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Historia de Portugal: Tomo I

LIVRO QUARTO A VIAGEM DA INDIA (continued 2)

Reading edition

A segunda epocha da historia da India, a da podridão, apparecia já desenvolvida e accentuada por tal fórma, que o governo de Lisboa reconheceu a necessidade de pôr cobro a tamanha desordem, e nomeou viso-rei D. João de Castro, leitor assiduo de Plutarcho e decidido, por opinião, a ser um modelo de virtude, e um typo de nobreza á antiga,—ou pelo menos á moda do que então se julgava terem sido certos dos antigos heroes.

Effectivamente o estado das cousas exigia remedios energicos. Martim Affonso de Souza deve abrir o rol, porque ninguem melhor e mais ingenuamente vivia no seio da podridão e o confessava, nas cartas que enviava para Lisboa, ao rei. A successão do governo de Vijajapur era debatida entre dois principes indigenas; e o governador «tardou em se determinar, porque estava esperando quem levava a melhor». Afinal decidiu-se pelo Hidalcão, que parecia ter mais justiça e era mais firme, «ainda que vos certifico que da outra (parte) havia tantas razões e contrarios que foi necessario soccorrer-me a missas e devoções». Além das devoções, o vencedor deu-lhe 70:000 pardaus para el-rey, 20:000 para elle proprio governador, e uma joia para sua esposa. Deus, porém, não se contentando com ajudar o modo por que o governador vendia o seu apoio, matou o rival vencido. Tudo corria para o melhor, quando, para coroar o caso, vem um privado de Assud-Khan propôr-lhe a divisão do thesouro do fallecido: 500:000 pardaus: «Mando 300 a el-rey, mas d'estes tomei 30:000 para mi, que é o dizimo que lá mando a minha mulher: que em razão está que tenha alguma{pg. 282} parte d'isso, pois o podera ter todo, que eu podera ter tomado este dinheiro sem o ninguem saber». Esta pratica de vender o auxilio nas contendas indigenas não era, todavia, privilegio de Martim Affonso. Em Hormuz, sob a tutela dos portuguezes, D. Duarte de Menezes substitue a um governo amigo dos nossos, um outro que preferia o mouro, porque este lhe deu «cem mil pardaus em xerafins novos, e em conta ricas perolas e joias e aljofar». Gaspar Correia diz do governador, que gostava de «boas peças e dadivas e alvitres de apanhar dinheiro, e banquetes e prazeres, e com mulheres solteiras com que ia folgar no tanque de Tinoja, e em tudo era mui devasso».

Os capitães seguiam os exemplos dos governadores. De um de Hormuz, Diogo de Mello, queixa-se o rei, porque o alguazil o ferira e quizera matar por lhe não dar dinheiro e joias que exigia; pedindo soccorro, pois se lhe não acudissem, despovoava-se a cidade. E nem só as fortalezas, ao lado dos soberanos indigenas, eram rendosos meios de rapina: o mar produzia tambem muito. Ruy Vaz vae por sua conta a Bengala ás prezas; e dois navios, mandados expressamente de Lisboa á India com instrucções e cartas, para decidir o pleito entre Pero de Mascarenhas e Lopo Vaz, fogem para Madagascar ás prezas, e ahi se perdem. A pirataria dos portuguezes era tão productiva que excitava os estranhos; e de parceria, piratas francezes, guiados pelos nossos, dão a volta d'Africa, e vão explorar a India. Não era tampouco raro vêr nos mares do Oriente navios de arabes guarnecidos por portuguezes mercenarios; os mouros pagavam melhor do que o rei. A guarnição da armada com que Lopo Vaz foi ás ilhas de Sunda incendeia os navios por falta de pagamento do soldo; e os naturaes{pg. 283} assaltam os portuguezes á pedrada, obrigando-os a pedir capitulação. Effectivamente a sorte dos soldados era tão dura, que se recusavam a embarcar em Goa, sem primeiro terem sido pagos. Os governadores eram obrigados a mandal-os caçar pelas ruas e casas, levando-os algemados ao tronco, e da prisão para a armada.

A vida do soldado da India e a organisação militar eram com effeito singulares. Desembarcando sem dinheiro em Goa, depois das doenças da viagem, os que não tinham parentes ou amigos na capital da India, espalhavam-se pedindo esmola em bandos pelas ruas, dormindo esfarrapados e semi-nús debaixo dos alpendres das egrejas, ou nas galés e lanchas varadas na praia. Empenhavam o que traziam: a capa, a espada; ou preferiam roubar para viver, esperando o arrolamento da armada, que todos os annos ia varrer as costas do Malabar, inçadas de piratas arabes cujo rei era o Cutiale (Kuuat-Ali).[105] Chegada a epocha, lançado o bando, nomeiavam-se os capitães dos navios—logo veremos porque artes e maneiras o capitão tratava de angariar a sua gente. A chusma da marinhagem compunha-se de negros captivos, agarrados a laço pelas ruas. Os soldados recrutavam-se nos bandos já amestrados na rapina e que, de volta das expedições, se pavoneavam nas ruas de Goa: era uma tropa de salteadores e adulteros, malsins e alcoviteiros, que enchiam a cidade de roubos e assassinatos nocturnos, occupando-se a beber nos lupanares e a matar por officio e dinheiro. Os reinoes bisonhos entravam só nas faltas, até que tivessem por seu turno aprendido como se era soldado{pg. 284} da India. O capitão dava dez xerafins a cada um dos soldados para se prepararem e armarem. Cada qual escolhia as armas que bem lhe agradavam, e muitos preferiam gastar o dinheiro em orgias, indo para bordo esfarrapados e sem mosquete, nem lança, nem rodella, nem espada: com as mãos vazias.

A mesma anarchia se usava no ataque; desembarcavam em chusma, e davam-lhes de Santiago, cada um conforme podia e sabia. Dispersavam-se todos com a mira no que podiam roubar, porque esse era o verdadeiro soldo; os dez xerafins um preparo apenas. Geralmente a primeira investida era irresistivel: e logo ao ataque se seguiam o incendio, o roubo, a matança—muitas vezes tambem a reacção dos inimigos. Dispersos, deixando as armas ás portas das casas para irem mais leves a roubar, os soldados eram mortos um a um: como succedera no grande desbarato de Kalikodu, onde morreu D. Fernando Coutinho; como succedia a cada passo, por toda a parte. Com tal systema, a guerra protrahia-se indefinidamente; mas era isso o que convinha a todos, porque d'ella tiravam o melhor dos seus proventos.

Os soldados roubavam, os capitães roubavam com elles, roubavam-nos a elles, cerceando-lhes as rações de arroz avariado e podre. E depois da façanha, em que muitos ficavam, depois de forçados a fugir em debandada, «os capitães-móres das armadas recolhem-se com os focinhos quebrados e com alguns navios perdidos. E ao entrar a barra de Goa, é tanta a bombardada que não ha quem se ouça, e ao sahir em terra tanta pluma e bisarrice, como se deixaram destruido o mundo.[106]—E{pg. 285} não é bem, accrescenta outra testemunha, a facilidade com que os capitães da India entram em Gôa triumphando, esbombardeando, cheios de plumas e pontas de ouro, deixando muitos companheiros descabeçados nas praias de Calecut.»

Não é bem, decerto; mas não podia ser de outra fórma; e ainda assim a basofia, apesar de ser enorme, não era a peior das fraquezas dos capitães da India. Pedro não obedecia a Gonçalo por não ser tão fidalgo como elle: eram todos pontinhos e biquinhos de honra. Em tendo sido capitães de quatro fustas, não queriam mais saír fóra sem bandeira na quadra; «e alguns não teem mais noticia da guerra que passear ás damas.» O peior, o peior de tudo era que uma vergonhosa corrupção apagava todos os brios. Nuno da Cunha dizia que os homens da India eram como os doentes de colera, tinham os gostos damnados; e outro accrescentava que os viso-reis, ao passarem o cabo da Boa-Esperança, perdiam de todo o temor a Deus e ao rei, como perdem a memoria os que passam o Lethes.

