitão e caixeiro, o vice-rei, ao mesmo tempo que expunha para Lisboa os seus planos de governo, mandava os seus relatorios commerciaes, como um correspondente ao seu patrão de Genova ou de Veneza. O vice-rei estudára como geographo o Oriente; e para fundamentar o seu plano de imperio maritimo dizia, com Barros, que a India «tem entradas e saídas de que seu commercio vive, e que são como o corpo animado, que, se lhe tiram a entrada e saída das cousas que o sustentam, não tem mais vida.» O principal estado consiste na navegação, escrevia o vice-rei; só com ella se governará no mar Vermelho e no golpho persico, essas duas correntes da{pg. 247} exportação da India; só com ella na peninsula de Malaka, que é a transição da India para o extremo Oriente; só com ella manteremos o privilegio da passagem do cabo da Boa-Esperança, caminho que descobrimos para a Europa. Albuquerque em Hormuz, em Goa, em Malaka, assentou na terra firme os limites do imperio que para o seu antecessor devia vogar fluctuante sobre as ondas.
Estadista e geographo, D. Francisco d'Almeida era ao mesmo tempo um mercador cuidadoso e até habil. Dava ao rei minuciosas informações dos generos, preços e pezos. «E o lacre que V. A. diz lhe mande, será maravilha haver-se, porque estas náus (portadoras de cartas) partem cedo, e as náus que o trazem do Pegú e Martamão (Martaban) veem tarde. Espero por uma boa somma d'elle, porque o tenho mandado trazer... E assi V. A. me manda que a pimenta vá limpa e secca, e que o pezo se faça com nossas balanças e pezos... e dá-se tal aviamento que, com duas balanças, té vespora pesaram mil quintaes. Se os navios não chegassem tão avariados, em vinte dias carregariam e partiriam. O baar de Cochim (Katchi) tem tres quintaes e trinta arrateis de pezo velho, e custa o quintal mil e quinhentos réis e meio.—Mandei noticiar com pregões que todos trouxessem pimenta, e que logo se lhes pagaria á vista: é o meio de bater os mouros, que são regatões e compram fiado. Acodem os gentios com pimenta, e levam o cobre muito alegres.—Quanto á pimenta e drogas que vão ao Levante, são de Malaca, Sumatra e Diu, onde nasce muita pimenta longa e redonda, e muito bem sei por onde passa e em que tempo: falta-me o principal.—O aljofar e perolas que me manda que lhe envie não os posso haver, que os ha em Ceylão e Carle (?); os sinabafos,{pg. 248} porcellanas e mais cousas de jaez são de mais longe. As escravas que quer, tomam-se depressa: que as gentias d'esta terra são pretas e mancebas do mundo, como chegam a dez annos.—Tem cobre aqui para cinco annos, vermelhão sem numero, chumbo e azougue, pannos de lan a apodrecer, escarlatas, espelhos, oculos, chapéus, e sellas ginetas, que é mui certa mercadoria para cá.» E continúa assim, misturando toda a especie de mercadoria, desde as escravas mancebas do mundo, até ás perolas e aljofar.—Porque não manda S. A. papel? Seria um excellente negocio.»
Eis ahi o motivo intimo, o principio fundamental, o cuidado superior do rei e dos seus governadores na India.[92] D. Manuel perdoava tudo, os crimes e os roubos, as carnificinas e as brutalidades, os incendios e as piratarias, com tanto que lhe mandassem o que elle sobretudo ambicionava: curiosidades, primores e riquezas para encher os seus paços de Lisboa, e deslumbrar o papa em Roma com a sua magnifica embaixada. «Manda pimenta e deita-te a dormir», dizia mais tarde, da côrte para a India, Tristão da Cunha, ao filho Nuno, governador. O saque do Oriente—este é o nome que melhor convém ao nosso dominio—ia ordenado de Lisboa.{pg. 249}
[82] V. Quadro das instit. primit., pp. 264-7.
[83] «Então mandou aos bateis que fossem roubar os pageres (barcos) que eram dezeseis e as duas náos, em que todos acharam arroz e muitas jarras de manteiga e muitos fardos de roupa. Então tudo isto recolheram aos navios e a gente toda das náos grandes, e mandou que recolhessem o arroz que quizessem, que tomaram quatro pageres, que vasaram, que não quizeram mais. Então o Capitão-mór mandou a toda a gente cortar as mãos e orelhas e narizes e tudo isto metter em um pager, em o qual mandou metter o frade tambem sem orelhas, nem narizes, nem mãos, que lhas mandou atar ao pescoço com uma ola (folha, carta) para el-rey em que lhe dizia que mandasse fazer caril para comer do que lhe levava o seu frade.
E a todos os negros, assim justiçados, mandou atar os pés, porque não tinham mãos para se desatarem, e porque se não desatassem com os dentes com páos lhes mandou dar n'elles que nas bocas lh'os metteram por dentro, e foram assim carregados uns sobre os outros embrulhados no sangue que d'elles corria e mandou sobre elles deitar esteiras e ola secca e lhe mandou dar as vélas para terra com o fogo posto, que eram mais de 800 mouros, e o pager do frade com todas as mãos e orelhas tambem á véla para terra sem fogo, com que foram logo ter a terra, onde acudiu muita gente a apagar o fogo e tirar os que acharam vivos com que fizeram seus grandes prantos.» Gaspar Correia, Lendas, I, p. 302.
[84] «... em que no mar tomaram náos de Cambaya e Calecut que iam para Meka, a que roubaram o melhor que acharam de que se carregaram os navios e caravellas quanto poderam e mormente roupas de muito preço e muitos mantimentos e mouros para dar ás bombas, e não se occuparam em carregar os navios de pimenta e drogas que levavam as náos de Calecut que a todas, umas e outras, poseram fogo e queimaram com toda a gente sem a nenhum darem vida, mas Vicente Sodré mandou que os Mouros que tinham tomado para a bomba todos os tornaram com os outros e todos forão mortos.» Gaspar Correia, Lendas, I, pp. 365-6.
[85] V. Hist. da republica romana, I, pp. 215-80.
[86] V. Hist. da republica romana, I, pp. 211 e segg.
[87] «O Viso rey estava assentado em uma janella que vinha sobre a praya com o Capitão e com outros fidalgos, e vendo o geito da caravella e o capitão d'ella d'arte que desembarcava, se tirou da janella e se assentou dentro em uma cadeira e poz o braço na cadeira e sobre a mão encostou a face direita e disse:
—Esta caravella me traz a nova que eu tenho no coração; pois que as náos de Cochim vieram sem meu filho, é que elle é morto.
Ao que o Camacho entrou com grande tristeza no rosto, o qual antes que fallasse, o Viso rey lhe fallou dizendo:
—Camacho, ainda que meu filho seja morto, porque não salvaste esta fortaleza: pois não é do pae do morto? Que meu filho não era mais que um só homem... Nem me fica outro.
O Camacho não lhe respondeu, mas poz os joelhos no chão e com muitas lagrimas disse:
—Senhor, Nossa Senhora perdeu a seu bento filho posto na Cruz entre dois ladrões, e vós perdestes o vosso filho pelejando com os turcos do Soldão.
O Viso rey com o rosto muy seguro lhe disse:
—Ora vos ide a descançar e mandae á caravella que faça sua costumada salva e eu mandarei na Egreja fazer signal pelo defunto e acodirá gente e lhe dirão paternosters pela alma, porque quem o frangão comeu hade comer o galo ou pagal-o.
Com o que se recolheu para uma ante-camara, onde assentado, o Capitão e fidalgos moveram pratica de sustancias consolatorias para abrandar tamanha dor como sentiam que o pae devia ter com a morte de tal filho. Ao que o Viso rey lhes foi á mão, dizendo:
—Eu não me posso escusar da dor que a carne me dá, como pae, de força da natureza, mas espero em Nosso Senhor que me ajudará por sua misericordia, e com a ajuda de meus amigos ma dará alegria n'esta dor que ora tenho, em que acabando a vida será para mim o mór descanço. Vão-se Vossas Mercês embora, que as palavras de conforto são das mulheres para suas amigas, quando pranteam seus filhos mortos em acontecimentos como ora foi d'este meu.
