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Estrellas Propícias

ESTRELLAS PROPICIAS. (continued 2)

Reading edition

Um dos pratos mais de cobiça, e ingratos a estomagos fatigados, era o salmão, o salmão de Vianna, famoso em toda a parte onde a gastronomia tem sacerdotes e martyres.

Entrou o noivo pelo salmão com a voracidade dos vinte e cinco annos, não obstante o cauteloso primo lhe haver dito que se abstivesse de competir com a sua Emma em materia tão indigesta. Parece que Emma gostava muito do appetitoso pescado, e devemos suppor que o velho, por comprazer com o paladar da noiva, quiz fazer heroismos de deglutição. Perdoavel excesso para quem sabe o que é amar!

Declarou-se a indigestão, quando ainda se estava á sobremesa. D. João pediu genebra, bebeu em proporção com o volume do bolo indigesto, e, dando-se alta na incipiente molestia, comeu ovos mexidos em grande porção, e correspondeu a todos os brindes com absorvente enthusiasmo.

Estavam todos admirados do vigor digestivo do sexagenario, e do rubor juvenil que lhe ressumava nas faces, quando o velho se sentiu anciado, e pediu um vomitorio prompto. Cada pessoa de familia lhe ministrava um remedio, e Gastão, mais que todos, mostrava sua inquietação, mandando chamar medico a Vianna. Foram logo sensiveis os symptomas de apoplexia. D. João tinha os olhos injectados de sangue, e a cabeça em brazas vivas. Votaram todos pela sangria; mas não havia sangrador, nem sequer lanceta. O abbade da freguezia estava presente, e, como bom pastor, foi de parecer que seria muito util ministrar os sacramentos ao enfermo, visto que as apoplexias eram summarias n'aquellas idades e por taes causas.

Redobraram os sustos de Gastão de Noronha. A morte, anticipando-se quinze dias, dava um golpe terrivel em toda aquella familia. O menos damnificado seria de certo o morto. Quem mais soffria as angustias do moribundo era Gastão! Perguntou elle ao abbade se seria acertado dizer a D. João que recebesse as bençãos nupciaes.

O clerigo encarregou-se de lh'o propor. O enfermo, já quasi desaccordado, ouviu a pergunta e estorceu-se em desesperada afflicção. Foi então que elle viu a morte na pessoa do inoffensivo abbade. Á segunda instancia, D. João fez um esgar repellente, e sacudiu vertiginosamente os braços e as pernas. Gastão disse a Emma que se approximasse do leito, e lhe dissesse algumas palavras confortadoras. Emma foi com semblante de medo. As feições do velho, já lassas e lividas, para assim o dizermos, cheiravam a cadaver. A pallida menina foi tremendo.

—Dá-lhe a mão—disse-lhe o pae ao ouvido.

Tocou ella na mão tepida e insensivel do agonisante com repugnancia.

O abbade, instado por Gastão, disse:

—Senhor D. João de Mattos, vossa excellencia recebe como sua legitima esposa a senhora D....

O velho deu um sacão, e esgazeou os olhos espavoridos.

Emma retrahiu-se aterrada, e o abbade sahiu a ir buscar os santos oleos.

—Vai-se embora, abbade?!—perguntou o fidalgo furioso de sua afflicção.

—Não ha que fazer aqui, senão cuidar-lhe da alma—disse o padre—O homem já não dá accordo de si: o casamento n'este estado ficaria canonicamente nullo, fidalgo!

Sahiu o abbade da egreja com o viatico, e recolheu logo, por lhe dizerem que D. João tinha expirado.

IX.

UMA CARTA DE CORINNA DA SOLEDADE A ANTONIO D'AZEVEDO BARBOSA.

«Na minha segunda carta lhe contei o que se passou até á morte do tio D. João. Agora é que eu bem comprehendo o desespero em que vive meu pobre pae. Quando elle me disse que iamos empobrecer, cuidei que se inventava um engano para eu consentir em ser a victima voluntaria da pobreza da nossa familia. Soube que a Emma fôra instada com as mesmas razões da pobreza: não a dissuadi; mas, em minha consciencia, julguei que era sacrificada ás ambições de continuar-se em Lisboa o fausto que tiveramos em Paris.

«É verdade o que meu pae me dizia. Os bens do vinculo, unicos que possuimos, estão em risco de se perderem. Imagine o meu querido amigo como será a nossa vida, ouvindo a cada hora o pae lastimar-se, enfurecer-se e lançar-nos injustamente em rosto que fomos nós a causa da sua ruina, porque dissipara os bens livres para nos dar em Paris uma vida brilhante com esmerada educação! Minha mãe, que não tem culpa de ter sido herdeira do dote que lhe tiram, faz-me muita compaixão, quando o pae lhe diz que foi atrozmente enganado para casar com ella.

«Que será de nós, passados alguns mezes? Para onde iremos quando nos expulsarem d'esta casa? Minha mãe já pediu a parentas, que tem em differentes conventos, que nos recebam. Eu creio que irei para Vianna e mais a mana Felismina; outra irá para Vairão; e as outras duas para S. Bento do Porto. O pae diz que vai a Lisboa requerer um emprego, com que possa sustentar-se a si e á mãe. De maneira que estamos em vesperas de nos dispersarmos para nunca mais nos reunirmos! E eu, entre todas as minhas irmans, sou a menos infeliz, porque ha muito suspiro pela solidão do claustro, e sei que lá terei comigo a imagem compassiva do meu querido irmão; porém, eu queria ir para o convento, deixando a minha familia contente e feliz, e não assim a braços com a dependencia, e Deus sabe com quantas desventuras peores que a dependencia!

«Aqui me tem, pois, bem digna do seu amor por minha pobreza. Já me lembrou se Deus me deu esta virtude para merecer aos seus olhos, meu amigo. Tenho momentos em que o futuro se me allumia; sou eu a unica pessoa da minha familia que vê a felicidade através d'esta escuridade. Todos se lastimam, e eu só me lastimo de os ver tão desanimados. Falta-lhes o amparo do amor, e talvez da fé na providencia divina. Eu rezo muito, e desafógo em consoladoras lagrimas; minhas irmans e meus paes abafam sem linitivo. Ás vezes quero consolar meu pae: o infeliz repelle-me, como se eu désse causa a seus desgostos, e não fosse capaz, para o salvar da queda, de me deixar esmagar no coração e na vida!

«Não estranhe que eu lhe diga tudo o que o coração me fôr dictando. Agora que eu estou assim pobre, e d'aqui a pouco obscura e esquecida n'um convento, haveria alguem que me quizesse para esposa? Poderia alguem invejar a sorte do homem que me acceitasse? Pois, é n'esta situação que eu mais confio do seu amor; é assim que eu me affoito a pedir-lhe que venha, que renuncie ao desejo de ser rico, e que... A riqueza para que a procurava? não era para poder ostentar o seu valimento aos olhos de meu pae? Era de certo; que, se fosse para valer em meu conceito, grande injustiça me fazia, meu caro amigo. Pois então faça de conta que estão cahidas as barreiras que só o ouro poderia arrazar. Ninguem me impedirá que eu seja sua mulher. Sejamos ambos pobres: não teremos que medir a desegualdade das nossas posições. A nossa fortuna principiará com a primeira moeda de cobre que empregarmos no primeiro pão. Depois eu lhe darei horas de alegria com a minha ditosa conformidade a tudo que os descontentes chamam infortunio.

«Não cuide que a vida de convento me assusta, e que eu procuro aligeirar o tempo do supplicio. Não, meu amigo. O convento é o unico estado que me quadra, e a mais proxima ventura que se offerece á minha sêde de solidão. Se voltar cedo, lá me encontrará; se, passados muitos annos tornar para Portugal, no convento me encontrará ou desfigurada pela velhice, ou confundida nas cinzas das bemaventuradas, que alli acabaram contentes e amantes de mais seguras esperanças que as minhas.

