ESTRELLAS PROPICIAS. (continued 3)
Reading edition
Gastão de Noronha ficou estupefacto. Fernando de Athaide avisinhou-se d'elle, e disse-lhe:
—O homem veneravel que lhe falla, tem inspiração do ceo, meu primo. Acceite a felicidade da nossa Corinna.
—Demora-se a responder, senhor Gastão!—disse o velho com ar triste—Eu não queria que os rogos dos moços valessem mais com vossa excellencia, que as minhas singelas palavras. Se alguem aqui pedir mais do que eu, ha de ser a noiva. Senhora D. Corinna, venha comigo: ha de ajoelhar aos pés de seu pae.
Ergueu-se o tremulo ancião, e tomou a mão de Corinna, que era toda purpura e lagrimas.
Gastão, sem balbuciar um monosyllabo, fez signal affirmativo, recebeu a filha nos braços, e osculou-a na testa.
—Bravo!—exclamou o brazileiro, apertando convulsamente ao peito o velho Taveira. A esposada e as outras meninas, salvo Emma, foram beijar soffregamente a irman; Emma, porém, lá da sua cadeira de espaldas, disse lentamente:
—Ó Corinna, vem cá abraçar-me, que eu não posso bolir comigo de cansada!
Este milagre de inercia fez rir a todos, e desfranziu o semblante de Gastão. Voltaram á mesa do
toast
a brindar Antonio de Azevedo. O fidalgo concordou sem repugnancia nas saudes propostas, e agradeceu a ultima do negociante, em nome de sua filha, futura esposa de Antonio d'Azevedo.
Quando Gastão proferiu estas palavras com enthusiasmo, Corinna da Soledade descahiu sobre o hombro de sua mãe, e desmaiou. Era um deliquio de felicidade, um arrobamento de bemaventurança como as santas os sentem em seus extasis de amor divino.
XVI.
Antonio de Azevedo recebeu, ao mesmo tempo, tres cartas, afinadas todas pelo mesmo tom de felicidade.
Abriu primeiro a de Corinna da Soledade: era uma surpreza desde o principio. Noticiava o casamento de Felismina com Fernando de Athaide, e os miudos successos decorridos até ás palavras proferidas por seu pae na occasião do brinde.
A ultima pagina continha o seguinte:
«Ainda estamos do Porto; mas brevemente vamos para Lisboa. O primo Fernando quer que te esperemos lá, onde se hão de realisar os nossos sonhos, mais cedo do que eu e tu suppúnhamos, ó meu querido Antonio! Vem, vem no primeiro navio que sahir Ás vezes receio morrer antes da tua chegada. Temo que me acordem d'este sonho. As pessoas infelizes não podem familiarisar-se com a ideia de já o não serem! Imaginas tu que terrores me atormentam, agora, que tão ditosa me sinto, e tão grata levanto as mãos ao Senhor! Lembra-me que já podes amar-me com menos ardor; lembra-me que estás embevecido na ambição das riquezas... Ó meu amigo, até me lembra se terás morrido! Vê tu se ha mais cruel imaginação! Nem agora me deixa o mau destino! Parece que se está assim vingando por não poder aniquilar-me! Acode aos meus receios, vem sem demora, sim? Fernando é um anjo de bondade; sobra-lhe riqueza para dar abundancia e alegria a muita gente. Não será vergonha recebermos tudo de sua mão. Que lhe diria o visconde a teu respeito, que elle ficou pensativo?! Perguntei-lhe o que tinha, e respondeu-me que o teu caracter, por demasia de austeridade, talvez se não dobrasse á vontade d'elle. Comprehendo estas palavras: suspeitam que tu recusarás favores de posição, devida a influencia estranha. É porque não sabem quanto me amas, meu querido amigo! Eu disse a meu primo que ficava pela tua docilidade: não me deixes ficar mal, não?
»
A carta de Fernando de Athaide rezava assim:
«O meu amigo espera que eu de Londres lhe escreva, explicando a surpreza de uma procuração que lhe deixei, a fim de tomar conta na direcção dos meus haveres ahi, no caso de eu me demorar na Europa. Escrevo-lhe de Portugal, onde estou casado com minha prima Felismina. Ja vê que me compuz com Gastão de Noronha o mais amigavelmente que vossa senhoria podia desejar. Antonio de Azevedo com duas palavras decidiu do meu destino; e, se não me engano, abriu uma época de muita ventura para esta familia, que é hoje a minha, e que deve ser a sua tão brevemente, quanto depende da sua vinda para Portugal.
«Eu não lhe peço, apenas lhe digo que venha. Se necessario fosse pedir, Corinna e eu duvidariamos do seu amor. Bem sei que ha uma certa dignidade humana, que tem a ferrea inflexibilidade dos corações duros. Essa, Deus permittirá que não seja a sua: se o fosse, a minha gloria seria imperfeita, e essa nuvem bastaria a toldar esta festiva luz que me alegra a alma.
«Não discutamos tal ponto. Venha, meu irmão. Os meus negocios deixe-os entregues ao senhor Valentim da Costa, a quem escrevo.
«Minha mulher offerece uma prenda de noivado a sua futura esposa: quiz, porém, (caprichos feminis!) que vossa senhoria fosse o portador da prenda, que ahi lhe ha de ser dada.
«Na proxima semana partimos para Lisboa. Na sua chegada alli encontrar-me-ha logo.
«Corinna tem as tristezas da duvida. Venha dar-lhe a ventura que a mais ridente esperança não póde dar-lhe
»
A carta do visconde da Cruz incluia a ordem devolvida dos seis contos de reis, e a historia minudenciosa que Antonio lêra na carta de Corinna. Como avaliador profundo do caracter do seu amigo, o visconde combatia de antemão os argumentos de independencia com que esperava ser contrariado; rematava, porém, a carta censurando-se a si proprio por ter julgado tão frio amante o homem que, por amor d'um anjo, se expatriara alanceado de desgostos......
Entendam lá o coração humano!
Antonio de Azevedo lêra as tres cartas surprendido, mas não alegre! Que nuvem negra lhe cobria o quadro bello a que o chamavam as tres cartas! Que presagio d'alma lhe antepunha ás delicias convidativas da patria uma visão triste em que elle parecia cravar os olhos espavoridos!
Valentim da Costa, que raro sahia de casa, entrou n'este momento.
—A alegria dá forças!—exclamou elle—aqui está o velho a dar os emboras ao mancebo, que foi mais cedo compensado do que ordinariamente costumam sêl-o os bons!... Que é isso?! vossê está triste, Antonio?! As suas cartas que lhe dizem?
—Que Fernando de Athaide casara com uma de suas
primas
.
—E que mais?... Não é chamado para ir casar com a sua Corinna?
—Sou.
—E então? vossê não está ainda louco de alegria? Não cuida em preparar-se para a ida?
—Não, senhor; cuido em ganhar a minha independencia. Corinna é a filha de Gastão de Noronha, e eu sou quem era, quando sahi de Portugal. Estou pobre como vim. A patria para mim é meramente a terra onde nasci; não é independencia. Quando aqui vim, foi a legitima vaidade de homem pundonoroso que me aconselhou; o pundonor aconselha-me agora que não vá acceitar de mãos estranhas a subsistencia de minha mulher e de meus filhos. A maior alma é sempre insignificante ao pé da pequenissima alma em cuja dependencia está. Eu não quero dizer a Corinna que lisonjeie seu cunhado pelos favores que lhe devemos. Ser-me-ia um permanente infortunio recebel-os de Gastão ou Fernando. Sou homem: devo-me a mim proprio. E os homens que não podem viver com muito, vão ás inferiores escaleiras sociaes procurar a mulher que quadra á sua mediania, e não devem pensar que o amor os desculpa de irem ás altas classes convidar uma senhora a descer onde elles estão. Não caso pobre com Corinna, e tambem não a faço quinhoeira da minha dependencia. Quando eu tiver ganhado pollegada a pollegada o torrão que me sustente na patria, então irei. Agora, meu bom amigo, vou dar-lhe conta da minha amargura, que é mais que tristeza. Corinna, ao receber esta resposta, dirá que eu a não amo. Fernando dirá que sou indigno d'ella. O fidalgo arrancará do orgulho ferido injurias contra o meu plebeismo. As irmans hão de dizer-lhe que eu a sacrifico á bruteza das minhas ambições. A final só terei por mim a minha consciencia pura, se é que me não ha de pungir a mágoa de ser assim organisado. Aqui tem, senhor Valentim, que a minha estrella é má!
—Má!?—exclamou o velho—É uma estrella de santificação a sua, meu Azevedo! Sabe o que eu podia fazer? era argumentar comsigo, e leval-o a convencer-se de que a dependencia só é vergonhosa quando o dependente abdica de sua dignidade á força de fazer-se inutil; dir-lhe-ia que vossê com o seu trabalho de jurisconsulto, embora mal remunerado, havia de adquirir na patria o torrão mais que abundante á sua subsistencia, e que sua senhora e seus filhos viveriam todos felizes á sombra da mesma arvore; mas...
