NOÇÕES MYTHOLOGICAS
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1.º Theogonia grega.—A Terra (Gé) gerou por si mesma o Céu (Urano) e o Mar (Ponto). Da alliança entre o Céu e a Terra nasceram os Cyclopes e os Titans.
Os cyclopes forjavam os raios. Dos Titans, uns vagueavam pela Terra como o Oceano, deus marinho, cujos filhos e filhas eram os rios e as fontes, outros esplendiam nas regiões ethéreas ou cruzavam o espaço, como Hypérion (luz primitiva), Théia (claridade diurna), Hélios (sol), Seléné (lua), Eos (aurora), o{8} céu nocturno com as suas estrellas (Léto e Astéria), os quatro ventos (Zéphyro, Bóreas, Noto, Euro); outros representavam os destinos e as tendencias do espirito humano, como Japeto e seus filhos, Atlas, Menecio, Prometheu e Epimetheu (Prometheu que roubou aos deuses o lume e por isso Zeus o amarrou n'um rochedo onde um abutre lhe devorava as intranhas; Epimetheu, marido de Pandora, de cuja boceta sahiram todas as miserias da Terra ficando-lhe só a esperança no fundo); outros eram as forças amigas ou inimigas da humanidade, Themis (guarda da ordem legal e moral), Mnemosyne (memoria), mãe das 9 Musas, Hécate, deusa da noite. O mais novo dos Titans foi Chronos, que destronou seu pae, Urano.
Das gottas de sangue cahidas no chão nasceram as Erinnyas ou Euménides (Furias na Mythologia Romana), e os Gigantes. Da espuma do mar nasceu Aphrodite ou Anadyómena (Venus na Myth. Rom.), a deusa do amor. Da ligação de Gé com o mar proveio Nereu e d'este as nymphas maritimas ou Nereides (aspectos risonhos do mar) e Thaumas, Phorcys, Céto (fenomenos terriveis das ondas). De Thaumas nasceu Iris (o arco iris) e as Harpyas (trombas, redomoinhos). De Phorcys e de Céto vieram as Graias (as tres velhas com um olho e um dente só), as Gorgones (Stheno, Euryale, e Medusa, tendo serpentes na cabeça em vez de cabellos), as Hesperides (que guardavam os pomos de oiro no Jardim do Occidente). Do filho de Medusa nesceram os espectros Cerbero, Hydra, Chimera.
A Noite deu o ser a estes de influencia mysteriosa ou nociva: o somno, os sonhos, a morte, o destino (Ker), as tres Mœra (Parcas na Myth. rom.): Clotho, Lachésis, e Atropos.
Depois de Urano reinou Chronos (Saturno na Myth. Rom.), e o seu reinado foi a edade de oiro, o periodo da felicidade sem nuvens; Zeus (Jupiter em Roma), seu filho mais novo, foi creado secretamente em Creta, escapando por um artificio materno, no qual tomaram parte os Curetes e as Corybantes, á sorte de todos os outros seus irmãos, pois Chronos devorava á nascença todos os filhos que lhe dava sua mulher Rhéa (Cybele). Zeus desthronou seu pae e fundou o reinado dos deuses olympicos, depois de um combate contra os Titans e Gigantes (forças revoltas da Natureza), do qual sahiu triumphante, despenhando os seus adversarios no Tartaro, com excepção apenas de Thémis, do Oceano, e de Hypérion.
2.º Deuses olympicos.—O senhor e soberano dos deuses, o deus principal dos Hellenos, era Zeus. O seu culto nasceu em{9} Dodona, no Epiro, extendendo-se depois á Thessalia e d'ahi á Grecia toda. Acima de Zeus só havia o Destino e as leis invariaveis da Natureza. A mulher e irman de Zeus, Hera (Juno na Myth. Rom.) era a divindade feminina do céu, a atmosphera. Presidia aos casamentos. Suas filhas Hébe e Elithya eram: aquella a deusa virginal que servia o nectar aos deuses antes do rapto de Ganymedes pela aguia de Zeus, esta a deusa que as mulheres invocavam no momento dos partos.
Da cabeça de Zeus sahiu armada Pallas Athené (Minerva entre os Rom.), a deusa protectora de Athenas. Ao principio, deusa do céu azul que esplende magnificamente sobre toda a Grecia, foi depois a creadora de todas as artes. Descobriu a charrua e ensinou a plantar a oliveira. Era a guarda das cidades e das instituições publicas.