«Póde ser que o meu irmão, n'essa outra sociedade, com outras relações, e com a mudança que fazem os annos, contra vontade mesmo de quem se transfigura, sinta diminuir-se a boa impressão que de mim levou. Não creio que me esqueça; mas póde ser que a distancia me vá descolorindo aos olhos da sua alma. Se tal acontecer, nem assim deixarei de esperar que em algum momento, entre as fugazes venturas d'este mundo, o seu espirito vá ver-me, no meu asylo, esperando-o ainda, e esperando sempre.

«Mas o meu coração lhe pede que não me esqueça, e que acceite as alegrias que elle lhe promette. Adeus, meu amigo, meu consolador. Sua

C. da Soledade

.»

A PRIMEIRA CARTA DE ANTONIO D'AZEVEDO A CORINNA, ESCRIPTA NO BRAZIL.

«21 de junho de 1843, onze horas da manhan.

«Aqui estou, minha querida Corinna. Cheguei ha meia hora. A minha tristeza tem uma negrura inexplicavel. Abafa-me mortalmente este ar. Estou como o desterrado que atiraram a uma praia onde não houvessem olhos humanos que me vissem chorar. Ó meu Deus, que atroz supplicio é a saudade! Que desolação em roda de mim, que terror me incute tudo isto que me vê com uma indifferença dolorosa como o escarneo! Sahirei eu d'esta febre que me está arrancando pedaços de vida a cada momento! Ó Corinna, eu não a vejo mais! Aqui é que sossobram as mais robustas almas... Eu não previra isto... É impossivel que haja piedade n'esta gente! A quem escrevo eu, meu Deus! Está a milhares de leguas distante, ó minha amiga! E esta carta só, passados quinze dias, sahirá d'aqui!

«Quatro horas da tarde.

«Sahi no afôgo de uma afflicção sem nome. Levei a minha carteira, e entreguei uma carta do Taveira a um negociante, que, apenas leu a carta, me disse que eu seria hospede na sua chacara, para onde vou ámanhan. Acolheu-me com muito bom rosto, e, apertando-me a mão, disse: «O senhor vem muito recommendado: ha de ter muitos amigos, e eu o mais dedicado de todos.»

«Fizeram-me grande bem estas palavras. A maior oppressão vai desapparecendo. Já a vejo a outra luz, minha Corinna. Já a torno a ver ao meu lado com a missão de anjo do alento e da paciencia. Os desamparados são unicamente aquelles que não tem nenhum amor puro na terra, nem confiança na graça divina. Ha de tudo em minha alma, bemdito seja Deus! Eis-me outra vez forte para a lucta, e envergonhado da minha fraqueza. Não rasgo a primeira pagina d'esta carta porque a minha alma ha de mostrar-se-lhe sempre nas suas intercadencias de força e desanimação. Assim lh'o prometti, e tenho necessidade de cumprir. Toda a gente ha de ignorar os meus desfallecimentos, menos a minha Corinna para me dizer: «Levanta-te, fraco, se queres ser digno de mim!» Vou sahir para entregar outras cartas, antes da minha ida para o campo.

«Nove horas da noite.

«Todos os portuguezes me recebem nos braços. Suppunha eu que os negociantes me acolheriam com a frieza da sua distancia d'um homem de tão diversa profissão. O que ahi se diz d'esta boa gente é uma calumnia. Os opulentos commerciantes a quem me apresentei parece que me estavam vendo nos olhos espelhadas as saudades da patria; e elles, tambem saudosos, sympathisavam mais com a minha dor, e queriam ouvir-me fallar das menores coisas de Portugal. Aqui é que se sabe o que é esse torrão de flores e alegrias. Em parte nenhuma a palavra «patria» tem tão doce, tão querida e esperançosa significação. Muitos ahi dizem que tem vergonha de serem portuguezes; aqui sente-se orgulho de ter lá nascido, e encontrar tão longe irmãos assim saudosos da mãe commum. Abençoados sejam estes homens que tem olhado compadecidos para mim! Devo-lhes esta serenidade com que lhe vou escrevendo... Mas o cansaço prostra-me, minha amiga. Até ámanhan.

«22 de junho, oito horas da manhan.

«O meu despertar foi afflictivo. Com os sonhos renasceram as saudades, e o descorçoamento. Assaltou-me a pusillanime ideia de voltar já para Portugal. Seduzia-me o receio de adoecer n'este clima, o terror das febres, a difficuldade de ser rico, onde nem todos são ricos, ainda os mais laboriosos. Adormecera pensando no caminho que devia encetar: todos se me afiguravam difficeis e escabrosos. Que fraqueza! que inconstancia miseravel a do homem mais fervoroso no trabalho! Eu tinha perguntado ao dono do hotel se os advogados enriqueciam depressa; e elle, enumerando todas as profissões que enriqueciam, não mencionou a minha. Instei encarecendo as vantagens que se offerecem a um bom e honrado advogado: ouviu-m'as encolhendo os hombros, e disse que os caminhos direitos eram os mais tortos para quem procurava enriquecer-se. Isto desconsolou-me, amargurou-me os sonhos, e deu-me a hora má que precedeu estas linhas. Deixar fallar o descrente da honra. Se é forçoso, renunciarei á riqueza; contento-me que as muitas fadigas e vigilias me dêem honesta independencia, e o respeito de mim proprio.

«Cinco horas da tarde.

«Espera-me o amigo de quem vou ser hospede. Brevemente voltarei a dar começo á minha tarefa. Já me estão pezando as horas que vou passar de ocio sem prazer: parece-me que são horas que roubo á sua felicidade e á minha. A vontade energica é uma esperança meio realisada. Ha aqui n'este ar, n'este ceo, n'esta incessante labutação, um rumor mysterioso que eu escuto como o cantico victorioso dos que luctaram e venceram. Porque não hei de eu, a final, vencer tambem com esta ancia e força d'alma, com este amor e saudade, com esta voz prophetica promettedora de honrosos triumphos?...

«23 de junho, nove horas da manhan.

«A casa em que vivo, minha amiga, faz-me lembrar uma finissima e polida concha entre fofos de verdura e caules de gentis florinhas! As palmas, as tamarindeiras, os coqueiros, e muita especie de arvores do paraizo com sua explendida e agigantada folhagem, absorvem os raios abrazadores d'este sol, e elaboram-no em si, expedindo-o em frescura, que faz lembrar a da nossa terra, as auras das margens dos nossos rios, os salgueiraes do seu Lima, e os choupaes do meu Cávado! Mas que falta aqui da alegria dos nossos arvoredos, minha Corinna? Não sei: parecem-me tristes estas arvores; não me viram na infancia; não me conhecem; não me fallam. Que bello deve ser este diamante do mundo para os que nasceram aqui! Que abrasadas fantasias serão as dos poetas aquecidos a este vapor aromatisado por tantas urnas de florescencia peregrina! Que ar de primitiva magnificencia da creação tem isto tudo? Afigura-se-me que, á sahida do eden, este pedaço de mundo se desdobrou, com as entranhas arquejantes de riqueza, concitando o homem condemnado a trabalhar, a tressuar e a limpar mil vezes o rosto, calcinado sob os ardores do sol, á sombra d'estas arvores, que significam a misericordia divina ao lado da justiça inexoravel. É um como fantastico explendor que me está arrobando os sentidos; mas a minha alma está triste porque esta verdura macilenta não é a da minha patria; estas folhas hirtas, apontadas ao ceo como flexas, ou largas, immoveis e enormes, não me dão o murmurio tremente das nossas selvas. Não oiço o rumorejo dos regatos, nem o gemer dos carros, nem a cadencia melancolica dos pegureiros das nossas serras. Ai! a patria, Corinna! como é linda a nossa tão rica e tão pobre terra! Que copiosas bençãos verte Deus sobre a cabana do pobre jornaleiro que achou a felicidade sem a procurar, formando d'um rochedo e da sebe d'alguns arbustos o seu palaciosinho ás abas da serra da Tranqueira, onde eu, em criança, tantas vezes subi para contemplar as boleadas serras do seu paraizo, minha filha. Tudo agora me lembra quanto é pequeno e pueril ao pé d'estes gigantes de verdura, que me assoberbam com a sua magestade! Ainda vos verei, ó opulentas pobrezas da minha mocidade! Ainda lá recordarei, a sós com o anjo da minha alegria, estas melancolicas horas, este deslumbrante espectaculo, que parece estar-me dizendo que para gosal-o é preciso ter aqui gosado os brinquedos de irmãos, os carinhos de mãe; e, sobre tudo, ter aqui sentido o coração a formar-se, e a desentranhar-se em amor e esperanças

«25 de junho.