Antonio de Azevedo interrompeu:
—Os seus argumentos não me moveriam: perdôe á minha rebeldia, meu caro amigo. A mediocridade, e ainda mesmo a pobreza, podem parecer delicias á mulher que ama contrariada por obstaculos de nascimento ou de fortuna: o amor faz milagres taes, desfigurando tudo o que está feito e refeito pelos seculos, e pelo consenso universal. Quando, porém, o amor cede ao tempo, á intimidade, aos mais serios deveres da maternidade, e aos preceitos e preconceitos inexoraveis da sociedade—que acham sempre traça de se insinuarem mesmo através do colmado do trabalhador de enxada—a mãe, que se vê pobre, é já mulher muito diversa da noiva que almejava a pobreza do homem amado. As flores da poesia fructificaram já em filhos que pedem alimento, educação e futuro. As amigas de infancia, que pareceram baixas almas por se terem victimado voluntariamente ao oiro d'um velho e aos epigrammas da mocidade, lá estão ricas, respeitadas e vaidosas de seus filhos; e com quanto já não conheçam a amiga pobre que se deu de coração ao coração, culpam-na e condemnam-na do alto da sua severa abundancia. Ora a mulher, na posição de Corinna, quando se vê pobre, dois annos depois de casada, e vê ricas suas irmans, lembra ao marido que peça o amparo d'ellas; e se esse marido é Antonio de Azevedo, a verdadeira desgraça domestica principia para ambos desde esse momento. Aqui tem o que sou e o que penso. Julgue-me e condemne-me o mundo como puder e quizer. O meu pensamento era salvar a dignidade de Gastão sem lhe dar riqueza, por me ser impossivel adquiril-a; depois eu levaria o meu pouco á familia que vivia de pouco, e seriamos felizes todos. Não póde já ser assim. Estão ricos, ou vivem á sombra do homem rico. Não serei eu quem vá pedir um logar entre pessoas que se haviam de acotovellar com o plebeu. Que levaria eu que me recommendasse? Se eu fosse nobre, daria como merito a minha inutil e inerte nobreza; assim, filho do povo e pobre, todos, menos a generosa Corinna, a seu tempo perguntariam uns aos outros: «De que serve este homem?» Ora um homem sabe pontualmente quando os outros perguntam o para que elle serve... Em summa, cá estou no começo da minha tarefa: Deus dá-me este pensar para que eu o leve a cabo. Outra cousa, meu amigo. O visconde da Cruz devolve-me a lettra dos seis contos: aqui a tem vossa senhoria para rehaver os quatro que benignamente me emprestou. Beijo-lhe segunda vez as mãos.
Valentim ia replicar com razões de muita força, que lhe suggeriu o talvez injusto juizo que Azevedo expendera a respeito das mulheres devotadas á pobreza dos maridos, quando o bacharel foi procurado por um negociante.
Disse o negociante que recebera ordem de entregar trinta contos de reis fracos a Antonio d'Azevedo, por mandado de Fernando de Athaide, accrescentando que era tal quantia a prenda de noivado que a senhora D. Felismina offerecia a sua irman.
O bacharel disse ao negociante que conservasse em sua mão a quantia, até lhe ser pedida.
Sahiu o depositario dos trinta contos, e o doutor exaltou a bizarria de Fernando de Athaide, aconselhando Antonio d'Azevedo a não dar á sua dignidade umas parecenças de soberba.
—É o dote de Corinna, que seu primo lhe dá—disse Azevedo—Quando eu tiver egual quantia, não me pejarei de ir levantar o deposito. Em verdade, é grande a alma de Fernando, e por isso mesmo se faz digno de lidar com almas eguaes á sua.
O velho sahiu captivo do moço; mais extremoso que captivo; sentia-se amar como pae; ser-lhe-ia doloroso apartar-se d'elle desde aquella hora. No termo da vida, longa vida em contacto com as pustulas sociaes, aquella paragem, áquem da eternidade, era-lhe uma como prelibação das alegrias dos justos. Pensava o ancião em dar um adeus á existencia, contente d'ella, e de si: parecia-lhe que as palavras do consolador lhe suavisariam o trance. Era já egoista da amizade do seu Azevedo: disputal-o-ia á mesma Corinna, se o visse em preparativos de viagem.
—Se eu pudesse dar-lhe desde já a independencia!—dizia entre si o velho—Oh! se podia!... Mas, a dar-lh'a, eil-o ahi está dependente de mim, e a rejeitar-m'a, e a fugir-me as instancias, e a ser menos meu amigo! É preciso respeital-o muito para o prender á minha affeição.
Aqui está a resposta de Antonio d'Azevedo a Corinna:
«Folgo com as venturas de teu pae, e louvo a Deus por me ter dado uma casual influencia no melhor remedio de seus males. Tudo me faz crer que tendes em Fernando um bom irmão. Dá um abraço, por mim, na tua Felismina, e agradece-lhe o valioso deposito que confiou de mim. Em vez das joias, que vale este dinheiro, pedir-te-ia, minha Corinna, se estivesses no Lima, que te adornasses de flores; mas, como vives em Lisboa, os enfeites das flores valem nada ahi, porque o clima as requeima logo. Esse sol quer reverberar nas facetas dos brilhantes, senão ninguem dá por elle.
«Não tens amor aos teus campos e ao teu rio? Ó minha amiga, ainda me doem saudades das minhas arvores, ainda peço a minhas irmans que m'as guardem e cultivem com amor! Não me culpes, se a minha saudade ainda vai por esse formoso Portugal fóra, para além do ponto onde estás, em busca d'outros amores. Amores são, que eram já muito em minha alma, antes que tu m'a reformasses para olhar a futuros. Tinha de meu, quando te vi, um passado de innocentes alegrias. A idade, cortada de penas, pôde tudo, menos despojar-me do que lá está, e está para sempre, nas relvas, nas arvores, nas serras, e no meu Cávado! Vê tu como a criança ainda se gosa das lagrimas do homem!
«Que estou eu a devanear, se tu já tens pressa de saber porque vai esta carta, e não vou eu!
«Não vou, Corinna, porque é cedo para ser feliz. O puro e duradouro contentamento custa a merecer, e leva tempo. As alegrias improvisadas vão como vem. Sobre que bases assentam as nossas convenções de coração, minha amiga? Voltar eu a Portugal com o necessario para a decencia da posição em que te conheci. Se eu fosse, faltava-te: tu perdoavas-m'o; eu é que não podia perdoal-o a mim proprio. A decencia da tua posição não a tenho ainda. Sei que anjo és, que doce conformidade seria a tua: mas o mau, o intractavel, e irreconciliavel com os
tremendos nadas
da vida positiva, sou eu. Venho da desgraça, e conheço-a: as minhas relações em Lisboa foram os desgraçados, e estudei-os. Deus confiou-te de mim como d'um encaminhador e guarda. É forçoso dizer-te que o bom rosto da fortuna só está sorrindo aos teus olhos, porque és innocente. Se comigo não tem sido boa, tambem já se abstem de querer enganar-me. A nossa riqueza, Corinna, é a esperança: esta, juro-te eu, que vale mais que os milhões de tua irman. Felismina tem tudo que desejava: Deus sabe o que ella agora deseja!...
«O que tu queres de mim não é muito amor, e uma casinha além no nosso Minho, e as serenas alegrias, promettedoras d'um fim de vida socegada? Lá me tens o coração, e eu cá o espirito a grangear o mais. Não o tenho ainda: poucos annos bastarão a esta opulencia, que tão pouco vale aqui e lá. Então, sim, então verás que vai aqui n'este peito a ufania d'um principe, o santo orgulho d'um operario, que não inveja principes. Hei de ir procurar-te, não aos bailes de Lisboa, mas sim aos arvoredos do Lima. De lá irás comigo, sem atravessares pompas de cidades, nem magnificencias onde te fique prêso um desejo. Lá temos ainda á margem do meu rio a casa de meus paes: que pobre e formosa vivenda! Augmental-a-hemos para vivermos todos: plantarás novas arvores, e irás tomar o teu quinhão das flores de nossas irmans. As tuas arvores virão a tempo com suas sombras para nossos filhos; e estes, creados nas asperezas dos montados, e nas asperezas da religião, ir-se-hão fazendo e formando entre as duas sublimes e unicas poesias: a da fé e a da natureza.
«A vida, que me tu pedes, é mui diversa, Corinna. Teu cunhado é um grande em Portugal, quando o quizer ser. Teu pae e tua mãe anhelam muita luz para serem vistos, e embriagam-se nos perfumes da lisonja. Esse ar a mim empeçonhava-me a vida, e não sei se o coração. Ahi amava-te menos, porque perderia o amor de mim proprio, o amor que me extrema do vulgo, o illustre vulgo, que é o derradeiro plebeismo, sem individualidade, sem classe, sem mais religião que a das sensações.
«Corinna, não te aviltes em te julgares menos amada. Adoro-te respeitosamente; porque sei que rejeitas o sacrificio da minha dignidade.
«Estamos no ponto onde ha quatro mezes estavamos: a mulher corajosa espera; e o homem, nobilitado por teu amor, quer ennobrecer-se para a tua mão. Nada mudou, salvo a posição de tua familia. Mas que temos nós que entender com a riqueza de Fernando de Athaide? A riqueza é d'elle. A mim era-me egual depender de teu cunhado, ou do visconde da Cruz, ou do primeiro encontradiço que me offerecesse um obulo. Quando sahi de Portugal, Felisberto Taveira emprestava-me alguns contos de reis para eu me estabelecer e casar comtigo. Se então rejeitei um emprestimo sem desaire, como hei de ir hoje acceitar uma delicada esmola d'um sugeito que escassamente conheço?
«Isto será amar-me demasiadamente a mim; e não é menos amar a mulher que está identificada em minha vida e honra.
«Adeus, Corinna. A tua alma ha de conservar-se immaculada ahi em Lisboa, como lá na solidão das nossas terras. Se o mundo te não respeitar, tu saberás respeitar-te a ti mesma. Ahi e em toda a parte encontrarei sempre a minha Corinna, cuja animadora imagem eu vejo em tudo que é adoravel e santo. Adeus.»
XVII.
As cartas de Antonio de Azevedo a Corinna e Fernando produziram o que elle até certo ponto vaticinara, fallando com Valentim.
