ACTO PRIMEIRO
Reading edition
Camera antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegancia portugueza dos principios do seculo dezasette: porcelanas, xarões, sedas, flores, etc. No fundo duas grandes janellas rasgadas, dando para um eirado que olha sôbre o Tejo e de donde se ve toda Lisboa: entre as janellas o retratto, em corpo inteiro, de um cavalleiro môço vestido de preto com a cruz branca de noviço de S. João de Jerusalem.—Defronte e para a bôcca da scena um bufete pequeno coberto de ricco panno de velludo verde franjado de prata; sôbre o bufete alguns livros, obras de tapeçaria meias-feitas, e um vaso da China de collo alto, com flores. Algumas cadeiras antigas, tamboretes razos, contadores. Da direita do espectador, porta de communicação para o interior da casa, outra da esquerda para o exterior.—É no fim da tarde.
SCENA I
MAGDALENA so, sentada junto á banca, os pés sôbre uma grande almofada, um livro aberto no regaço, e as mãos cruzadas sôbre elle, como quem descahiu da leitura na meditação.
*Magdalena*, repettindo machinalmente e de vagar o que acaba de ler.
«N'aquelle ingano d'alma ledo e cego Que a fortuna não deixa durar muito…»
Com paz e alegria d'alma… um ingano, um ingano de poucos instantes que seja… deve de ser a felicidade suprema n'este mundo.—E que importa que o não deixe durar muito a fortuna? Viveu-se, póde-se morrer. Mas eu!… (pausa) Oh! que o não saiba elle ao menos, que não suspeite o estado em que eu vivo… este medo, estes continuos terrores que ainda me não deixaram gozar um so momento de toda a immensa felicidade que me dava o seu amor.—Oh que amor, que felicidade… que desgraça a minha! (Torna a descahir em profunda meditação: silencio breve.)
SCENA II
MAGDALENA, TELMO-PAES
*Telmo*, chegando aopé de Magdalena que o não sentiu entrar. A minha senhora está a ler?…
*Magdalena*, despertando. Ah! sois vós, Telmo… Não, ja não leio: ha pouca luz de dia ja; confundia-me a vista.—E é um bonito livro este! o teu valido, aquelle nosso livro, Telmo.
*Telmo*, deitando-lhe os olhos. Oh, oh! Livro para damas—e para cavalleiros… e para todos: um livro que serve para todos; como não ha outro, tirante o respeito devido ao da Palavra de Deus! Mas esse não tenho eu a consolação de ler, que não sei latim como meu senhor… quero dizer, como o senhor Manuel de Sousa-Coutinho—que lá isso!… acabado escholar é elle. E assim foi seu pae antes d'elle, que muito bem o conheci: grande homem! Muitas lettras e de muito galante prática—e não somenos as outras partes de cavalleiro: uma gravidade!… Ja não ha d'aquella gente.—Mas, minha senhora, isto de a Palavra de Deus estar assim n'outra lingua, n'uma lingua que a gente… que toda a gente não intende!… confesso-vos que aquelle mercador inglez da rua-Nova, que aqui vem ás vezes, tem-me ditto suas cousas que me quadram… E Deus me perdoe! que eu creio que o homem é hereje d'esta seita nova d'Allemanha ou d'Inglaterra. Será?
*Magdalena*. Olhae, Telmo; eu não vos quero dar conselhos: bem sabeis que desde o tempo que… que…
*Telmo*. Que ja lá vai, que era outro tempo.
*Magdalena*. Pois sim… (suspira) Eu era uma criança; pouco maior era que Maria.
*Telmo*. Não, a senhora D. Maria ja é mais alta.
*Magdalena*. É verdade, tem crescido de mais, e derepente n'estes dois mezes ultimos…
*Telmo*. Então! Tem treze annos feitos, é quasi uma senhora, está uma senhora… (áparte) Uma senhora aquella… pobre menina!
*Magdalena*, com as lagrymas nos olhos. Es muito amigo d'ella, Telmo?
*Telmo*. Se sou! Um anjo como aquelle… uma viveza, um espirito!… e então que coração!
*Magdalena*. Filha da minha alma! (pausa:—mudando de tom) Mas olha, meu Telmo, tórno a dizer-t'o: eu não sei como heide fazer para te dar conselhos. Conheci-te de tam criança, de quando casei a… a… a primeira vez—costumei-me a olhar para ti com tal respeito: ja então eras o que hoje es, o escudeiro valido, o familiar quasi parente, o amigo velho e provado de teus amos.
*Telmo*, internecido. Não digaes mais, senhora, não me lembreis de tudo o que eu era.
*Magdalena*, quasi offendida. Porquê? não es hoje o mesmo, ou mais ainda, se é possivel? Quitaram-te alguma coisa da confiança, do respeito—do amor e carinho a que estava costumado o aio fiel de meu senhor D. João de Portugal, que Deus tenha em glória?
*Telmo*, áparte. Terá…
*Magdalena*. O amigo e camarada antigo de seu pae?
*Telmo*. Não, minha senhora, não, por certo.
*Magdalena*. Então?…
*Telmo*. Nada. Continuae, dizei, minha senhora.
