ACTO SEGUNDO
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É no palacio que fôra de D. João de Portugal, em Almada: salão antigo de gôsto melancholico e pesado, com grandes retrattos de familia, muitos de corpo inteiro, bispos, donnas, cavalleiros, monges; estão em logar mais conspicuo, no fundo, o d'elrei D, Sebastião, o de Camões e o de D. João de Portugal. Portas do lado direito para o exterior, do esquerdo para o interior, cobertas de reposteiros com as armas dos condes de Vimioso. São as antigas da casa de Bragança, uma aspa vermelha sôbre campo de prata com cinco escudos do reino, um no meio e os quatro nos quatros extremos da aspa; em cada braço e entre os dois escudos uma cruz floreteada, tudo do modo que trazem actualmente os duques de Cadaval; sôbre o escudo coroa de conde. No fundo um reposteiro muito maior e com as mesmas armas cobre as portadas da tribuna que deita sôbre a capella da Senhora da Piedade na egreja de San'Paulo dos dominicos d'Almada.
SCENA I
MARIA e TELMO
*Maria*, sahindo pela porta da esquerda e trazendo pela mão a Telmo, que parece vir de pouca vontade. Vinde, não façaes bulha, que minha mãe ainda dorme. Aqui, aqui n'esta sala é que quero conversar. E não teimes, Telmo, que fiz tenção e acabou-se.
*Telmo*. Menina!…
*Maria*. «Menina e môça me levaram de casa de meu pae:» é o principio d'aquelle livro tam bonito que minha mãe diz que não intende: intendo-o eu.—Mas aqui não ha menina nem môça; e vós, senhor Telmo-Paes, meu fiel escudeiro, «faredes o que mandado vos é.»—E não me repliques, que então altercâmos, faz-se bulha, e acorda minha mãe, que é o que eu não quero. Coitada! Ha oito dias que aqui estamos n'esta casa, e é a primeira noite que dorme com socêgo. Aquelle palacio a arder, aquelle povo a gritar, o rebate dos sinos, aquella scena toda… oh! tam grandiosa e sublime, que a mim me encheu de maravilha, que foi um espectaculo como nunca vi outro de egual majestade!… á minha pobre mãe atterrou-a, não se lhe tira dos olhos: vai a fechá-los para dormir, e diz que ve aquellas chammas innoveladas em fummo a rodear-lhe a casa, a crescer para o ar, e a devorar tudo com furia infernal… O retratto de meu pae, aquelle do quarto de lavor tam seu favorito, em que elle estava tam gentil homem, vestido de cavalleiro de Malta com a sua cruz branca no peito—aquelle retratto não se póde consolar de que lh'o não salvassem, que se queimásse alli. Ves tu? ella que não cria em agouros, que sempre me estava a reprehender pelas minhas scismas, agora não lhe sái da cabeça que a perda do retratto é prognostico fatal de outra perda maior que está perto, de alguma desgraça inesperada, mas certa, que a tem de separar de meu pae.—E eu agora é que faço de forte e assizada, que zombo de agouros e de sinnas… para a animar, coitada!… que aqui entre nós, Telmo, nunca tive tanta fe n'elles. Creio, oh se creio! que são avisos que Deus nos manda para nos preparar.—E ha… oh! ha grande desgraça a cahir sôbre meu pae… decerto! e sôbre minha mãe tambem, que é o mesmo.
*Telmo*, disfarçando o terror de que está tomado. Não digaes isso… Deus hade fazê-lo por melhor, que lh'o merecem ambos. (Cobrando ânimo e exaltando-se) Vosso pae, D. Maria, é um portuguez ás direitas. Eu sempre o tive em boa conta; mas agora, depois que lhe vi fazer aquella acção,—que o vi, com aquella alma de portuguez velho, deitar a mão ás tochas, e lançar elle mesmo o fogo á sua propria casa; queimar e destruir n'uma hora tanto do seu haver, tanta coisa de seu gôsto, para dar um exemplo de liberdade, uma licção tremenda a estes nossos tyrannos… oh minha querida filha, aquillo é um homem. A minha vida que elle queira é sua. E a minha pena, toda a minha pena é que o não conheci, que o não estimei sempre no que elle valia.
*Maria*, com as lagrymas nos olhos, e tomando-lhe as mãos. Meu Telmo, meu bom Telmo!… É uma glória ser filha de tal pae: não é? dize.
*Telmo*. Sim é: Deus o defenda!
*Maria*. Deus o defenda! amen.—E elles, os tyrannos governadores ainda estarão muito contra meu pae? Ja soubeste hoje alguma coisa, das diligências do tio Frei Jorge?
*Telmo*. Ja, sim. Vão-se desvanecendo—ainda bem!—os agouros de vossa mãe… hãode sahir falsos de todo. O arcebispo, o conde de Sabugal, e os outros, ja vosso tio os trouxe á razão, ja os moderou. Miguel de Moura é que ainda está renitente; mas hade-lhe passar. Por estes dias fica tudo socegado. Ja o estava se elle quizesse dizer que o fogo tinha pegado por acaso. Mas ainda bem que o não quiz fazer; era desculpar com a villania de uma mentira o generoso crime por que o perseguem.