Corinna duvidou do amor, que se desafogava em dissertações mysticas, e bucolicas saudades d'arvores e de rios.
As irmans de Corinna, com o louvavel intento de a consolarem, abundavam no parecer d'ella.
Fernando de Athaide dizia a sua mulher que não podia caber amor em coração tão cheio de orgulho.
D. Mafalda dizia ao marido que era moda a gente baixa fingir philaucia de fidalgos.
Gastão, acidulado pelo dito da esposa, deu para baixo na peonagem, e declarou que sempre esperava que sua filha levasse uma boa lição.
Acontecera estar n'este ensejo em Lisboa, e hospede de Fernando, o visconde da Cruz e seu irmão Luiz. A declamação do fidalgo ferira acremente a dedicada alma do visconde. Tambem este havia de ter uma carta explicativa do proceder de Antonio d'Azevedo: esperava-a do Porto, e, sem a ter lido, não queria arvorar-se defensor do ausente. Tanto, porém, subiu Gastão em sarcasmos contra o
homem de Barcellos
, que o visconde ergueu-se irado, e exclamou:
—Senhor Gastão de Noronha! o
homem de Barcellos
, quando vossa excellencia estava em risco de extrema pobreza...
Corinna correu contra o visconde, e poz-lhe a mão na boca, supplicando silencio. A prevista menina sabia que duro vexame o pae ia soffrer com tal revelação. Calou-se o visconde, e o fidalgo insistiu na continuação da phrase, com tregeitos iracundos. O visconde ia pegar do chapeo, quando Emma lhe disse:
—Não saia assim irritado, visconde. Sou eu que lh'o rogo.
Parece que Emma podia muito no animo do visconde.
Fernando travou do braço do cavalheiro, e passou á sala immediata.
—Vossê—disse elle—ha de dizer-me o resto da phrase. Que fez Antonio d'Azevedo, quando meu primo estava em risco de extrema pobreza?
—Mandou-me seis contos de reis para —Mandou-me seis contos de reis para eu lhe valer, sem declarar a seu primo que os mandava elle. No mesmo paquete em que recebi tal ordem, veio vossê. Logo que me revelou quem era e o intento com que vinha, entendi que a posição de seu primo estava mudada. Ainda assim, fui a Vianna, e offereci dinheiro a Gastão. Como não precisava, devolvi a ordem a Antonio d'Azevedo.
—Bem—disse Fernando—é forçoso o segredo?
—É. Corinna valeu-me n'um impeto de cólera; agora confio de vossê que a minha palavra, dada ao Azevedo, se não quebrante.
—Confia bem, visconde. Que admiraveis virtudes as d'este moço! Sabe vossê que um homem, conhecedor de taes exemplos de honra, nunca está bem com a sua consciencia!? Eu não sei o que já hei de fazer a favor de Antonio d'Azevedo!... Aqui me diz o meu correspondente que elle deixou ficar o dinheiro em deposito até nova ordem. Está claro que o não acceita...
—Clarissimo. Se elle não vem, como iria levantar a prenda da noiva?!—disse o visconde.
—Que se ha de fazer, meu amigo?
—Não sei: é esperar que elle tenha o que julga necessario á sua independencia.
—Vou dar um passo decisivo!—tornou Fernando, depois de breve meditação.
—Qual?
—Vossê verá. Vamos á sala. Receio que meu primo diga alguma grosseria a Corinna.
Quando entraram, a pobre menina estava chorando, e Felismina, lançando-lhe os braços sobre os hombros, segredava-lhe consolações.
Fernando approximou-se de ambos, e disse a Corinna:
—Está tudo remediado. É questão de alguns dias.
E, voltado a Gastão, disse jovialmente:
—Olé, primo! o incidente passou: torna tudo ao seu curso regular. Aqui não se falla bem nem mal de Antonio d'Azevedo. Defendel-o seria ultrajal-o. Accusal-o seria um vilipendio. Ninguem ficou mais nem menos do que era.
Na noite d'esse dia estava Corinna no seu quarto com Felismina, quando entrou Gastão de affavel semblante. Sentou-se entre ambas, e disse com mellica entoação:
—Tu és minha filha, és o meu sangue, tens pundonor de raça, e deves estar curada, Corinna. Ha muito quem te pretenda; e teu cunhado deixa-te a administração dos vinculos para tu poderes escolher marido. Tens tres bons partidos a escolher. O morgado de Villar da Rocha está aqui em Lisboa, viu-te, e perguntou-me se não estavas promettida. Um filho segundo do marquez de Travassos, familia mais antiga que a Lusitania, fez-me egual pergunta. O barão da Teixeira, vindo ha pouco da Bahia, com mais de quinhentos contos, fallou em ti ao Fernando. Escolhe.
—Não escolho ninguem—disse resolutamente Corinna—O que eu escolhia era a morte.
—Antes isso que a vergonha da familia!—replicou o pae.
—Que vergonhas dá ella á familia?—perguntou Felismina com os geitos especiaes de quem tem dois milhões.
Gastão involuntariamente respeitou a interpellação da filha millionaria. A bem dizer, a pergunta era irrespondivel.
D'ahi a pouco estava febril Corinna, e as ancias e soluços tão frequentes a opprimiram, que a familia houve medo d'algum accesso de loucura.
Fernando de Athaide, conscio da brevidade do insulto nervoso, disse ao primo:
—Não volte a injuriar a pobre menina, que a mata a ella, e perde a minha estima. Eu hei de necessariamente fazel-a feliz. Se o não conseguir, maldigo a hora em que a conheci.
Dias depois, Corinna sahira do seu quarto, pallida, desolhada e triste. O sangue mal lhe acudia ao pulso. As palavras sahiam á força de caricias. Era preciso fazel-a chorar para que as lastimas subissem do coração
aos labios
. Fallavam-lhe em Antonio de Azevedo, e as faces retingiam-se-lhe; mostravam-lhe o anjo da esperança a voejar para ella, e o sorriso volitava-lhe em toda a face até se confundir com as lagrimas de jubilo. Mas este mesmo jubilo era um accesso de febre. Os medicos tinham-se enganado: aquelle quebranto de forças e feições eram prenuncios de morte. A gente experimentada facilmente diagnostíca estas insaneaveis doenças: os medicos é que, do cocuruto da sciencia, o que ordinariamente palpam n'estes symptomas é uma doença que entende com o estomago ou com o figado. De coração só conhecem lezões, turgecencias, hypertrophias, aneurismas, &c. Tem assim, e por conta da sciencia, morrido muita gente, que se curava com um raio de alegria e um pouco de compaixão do mundo.
Fernando encerrou-se com Gastão, e disse-lhe:
—Vou liquidar a minha casa ao Rio de Janeiro. Mandei crenar a galera. Parto na proxima semana. Minha mulher vai comigo; e Corinna irá tambem, se o primo a ama e me estima a mim. Se ficar, morre; e se morrer, Felismina não quer voltar a Portugal.
—Vai procurar o noivo minha filha?—disse Gastão ironicamente.
—Vai procurar a vida; e se Antonio d'Azevedo lh'a dér, bem haja o salvador da nossa Corinna!
—Pois que vá: nós partiremos para o Minho.
—Pedia-lhes que ficassem em Lisboa, e não alterassem os costumes de minha casa. Tenho relações que desejo conservar. Meu primo honrará os nossos amigos, recebendo-os. Em seu poder fica a porção da fortuna que tenho em Portugal. A sua estima por mim ha de chegar ao sacrificio de esperar em Lisboa a nossa volta do Brazil.
Não se fez rogar o fidalgo. Sujeitou-se plenamente á vontade do genro.
Recebeu Corinna da Soledade a nova da viagem. Alvoroçou-se até recahir na febre; mas a crise foi leve, e rapida a convalescença.
A galera de Fernando, construida em Inglaterra, era garbosa, linda e leveira como um cysne. A tolda era um camaranchel de sedas, como o das antigas gondolas de Veneza. O chrisma para «Felismina» fadou-lhe mais ricos destinos. O amor lhe inventara os adornos, os perfumes, as graças e garridices que só o amor desentranha de suas fantasias. A sala de ré era uma ante-camara de sultana. Ia por esses mares fóra aquella concha de perolas, namorada das auras que ciciavam no velame, imitando as branduras de suas irmans derramadas pelas moitas dos gestaes. Que vontade fazia aquella gentil galera de ir ter um mundo na vastidão do oceano, e não vêr mais que ella e ceo, e um ente amado, debaixo das estrellas a espelharem-se nos paramos azues das aguas! Como alli o coração, golpeado na terra, se iria contente, se cá d'estes abysmos levasse ainda a salvo o condão da poesia que faz sahir mundos sobre mundos dos abysmos do mar!
A galharda galera, como ovante da gentil alma que levava, sahiu barra fóra com todo o panno e prospera monção. A festival menina, por esses mares fóra, sobre a tolda, a scismar, com os olhos lá no infinito horisonte, d'onde a chamava o esposo, e os favonios a enfunarem-lhe as roupas alvissimas... que linda ia! julgareis ver a pomba sobre a arca fluctuante nas aguas já serenas do diluvio!
Ao vigesimo nono dia de viagem avistaram pharoes das terras de Santa Cruz.
Corinna, ao repontar da alva, subiu ao tombadilho, e viu a cidade d'oiro, a rainha do novo mundo, espreguiçando-se do ultimo somno entre os ceruleos coxins do seu immenso leito com pavilhão de mil flammulas e bandeiras. Parecia-lhe ver caminhar a terra, mar dentro, a recebel-a; mas tardio era o avançar da galera a encontral-a.
—D'aqui a meia hora?—disse ella a Fernando.