*Magdalena*. Pois está bem.—Digo que mal sei dar-vos conselhos, e não queria dar-vos ordens… Mas, meu amigo, tu tomáste—e com muito gôsto meu e de seu pae, um ascendente no espirito de Maria… tal que não ouve, não cre, não sabe senão o que lhe dizes. Quasi que es tu a sua donna, a sua aia de criação.—Parece-me… eu sei… não falles com ella d'esse modo, n'essas coisas…
*Telmo*. O quê? No que me disse o inglez, sôbre a sagrada Escriptura que elles lá teem em sua lingua, e que?…
*Magdalena*. Sim… n'isso decerto… e em tantas outras coisas tam altas, tam fóra de sua edade, e muitas do seu sexo tambem, que aquella criança está sempre a querer saber, a perguntar.—É a minha unica filha: não tenho… nunca tivemos outra… e, além de tudo o mais, bem ves que não é uma criança… muito… muito forte.
*Telmo*. É… delgadinha, é. Hade inrijar. É tê-la por aqui, fóra d'aquelles ares apestados de Lisboa; e deixae, que se hade pôr outra.
*Magdalena*. Filha do meu coração!
*Telmo*. E do meu.—Pois não se lembra, minha senhora, que ao principio, era uma criança que eu não podia…—é a verdade, não a podia ver: ja sabereis porquê… mas vê-la, era ver… Deus me perdoe!… nem eu sei…—E d'ahi começou-me a crescer, a olhar para mim com aquelles olhos… a fazer-me taes meiguices, e a fazer-se-me um anjo tal de formosura e de bondade, que—vêdes-me aqui agora que lhe quero mais do que seu pae.
*Magdalena*, surrindo. Isso agora!…
*Telmo*. Do que vós.
*Magdalena*, rindo. Ora, meu Telmo!
*Telmo*. Mais, muito mais. E veremos: tenho ca uma coisa que me diz que antes de muito se hade ver quem é que quer mais á nossa menina n'esta casa.
*Magdalena*, assustada. Está bom; não entremos com os teus agouros e prophecias do costume: são sempre de aterrar… Deixemo'-nos de futuros…
*Telmo*. Deixemos, que não são bons.
*Magdalena*. E de passados tambem…
*Telmo*. Tambem.
*Magdalena*. E vamos ao que importa agora.—Maria tem uma comprehensão…
*Telmo*. Comprehende tudo!
*Magdalena*. Mais do que convem.
*Telmo*. Ás vezes.
*Magdalena*. É preciso moderá-la.
*Telmo*. É o que eu faço.
*Magdalena*. Não lhe dizer…
*Telmo*. Não lhe digo nada que não possa, que não deva saber uma donzella honesta e digna de melhor… de melhor.
*Magdalena*. Melhor quê?
*Telmo*. De nascer em melhor estado.—Quizestes ouvi-lo… está ditto.
*Magdalena*. Oh Telmo! Deus te perdoe o mal que me fazes. (Desata a chorar.)
*Telmo*, ajoelhando e beijando-lhe a mão. Senhora… senhora D. Magdalena, minha ama, minha senhora… castigae-me… mandae-me ja castigar, mandae-me cortar ésta lingua pêrra que não toma insino.—Oh senhora, senhora!… é vossa filha, é a filha do senhor Manuel de Sousa-Coutinho, fidalgo de tanto primor, e de tam boa linhagem como os que se teem por melhores n'este reino, em toda Hespanha… A senhora D. Maria… a minha querida D. Maria é sangue de Vilhenas e de Sousas; não precisa mais nada, mais nada, minha senhora, para ser… para ser…
*Magdalena*. Calae-vos, calae-vos, pelas dores de Jesus Christo, homem.
*Telmo*, soluçando. Minha ricca senhora!…
*Magdalena*, inchuga os olhos, e toma uma attitude grave e firme. Levantae-vos, Telmo, e ouvi-me. (Telmo levânta-se) Ouvi-me com attenção. É a primeira e será a última vez que vos fallo d'este modo e em tal assumpto.—Vós fostes o aio e amigo de meu senhor… de meu primeiro marido, o senhor D. João de Portugal; tinheis sido o companheiro de trabalho e de glória de seu illustre pae, aquelle nobre conde de Vimioso, que eu de tamanhinha me acostumei a reverenciar como pae. Entrei depois n'essa familia de tanto respeito; achei-vos parte d'ella, e quasi que vos tomei a mesma amizade que aos outros… chegastes a alcançar um podêr no meu espirito, quasi maior…—decerto, maior—que nenhum d'elles. O que sabeis da vida e do mundo, o que tendes adquirido na conversação dos homens e dos livros—porêm, mais que tudo, o que de vosso coração fui vendo e admirando cada vez mais—me fizeram ter-vos n'uma conta, deixar-vos tomar, intregar-vos eu mesma tal auctoridade n'esta casa e sôbre minha pessoa… que outros poderão estranhar…
*Telmo*. Emendae-o, senhora.
*Magdalena*. Não, Telmo, não preciso nem quero emendá-lo.—Mas agora deixae-me fallar.—Depois que fiquei so, depois d'aquella funesta jornada de Africa que me deixou viuva, orphan e sem ninguem… sem ninguem, e n'uma edade… com dezasette annos!—em vós, Telmo, em vós so, achei o carinho e protecção, o amparo que eu precisava. Ficastes-me em logar de pae: e eu… salvo n'uma coisa!—tenho sido para vós, tenho-vos obedecido como filha.