*Maria*. Meu nobre pae!—Mas quando hade elle sahir d'aquelle omizio? Passar os dias retirado n'essa quinta tam triste d'além do Alfeite, e não podêr vir aqui senão de noite, por instantes, e Deus sabe com que perigo!
*Telmo*. Perigo nenhum; todos o sabem e fecham os olhos. Agora é so conservar as apparencias ahi mais uns dias, e depois fica tudo como d'antes.
*Maria*. Ficará, póde ser, Deus queira que seja!—Mas tenho ca uma coisa que me diz que aquella tristeza de minha mãe, aquelle susto, aquelle terror em que está—e que ella disfarça com tanto trabalho na presença de meu pae (tambem a mim m'o queria incobrir, mas agora ja não póde, coitada!) aquillo é presentimento de desgraça grande…—Oh! mas é verdade… vinde ca: (Leva-o deante dos tres retrattos que estão no fundo; e apontando para o de D. João) de quem é este retratto aqui, Telmo?
*Telmo*, olha, e víra a cara de repente. Esse é… hade ser… é um da familia, d'estes senhores da casa de Vimioso que aqui estão tantos.
*Maria*, ameaçando-o com o dedo. Tu não dizes a verdade, Telmo.
*Telmo*, quasi offendido. Eu nunca menti, senhora D. Maria de Noronha.
*Maria*. Mas não diz a verdade toda o senhor Telmo-Paes; que é quasi o mesmo.
*Telmo*. O mesmo!… Disse-vos o que sei, e o que é verdade; é um cavalleiro da familia de meu outro amo que Deus… que Deus tenha em bom logar.
*Maria*. E não tem nome o cavalleiro?
*Telmo*, imbaraçado. Hade ter: mas eu é que…
*Maria*, como quem lhe vai tapar a bôcca. Agora é que tu ias mentir de todo… cala-te.—Não sei para que são estes mysterios: cuidam que eu heide ser sempre criança!—Na noite que viemos para ésta casa, no meio de toda aquella desordem, eu e minha mãe entrámos por aqui dentro sos e viemos ter a ésta sala. Estava alli um brandão acceso, incostado a uma d'essas cadeiras que tinham pôsto no meio da casa; dava todo o clarão da luz n'aquelle retratto… Minha mãe, que me trazia pela mão, põe derepente os olhos n'elle, e dá um grito, oh meu Deus!… ficou tam perdida de susto, ou não sei de quê, que me ia cahindo em cima. Pergunto-lhe o que é; não me respondeu: arrebata da tocha, e leva-me com uma fôrça… com uma pressa a correr por essas casas, que parecia que vinha alguma coisa má atrás de nós.—Ficou n'aquelle estado em que a temos visto ha oito dias, e não lhe quiz fallar mais em tal. Mas este retratto que ella não nomeia nunca de quem é, e so diz assim ás vezes: «O outro, o outro…» este retratto, e o de meu pae que se queimou, são duas imagens que lhe não sahem do pensamento.
*Telmo*, com anciedade. E ésta noite ainda lidou muito n'isso?
*Maria*. Não; desde hontem pela tarde, que ca esteve o tio Frei Jorge e a animou com muitas palavras de consolação e de esperança em Deus, e que lhe disse do que contava abrandar os governadores, minha mãe ficou outra; passou-lhe de todo, ao menos até agora.—Mas então, vamos, tu não me dizes do retratto? Olha: (designando o d'elrei D. Sebastião) aquelle do meio, bem sabes se o conhecerei: é o do meu querido e amado rei D. Sebastião. Que majestade! que testa aquella tam austera, mesmo d'um rei môço e sincero ainda, leal, verdadeiro, que tomou ao serio o cargo de reinar, e jurou que hade ingrandecer e cobrir de glória o seu reino! Elle alli está… E pensar que havia de morrer ás mãos de mouros, no meio de um deserto, que n'uma hora se havia de apagar toda a ousadia reflectida que está n'aquelles olhos rasgados, no apertar d'aquella bôcca!… Não póde ser, não póde ser. Deus não podia consentir em tal.
*Telmo*. Que Deus te ouvisse, anjo do ceu!
*Maria*. Pois não ha prophecias que o dizem? Ha, e eu creio n'ellas. E tambem creio n'aquell'outro que alli está; (indica o retratto de Camões) aquelle teu amigo com quem tu andáste lá pela India, n'essa terra de prodigios e bizarrias, por onde elle ia… como é? ah, sim…
«N[~u]a mão sempre a espada e n'outra a penna…»
*Telmo*. Oh! o meu Luiz, coitado! bem lh'o pagaram. Era um rapaz, mais moço do que eu, muito mais… e quando o vi a última vez… foi no alpendre de San'Domingos em Lisboa—parece-me que o estou a ver—tam mal trajado, tam incolhido… elle que era tam desimbaraçado e galan… e então velho! velho alquebrado,—com aquelle ôlho que valia por dois, mas tam summido e incovado ja, que eu disse commigo: «Ruim terra te comerá cedo, corpo da maior alma que deitou Portugal!»—E dei-lhe um abraço… foi o último… Elle pareceu ouvir o que me estava dizendo o pensamento ca por dentro, e disse-me: «Adeus, Telmo! San'Telmo seja commigo n'este cabo da navegação… que ja vejo terra, amigo»—e apontou para uma cova que alli se estava a abrir.—Os frades resavam o officio dos mortos na egreja… Elle entrou para lá, e eu fui-me embora. D'ahi a um mez, vieram-me aqui dizer: «Lá foi Luiz de Camões n'um lençol para Sant'Anna.» E ninguem mais fallou n'elle.