E lhes fazendo sua cortesia se recolheu á sua camara.» Gaspar Correia, Lendas, I, 775.
[88] V. quadros das batalhas navaes dos antigos, Hist. da republ. romana, I, pp. 193-8.
[89] «Não tém cestos de gavea (as caravelas) nem as vergas fazem angulos rectos com os mastros, mas pendem obliquas d'uma alça que é triangular, roça quasi pelas amuradas. As vergas que se amuram aos costados do navio são pela parte de baixo grossas como mastareus, e adelgaçam até ao cimo da vela. De vasos d'esta feição se servem na guerra maritima os portuguezes, pelo muito ligeiros que elles são, sendo-lhes mui maneiro apontar á prôa ou á pôpa o conto d'estas vergas, e ainda a meio costado do navio passalas da direita para a esquerda segundo lhes faz feição, ferrar o panno ou disferillo das vergas, a que o atam pelo cepo da entenna, com quem as velas abrem a base do angulo: e qual lhes sopra o vento, tal lhe apresentam o bojo da vela não tardios. Todo o vento lhe fas geito, de modo que com vento de ilharga bolinam em direitura, como se foram arrazadas em pôpa, e para ir o mesmo navio em senso contrario não tem mais que mudar o velame, o que muy prestes se prefaz.» Osorio, Vida e feitos d'el-rey D. Manuel (tr. F. M. do Nascimento) I, p. 193.
[90] V. Hist. da republ. romana, I, pp. 292 e segg.
[91] V. As raças humanas, I, pag. 358 e segg. e Hist. da civilisação iberica (3.ª ed.), pag. 34 e segg.
[92] V. Regime das riquezas, p. 90 e segg.
II Affonso de Albuquerque
«As cousas da India fazem grandes fumos!» costumava dizer o novo governador. Mas que fumos eram esses? Eram a vaidade e os erros de tantos pigmeus que o gigante via formigar activamente, encelleirar, e, depois de gordos e ricos, pavonearem-se na côrte, allegando serviços, com a basofia de quem tudo sabia das cousas do Oriente. Fumos, com effeito, eram todos esses para o governador, que aprendera nas suas primeiras viagens, e agora levava já bem definido o seu plano. Levava sem o saber os seus fumos tambem: porque em fumo se havia de tornar o imperio ephemero que construia na mente...
Quando em 1506 partira de Lisboa, o rei tinha-o mandado como subalterno, na armada de Tristão da Cunha; mas o genio do guerreiro não se reprimia com isso, nem estava decidido a esperar que o tempo lhe desse o mando absoluto, para pôr em pratica o seu plano gigantesco. Elle sabia demais que, no cháos da India, cada qual trabalhava por sua conta e risco; e que, n'esse vasto campo de batalha, as manobras não obedeciam ao mando de um general; iam ao acaso, segundo a audacia e o{pg. 250} genio dos capitães. De Lisboa a Zamgebar uma armada era um exercito; no mar da India o exercito fraccionava-se em batalhões independentes, e cada capitão era senhor de proseguir, conforme o seu plano, na vasta empreza de saquear o Oriente. O plano de Albuquerque não era o de um saque, era o de um imperio.
A esquadra de Tristão da Cunha foi de caminho, como introducção, arrasando, queimando e saqueando Juba (Oja) e Barava (Brava),[93] na costa, acima de Zamgebar, dirigindo-se a Sokotra—essa ilha que, junto á ponta extrema da Africa, pelo norte, o cabo de Jar-Hafun (Guardafui), era a vedeta sobre a entrada do mar Vermelho, e a estação onde os navios de corso ás náus de Meka se deviam abastecer e refrescar. Os arabes defenderam a sua ilha em vão; e Cunha matou-os todos, sem ficar um só, e construiu a fortaleza, deixando-a guarnecida. Feito isto, dirigiu-se á India, destacando Albuquerque (impaciente quasi até á rebeldia, durante a delonga da construcção do forte) com seis navios e quinhentos homens, para a caça das náus, no Estreito.
Afinal, o capitão commandava! Afinal dispunha de uma phalange sua! e resolveu não perder um só dia. Logo que as velas de Tristão da Cunha desappareceram, na sua viagem para a India, Albuquerque largou de Sokotra para a costa da Arabia, ao longo da qual foi subindo vagarosamente,{pg. 251} assolando tudo. Formára o plano de começar por Hormuz as suas conquistas, marcando primeiro o limite por norte e occidente, para mais tarde ir ao oriente, pôr em Malaka o extremo do seu imperio. Hormuz, Sofala e Malaka são tres quinas de um triangulo, cuja base mede 70 graus em longitude, cuja altura, até ao vertice de Hormuz, conta 50 em latitude.
Foi a 10 de agosto do anno de 507 que Affonso de Albuquerque largou de Sokotra, em direcção do golpho Persico. A sua esquadrilha compunha-se de seis navios apenas, e não contava mais de quinhentos homens; mas a poderosa unidade que o mando do atrevido capitão imprimia, a confiança que todos tinham no seu genio e na sua sabedoria, e tambem nos mosquetes e artilharia das náus, tornavam poderosa como um ariête esta pequena divisão. Para nos servirmos da expressão de Francisco d'Almeida, tratava-se apenas de combater com bestas; e não havia ainda que temer em Hormuz a artilharia dos rumes, nem os bombardeiros venezianos. A novidade de um engenho de guerra e a audacia de um guerreiro á antiga, iam levar a cabo uma empreza, de facto espantosa, como as de Alexandre ou de Cyro.
Seguindo os exemplos d'esses famosos, cuja sombra Albuquerque tinha na mente, punha em pratica os antigos meios orientaes. Avançava no meio de um côro de afflições e mortes, precedido por uma columna de incendios, para que, ao chegar, a vanguarda do terror precipitasse os animos na abjecção. Assim ia ao longo da costa da Arabia assolando e devastando todos os logares vassallos do suzerano de Hormuz. Primeiro arrazou Kalhât (Calayate) «que é feito de casas de pedra, terradas e muitas cobertas de palha, casas espalhadas{pg. 252} e mal armadas e fóra do logar á mão direita um palmar de palmeiras de tamaras, onde estavam uns poços de agua de que bebiam. O logar assenta ao longo d'agua, e por detrás ha grandes serranias de pedra viva, e no mar alguns zambucos e náus que vem aqui carregar cavallos e tamaras e peixe salgado.» (G. C., Lendas).
Em Karayât (Curiate), que lhe resistiu, cortou as orelhas e o nariz a todos os prisioneiros, soltando-os para irem, lavados em sangue e mutilados, annunciar por toda a parte a fama do seu poder. Em Khor-Fakhan (Orfacate) reduziu tudo a cinzas; e como em Karayât, mutilou todos os prisioneiros. Entre elles, porém, estava um velho letrado persa, de longas barbas brancas, que vivia de admirar Alexandre, cujo livro possuia. O velho applaudia o portuguez, commentando o livro com as façanhas do novo heroe; e applaudia-se a si por ter ainda em vida assistido á resurreição do filho de Olympias. Acclamava o portuguez, ou o grego, confundindo a realidade com a historia; e de joelhos, adorando-o, deu o seu livro a Albuquerque. O novo Alexandre perdoou-lhe.
Em Makât (Mascate), já na entrada do golpho, e quasi fronteiro a Hormuz, tinham vindo acudir a curar-se, chorando, os fugitivos de Karayât e Khor-Fakhan, atroando os ares com a fama do poder terrivel d'esse heroe que se approximava. Tremiam todos de susto; mas quando a esquadrilha appareceu diante da poderosa cidade, ainda houve quem pensasse em resistir, por vêr que os navios eram tão poucos. Ignoravam, porém, que cada um d'elles, com os seus canhões escondidos por detraz das amuradas, era um vulcão prompto a rebentar em lava, um inimigo perfido cuja força latente não podia medir-se. Maskât foi bombardeada.{pg. 253} A mesquita onde os infelizes se tinham refugiado caíu a machado, e os captivos, mutilados, foram fugindo, chorando, reunir-se á gente da cidade escondida nas serras. Havia cadaveres em todas as ruas e o fogo posto começava a crepitar lavrando nos armazens cheios de azeite e de melaço. As labaredas subiam, zumbia ao longe o clamor dos desgraçados, e á maneira que o terribil heroe se alongava na praia com os seus para regressar aos navios, os mouros vinham anciosos e cheios de medo vêr se podiam ainda salvar algumas migalhas da sua cidade, pasto das chammas vivas. Era em vão. Como uma tromba devastadora, Albuquerque proseguiu deixando um rasto de sangue e cinzas. Hormuz estava proximo, e cumpria que a onda do terror, que fôra crescendo, estoirasse agora de um modo pavoroso.