*Telmo*. Oh minha senhora, minha senhora! mas essa coisa em que vos apartastes dos meus conselhos…
*Magdalena*. Para essa houve podêr maior que as minhas fôrças… D. João ficou n'aquella batalha com seu pae, com a flor da nossa gente. (Signal de impaciencia em Telmo) Sabeis como chorei a sua perda, como respeitei a sua memoria, como durante sette annos, incredula a tantas provas e testimunhos de sua morte, o fiz procurar por essas costas de Berberia, por todas as sejanas de Fez e Marrocos, por todos quantos aduares de Alarves ahi houve… Cabedaes e valimentos, tudo se impregou; gastaram-se grossas quantias; os embaixadores de Portugal e Castella tiveram ordens apertadas de o buscar por toda a parte; aos padres da Redempção, a quanto religioso ou mercador podia penetrar n'aquellas terras, a todos se incommendava o seguir a pista do mais leve indício que podésse desmentir, pôr em dúvida ao menos, aquella notícia que logo viera com as primeiras novas da batalha de Alcacer. Tudo foi inutil; e a ninguem mais ficou resto de dúvida…
*Telmo*. Senão a mim.
*Magdalena*. Dúvida de fiel servidor, esperança de leal amigo, meu bom Telmo! que diz com vosso coração, mas que tem atormentado o meu…—E então sem nenhum fundamento, sem o mais leve indício… Pois dizei-me em consciencia, dizei-m'o de uma vez, claro e desinganado: a que se apéga ésta vossa credulidade de sette… e hoje mais quatorze… vinte e um annos?
*Telmo*, gravemente. Ás palavras, ás formaes palavras d'aquella carta escripta na propria madrugada do dia da batalha, e entregue a Frei Jorge que vo-la trouxe.—«Vivo ou morto»—resava ella—vivo ou morto… Não me esqueceu uma lettra d'aquellas palavras; e eu sei que homem era meu amo para as escrever em vão:—«Vivo ou morto, Magdalena, heide ver-vos pelo menos ainda uma vez n'este mundo.»—Não era assim que dizia?
*Magdalena*, aterrada. Era.
*Telmo*. Vivo não veiu… inda mal!—E morto… a sua alma, a sua figura…
*Magdalena*, possuida de grande terror. Jesus, homem!
*Telmo*. Não vos appareceu, decerto.
*Magdalena*. Não: credo!
*Telmo*, mysterioso. Bem sei que não. Queria-vos muito; e a sua primeira visita, como de razão, seria para minha senhora. Mas não se ia sem apparecer tambem ao seu aio velho.
*Magdalena*. Valha-me Deus, Telmo! Conheço que desarrazoaes, e comtudo as vossas palavras mettem-me um medo… Não me façaes mais desgraçada.
*Telmo*. Desgraçada! Porquê? não sois feliz na companhia do homem que amaes, nos braços do homem a quem sempre quizestes mais sôbre todos?—Que o pobre de meu amo… respeito, devoção, lealdade, tudo lhe tivestes, como tam nobre e honrada senhora que sois… mas amor!
*Magdalena*. Não está em nós da-lo, nem quitá-lo, amigo.
*Telmo*. Assim é. Mas os ciumes que meu amo não teve nunca—bem sabeis que têmpera d'alma era aquella—tenho-os eu… aqui está a verdade nua e crua… tenho-os eu por elle: não posso, não posso ver… e desejo, quero, forcejo por me acostumar… mas não posso. Manuel de Sousa… o senhor Manuel de Sousa-Coutinho é guapo cavalheiro, honrado fidalgo, bom portuguez… mas—mas não é, nunca hade ser, aquelle espelho de cavallaria e gentilleza, aquella flor dos bons… Ah meu nobre amo, meu sancto amo!
*Magdalena*. Pois sim, tereis razão… tendes razão, será tudo como dizeis. Mas reflecti, que haveis cabedal de intelligencia para muito:—eu resolvi-me por fim a casar com Manuel de Sousa; foi do apprazimento geral de nossas familias, da propria familia de meu primeiro marido, que bem sabeis quanto me estima; vivemos (com affectação) seguros, em paz e felizes… ha quatorze annos. Temos ésta filha, ésta querida Maria que é todo o gôsto e ância da nossa vida. Abençoou-nos Deus na formosura, no ingenho, nos dotes admiraveis d'aquelle anjo… E tu, tu, meu Telmo, que es tam seu, que chegas a pretender ter-lhe mais amor que nós mesmos…
*Telmo*. Não, não tenho!
*Magdalena*. Pois tens: melhor.—E es tu que andas, continuamente e quasi por accinte, a sustentar essa chymera, a levantar esse phantasma, cuja sombra, a mais remota, bastaria para innodoar a pureza d'aquella innocente, para condemnar a eterna deshonra a mãe e a filha… (Telmo dá signaes de grande agitação) Ora dize: ja pensastes bem no mal que estás fazendo?—Eu bem sei que a ninguem n'este mundo, senão a mim, fallas em taes coisas… fallas assim como hoje temos fallado… mas as tuas palavras mysteriosas, as tuas allusões frequentes a esse desgraçado rei D. Sebastião, que o seu mais desgraçado povo ainda não quiz acreditar que morrêsse, por quem ainda espera em sua leal incredulidade!—esses continuos agouros em que andas sempre de uma desgraça que está imminente sôbre a nossa familia… não ves que estás excitando com tudo isso a curiosidade d'aquella criança, aguçando-lhe o espirito—ja tam perspicaz!—a imaginar, a descobrir… quem sabe se a accreditar n'essa prodigiosa desgraça em que tu mesmo… tu mesmo… sim, não cres devéras? Não cres, mas achas não sei que doloroso prazer em ter sempre viva e suspensa essa dúvida fatal. E então considera, ve: se um terror similhante chega a entrar n'aquella alma, quem lh'o hade tirar nunca mais?… O que hade ser d'ella e de nós?—Não a perdes, não a mattas… não me mattas a minha filha?