Vimos ha pouco o modo por que se guarnecia uma armada; resta dizer que as capitanias do mar e as das fortalezas eram compradas por dinheiro aos viso-reis: um rapaz imberbe pagou uma d'essas por um serviço de mãos e um saleiro de prata; e duzentos pardaus eram as ordinarias, isto é, o preço usual de uma capitania. Providos no seu lugar, os capitães, que o tinham comprado, faziam-se mercadores e contrabandistas, conluiando-se com os empregados fiscaes, e associando-se com os mouros e judeus. Os capitães de Malaka tinham náus para irem de sua conta, á China, de um lado; a Diu, Chala, Daman, Bassaim, do outro. Os de Hormuz commerciavam por mar{pg. 286} com Bengala, com os portos da costa occidental da peninsula, e com o Zamgebar. Como negociantes, á imagem do rei, exigiam tambem em favor proprio um monopolio; e d'ahi vinham as desordens e violencias brutaes exercidas sobre os indigenas. «A guarda do cartaz (salvo-conducto que os navios mouros pagavam para navegar no mar da India) é o credito do nosso Estado», diziam os homens-bons do Oriente; mas por cima de tudo o mais, os capitães, para fazerem prezas, buscavam bicos no exame dos passaportes e roubavam os navios e as cargas. Os lucros do commercio não lhes bastavam, e o roubo vinha engrossar o rendimento das capitanias. Hormuz era, sobre todas, celebre n'esta especie. Arrolamentos de guarnições ficticias, matriculas de praças mortas, para embolsarem o soldo de suppostos soldados, eram casos ordinarios e communs a todas: só d'esta verba um capitão de Hormuz fazia 30:000 cruzados em tres annos. Com os navios succedia outro tanto: fundeados, a apodrecer nas aguas, ou varados na praia, custavam ao thesouro da India o preço de guarnições que só existiam no papel. E estes roubos eram tão vulgares que não havia pejo em os confessar. Um capitão de Hormuz declarava alto e bom som, que não perdoaria um real da somma que se tinha decidido a ganhar—300:000 cruzados.

Um certo Alvaro de Noronha, na mesma praça, accusado, responde que outro tanto fizera o seu antecessor, «que sendo apenas um Lima levára 140:000 pardaus: elle como Noronha, havia de levar mais». O brazão da sua casa ficaria manchado, seus avós corariam, se gente menos nobre lhe passasse adiante em qualquer cousa—até no roubo.

E os crimes dos capitães não podiam ser punidos,{pg. 287} porque os viso-reis faziam outro tanto e mais: quando o exemplo vinha de cima, como se havia de condemnar a copia? O governador Lopo Vaz de Sampaio, que era pobre e tinha muitos parentes a proteger, foi a Hormuz para fazer proveito, com doze navios, cujos capitães eram todos seus proximos e afilhados. Diogo de Mello era seu cunhado, e isso o deixou impune dos roubos e males extraordinarios que tinha commettido. Nas deploraveis intrigas com que empolgou o governo a Pero de Mascarenhas, Lopo Vaz, para crear partidarios, usou de todos os meios. Pagaram-se todos os alcances por meio de folhas de suppostos soldos vencidos; e n'esta agoa envôlta muitos enriqueceram. A um certo Nuno Redondo, eximio em falsar sinaes, deveu o governador o alvará com que espoliou o seu émulo.

As principaes rendas dos governadores provinham de diversas especies de peculato: as peitas, ou luvas que recebiam por todos os empregos; as heranças jacentes que roubavam; os cabedaes do indio ou judeu queimado pela Inquisição de Goa; os conluios com os contadores, para extorquirem dinheiro aos funccionarios e litigantes; a falsificação da moda; o roubo do cofre dos orfãos; o fornecimento de material de guerra; as matriculas de soldados mortos ou nunca arrolados; a amortisação dos titulos de divida do governo, comprados no mercado por vil preço, e que nas contas iam mettidos pelo seu valor nominal.

A turbulencia e devassidão dos soldados provinham dos crimes dos commandantes, ficando por isso impunes; os roubos dos governadores authorisavam os dos capitães: mas se o governador fosse punido, não poderia acaso varrer-se o lodo e moralisar-se o dominio? Poderia; mas os governadores{pg. 288} tinham a favor da sua corrupção argumentos muito valiosos, e podiam contar com a impunidade. Em Lisboa, salvas momentaneas excepções, considerava-se a India como uma vasta seara a colher. «Cartas se liam pelas portas, em ajuntamentos de cadeiras, que era uma vergonha os descreditos que n'ellas vinham.» Desde o rei até ao mais infimo dos moços da chusma, todos eram commerciantes; e o commercio, cuja mira é o lucro apenas, tolera tudo, pactua com todas as devassidões. Contam que D. Manuel em pessoa achava graça ás manhas e expedientes vis, com que se explorava a India, quando os que de lá vinham justificavam as artes com a riqueza, augmentando a opulencia faustuosa da côrte. Bastante dinheiro e um pedaço de lisonja venciam tudo. Diogo de Mello, de quem já falamos como heroe, foi condemnado á morte pela Relação de Lisboa; mas fiqou em morte civil para S. Thomé; depois para Africa; e, por fim, com dar 500 cruzados para a Arca-da-Piedade, casando suas filhas com as muitas riquezas dos roubos que n'este mundo não pagou.

Pagal-os-hia no outro? Não era de crer; porque o jesuitismo tinha descoberto que a simonia não era peccado, sempre que se seguissem umas certas regras. O furto deixava de provocar escrupulos de consciencia, desde que os casuistas tinham averiguado ser licito cobrar por qualquer modo, o que se não póde haver por demanda, de pessoa poderosa. Ora quem mais poderoso do que o rei, dono do thesouro da India? Por isso, uma vez os conegos de Goa fecharam a sua egreja e suspenderam o culto, quando o viso-rei, distante em Katchi, deixou atrazar-se-lhes as pagas. E além d'esta justificação de todos os expedientes, os padres{pg. 289} confessores da Companhia, defendendo os que recebiam luvas, diziam que o nome de peita se entende só do que se toma da parte antes de a despachar, ou de concerto que se faça para o negocio[107]. Mas se a parte fôr despachada, póde muito bem gratificar depois: é um agradecimento, e não uma peita.

Não deixaria, por certo, de valer para muitos esta boa paz em que se achavam com o céu; mas é fóra de duvida que os escrupulos religiosos não incommodavam a maxima parte, senão quando, na volta para o reino, os assaltavam os temporaes da costa d'Africa. A cumplicidade de Deus era muito; mas era melhor ainda a cumplicidade das justiças, que na terra podiam confiscar, prender e matar. Um chronista erudito escrevia: «O imperio romano não se começou a perder, senão depois que se começaram a vender os magistrados; e assim eu dou a India por acabada». Não eram só venaes, eram tambem analphabetos, os juizes: fazia-se um desembargador com dois debrums de latim. As testemunhas custavam em Goa a pardau por cabeça «e se a um ladrão ou salteador, por conhecido que seja, não faltam 4 ou 6 testemunhas que o abonem, como faltarão a um viso-rei?» Além d'isso, de que valeriam rigores contra os «roubos, injurias, mortes, forças, adulterios com as casadas, viuvas, virgens, orfans... se dizem que elrey N. S. é tão cheio de misericordia, que por males que lhe façam, tudo perdoa e quita?» Gaspar Correia achava, entretanto, indispensavel que se mandasse cortar a cabeça de um viso-rei no caes de Goa.

A misericordia de S. A. não consentia isso, mas o povo esteve por um nada a fazel-o. Quando o{pg. 290} conde da Vidigueira, ex-governador, partia para o reino, as turbas derribaram da porta da cidade de Goa a estatua do bis avô (Vasco da Gama), enforcaram-no em effigie na verga de uma náo, e envenenaram ao neto o pasto dos animaes que levava de vitualha para a viagem[108].