«Brevemente, ámanhan talvez, volto para o Rio. Vou praticar com um advogado portuguez de grandes creditos e fortuna, homem de muita idade, que reparte comigo os interesses, e me trespassa as obrigações muito lucrativas de defensor, em que está contractado com corporações commerciaes. Devo esta promettedora estreia ás cartas do pae de Felisberto Taveira, que d'aqui foi ha muitos annos, e deixou respeitado nome, e ainda grosso cabedal. Estou contente quanto, em minha situação, é possivel estar. Esta familia que me hospedou já me parece minha. A intimidade aqui é uma religião, como se um punhado de portuguezes, e não cincoenta mil almas, se encontrassem em torrão estrangeiro. Aqui é onde nós aprendemos o amor de conterraneos: lá, no seio da mãe, somos-lhe ingratos a ella, e maus uns com os outros; aqui suspiramos todos por ella, abençoamol-a, e religamos os corações de todos com vinculos da reciproca saudade.

«Espere, espere, minha querida Corinna, que havemos de ser felizes!

«27 de junho.

«O lettrado a quem vou associar-me é um ancião de semblante apostolico, viuvo, sem filhos, rico, muito esmoler e doente. Fallamos muito de Portugal, d'onde elle veio com D. João VI ha muitos annos. É filho de Lisboa, e está ha vinte annos com o projecto feito de ir morrer á patria; porém os medicos aconselham-o a gosar-se do clima a que está affeito. É que toda esta gente o venera, e carece além d'isso da sua muita sciencia, e probidade na sciencia. Já aqui teve comsigo dous sobrinhos, que elle amava como seus unicos herdeiros. Morreram ambos por causa da irregularidade da sua vida, e o ancião chorava fallando-me d'elles. Ámanhan começo a praticar e a estudar o direito brazileiro: ser-me-ha preciso naturalisar-me; que importa? Eu serei voluntariamente natural de toda a parte onde encontro irmãos que fallam a minha lingua, com tanto que me deixem o coração, lá, onde tenho tudo que é d'elle.

»

A carta é extensa de mais, e o leitor contenta-se com as paginas transcriptas.

X.

Gastão de Noronha valia ainda muito com homens de alta graduação, seus companheiros de exilio.

O litigio, perdido em primeira instancia, foi appellado para o Porto; e com quanto uma espantosa actividade, esporeada pelo ouro do brazileiro, instasse com os juizes de segunda instancia, os padrinhos do fidalgo valeram mais para que o processo paralisasse na mão do relator. Este, porém, com maravilhosa consciencia fez saber ao réo que a sua perda era inevitavel, cedo ou tarde, e que parte da imprensa estava a favor da prompta decisão do pleito.

Decorridos quatro mezes, os tres jornaes portuenses d'aquelle tempo, e alguns de Lisboa, depois d'um prefacio de dez e mais artigos ácerca da corrupção da magistratura, fulminaram o juiz relator, já alcunhando-o de vendido, já de subornado pelas fidalgas influencias que ladeavam Gastão de Noronha. Não houve remedio senão confirmar a sentença.

Recorreu de revista para o supremo tribunal o réo, acompanhando o processo, e cumulando embargos sobre embargos. Em Lisboa a presença de Gastão e a solicitude dos amigos promettiam um anno ou mais de esquecimento dos autos; mas as gazetas, ainda antes de tempo, já se mostravam espantadas da demora, e, por conta de seu espanto, lavraram logo alvará de corruptos a todos os juizes, pedindo ás leis, ao governo e ao universo que os esfollassem, como o tyranno de Siracusa fizera a um juiz venal.

Aproveitou Gastão o ensejo de requerer emprego em Lisboa, já mais que certo do resultado do pleito. Os seus amigos, que o julgavam rico, pasmavam de o verem com aquelle aspeito typico, immutavel, e unico de pretendente. Pedia elle a directoria d'uma alfandega de primeira ordem, posto que nenhuma estivesse vaga. O ministro achou absurdo o requerimento, e os amigos acharam importuno o requerente. Desceu Gastão de suas pretenções, e pedia um governo civil em Vianna, Braga ou Porto. Os funccionarios que exerciam taes commissões na provincia eram sujeitos affectos ao governo, e bons fabricantes de Fabricios e Codros sertanejos. O fidalgo foi esclarecido a este respeito, e azoou. Pediu ainda um logar de escrivão da mesa grande da alfandega de Lisboa; mas o ministro mostrou-se muito sentido de que o serventuario existente não tivesse dado causa a ser demittido.

Ora Gastão de Noronha algumas vezes, em Paris, dera a um dos ministros pares de botas, e muitos jantares a outro. Assim lh'o lançou em rosto, e elles, pelos modos, ouviram a injuria com muito receio de que o fidalgo minhoto fizesse uso dos pulsos não menos rijos que as phrases. Era homem para isso o atribulado pae de cinco meninas, em vesperas de não ter sombra de arvore sua que o cobrisse!

Desanimado, e com o pensamento do suicidio a empeçonhar-lhe a alma, desamparou o processo, e foi para os seus.

Que ia elle fazer alli? que destino ia dar ás filhas? que remedio esperava elle haurir das lagrimas da pobre Mafalda, que em seis mezes envelhecera vinte annos?

A sua entrada em casa denunciou, sem palavras, a desesperança e suprema desgraça que o trazia. As meninas cuidaram logo nos preparos para se recolherem ao claustro, e D. Mafalda, sem consultar o marido, resolvera entrar com Corinna no mosteiro de Vianna. No tocante a si, dizia Gastão de Noronha que as suas tenções estavam deliberadas.

As tenções do fidalgo eram incendiar o palacete no dia em que chegasse de Lisboa a noticia do ultimo arranco da sua fortuna. O que elle faria de si depois era segredo que não deixou transpirar dos seus furores recalcados no peito.

A noticia que o seu procurador lhe deu passados dias foi consolativa. O supremo tribunal annullara oprocesso desde a appellação por falta de intimação ao réo. Queria isto dizer que a demanda ia recomeçar desde a sentença de primeira instancia.

Recobrou-se Gastão; as meninas descontinuaram os preparativos de convento; aquietou-se o animo de todos, e volveram á casa das margens do Lima alguns parentes, que fugiam

para não presenciarem as angustias d'aquella nobilissima familia

. Boas almas, não tem duvida nenhuma!

De pouco tempo foi este repousar para maiores angustias. Os zelosos procuradores de Fernando de Athaide obtiveram despacho para embargo dos fructos pendentes, fundamentando sua justiça em artigos que o leitor curioso póde ver de seu vagar no codigo.

Foi, para este effeito, citado Gastão de Noronha. Era de mais: foi uma faisca que atiraram áquella alma cheia de rancor, que ameaçava explosão! O fidalgo chamou os criados, armou-os, postou-os ao portão da quinta, e sentou-se no muro para capitanear a defeza.

Os officiaes de justiça, idos de Vianna, quando avistaram os homens armados, retrocederam. Os criados, vencedores sem consumo de polvora, deram-lhes uma bateria de apupos e assovios, que nunca a justiça d'estes reinos foi tão ridiculamente escorraçada.

Gastão preparou-se para mais pugnaz arremettida. Chamou os caseiros em grande numero, armados de foices, enxadas e escopetas vesadas a matar uma andorinha no ar.