—Sim, d'aqui a meia hora, minha egoista!—respondeu o primo, e continuou sorrindo—D'aqui a meia hora já não tens patria, nem irman, nem cunhado! O Antoninho, que, a estas horas está escrevendo uns
provarás
, com o supremo tedio de que é susceptivel a creatura humana, vai receber um golpe d'alegria mortal!... Haverá no genero humano um segundo homem a ponto de experimentar prazer egual?! É impossivel que elle te não adivinhe, mana Corinna! salvo se o coração de um jurisconsulto é tapado a toda a casta de inspiração divina!
A este tempo, chegava Antonio d'Azevedo Barbosa, ao caes.
Adivinhou, com effeito?—pergunta o leitor.
Nem sombra de presentimento, meu amigo! O que trazia ao caes, e a bordo de um navio, Antonio d'Azevedo, é successo infausto que tem uma historia concisa, mas necessaria.
Um dos irmãos do bacharel, Francisco d'Azevedo, era caixeiro, em Lisboa, n'uma casa de cambio da rua dos Capellistas. Merecera um bom nome, e cahira em tentação depois de o ter merecido. As desordens da vida, as demasias de luxo, a ancia de mostrar-se rico aos olhos d'uma mulher que distinguia os moços ricos, induziram-no a subtrahir, com intenção de os repor, capitaes, que excediam os seus ordenados de dois annos. Francisco jogou na esperança de resgatar-se, e cavou mais no abysmo de sua perdição. Quasi a ponto de ser descoberto, quando o patrão dava o balanço, o caixeiro desappareceu, e fugiu caminho do Brazil, confiado na reforma de seus costumes, e na possibilidade de ganhar depressa com que restituir o furto.
Chegou ao Rio, e procurou o irmão. Deu explicações inventadas da sua ida, e conseguiu logo, mediante Antonio d'Azevedo, boa casa, bom ordenado e muita estimação dos patrões.
O bacharel estava contente do expediente de seu irmão. Lembrava-se que assim mais cedo as irmans teriam bom amparo.
Lia, passados trinta dias, Antonio d'Azevedo o
Commercio do Rio de Janeiro
, e casualmente parou os olhos sobre esta correspondencia, intitulada:
Cautela com os ladrões.
E seguia d'este theor:
«
Fugiu de Lisboa, com direcção ao Brazil, um caixeiro do cambista F***. Chama-se Francisco de Azevedo, natural de Barcellos. Desfalcou o patrão em dois contos de reis. Para que o ladrão não logre o bom resultado das suas manhas, avisa-se o commercio do Brazil.
»
Antonio d'Azevedo viu entre si e o jornal um redemoinho de scintillas de lume, e, ao levar as mãosaos olhos, tinha perdido os sentidos. Este lance passára-se no escriptorio de Valentim da Costa.
Entrara o velho, e ouvira o soluçar cortante do seu amigo. Interrogou-o com paternal carinho. Azevedo ergueu-se como atordoado, e, ao sahir, murmurou estas palavras:
—A infamia está ahi escripta n'esse jornal.
Foi ao armazem onde Francisco era guarda-livros; entrou no gabinete particular do negociante, e encontrou-o lendo o jornal.
O negociante estava correndo a primeira pagina, e a noticia vinha na segunda.
—Por cá, doutor!—disse alegremente o patrão de Francisco—Vem saber como vai o nosso homem? Optimamente. Estou contentissimo. É seu irmão, e basta!
Eram frechas que varavam o peito de Antonio de Azevedo! A dor rompeu-lhe em lagrimas. O negociante viu-as, e exclamou:
—Que tem o doutor?! Alguma desgraça de familia lá na terra? Morreu-lhe algum de seus irmãos?
—Morreu Francisco—balbuciou o bacharel.
—O quê? morreu Francisco! O doutor está a sonhar! Pois não o viu quando entrou?!
—Morreu para a honra—tornou já serenamente Antonio—Ahi está na segunda pagina d'esse jornal o ignominioso epitaphio do desgraçado.
—O quê? que diz o doutor de epitaphio?
Azevedo collocou o dedo indicador sobre a correspondencia. O commerciante leu, e fez-se amarello. Depoz o jornal, levou as mãos aos raros cabellos brancos, e disse:
—Tem razão, doutor! seu desgraçado irmão está morto!
—Vim para o levar comigo. Queira o senhor dar-lhe ordem de sahir. Rogo-lhe a generosidade de não lhe dizer a causa por que o despede.
Deteve-se a scismar o
negociante
, e disse com energia de boa alma:
—Vamos ver se o salvamos.
—Salval-o como?
—Vai com outro nome para o Pará.
—O nome não é o infamado; é elle. Creia o meu amigo que eu não vim pedir-lhe a sua protecção para salvar o homem indigno d'ella. Vim buscar meu irmão.
Foi chamado Francisco.
—Dá contas ao senhor Silva, que vaes sahir de sua casa.
O guarda-livros fez-se roixo.
—Não ha explicações previas—tornou Antonio—Apresenta os livros a teu cargo ao senhor Silva.
—Os livros estão vistos—disse o negociante—Não tenho a menor suspeita da probidade do senhor Francisco.
—Suspeita?—atalhou este.
—Silencio!—disse imperiosamente Antonio—Vamos.
O commerciante apertou a mão do bacharel, e lançou ao irmão um olhar compassivo.
Francisco hospedou-se com Antonio. Dois dias depois, recebeu de repente a noticia da sua volta a Portugal, accrescentada d'estas palavras:
—Entrega esta carta em Lisboa. A pessoa a quem a entregas irá comtigo a casa do cambista F***, teu patrão que foi. Darás ao cambista o dinheiro em que elle se disser roubado por ti. Cobrarás recibo, que me enviarás. Feito isto, recolhe-te a Barcellos, e pede a tuas irmans que te dêem um quinhão da sua subsistencia.
Francisco, lavado em lagrimas, quiz ajoelhar aos pés de seu irmão, e contar a historia dos seus desatinos.
—Não ha historia que absolva um roubo—disse o bacharel.
E no dia seguinte, quando elle acompanhava ao navio o irmão, é que a vistosa galera
Felismina
se baloiçava, como odalisca, sobre a camilha azul das aguas que reverberavam o sol nascente, e se cobriam de scintillante lhama de oiro.
Olhem a felicidade de Corinna e a felicidade de Antonio de Azevedo!
XVIII.
Antonio de Azevedo foi abrir a reprêsa de lagrimas no seio do ancião que o esperava com as suas, unico balsamo das supremas afflicções.
—Veja a minha vida!—disse entre soluços o bacharel—Pensar eu que o muito trabalhar me daria um quieto contentamento, e que, além dos dissabores do coração, nunca teria outros!... E agora estes! os da ultima deshonra! uma vergonha irremediavel que me priva de olhar de frente para os homens que estimaram meu irmão por amor de mim!
O velho, combatendo os escrupulos do moço, teve a admiravel e inspirada eloquencia da verdade. Declinou a deshonra sobre quem a praticara, e provou ser aquella desgraça mais uma prova para aquilatar as virtudes do bacharel. Verdadeiros, mas, ainda assim, inconsolativos argumentos!
Fallaram longo tempo. Valentim não deixara sahir o amigo n'aquella manhan, receoso de que a solidão lhe amargurasse a mais as apprehensões.
Quando o moço se impunha a si mesmo o preceito da força para o trabalho, e o velho insistia nos seus dictames insinuativos de coragem, entrou no escriptorio Fernando de Athaide.
Antonio de Azevedo, como a desentorpecer-se de um glacial spasmo, estendeu-lhe machinalmente a mão e deixou-se abraçar. Valentim fazia um alarido de exclamações de espanto, que não deixavam ouvir o adventicio.
—Vejo-o triste e demudado, senhor Azevedo!—disse o primo de Corinna.
—É oiro que está ainda ardendo da ultima prova!—respondeu o velho—A desgraça cuidou que o fulminava; mas a honra venceu.
Antonio d'Azevedo fez um gesto supplicante de silencio ao doutor, e disse a Fernando:
—Ninguem o esperava no Rio, senhor Athaide.
—Foi uma partida repentina. Assim é que se fazem as coisas!
—Como ficou Corinna?—perguntou Azevedo; e logo as lagrimas lhe saltaram a quatro, e uma ancia lhe ressumou á face em suor frio.
Sentou-se quebrantado, e murmurou:
—Desculpem-me: estou-me fazendo mulher... Estas lagrimas, se as não chorasse, matavam-me.
—São de saudade?—disse Fernando.
—São de desesperança, cuido eu—respondeu Azevedo, escondendo os olhos com as mãos.
—Anime-se!—exclamou Athaide—Que descorçoamento é esse, improprio d'uma alma de bronze! Azevedo, saia d'essa lethargia! Olhe que Corinna ama-o como sempre, e espera-o com a anciedade d'um anjo consolador de todas as suas mágoas.
—Tardia virá a consolação!—balbuciou o moço—Deus me livre de a condemnar a soffrer debaixo da minha estrella... Escreveu-me ella?
—Que pergunta! Tenho em casa uma carta sem fim, que o meu amigo ha de lêr como se ella mesma a estivesse fallando! Venha comigo, e cuidará que tem entre mãos, não uma carta, mas o proprio coração da sua Corinna!
—Agora consinto que vá!—disse o velho.
—E o doutor vem tambem—acudiu Fernando.
—Vamos lá!—voltou o velho—Vossês os rapazes andam comigo d'aqui p'r'ali, como se esta gotta não merecesse respeito nenhum á geração nova! Ora esperem ahi, que eu vou vestir a dalmacia, a casaca circumspecta! Sua senhora veio?
—Veio, sim.
—Ah!—disse Azevedo—está cá a senhora D. Felismina?!