Hormuz era então a joia mais preciosa da corôa da Persia. Chamavam-lhe a pedra do annel das Indias. Era a Londres oriental, onde todos os productos do Oriente vinham desembarcar; d'onde saíam nas longas caravanas que se dirigiam a Bagdad e ao Cairo, para a Tartaria e o Turquestan, por toda a Asia do norte. Os armadores levavam por mar a Hormuz a pimenta, o cravo das Molucas, o gengibre, o cardamomo, os paus de sandalo e brazil, os tamarinhos, o açafrão, a cera, o ferro, as cargas do arroz de Dekkan, os côcos, as pedrarias, as porcellanas, o benjoim, os pannos de Kambai, de Chala, de Deval, e os cinabasos de Bengala. Ahi vinham, de Aden, no estreito de Bab-el-Mandeb, o cobre, o azougue, os brocados, os chamalotes, e tudo quanto Veneza mandava da Europa, pelo caminho de Alexandria, a Suês, via do mar Vermelho. Toda a Persia se abastecia em Hormuz dos generos de fóra; por Hormuz toda ella mandava{pg. 254} importar os productos indigenas. Os navios carregavam ahi a seda e o almiscar, rhuibarbo de Babylonia, e as récuas de cavallos da Arabia, tão queridos no Dekkan, em Kambai e nos Estados da contra-costa de Cholomandalam (Coromandel) até Bengala, na foz do Ganges. Contra o arroz e os pannos que levavam, os commerciantes traziam de Hormuz as tamaras, o sal das suas collinas coloridas, as passas, o enxofre e o aljofar grosso, muito procurado em Narsinga.
A cidade era em si pequena, mas um brinco. Era uma terra de luxo e prazer, uma côrte de mercadores. As casas, recheiadas de cousas preciosas, eram thesoiros ou museus, com paredes forradas de marmores, columnatas, eirados, pateos ajardinados e fontes preciosas. A vida custava ahi carissimo, porque o luxo absorvia todos os recursos naturaes. A terra, uma salina, era esteril de si: tudo vinha da Persia, da Arabia, da India: mas os mercadores tinham defronte, além, na costa firme, as quintas e hortas, onde iam com frequencia. Ahi o platano magestoso do Oriente, o álamo esguio e esbelto, o negro cypreste meditativo, destacavam-se no meio das hortas viçosas, das quintas e jardins de rosas, povoados de rouxinoes, abrigando nas encostas á sua sombra as vinhas ferteis. Os pomares regados estavam coalhados de laranjeiras, de fructos de ouro e flôres de neve perfumada; de macieiras, pecegos, albaquorques; de figueiras de fórmas extravagantes e amplas folhas; de granadas, com os fructos rebentados a sorrir nos seus grãos côr de rubi. No chão serpeavam as redes de hastes dos meloaes, louros e perfumados; e das latadas e parreiras caíam com peso os cachos de uvas preciosas de todas as côres. Por entre os bastos pomares e do seio dos jardins de{pg. 255} rosas, levantava-se orgulhosa e nobre a palmeira, com o seu turbante de folhas agudas, carregada de tamaras.
Nas ruas da formosa cidade, em frente dos bazares, sob os toldos que a defendiam da luz e do calor do sol, formigava uma população de varias raças, de côres diversas, occupada em comprar, em vender; mais occupada ainda em gozar a vida no seio de uma devassidão torpe. O calor e os perfumes inebriavam os sentidos, e acordavam todos os instinctos sensuaes. Vinham ali vender neve, de trinta leguas do interior da Persia. Amar era o primeiro de todos os commercios de Hormuz; e o persa, alto, elegante e formoso, entregava-se a todos os desvairamentos da pederastia. Por isso as mulheres valiam pouco, eram até aborrecidas em Hormuz. Os pobres escravos, moços e mutilados, enchiam os harens dos ricos, e os bordeis para o commum dos mercadores. Era uma devassidão abjecta, e um luxo desenfreado. Os personagens, nos seus passeios, iam sempre seguidos por pagens, com toalhas e jarras de prata e bacias com agua. Havia musicas e festas por toda a parte e as bandas e orchestras andavam constantemente nas ruas onde os mercadores expunham á venda o aljofar em colchas purpurinas. Os trajos eram dos mais preciosos estofos, e sobre as camisas brancas de algodão finissimo vestiam-se tunicas de chamalote ou gran, cingidas por almejares com grandes adagas ornadas de ouro e prata e pedras preciosas. Os broqueis eram redondos, forrados de seda; os arcos acharoados, ou de corno de bufalo com cordas de seda. Usavam, além do arco e da frecha, do escudo e da adaga, machadinhas e maças de ferro, todas preciosamente lavradas e tauxiadas de ouro e prata. Os mouros diziam que o mundo era um{pg. 256} annel e a pedra Hormuz. Só a alfandega rendia meio milhão de xerafins.[94]
As noticias de Maskât, os mutilados de Karayat e Khor-Fakhan encheram de terror essa população embriagada na orgia de uma vida de delicias. No porto havia, com effeito, uma poderosa armada que escondia as aguas: eram centenas de náus e galeões, uma infinidade de terradas. Tinham-se arrestado os navios dos mercadores e do seio da frota estava a náu de Cambaya, a Meri, de mil toneis, com gente basta e numerosa artilharia. Havia o melhor de duzentos galeões de remo com arrombadas de saccas de algodão tão altas que escondiam os remeiros. O persa que vestia os laudeis, em vez de corpos de aço, couraçava tambem de algodão os navios. As terradas alastravam o mar, carregadas de gente armada, com estandartes garridos «que era cousa fermosa para ver». Na terra, ao longo da praia, havia de quinze a vinte mil homens formados com as suas musicas de trombetas e anafis. «As gaitas do mar e terra eram tantas que parecia que se fundia o mundo!» Mas os fugitivos abanavam a cabeça desesperados, contando como os seis, seis navios apenas portuguezes! traziam no ventre uns monstros de fogo destruidores! E o soldão persa, afflicto, não sabia de que modo receber a visita de Albuquerque e dos seus navios, que já estavam, terriveis mas quietos como um volcão em paz, fundeados no meio do porto, entre os galeões de Hormuz. Albuquerque exigia-lhe que abandonasse o persa, e se declarasse vassallo do portuguez; e o infeliz estava decidido a abandonar tudo, para{pg. 257} que deixassem em paz—quando o capitão, enfadado com as delongas e subtilezas, rompeu inopinadamente o fogo. Começou a varejar em torno o estendal de barcos, reduzindo-os a uma massa de destroços, de naufragios e cadaveres que era horroroso de vêr. Estava como um lobo no meio de um rebanho de ovelhas. Não era uma batalha, era uma carnagem. Os fugidos nadavam n'um mar rubro de sangue, perseguidos pelas almadias em que os soldados matavam n'elles ás lançadas e cutiladas. Da amurada das náus os grumetes e pagens rasgavam-lhes o ventre com os croques, pondo pastas de visceras fluctuantes no mar de sangue. Houve grumete que matou assim oitenta mouros. E emquanto a armada de Hormuz e as tropas do sultão eram chacinadas, desmanchava-se o lançol de barcos como uma teia cujas malhas se soltam. Havia correrias sobre as ondas, e de espaço a espaço o mar sorvia uma atalaia com a gente e as armas. Outras, já ardendo, iam fugindo em chammas, como trombas de fogo correndo, vogando á mercê do vento «que era um grande espectaculo para vêr». Ainda oito dias depois do sanguinario caso havia cadaveres boiando no mar, e os portuguezes em lanchas occupavam-se n'essa particular especie de pesca. A colheita era abundante, os cadaveres aos centos, os trajos ricos, e muitos os anneis e alfinetes, as adagas e punhaes tauxiados de ouro e prata com joias engastadas. Denudados, vinham a bordo as familias reconhecer os cadaveres e leval-os piedosamente, em lagrimas, aos seus sepulcros. A façanha fôra tão grande, que parecia milagre: pois não se viam nos corpos mortos as chagas das frechas, não havendo similhante arma entre os nossos? Milagre! diziam os soldados e os capitães, perante esse caso tristemente revelador{pg. 258} da confusão do combate com o novo Alexandre da India.