*Maria*. Ninguem mais!… Pois não tem aquelle livro que é para dar memória aos mais esquecidos?
*Telmo*. O livro sim: acceitaram-n'o como o tributo de um escravo. Estes riccos, estes grandes, opprimem e desprezam tudo o que não são as suas vaidades, tomaram o livro como uma coisa que lhes fizesse um servo seu e para honra d'elles. O servo, acabada a obra, deixaram-n'o morrer ao desamparo sem lhe importar com isso… Quem sabe se folgaram? podia pedir-lhes uma esmolla—escusavam de se incommodar a dizer que não.
*Maria*, com enthusiasmo. Está no ceu.—Que o ceu fez-se para os bons e para os infelizes, para os que ja ca da terra o adivinharam!—Este lia nos mysterios de Deus; as suas palavras são de propheta. Não te lembras o que lá diz do nosso rei D. Sebastião?… como havia de elle então morrer? Não morreu. (Mudando de tom) Mas o outro, o outro… quem é est'outro, Telmo? Aquelle aspecto tam triste, aquella expressão de melancholia tam profunda… aquellas barbas tam negras e cerradas… e aquella mão que descança na espada como quem não tem outro arrimo, nem outro amor n'esta vida…
*Telmo*, deixando-se surprehender. Pois tinha, oh se tinha…
(Maria olha para Telmo, como quem comprehendeu, depois torna a fixar a vista no retratto; e ambos ficam deante d'elle como fascinados. No entretanto e ás últimas palavras de Maria, um homem imbuçado com o chapeu sôbre os olhos levanta o reposteiro da direita e vem, pé ante pé, approximando-se dos dois que o não sentem.)
SCENA II
MARIA, TELMO e MANUEL DE SOUSA
*Manuel*. Aquelle era D. João de Portugal, um honrado fidalgo, e um valente cavalleiro.
*Maria*, respondendo sem observar quem lhe falla. Bem m'o dizia o coração!
*Manuel*, desimbuçando-se e tirando o chapeu com muito affecto. Que te dizia o coração, minha filha?
*Maria*, reconhecendo-o. Oh meu pae, meu querido pae! ja me não diz mais nada o coração senão isto. (Lânça-se-lhe nos braços e beija-o na face muitas vezes.)—Ainda bem que viestes.—Mas de dia!… não tendes receio, não ha perigo ja?
*Manuel*. Perigo, pouco. Hontem á noite não pude vir; e hoje não tive paciencia para aguardar todo o dia: vim bem coberto com ésta capa…
*Telmo*. Não ha perigo nenhum, meu senhor; podeis estar á vontade e sem receio. Ésta madrugada muito cedo estive no convento, e sei pelo senhor Frei Jorge que está, se póde dizer, tudo concluido.
*Manuel*. Pois ainda bem, Maria. E tua mãe, tua mãe, filha?
*Maria*. Desde hontem está outra…
*Manuel*, em acção de partir. Vamos a vê-la.
*Maria*, retendo-o. Não, que dorme ainda.
*Manuel*. Dorme? Oh, então melhor.—Sentêmo'-nos aqui filha, e conversêmos. (Toma-lhe as mãos; sentam-se) Tens as mãos tam quentes! (Beija-a na testa) E ésta testa, ésta testa!… escalda.—Se isto está sempre a ferver! Valha-te Deus, Maria! Eu não quero que tu penses.
*Maria*. Então que heide eu fazer?
*Manuel*. Folgar, rir, brincar, tanger na harpa, correr nos campos, apanhar as flores…—E Telmo que te não conte mais histórias, que te não insine mais trovas e soláos. Poetas e trovadores padecem todos da cabeça… e é um mal que se péga.
*Maria*. Então para que fazeis vós como elles?… eu bem sei que fazeis.
*Manuel*, surrindo. Se tu sabes tudo! Maria, minha Maria. (Amimando-a) Mas não sabías ainda agora de quem era aquelle retratto…
*Maria*. Sabía.
*Manuel*. Ah! você sabía e estava fingindo?
*Maria*, gravemente. Fingir não, meu pae. A verdade… é que eu sabía de um saber ca de dentro; ninguem m'o tinha ditto; e eu queria ficar certa.
*Manuel*. Então adivinhas, feiticeira. (Beija-a na testa)—Telmo, ide ver se chamaes meu irmão: dizei-lhe que estou aqui.