Mais graves e decisivos symptomas de desaggregação do ephemero imperio da India rebentavam constantemente, e por toda a parte. Ferviam as deserções; e grupos de soldados iam arrolar-se nas tropas indigenas, ou nos navios arabes, por miseria, por cubiça, por homizio, arrastados pela fome ou pelas moraxas infieis, espalhando-se em Kambai, no Balutchistân, no Afghanistân e na Persia, de um lado; em Bengala, do opposto; alastrando-se pelo Arakan, por Pegú, por Malaka, e Kamboja, até á China. Os que militavam debaixo das insignias dos reis e principes infieis eram tantos, «que sem muitas lagrimas não se poderá considerar, quanto mais escrever... e muitos se põem por soldados em navios de chatins, onde, posto que o soldo não seja tão honrado como o d'elrey, é mais proveitoso, por ser melhor pago». Em tempo d'elrey D. Sebastião havia na India 16:000 portuguezes, e não se poderam mandar 800 homens a soccorrer Malaka.

Já em Chala, no tempo de D. Francisco de Almeida, logo no começo da occupação da India, 50 marinheiros da armada do viso-rei, perante o inimigo, conspiravam para se passar aos mouros, que pagavam melhor. Estes phenomenos, pois, não provinham directamente da decadencia, manifesta agora; mas tinham causas intimas, e logo evidentes no começo da empreza.{pg. 291}

Além dos que desertavam, outros iam por conta propria estabelecer feitorias, ninhos de piratas «buscando pão para comer, por não haver armadas ou fortalezas em que lh'o deem». Assim em Tchitâgan, assim em Ugoli de Bengala, em Nagapatan na costa oriental da India, em Macau e em infinitos lugares.[109]

Para engrenar esta roda de miserias, foi do reino enviado D. João de Castro. O quarto viso-rei da India[110] era, havia muito, conhecido pela candida{pg. 292} nobreza do seu caracter, pela sua experiencia de navegador e guerreiro, e pela vastidão do seu saber, pelo seu amor ás boas lettras. Esse amor punha na sombra os dotes ingenuos do seu espirito; e esse asceta e amante mystico da natureza, qual o descobrimos nos seus escriptos, vestia a toga dos heroes antigos, para apparecer em publico na attitude classica do estylo dos seus papeis de Estado e do cortejo do seu triumpho em Goa. A preoccupação romana do XVI seculo em Portugal tinha em D. João de Castro um fervoroso sectario; e como o genio do viso-rei era de uma sinceridade candida, a affectação antiga tomava para elle as proporções de um culto. As suas phrases e gestos, copiados dos antigos heroes, não eram decerto uma mascara postiça, embora a nós se affigurem taes. Affonso de Albuquerque, porém, tinha no sangue a força de Alexandre; e a D. João de Castro só a imaginação fazia um Numa, e um Cincinnato. Mas a imaginação governava-o tanto, que lhe moldou o genio, tornando-o um exemplo vivo do poder que a educação moral é capaz de exercer sobre o temperamento. Esta construcção artificial do caracter produzia, comtudo, contradicções necessarias. O amor litterario da phrase, e o enthusiasmo da copia, arrastavam-no a cousas, senão ridiculas, extravagantes. Não ter em casa uma gallinha para{pg. 293} comer, enfermo, e confessal-o com orgulho, era de certo misturar á honradez natural uma ponta de affectação. Quando pediu a Goa trinta mil pardaus para levantar a fortaleza de Diu, mandou os cabellos das barbas por penhor; mas, com o symbolo, era forçado a dar tambem uma provisão para o thesoureiro de Goa, adjudicando ao pagamento do emprestimo o rendimento dos cavallos. Todos os casos da sua vida sympathica demonstram a nobreza ingenita de um caracter, cunhado artificialmente pela educação litteraria.

Era este o homem capaz de engrenar a roda da decomposição do imperio oriental? Não, decerto. A sua propria grandeza na honra valia pouco, por ser affectada, embora não fosse fingida. Os homens positivos e corrompidos da India sorriam d'esse espectaculoso heroe; e, vendo ao mesmo tempo a ingenuidade candida e pura do seu espirito, confiavam descansados em que não lhes viria d'ahi mal algum para os seus interesses. A propria affectação antiga do viso-rei demonstrava a fraqueza do estadista; porque só uma alma ingenua podia ligar tamanho amor ás fórmas, e a ingenuidade jámais venceu nos governos. Integro, forte, e piedoso no seu fôro intimo, D. João de Castro era um heroe e um santo; mas nem essa fórma subjectiva do heroismo, nem a santidade, foram nunca os meios de travar o movimento de decomposição de uma sociedade, ou de a impellir no caminho do progresso. Para tanto, exigem-se as almas duras, os espiritos frios, sem escrupulos, de um João II, ou de um Pombal.

D. João de Castro não tinha em si os dotes de nenhum d'esses; e o seu governo ficou inutil como uma bella pagina de moral: á maneira do livro em que lhe escreveram a vida, e que é uma boa pagina{pg. 294} de rhetorica.[111] Ficou, porém, como um sincero protesto: esse é o seu valor social-historico. Ficou como um exemplo de bravura temeraria, attestada nos cercos de Diu—quando o sultão da Turquia (Soliman II) mandou de reforço quatro mil janisaros, ou rumes sob o commando do pacha do Cairo, em auxilio de Khuajeh Safar (Cogeçofar), o ministro do rei do Gujerât—mas d'esses exemplos abundavam; ficou, por fim, como um typo, ao mesmo tempo nobre e interessante, do caracter de um santo e da influencia da litteratura no genio dos individuos, ou antes nas suas acções.

Se é que alguem havia em Portugal capaz de governar a India, o governo de D. João III demonstrou cegueira, escolhendo-o; ainda que, por distinctos que fossem os dotes de qualquer outro, é tambem facto que a empreza de levantar da anarchia o imperio do Oriente excedia as forças humanas, porque os vicios d'elle eram congenitos da sua existencia.

Ao terminar este rapido esboço da vida politica de Portugal no Oriente, convém mencionar a opinião do quarto viso-rei e as suas observações, transmittidas para Lisboa, em cartas ao monarcha. «Cá está tudo, escrevia, em estado que não ha mouro que cuyde haveis de ser de ferro para o seu ouro, nem christão que o creio.» E passava a enumerar o estendal das miserias. As armadas ficavam podres, que se desfaziam com as mãos; e não escapariam ao inverno, sem irem ao fundo. Nenhum dos soberanos do Oriente confiaria nem uma palha a um portuguez: a tanto chegára o descredito. Fôra um milagre trazer do reino á India, a salvamento, a esquadra em que viera. Todos os dias havia em{pg. 295} Goa lançadas, revoltas e desafios, capazes de maravilhar até a propria Italia. Não havia soldado que não tivesse uma ou mais mancebas. Todos desobedeciam aos capitães, e cada qual se arvorava em chefe. Por causa das mancebas dos soldados havia revoltas e desastres em todas as náus. Nas Molucas, os nossos, depois de saquearem e roubarem as casas de um certo rei, pozeram-no a ferros e «forçaram suas mulheres com tamanhas desonestidades, que se não póde dizer a V. A.—Todos são ladrões, todos, sem excepção, chatins. As cobiças e vicios teem cobrado tamanha posse e authoridade, que nenhuma cousa já se póde fazer por feia e torpe, que dos homens seja estranha. E são mais as almas perdidas dos portuguezes que veem á India, do que se salvam as dos gentios que os prégadores religiosos convertem á nossa santa fé.»{pg. 296}

[104] V. Hist. da republica romana, I, pp. 161-2 e 275-6.

[105] V. na Hist. da repub. romana, I, pp. 188-95, a descripção da pirataria mediterranea: causas identicas produzem resultados eguaes.

[106] V. Hist. da republica romana, I, p. 274.

[107] Hist. da rep. romana, II, p. 187.

[108] V. Hist. da rep. romana, I, p. 356

[109] V. nas Raças humanas, a p. LX-I do vol. I, o estado actual dos restos da colonia portugueza de Malaka; tambem I, pp. 75 e segg.