*Telmo*, em grande agitação durante a falla precedente, fica pensativo e aterrado: falla depois como para si. É verdade que sim! A morte era certa.—E não hade morrer: não, não, não, tres vezes não. (Para Magdalena) Á fe de escudeiro honrado, senhora D. Magdalena, a minha bôcca não se abre mais; e o meu espirito hade… hade fechar-se tambem… (Á parte) Não é possivel, mas eu heide salvar o meu anjo do ceu! (Alto para Magdalena) Está ditto, minha senhora.
*Magdalena*. Ora Deus t'o pague,—Hoje é o último dia de nossa vida que se falla em tal.
*Telmo*. O último.
*Magdalena*. Ora pois, ide, ide ver o que ella faz: (levantando-se) que não esteja a ler ainda, a estudar sempre. (Telmo vae a sahir) E olhae: chegae-me depois alli a San'Paulo, ou mandae, se não podeis…
*Telmo*. Ao convento dos Dominicos? Pois não posso!… quatro passadas.
*Magdalena*. E dizei a meu cunhado, a Frei Jorge-Coutinho, que me está dando cuidado a demora de meu marido em Lisboa; que me prometteu de vir antes de véspera, e não veiu; que é quasi noite, e que ja não estou contente com a tardança. (Chega á varanda, e olha para o rio) O ar está sereno, o mar tam quieto, e a tarde tam linda!… quasi que não ha vento, é uma viração que affaga… Oh e quantas faluas navegando tam garridas por esse Tejo! Talvez n'alguma d'ellas—n'aquella tam bonita—venha Manuel de Sousa.—Mas n'este tempo não ha que fiar no Tejo, d'um instante para o outro levanta-se uma nortada… e então aqui o pontal de Cacilhas!—Que elle é tam bom mareante… Ora, um cavalleiro de Malta! (olha para o retratto com amor) Não é isso o que me dá maior cuidado. Mas em Lisboa ainda ha peste, ainda não estão limpos os ares… E ess'outros ares que por ahi correm d'estas alterações públicas, d'estas malquerenças entre castelhanos e portuguezes! Aquelle character inflexivel de Manuel de Sousa traz-me n'um susto contínuo.—Vai, vai a Frei Jorge, que diga se sabe alguma coisa, que me assocegue, se podér.
SCENA III
MAGDALENA, TELMO, MARIA
*Maria*, entrando com umas flores na mão, incôntra-se com Telmo, e o faz tornar para a scena. Bonito! Eu ha mais de meia hora no eirado passeando—e sentada a olhar para o rio a ver as faluas e os bergantins que andam para baixo e para cima—e ja abhorrecida de esperar… e o senhor Telmo, aqui pôsto a conversar com minha mãe, sem se importar de mim!—Que é do romance que me promettestes? não é o da batalha, não é o que diz:
Postos estão, frente a frente, Os dois valorosos campos;
é o outro, é o da ilha incoberta onde está elrei D. Sebastião, que não morreu e que hade vir um dia de névoa muito cerrada… Que elle não morreu; não é assim, minha mãe?
*Magdalena*. Minha querida filha, tu dizes coisas? Pois não tens ouvido, a teu tio Frei Jorge e a teu tio Lopo de Sousa, contar tantas vezes como aquillo foi? O povo coitado imagina essas chymeras para se consolar na desgraça.
*Maria*. Voz do povo, voz de Deus, minha senhora mãe: elles que andam tam crentes n'isto, alguma coisa hade ser. Mas ora o que me dá que pensar é ver que, tirado aqui o meu bom velho Telmo, (chêga-se toda para elle, acarinhando-o) ninguem n'esta casa gosta de ouvir fallar em que escapásse o nosso bravo rei, o nosso sancto rei D. Sebastião.—Meu pae, que é tam bom portuguez, que não póde soffrer estes castelhanos, e que até ás vezes dizem que é demais o que elle faz e o que elle falla… em ouvindo duvidar da morte do meu querido rei D. Sebastião… ninguem tal hade dizer, mas põe-se logo outro, muda de semblante, fica pensativo e carrancudo: parece que o vinha affrontar, se voltásse, o pobre do rei.—Ó minha mãe, pois elle não é por D. Filippe; não é, não?
*Magdalena*. Minha querida Maria, que tu hasde estar sempre a imaginar n'essas coisas que são tam pouco para a tua edade! Isso é o que nos afflige, a teu pae e a mim; queria-te ver mais alegre, folgar mais, e com coisas menos…
*Maria*. Então, minha mãe, então!—Veem, veem?… tambem minha mãe não gosta. Oh! essa ainda é peor, que se afflige, chora… ella ahi está a chorar… ella ahi está a chorar… (vai-se abraçar com a mãe que chora) Minha querida mãe, ora pois então!—Vai-te embora, Telmo, vai-te: não quero mais fallar, nem ouvir fallar de tal batalha, nem de taes histórias, nem de coisa nenhuma d'essas.—Minha querida mãe!