O pobre sultão de Hormuz, afflicto, immediatamente accedeu a tudo: consentiu que Albuquerque levantasse uma fortaleza e pagou-lhe vinte mil xerafins de tributo. E d'este concerto se fizeram duas cartas, uma em folha de ouro, a modo de livro, escripta em arabico com letras abertas a buril e suas brochas de ouro com tres sellos de ouro dependurados por cadeias; a outra em parsi, que era a linguagem commum da terra, e em papel com letras de ouro. E ambas estas cartas mandou Affonso d'Albuquerque a el-rei D. Manuel.
Hormuz escapara, rendendo-se, aos horrores de um saque: mas isto mesmo desesperava os capitães e soldados da esquadrilha, que murmuravam, cubiçosos de tamanha riqueza desenrolada diante de seus olhos. Não comprehendia para que se haviam de demorar alli, a construir uma fortaleza; quando, a não saquearem a cidade, mais valia partirem para o rendoso corso das náos de Meka, na bocca do Estreito. A intriga insinuava-se, dizendo que o capitão-mór queria construir a fortaleza para si, e fazer-se rei de Hormuz, levantando-se contra o de Portugal: na India não havia ainda mais tradição do que a do saque maritimo, e o pensamento imperial de Albuquerque chegava a não ser comprehendido. Nem em tres annos, diziam, voltariam á India, perdendo occasião de carregar as quintaladas que tinham de ordenado. A cubiça de mãos dadas com a violencia e a cegueira agitavam perigosamente as guarnições. Albuquerque, impassivel, proseguia. De uma vez que lhe levaram um requerimento quando vigiava pessoalmente a obra da{pg. 259} fortaleza, tomou-o assim dobrado como lh'o deram, e sem o ler metteu-o debaixo de uma pedra do portal da torre que se estava erguendo. O baluarte ficava cimentado com as queixas. Mas as lages não pesavam bastante para as abafar, e recrudesceram. Além do mais, os queixosos reclamavam a metade dos 20:000 xerafins pagos pelo de Hormuz, que, esperançado n'estas desordens, confiado em promessas de sedição, e nos auxilios que o persa lhe enviava, ousou romper as hostilidades. Viera com effeito o cheik Yar (Xaquear) trazendo comsigo quatro mil arabes. Albuquerque estava n'um serio perigo, e outro qualquer perder-se-hia. Os capitães recusavam ir ao combate; mas elle, arrancando as barbas, aos punhados, ao capitão Nova, levou diante de si os soldados, sósinho, ás cutiladas. Dos seis navios, porém, fugiram-lhe tres, que vieram para a India contar ao vice-rei as loucuras e barbaridades do conquistador: não podiam resistir ao seu mando terribil, só lhes era dado fugir! Albuquerque retirou tambem de Hormuz, quando viu a impossibilidade de levar por diante a empreza, abandonado por metade das suas forças. Levantou ferro, voltou a Sokotra aprisionar as náus de Meka, e mais um navio o abandonou ahi: nenhum podia supportar o ferreo mando do heroe.
Em novembro de 508, depois de ter voltado ainda outra vez a Hormuz, estava de regresso á India, em Kananor, onde abriu a carta de Lisboa, que lhe confiava o governo do Oriente. N'esse momento a violencia do seu genio furioso arrebatou-o: queria castigar os capitães insubordinados, queria sobretudo terminar rapidamente o plano das suas conquistas; e foram necessarios os rogos de D. Francisco de Almeida, a quem o filho acabava de morrer,{pg. 260} para consentir na expedição naval de Diu. Só quando, mezes depois, chegou á India a fidalga armada de D. Fernando Coutinho, poderam terminar as deploraveis contendas, entre o vice-rei e o seu successor. Coutinho levava de Lisboa ordem expressa de tomar Kalikodu; e, cheio de basofias, lançou-se na empreza em que achou a morte. Engolfados na matança e no saque, no meio de parte da cidade incendiada, os portuguezes foram por sua vez trucidados, quando os inimigos os colheram dispersos e sem armas.
Só e livre, absoluto senhor do imperio nascente, Albuquerque entregou-se com franqueza e decisão ao seu projecto. A primeira condição d'elle era a fundação de uma cidade, uma capital portugueza—cousa que até então não existira. Katchi, cujo rajah desde o principio se abraçára aos novos invasores, era uma cidade India, onde possuiamos apenas uma fortaleza, abrigo da feitoria e guarda de um porto amigo. Albuquerque elegeu Goa para capital. Collocada a meia altura da costa Occidental da peninsula, bom porto, a cidade reunia as condições desejaveis. Fazia elle então parte do reino de Vijajapur (Bijapor) fracção que no fim do XV seculo se separára do de Dekkan, declarando-se o seu khan independente, sob o titulo de adil-shah (Adil-Khan, Hidalcão); e o adil-shah do Vijajapur, ao tempo de Albuquerque, tinha por nome Yusuf. Por este governava em Goa Sipahdar, a quem os nossos chamaram Sabaio. Em fevereiro de 510 Albuquerque tomou Goa por surpreza; e pela primeira vez houve no Oriente um Estado portuguez. Até então, depois de uma batalha, a tomada de um logar significava apenas a substituição da suzerania indigena pela nossa; e o estabelecimento de feitorias e a construcção de fortalezas, tinham{pg. 261} sómente em vista assegurar o commercio e a cobrança das páreas ou tributos de vassallagem, segundo o plano do primeiro vice-rei. Albuquerque iniciava um systema differente; creava uma cidade propriamente portugueza; e com o novo governador, o nosso dominio desembarcava dos navios para a terra firme. A um systema de colonias, como fôra em volta do Mediterraneo o dos phenicios ou o dos gregos, substituia-se um imperio, como Annibal o sonhára na Italia, e Alexandre o fundou na Asia. Albuquerque, porém, não pensava em fazer de Goa uma cidade portugueza, no sentido de ser exclusivamente habitada por europeus: seria chimerico. Faltava-lhe gente, e para obviar a isto fomentou os cruzamentos de portuguezes com mulheres indigenas, creando, tanto em Goa como depois em Malaka[95], uma população de mestiços, que mais tarde se tornou um dos elementos de dissolução do nosso imperio. Sob o dominio portuguez, os naturaes viveriam livremente na sua religião, com as propriedades garantidas, mas sujeitos ao imperio protector e soberano de Portugal.[96] Era um{pg. 262} plano correspondente ao que mais tarde os inglezes pozeram em pratica, sem todavia cruzarem com os indigenas: da mesma fórma que os hollandezes preferiram os planos maritimo-commerciaes de D. Francisco d'Almeida.
Goa occupou ao governador todo o anno de 510; porque o Sabaio, tomado por surpreza em fevereiro, voltou no verão; e os soldados de Albuquerque não quizeram resistir-lhe. Apesar do desespero e das maldições, da furia e das ameaças do governador, abandonaram a cidade e embarcaram. Os planos de Albuquerque pareciam loucuras aos bandidos e piratas da India, que além de lhes não comprehenderem o alcance, se viam privados de saques, apenas fartos de guerra. Goa perdeu-se em agosto; mas logo tornou para o dominio portuguez, ganha por assalto em novembro. Os soldados obedeciam, porque o commando do governador era terribil, desapiedada a sua crueldade genial, fervorosa a sua fé catholica. Alexandre cria-se um deus, Albuquerque viu mais de uma vez os milagres do céu nas horas do combate. Em Goa viu Santiago: um cavalleiro de armas brancas, no manto uma cruz vermelha, pelejando contra os mouros[97]—conforme a tradição historica portugueza. Nas cidades da costa da Arabia, viajando para Hormuz, as suas crueldades tinham sido barbaras: em Goa não o foram menos. Além queria impôr pelo medo; aqui destruia como politico. Todos os mouros de ambos os sexos, de todas as edades, mais de seis mil, foram mortos; e queimados vivos os que se tinham refugiado na mesquita, sendo a terra assim «despejada», porque para socego d'ella só devia conter gentios. Era o{pg. 263} logar escolhido para capital do imperio dos novos gregos pelo moderno Alexandre.