Sahiram de Vianna os mesmos esbirros e outros mais afoitos, com doze soldados e um sargento. As inculcas do fidalgo anticiparam-se com a noticia. Gastão fechou toda a sua familia n'uma sala interior da casa nova, e postou-se com trinta homens nas janellas do edificio solarengo.

A diligencia viu aberto o portão, e receou cilada. Os aguazis incitaram o exercito a ir na dianteira. O bravo sargento, direito como um Giraldo-sem-pavor, entrou com o dedo no gatilho, bradando: «preparar!» com voz tão marcial, que fazia lembrar os bons tempos de Nuno Alvares e João de Castro. Os soldados compassaram-se em atiradores ao longo das alas de cilindras e acacias.

As avesinhas, que se aninhavam calorosas por entre a folhagem, crepitavam em bandos, e fugiam para o lado da casa, como a pedirem abrigo ás cinco meninas, suas unicas visitas áquelles pacificos caramancheis.

Parou a tropa no terraço fronteiro á casa. O sargento viu uma cabeça entre as duas columnatas mosarabes d'uma janella, e disse:

—Cuidado! que lá está um!

—É o fidalgo!—disse o escrivão, aventurando uma espreitadella por entre as franças de uma olaia—Está sósinho?

—Está, pelo menos não vejo mais ninguem—disse o sargento.

Animou-se o executor a sahir em claro, e cortejou de baixo Gastão.

—Que quer vossê?—perguntou o fidalgo.

O escrivão tartamudeou palavras inaudiveis. Sahiu á frente um official de chibança, e disse stentorosamente:

—Vimos a fazer embargos nos fructos a requerimento de Fernando d'Athaide, e com mandado do senhor doutor juiz de direito. Está vossa excellencia citado na presença de todas estas testemunhas. Agora vamos cumprir a diligencia: somos mandados. Vossa excellencia, se quizer, ponha embargos ao embargo.

—Eu não lhe tolero conselhos,

su

miseravel!—bradou Gastão—Já, e sem perda de tempo, meia volta á direita, e fóra da minha quinta, quando não vão debaixo de fogo!

—Auto de resistencia!—exclamou o escrivão, desentarrachando um tinteiro de osso negro, e examinando na unha do pollegar esquerdo os bicos da penna.

Mal o scriba proferira a bombastica exclamação, o fidalgo deixou ver o cano de um bacamarte, e vinte se não mais bocas de fogo romperam das differentes janellas. O escrivão escoou-se ao longo d'um massiço de murtas e acocorou-se. Os esbirros tomaram a retaguarda do exercito, e o sargento, em vez de arengar á tropa enfiada de pavor, sahiu do seu posto de honra e foi perguntar ao agachado escrivão se devia dar voz de fogo.

O escrivão ouviu a sibylla do medo, e disse que o melhor seria não haver sangue, e retirarem-se a lavrar o auto de resistencia.

—Meia volta á direita, rodar!—bradou o sargento. Os soldados voltaram costas ao inimigo, e obedeceram ás vozes «braço-arma!» e «marcha!»

A victoria, posto que incruenta, seria uma ridicula derrota para as armas e para as lettras juridicas, se alguns dos caseiros de mais rópia e chulice, como lá dizem, não sahissem por portas travessas contra vontade do amo, e não cortassem por atalhos a retirada á corrida justiça. Mal precatada ia esta, quando o tiroteio lhe rompeu á frente e pelo flanco direito, com grande algazarra de gritos, e de balas, cujo assovio encrespava de horriveis titilações as orelhas do escrivão. Os soldados viam, a intervallos, surgirem umas cabeças por detraz das moitas, ou deslizarem rapidos os vultos sobre uma clareira de dois troncos seculares do escuro arvoredo. Um soldado mais afoito rompeu ao bosque, e voltou de lá a manquejar com um raspão de bala n'um artelho. O esbirro chibante, que queria dar o exemplo da bravura, viu-se de repente na boca d'uma clavina, e metteu a coragem debaixo dos joelhos, que poz em terra, pedindo misericordia.

Gastão, logo que ouvira o tiroteio, mandou chamar os seus bravos, mas não a tempo de aggravar a resistencia com o ferimento do soldado. Cessou o fogo. Os escaramuceiros recolheram á cidadella com um chapeo de aguazil arvorado no gancho d'uma foice, e o escrivão com os seus chegaram a Vianna com aspecto livido como aquelle soldado unico dos trezentos de Leonidas que foi annunciar a Sparta a morte de todos os seus camaradas nas Thermopylas.

O regimento de infanteria aquartelado em Vianna, quando viu o soldado ferido, quiz sahir em pezo a vingar a affronta. Conteve o commandante a soldadesca, promettendo em nome da justiça mais legal e solemne vingança.

Póde dizer-se, sem injuria ao fidalgo, que a pobre cabeça d'elle estava perdida. Era aquillo tudo um cavar abismos em abismos. De hora a hora mandava atalaiar a estrada, em quanto recolhia gente armada das aldeias proximas, munições de guerra e vitualhas. Aquella casa, tão quieta dias antes, a remirar-se no crystal do Lima, estava sendo um castello de antigo barão em guerra com rei, ou senhor feudal inimigo de velhos odios de raça. As pallidas meninas e sua mãe aconchegavam-se umas das outras, e tremiam a cada estrondo de cronha d'armas no sobrado ou tinnir de varetas no cano das espingardas.

Mafalda ia supplicar ao marido que fugisse e as deixasse a ellas recolher aos conventos para se pouparem á desgraça de o verem a elle morto ou preso.

Gastão enfurecia-se contra as lagrimas; e, no auge de sua demencia, chegava a bradar que elle e sua familia morreriam no incendio da casa para não sobreviverem ao opprobrio da indigencia.

Os espias, ao terceiro dia de providencias para formal assedio, foram avisar o fidalgo de que vinham na estrada tres cavalheiros com um lacaio.

Momentos depois apearam no pateo os pacificos invasores da fortaleza, passando por entre fileiras de homens armados.

Gastão da sua janella-guarita reconheceu um parente de Vianna e Felisberto Taveira, já então visconde da Cruz, cujo era o lacaio.

Felisberto abraçou effusamente o pae de Corinna, maravilhando-se do aspeito bellicoso do castello, e pedindo licença para cumprimentar as damas castellans.

Appareceram as meninas com sua mãe. Corinna não se teve que não abraçasse expansiva e lagrimosa o amigo de Antonio d'Azevedo.

Ditos os logares communs, que eram para pouco em lances tão extraordinarios, o visconde da Cruz disse que lêra no

Periodico dos Pobres do Porto

uma correspondencia contando com negras cores a primeira resistencia que o fidalgo fizera á acção judiciaria, e os motivos que promoviam o embargo. Ajuntou que resolvera desde logo sahir caminho de Vianna para, como bom amigo de tão sympathica familia, offerecer o seu valimento. Accrescentou que chegara a Vianna quando se tomavam violentas medidas para vingar o aggravo feito á justiça e á força armada; e então, de accordo com o cavalheiro parente da casa, e advogado d'um tal Fernando de Athaide, conseguira, mediante um deposito equivalente ao rendimento dos bens litigados, cancellar os processos crimes instaurados e mandados de prisão.

Não ficou assim mesmo Gastão de Noronha extremamente satisfeito de tal serviço; mas agradeceu-o com um sorriso, e as meninas com lagrimas.

A parecer do visconde, os caseiros depozeram as armas e os criados voltaram ao seu trabalho. O chapeo do aguazil, em testemunho de alegria, foi arcabusado e sacudido em farrapos aos quatro ventos do ceo.

O restante do dia e noite correu tranquillo e alegre. Corinna recebeu furtivamente a segunda carta de Antonio d'Azevedo, e sentiu ancias de oscular a mão do visconde, que lh'a entregou com estas palavras:

—O nosso Antonio está n'um largo caminho de venturas. Ha de vel-o em Portugal dentro em pouco, e rico. Tenha orgulho de ser amada por tal homem.

—Tenho! Deus sabe que tenho!—murmurou ella.

XI.