*Telmo*. E é assim: não se falla mais n'isso. E eu vou-me embora. (Á parte, indo-se depois de lhe tomar as mãos) Que febre que ella tem hoje, meu Deus! queimam-lhe as mãos… e aquellas rosetas nas faces… Se o perceberá a pobre da mãe!
SCENA IV
MAGDALENA, MARIA
*Maria*. Quereis vós saber, mãe, uma tristeza muito grande que eu tenho?—A mãe ja não chora, não? ja se não infada commigo?
*Magdalena*. Não me infado comtigo nunca, filha; e nunca me affliges, querida. O que tenho é o cuidado que me dás, é o receio de que…
*Maria*. Pois ahi está a minha tristeza: é esse cuidado em que vos vejo andar sempre por minha causa. Eu não tenho nada; e tenho saude, olhae que tenho muita saude.
*Magdalena*. Tens, filha… se Deus quizer, hasde ter; e hasde viver muitos annos para consolação e amparo de teus paes que tanto te querem.
*Maria*. Pois olhae: passo noites inteiras em claro a lidar n'isto, e a lembrar-me de quantas palavras vos tenho ouvido, e a meu pae… e a recordar-me da mais pequena acção e gesto,—e a pensar em tudo, a ver se descubro o que isto é—o porque tendo-me tanto amor… que, oh isso nunca houve decerto filha querida como eu!…
*Magdalena*. Não, Maria.
*Maria*. Pois sim; tendo-me tanto amor, que nunca houve outro egual, estaes sempre n'um sobresalto commigo?…
*Magdalena*. Pois se te estremecêmos?
*Maria*. Não é isso, não é isso: é que vos tenho lido nos olhos… Oh, que eu leio nos olhos, leio, leio!… e nas estrêllas do ceu tambem—e sei coisas…
*Magdalena*. Que estás a dizer, filha, que estás a dizer? que desvarios! Uma menina do teu juizo, temente a Deus… não te quero ouvir fallar assim.—Ora vamos: anda ca, Maria, conta-me do teu jardim, das tuas flores. Que flores tens tu agora? O que são éstas? (pegando nas que ella traz na mão)
*Maria*, abrindo a mão e deixando-as cahir no regaço da mãe. Murchou tudo… tudo estragado da calma… Éstas são papoulas que fazem dormir, colhi-as para as metter debaixo do meu cabeçal ésta noite; quero-a dormir de um somno, não quero sonhar, que me faz ver coisas… lindas ás vezes, mas tam extraordinarias e confusas…
*Magdalena*. Sonhar, sonhas tu acordada, filha! Que, olha, Maria, imaginar é sonhar: e Deus pôs-nos n'este mundo para velar e trabalhar—com o pensamento sempre n'elle sim, mas sem nos extranharmos a éstas coisas da vida que nos cercam, a éstas necessidades que nos impõe o estado, a condicção em que nascêmos. Ves tu, Maria: tu es a nossa unica filha, todas as esperanças de teu pae são em ti…
*Maria*. E não lh'as posso realizar, bem sei.—Mas que heide eu fazer? eu estudo, leio…
*Magdalena*. Les demais, cânças-te, não te distraes como as outras donzellas da tua edade, não es…
*Maria*. O que eu sou… só eu o sei, minha mãe… E não sei, não: não sei nada, senão que o que devia ser não sou…—Oh! porque não havia de eu ter um irmão que fosse um galhardo e valente mancebo, capaz de commandar os terços de meu pae, de pegar n'uma lança d'aquellas com que os nossos avós corriam a India, levando adeante de si Turcos e Gentios! um bello moço que fosse o retratto proprio d'aquelle gentil cavalleiro de Malta que alli está. (Apontando para o retratto) Como elle era bonito meu pae! Como lhe ficava bem o preto!… e aquella cruz tam alva em cima! Paraque deixou elle o hábito, minha mãe, porque não ficou n'aquella sancta religião, a vogar em suas nobres galeras, por esses máres, e a affugentar os infieis deante da bandeira da Cruz?
*Magdalena*. Oh filha, filha!… (Mortificada) porque não foi vontade de Deus: tinha de ser d'outro modo.—Tomára eu agora que elle chegásse de Lisboa! Comeffeito é muito tardar… valha-me Deus!
SCENA V
JORGE, MAGDALENA, MARIA
*Jorge*. Ora seja Deus n'esta casa!
(Maria beija-lhe o escapulario e depois a mão; Magdalena somente o escapulario.)
*Magdalena*. Sejaes bem vindo, meu irmão!
*Maria*. Boas tardes, tio Jorge!
*Jorge*. Minha senhora mana!—A bençam de Deus te cubra, filha!—Tambem estou desassocegado como vós, mana Magdalena: mas não vos afflijaes, espero que não hade ser nada.—É certo que tive umas notícias de Lisboa…
*Magdalena*, assustada. Pois que é, que foi?