Consolidada a posse da capital, no coração da India, Albuquerque voltou-se rapido para as duas emprezas que rematariam o seu imperio: Malaka e Hormuz. Embarcou, logo no principio de 511, e tocando em Ceylão, a terra encantada das pedras preciosas, delicias do mundo, patria da canella e das perolas, achamol-o, já em maio, em frente de Malaka, no extremo Oriente.
Malaka, na ponta da peninsula da Indo-China, sobre o estreito a que dá o nome, era para esta região, como Hormuz, a norte-leste, para a outra. Assim como além se permutavam os generos da India com os da Arabia e da Persia, e em Adem com os do Egypto; assim em Malaka se faziam todas as trocas dos productos occidentaes da China e das Molucas, e de todo o extremo Oriente. De Malaka iam as náus a Ternate e a Tidor, a Banda e a Ambon, em procura do precioso cravo; e o estreito andava coalhado de juncos de Java, conduzindo á cidade o arroz, as carnes, a caça e os crizes tauxiados de fino aço, em troca dos damascos e brocados, que levavam de retorno para as ilhas do archipelago. Amphibios, os malaios viviam no mar em permanencia, com a casa e a familia a bordo; e os seus juncos, com enxarcias de verga, iam buscar a Malaka os pannos de Paleakat e de Mahabalipurum (Meliapor), na costa de Coromandel, e as drogarias de Kambai.
Do saque de Malaka, o governador reservou para si apenas seis leões de bronze, destinados ao seu tumulo. Sem se demorar, avassalou todo o archipelago malaio, levantando fortalezas e deixando guarnições; e, segura a porta oriental da India, voltou-se a Goa, de caminho para Hormuz e Aden,{pg. 264} a consolidar o imperio pelo occidente. Em fevereiro de 513 sáe com uma armada para Aden, que não consegue tomar; viaja em torno do Mar Vermelho, incendiando e bombardeando as costas; mas não sente forças para levar a cabo o seu plano de conquistar a Arabia, indo a Meka despedaçar a santa Kaaba. A campanha de 513 não tem portanto resultado positivo, desde que Aden consegue resistir ás investidas do governador. Adiou pois para outra vez esses planos, que eram a cupula do seu edificio e a chave do imperio que vinha construindo. Conquistada Aden, as duas emprezas que meditava eram relativamente faceis na sua simplicidade temeraria. Levaria quatrocentos homens de cavallo em taforeas ou caravellas e iria desembarcar em Liumbo, partindo n'um galope até Meka, logar santo mal guardado por gente prostrada em adorações. Roubaria o thesouro sagrado e o proprio corpo do propheta: com ambos se resgataria o Santo-Sepulcro de Jerusalem, captivo. Consumar-se-hia a obra mallograda das Cruzadas, tradição piedosa que na Renascença passara das nações do norte para a Italia e para a Hespanha, arrastando mais tarde Portugal a Alcacerquibir. Ao mesmo tempo, e por outro lado, a grande empreza do mar Vermelho descarregaria um golpe mortal no Egypto, que era a joia do imperio dos turcos e o arsenal de onde vinham as armadas á India. O seu plano consistia em «cortar uma serra muy pequena que corre ao longo do rio Nilo, na terra do Preste Joham, para lançar as correntes d'elle por outro cabo que não fossem regar as terras do Cairo».[98] Desviando o Nilo seccaria o Egypto.[99] Já pedira{pg. 265} a D. Manuel que lhe mandasse officiaes da Madeira, onde os havia mestres no córte das serras para formar as levadas de rega dos canaveaes. Tudo isto continha a empreza de Aden, cujo mallogro cortou os vôos ás ambições grandiosas do heroe.
Embora no céu, lá para os lados das terras do Preste abexim, tivesse fulgurado aos olhos do mystico e terrivel heroe uma cruz vermelha, Christo abandonara-o na empreza. Quando o famoso milagre surgiu, Albuquerque e todos, ingenuamente, crentes na missão divina em que andavam, caíram de rastos adorando a cruz.[100] E o capitão, para corresponder ao céu, mandou tanger os córos de trombetas, responder com artilheria aos cumprimentos de Jesus. Lavrou-se um estromento assignado pelas guarnições, que veiu para D. Manuel, com a carga de pimenta, afervorar a piedade mystica da côrte carthagineza.
Como, porém, apesar do milagre, nada se fez, Albuquerque em 514 volta-se para Hormuz, cujo dominio não estava seguro. Outro Alexandre em Persepolis, o heroe condemnou-se em Hormuz: a grandeza das suas façanhas tinha-lhe feito nascer um orgulho, que já não distinguia o bem do mal. Orientalisado como o imperador, cujos exemplos seguia, não lhe bastavam já a crueldade, nem a força: appellava para a perfidia; e intromettendo-se nas miseraveis politicas dos persas, chamou á sua tenda para uma festa o ministro que então governava o principe idiota de Hormuz, e assassinou-o covarde e friamente, substituindo-se-lhe. Estava proximo da cova: e a sorte não queria que á historia d'este heroe faltasse o epilogo frequente da historia dos heroes: uma abjecção. Tampouco{pg. 266} a verdade consente que se esconda um fraco de vaidade e fraqueza commum. Alexandre mimoseava os litteratos de Athenas para que o exaltassem: Albuquerque mandava anneis de pedras preciosas ao chronista Ruy de Pina «para escrever com melhor vontade os memoraveis feitos da India».
De volta de Hormuz a Goa morreu na viagem: a morte salvava-o, como fizera a D. Francisco de Almeida, dos ferros que tinham servido a Duarte Pacheco. A côrte de Lisboa já o mandára substituir no governo por Lopo Soares de Albergaria, que, chegando, começou por condemnar o seu predecessor, exaltando todos os que lhe eram inimigos. Antes de acabar, Albuquerque pegou da penna e dirigiu uma carta ao rei—«quando esta escrevo a V. A. estou com um soluço que é signal de morte!» E pedia-lhe que lhe honrasse a memoria e protegesse o filho: o que o rei fez, honra lhe seja. Agonisando, via-se incomprehendido pela tacanha côrte de Lisboa, e acceitava de bom grado a morte: «Mal com os homens por amor d'elrey, mal com elrey por amor dos homens, bom é acabar». E acabou, á vista de Goa. Era homem de mean estatura, rosto comprido e corado. Era avisado latino e de grandes ditos: falava e escrevia muito bem; mui facil na conversação, muito grave no mandar, muito manhoso no negociar com os mouros, muito temido e amado de todos. Nascera filho segundo de uma familia de sangue nobre, e educara-se na côrte militar de Affonso V, viveiro da geração dos capitães da India amestrados nas guerras de Africa. Fôra em 1480 na esquadra mandada a Napoles em auxilio do rei Fernando contra os turcos, e nove annos depois partira para Africa a defender a fortaleza da Graciosa, em Larache, contra os mouros. Era estribeiro-mór de D. João II{pg. 267} e já um grande fidalgo quando, em 1503, D. Manuel o mandou á India pela primeira vez. Foi, voltou com bons creditos, mas sem nada ter feito de singular; provavelmente observou e aprendeu muito, levando já um plano formado quando o rei o mandou como capitão na esquadra de Tristão da Cunha. D'essa ida começa a historia que narrámos e que termina agora com a sua morte.