SCENA III
MANUEL DE SOUSA e MARIA
*Manuel*. Ora ouve ca, filha. Tu tens uma grande propensão para achar maravilhas e mysterios nas coisas mais naturaes e singellas. E Deus intregou tudo á nossa razão, menos os segredos de sua natureza ineffavel, os de seu amor, e de sua justiça e misericordia para comnosco. Esses são os pontos sublimes e incomprehensiveis da nossa fe! Esses creem-se: tudo o mais examína-se.—Mas vamos: (surrindo) não dirão que sou da Ordem dos Prégadores? Hade ser d'estas paredes, é uncção da casa: que isto é quasi um convento aqui, Maria… Para frades de San'Domingos não nos falta senão o hábito…
*Maria*. Que não faz o monge…
*Manuel*. Assim é, querida filha! Sem hábito, sem escapulario nem corrêa, por baixo do setim e do velludo, o cilicio póde andar tam appertado sôbre as carnes, o coração tam contricto no peito… a morte—e a vida que vem depois d'ella—tam deante dos olhos sempre, como na cella mais estreita e com o burel mais grosseiro cingido. Mas emfim, chega-te aos bons… sempre é meio caminho andado. Eu estou contentissimo de virmos para ésta casa—quasi que nem ja me pêza da outra. Tenho aqui meu irmão Jorge e todos estes bons padres de San'Domingos como de portas a dentro.—Ainda não viste d'aqui a egreja? (Levanta o reposteiro do fundo, e chegam ambos á tribuna) É uma devota capella ésta. E todo o templo tam grave! dá consolação vê-lo. Deus nos deixe gosar em paz de tam boa visinhança. (Tornam para o meio da casa.)
*Maria*, que parou deante do retratto de D. João de Portugal, vólta-se derepente para o pae. Meu pae, este retratto é parecido?
*Manuel*. Muito; é raro ver tam perfeita similhança: o ar, os ademanes, tudo. O pintor copiou fielmente quanto viu. Mas não podia ver, nem lhe cabiam na télla, as nobres qualidades d'alma, a grandeza e valentia de coração,—e a fortaleza d'aquella vontade serena mais indomavel, que nunca foi vista mudar. Tua mãe ainda hoje estremece so de o ouvir nomear; era um respeito… era quasi um temor sancto que lhe tinha.
*Maria*. E lá ficou n'aquella fatal batalha!…
*Manuel*. Ficou.—Tens muita pena, Maria?
*Maria*. Tenho.
*Manuel*. Mas se elle vivêsse… não existias tu agora, não te tinha eu aqui nos meus braços.
*Maria*, escondendo a cabeça no seio de seu pae. Ai meu pae!
SCENA IV
MARIA, MANUEL DE SOUSA, JORGE
*Jorge*. Ora alviçaras, minha dona sobrinha! venha-me ja abraçar, senhora D. Maria. (Maria beija-lhe o escapulario; e depois abraçam-se) Inda bem que vieste, meu irmão! Está tudo feito: os governadores deixam cahir o caso em esquecimento; Miguel de Moura ja cedeu.—O arcebispo foi hontem a Lisboa e volta ésta tarde. Vamos eu e mais quatro religiosos nossos buscá-lo para o acompanhar, e tu hasde vir comnosco para lhe agradecer; que não teve parte no aggravo que te fizeram, e foi quem acabou com os outros que se não resentissem da offensa ou do que lhes prouve tomar como tal… deixêmos isso. Volta para o convento e quasi que vem ser teu hóspede: é preciso fazer-lhe cumprimento, que no-lo merece.
*Manuel*. Se elle vem so, sem os outros…
*Jorge*. So, so: os outros estão por essas quintas d'áquem do Tejo. E nós não chegâmos aqui senão lá por noite.
*Manuel*. Se intendes que posso ir…
*Jorge*. Pódes e deves.
*Manuel*. Vou decerto.—E até eu preciso de ir a Lisboa: tenho negócio de importancia no Sacramento, no vosso convento novo de freiras abaixo de San'Vicente; necessito fallar com a abbadessa.
*Maria*. Oh meu pae, meu querido pae, levae-me, por quem sois, comvosco. Eu queria ver a tia Joanna de Castro; é o maior gôsto que posso ter n'esta vida. Quero ver aquelle rosto… De mim não se hade tapar…
*Manuel*. E tua mãe?
*Maria*. Minha mãe dá licença, dá. Ella ja está boa… oh, e em vos vendo fica boa de todo, e eu vou.
*Manuel*. E os ares maus de Lisboa?
*Jorge*. Isso ja acabou de todo: nem signal de peste.—Mas emfim a prudencia…
*Maria*. A mim não se me péga nada.—Meu querido pae, vamos, vamos.
*Manuel*. Veremos o que diz tua mãe, e como ella está.
SCENA V
MARIA, MANUEL DE SOUSA, JORGE; MAGDALENA entrando
*Magdalena*, correndo a abraçar Manuel de Sousa. Estou boa ja, não tenho nada, espôso da minha alma, todo o meu mal era susto; era terror de te perder.
*Manuel*. Querida Magdalena!
*Magdalena*. Agora estou boa: Telmo ja me disse tudo, e curou-me com a boa nova.—Maria, Deus lembrou-se de nós: ouviu as tuas orações, filha, que as minhas… (Vai a recahir na sua tristeza.)
*Jorge*. Ora pois, mana, ora pois!… Louvado seja Elle por tudo. E haja alegria! Que era sermos desagradecidos para com o Senhor, que nos valeu, mostrar-se hoje alguem triste n'esta casa.
*Magdalena*, fazendo por se alegrar. Triste porquê? As tristezas acabaram. (Para Manuel de Sousa) Tu ficas aqui ja de vez. Não me deixas mais, não sais d'aopé de mim?—Agora, olha, estes primeiros dias ao menos, hasde-me aturar, hasde-me fazer companhia. Preciso muito, querido.
*Manuel*. Pois sim, Magdalena, sim; farei quanto quizeres.