[110] 1 D. Francisco d'Almeida 1505 1.º viso-rei

2 Affonso de Albuquerque 1509

3 Lopo Soares de Albergaria 1515

4 Diogo Lopes de Sequeira 1518

5 D. Duarte de Menezes 1521

6 Vasco da Gama 1524 2.º viso-rei

7 D. Henrique de Menezes 1524

8 Lopo Vaz de Sampaio 1526

9 Nuno da Cunha 1529

10 D. Garcia de Noronha 1539 3.º viso-rei

11 D. Estevam da Gama 1540

12 Martim Affonso de Sousa 1542

13 D. João de Castro 1545 4.º viso-rei

14 Garcia de Sá 1548

15 Jorge Cabral 1549

16 D. Affonso de Noronha 1550 5.º viso-rei

17 D. Pedro Mascarenhas 1554 6.º viso-rei

18 Francisco Barreto 1555

19 D. Constantino de Bragança 1558 7.º viso-rei

20 D. Francisco Coutinho 1561 8.º viso-rei

21 João de Mendonça 1564

22 D. Antão de Noronha 1564 9.º viso-rei

23 D. Luiz de Athayde 1569 10.º viso-rei

24 D. Antonio de Noronha 1571 11.º viso-rei

25 Antonio Moniz Barreto 1573

26 D. Diogo de Menezes 1576

27 D. Luiz de Athayde 1578 12.º viso-rei

28 Fernão Telles de Menezes 1581

29 D. Francisco Mascarenhas 1581 13.º viso-rei

30 D. Duarte de Menezes 1584 14.º viso-rei

31 Manuel de Sousa Coutinho 1588

32 Mathias de Albuquerque 1591 15.º viso-rei

33 D. Francisco da Gama 1597 16.º viso-rei

Pela constituição do vice reino da India o mandato dos governadores durava tres annos, findos os quaes podiam ser reconduzidos por novo triennio, conforme succedeu a muitos, e se vê do rol supra. Com a nomeação do vice-rei iam, em cartas fechadas e numeradas, as dos substitutos; e quando occorria a morte do governador abria-se a primeira successão, na falta do individuo ahi indicado, a segunda, etc. As datas acima inscriptas e a ausencia do titulo do viso-rei mostram quem governou por successão. O titulo de vice-rei, excepcional a principio, tornou-se inherente ao cargo de governador desde 1550.

[111] J. Freire de Andrade, Vida de João de Castro.

IV Summario da derrota. Volta ao reino

Anarchicamente iniciada, a occupação da India foi, de principio a fim, uma exploração anarchica. A politica maritima e commercial de D. Francisco de Almeida, o imperio de Affonso de Albuquerque, o virtuoso reinado de D. João de Castro, provaram egualmente impotentes para organisar o dominio portuguez no Oriente, de um modo regular e duradouro. Nem a arte, nem a força, nem o santo exemplo, poderam disciplinar a turba dos invasores da India.

Causas intimas, a que de passagem temos alludido, o impediam. A Renascença, apresentando aos homens um sem numero de idéas e impressões novas, desorganisando os systemas, as crenças, as instituições e todo o organismo das sociedades medievaes, abandonou o individuo aos impulsos desordenados da natureza, pondo ao mesmo tempo nos seus actos uma energia affirmativa até alli desconhecida. Heroismo pessoal e naturalista, uma grande explosão de força, a devassidão nos costumes e a anarchia nas idéas, eis ahi em que se resume, por este lado, a Renascença. A França, a Italia, a Hespanha, a Inglaterra e a Allemanha, isto é, a Europa inteira, offerecem ao observador caracteres de phisionomia bastantes para suppôr que, se a qualquer d'ellas tivesse cabido o destino de{pg. 297} occupar as Indias, o seu imperio não teria sido melhor nem peior do que foi o nosso.

Porventura, porém, ás nações protestantes que nos succederam com superior fortuna no Oriente poderia a rigidez fanatica ter cohibido um tanto, e o genio mercantil ter mostrado mais depressa os meios efficazes de explorar a India, sem a saquear. A nós faltavam-nos os dois requisitos. O catholicismo não era então—como o era a religião protestante—uma fé intima e absorvente: era uma convicção para uns, uma convenção para outros, uma conveniencia para muitos, e um desvairamento para os defensores intolerantes da fé. Havia decerto uma affirmação religiosa unanime e violenta; mas desapparecera a unanimidade ingenua e espontanea da crença, que radica as religiões. O catholicismo atravessára uma crise, de que saíra malferido; e a violencia com que se impunha, estava denunciando que ficára sendo, antes uma expressão de authoridade, do que uma expansão de sentimento popular. Isto fazia com que o povo, sem renegar o catholicismo, fosse caíndo n'um relaxamento; e que, ficando com a religião, deixasse de lhe dar significação ou importancia moral. Muita devoção e muita devassidão; eis ahi a concomitancia resultante, e universalmente provada pelos costumes das nações catholicas depois da Renascença.

Apesar do catholicismo, podemos, pois, dizer que não havia no dominio da India uma religião capaz de moralisar o imperio, embora houvesse exemplos de uma santidade heroica como a de Antonio Galvão, o apostolo das Molucas. Mas taes exemplos eram excepções, e faltando o primeiro elemento de ordem, quando os motivos sociaes não se tinham definido ainda de um modo sufficiente, o individualismo naturalista do tempo arrastava os{pg. 298} homens a todas as desordens, precipitava-os em todos os crimes; e umas e outros cresciam tanto mais, quanto maior era a força intima, o arrojo, a temeridade dos guerreiros. Sobre isto, a influencia dissolvente do clima, do luxo, da sensualidade oriental, veiu lançar a sua semente de corrupção; e o individuo, desarmado, sem crenças nem leis, vivendo ao bel-prazer dos seus instinctos e paixões, caíu n'um poço de ignominias, perdendo inteiramente a noção do proprio brio, da força, e tornando-se, de um pirata, em um chatim.

A estas causas geraes é necessario addicionar as causas particulares, provenientes da incapacidade fortuita dos governos em Lisboa; e porventura, se a India se tivesse descoberto meio seculo mais cedo, o genio politico de D. João II teria desde o começo evitado graves transtornos. D. Manoel e os seus conselheiros tinham para a India um plano só: exploral-a, e arrastar a Lisboa, por quaesquer meios, as riquezas do Oriente. Systema e programma de governo foram cousas desconhecidas; e assim vemos que a occupação muda de caracter com os successivos governadores, e ao sabor das idéas ou das inclinações de cada um d'elles. A India soffre de todos os inconvenientes dos governos electivos e temporarios, sem gozar das vantagens dos governos hereditarios; e é n'isso que se fundará sempre a accusação de incapacidade que a historia formula contra o nosso dominio.

Porém essa incapacidade trazia raizes de mais fundo. Explorar o Oriente commercialmente á hollandeza, era cousa para que o nosso genio nos não chamava. Nos estadistas não houve a perspicacia bastante para medirem as differenças que distinguiam Portugal de Veneza, e as condições do commercio anterior do Oriente das condições em que{pg. 299} elle ia achar-se, desde que nós chegámos por mar, armados, á India. A geographia dera aos arabes o dominio indisputado dos mares das Indias; e era ella tambem que fazia dos venezianos os alliados do Turco, e de Veneza o emporio do commercio oriental. Para nos substituirmos na India aos arabes, na Europa a Veneza, tinhamos contra nós, não só a geographia, mas ainda e principalmente outra circumstancia. Indo despojar os arabes da sua preza, deviamos commerciar de armas na mão, manter poderosas esquadras n'esses mares longinquos outr'ora avassallados pacificamente por visinhos.

Estas causas naturaes, alliadas ás causas egualmente naturaes da falta de tirocinio commercial, produziram um genero de exploração, até certo ponto novo na historia; porque não é propriamente uma razzia, como as conquistas dos antigos persas ou assyrios, pois pretende ser um commercio; mas, como o commercio só póde fazer-se á sombra da fortaleza ou á vista da esquadra, as transacções andam sempre misturadas com pilhagens e mortes, com roubos e violencias. Isto dá aos nossos capitães da India uma phisionomia original na sua dualidade. Vê-se de um lado um mercador, como foram outr'ora os carthaginezes ou phenicios; mas vê-se no mesmo homem um soldado, como os de Cyro, ou Assurbanipal.[112]

Uma tal confusão de cousas, um tão grande cahos de elementos oppostos e idéas contradictorias, bastavam para arruinar breve e necessariamente o imperio; ainda quando, por sobre tudo isto, o caracter do portuguez, pouco vivo na sua audacia, bronco, cheio de orgulho ingenuo, mais temerario{pg. 300} ainda que valente, presumpçoso e fanfarrão, não viesse accrescentar difficuldades; ainda quando o ar inebriante, os venenos adormentadores, as seducções perigosas, os vicios extenuantes do encantado Oriente, não viessem entorpecer os braços e perverter o espirito dos occupadores.