*Jorge*. Nada, não vos assusteis; mas é bom que estejaes prevenida, por isso vo-lo digo. Os governadores querem sair da cidade… é um capricho verdadeiro… Depois de aturarem mettidos alli dentro toda a fôrça da peste, agora que ella está, se póde dizer, acabada, que são rarissimos os casos, é que por fôrça querem mudar de ares.
*Magdalena*. Pois coitados!…
*Maria*. Coitado do povo!—Que mais valem as vidas d'elles? Em pestes e desgraças assim, eu intendia, se governásse, que o serviço de Deus e do rei me mandava ficar, até á última, onde a miseria fosse mais e o perigo maior, para attender com remedio e amparo aos necessitados.—Pois, rei não quer dizer pae commum de todos?
*Jorge*. A minha donzella Theodora!—Assim é, filha; mas o mundo é d'outro modo: que lhe faremos?
*Maria*. Emendá-lo.
*Jorge*, para Magdalena, baixo. Sabeis que mais? Tenho medo d'esta criança.
*Magdalena*, do mesmo modo. Tambem eu.
*Jorge*, alto. Mas emfim, resolveram sahir: e sabereis mais que, para côrte e «buen-retiro» dos nossos cinco reis, os senhores governadores de Portugal por D. Filippe de Castella que Deus guarde, foi escolhida ésta nossa boa villa d'Almada, que o deveu á fama de suas aguas sadias, ares lavados e graciosa vista.
*Magdalena*. Deixá-los vir.
*Jorge*. Assim é: que remedio! Mas ouvi o resto. O nosso pobre convento de San'Paulo tem de hospedar o senhor arcebispo D. Miguel de Castro, presidente do govêrno.—Bom prelado é elle; e, se não fosse que nos tira do humilde socêgo de nossa vida, por vir como senhor e principe secular… o mais, paciencia. Peior é o vosso caso…
*Magdalena*. O meu!
*Jorge*. O vosso e de Manuel de Sousa: porque os outros quatro governadores—e aqui está o que me mandaram dizer em muito segrêdo de Lisboa—dizem que querem vir para ésta casa, e pôr aqui aposentadoria.
*Maria*, com vivacidade. Fechâmos-lhes as portas. Mettêmos a nossa gente dentro—o terço de meu pae tem mais de seiscentos homens—e defendêmo'-nos. Pois não é uma tyrannia?…—E hade ser bonito!… Tomára eu ver seja o que for que se pareça com uma batalha!
*Jorge*. Louquinha!
*Magdalena*. Mas que mal fizemos nós ao conde de Sabugal e aos outros governadores, para nos fazerem esse desacato? Não ha por ahi outras casas; e elles não sabem que n'esta ha senhoras, uma familia… e que estou eu aqui?…
*Maria*, que esteve com o ouvido inclinado para a janella. É a voz de meu pae! Meu pae que chegou.
*Magdalena*, sobresaltada. Não oiço nada.
*Jorge*. Nem eu, Maria.
*Maria*. Pois oiço eu muito claro. É meu pae que ahi vem… e vem affrontado!
SCENA VI
JORGE, MAGDALENA, MARIA, MIRANDA
*Miranda*. Meu senhor chegou: vi agora d'aquelle alto entrar um bergantim que é por fôrça o nosso. Estaveis com cuidado; e era para isso, que ja vai a cerrar-se a noite… Vim trazer-vos depressa a notícia.
*Magdalena*. Obrigada, Miranda.—É extraordinaria ésta criança; ve e ouve em taes distâncias…
(Maria tem sahido para o eirado, mas volta logo depois.)
*Jorge*. É verdade. (Á parte) Terrivel signal n'aquelles annos e com aquella compleição!
SCENA VII
JORGE, MAGDALENA, MARIA, MIRANDA, MANUEL DE SOUSA entrando com varios criados que o seguem—alguns com brandões accesos.—É noite fechada.
*Manuel*, parando juncto da porta, para os criados. Façam o que lhes disse. Ja, sem mais detença! Não apaguem esses brandões; incostem-n'os ahi fóra no patim. E tudo o mais que eu mandei.—(Vindo ao proscenio) Magdalena! Minha querida filha, minha Maria! (Abraça-as) Jorge, ainda bem que aqui estás, preciso de ti: bem sei que é tarde e que são horas conventuaes; mas eu irei depois comtigo dizer a «mea culpa» e o «peccavi» ao nosso bom prior.—Miranda, vinde ca. (Vai com elle á porta da esquerda, depois ás do eirado, e dá-lhe algumas ordens baixo.)
*Magdalena*. Que tens tu? nunca entraste em casa assim. Tens coisa que te dá cuidado… e não m'o dizes? O que é?
*Manuel*. É que… Senta-te, Magdalena; aqui aopé de mim, Maria; Jorge, sentemo'-nos que estou cançado. (Sentam-se todos) Pois agora sabei as novidades, que seriam extranhas se não fosse o tempo em que vivêmos. (Pausa) É preciso sahir ja d'esta casa, Magdalena.
*Maria*. Ah! inda bem, meu pae!
*Manuel*. Inda mal! mas não ha outro remedio. Sahiremos ésta noite mesma. Ja dei ordens a toda a familia: Teimo foi avisar as tuas aias do que haviam de fazer, e lá anda pelas cameras velando n'esse cuidado. Sempre é bom que vas dar um relance d'olhos ao que por lá se faz: eu tambem irei por minha parte.—Mas temos tempo: isto são oito horas, á meia noite vão quatro; d'aqui lá o pouco que me importa salvar estará salvo… e elles não virão antes da manhan.