O incansavel estudo, auxiliado pelo muito saber e prática do doutor Valentim da Costa, habilitou Antonio d'Azevedo a grangear renome em poucos mezes de exercicio.

O velho presava o praticante com mais que a vulgar estima captada pela probidade. Quantos ganhos podia declinar em lavor do laborioso moço todos lhe dava, não exceptuando mesmo os resultantes de seu proprio e exclusivo trabalho. Os clientes não distinguiam entre os dois, e alguns iam mais contentes da linguagem e escripta concisa e vigorosa do doutor novo.

—Já póde o senhor Azevedo, quando quizer, estabelecer-se sobre si—lhe disse o velho um dia—Ha de sobejar-lhe clientela, e está na carreira que leva á consideração e á fortuna. De mim é que já não precisa, meu caro amigo.

—E vossa senhoria assim me dispensa da sua companhia?—atalhou Azevedo—Fiz sempre quanto pude por que esta sociedade lhe não fosse onerosa.

—Ora ahi está! Eu a cuidar que o senhor desejava estar sósinho em seu escriptorio, como todos desejam, e vai agora sae-me o Azevedo o contrario de toda a gente! Pois, em sua boa verdade, o senhor quer ficar na minha companhia?

—Desejo-o; e nunca me lembrou que havia de sahir.

—Pois fique, Azevedo, fique, se o não move o interesse de mais algum punhado de oiro no fim de cada anno. Bem vê como este meu trabalho é interrompido pela gota, pelo rheumatismo e por outros achaques, contra os quaes não tenho que allegar nos nossos reinicolas. Isto está acabado, e acabada estava ha muito a minha tarefa, se não fossem velhos amigos que me tiram da cama para a cadeira, e ás vezes conseguem arrastar-me, em holocausto á amizade, aos tribunaes. Agora os novos que trabalhem, e cá se avenham com o seculo, com o qual eu já me não entendo. Tome o Azevedo conta das minhas procurações, dos meus livros, dos meus amigos, e, se quizer, do meu rheumatismo e da minha gota.

O velho doutor era mui faceto, e mettia sempre a riso a sua gota e o seu rheumatismo.

Estavam elles n'uma d'estas feriadas praticas, quando entrou um cliente de Valentim da Costa.

—Muito bem apparecido seja—disse este—o senhor Fernando de Athaide, fidalgo em Portugal e fazendeiro no Brazil. Vem-me dizer que está de posse dos seus vinculos de S. Torquato, de Alvites e de Ameixoal? Parabens!

—Quaes parabens, meu caro senhor doutor!—disse Fernando de Athaide—Aquillo tem dente de coelho! Tenho gasto o valor dos bens; tenho cinco sentenças a favor, e ainda pelo ultimo barco recebi uma carta do advogado e outra do procurador. Veja lá vossa senhoria o que por lá vai!

Leu o doutor mentalmente, e interrompeu-se em meio com esta exclamação:

—Magnifico bruto é o seu advogado, e o seu procurador outro bruto magnifico! Pois não deixam de intimar ao réo a primeira sentença! Esta, esta é das que desbancam a propria estupidez!...

—Pois olhe que tenho pago a rios de oiro essas brutalidades—disse Fernando.

—Não que ellas valem-no pela raridade!—disse o doutor limpando os oculos e proseguindo na leitura mental.

—Isto agora é que tem graça!—exclamou o velho, arfando em risadas—Está-se lá em Portugal na edade media. Recebem a justiça a fogo e ferro! Ó Azevedo, oiça lá isto, que é perdido em pouca gente.

E leu:

«A diligencia que sahiu de Vianna, retirou apupada e não fez o embargo; a outra que foi com a tropa, retirou debaixo de fogo, e recolheu com um soldado ferido. Á hora que lhe escrevo consta-me que mais de cem homens armados fazem sentinella ao palacio artilhado de Gastão de Noronha....»

—Como? de quem?—exclamou Azevedo.

—De Gastão de Noronha—disse o velho—Conhece-o?

—Conheço!—disse mui alvoroçado e pallido Antonio d'Azevedo—Mas que tiros são esses?

—É muito simples—respondeu Fernando d'Athaide, eu sou o directo successor dos vinculos que retem D. Mafalda de Athaide, mulher de Gastão de Noronha e minha prima. Ha muitos annos que tracto de senhorear-me do que é legitimamente meu. Tenho vencido em todas as instancias; obtive despacho para embargo nos fructos até á final decisão do pleito, annullado por um estupido descuido; e quando os officiaes de justiça vão cumprir a lei, o senhor Gastão dá-lhe fogo, e diz que a casa é sua. Ora vejam o que é Portugal! que civilisação aquella! Com que então o senhor doutor conhece meu primo Gastão de Noronha?

Azevedo, de abstrahido que ficou, não ouviu a pergunta. Fernando encarou em Valentim, como perguntando-lhe se era surdo o praticante.

—Diz o senhor Fernando se o meu amigo conhece Gastão de Noronha—tornou o velho.

—Conheço, creio que já disse.

Esta resposta foi dada com enfadado franzimento de sobr'olho, estranho ao velho.

Azevedo, vencido insolitamente de sua nobre paixão, fitou em cheio o rosto de Fernando, e perguntou:

—O senhor é pobre?

—Graças a Deus, não.

—É rico?

—Assim, assim.

—É muito rico—accrescentou o doutor Valentim.

—E não carece dos bens de sua prima D. Mafalda para ser feliz?—tornou Azevedo.

—Os bens são meus; não são de minha prima Mafalda—redarguiu Fernando com desabrimento.

—Convenho que são seus. Os bens que legitimamente possue sua prima são cinco filhas. Se o senhor tirar áquella familia as terras de que viviam, sua prima e seu primo e cinco meninas terão fome; ao passo que o senhor Fernando de Athaide não saberá que fazer d'essa parcella, que accrescenta á sua abundancia.

—Pode ser que assim seja—disse Fernando descommovido—mas a pobreza não é orgulhosa. Eu escrevi duas cartas a Gastão de Noronha, quando elle estava em Paris, propondo-lhe uma conciliação, e elle nem sequer desceu do seu orgulho a responder ao filho natural de Fernão de Athaide. Ora o filho natural quer desforçar-se como seu pae se desforçaria lançando fóra de sua casa os miseraveis que o não reconhecem como dono, nem sequer como parente. Colloque-se lá na minha posição, e diga-me o que faria?

—Tinha commiseração—respondeu Azevedo, e fingiu-se occupado a folhear uns autos.

—Commiseração com o senhor castellão que manda despejar balas sobre os executores do meu direito!—volveu Fernando—Olha em que postas eu era talhado se vivesse lá n'aquellas serras, em que os ladrões fidalgos se acastellam!

Antonio d'Azevedo pegou do chapeo, e disse que ia jantar e voltaria depois. Ao sahir cortejou urbanamente Fernando, como a pedir-lhe desculpa no sorriso.

—Este homem é exquisito!—disse Fernando ao doutor.

—É um modêlo de honra e virtude—tornou o velho—Não imagina que puro oiro é o d'aquella alma! Foi a commiseração que o excitou a tal estranheza de phrases. Desculpe-o, que o pobre moço, no fim de tudo, disse-lhe uma augusta verdade. Olhe que é triste coisa um homem que educou cinco filhas com todo o mimo e regalias de fidalgas, vel-as privadas de pão e de respeitos sociaes.

—Então que quer o senhor doutor?—atalhou Fernando.

—Eu de mim não quero senão absolver a compaixão de Antonio d'Azevedo, e lembrar ao senhor Fernando, que a caridade e o perdão são as virtudes fundamentaes do doutrinamento de Jesus Christo.

—E achava vossa senhoria acertado—acudiu Fernando—que eu perdesse contos de reis, que tenho gastado n'este capricho, e deixasse os meus vinculos na posse e direitos de minha prima?

—Eu não aconselho, senhor Fernando. Isto de bem fazer não se lê nem se ensina: está dentro do coração, é foro intimo, é materia de tractar com Deus. Faça o que bem quizer; mas de modo se haja que nunca venha a sentir-se mal comsigo proprio.