O padre Manuel Godinho, que estava na India pelo meiado do XVII seculo, dividia em quatro epochas a historia do nosso dominio oriental. A primeira eram os 24 annos do reinado de D. Manuel; a segunda os 35 do de D. João III; a terceira vinha do 1557 a 1600; e a quarta, finalmente, até á epocha em que elle viajava no Oriente.

Logo na primeira, o dominio portuguez conseguira alargar-se por todas as costas e ilhas, desde Sofala até Malaka; isto é, pela Africa Oriental, pela Persia, por todo o Hindustan, do Indo ao Ganges, e pela Indo-China. Algumas, poucas, cidades propriamente portuguezas, feitorias e fortalezas espalhadas por toda a parte, e a vassallagem dos soberanos em cujos Estados assentavam: eis ahi a fórma do nosso dominio. Goa e Malaka eram nossas; e tributarios da corôa portugueza os soberanos (independentes ou subalternos, porque o regime politico indigena era feodal)—o de Hormuz, na Persia; o de Tidore, nas Molucas;[113] o de Simhala; o das ilhas Malajas; o de Batukala (Batecalá), no Kanará; o de Kollan, em Karnataka, na extremidade austral da peninsula da India; e na costa de Africa, os de Malinda e de Quilua. Além d'estas suzeranias, algumas dellas consignadas apenas nos{pg. 301} tratados, varias fortalezas garantiam a vassallagem de outros territorios. A de Sofala era a primeira, para quem vinha do reino pelo Cabo; depois a de Sokotra na ilha d'esse nome, junto ao Jar-Hafun, dominando a embocadura do mar Vermelho; d'ahi Hormuz, na garganta do golpho persico; depois, na costa occidental da India, descendo para o sul, Chala, Anjediva, fronteira a Goa; Kananor, Kalikodu, onde Vasco da Gama primeiro aportou; Kadunguluru (Cranganor); Katchi, theatro das façanhas de Duarte Pacheco; e Kollam (Coulão), proximo do cabo Kumâri. Sobre as ilhas do oceano indico havia a fortaleza de Malaia (Maldiva), e a de Kola-ambu (Colombo) em Ceylão; e finalmente, lá para os confins orientaes, Persaim (Pacem) no Pégu,[114] e Ternate nas Molucas.

Os annos do segundo periodo viram consolidar-se estes dilatados dominios por meio de numerosas fortalezas que, completando o systema esboçado pelas antigas, bordavam de feitorias todas as costas. Na oriental da peninsula hindustanica, ou de Cholamandalam (Coromandel), levantaram-se os presidios de Nagapatan e de Mahabalipurum (Meliapor, S. Thomé). Completou-se a occupação da ilha de Ceylão por meio de fortalezas e colonias-feitorias[115] de Jafanapatan, de Negombo, de Kalitura (Calaturé) e de Galla, na costa occidental; e de Pattikalo (Baticaloa) e Trinkonomali (Triquimalé), na oriental. Bassaim, Daman e Diu, além de outros pontos fortificados, asseguraram a costa de Kambai. Incessantes guerras, bem succedidas, abateram as revoltas, consolidaram dominios antigos, ou alargaram o imperio portuguez. Assim, a{pg. 302} derrota final do Samudri de Kalikodu, do sultão de Kambai, do Shah de Vijajapur (Hidalcão), do Nizam de Ahmednagar (Melique, Isamaluco, Nisamaluco, ou Nisamoxá), garantiram a posse pacifica de toda a costa occidental da India, no Gujerât, em Kontana, no Kanará. As guerras da Indo-China firmaram o poder portuguez em Jadithani (Ujantama), no reino de Annam, e em Johor: em Bintang (Bintão), na ponta extrema da peninsula de Malaka; em Atchim (Achem), na ilha de Sumatra; e a submissão de todo o archipelago de Sunda até ás Molucas completou, por oriente, o imperio colonial portuguez, reproducção do velho typo grego e liby-phenicio.[116] Por occidente, os resultados eram menos decisivos; e se as duas costas que levam ao estreito de Bab-el-Mandeb se confessavam tributarias de Portugal, nem em Aden ao norte, nem ao sul, na costa de Adal, o nosso dominio era positivo. O musulmano guardava com ciume a porta do mar santo de Meka; e os mercadores arabes sabiam que, mais ou menos embaraçados, jámais seriam de todo expulsos do commercio da India, emquanto possuissem o mar Vermelho, onde os inimigos iam, sim, mas não conseguiam fixar-se. De arma ao hombro, na sua ilha de Sokotra, e a bordo das armadas que cruzavam no golpho do mar da Arabia, o portuguez espiava o armamento das esquadras de rumes e os comboyos das náus de Meka; mas não faltavam opportunidades para que umas e outras, astuta ou violentamente, conseguissem atravessar o estreito, entrando ou saíndo para mercadejar ou combater.

No terceiro periodo conserva-se, não se alarga o dominio da corôa; ainda que na Africa oriental e{pg. 303} na costa do Malabar apparecem novos presidios. São, no Kanará, Barkuluru (Barcelor), Mangaluru (Mangalor), e Hanavare (Onor). Na Africa, pela derrota e morte do rei de Laum, a fortaleza de Patta; mais ao sul a de Mombas, e a da ilha de Pemba; e além do Zamgebar, já avassallado, Monomotapa, na costa de Moçambique. Afóra isto, funda-se ainda Sirian, no Pégu; e Hugli (Golim), em Bengala, sobre o delta do Ganges.

Porém o acontecimento mais grave d'este periodo foi a guerra simultanea do Adil-Shah contra Goa, do de Ahmednagar contra Chala, do Samudri contra Kalikodu. Os principes indigenas da India Occidental, collocados contra o portuguez, foram porém batidos; ao mesmo tempo que o era o de Atchin (Achem) atacando Malaka; e que um pirata incommodo e celebre nos mares da India, o Cunhalle (Kunji-Ali-Markar), era degollado em Goa depois de tomado o seu forte de Pudepatan, d'onde saía ás prezas.

Apesar dos symptomas de decomposição, o imperio commercial portuguez attingia, no fim do XVI seculo, o seu apogeu. As frotas singravam, carregadas de preciosidades, até aos mares do Japão e da China, d'onde traziam a prata e o ouro, sedas e almiscar. Das Molucas vinha o cravo, de Sunda a massa e a noz, de Bengala toda a sorte de finissimos tecidos, do Pégu os rubis, de Ceylão a canella, de Mausalipatam os diamantes. Na pequena ilha de Manaar, junto a Ceylão, carregavam-se as perolas e aljofares; em Atchin, na Sumatra, o benjoim; das ilhas Malajas trazia-se o ambar; e Ceylão exportava elephantes, por Jafanapatan. Katchi contribuia com os angelins, tekas e couramas; toda a costa com a pimenta, e com o gengibre o Kanará. Nas ilhas de Sunda, Madurá fornecia o salitre,{pg. 304} Solor o pau, e Bornéo dava a camphora. De Kambai vinham o anil, o lacar, os tecidos; e Chala era celebre pelas suas baetas. Hormuz vendia os cavallos da Arabia, e as sedas e alcatifas da Persia: e, do outro lado do mar da India, a Africa dava em Sokotra o azebre, em Sofala o ouro, em Moçambique o marfim, o ebano e o ambar. Além dos preciosos carregamentos, além dos lastros de arroz do Kanará para mantimentos, e de pimenta que era um estanco régio, as náus da corôa levavam, de Diu, de Hormuz e de Malaka, as grossas quantias de dinheiro que n'esses tres pontos estrategicos se cobravam, pelos cartazes que ahi compravam os navios mercantes.