Os soldados, a bordo, amortalharam-no no habito de Santiago com borzeguins e esporas, espada á cinta, na cabeça uma carapuça de velludo e aos hombros uma beca tambem de velludo. O enterro subiu em lanchas, e era tamanho em todos o choro e pranto, que parecia fundir-se o rio de Goa. Ao desembarcar, foi levado aos hombros dos soldados, sob o pallio, pelas ruas da cidade que conquistara; e os gentios, vendo-o com os olhos meio abertos, a longa barba atada até á cinta, fluctuando, não o criam morto: Deus o chamara para alguma façanha no céu! Voltaria breve. E por muito tempo houve romarias ao sepulchro do heroe, vindo os naturaes pedir-lhe justiça contra os desmandos e perfidias dos portuguezes, offerecendo-lhe boninas e azeite para a sua lampada. Do extremo Oriente, desde o Pégu até á China, ficaram-lhe chamando o Leão-do-mar.[101]{pg. 268}
Hormuz, Goa, Malaka, os tres pontos cardeaes do imperio fundado por Albuquerque no breve periodo de cinco annos (1507-11), valiam o dominio em todo o mar das Indias e a vassallagem de todas as costas, desde Sofala, em Africa, ao cabo de Jar-Hafun; desde Khor-Fakhan, na Arabia, até ao golpho Persico; desde o Indo até ao cabo Kumari (Comorim); d'ahi ás boccas do Ganges, e descendo pelo Arakan e pelo Pégu, até Malaka—com as ilhas dispersas de Madagascar e Sokotra, Anjediva, os archipelagos de Lakkha (Laquedivas) e de Malaja (Maldivas), Sinhala (Ceylão),[102] e Sumatra e Java, Bornéo e as Molucas, até aos pontos extremos de Banda e Ambon. Com effeito, depois de Malaka e da viagem temerosa mas esteril de 513 a Aden, todo o Oriente pasmava e tremia de Albuquerque, o terribil. A Goa vinham de toda a parte embaixadas e tributos; todos os principes queriam a amisade do portuguez, e a seus pés arrastavam a corôa os rajahs de Ahmednagar e de Kambai, de Vijajapur e de Narsinga,[103] o shah da Persia e os sultões de Sião, do Pégu, do Arakan; e até o proprio Hidalcão, o adil-shah do Kanará, consentindo a fortaleza de Kalikodu, comprada com tanto sangue, seguia o exemplo do Gujerât, do Konkana, do Karnataka e de Bengala. Desde o Indo até ao Ganges, pelo Cabo Kumari, desde Kambai até Golkonda, o litoral da peninsula estava inteiramente submettido ao jugo portuguez.
Entretanto este imperio não podia dizer-se ainda construido: era um esboço apenas. Como depois de uma victoria brilhante os timidos se curvam todos perante o vencedor, assim acontecia no Oriente.{pg. 269} Lançado na politica de conquistas, o imperio portuguez ganhava a primeira batalha; mas não podia decerto ensarilhar as armas, emquanto a costa da Arabia e as margens do mar Vermelho se conservassem em poder dos inimigos. Os naturaes da India, avassallados por uma corrupção antiga, acceitavam o dominio de qualquer vencedor; mas era necessario, para o manter, que a victoria fosse decisiva. Ora o inimigo, o mouro, fôra batido, mas não fôra expulso. Como n'uma doença, tinham-se debellado muitos symptomas, mas não se destruira o principio morbido. Aden continuava a ser o emporio do dominio commercial maritimo dos arabes e egypcios no Oriente; o mar Vermelho, o Suês, no extremo fundo d'esse estreito corredor, as boccas sempre abertas, para vasar sobre a India navios, artilheria e soldados. O dominio, que os portuguezes se propunham substituir, continuava; e do caracter dual ou mixto que a occupação da India apresentava, resultaria um estado de guerra permanente com os mouros e com os naturaes, que ora os preferiam a elles, ora a nós. Ninguem, nação alguma seria capaz de resistir a um seculo inteiro de similhante vida. O destino do imperio portuguez no Oriente dependia do exclusivo do dominio, desde que era impossivel pactuar ou dividir a presa entre os dois caçadores rivaes.
O genio de Affonso de Albuquerque adivinhava isto com toda a lucidez: Aden, Meka, o mar Vermelho, eram a sua preoccupação: «Tres cousas, diz o filho e commentador, ha na India que são escapolas de todo o commercio das mercadorias d'aquellas partes, e chaves principaes d'ella. A primeira é Malaka, que está em tres graus na entrada e sahida do estreito de Singapura; a segunda Aden, que está em vinte e um graus de altura e{pg. 270} na entrada e saída do mar Rôxo; a terceira é Hormuz, a qual está em quinze graus e na entrada e saída do estreito do mar da Persia. Este Hormuz, a meu vêr, é a principal de todas. E se el-rey de Portugal tivera senhoreado Aden podera chamar-se senhor de todo o mundo.» Dar um golpe mortal no islamismo era, além de retribuir em Meka a affronta humilhante de Jerusalem, mostrar aos musulmanos do Oriente que Jesus podia mais do que Mafoma. Mas se o genio excepcional de Albuquerque não bastou para levar a empreza ao fim, como poderiam bastar para isso os pigmeus que lhe succederam? Valentes muitos ou quasi todos, incansaveis no mar e na terra, os governadores da India foram extenuando em um seculo de guerra permanente as limitadas forças da nação, sem pensamento politico, sem plano definido, á tôa e á mercê d'um capricho, ou d'uma idéa a que o ciume imbecil da côrte limitava constantemente os vôos. A primeira politica, a maritima, fôra abandonada com a queda de Francisco de Almeida; a segunda politica, a imperial, condemnada com a deposição e morte de Albuquerque. Faltava assim a condição essencial de um dominio estavel e seguro: uma tradição.
Esta falta, comtudo, provinha de causas mais intimas, umas nacionaes, outras chronologicas. O absurdo espirito da politica de Lisboa, e a já provada incapacidade dominadora dos portuguezes, estão na primeira categoria: na segunda estão os costumes e idéas de tempos relativamente barbaros. Os portuguezes, ao pôr pé na India, faziam o mesmo que os povos germanicos, ao descer dos Alpes sobre a Lombardia: cevavam-se. A historia de Affonso de Albuquerque em Hormuz (1507) demonstra bem quanto era impossivel impôr disciplina{pg. 271} e ordem em campanhas que tinham no saque o exclusivo motivo.
Fomos ao rio de Meca, Pelejámos e roubámos E muito risco passámos.
Estas palavras de Gil-Vicente resumem a historia da India; e com taes elementos era possivel saqueal-a, era impossivel dominal-a.
Por isso, n'esse seculo de 500 que a historia da India abrange, o conjuncto dos caracteres da occupação portugueza fórma dois systemas: o da rapina, contra o qual protesta e reage em vão a espada militar de Albuquerque; e depois o da simonia, contra o qual, em vão tambem, reage a vara justiceira de D. João de Castro.