*Magdalena*. Então sempre é verdade que Luiz de Moura e os outros governadores?…
*Manuel*. Luiz de Moura é um villão ruim, faz como quem é: o arcebispo é… o que os outros querem que elle seja. Mas o conde de Sabugal, o conde de Sancta-Cruz, que deviam olhar por quem são, e que tomaram este incargo odioso… e vil, de opprimir os seus naturaes em nome de um rei extrangeiro!… Oh que gente, que fidalgos portuguezes!… Heide-lhes dar uma licção, a elles, e a este escravo d'este povo que os soffre, como não levam tyrannos ha muito tempo n'esta terra.
*Maria*. O meu nobre pae! Oh, o meu querido pae! Sim, sim, mostrae-lhes quem sois e o que vale um portuguez dos verdadeiros.
*Magdalena*. Meu adorado espôso, não te deites a perder, não te arrebates. Que farás tu contra esses poderosos? Elles ja te querem tam mal pelo mais que tu vales que elles, pelo teu saber—que esses grandes fingem que desprezam… mas não é assim, o que elles teem é inveja!—O que fará, se lhes deres pretexto para se vingarem da affronta em que os traz a superioridade do teu merito!—Manuel, meu espôso, Manuel de Sousa, pelo nosso amor…
*Jorge*. Tua mulher tem razão. Prudencia, e lembra-te de tua filha.
*Manuel*. Lembro-me de tudo, deixa estar.—Não te inquietes, Magdalena: elles querem vir para aqui ámanhan de manhan; e nós forçosamente havemos de sahir antes d'elles entrarem. Por isso é preciso ja.
*Magdalena*. Mas para onde iremos nós, derepente, a éstas horas?
*Manuel*. Para a unica parte para onde podêmos ir: a casa não é minha… mas é tua, Magdalena.
*Magdalena*. Qual?… a que foi?… a que péga com San'Paulo?… Jesus me valha!
*Jorge*. E fazem muito bem: a casa é larga e está em bom reparo, tem ainda quasi tudo de trastes e paramentos necessarios: pouco tereis que levar comvosco.—E então para mim, para os nossos padres todos que alegria! Ficâmos quasi debaixo dos mesmos telhados.—Sabeis que tendes alli tribuna para a capella da Senhora da Piedade, que é a mais devota e a mais bella de toda a egreja… Ficâmos como vivendo junctos.
*Maria*. Tomára-me eu ja lá. (Levânta-se pulando.)
*Manuel*. E são horas, vamos a isto. (Levantando-se.)
*Magdalena*, vindo para elle. Ouve, escuta, que tenho que te dizer; por quem es, ouve: não haverá algum outro modo?
*Manuel*. Qual, senhora, e que lhe heide eu fazer? Lembrae vós, vêde se achaes.
*Magdalena*. Aquella casa… eu não tenho ânimo… Olhae: eu preciso de fallar a sos comvosco.—Frei Jorge, ide com Maria ahi para dentro; tenho que dizer a vosso irmão.
*Maria*. Tio, venha, quero ver se me accommodam os meus livrinhos; (confidencialmente) e os meus papeis, que eu tambem tenho papeis: deixae que lá na outra casa vos heide mostrar… Mas segrêdo?
*Jorge*. Tontinha!
SCENA VIII
MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA
*Manuel*. passeia agitado de um lado para o outro da scena, com as mãos cruzadas detrás das costas, e parando derepente: Hade saber-se no mundo que ainda ha um portuguez em Portugal.
*Magdalena*. Que tens tu, dize, que tens tu?
*Manuel*. Tenho que não heide soffrer ésta affronta… e que é preciso sahir d'esta casa, senhora.
*Magdalena*. Pois sahiremos, sim: eu nunca me oppuz ao teu querer, nunca soube que coisa era ter outra vontade differente da tua; estou prompta a obedecer-te sempre, cegamente, em tudo. Mas, oh! espôso da minha alma… para aquella casa não, não me leves para aquella casa. (Deitando-lhe os braços ao pescoço.)
*Manuel*. Ora tu não eras costumada a ter caprichos! Não temos outra para onde ir: e a éstas horas, n'este appêrto… Mudaremos depois, se quizeres… mas não lhe vejo remedio agora.—E a casa que tem? Porque foi de teu primeiro marido! é por mim que tens essa repugnancia? Eu estimei e respeitei sempre a D. João de Portugal; honro a sua memória, por ti, por elle e por mim; e não tenho na consciencia por que receie abrigar-me debaixo dos mesmos tectos que o cobriram.—Viveste alli com elle? Eu não tenho ciumes de um passado que me não pertencia. E o presente, esse é meu, meu so, todo meu, querida Magdalena… Não fallêmos mais n'isso; é preciso partir, e ja.