—Pois eu havia de deixar lá a alma! Então vossê não sabe que marido eu sou! Minha mulher sou eu—disse com festivo semblante o millionario.
Sahiram.
—Isto veio do ceo!—disse Valentim—Quem distrahiria o meu pobre Antonio, se lhe não chegassem os bons amigos da patria! Vai ter um dia cheio, meu amigo! Quem lhe fallaria com mais ternura da sua Corinna que a irman querida! Felismina se chama ella: hoje é que é
feliz mina
de consolações para o meu desterrado!
Assim, com estes dizeres affectuosos do alegre ancião, chegaram ao grandioso predio, que Fernando habitava.
Na primeira sala esperava-os Felismina. O doutor, que subia na dianteira, ao vêl-a, exclamou:
—Sim, senhores! É muito linda! Ha muito que não vi d'estes fructos da minha terra! Quero e gosto que as senhoras brazileiras vejam o que lá ha por Portugal!
Felismina sorriu-se ao galanteio do velho, e abraçou Antonio d'Azevedo.
—Como está abatido!—disse ella.
—Abatido no rosto, mas Sansão na alma!—acudiu Valentim.
—Acha-me velho?—disse Azevedo—N'este paiz acaba-se depressa o homem que se não exercita muito, e endurece ao fogo do sol. A sua familia, minha senhora, ficou boa? A senhora D. Corinna?
—Como faz essa pergunta, senhor Azevedo!...—disse Felismina—Que frialdade! Dar-se-ha caso que vossa senhoria não ame já minha irman?
—Por Deus, minha senhora!—respondeu o moço—Todos os infortunios podem menos sobre mim que uma injustiça, que deixa de ser injuria por ser dita por vossa excellencia.
—Se elle ama sua irman!—atalhou o velho—Ó minha senhora, se os meus cabellos brancos inspiram confiança, creia vossa excellencia que o meu Azevedo ama tanto sua irman que, por amor d'ella, excede-se a si proprio na prática das virtudes. Grande e distincto deve ser o amor que faz o virtuoso! Vicios e crimes é o que eu tenho visto resultar dos amores vulgares...
—Está o senhor Azevedo ancioso por que lhe entreguem a carta de Corinna—disse Fernando—Vai tu buscal-a, Felismina.
Abriu-se uma porta, e appareceu Corinna, exclamando:
—Não preciso que me tragam!
E cuidam que ella impallideceu, desmaiou, ou, pelo menos, expediu um ai de procedencia dramatica?
Não, senhores. Corinna entrou de corrida, leve como um gnomo, a rir e a chorar, purpureada, com os olhos a saltar-lhe fóra da face, os braços abertos e convulsos, a respiração como tomada, e os labios crispando nervosamente, sem poderem proferir o quer que era de que só os dramaturgos acham sempre uma expressão insipida, incolor e inverosimil.
Antonio de Azevedo é que (sem desaire seja dito) deu uns ares de idiotismo, que, na scena, seriam lastimaveis! Abraçou Corinna, como a medo: era a primeira vez que a sentia nos braços. Fitou-a como quem duvída; remirou-a, como quem teme um engano dos sentidos; estava-se acordando do sonho; invocava a sua razão; e, quando a razão lhe mostrou em volta d'elle todas as faces orvalhadas de lagrimas, é que Azevedo pôde exclamar:
—Bem hajas, anjo de Deus!...
Imagine agora a minha leitora os successos indescriptiveis d'este lance. Por pouco imaginativa que seja, vossa excellencia ha de avultal-o melhor em sua fantasia do que eu poderia dar-lh'o n'esta pagina. Uma só poesia creou a natureza para taes quadros: é a poesia da pintura.
Foram cinco minutos de febre, de delirio, de silencio, de ouvir-se o bater forte e descompassado de cinco corações. Ora pintem lá isto, a não ser em expressão de olhos, de labios, de feições que só, em casos d'estes, se vos deparam em pinturas christans, onde os enlevos são ceo, bemaventurança e alegria de santos. E haveis de notar que o proprio pincel profano antes se quer a pintar expressões angustiosas, porque as visagens da afflicção mais se prestam ao relevo, como em Niobe, em Laocoonte, em Ugolino. Quer tudo isto dizer que tenho diante dos olhos aquelle espectaculo de jubilos, e desisto de descrevel-o para de todo em todo me não capacitar de minha inhabilidade.
Porque hei de eu dizer tão affoitamente «espectaculo de jubilos», se Antonio d'Azevedo, momentos depois, se deixava senhorear da lembrança do irmão, banido do numero dos honrados! A candida Corinna encarava n'elle com olhos aguados, e no lacerante silencio de sua alma perguntava a si mesma, que fizera ella para ser menos amada! De que outro modo se explicaria a tristeza do moço n'aquella primeira hora!
Não pôde ter-se que o não chamasse a um ponto mais afastado da sala onde se tinham ficado Valentim e Fernando, em quanto Felismina sahira a dar ordens.
—Tu estás melancolico, Antonio!—disse ella, tomando-lhe a mão com estremecida ternura—Viria eu contrariar a tua vontade? Estaria eu enganada comtigo?...
—Vejo-me indigno de ti...—respondeu Azevedo.
—Indigno de mim!—tornou ella crescendo no afago da expressão convulsa de lagrimas—Pois tu não tens sido mais que nobre para seres digno da mais nobre e pura mulher! Quererás que eu te recorde as tuas virtudes, meu querido amigo!?
—As minhas virtudes—replicou o moço—tão frageis eram, que talvez a esta hora tenham sido reputadas hypocrisia.
—Ó filho!—exclamou ella—desconfio da tua razão! Muito deves ter padecido para te considerares assim, quando em volta de mim os teus merecimentos são louvados com admiração de todos!...
—Escuta-me para me consolares, Corinna. Deus quiz que tu viesses á hora em que toda a esperança me ia fugindo...
Antonio d'Azevedo contou a Corinna a ignominia de seu irmão, e levantou a voz de modo que Valentim, no angulo opposto da sala, ouviu tudo. Ergueu-se o velho, caminhou para elles, e interrompeu a exposição do bacharel.
—Senhor Antonio d'Azevedo, antes do infortunio de seu irmão, vossê, no Rio de Janeiro, gosava nome de intelligente, laborioso e honesto; depois do infortunio de seu irmão, o nome de Antonio d'Azevedo é proferido com o acatamento de que homem nenhum de sua idade se tem gosado. Os velhos honrados da sociedade brazileira querem conhecel-o: os portuguezes citam o seu glorioso procedimento com orgulho. O facto é de ha tres dias, e tem corrido de bôca em bôca como raras vezes acontece a uma boa acção. Ora pois! Eu sei bem o que é dignidade; achei que a sua se manteve sempre na altura dos mais dignos homens d'outros tempos; admirei-o e louvei-o pelo que outros chamariam demasias de orgulho sob capa de independencia; agora, porém, é chegada a hora de eu lhe dizer que, assim como a suave religião se descaminha até ao fanatismo execravel, assim a briosa dignidade, se perde o rumo do bom juizo, vai dar comsigo n'uns excessos rudes, insociaveis e repellentes. A sociedade applaude os virtuosos, mas desadora os que fazem de sua virtude uma tribuna para lhe censurar as fraquezas. O excesso do bem é um mal que não me aproveita a mim, nem a outrem. Eu quero que Antonio d'Azevedo se mostre alegre para que o mundo não diga que a honra tem uns pavores interiores refractarios ao contentamento. A boa consciencia é alegre, senhor. E o melhor beneficio que vossê póde fazer aos homens é convencel-os de que vai indo seu caminho, arrancando os espinhos dos pés, e sorrindo ás novas desventuras que o impecem. Fallou o velho. Diga agora o anjo, a nossa Corinna, o que será preciso fazer-se a esta criança decrepita para a levantarmos do seu abatimento?
—Se eu pudesse...—balbuciou Corinna.
Antonio d'Azevedo levou aos labios a mão de Corinna, e murmurou:
—Emenda tu os defeitos da minha desgraçada indole... Dá-me paz, Corinna; dá-me a uncção do teu amor, e eu me salvarei de mim proprio...
—Primeiro passo a dar!—exclamou Valentim da Costa—O primeiro passo a dar é casarem-se, meus filhos!
N'este momento entrou Felismina, e disse:
—Está o almoço na mesa.
Valentim continuou:
—Visto que está o almoço na mesa, o primeiro passo a dar, meus filhos, é... almoçar!
No decurso da conversação durante o almoço, disse Fernando de Athaide:
—Ahi vão novidades, meu caro Azevedo. O visconde da Cruz casa brevemente com Emma, e Luiz Taveira com Leonor. Eliza tem doze annos, e já é pretendida. Quem de certo nos fica solteira é a nossa Corinna! que pena!
Riram todos, e Valentim exclamou:
—Solteira! essa é boa! Não consentirei eu que a belleza assim seja ultrajada! Aqui está a minha mão, senhora D. Corinna! É um sacrificio que faço da minha isempção; mas faço-o para que suas manas se não riam de vossa excellencia.
XIX.
Tres mezes depois dos grandes successos froixamente descriptos no anterior capitulo, Fernando de Athaide e sua mulher vinham caminho de Portugal; e Corinna da Soledade e seu marido Antonio d'Azevedo habitavam, nos arrabaldes do Rio de Janeiro, uma chacara de modestas regalias.
O bacharel era ainda o mesmo laborioso jurisconsulto, associado no escriptorio de Valentim da Costa. Corinna, simplesmente ajudada d'uma negra, cuidava do lavor domestico, singelo lavor, que isso mesmo tem de bom a mediania.