As causas de decadencia, tão antigas como a descoberta, mas avolumadas todos os dias, precipitaram porém a queda, logo que, pela união a Castella, Portugal se achou envolvido nas guerras com a Inglaterra e a Hollanda. Mais tarde ou mais cedo, de um ou de outro lado, é, porém, fóra de duvida que o dominio portuguez na India, corroido de tão grandes lepras, cairia, desde que os protestantes, maritimos e mercadores, seguissem caminho do Oriente, pelo cabo da Boa-Esperança, na esteira das náus portuguezas. Já por vezes piratas francezes tinham ido por ahi á India; e se, com o inglez, nem o hollandez lá fôra ainda, era porque lh'o impediam as condições e embaraços que, a religião para um, para o outro a independencia, levantavam na Europa. Batida a Hespanha pela Inglaterra protestante e pelas Provincias-unidas independentes, ambas estas nações, alliadas, iam batel-a na India, com a facilidade com que se vence um inimigo doente, mal apercebido, cheio de vicios e molestias.

Os que no meiado do XVII seculo observavam o{pg. 305} imperio portuguez, diziam no estylo pretencioso do tempo: «Está o estado da India tão velho que só o temos por estado. Se foi gigante é pigmeu. Se foi muito, não é já nada.» Era apenas Goa e Macau, Bassaim, Daman, Diu, Moçambique e Mombas. Já não havia armadas nos mares; e os hollandezes e inglezes, fomentando a rebellião dos naturaes, e auxiliando-os, substituiam-nos, como nós tinhamos substituido os arabes—mas com outra arte e muito juizo.

Uns preferiram a Indo-China, outros as partes occidentaes; e em cincoenta annos varreram das costas e ilhas os presidios e feitorias portuguezas. O inglez combateu ao lado do persa em Hormuz para nos expulsar, e o exito levantou todos os naturaes. O soberano do Arakan lança-nos fóra do Pégu, o de Bengala despede-nos de Hugli, perdemos assim Mahabalipurum e na contra-costa, Mangaluru, Barkuru, Hanavare, Chala, Kalikodu. A perda de Hormuz arrastou comsigo Maskat, com a qual se foram todos os estabelecimentos no litoral da Arabia até ao mar Vermelho; e desguarnecida a costa do norte, inutil era conservar Sokotra e os pontos fronteiros no Adal, que foram abandonados com Quilua em Africa, as ilhas de Malaja e Anjediva, e Passir (Pacem) em Sumatra.

Os hollandezes herdavam, do nosso imperio do extremo Oriente, tudo o que não voltava a caír no poder dos naturaes. Outro tanto succedia na India. Da Africa, Arabia, e Persia, isto é, das fronteiras occidentaes, ficavam-nos Mombas e Moçambique;[117] das fronteiras orientaes, o ponto isolado de Macau, já na China, e Solor; do centro, restavam apenas uma cidade e quatro fortes—memoria, mais do{pg. 306} que dominio, em frente d'esses mares, onde já se não via tremular a bandeira portugueza em poderosas esquadras como as de outro tempo.

Ambon, Tidor, Ternate nas Molucas, Malaka na sua peninsula, Madura e toda a Sunda, eram hollandezas; os nossos antigos pontos de Ceylão—Kola-ambu e Kalitura, Negombo e Battikalo, Trinkonomali, Galla e Jafnapatan, com a ilha de Manaar visinha—pertenciam-lhe tambem; e nas duas costas da peninsula hindustanica tinham-nos tomado egualmente Negapatan de um lado, Kollam, Kadunguluru, Kananor, e Katchi, do outro. Abertamente se proclamava a queda do imperio portuguez, e até os mais infimos blasonavam. Um regulo do Arrakan escrevia nos seus estandartes: «Fatekan, senhor de Sundiva, derramador do sangue dos christãos e destruidor da nação portugueza!»

Tudo estava perdido, e a viagem terminada. Não havia outra cousa a fazer, senão voltar a casa: embarcar para o reino, com o producto das rapinas, dando a pôpa a esse mundo, onde a nossa missão terminára.

Cada capitão que, nos bons tempos, regressava da India, fazia outro tanto: cerrava as arcas atulhadas de ouro e pedrarias, arrumava a bagagem no porão, e largava as velas á náu, dizendo adeus para sempre ao Oriente!

Assim aconteceu em 1589 a D. Paulo de Lima, o que assolára Johor, na Malasia.[118] Foi em janeiro d'esse anno funesto que embarcou em Goa. Vinha rico; e a náu gemia com o peso do carregamento,{pg. 307} abarrotada com um lastro de pimenta a granel, o convez atulhado de arcas, fardos e escravos. O capitão trazia comsigo a esposa e domesticos; e embarcaram com elle, de passageiros, numerosas pessoas: soldados de retorno, frades, clerigos e mulheres.

Como na India não havia estaleiros onde os navios podessem vêr o fundo e passar o calafeto, a náu, já velha e demasiadamente grande, voltava em mau estado. Ao embarque benziam-se todos e imploravam a protecção dos frades, lembrando-se dos muitos naufragios que o tamanho e má condição das náus multipticava todos os dias. Este contava que da esquadra de Kalikodu, no anno anterior, tinham desapparecido quatro náus com toda a gente, vindo um mastro com a cordoalha da enxarcia entrar pelo rio de Daman. Aquelle, que já tres vezes fôra á India, narrava o naufragio celebre da Flamenga, e chamava ás náus sepultura de homens, e vasos de desastres: e um, persignando-se, contrito, dizia que as náus iam e vinham tão alastradas de peccados, que nas tormentas se ouviam falar os demonios claramente. Os religiosos não declaravam que fosse impossivel, mas recommendavam resignação e esperança no auxilio divino; intercalando nos seus discursos phrases breves, n'um latim sagrado.[119]

Entretanto a viagem seguia feliz com um mar bonançoso. Todos confiavam em que Deus não deixaria de proteger um capitão piedoso como era D. Paulo de Lima. Isto, porém, não impedia que fossem commentando as tristes cousas do mar; e com tanta maior liberdade, que começavam a crer-se{pg. 308} salvos d'esses perigos, á medida que viam irem-se approximando do terrivel cabo da Africa. Asseguravam que nem um terço dos que embarcavam em Lisboa chegavam á India, e isto ninguem impugnava, por ser verdade reconhecida; e que a volta ao reino acabava os que as doenças da terra, a miseria e a guerra tinham poupado no Oriente. Era um sorvedouro de homens, era... De 700 a 800 que cada náu levava, só metade vinha a servir. Depois, queixavam-se dos calafates que lançavam os navios ao mar, mal feitos e mal vedados; e referiam os numerosos casos de agua-aberta, dentro do Tejo, em navios novos. Outros accusavam o modo deshumano com que se arrumava a bordo muita mais gente do que a lotação permittia: iam como carneiros, a monte, nas toldas, expostos ao sereno mortifero das noutes, sem camas nem para os enfermos, respirando o ar podre das cobertas: por estas causas havia o escrobuto, as febres podres, as dysenterias... como se não bastassem os perigos do mar e dos ventos! Na náu em que fôra á India D. Antonio de Noronha iam 900 pessoas: metade morreu na viagem. Além d'isso os capitães—era sabido—roubavam nos mantimentos, e para poupar, escolhiam generos da peior especie. Tudo ia avariado e podre, a agua corrompida. N'uma viagem de seis mezes, como a da India, abasteciam-se para cinco apenas: d'ahi resultavam fomes.

Estas conversas exaltavam muitas vezes os animos. Como punham nos crimes o nome dos réus, levantavam-se os partidos; e mais de uma vez houve rixas tão bravas, que o capitão se viu forçado a leval-os de roldão, para debaixo do castello de prôa; e os frades, atraz, de crucifixos nas mãos, prégavam paz e amor, com orações pausadas em latim.{pg. 309}

Os fidalgos e religiosos, no chapiteu da pôpa, commentavam as queixas dos soldados, reconhecendo que, em verdade, tinham razão; e como eram mais letrados, ligavam os effeitos ás causas.