Estudemos agora o primeiro, a seu tempo estudaremos o segundo. Todos os soldados de Antonio da Silveira, um capitão que andava pela costa, entre Chala e Daman, trouxeram fato, escravos e dinheiro, com que foram contentes; e assolaram tudo «em tanta maneira que se despovoaram todolos logares da fralda do mar, que pela terra dentro dez leguas não havia gente». Em Barava, destruida por Tristão da Cunha, os barbaros cortaram as mãos e as orelhas ás mulheres para furtarem as manilhas e brincos de ouro. A tomada de Mangaluru ficou celebre: «Foi entrada com muito valor, e dentro d'ella fizeram os nossos espantosas cruezas, não perdoando a sexo nem a idade, nem ainda ás alimarias». D. Paulo de Lima «deu na cidade de Johore (Jor)—escreve á esposa—e assolou-a com o favor divino». N'outro logar os combatentes, empilhados contra os muros, pedem aos da frente que, por amor de Deus, lhes deixem matar{pg. 272} um mouro. Á approximação dos portuguezes, despovoam-se as cidades e fogem todos com terror: assim aconteceu em Bintang. Albuquerque sustentou por tres annos, no mar da Arabia, a sua armada com as presas das náus de Meka. Quando os portuguezes occuparam as terras de Bardez «fizeram mui grandes males de roubos, tyrannias, tirando as mulheres e filhas formosas a seus maridos, e outras corrompiam, e as furtavam e tornavam a vender». O de Hormuz queixava-se de que, em paz, lhe tiravam, a elle e aos seus, «parentas de que (os nossos) faziam uso, tornando-as christans a seu pesar». O roubo e a luxuria, alliados aos inimigos, davam lugar a interminaveis guerras: assim os capitães de Malaka originaram as de Johore e do Atchim (Achem); e nas Molucas a cidade de Bachian, despovoada e vasia, foi incendiada, indo-se os barbaros ás sepulturas dos reis furtar os ossos, na esperança de receber por elles, mais tarde, um grosso resgate. Roubando e pirateando á solta, o genio aventuroso dos portuguezes larga as azas, e os exploradores vão até aos confins do mundo, fiados no seu atrevimento. Dois heroes das Peregrinações teem uma historia extravagante. Um, Antonio de Faria, vae á China roubar os sepulcros dos imperadores; outro, Diogo Soares de Albergaria, obtém o titulo de irmão do rei de Pégu, com duzentos mil cruzados de renda e o commando do exercito: é o rei, mas morre assassinado, por ter furtado uma rapariga. Nem se julgue que só pelos confins do mundo oriental portuguez, em Hormuz ou em Malaka, ou só pelas costas, nos seus navios, a furia dos portuguezes se desmanda em ferocidades anarchicas. Na propria Gôa, capital, a vida é um combate. Pelas ruas ha batalhas e cadaveres insepultos. Um governador{pg. 273} prende certos salteadores portuguezes, manda-os ferrar no rosto, junto á picota, e degredar para o Brazil: logo um pelotão de amigos se amotina em armas para os libertar, e, não podendo conseguil-o, vae a bandear-se para os mouros inimigos: o governador manda-os desorelhar e amarrar aos bancos das galés; fogem e fortificam-se, e é necessario tomar á força o reducto; prisioneiros, são, afinal, amarrados vivos a elephantes, e esquartejados. É conhecida a tragedia em que a amante de D. Paulo de Lima, precipitando-se das janellas do seu palacio de Pangin, morreu, e o seductor, de espada e rodella, abriu caminho por entre a gente armada que acudia com o marido.
Até dentro das proprias egrejas havia rixas, a tiros: viam-se homens caír assassinados no confessionario, e nos degraus dos altares, á meza da communhão; e uma vez foi morto com um tiro o bispo quando levava a hostia, em procissão, pelas ruas.
Era uma anarchia barbara; e decerto os naturaes lamentavam a má-sorte que os condemnava a supportar tantas crueldades ferozes. Antes o mouro indolente e molle, e o antigo tempo que placidamente corria no seio de uma orgia podre mas calma, nos braços do luxo, da opulencia e dos prazeres! Como demonios vomitando fogo, negros nas suas armaduras, esses portuguezes eram enviados para os desgraçar, para os punir talvez! E levas esfarrapadas de fugitivos, n'um côro unisono de lagrimas e afflicções, acompanhavam por toda a parte a visita dos terriveis forasteiros, que não sabiam fazer-se amar do indio, tão submisso, tão bem disposto para obedecer e servir.
Os fumos da India (como Albuquerque dizia) embriagavam os pobres portuguezes, limitados na{pg. 274} Europa á porção congrua do bragal e do aço, sujeitos a uma forçada sobriedade e a costumes mais presos. Na India o fumo desenfreava o animal, que se retouçava delirante nas sedas e nos perfumes, nas fructas e nas mulheres, coberto de diamantes, abarrotado de pardaus de oiro. Breve, porém, esse fumo se dispersou no ar; e a desolação universal trouxe a miseria, o luxo trouxe a fraqueza; e á violencia de barbaros, os portuguezes juntaram a mesquinhez de chatins.{pg. 275}
[93] «Ao que se achou presente Tristão Alvares, que era feitor do capitão-mór, que não consentiu que ninguem tomasse nada e com João Rodrigues Pereira que o ajudou levaram tudo ao capitão-mór, o qual logo tudo mandou qubrar e ameaçar e deu ao capitão e aos fidalgos da repartição primeira a cada um um quintal de prata e a Affonso de Albuquerque tres, porque nunca estes capitães e fidalgos se apartaram para ir roubar.» G. Correia, Lendas, I, 677.
[94] O xerafin (as hrafi) = 12 rupia = 1 cruzado. Duarte Barbosa da-lhe a equivalencia de 300 reis.
[95] V. Raças humanas, I, pp. LX-I.
[96] Não consentia o governador A. de A. que os portuguezes tratassem (negociassem), dizendo que onde tratassem haviam de querer ser poderosos e valorosos e não ser humildes como mercadores, do que se recreceriam males de os matarem e perderem suas fazendas... e tambem que, se os mouros vissem que lhes tomavamos seus tratos nos teriam mór odio, e mais, que os homens, andando tratando, andavam fóra do serviço de Deus e d'Elrey, de que elle daria muitas contas a Deus: pela qual razão não consentia que nenhum homem andasse fóra do serviço d'Elrey. Com esta pragmatica os portuguezes eram muito temidos por cavalleiros e não mercadores, e tão temidos e obedecidos que ainda que um só portuguez fosse em uma almadia, se o topassem naus de mouros, todas amainavam e lhe iam obedecer, mostrando-lhe seus cartazes que tinham para navegar, que todos eram assignados por A. de A.»—Gaspar Correia, Lendas, I, 518.
[97] V. Systema dos mythos relig., p. 331.
[98] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) p. 243.
[99] V. As raças humanas, I, pp. 106-10.
[100] V. Syst. dos mythos relig., p. 331.
[101] Ainda hoje os indios chamam Affonso d'Albuquerque a um certo peixe, do tamanho da corvina, e cujo nome zoologico não podemos apurar. Diz a lenda que o Leão do Mar não morreu: afundou-se, e revive n'esses animaes marinhos. A maxilla inferior do peixe, descarnada, tem o aspecto aproximado das figuras portuguezas do seculo XVI: o barrete, as barbas ponteagudas e longas, etc. Os indios pintam esses ossos, dando-lhes phisionomia humana e guardam os Affonsos de Albuquerques como fetiches.
[102] V. Inst. primit., p. 3.
[103] V. Ibid., pag. 163.
III D. João de Castro
Morto Albuquerque, as cousas da India voltam ao estado anterior; e abandonada a politica imperial, torna-se á politica maritima; ou antes o dominio fluctua ao acaso, indeciso entre os dois planos. Lopo Soares proseguiu ainda as guerras de conquista, acabando de avassallar Ceylão e as Molucas. Vasco da Gama voltou pela terceira vez á India, como vice-rei, para vêr se podia pôr cobro ás desordens e á corrupção interna das colonias: foi com elle que se inaugurou o systema das successões, mandadas de Lisboa em cartas, que só se abririam por ordem numerica, na falta de cada vice-rei, para prevenir as frequentes desordens, a que dava lugar a transmissão do governo. O almirante morreu tres mezes depois de chegado, succedendo-lhe D. Henrique de Menezes; a este, Pero Mascarenhas, e o usurpador Lopo Vaz de Sampaio, tão celebre pelas suas perfidias.
Nuno da Cunha tomou posse do governo em 1528 em condições difficeis. As torpezas dos governos anteriores tinham sublevado contra nós os monarchas do Hindustan. O de Kambai, ao norte, com o de Kalikodu, inimigo antigo, ao sul, estavam desde tempo em guerra aberta comnosco, de mãos dadas com os mouros, nossos rivaes. O governador, em quem os dotes de guerreiro primavam,{pg. 276} decidiu reunir todas as suas forças para ir tomar Diu, na costa do Gujerât, castigando por um modo ruidoso a insubordinação do de Kambai.