Quizera Fernando que seus cunhados ficassem habitando a casa onde se hospedaram, e Azevedo, já receoso de desagradar com suas isempções, mal se atrevia a rejeitar os offerecimentos; porém Corinna, avaliadora dos secretos desejos de seu marido, simulou vontade de viver no campo, e assim o desembaraçou do desgosto de acceitar a magnifica vivenda na melhor praça da capital. Valentim, aconselhando Athaide no melhor modo de haver-se com seu cunhado, repetia o que no livro divino de frei Luiz de Sousa se lê, que o cardeal de Lorena dizia, ao embaixador de Portugal, com referencia ao santo arcebispo bracharense: «.....se o quereis ter contente, não lhe deis a comer mais que dois ovos duros.»
Corinna recebêra de Felismina a prenda dos trinta contos depositados ainda em poder do commerciante. Foi-lhe, porém, mister guardal-os como cofre de joias, sem lhe dar destino conducente a alliviar os encargos do marido. Era um dinheiro que não existia para o bacharel, nem Corinna buscava occasião de fallar d'elle.
No tocante a felicidade, alguns periodos de uma carta de Azevedo ao visconde da Cruz dizem o que basta a convencer-nos de que a possuiam, quanto ella, n'este desterro, se deixa gosar.
«
«Ás seis horas da tarde, quando vou do escriptorio, encontro sempre a minha Corinna sentada n'um pequenino ressaio, como se lá diz no meu Barcellos, que tenho á porta da chacara. Alli é a minha primeira paragem, em que o espirito se desfadiga do pesadello das leis: o coração toma absoluto imperio sobre as minhas outras faculdades, e todo me deixo adormecer na quietação d'um bem-estar, que só podem conhecer os operarios d'um dia inteiro, quando ao cahir da noite, se repousam ao lado da companheira, por amor da qual se cansam e recobram. Os nossos frugaes jantares são rapidos, e assazoados dos infantis gracejos da minha Corinna, que os tem sempre novos para encarecer a profusão das iguarias. Depois vamos por esses caminhos fóra, admirando tudo que nos vem ao encontro a sorrir: são as arvores e flores de todas as ricas vivendas d'este luxoso torrão: tudo é nosso, porque, meu amigo, nada ambicionamos do que vamos vendo.
«Corinna está-me sempre repetindo a historia dos nossos amores, que eu acho sempre nova. Os dois bailes do Porto em que a vi; as primeiras palavras que eu lhe disse, com destemperada lamuria; os seus pensamentos lá no Lima, dia por dia, e hora por hora. Sinto-me duplicadamente viver na sua vida passada; parece-me que estou tomando posse d'uma existencia que devia ser minha desde então.
«Deito-me cedo para me levantar com a aurora. Corinna lê até tarde: lê alto em quanto vê que eu a escuto; depois, vai diminuindo gradualmente a voz até me ver adormecido. Rirás tu d'esta miudeza de traços no quadro da felicidade domestica? Se ris, visconde, mal de ti, que os não has de saber gosar. Uma coisa magnifica, estrondosa, e apparatosa, que vai pelo mundo, chamada
Felicidade
, feitas as contas, sabes o que é? É isto, são os singellos prazeres, que não valem nada descriptos, e são a bemaventurança sentidos. E não valem nada, porque a gente que os lê, pensa que pouco vai de desejal-os a tel-os. Que engano! A mais facil felicidade é a que requer mais grande coração e pura consciencia. Se estes bens fossem communs, todos eramos felizes. Nós antes queremos ser todos ricos.
»
Valentim da Costa foi, um domingo, jantar com os
seus filhos
, termo de muita amizade com que elle os acarinhava. N'esse dia se completavam os setenta e nove annos do ancião. Depois do jantar, desceram a sentarem-se debaixo das quatro palmeiras, que davam o usurpado titulo de chacara á casinha dos venturosos. Ahi fallou sempre o velho, com a perdoavel vaidade de quem sabe tudo do passado, e possue a chave dos futuros. Ora! por onde elle andou! Foi cavar na raiz da revolução franceza, contou a vida de Napoleão, a fuga de D. João VI, as anecdotas da côrte, a infancia e juventude do senhor D. Pedro IV, a mocidade estudiosa e as virtudes civicas do actual imperador do Brazil, e tudo isto para concluir que o presente era melhor que o passado, e que o futuro será melhor que o presente. E a tal proposito ajuntou:
—Vossês não façam caso do que eu disser, quando elogiar as coisas e pessoas do meu tempo. O
seu tempo
é a balda dos velhos, que, ao verem-se carregados de tempo, não só querem que seja
seu
—o que ninguem lhes contesta—; mas até querem que o tempo d'elles fosse a melhor quadra dos dezenove seculos que já lá vão. Ora eu, que sou velho e ao mesmo passo rasoavel, se duvidasse das virtudes d'este tempo, duvidaria das vossas, meus filhos. Dizem que a velhice é egoista, e morre devorada de odientos ciumes da geração nova, não só porque é boa de indole, que tambem por ser inventora das regalias que vieram tarde para ella. Deus me livre de ir á eternidade com este trambolho agarrado ás pernas: bem me basta a gotta! Eu cá de mim até folgo de acabar, quando começa uma transfiguração na face da terra, coisa nem sequer sonhada ha quarenta annos, quando eu e os meus contemporaneos motejavamos o desconfortavel viver de nossos paes. Não me dirão o que nós tinhamos mais do que elles, ha quarenta annos?! Vossês é que podem rir-se de mim e dos meus; mas nem por isso lhes quero mal de inveja. O meu amor á gente nova chega a ponto de eu me desejar morrer no meio d'ella. Querem-me os meus filhos trazer para sua casa? Eu estou por alli sósinho n'aquella rua do Ouvidor, muito rica, e muito bulhenta. Tenho lá tres pretos e tres pretas a quem quero dar a liberdade, e os diachos não a querem! Olhem que é forte mania a dos que dizem que a escravidão é o antagonismo permanente com a ideia de Jesus! Se os meus pretos fossem novos, e eu lhes désse liberdade, os pobresinhos, em vez de irem aos seus sertões respirar ar livre, assoldadavam-se a senhor que os carregava de trabalho; ora, como os meus escravos são velhos, os coitados não querem a liberdade, que para os de sua especie é uma palavra van. Pois se eu me não posso, nem devo desfazer d'elles, peço-vos que m'os deixeis trazer comigo para a vossa companhia. Verdade é que esta casa é mui estreita para tanta negraria, e commodidades d'um hospede octogenario. Aqui é que o meu Azevedo ha de mostrar-se amigo do seu velho. Está alli abaixo uma boa casa, com muito arvoredo em roda. Vai o meu filho arrendar aquella casa, e recolher-se a ella com o seu mestre de leis. Faça de conta que eu sou um pulvereo praxista que vossê tem na sua livraria... O ingrato não me responde. Vou voltar-me para a minha filha Corinna. Faz-se o que eu peço?
—Faz—disse Corinna, sorrindo ao esposo.
—Pois então—tornou o velho—já d'aqui não saio. Onde me dais agasalho esta noite? Quero já saber onde está o meu quarto.
No dia seguinte, Azevedo arrendou a chacara magnifica, mudou para ella com o ancião, e com os seis velhos escravos e amigos de Valentim. Logo ao segundo dia, o hospede chamou Azevedo, e disse-lhe:
—Eu tambem tenho a minha dignidade, a minha vaidade e o meu orgulho. Quero entrar com a minha quota parte para as despezas da casa, minhas e da minha pretaria. Arrendamento da chacara, a meias; o importante da cozinha, isso é cá com o anjo dos lares, com a nossa Corinna.
Antonio d'Azevedo ia contrariar o velho, e reteve-se ante um gesto de desagrado, e logo esta risonha exclamação:
—Vossê cuida que tem mais pundonor que eu!
Este viver continuou assim seis mezes. Corinna tinha ouvinte certo ás suas leituras em quanto o marido dormia. Valentim repousava tres horas em cada noite, e velava as outras, folheando papeis, e dando expediente a negocios attinentes aos seus haveres. Algumas vezes ia á cidade em carruagem que comprara n'este ultimo praso da vida, não tanto para elle, como para os passeios de Corinna. Valera-lhe a gotta para colorir o presente aos seus queridos commensaes.
N'este tempo as cartas vindas de Portugal davam a noticia confirmada dos casamentos de Emma e Leonor. As duas noivas tinham ido para o Porto com seus maridos, e Felismina com seu marido e o primogenito estavam nas margens do Lima, ou no palacio reconstruido de Fernão de Athaide, onde o filho natural mandara acastellar os telhados. Fernando era já visconde do Ameixial, e estava pasmado da barateza da coisa, em comparação do muito que dera por uma commenda cinco annos antes. Tinha sido logrado pelo procurador.
Gastão de Noronha, D. Mafalda e a menina mais nova tinham ido a Paris comprar mobilia para renovar a decoração do palacio de Lisboa. Esta era a razão ostensiva que o publico deve acceitar por ser melhor, se não a mais ajuizada; mas os indiscretos portuguezes que então estavam em França, disseram que o ainda robusto Gastão de Noronha fôra espairecer saudades de uma duqueza, ou duas duquezas, ou mais seriam, que, pelos modos, em Paris, isto de amar quatro duquezas é coisa mais que frequente a quantos portuguezes lá vão, como eu tenho visto nos apontamentos de pessoas que lá estiveram quinze dias. D. Mafalda é que ha de saber a verdade de tudo.
Com estas noticias chegou outra concernente a Francisco d'Azevedo. O caixeiro chegou a Lisboa, pagou a sua divida, mandou o recibo ao irmão, foi a Barcellos, vendeu a pequena legitima, abraçou suas irmans, e tornou a Lisboa, d'onde partiu para a Africa.