—A minha consciencia está tranquillissima—retorquiu Fernando.

—Quantas vezes a consciencia está quieta, e o coração inquieto? A consciencia é a inspiradora dos deveres; e o coração da piedade, da humanidade, e d'outras virtudes menos pautadas que os meros deveres e obrigações de uma recta razão. Faça o que quizer, senhor Fernando...

—Como eu me enganei!—atalhou Athaide.

—Enganou-se!? Com quê e com quem?

—Com o seu socio de escriptorio.

—Ora essa! pois...

—Eu lhe digo, senhor doutor. Disseram-me que este Antonio d'Azevedo era um advogado esperto.

—Não lhe mentiram.

—Será; não duvido. Ora, como eu queria acabar com isto á custa de mais alguns contos de reis, vinha com o fito posto em offerecer tres ou quatro contos ao doutor Azevedo para elle ir a Portugal tomar posse dos vinculos em meu nome, removendo todos os embaraços com a sua esperteza. Vinha n'esta ideia, e, quando menos o cuido, acho um prégador de caridade...

—Gratuito...—accrescentou, sorrindo, o velho.

—O que faltava era ter de lhe pagar o sermão que não lhe encommendei!

—Pois olhe que valeu dinheiro! Vossa senhoria, se for scismar no que ouviu, ámanhan está melhor de coração que hoje. Acha que não vale dinheiro um melhoramento moral? Oh! se vale! Até eu lhe devo, a elle mui salutares conselhos para a caduquez, e quando o escuto estou como pezaroso de não ter sido o que elle é. Pois que lhe disse o meu Antonio d'Azevedo? Cifra n'isto: «O senhor é muito rico: deixe essas migalhas que está disputando á familia, que não tem mais nada: faça de conta que pegou de sete pessoas pobres de sua familia, e deu a cada uma sua subsistencia.» Não lhe sôa bem isto ao animo desassombrado, senhor Fernando de Athaide? O seu bom sangue de fidalgo não se azedaria nas veias, se lhe cá viessem dizer que uma porção tão chegada de seus parentes andava lá por Portugal arrastada sobre os espinhos da pobreza, da miseria, e talvez da deshonra? Tem o senhor em Portugal cinco primas. Onde cuida vossa senhoria que as póde levar a indigencia?...

Valentim, fallando d'este theor, tinha os olhos embaciados de lagrimas. Fernando olhava-o em certa estupefacção, que umas vezes é dureza de sentimento, e muitas encendimento de renascida sensibilidade. O velho calou-se, e o primo de D. Mafalda, tomando o chapeo, sahiu sem proferir palavra, cortejando o doutor com um aceno.

—Adeus, meu amigo—disse o velho—Pense no fim da vida. Lembre-se que, no inverno d'ella, costumam os velhos lembrar-se das flores d'alma, que esmagaram na primavera.

Fernando ouviu, no patamar da escada, as ultimas palavras, e sahiu tanto ou quanto abalado.

Pouco depois entrou Antonio d'Azevedo. Viam-se-lhe nos olhos os residuos das lagrimas. É que elle acabava de escrever a seguinte lauda d'uma carta a Corinna:

«

«2 d'Abril de 1844—quatro horas da tarde.

«Acabo de saber as desventuras que vão em tua casa. Ouvi-as da boca do mesmo homem que vos quer privar d'essas arvores e do berço onde te embalaste, minha querida Corinna. Eu alcanço a profundeza das vossas amarguras, pobres meninas e pobre mãe! Que tremenda afflicção hallucinou teu pae ao ponto de resistir á justiça impiedosa, que não entende de infortunios, nem de lagrimas! Quantas vezes te voaria ao coração angustiado a imagem invalida do teu amigo! Tardias exclamações, filha! Deixa-me ver o que posso conseguir a bem de teu pae, cujas mãos eu espero beijar ainda. Talvez que á hora em que receberes esta carta, começada com tanta alegria, e tão atormentada agora, tudo esteja sanado, e teu pae olhe como suas para sempre essas reliquias de uma grande fortuna mal desbaratada. Tenho um presentimento de que hei de merecer a intervenção da providencia nas minhas intenções. Talvez que, a estas horas, estejas orando, e o anjo do nosso amor me segrede os dons que Deus te concede. Vou sahir, minha Corinna. Vou ouvir o santo varão a quem devo tudo. É tempo de eu lhe mostrar que anjo tu és para o fazer teu amigo, e bemfeitor de ambos. Até logo.»

Valentim observou o ar magoado do seu estremecido amigo, e quiz ver uma extraordinaria causa áquelle compungir-se pela familia portugueza.

—Olhe que eu cá fiquei prégando com o homem—disse o velho—As suas palavras foram o thema do sermão; mas, a fallar-lhe a verdade, não vejo lura d'onde saia coelho. Este Fernando de Athaide, cujo pae e mãe conheci, se não fosse a balda da fidalguia, havia de ser um homem muito estimavel. Está muito rico, e acha-se pobre quando veste a casaca sem o habito de cavalleiro ou official da Roza. Ha pouco arranjou em Portugal não sei que fitinha, que ellas por lá são tantas e tão bastas que não ha saber estremar os fidalgos pelas fitas. Mas o pobre homem não se contenta com ser condecorado pelo que faz (que eu, a bem dizer, não sei o que elle faz ou fez) quer tambem que a sua fidalguia lhe proceda em linha direita dos godos. Para isso precisa justificar-se tomando posse das quintas vinculadas e dos pardieiros que, pelos modos, tem ameias, adarves, barbacans e brazões com corôas e mitras. Isto é o que explica a crua insensibilidade de Fernando com os seus parentes. Ora diga lá, Azevedo, vossê conhece pessoalmente o tal Gastão de Noronha?

—Conheço-o de vista apenas; mas Gastão de Noronha está tão identificado á minha vida, que por causa d'elle estou hoje no Brazil. O senhor doutor Valentim já sabe que o meu coração tem lagrimas de saudade. Eu era na patria o que ainda sou aqui: um rapaz sem bens e sem futuro; e Gastão de Noronha era o fidalgo não rico, mas de sobra ambicioso e soberbo para me não dar sua filha. A mulher que eu amo e choro é filha de Gastão de Noronha.

—É notavel a coincidencia!—disse Valentim—Agora é que a sua mágoa me parece racional, e digna me pareceria de todo o modo. Entretanto, meu Azevedo, na sua mão está salvar essa menina, e desde já, das contingencias da pobreza. O senhor já sabe que tem bastos recursos no Brazil. Vá a Portugal, que a soberba do fidalgo deve estar amollecida. Case com a sua dama, e volte, que os seus amigos cá o ficam esperando.

Riram os olhos de Antonio d'Azevedo; mas este clarão de alegria foi instantaneo.

—Seria a felicidade perfeita para mim, mas não para ella—disse o bacharel, após instantes de reflexão.

—Como assim?—perguntou o velho—que mais póde ella desejar?!

—Que seus paes e irmans não soffram as horriveis privações tanto mais amargas, quanto a vida lhes correu abundante e respeitada. Calcule o senhor doutor que desgosto não seria o d'ella ao lembrar-se que suas quatro irmans ficaram encerradas em conventos, e dependentes da esmola de parentas! e que sua mãe, privada d'ellas, e talvez do marido... como poderia eu ser assim feliz, meu amigo?!...

Antonio d'Azevedo deixava cahir as lagrimas para que o velho não lh'as visse enxugar! Ha lagrimas que tem um como pudor, e recato que é talvez o medo de serem mal avaliadas. O chorar do homem ha de ser assim, ou ficará sendo miseravel alardo de sua feminil fraqueza.

XII.

—Valha-me Deus!—disse o doutor, esfregando as palmas das mãos tremulas—como ha de a gente remediar isto? O que o meu Antonio queria é que todos vivessem contentes. Christan utopia, que ha de realisar-se no ceo!