*Magdalena*. Mas é que tu não sabes… eu não sou melindrosa nem de invenções: em tudo o mais sou mulher, e muito mulher, querido; n'isso não… mas tu não sabes a violencia, o constrangimento d'alma, o terror com que eu penso em ter de entrar n'aquella casa. Parece-me que é voltar ao podêr d'elle, que é tirar-me dos teus braços, que o vou incontrar alli…—oh perdoa, perdoa-me, não me sái ésta idea da cabeça…—que vou achar alli a sombra despeitosa de D. João que me está ameaçando com uma espada de dous gumes… que a atravessa no meio de nós, entre mim e ti e a nossa filha, que nos vai separar para sempre…—Que queres…? bem sei que é loucura; mas a idea de tornar a morar alli, de viver alli comtigo e com Maria, não posso com ella. Sei de certo que vou ser infeliz, que vou morrer n'aquella casa funesta, que não estou alli tres dias, tres horas sem que todas as calamidades do mundo venham sôbre nós.—Meu esposo, Manuel, marido da minha alma, pelo nosso amor t'o peço, pela nossa filha… vamos seja para onde for, para a cabana de algum pobre pescador d'esses contornos, mas para alli não, oh! não.
*Manuel*. Em verdade nunca te vi assim; nunca pensei que tivesses a fraqueza de accreditar em agouros. Não ha senão um temor justo, Magdalena, é o temor de Deus; não ha espectros que nos possam apparecer senão os das más acções que fazemos. Que tens tu na consciencia que t'os faça temer? O teu coração e as tuas mãos estão puras: para os que andam deante de Deus, a terra não tem sustos, nem o inferno pavores que se lhes attrevam. Rezaremos por alma de D. João de Portugal n'essa devota capella que é parte da sua casa; e não hajas mêdo que nos venha perseguir n'este mundo aquella sancta alma que está no ceu, e que em tam sancta batalha, pelejando por seu Deus e por seu rei, acabou martyr ás mãos dos infieis.—Vamos, D. Magdalena de Vilhena, lembrae-vos de quem sois e de quem vindes, senhora… e não me tires, querida mulher, com vans chymeras de crianças, a tranquillidade do espirito e a fôrça do coração, que as preciso inteiras n'esta hora.
*Magdalena*. Pois que vais tu fazer?
*Manuel*. Vou, ja te disse, vou dar uma licção aos nossos tyrannos que lhes hade lembrar, vou dar um exemplo a este povo que o hade allumiar…
SCENA IX
MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, TELMO, MIRANDA e outros criados, entrando apressadamente.
*Telmo*. Senhor, desimbarcaram agora grande comitiva de fidalgos, escudeiros e soldados que veem de Lisboa e sobem a incosta para a villa. O arcebispo não é decerto, ja ca está ha muito no convento: diz-se por ahi…
*Manuel*. Que são os governadores? (Telmo faz um signal affirmativo.) Quizeram-me inganar, e appressam-se a vir hoje… parece que adivinharam… Mas não me colheram desapercebido. (Chama á porta da esquerda) Jorge, Maria! (Volta para a scena) Magdalena, ja, ja sem mais demora.
SCENA X
MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, TELMO, MIRANDA e os outros criados; JORGE e MARIA entrando.
*Manuel*. Jorge, acompanha éstas damas. Telmo, ide, ide com ellas.—(Para os outros criados) Partiu ja tudo, as arcas, os meus cavallos, armas e tudo o mais?
*Miranda*. Quasi tudo foi ja; o pouco que falta está prompto e sahirá n'um instante… pela porta detrás, se quereis.
*Manuel*. Bom; que sáia. (A um signal de Miranda sahem dois criados.) Magdalena, Maria, não vos quero ver aqui mais. Ja, ide; serei comvosco em pouco tempo.
SCENA XI
MANUEL DE SOUSA, MIRANDA e os outros criados.
*Manuel*. Meu pae morreu desastrosamente cahindo sôbre a sua propria espada; quem sabe se eu morrerei nas chammas ateadas por minhas mãos? Seja. Mas fique-se aprendendo em Portugal como um homem de honra e coração, por mais poderosa que seja a tyrannia, sempre lhe póde resistir, em perdendo o amor a coisas tam vis e precarias como são esses haveres que duas faiscas destroem n'um momento… como é ésta vida miseravel que um sôpro póde apagar em menos tempo ainda! (Arrebata duas tochas das mãos dos criados, corre á porta da esquerda, atira com uma para dentro: e ve-se atear logo uma lavareda immensa. Vai ao fundo, atira a outra tocha; e succede o mesmo. Ouve-se alarido de fóra.)
SCENA XII
MANUEL-DE-SOUSA e criados: MAGDALENA, MARIA, TELMO E JORGE accudindo.
*Magdalena*. Que fazes?… que fizeste?—Que é isto, oh meu Deus!
*Manuel*, tranquillamente. Illumino a minha casa para receber os muito poderosos e excelentes senhores governadores d'estes reinos. Suas excellencias podem vir quando quizerem.
*Magdalena*. Meu Deus, meu Deus!… Ai, e o retratto de meu marido!… Salvem-me aquelle retratto.
(Miranda e outro criado vão para tirar o painel; uma columna de fogo salta nas tapeçarias e os afugenta.)
*Manuel*. Parti, parti. As materias inflammaveis que eu tinha disposto vão-se ateando com espantosa velocidade. Fugi.
*Magdadena*, cingindo-se ao braço do marido. Sim, sim, fujamos.
*Maria*, tomando-o do outro braço. Meu pae, nós não fugimos sem vós.
(Redobram os gritos de fóra, ouve-se rebate de sinos; cai o panno.)