A abundancia da pimenta e uma economia mal entendida tinham exagerado as dimensões dos navios, ainda por cima aggravada pelo excesso das cargas. Era funesta uma cubiça, causa de tantas victimas; mas o mal vinha de longe, desde o reinado de D. João III. Os navios, mal desenhados, de muito porão, e, por cima de tudo, abarrotados, não obedeciam ao leme, e eram ronceiros... Verdade seja dita, os antigos não tinham podido admirar as monstruosas carracas de sete e oito cobertas, com alojamento para dois mil homens e porões para mil tonelladas de carga. Cada um d'esses navios parecia um reino! Armavam peças de vinte tonelladas de peso e calavam mais de dez braças. O costado media cincoenta palmos acima do lume de agua á meia náu, e chegava a oitenta nos castellos á pôpa e á prôa. Os baileus, que os ligavam, tinham dois andares: e nos cestos de gavea cabiam dez ou doze homens, para manobrar os canhões pequenos: berços e sacres. Mas as carracas, observavam tambem, eram pessimas no mar: boiavam, não andavam. E um dos fidalgos velhos contava como era o S. João, o Botafogo em que fôra, em 1535, com a divisão portugueza, a Tunis, na expedição de Carlos V.

E por fim, esquecidos de males distantes, todos concordavam em admirar a grandeza de Portugal, onde havia sempre para mais de 400 navios de alto-bordo, além de perto de 2:000 caravelas e vasos menores... porque o tempo ia bonança, e o vento fresco levava-os rapidamente, pelo canal de Moçambique, direito ao Cabo.{pg. 310}

Estavam em 26° quando, porém, quasi á vista da ponta austral de S. Lourenço (Madagascar), deram por uma agua que a náu fazia. Tudo correu aos porões, clamando contra os calafates, por cuja causa as náus se perdiam, andando pelo mar a Deus misericordia, por pouparem quatro cruzados. Afastando a carga, viram que a agua era na prôa, abaixo das escôas, ás primeiras picas: cuspia as estopas e as pastas de chumbo do fôrro, jorrando no porão, d'um torno tamanho que por elle cabia um punho. Mas, como o tempo estava bonança, não se affligiram demasiado, depois de terem vedado o rombo com saccas de arroz; e foram rumando para o sul, até 32°, a oitenta leguas da terra do Natal. Já levavam tres mezes de viagem.

Foi então que o vento rondou a sudoeste, o que os forçou a fazerem-se na volta do norte. O mar crescia, e com o quebrar das vagas a náu desconjuntava-se, e o torno da prôa, vedado com arroz, cedeu. Agua aberta e temporal desfeito: era um dia de juizo! Começaram a ouvir-se os demonios, e as mulheres a gritar em ais. Cada qual implorava o seu santo, a sua Nossa-Senhora, com uma fé simples e espontanea, beijando os relicarios e bentinhos, resando em voz alta, confessando em grita os seus peccados, arrepellando os cabellos, estorcendo-se nas ancias do medo da morte e do inferno. Decorriam os expedientes devotos e pediam-se milagres. O capitão levava a bordo uma cruz de ouro com uma particula do Santo-Lenho engastada: reliquia, fetiche, em que todos punham as maiores esperanças. Amarraram-na com um fio de retroz, ataram-na piedosamente a uma espia, lançaram-na pela pôpa, a vêr se moderavam a sanha do mar. A náu rolava com as ondas, o Santo-Lenho, seguro na pôpa, com um prégo para o afundar, seguia{pg. 311} os balanços do navio. Milagre! milagre! exclamaram quando o céu aclarou, amainando o vento, parecendo socegar as ondas. Os homens—fidalgos, soldados e escravos, brancos, pretos, mulatos e amarellos, pozeram mãos á obra, confiando ainda na salvação. Havia seis palmos de agua no porão; mas apesar da ancia, revezando-se nos aldropes das bombas, não conseguiam vencel-a. Alijaram ao mar toda a carga do convez, para libertar as escotilhas e alliviar a náu que vinha abarrotada. Nos porões a carga nadava, e as pranchas de brazil, as pipas da aguada, e mais volumes, boiando, eram lançados pelos balanços do mar contra o costado, batido por fôra com violencia pelas ondas. O temporal recrescia; o Santo-Lenho não queria protegel-os! Era um inferno e um desespero de estrondos, com o assobiar sinistro do sudoeste na cordoalha das enxarcias. Como as bombas não vasavam os porões, estabeleceram forcas nas escotilhas, e por ahi tiravam a agua em barris, como de um poço. D. Paulo de Lima não fugia ao trabalho, puxando á corda como os escravos. Nem comer podiam; e os frades iam de uns a outros, com agua e biscoitos, matando-lhes a fome e a sede, combatendo o cansaço com exhortações, e recommendando contra a desesperança que confiassem na providencia de Deus...

Tres dias, desde 12 a 14 de março, conservaram a fé e os brios. Ao quarto viram que trabalhavam debalde. A agua já inundava a coberta, e só no convez se podia estar. As bombas não trabalhavam, entupidas com a pimenta a granel do porão; e só á custa do muito que iam alijando—todo o fructo das rapinas da India!—conseguiam que o navio não sossobrasse. Já tinham resolvido varar na terra; mas o temporal crescia sempre, e no{pg. 312} meio da cerração plumbea, não podiam governar-se. Para mais, uma vaga partiu o leme. O vento sudoeste vinha batido em salseiros rijos, que despedaçavam o panno. A pobre náu era um destroço, com que as ondas brincavam na sua furia. Assim estiveram, perdidos e já sem esperança, duas noites e um dia. De 14 para 16, os transes foram medonhos. Em montes, estendidos no convez, os homens, ou blasphemavam, ou se confessavam em voz alta, accusando todos os seus crimes, os roubos, as violencias, os estupros, as matanças da India, e pedindo em lagrimas, aos clerigos, que os salvassem das penas do inferno! As mulheres, pranteando-se, levantavam um choro de resas, lembravam-se dos seus santos favoritos, as nossa-senhoras particulares da sua devoção, fazendo votos e promessas. Os frades ouviam as confissões, absolviam, deixando semi-mortos, na confiança do perdão, os que antes clamavam em desespero, movidos pelo terror. E por sobre tudo isto os salseiros rijos do vento assobiavam nas cordas, bradando: morte! morte! «D. Paulo havia que aquelle castigo era por seus peccados.»

No dia 16 o tempo clareou um pouco: e no rumo de nor-nordeste que levavam, descobriram terra á prôa. A noute de 17 passou-se em afflicções e esperanças; mas quando amanheceu, e os olhos ávidos não poderam tornar a vêr a costa, decidiram formalmente deitar o batel ao mar. Logo todos se precipitaram no barco, ainda suspenso nos apparelhos. A ancia de viver enlouquecia-os; e D. Paulo em pé sobre o batel, com a espada e a adaga em punho, defendia-o, acutilando os invasores, como n'uma abordagem. O seu abatimento, a sua fraqueza, a sua desesperança, apagavam-se, varridos pela aurora derradeira. Repellidos os homens, o batel desceu e{pg. 313} poisou no mar. Depois veiu remando, pela pôpa da náu, para receber pela varanda os fidalgos, suas mulheres, e os frades: o commum dos infelizes tinha a bordo um tumulo feito. Com os balanços da náu e o impulso da vaga, o batel ameaçava despedaçar-se a cada momento contra o costado; e as mulheres desciam, penduradas em cordas de lançoes e pannos, até ao mar, onde as apanhavam.

Os do batel gritavam, desesperados por partir, porque a gente era demais e o barco afogava-se; os da náu gesticulavam, bradando em furia para que os salvassem. Uma escrava, com o filho da senhora nos braços, mostrava-o de bordo á mãe que lh'o pedia, exigindo que a salvassem, se queriam salvar da morte a creança. E os marinheiros condemnavam, em altos gritos e phrases insultuosas e obscenas, D. Paulo e os fidalgos, pelos abandonarem cruamente a uma morte miseravel. Mais difficil fôra o naufragio da nau Santiago, no baixo da India, e tinham-se salvado todos em jangadas. Não abandonassem os infelizes, lembrando-se apenas de si, os fidalgos malditos! Havia tempo para formar uma jangada, onde todos iriam, guiados pelo batel.