*Magdalena*. É que eu estou boa… boa de todo; mas tenho uma…
*Manuel*. Uma imaginação que te atormenta. Havemos de castigá-la, ainda que não seja senão para dar exemplo a certa donzella que nos está ouvindo e que precisa… precisa muito.—Pois olha: hoje é sexta-feira…
*Magdalena*. Sexta-feira! (aterrada) ai que é sexta-feira!
*Manuel*. Para mim tem sido sempre o dia mais bem estreado de toda a semana.
*Magdalena*. Sim!
*Manuel*. É o dia da paixão de Christo, Magdalena.
*Magdalena*, cahindo em si. Tens razão.
*Manuel*. É hoje sexta-feira: e d'aqui a oito… vamos—d'aqui a quinze dias bem contados, não saio de casa. Estás contente?
*Magdalena*. Meu espôso, meu marido, meu querido Manuel!
*Manuel*. E tu, Maria?
*Maria*, amuada. Eu não.
*Manuel*, para Magdalena. Queres tu saber por que é aquelle amúo? É que eu precisava de ir hoje a Lisboa…
*Magdalena*. A Lisboa… hoje!
*Manuel*. Sim: e não posso deixar de ir. Sabes que por fins d'esta minha pendencia com os governadores, eu fiquei em dívida—quem sabe se da vida? Miguel de Moura e esses meus degenerados parentes eram capazes de tudo!—Mas o certo é que fiquei em muita dívida ao arcebispo. Elle volta hoje aqui para o convento; e meu irmão, que vai com outros religiosos para o acompanharem, intende que eu tambem devo ir. Bem ves que não ha remedio.
*Magdalena*. Logo hoje!… Este dia de hoje é o peior… se fosse ámanhan, se fosse passado hoje!… E quando estarás de volta?
*Jorge*. Estamos aqui sem falta á bôcca da noite.
*Magdalena*, fazendo por se resignar. Paciencia: ao menos valha-nos isso. Não me deixam aqui so outra noite… ésta noite, particularmente, não fico so…
*Manuel*. Não, socega, não; estou aqui ao anoitecer. E nunca mais saio d'aopé de ti. E não serão quinze dias; vinte, os que tu quizeres.
*Maria*. Então vou, meu pae, vou?—Minha mãe dá licença, dá?
*Magdalena*. Vais aonde, filha? que dizes tu?
*Maria*. Com meu pae que tem de ir ao Sacramento, de caminho.—E bem sabeis, querida mãe, o que eu ando ha tanto tempo para ir áquelle convento para conhecer a tia D. Joanna…
*Jorge*. Soror Joanna: assim é que se chama agora.
*Maria*. É verdade. E andam-me a prometter, ha um anno, que me hãode levar lá… D'esta vez hãode-m'o cumprir… não é assim, minha mãe? (acarinhando-a) minha querida mãesinha!—Sim, sim, dizei ja que sim.
*Magdalena*, abraçada com a filha. Oh Maria, Maria… tambem tu me queres deixar!—tambem tu me desamparas… e hoje!
*Maria*. Venho logo, minha mãe, venho logo.—Olhae: e não tenhaes cuidado commigo: vai meu pae, vai o tio Jorge,—levo a minha aia, a Dorothea… E, é verdade, o meu fiel escudeiro hade ir tambem, o meu Telmo.
*Magdalena*. E tua mãe, filha, deixa-la aqui so, a morrer de tristeza? (áparte) e de medo!
*Manuel*. Tua mãe tem razão: não hade ser assim, hoje não póde ser. (Maria fica triste e desconsolada.)
*Jorge*.—Ora pois; eu ja disse que não queria ver hoje ninguem triste n'esta casa.—Venha ca a minha donzella dolorida, (pegando-lhe pela mão) e faça aqui muitas festas ao tio frade, que eu fico a fazer companhia a sua mãe. E vá, vá satisfazer essa louvavel curiosidade que tem de ir ver aquella sancta freirinha que tanto deixou para deixar o mundo e se ir interrar n'um claustro. Vá, e venha… melhor de coração, não póde ser—que tu es boa como as que são boas, minha Maria—Mas quero-te mais fria de cabeça: ouves?
*Maria*, áparte. Fria!… quando ella estiver ôca!—(Alto) Vou-me apromptar, minha mãe?
*Magdalena*, sem vontade. Se teu pae quer…
*Manuel*. Dou licença: vai. (Maria sái a correr.)
SCENA VI
MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, JORGE
*Manuel*. É preciso deixá-la espairecer, mudar de logar, distrahir-se: aquelle sangue está em chammas, arde sôbre si e consomme-se, a não o deixarem correr á vontade.—Hade vir melhor: verás.
*Magdalena*. Deus o queira!—Telmo que vá com ella; não o quero ca.
*Manuel*. Porquê?
*Magdalena*. Porque… Maria… Maria não está bem sem elle—e elle tambem… em estando sem Maria—que é a sua segunda vida, diz o pobre do velho,—sabes? Ja treslê muito… já está muito… e entra-me com scismas que…
*Manuel*. Está, está muito velho, coitado! Pois que vá: melhor é.
SCENA VII
MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, JORGE; MARIA entrando com TELMO e DOROTHEA
*Maria*. Então vamos, meu pae.
*Manuel*. Pois vamos.