As quatro meninas das margens do Cávado viviam abundantemente. Seu irmão Joaquim, já estabelecido e coadjuvado pelos Taveiras, occorria-lhes a todas as necessidades, dava-lhes tudo, menos o prazer de leval-as ao Porto, porque o irmão do Brazil, em todas as cartas recommendava instantemente, que as deixasse estar em Barcellos com as arvores e flores da casa paterna. Outros dois irmãos de Azevedo, sem importancia n'esta chronica de familia, exerciam probamente a profissão do commercio.
—Todos felizes!—exclamou o velho, que ouvira attentamente lêr as cartas, como se fossem de familia sua—Todos felizes! Só o meu pobre Azevedo ainda a trafegar para o pão de cada dia! Os dois contos de reis, ganhados nos primeiros mezes, lá se foram na restituição do Francisco. Desde então para cá as economias são impossiveis! Esta Corinna é uma grande avára! Tem alli na gaveta trinta contos, que ella chama os seus alfinetes de noiva, e não os quer arriscar nas despezas da cozinha! Ora deixa-te estar, minha sovina, que te não hei de deixar em testamento as minhas tres pretas velhas!
—O Antoninho não quer o dinheiro...—disse ella, afagando o cabello do marido, que ria muito do sainete comico do velho—Ha que tempos—continuou ella—eu não vi o meu thesouro! Vou-lhe desafiar a inveja, doutor, a mostrar-lhe as minhas notas! ora espere...
Foi Corinna a uma gaveta de sua commoda, e voltou pallida, exclamando:
—Ó Antoninho! mudaste o dinheiro da gavetinha do meio?
—Eu nunca soube onde tinhas o teu dinheiro—respondeu placidamente o marido.
—Não está lá... roubaram-m'o—bradou ella.
Dias antes tinha fugido uma negra, alugada para a cozinha.
—Seria a preta?—perguntou tranquillamente o bacharel—Póde proclamar-se rainha nas suas senzalas a negrinha!
Corinna mostrava-se afflicta. O marido chamou-a a si, encostou-a ao seio, e disse-lhe com muita meiguice:
—A tua grande alma, minha filha? Então! ha ahi dinheiro que valha uma lagrima tua, Corinna? Imagina que Deus te experimentava, privando teu marido da saude de tres dias! Que farias então, minha amada?... Quantas vezes darias os teus trinta contos por uma tisana que me restaurasse?! Quero só ver-te lagrimas, quando eu as chorar.
—Tens razão!—exclamou ella—Estou alegre! perdoa á minha fraqueza de mulher, sim? Quem me visse chorar, julgaria que eu amava aquelle dinheiro inutil!
—Pois sim; tudo isso é muito admiravel—exclamou o velho—mas é necessario annunciar a fuga da ladra, agarral-a e despedaçal-a com o azorrague!
Antonio de Azevedo ergueu os hombros e sorriu. Corinna fitou os seus humidos e negros olhos em Valentim, e murmurou:
—Despedaçal-a! Coitada da infeliz!
—Essa agora é que não é piedade irreprehensivel, menina!—redarguiu o velho—Chama
coitada infeliz
á negra que lhe rouba uma quantia que em Portugal se chama
uma fortuna
!... Eu tomo a negra á minha conta! Ha de ser cortada pelo azorrague!
—Não deixes, Antoninho!—clamou Corinna, tomando-lhe o rosto entre as mãos.
—Não deixo, não, filha. O doutor está feroz; mas aquillo passa-lhe.
—Ora, senhores—tornou o velho tregeitando espanto—O nome, que isso tem em boa hermeneutica, é
fomentar o crime
! A sociedade não se serve assim! É preciso que cada qual contribua com o cauterio para lhe extirpar os cancros que a corroem.
—Parece que está no tribunal, doutor!—disse Azevedo—A velha eloquencia é ainda brilhante; mas a lei nova, a lei do justo que os fariseus azorragaram, manda cahir o azorrague das mãos do offendido, e castigar moralmente o culpado.
—Moralmente!—retorquiu o doutor—Com que então vossê crê no moral dos negros?!
—Creio na alma dos negros.
—Isso é uma impiedade!
Azevedo riu-se, e, por momentos, duvidou do concerto intellectual do velho.
Mas, a esta injuriosa duvida, ergueu-se o velho, e caminhando para elles, com os braços abertos, exclamou:
—Não calumniemos a negra, meus filhos! Abraçai-me, anjos! Eu quiz experimentar a vossa caridade! Abraçai-me, —Não calumniemos a negra, meus filhos! Abraçai-me, anjos! Eu quiz experimentar a vossa caridade! Abraçai-me, santos da honra e da misericordia, que os vossos trinta contos quem os furtou fui eu!
XX.
Em uma tarde de maio de 1849, ao oitavo mez de ceo sem nuvens n'aquella chacara, onde á competencia os tres ditosos moradores se davam alegrias, chegou o anjo pallido da morte, e sentou-se no limiar d'aquelle éden, como para vedar o accesso ao anjo do contentamento.
A um lado do leito de Valentim da Costa estava Corinna da Soledade, com o cotovello apoiado no travesseiro e a face na palma da mão esquerda, orvalhada de lagrimas.
Do outro lado Antonio de Azevedo, com as mãos entrelaçadas debaixo do rosto que encostava á borda do leito, erguia a espaços os olhos lagrimosos, e cravava-os nas faces emaciadas e lividas do ancião.
Aos pés do leito estavam sentadas duas velhas negras soluçantes, com os rostos escondidos entre os joelhos.
Na ante-camara moviam-se pé ante pé os restantes dos antigos servos de Valentim, e cada um por sua vez, de instante em instante, vinha, por entre os cortinados de cassa, espreitar o enfermo, e retirava com as mãos postas e o coração em ancias e suspiros.
Valentim da Costa tinha sido confessado e ungido n'aquella tarde. A sciencia retirara ante a irremediavel decomposição dos oitenta annos.
Mas Corinna e Azevedo não podiam convencer-se de que o seu amigo havia de morrer assim, quando, a intervallos, o ouviam discorrer com o socego e energia moral dos mais saudaveis dias. Era a alma imperecedoira allumiada já pela claridade do empyreo: era a prova suprema que ella estava dando de sua immortalidade. A cryzalida desfazia-se, e a borboleta do ceo, n'aquelles assomos de intelligencia, ensaiava seu voejar para o alto.
O moribundo descerrara as palpebras, e dissera:
—Não devia eu esperar tão suave morrer. Homem que viveu sósinho os annos da juventude e força, morrera sósinho. Não quiz o Altissimo que eu pagasse amargosamente a minha incuria. Eis-me com filhos e amigos em volta do meu leito. Bemdito seja o Senhor!
Falleceram-lhe forças, e descahiram as palpebras transparentes, flacidas e azulejadas.
D'ahi a pouco reabriu os olhos, fez signal a Antonio d'Azevedo, e indicou-lhe o travesseiro, que forcejou por levantar.
Azevedo correu a mão por debaixo do travesseiro e tirou papeis, que offereceu ao ancião. Este não pôde erguer os braços quebrantados, e disse:
—Um é o meu testamento; o outro papel é a minha despedida de vós. Está escripto ha quinze dias: escrevi-o quando conheci o fim. Lêde-o vós, filhos; quero ouvil-o; o coração quer ainda o goso de se escutar.
Antonio d'Azevedo abriu vagarosamente a folha dobrada em oitavo, e leu com tremor de suspiros:
«Um secreto aviso me manda preparar. Não posso dizer como o santo:—O meu coração está prompto—; mas vejo o termo da viagem sem susto. A face do Juiz transluz misericordia. O meu Creador foi para si que me creou.
«É dôr deixar-vos, filhos; porém saudades haverá mais pungentes entre os vivos que se apartam. A providencia divina permitte que o aspeito da morte seja menos afflictivo, quando em verdade ella está comnosco. Ai de nós, se este desapego da terra, onde se é feliz ou se espera sel-o, não existisse! O morrer custa ruins quebrantos da materia; mas a alma como que se está despenando e alegrando para ir ao seu destino.
«Vou deixar-vos, meus amigos. Chorai-me, porque vos quiz muito, e vos fui grato ás doces horas que me déstes. Chorai-me, porque ao moribundo é consolador o pranto dos que lhe deram os risos da ventura.
«Ficaes novos e ricos. Pela vida além haveis de encontrar muita gente affligida: sêde valedores de todos, e associai sempre o meu nome á vossa beneficencia. Assim viverá comvosco uma faisca d'esta chamma, que não póde ser toda vossa, por ser de Deus.
«Dai-me sepultura, e ide depois para a patria e para os vossos. Empregai lá a vossa actividade menos em accumular, que em repartir a sobejidão de vossa riqueza. Quando houverdes filhos não lhes ensineis a honra do rico, que essa é facil: ensinai-lhes a honra do pobre, a honra de Antonio d'Azevedo e a abnegação de Corinna. Vivei de modo que a vossa descendencia se glorifique do exemplo, quando vossos nomes estiverem já esquecidos.
«Estou a dar-vos conselhos, como se carecesseis d'elles: desculpai ao velho este fraco da muita idade. É uma missão paternal que cumpro. Se eu tivesse dois filhos, exemplares em virtudes, havia de fallar-lhes assim. Deixai-me acabar n'esta abençoada illusão. Admoesto-vos, meu Antonio d'Azevedo, a que deis de mão ao grande pezo do trabalho. O que hontem era precisão, será ámanhan sêde sobre sêde de riquezas inuteis. O bastante é muito pouco. Da riqueza de vossa alma é que deveis ser grande dissipador: derramai-a em preceitos, conselhos, allivios e censuras. O solitario virtuoso é um egoista do ceo. Ide ao meio do povo e fallai. O homem sósinho póde ter muito de que alegrar-se; mas não alegra os milhares de infelizes que gemem, e a gemer se vão despedaçando.