—Eu vinha animado d'um pensamento quando aqui entrei—tornou Azevedo—porém desanimei logo que o senhor me disse que Fernando de Athaide queria os vinculos para mostrar a sua fidalga genealogia.

—É o que é; e se não fosse, que ideia era a sua? Vamos discutil-a.

—A minha ideia era contrahir eu um emprestimo aqui: sei que o obtinha.

—Tambem eu sei que o meu amigo obtem o emprestimo. E depois?

—Avaliavam-se os bens vinculados e as despezas feitas para os liquidar: eu dava o valor de tudo a Fernando de Athaide, e elle desistia do direito por conciliação.

—E o Antonio ficava pobre e a trabalhar toda a sua vida para remir a divida?

—Necessariamente.

—Com effeito!—exclamou o doutor—e dizem lá que já não ha santos! Sabe vossê, Azevedo, como é que o mundo, desde que perdeu a fé nos milagres, chama aos santos da sua virtude? Chama-lhes mentecaptos. Assim devia de ser, porque a philosophia inscreveu tambem como demencia o amor divino dos crucificados por sua lealdade a Deus, e d'estes vejo que ainda os ha devotados á

sublime loucura da cruz

. Queria então vossê adjudicar o trabalho de toda a vida ao pagamento do dinheiro com que pretende restabelecer o bem-estar da familia da sua futura senhora?... Vamos meditar. Este Fernando de Athaide, como já lhe disse, o que quer é provar

urbi et orbi

que é fidalgo de raça por seu pae. A herança não lhe importa. Poderemos conseguir que elle convença o universo da sua fidalguia, sem se apossar dos vinculos de D. Mafalda? Aqui é que bate o ponto. E poderemos conseguil-o sem que o meu amigo hypotheque o seu trabalho á solvencia da divida? Invoquemos as musas das entalações, e vejamos o que ellas nos decretam em coisa tão prosaica, já que os praxistas nos tapam todas as sahidas. Poderemos pensar no modo de approximar Fernando de Athaide de uma das primas, casando-os? Este expediente bem se vê que é inspiração de musas, porque é de todo em todo poetico. Que diz a isto, meu rapaz?

—Creio que por parte de Gastão de Noronha seria um negocio concluido, ainda mesmo que Fernando de Athaide fosse do mais baixo plebeismo—disse Azevedo.

—Feliz genio de homem para os nossos fins! Mas vossê sabe que a renuncia d'um direito transmissivel, como é o dos vinculos, é nulla; e que os descendentes do renunciante estão sempre ao abrigo da lei. É preciso que Fernando de Athaide case com a menina successora dos vinculos, na hypothese de serem elles legitimamente de sua mãe...

—Essa é Corinna!—interrompeu Azevedo—Corinna é a que eu amo!

—Ah! sim? então muda de figura o negocio.... Deixe-me pensar... E se nós conseguissemos que Fernando casasse com uma das outras senhoras? Leval-o-iamos a deixar aos sogros a administração dos vinculos, melhorados e desembaraçados de dividas com liberalisado capital pelo ricasso, e sobre tudo pelo fidalgo, orgulhoso de reedificar os pardieiros de seus avoengos. Que lhe parece?

—Gastão de Noronha não acceitaria a humilde posição de mordomo de seu genro—disse Azevedo—Por parte d'este a reconciliação seria impossivel. Só vejo um meio.

—Diga lá.

—Fernando obteria uma filha de Gastão, se, antes de pedir-lh'a, rasgasse as provas com que se diz successor dos vinculos.

—Não se rasgam assim facilmente as provas. A perfilhação está archivada, e as cartas e testamento que o legitimam filho de Fernão de Athaide estão em notas de tabelliães de Portugal e do Brazil.

—A desistencia, portanto, é invalida?—tornou Azevedo.

—É, a menos que o senhor me não assevere que a descendencia directa de Fernão de Athaide acaba em seu filho.

Proseguiram largo tempo dialogando juridicamente, e ultimaram indecisos no que deviam fazer.

Antonio d'Azevedo desvelou aquella noite em hypotheses que se combatiam e destruiam. Amanheceu-lhe o dia seguinte para incessante inquietação e dolorosa perplexidade. Voltou ás onze horas ao escriptorio de Valentim da Costa, e encontrou-o encerrado com Fernando de Athaide.

—Já se demorava—disse-lhe o doutor—Sente-se aqui.

O velho, voltado a Fernando, proseguiu:

—Dá-se o caso, amigo e senhor Athaide, que este Antonio d'Azevedo veio ao Brazil ganhar alguns punhados de oiro para poder voltar a Portugal e casar com uma das cinco primas de vossa senhoria, filhas de Gastão de Noronha.

—Pois conhece minhas primas?!—atalhou Fernando.

—Especialmente a mais velha, a senhora D. Corinna—disse Azevedo.

—Alguem me disse que é muito galante essa—tornou o millionario.

—São todas galantes: são cinco anjos, que fariam o orgulho d'um pae menos infeliz que o senhor Gastão, e teriam sido felizes se nascessem em menos elevada condição.

—Alguem as viu em Paris—tornou Fernando—e achou-as educadas muito á franceza.

—Por força devia achal-as assim educadas: as mais novas lá nasceram.

—Mas desenvoltas... é o que eu quero dizer.

—Não senhor: enganaram-o: vi-as em alguns bailes do Porto com quanta gravidade e compostura se póde desejar na mulher que se ama para nos felicitar e honrar a vida.

—Agora fallo eu—atalhou o velho—O senhor Azevedo affligiu-se quando vossa senhoria nos contou a situação em que ficou seu tio; é natural; porque a senhora que elle ama, até ao sacrificio de vir grangear-lhe aqui o pão futuro, está lá n'essa casa, d'onde vossa senhoria vai expulsar toda a familia.

—Minhas primas devem odiar-me de morte!—interrompeu Fernando em tom de desagradavel ironia.

—Fazem ellas muito bem—disse o velho, sorrindo.

—Que lhe diz de mim a prima Corinna?—tornou Athaide com prasenteiro semblante.

—A carta que ella me escreveu n'este ultimo navio contém uma pagina com referencia a vossa senhoria. Queira lêl-a, que ella de certo me perdoa a confidencia.

Fernando de Athaide leu a penultima lauda da carta, dobrou-a vagarosamente, e restituiu-a sem fitar os olhos no bacharel.

—Aqui não ha odio de morte n'estas palavras, senhor Fernando de Athaide—disse Azevedo.

—Então isso é segredo cá para o velho, heim?—disse o doutor.

—Ha meia hora que recebi a carta—respondeu o moço, entregando-lh'a.

—Sempre quero ver o juizo que ella faz do priminho. Mostre lá o sitio onde vem a catillinaria.

—Antonio indicou-lhe a pagina, e o velho leu alto:

«Ouvi dizer ao nosso amigo Felisberto que o primo de minha mãe é muito rico, e não precisa d'estes poucos bens. Que triste gloria reduzir á ultima pobreza uma familia tão numerosa! Ha corações muito duros, meu querido Antonio! Ás vezes penso com tristeza e ao mesmo tempo consolação, no differente modo de pensar que Deus dá ás suas creaturas tão semelhantes no exterior. Não se lembrar esse homem das afflicções que nos dá sem proveito nenhum para si mesmo! Não saberá elle que a subsistencia de sete pessoas, creadas na opulencia, era só isto que nos tira!? Se um dia lhe disserem que meu pae morre de desgosto e miseria, a voz do sangue não lhe gritará como um remorso ao coração? Ai! como os felizes gosam, ó meu pobre Antonio!

»

—Estas palavras, senhor Fernando—continuou o veneravel doutor—podem mais que tudo quanto eu lhe dissesse, se as lagrimas que eu vejo nos seus olhos não são uma illusão dos meus. Olhe fito cá para mim, Athaide! Não se envergonhe de ser bom: tenha só pezar de o não ter sido. Vamos! deixe lá fallar esse coração! Sente-se disposto a salvar esta familia?

—Responderei—disse Fernando de Athaide, erguendo-se de golpe.