A sua estatua (Palladio) tinha culto em quasi todas as cidades gregas, sendo Athenas o seu mais celebre sanctuario. Celebravam-se aqui em sua honra, de quatro em quatro annos, as grandes, e, todos os annos, as pequenas Panathenéas. Chamava-se égide o escudo de Minerva e n'elle estava a cabeça de Medusa.
De Zeus e de Hera nasceu Héphaistos (Vulcano em Roma), que seu pae precipitou do céu. Foi o inventor das forjas, isto é, o grande promotor da civilização. Ajudavam-n'o os Ciclopes, que no Etna e nos outros vulcões forjavam os raios para Zeus.
De Zeus e de Léto (Latona) nasceram Artemis e Apollo, gemeos, na ilha sagrada de Délos. Apollo, deus radiante da luz (Phébo) é por isso confundido ás vezes com Hélios, deus do sol. Este deus era um dos mais importantes; o seu mestér era combater a obscuridade e a impureza, e estabelecer a ordem no mundo physico e no mundo moral. Com respeito á vida humana era o preservador dos males. Sob o nome de Paion foi pae de Asclepios (Esculapio) que preside á medicina. Como deus das artes e especialmente da musica e da poesia, Apollo dirige o côro das Musas (e recebe então o nome de Musageta).
As Musas eram nove: Calliope (poesia épica), Clio (historia), Euterpe (poesia lyrica), Melpomene (tragedia), Therpsicore (dança choral e canto), Erato (poesia erotica e imitação mimica), Polymnia (hymno sublime), Urania (astronomia), Thalia (comedia e poesia idyllica). Habitavam os montes Hélion e Parnaso nas proximidades de Delphos.
Artemis (Diana entre os Romanos), irman de Apollo, era a{10} deusa da lua, a divindade das musas e dos oraculos, e presidia á caça. Tinha um celebre templo em Epheso onde era representada como mãe creadora, com um grande numero de seios. Na Taurida, prestou-se-lhe um culto barbaro, com sacrificios humanos, nos quaes tomou parte a familia dos Atridas (Iphigenia e Orestes).
Poseidon (Neptuno entre os Romanos), antigo deus pelasgico, que teve o seu culto primitivo na Beocia e no isthmo de Corintho, culto que passou d'ahi para a Attica e para o Peloponeso, era o deus do mar e governava-o com o seu tridente. Tinha por companheira Amphitrite, nympha marinha. Foi tambem o domador dos cavallos, e pae de Pégaso, cavallo alado, que nasceu do sangue de Medusa. Adoravam-n'o em Athenas a par de Athené.
Ares (o Marte dos Romanos) era o deus da guerra e dos combates. Tinha em Athenas uma collina que lhe era consagrada (Areopago).
Aphrodite (a Venus dos Romanos), era a deusa do amor sensual e da formosura. O seu culto celebrava-se principalmente em Chypre, em Cythera, e em Gnido.
De Ares e de Aphrodite nasceu a Harmonia, divindade de Thebas e esposa do phenicio Cadmo, fundador da cidade.
Ao mytho de Aphrodite está ligado o de Adonis, seu favorito, morto na caça por um javali. Adonis por concessão especial de Zeus ficou vivendo seis mezes do anno com Aphrodite e os outros seis com Perséphone, rainha das sombras. Este mytho, de origem phenicia, parece representar o principio vivificante da Natureza: a morte de Adonis durante seis mezes e a sua resurreição n'outros seis é o lethargo da Natureza no inverno e a sua revivescencia na primavera.
O filho e companheiro de Aphrodite, segundo lendas mais modernas, era o pequeno deus do amor, Eros (Amor, Cupido) cuja amada foi Psyche (a alma). No séquito d'este pequeno deus e de sua graciosa mãe andam as Charites (Graças), e as Horas, deusas das Estações.
Havia, ainda, entre os deuses supremos, cujo numero subia a doze, Deméter (Ceres), Hermes (Mercurio), e Hestia (Vesta).