*Jorge*. E são horas; vão. Á Ribeira é um pedaço de rio; e até ás sette, o mais, tu precisas de estar de volta á porta da Oira, que é onde irão ter os nossos padres á espera do arcebispo.—Eu ca me desculparei com o prior. Vão.
Maria. Minha mãe! (abraçando-a) Então, se choraes assim, não vou.
*Manuel*. Nem eu, Magdalena. Ora pois! Eu nunca te vi assim.
*Magdalena*. Porque nunca assim estive…—Vão, vão… adeus!—Adeus, espôso do meu coração!—Maria, minha filha, toma sentido no ar, não te resfries. E o sol… não sáias debaixo do tôldo no bergantim. Telmo, não te tires d'aopé d'ella.—Dá-me outro abraço, filha.—Dorothea, levaes tudo? (Examina uma bolsa grande de damasco que Dorothea leva no braço) Póde haver qualquer coisa, molhar-se, ter frio para a tarde… (tendo examinado a bolsa) Vai tudo: bem!—(Baixo a Dorothea) Não me apartes os olhos d'ella, Dorothea. Ouve. (Falla baixo a Dorothea, que lhe responde baixo tambem; depois diz alto) Está bom.
*Manuel*. Não tenhas cuidado; vamos todos com ella. (Abraçam-se outra vez; Maria sái appressadamente, e para a mãe não ver que vai suffocada com chôro.)
SCENA VIII
MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, JORGE
*Magdalena*, seguindo com os olhos a filha e respondendo a Manuel de Sousa. Cuidados!… eu não tenho ja cuidados. Tenho este medo, este horror de ficar so… de vir a achar-me so no mundo…
*Manuel*. Magdalena!
*Magdalena*. Que queres? não está na minha mão.—Mas tu tens razão de te infadar com as minhas impertinencias. Não fallêmos mais n'isso. Vai. Adeus!—Outro abraço. Adeus!
*Manuel*. Oh querida mulher minha, parece que vou eu agora imbarcar n'um galeão para a India… Ora vamos: ao anoitecer, antes da noite, aqui estou.—E Jesus!… Olha a condessa de Vimioso, ésta Joanna de Castro que a nossa Maria tanto deseja conhecer… olha se ella faria esses prantos quando disse o último adeus ao marido…
*Magdalena*. Bemditta ella seja! Deu-lhe Deus muita fôrça, muita virtude. Mas não lh'a invejo, não sou capaz de chegar a essas perfeições.
*Jorge*. É perfeição verdadeira; é a do Evangelho: Deixa tudo e segue-me.
*Magdalena*. Vivos ambos… sem offensa um do outro, querendo-se, estimando-se… e separar-se cada um para sua cova! Verem-se com a mortalha ja vestida—e… vivos, sãos… depois de tantos annos de amor… e convivencia… condemnarem-se a morrer longe um do outro—sos, sos!—E quem sabe se n'essa tremenda hora… arrependidos!
*Jorge*. Não o permittirá Deus assim… oh, não. Que horrivel coisa seria!
*Manuel*. Não permitte, não.—Mas não pensêmos mais n'elles: estão intregues a Deus… (pausa) E que temos nós com isso? A nossa situação é tam differente… (pausa) Em todas nos póde Elle abençoar.—Adeus, Magdalena, adeus! até logo. Maria ja lá vai no caes a ésta hora… adeus! Jorge, não a deixes. (Abraçam-se; Magdalena vai até fóra da porta com elle.)
SCENA IX
JORGE so
Eu faço por estar alegre, e queria vê-los contentes a elles… mas não sei ja que diga do estado em que vejo minha cunhada, a filha… até meu irmão o desconheço! A todos parece que o coração lhes adivinha desgraça… E eu quasi que tambem ja se me péga o mal. Deus seja comnosco!
SCENA X
JORGE, MAGDALENA
*Magdalena*, fallando ao bastidor. Vai, ouves, Miranda? Vai e deixa-te lá estar até veres chegar o bergantim; e quando desimbarcarem, vem-me dizer para eu ficar descançada. (Vem para a scena) Não ha vento, e o dia está lindo. Ao menos não tenho sustos com a viagem. Mas a volta… quem sabe? o tempo muda tam depressa…
*Jorge*. Não, hoje não tem perigo.
*Magdalena*. Hoje… hoje! Pois hoje é o dia da minha vida que mais tenho receado… que ainda temo que não acabe sem muito grande desgraça… É um dia fatal para mim: faz hoje annos que… que casei a primeira vez—faz annos que se perdeu elrei D. Sebastião—e faz annos tambem que… vi pela primeira vez a Manuel de Sousa.
*Jorge*. Pois contaes essa entre as infelicidades da vossa vida?
*Magdalena*. Conto. Este amor—que hoje está sanctificado e bemditto no ceu, porque Manuel de Sousa é meu marido—começou com um crime, porque eu amei-o assim que o vi… e quando o vi—hoje, hoje… foi em tal dia como hoje!—D. João de Portugal ainda era vivo. O peccado estava-me no coração; a bôcca não o disse… os olhos não sei o que fizeram: mas dentro d'alma eu ja não tinha outra imagem senão a do amante… ja não guardava a meu marido, a meu bom… a meu generoso marido… senão a grosseira fidelidade que uma mulher bem nascida quasi que mais deve a si do que ao espôso. Permittiu Deus… quem sabe se para me tentar?… que n'aquella funesta batalha de Alcacer, entre tantos, ficásse tambem D. João…
SCENA XI
MAGDALENA, JORGE, MIRANDA
*Miranda*, appressado. Senhora… minha senhora!