N'este desespero infernal e no meio da explosão de egoismo feroz houve um unico heroe: um frade que não saiu de bordo, sem ter confessado todos os condemnados. Absolvidos, lançou-se ao mar, e foi a nado agarrar-se ao batel que se afastava pesadamente: o habito salvou-o, porque os do barco não ousavam repellir o sacerdote, como repelliam a golpes os mais que vinham a nado. Na imminencia da morte, escrupulisavam de matar um padre.

Por toda essa noute de angustias, o batel vogou nas aguas da náu: os remos não podiam vencer a força das ondas, e o vento arrojava-o para o mar. A carga era demasisada, e reconhecendo isto, deitaram{pg. 314} fóra seis homens; depois mais seis, ficando de 110, em 98, ao todo. A bordo da náu havia mais de outro tanto.

Condemnados a uma morte inevitavel, já confessados e absolvidos, estavam resignados. Ainda tinham formado duas jangadas, que o mar logo devorou: e depois d'isso unanimemente resolveram morrer, a bem com Deus. Os do batel viam no escuro da noute as luzes das velas accesas ao retabulo da nossa-senhora do castello da pôpa,[120] diante do qual, prostradas de rastos, com os cabellos desgrenhados, chorando, as escravas resavam. Os homens faziam procissões sobre o convez, cantando ladainhas e hymnos. Pela manhã viram o batel tão perto que chegaram á fala; e pediam ainda que os salvassem com vozes tão profundas e piedosas, que mettiam medo e terror.

Finalmente, n'um clamor de gritos e n'uma columna de fumo, espadanando a agua, a náu sossobrou: no alto do capitel da pôpa a escrava, com a creança nos braços, mostrava-a á mãe, desolada no batel. A náu sossobrou, enterrando comsigo os homens, as mulheres e «as cousas da India, adquiridas pelos meios que Deus sabe».

A viagem da India não terminou aqui. O imperio submergiu-se, mas os salvados foram arrastando ainda, pela arenosa costa, uma vida de miseria e perdição...

O batel foi dar á terra em 27°20' sul, na terra dos fumos, a que os cafres chamam Macomata, a Zuluandia. Desembarcaram, os restos da náu da{pg. 315} India; e achou-se que tinham 5 espingardas, 5 espadas e um barril de polvora. Eram ao todo 98. Dos remos fizeram contos de lanças, e ferros das verrumas dos carpinteiros. Formaram em columna, seguindo costa em fóra, em demanda de Lourenço Marques.

Á frente ia um frade com a cruz alçada; depois D. Pedro de Lima com metade da gente e das armas, na cauda o capitão da náu com o resto; e, entre ambos, as mulheres, umas de pé, outras em andores levados por marinheiros e grumetes, e feitos com os remos e velas do batel. Seguiam a columna bandos de cafres, com quem por vezes tinham de pelejar, e que fugiam rebolando-se no chão e em gatinhas, como bogios aos saltos. Dormiam na areia ao relento; comiam alguma cousa que apanhavam, principalmente os caranguejos da praia; levavam os pés empolados e em chagas... Em tamanha miseria se tornára o antigo imperio com que tinham andado pela India, pela Arabia e por Johor, em Malaka!

Na altura de 26°30' depararam com os restos das jangadas da náo Santiago; uma sorte commum esperava, no regresso, todos os que vinham da India; e esses desastres eram os da nação, que em massa embarcára, e agora em massa tambem naufragava. «Estas desventuras e outras, diz o chronista, que cada dia se vêem por esta carreira da India poderam servir de balizas aos homens, principalmente aos capitães de fortalezas, para n'ellas se moderarem com o que Deus á boa mente lhes dá, e deixarem viver os pobres».

Os naufragos, miseraveis e famintos, internaram-se em Manhica, achando nos cafres a protecção e carinho que negavam no Oriente aos naturaes. Dispersaram-se em varias direcções, indo uns por{pg. 316} mar a Inhambane; e na ilha de Inhaca, D. Paulo «caío em cama, ou para melhor dizer, no chão», e morreu...

Não eram, porém, sómente as ondas que, punindo a desordem e a avidez, tragavam os navios podres e abarrotados; eram tambem os nossos inimigos, cruzando nos mares da India, que apresavam as náus portuguezas, como outr'ora nós tinhamos apresado as dos arabes e egypcios.

Cornelio Honteman, perseguido pela Inquisição de Portugal, fôra para Amsterdam, e publicára o que sabia das viagens da India, incitando os hollandezes com as perspectivas de grossos lucros. Em 1595 partiu de Texel a primeira frota hollandeza que dobrou o cabo da Boa-Esperança; e já em 1591 os inglezes tinham feito uma viagem á India. Em 1602 fundou-se a companhia hollandeza das Indias orientaes: foi no primeiro quartel do XVII seculo que o imperio portuguez caíu.

Tudo se desmoronava de um modo simples e rapido. As esquadras perdiam-se inteiras; e tantas desgraças abatiam os animos antigos, a ponto de tornarem a covardia tão vulgar, como eram de antes a audacia e a bravura. Entre outros casos, conta-se o de um philippebote hollandez tomando um galeão que montava dobrada artilheria e guarnição. Em 1591 e 92, de 22 navios de alto bordo saídos da India, só duas náus chegaram ao Tejo, porque vinham vasias por velhas. Quer á ida, quer á volta, os cruzeiros inimigos caçavam as nossas frotas; e a destruição do poder maritimo portuguez garantiu para todo o sempre a destruição consummada do imperio do Oriente.

Essa louca viagem, sem pilotos habeis, terminava por um breve naufragio; e os mares que, no seculo XV nós vencemos com tamanha audacia, vingavam-se,{pg. 317} no XVI, do nosso atrevimento. Rasgáramos as nuvens do Mar Tenebroso; mas, para além dos seus confins, fomos perder-nos no seio dos nevoeiros prognosticados pelos geographos arabes, no meio das trevas da nossa perversidade. A natureza offendida punia-nos com a morte; e o destino implacavel retribuia-nos todos os males com que tinhamos flagellado o proximo.

[112] V. Raças humanas, II, pp. 185-91, e Taboas de Chronol., pp. 45-9.

[113] V. ácerca dos costumes dos indigenas. Quadro das instit. primit., pp. 14-5, 158, 160-1, 174; e Regime das riquezas, pp. 56, 65, 85, 109.

[114] V. Regime das riquezas, p. 109.

[115] V. O Brazil e as col. port., L. IV, 3.

[116] V. Hist. da rep. romana, I, pp. 183-91.

[117] V. O Brazil e as colon. Port. (2.ª ed.), p. 36.

[118] V. Hist. da republica romana, II, p. 185.

[119] V. a estatistica dos naufragios no Brazil e as colonias port. (2.ª ed.), p. 34, nota.

[120] V. Hist. da republ. romana, I. pag. 194.

FIM DO TOMO PRIMEIRO

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INDICE

DO

TOMO PRIMEIRO

ADVERTENCIA

LIVRO PRIMEIRO

Descripção de Portugal

I. Os lusitanos

II. Fundamentos da nacionalidade

III. Geographia portugueza

IV. A terra e o homem

V. A historia nacional

LIVRO SEGUNDO

HISTORIA DA INDEPENDENCIA

(DYNASTIA DE BORGONHA: 1109-1385)

I. A separação de Portugal

II. A conquista do Al-Gharb

III. A monarchia e a justiça

IV. A crise

LIVRO TERCEIRO

A conquista do Mar Tenebroso

(DYNASTIA DE AVIZ: 1385-1500)

I. O Infante D. Henrique

II. Portugal em Africa

III. O principe perfeito

IV. Em demanda do Preste-Joham das Indias

LIVRO QUARTO

A viagem da India

(1500-1640)

I. D. Francisco d'Almeida

II. Affonso de Albuquerque

III. D. João de Castro

IV. Summario da derrota. Volta ao reino

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