3.º Divindades terrestres.—Deméter (Ceres), a Terra-Mãe, filha de Chronos, era a Natureza fecunda e creadora. Inventou a Agricultura. A Sicilia e Eleusis eram os principaes pontos do seu culto. Sua filha Perséphone (Proserpina entre os Romanos), raptada por Hades (Plutão), e vivendo metade do anno sobre a Terra e outra metade no mundo subterraneo,{11} era a imagem da semente interrada durante os mezes do inverno. Em honra de Deméter celebravam-se as Thesmophorias, as grandes e as pequenas Eleusinas, e as Anthesterias.
Hades (Plutão) governava o mundo dos mortos, separado do mundo dos vivos por alguns rios, taes como o Styge, o Acheronte, o Cocyto, o Lethes (rio do esquecimento), etc. Sob o nome especial de Plutão era particularmente a divindade dispensadora das riquezas. O mundo subterraneo comprehendia o Elyseu (morada dos justos) e o Tartaro (morada dos condemnados). Era guardado por Cerbero, cão de tres cabeças. Os manes dos que na morte tiveram sepultura atravessavam o rio infernal n'uma barca dirigida por Charonte.
Hermes (Mercurio entre os Romanos), divindade pelasgica, ligada á agricultura e á vida pastoril, era tambem arauto e mensageiro dos deuses. Tinha azas nos calcanhares, e usava o caduceu, symbolo da inviolabilidade. Era o deus da eloquencia, da circumspecção, da prudencia, e até da finura e da astucia, chegando mesmo á fraude e ao perjurio (isto é, tinha na sua qualidade de arauto olympico todas as prendas da diplomacia e da politica). Attribue-se-lhe a invenção do alphabeto, dos numeros, da astronomia, da musica, da gymnastica, dos pezos, das medidas, a cultura da oliveira, etc. Estava tambem o commercio sob a sua protecção.
Dionysos (Baccho entre os Romanos e tambem entre os Gregos), antiga divindade pelasgica, filho de Zeus e da thebana Seméle, era representante da Natureza no que ella tem de mais opulento, mais luxuriante e activo, e, em especial, deus do vinho. Havia muitas festas em sua honra, particularmente as Bacchanaes, as Dionysias, as Anthesterias, etc.
Os Cabiras, deuses pelasgicos ou phenicios, eram tambem divindades terrestres e symbolizavam as forças productoras da Natureza.
4.º O mundo heroico.—O Alcides Heracles (Hercules) é a personificação da força e do trabalho humano em lucta com os obstaculos levantados pela Natureza e pelo Destino.
No Peloponeso originou-se o mytho de Tantalo com a sua familia amaldiçoada. Entre os Tantalidas ha a mencionar Pelops, Atreu, Thyestes, Agamemnon, Menelau, e Orestes.
Em Lacedemonia foram venerados como heroes os Tyndaridas, irmãos de Helena, os gemeos Castor e Pollux, e em connexão com elles os Dióscoros, estrellas brilhantes propicias aos navegadores.
O phenicio Cadmo foi o heroe fundador de Thebas. Era irmão{12} de Europa. D'este tronco descendeu Laio, pae de Œdipo, o heroe tragico que assassinou seu pae; matou a Esphinge, e casou com sua propria mãe, Jocasta. Seus filhos, Eteocles e Polynice, mataram-se um ao outro, em combate singular, deante de Thebas.
A Thebas pertence tambem o cantor Amphion, tão celebre tocador de lyra que, ao som d'este instrumento, moviam-se por si mesmas as pedras e formavam a muralha da cidade por elle reconstruida. Era irmão de Zetho e marido de Niobe.
Na Beocia e na Attica havia o mytho de Tereu com os de Progne e Philoméla, metamorphoseadas, a primeira em andorinha, a segunda em rouxinol.
Na Thessalia, brotou a lenda dos Centauros, semi-homens e semi-cavallos, os quaes tiveram grandes combates contra os Lapithas. Um dos centauros, Chiron, teve por discipulos Asclepios e Achilles.
Em Athenas, o heroe nacional era Theseu filho de Egeu. Foi elle quem libertou os Athenienses do oneroso tributo de septe mancebos e septe donzellas que de nove em nove annos tinham de ser inviados para o Minotauro de Creta. Matou o monstro e sahiu do labyrintho, graças a um fio que tinha recebido de Ariadna, filha do rei. O mytho do Minotauro parece ser, segundo os mais recentes estudos, uma expressão do culto sanguinario de Moloch.