*Magdalena*, sobresaltada. Quem vos chamou, que quereis?—Ah! es tu, Miranda. Como assim! ja chegaram?… Não póde ser.
*Miranda*. Não, minha senhora: ainda agora irão passando o pontal. Mas não é isso…
*Magdalena*. Então que é? Não vos disse eu que não viesseis d'alli antes de os ver chegar?
*Miranda*. Para lá torno já, minha senhora: ha tempo de sobejo.—Mas venho trazer-vos recado… um estranho recado, por minha fe.
*Magdalena*. Dizei ja, que me estaes a assustar.
*Miranda*. Para tanto não é; nem coisa séria, antes quasi para rir. É um pobre velho peregrino, um d'estes romeiros que aqui estão sempre a passar, que veem das bandas d'Hespanha…
*Magdalena*. Um captivo… um remido?
*Miranda*. Não, senhora, não trás a cruz, nem é: é um romeiro—algum d'estes que vão a Sant'Iago: mas diz elle que vem de Roma e dos Sanctos-Logares.
*Magdalena*. Pois, coitado! virá. Agasalhae-o; e deem-lhe o que precisar.
*Miranda*. É que elle diz que vem da Terra-Sancta, e…
*Magdalena*. E porque não virá?—Ide, ide, e fazei-o accommodar ja.—É velho?
*Miranda*. Muito velho e com umas barbas!… Nunca vi tam formosas barbas de velho, e tam alvas.—Mas, senhora, diz elle que vem da Palestina e que vos trás recado…
*Magdalena*. A mim!
*Miranda*. A vós; e que por fôrça vos hade ver e fallar.
*Magdalena*. Ide vê-lo, Frei Jorge. Ingano hade ser: mas ide ver o pobre do velho.
*Miranda*. É escusado, minha senhora: o recado que trás, diz que a outrem o não dará senão a vós, e que muito vos importa sabê-lo.
*Jorge*. Eu sei o que é: alguma reliquia dos Sanctos-Logares—se elle comeffeito de lá vem!—que o bom do velho vos quer dar… como taes coisas se dão a pessoas da vossa qualidade… a trôco de uma esmolla avultada. É o que elle hade querer; é o costume.
*Magdalena*. Pois venha embora o romeiro! E trazei-m'o aqui, trazei.
SCENA XII
MAGDALENA, JORGE
*Jorge*. Que é precisa muita cautella com estes peregrinos! A vieira no chapeu e o bordão na mão, ás vezes não são mais que negaças para armar á charidade dos fieis. E n'estes tempos revoltos…
SCENA XIII
MAGDALENA, JORGE e MIRANDA que volta com o ROMEIRO
*Miranda*, da porta. Aqui está o romeiro.
*Magdalena*. Que entre. E vós, Miranda, tornae para onde vos mandei; ide ja, e fazei como vos disse.
*Jorge*, chegando á porta da direita. Entrae, irmão, entrae. (O romeiro entra de vagar.) Ésta é a senhora D. Magdalena de Vilhena.—E' ésta a fidalga a quem desejaes fallar?
*Romeiro*. A mesma.
(A um signal de Frei Jorge, Miranda retíra-se.)
SCENA XIV
MAGDALENA, JORGE, ROMEIRO
*Jorge*. Sois portuguez?
*Romeiro*. Como os melhores, espero em Deus.
*Jorge*. E vindes?…
*Romeiro*. Do Sancto-Sepulchro de Jesus Christo.
*Jorge*. E visitastes todos os Sanctos-Logares?
*Romeiro*. Não os visitei; morei lá vinte annos cumpridos.
*Magdalena*. Sancta vida levastes, bom romeiro.
*Romeiro*. Oxalá!—Padeci muita fome, e não soffri com paciencia: deram-me muitos trattos, e nem sempre os levei com os olhos n'Aquelle que alli tinha padecido tanto por mim… Queria rezar, e meditar os mysterios da Sagrada Paixão que alli se obrou… e as paixões mundanas, e as lembranças dos que se chamavam meus segundo a carne, travavam-me do coração e do espirito, que os não deixava estar com Deus, nem n'aquella terra que é toda sua.—Oh! eu não merecia estar onde estive: bem vêdes que não soube morrer lá.
*Jorge*. Pois bem: Deus quiz trazer-vos á terra de vossos paes; e quando for sua vontade, ireis morrer socegado nos braços de vossos filhos.
*Romeiro*. Eu não tenho filhos, padre.
*Jorge*. No seio da vossa familia…
*Romeiro*. A minha familia… Já não tenho familia.
*Magdalena*. Sempre ha parentes, amigos…
*Romeiro*. Parentes!… Os mais chegados, os que eu me importava achar… contaram com a minha morte, fizeram a sua felicidade com ella; hão de jurar que me não conhecem.
*Magdalena*. Haverá tam má gente… e tam vil que tal faça?
*Romeiro*. Necessidade póde muito.—Deus lh'o perdoará se podér!
*Magdalena*. Não façaes juizos temerarios, bom romeiro.