Quem via a esquadra com que Nuno da Cunha se foi a Diu, podia avaliar a transformação que trinta annos apenas, ou menos ainda, tinham produzido no caracter dos portuguezes. Ninguem os tomaria já pelos descendentes de Pedralvares Cabral, envergonhados da sua pobreza em Kalikodu; nem sequer pelos piratas domesticados com a disciplina de Albuquerque: pareciam já mouros, na opulencia e nos costumes. A esquadra era das maiores, senão a maior de todas as que se tinham reunido na India: constava de quatrocentas velas, entre as quaes mais de quarenta vasos maiores, e multidão de bergantins, galeaças, fustas e catures. Apoz ella vinham os juncos malaios com mantimentos, e um cardume de zambucos e cotias de taverneiros, gente da terra, vendendo comestiveis e vinho. Capitães e soldados tinham-se preparado como para uma funcção, luxuosamente vestidos, carregados de pedras preciosas e ricas armas tauxiadas. As mulheres enxameavam a bordo, esposas e amantes da gente da guarnição; e além das mulheres os escravos eram numerosos. O governador tinha promettido premios de 1:000, 500 e 300 pardaus aos primeiros que successivamente subissem ás muralhas. Era uma expedição mercenaria, e não uma aventura de bandidos. Isto exprimia a transformação que já se tinha operado; e o governador, apesar dos seus meritos, nada podia contra ella.
Seguindo as boas tradições, a esquadra foi ao longo da costa deixando o seu rasto de carnificinas e investidas covardes, contra os pontos indefesos; e quando chegou em frente de Diu, rompeu{pg. 277} o bombardeio. Dentro da cidade era grande o susto. Os commerciantes mouros agitavam-se, escondendo os seus thesouros e preparando-se para a fuga. Os fakirs immundos, nús, e de rastos, estrebuxavam, e, erguendo-se como doidos, acutilavam os braços e as pernas, ou batiam com calhaus grossos na ossatura do peito, como a quererem matar-se n'um delirio de visões santas. E o brahmine, com os seus longos cabellos enlaçados em turbante no alto da cabeça coroada de flôres, perfumado de aloes e de agua de rosas, untado de sandalo branco e açafrão, lançava-lhes uma esmola e palavras de paz, para não juntar á desgraça da guerra novas desgraças de suicidios! Os senhores de Diu, ricos do Gujerât, principes de Kambai, attonitos, vagueavam nas ruas com as mulheres, a procurar refugio contra as bombardas que estalavam por toda a parte. Com as caras rapadas á navalha e os longos bigodes negros caídos, arrastavam pressurosos as compridas camisas de algodão e de seda, calçados nos seus sapatos bicudos de cordovão lavrado: e os longos brincos de ouro cravejados de pedras balouçavam e tilintavam nas orelhas, em quanto corriam desafivelando, cansados, os cintos de ouro rutilantes de esmeraldas. Atraz d'elles as mulheres, de uma raça delicada e formosa, com o rosto de um branco de leite, meio encoberto em mantos de seda com que vestiam o tronco nú, corriam descalças, mostrando nos dedos dos pés os ricos anneis, nas pernas as manilhas de ouro e prata, os braços nús carregados de pulseiras, as mãos rutilantes de pedras preciosas. Era um terror e uma agitação por toda a cidade, ao ouvirem o ribombar da artilheria, e ao verem no ar a trajectoria de fogo das bombardas, que vinham sem piedade rebentar em estilhas no meio da gente, crivando{pg. 278} de lascas o corpo côr de perola das mulheres, e as carnes côr de barro dos fakires tisnados pelo sol, cobertos de uma camada de lodo secco e de immundicies das estrebarias dos elephantes.
As tropas de Kambai, nos seus postos das muralhas, esperavam o assalto, para então se medirem com esses homens que, abrigados por detraz das suas peças, distribuiam assim impunemente a devastação e a morte. Tremiam comtudo; e os mouros, por entre os batalhões, lamentavam-se da falta dos artilheiros venezianos e das esquadras dos rumes. Esperavam, porém, muito da tropa de elephantes, que eram quinhentos com as prezas limadas e o pé triturador, com que haviam de fazer em pastas humidas de sangue a phalange portugueza.[104] As balas dos mosquetes nada podiam contra a couraça da sua pelle, e esmagando com o peso, despedaçando com as prezas, acabariam a obra começada pelos besteiros e fundibularios de cima das torres. Mudos e immoveis, os quinhentos elephantes de Kambai estavam na planicie, como ancora da salvação de Diu; e os soldados olhavam para elles com amor. Além dos elephantes, tambem a cavallaria se achava formada, montando á bastarda os leves cavallos da Persia, embraçados os seus escudos pequenos e redondos forrados de seda, ao cinto duas espadas e uma adaga, ao hombro as settas e o arco. Uns vinham defendidos com armaduras e cotas de malha de aço, outros com laudeis, que eram mantos de algodão acolchoado, onde todos os golpes morriam perdidos. Os cavallos traziam testeiras de aço. Porém, apesar de toda a força reunida, a artilheria dos navios aterrorisava-os; e já por mais de uma vez alguma{pg. 279} bomba, caíndo no meio dos elephantes, dispersára as montanhas de carne, a correr em rugidos, com a tromba erguida, como um mastro, entre as prezas de marfim. Na cidade havia tambem artilheria e mosquetes, mas que nada podiam contra os navios distantes: os pelouros disparados recochetavam na agua.
Parou afinal o bombardeio, e todos olhavam com ancia, porque esperavam assistir ao desembarque e contavam com a peleja. Viram, porém, com surpreza que as náus emmastreavam e as galés mudavam a prôa ao mar, afastando-se ao impulso dos remos. Fôra medo? fôra fraqueza? Decerto; e a esquadra, atulhada de escravos e mulheres, não tinha forças para uma batalha: apenas se arriscava a um canhoneio sem perigos. Já era fóra de duvida que os deixava. As velas desfraldadas impelliam os navios na volta do mar. A alegria e a assuada substituiram então o pavor e o silencio. Todos pulavam contentes, desde o fakir immundo, até ao grave e perfumado brahmine; desde os velhos e as creanças, até ás mulheres, envolvidas nos seus mantos de seda, com os braços e as pernas núas, a correr, agitando os longos brincos, preciosos, tão pesados que lhes rasgavam as orelhas. Os commerciantes mouros abriam os bazares e desenterravam os cofres; e todos vinham á praia vêr a armada que se afastava, despedindo-se d'ella com vaias e gritos de zombaria, tangendo musicas, disparando tiros de espingardas para o ar, e mandando, por cortezia, pelouros, a arranhar a superficie azul das ondas. Diu estava salva das ameaças do portuguez.
Porém quatro annos depois, intervindo nas questões internas dos sultões e rajahs da peninsula, Nuno da Cunha obteve a permissão de construir a{pg. 280} fortaleza de Diu, celebre depois pelo heroismo dos seus cercos. A politica do governador não desdenhava, comtudo, o assassinato; e o pobre sultão de Kambai, convidado a uma entrevista, foi trucidado, á maneira do que já succedera antes em Hormuz. D'ahi proveiu a guerra e o primeiro cerco de Diu, sobre-humanamente defendido por Antonio da Silveira.
As chronicas chamam a Nuno da Cunha vencedor de Kambai, heroe de Bassaim, de Kalikodu, e fundador de Diu. Basta esta enumeração dos lugares para demonstrar que o dominio portuguez na India inclinava já, com trinta annos de vida apenas, á decadencia. Os erros politicos originavam guerras permanentes; e o poder dos invasores, que n'um relampago se alargára por todo o Oriente, não se consolidava: agitava-se desordenadamente, no meio de questões sempre renascentes, extenuando as forças defensivas, e corrompendo-se intimamente. Se Nuno da Cunha merece dos coevos o nome de heroe, não é pelo valor ou alcance dos meritos proprios, é pela absoluta incapacidade dos seus predecessores e dos que lhe succederam. D. Garcia de Noronha, que veio apoz elle, era um fidalgo pobre, sem merecimentos, além do da pobreza e das sympathias do rei, que o mandou á India enriquecer. «Honra, eu a tenho: não venho mais que a levar dinheiro», dizia mais de um governador. D. Estevam da Gama foi ninguem; e Martim Affonso de Souza prégou com o exemplo, francamente cynico, a abjecção em que a administração da India se tornára—agora que terminára o saque de todas as costas, e as náus de Meka, mais raras e já artilhadas e preparadas para rudos combates, não davam com que satisfazer a cubiça dos occupantes.{pg. 281}