«Sabei que eu, á custa de sessenta annos de trabalho, cheguei a esta hora podendo dizer que não tenho um ceitil. Tudo dei a uns, e perdoei a outros. Os bens de fortuna, que vos lego, deu-m'os uma herança, no ultimo quartel da vida. Ahi vol-a transmitto. Foi sempre meu intento deixal-a a pobres: sei que fica sendo vossa e d'elles.
«Agora abraçai-me, e dai-me o vosso adeus.»
Antonio d'Azevedo fôra algumas vezes embargado pelas lagrimas, e Corinna, com os labios postos na mão do moribundo, soluçava mui anciada. No final da leitura, Valentim fez um vão esforço de levantar os braços para receber os dois filhos que se achegaram ao seio d'elle. Os escravos tinham entrado todos de roldão, e beijavam-lhe os pés por cima da coberta. O agonisante relanceou os olhos de sobre elles para a face d'Azevedo, e murmurou:
—Serão vossos amigos tambem... Levai-os... Os pobrezinhos morreriam de saudade... e miseria.
Os negros ajoelharam de mãos postas, e oraram. Corinna insensivelmente ajoelhou tambem, conservando entre as su Os negros ajoelharam de mãos postas, e oraram. Corinna insensivelmente ajoelhou tambem, conservando entre as suas a mão do moribundo.
CONCLUSÃO.
Passados seis mezes, á porta do quinteiro de uma pequena granja, visinha de Barcellos, parou uma liteira, d'onde apearam Antonio d'Azevedo e Corinna da Soledade. Logo em seguida, chegaram algumas cargas, acompanhadas por negros, em volta dos quaes o rapazio de Barcellinhos fizera grande alarido de apupos e espirros. Das tres escravas, uma só resistira á saudade do senhor; os pretos viviam todos, amparados pelo bom tracto dos novos amos.
As irmans do bacharel vestiam as suas mais vistosas e secias galas. Eram quatro frescas moças, robustas, côr escarlate de quem vende saude, alegria a desbordar do coração aos olhos, e um rir franco e aberto de innocencia, e felicidade expansiva.
Corinna abraçou-se n'ellas, que a levaram em andor para o primeiro sobrado. N'este sobrado, algum tanto escuro, rescendia um acre de rosmaninho e alecrim, como em festividade de presbyterio. Por cima de mesas, commodas, e banzos das janellas, tudo eram jarras de louça ordinaria com grandes feixes de dhalias, rozas e folhudos gira-soes. O oratorio estava aberto, e allumiado o crucifixo com a lampada usual, e mais duas vellas de cera de meio arratel, voto da mais nova das meninas. Os frizos do sanctuario eram grinaldas de flores, atadas pelas hastes umas n'outras, enfeite de menos engenho que apparato.
Antonio d'Azevedo entrou depois de sua mulher; sentou-se em um tamborete de coiro; descobriu-se, quando deu pela imagem do Christo, e murmurou:
—Finalmente!
Corinna da Soledade sentou-se á sua beira, e disse-lhe:
—Que celestial graça tem isto tudo, ó filho!
—Aqui tens a pobre casa onde nasci. Corinna!...—disse Azevedo, relanceando em redor os olhos humidos—Isto póde explicar a estreiteza das minhas ambições. Moldou-se-me a alma nas dimensões acanhadas d'esta casinha. Olha as flores de que eu tinha tantas saudades! Alli tens a minha banca de estudo... Lá estão ao lado do oratorio os meus primeiros livros... Mas como isto é pequeno! Como caberemos aqui!
—Perfeitamente, Antoninho!—disse Corinna.
Entrou, n'este ensejo, Joaquim d'Azevedo, o negociante do Porto, que ficara arrumando n'outro sobrado os bahus.
—Não sei, não sei como hão de caber aqui, meus irmãos—disse elle, rindo—Tu já sabes, Antonio, que, além d'esta saleta, e dois quartos, segue-se um casarão velho, e umas oito alcovas, de que os ratos estão de posse immemorial. Ora vem ver! Estou certo que a nossa Corinna vai ficar espavorida!
Abriu Joaquim de Azevedo a porta que abria para o casarão. Antonio fez pé atraz de maravilhado. Tinha diante de si uma sala luxuosamente trastejada, com janellas lateraes rasgadas em arco, e envidraçadas a cores. A jardineira central estava cogulada de flores raras, e ricas encadernações de albuns. A um lado o piano. A outro a othomana e as cadeiras de respaldo em setim amarello. No centro, o lustre pendente do estuque primorosamente lavrado da mais engenhosa filagrana. Ao fundo d'esta sala estava um quarto com recamara, espaçoso, alegre, com alfaias de muito valor e gosto.
—É o vosso quarto, meus irmãos—disse Joaquim—Ao lado tendes outro: será o do vosso primeiro filho. Quando os filhos augmentarem, iremos rompendo com o edificio pelo campo, ou daremos á casa a largura que precisa para corresponder ao comprimento. O defeito não foi do mestre architecto: foi meu por tua causa. Era preciso, cá para o meu plano um pouco de peça magica, que tu visses a frontaria da velha casa, e não podesses ver o fundo. O que era de nossos paes, está em pé; tens que farte onde ver o teu passado; tudo se conservou por amor de ti, que tens lá essa poesia das casas velhas. Mas has de perdoar que eu tenha destruido o casarão, antes que os ratos devorassem as nossas irmans.
Antonio abraçou Joaquim de Azevedo com fervorosa alegria, e este, com o outro braço, apertou Corinna ao peito.
Seguiu-se um dia e muitos dias de contentamento incessante. A cada hora em que se encontravam juntos, á mesa, no jardim, nos campos, ou á margem do Cávado, era uma festa, uma alegria de crianças!
Gastão de Noronha estava já em Lisboa, de volta de França, onde se deteve um anno a comprar a mobilia. Aquellas duquezas eram os seus peccados!
Fernando de Athaide desceu do alto-Minho a receber seus cunhados na quinta do Lima. Tambem Corinna queria ir reconhecer os arvoredos de sua infancia, e mostrar ao marido os logares onde chorara mais lagrimas de saudade. N'esta quinta se reuniram as quatro irmans casadas.
Emma, viscondessa da Cruz, tinha nutrido muito; e, com quanto o jubilo lhe désse azas, não cessava de queixar-se dos incommodos de tamanha viagem, desde o Porto alli! Leonor, casada com Luiz Taveira, ria muito da irman gorda, chamava-lhe o ideal da preguiça, e saltava muito, pendurada no braço do marido, que era doido por ella. O velho Bernardo Taveira seguiu os filhos, e fazia discursos, que ninguem lhe ouvia, excepto Antonio d'Azevedo, que via n'elle um dos classicos velhos talhados a molde das virtudes de Valentim da Costa. Dias depois, chegou Gastão de Noronha, Mafalda e Elisa, a mais nova, e ainda solteira das meninas. Gastão, com todo o aprumo de sua fidalga altivez, approximou-se do genro Azevedo, abraçou-o cordialmente, e disse-lhe:
—Meu caro commendador!
—Vossa excellencia está enganado!—disse o attonito Azevedo—Eu sou, salvo a pequena differença de alguns cabellos brancos, o Antonio de Azevedo de 1844.
Gastão tirou da algibeira uma chapa refulgente da ordem de Christo, e disse:
—Aqui tem! É o meu presente de noivado.
—Muito agradecido a vossa excellencia—disse Antonio d'Azevedo—Qualquer dadiva de vossa excellencia me alegra; e esta, que tanto luz, deve ser muito agradavel entre os brinquedos de meu primeiro filho.
—Mas eu quero que a use—tornou o sogro.
—Na minha aldeia?—perguntou o genro.
—Em Lisboa, para onde eu quero que o senhor vá gosar a vida e a riqueza que tem. A minha Corinna não se fez para o mato de Barcellos. Não é assim menina?
—Respeito muito a vontade de meu pae—disse Corinna com submissão—mas a nossa casa é em Barcellos, e as minhas flores estão lá por aquelles matos. Tenho lá uma segunda familia que me chama, e á qual eu tenho escrupulos de roubar por mais dias o seu irmão querido. Ámanhan partiremos.
Antonio de Azevedo, sem temer reparos, cedeu á alma reconhecida, e deu um beijo na face de sua mulher.
EPILOGO.
Lá vão quatorze annos.
Não me consta que tenha morrido algum dos personagens que ha instantes vimos tão alegres nas margens do Lima.
Conhecem romance em que tenha morrido tão pouca gente? Eu não! Se aquelle santo do Rio de Janeiro não vergasse debaixo dos oitenta annos, ainda agora podia estar no seio da patriarchal familia de Barcellos, onde elle tencionava acabar seus dias.
As irmans de Antonio de Azevedo estão todas casadas, e senhoras de boas casas de lavoira e numerosa descendencia.
Está ainda solteira Eliza, a irman mais nova de Corinna. Tem hoje trinta e um annos. É ainda formosa. Se o leitor é solteiro e rico... (não será mau que seja rico, para maior segurança) póde dar a este romance um supplemento, casando com aquella senhora, que está aqui em Lisboa. Eu de muito boa vontade, na segunda edição d'este romance, darei a possivel immortalidade ao acto.
Pude tambem saber que o menino mais velho de Antonio d'Azevedo amolgou a commenda na borda de um tanque, e acabou por atirar com ella a um poço. Que grande democrata se está alli criando!
FIM.
Notas:
[1]
O
Snr. Antonio Pereira da Cunha
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[2]
O
Snr. José Barbosa e Silva
, author do romance==
Viver para soffrer
.