*Romeiro*. Não faço.—De parentes, ja sei mais do que queria: amigos, tenho um; com esse, conto.
*Jorge*. Ja não sois tam infeliz.
*Magdalena*. E o que eu podér fazer-vos, todo o amparo e gasalhado que podér dar-vos, contae commigo, bom velho, e com meu marido, que hade folgar de vos proteger…
*Romeiro*. Eu ja vos pedi alguma coisa, senhora?
*Magdalena*. Pois perdoae, se vos offendi, amigo.
*Romeiro*. Não ha offensa verdadeira senão as que se fazem a Deus.—Pedi-lhe vós perdão a Elle, que vos não faltará de quê.
*Magdalena*. Não, irmão, não decerto. E Elle terá compaixão de mim.
*Romeiro*. Terá…
*Jorge*, cortando a conversação. Bom velho, dissestes trazer um recado a ésta dama: dae-lh'o ja, que havereis mister de ir descançar…
*Romeiro*, surrindo amargamente. Quereis lembrar-me que estou abusando da paciencia com que me teem ouvido? Fizestes bem, padre: eu ia-me esquecendo… talvez me esquecesse de todo da mensagem a que vim… estou tam velho e mudado do que fui!
*Magdalena*. Deixae, deixae, não importa; eu folgo de vos ouvir: dir-me-heis vosso recado quando quizerdes… logo, ámanhan…
*Romeiro*. Hoje hade ser. Ha tres dias que não durmo nem descanço, nem pousei ésta cabeça, nem pararam estes pés dia nem noite, para chegar aqui hoje, para vos dar meu recado… e morrer depois… ainda que morrêsse depois; porque jurei… faz hoje um anno… quando me libertaram, dei juramento sôbre a pedra sancta do Sepulchro de Christo…
*Magdalena*. Pois ereis captivo em Jerusalem?
*Romeiro*. Era: não vos disse que vivi lá vinte annos?
*Magdalena*. Sim, mas…
*Romeiro*. Mas o juramento que dei foi que, antes de um anno cumprido, estaria deante de vós e vos diria da parte de quem me mandou…
*Magdalena*, aterrada. E quem vos mandou, homem?
*Romeiro*. Um homem foi,—e um honrado homem… a quem unicamente devi a liberdade… a ninguem mais. Jurei fazer-lhe a vontade, e vim.
*Magdalena*. Como se chama?
*Romeiro*. O seu nome nem o da sua gente nunca o disse a ninguem no captiveiro.
*Magdalena*. Mas emfim, dizei vós…
*Romeiro*. As suas palavras, trago-as escriptas no coração com as lagrymas de sangue que lhe vi chorar, que muitas vezes me cahiram n'estas mãos, que me correram por éstas faces. Ninguem o consolava senão eu… e Deus! Vêde se me esqueceriam as suas palavras.
*Jorge*. Homem, acabae.
*Romeiro*. Agora acabo; soffrei, que elle tambem soffreu muito.—Aqui estão as suas palavras: «Ide a D. Magdalena de Vilhena, e dizei-lhe que um homem que muito bem lhe quiz… aqui está vivo… por seu mal… e d'aqui não pôde sahir nem mandar-lhe novas suas de ha vinte annos que o trouxeram captivo.»
*Magdalena*, na maior anciedade. Deus tenha misericordia de mim!—E esse homem, esse homem… Jesus! esse homem era… esse homem tinha sido… levaram-n'o ahi de donde!… de Africa?
*Romeiro*. Levaram.
*Magdalena*. Captivo?…
*Romeiro*. Sim.
*Magdalena*. Portuguez?… captivo da batalha de?…
*Romeiro*. De Alcacer-Kebir.
*Magdalena*, espavorida. Meu Deus, meu Deus! Que se não abre a terra debaixo dos meus pés?… que não cahem éstas paredes, que me não sepultam ja aqui?…
*Jorge*. Callae-vos, D. Magdalena: a misericordia de Deus é infinita; esperae. Eu duvido, eu não creio… éstas não são coisas para se crerem de leve. (Reflecte, e logo como por uma idea que lhe acccudiu derepente) Oh! inspiração divina… (Chegando ao romeiro) Conheceis bem esse homem, romeiro: não é assim?
*Romeiro*. Como a mim mesmo.
*Jorge*. Se o vireis… ainda que fôra n'outros trajes… com menos annos—pintado, digamos—conhece-lo-heis?
*Romeiro*. Como se me visse a mim mesmo n'um espelho.
*Jorge*. Procurae n'estes retrattos, e dizei-me se algum d'elles póde ser.
*Romeiro*, sem procurar, e apontando logo para o retratto de D. João. É aquelle.
*Magdalena*, com um grito espantoso. Minha filha, minha filha, minha filha!… (em tom cavo e profundo) Estou… estás… perdidas, deshonradas… infames! (Com outro grito do coração) Oh minha filha, minha filha!… (Foge espavorida e n'este gritar.)
SCENA XV
JORGE e o ROMEIRO, que seguiu Magdalena com os olhos, e está alçado no meio da casa com aspecto severo e tremendo.
*Jorge*. Romeiro, romeiro! quem es tu?
*Romeiro*, apontando com o bordão para o retratto de D. João de Portugal. Ninguem.
(Frei Jorge cái prostrado no chão, com os braços estendidos, deante da tribuna. O panno desce lentamente.)