—Uma resposta, n'este caso, não é operação diplomatica que demande vigilias e subtilezas de engenho. Sente-se!—disse com gracioso imperio o velho.

—Mas que quer de mim o doutor?

—Quero que se meça em bizarria d'alma com este cavalheiro que aqui está. Antonio d'Azevedo quiz contrahir um emprestimo de trinta contos, ou mais, caucionados com a sua honra e trabalho. Estes trinta excedem em doze, segundo vossa senhoria me tem dito, o valor dos vinculos. O restante será o que Fernando de Athaide tem gasto no costeio da demanda. Antonio d'Azevedo queria offerecer a vossa senhoria esta quantia como gratificação pela desistencia da demanda.

Sorriu Fernando, e atalhou:

—O doutor não disse a este senhor que eu dou trinta contos pelo menor dos meus caprichos, e que ainda fico bastantemente rico para dar de esmola o valor dos vinculos ao soberbo Gastão de Noronha?

—Esmola que elle não acceitará—disse com altivez o amado de Corinna.

—Nem eu estou pedindo esmola para o marido de sua tia—accrescentou o doutor.

—Então que pede?!—tornou Fernando com philaucioso sobrecenho.

—Peço ao fidalgo que tenha uma alma fidalga; que, se a não tiver, que importam os seus brazões em confronto da caridade com que o escravo nu levanta da rua o seu irmão prostrado de fome?! Quer saber o que lhe fica bem? O cavalheiro manda suspender a execução, sem desistencia dos seus direitos, que as leis e todos lhe reconhecem. O seu vencimento foi completo: agora é preciso coroal-o com a generosidade, se quer o triumpho. Está vencida a questão: está reconhecido Fernando de Athaide o successor dos vinculos de seu pae. São seus os vinculos, e é sua a honra de os deixar administrar por sua prima. Isto é que é nobreza! De resto, as armas dos portões das suas quintas são pedaços de pedra lavrada, onde as aranhas fazem seus ninhos como entre a palhiça que colma a cabana do jornaleiro! Que diz?

—Responderei!—repetiu Fernando—tenho de dar satisfação á minha dignidade. Entre coração e pundonor vai larga distancia: preciso de explicar o despreso com que foram recebidas as minhas cartas por Gastão de Noronha. É preciso que o mundo não pense que os meus direitos se atemorisaram diante do arcabuz do valentão.

—É preciso, primeiro que tudo, respeitar o infortunio!—disse brandamente Antonio d'Azevedo.

—Digno de respeito—accrescentou o neto dos Athaides sahindo de má sombra.

XIII.

Lembra-se o leitor de eu lhe ter dito, no primeiro capitulo, que, por uma tarde de Agosto, estava Corinna da Soledade, nas margens do Lima, reclinada n'um dos bancos circumpostos á fonte do tôpo da sombria avenida?

Agora é que o romance prende com aquella tarde! Vejam que desconcerto este! Chega uma novella ao meio, e torna a começar. Parece que é isto um abuso da indulgencia com que o leitor costuma indultar-me os desarranjos do meu engenho. Ora queira perdoar mais este, attendendo a que as coisas, na vida como ella é, tambem assim vão desordenadas, e começam não só pelo meio, mas até pelo fim.

A carta, que Corinna lia e regava de lagrimas, era de Antonio d'Azevedo. A pagina que mais a enternecia a prantos dizia assim:

«

Eu não sei que deva esperar de Fernando de Athaide. Pareceu-me bom quando lhe vi lagrimas, e mau quando se despediu. Será tudo, ou não será nada do que me pareceu: os individuos vulgares são os menos intelligiveis. O melhor, Corinna, é nada esperar que bom seja.

«Entretanto, eu posso mandar á tua familia o bom coração que tu fizeste, e não póde ser teu sem ser dos teus. Prézo teu pae e tua mãe, quero ás tuas irmans como ás minhas. Tenho-vos a todos no mais sagrado dos meus affectos e ardentes desejos de ser util.

«Os meus haveres, por em quanto, não merecem tal nome; porém a minha palavra vale muito com os amigos que me deram os Taveiras. É-me facil possuir alguns contos de reis, e mandal-os a teu pae para ter uma casa e segura subsistencia de sua familia, até que a minha posição seja mais solida. Mas como hei de eu, e com que pretexto, remetter-lhe este dinheiro? Como ha de elle acceital-o? Pensei n'isto muitos dias; e, a final de desanimados arbitrios, tomei um expediente que tu, minha Corinna, applaudirás, porque, sobre tudo, és a minha irman. Remetti seis contos de reis ao nosso Felisberto Taveira, pedindo-lhe que fosse elle offerecel-os a teu pae como coisa sua. Contrariou-me logo a conjectura de que teu pae os não acceitaria, por não poder dar abona «Os meus haveres, por em quanto, não merecem tal nome; porém a minha palavra vale muito com os amigos que me deram os Taveiras. É-me facil possuir alguns contos de reis, e mandal-os a teu pae para ter uma casa e segura subsistencia de sua familia, até que a minha posição seja mais solida. Mas como hei de eu, e com que pretexto, remetter-lhe este dinheiro? Como ha de elle acceital-o? Pensei n'isto muitos dias; e, a final de desanimados arbitrios, tomei um expediente que tu, minha Corinna, applaudirás, porque, sobre tudo, és a minha irman. Remetti seis contos de reis ao nosso Felisberto Taveira, pedindo-lhe que fosse elle offerecel-os a teu pae como coisa sua. Contrariou-me logo a conjectura de que teu pae os não acceitaria, por não poder dar abonação; mas tão cansado estava eu já de ser contrariado, que fechei os olhos, e deixei ao meu bom amigo o desapressar-se das difficuldades. Aqui tens o que fiz: Deus fará o resto.

«Pedi ao Taveira que aconselhasse a sahida de teu pae para o Porto ou Lisboa. A especial situação em que elle se collocou é muito violenta. Digam-lhe todos que abandone as terras que já não são suas. Em toda a parte ha sol e arvores e paz. Todas as flores te hão de festejar, minha filha, e o meu coração te será companhia onde quer que vás.

»

Era bem para lagrimas este singelo dizer e extremo amar do pobre ausente!

Expiravam nas cristas das serras fronteiras os ultimos raios de sol, que Corinna contemplava, coroando de escarlate os pinhaes, quando um barquinho abicou á margem relvada, mesmo no ancoradoiro pertencente á quinta de Gastão de Noronha.

Corinna viu saltar e subir por entre as aleas das ramosas arvores um homem, seguido d'um criado com uma mala. Como a fuga, sem ser vista, seria extemporanea, a menina, escondendo a carta, esperou que o adventicio chegasse.

A certa distancia descobriu-se o sujeito, e perguntou se estava em casa o senhor Gastão de Noronha.

—Meu pae está para Vianna—disse Corinna—mas deve chegar ao escurecer: não tardará.

—Poderei esperar que elle chegue para lhe apresentar uma carta do senhor visconde da Cruz?

—Sim, senhor: queira subir, que eu dou parte a minha mãe, posto que ella está recolhida no seu quarto por doença.

Chamou Corinna um criado que encaminhou o hospede á sala.

Pouco depois entrou a menina na sala, desculpando sua mãe em não poder ir receber um amigo do senhor visconde, e pedindo ao cavalheiro o favor de esperar seu marido, que voltaria breve.

Corinna retirou-se, ouvidos os termos cortezãos com que o hospede agradecia a delicadeza da senhora D. Mafalda.

Não se demorou Gastão. Foi logo á sala, e recebeu a seguinte carta:

«Illustrissimo e excellentissimo senhor, e meu respeitavel amigo de minha maior consideração e respeito. Amigos de meu pae, e muito da nossa estima, nos recommendam o cavalheiro portador d'esta carta, brazileiro nato, que anda visitando a Europa, e quer ver o nosso Minho, e mais ainda o Minho de vossa excellencia, symbolisado na sua formosa quinta. Confiados na amizade de vossa excellencia, ousamos pedir-lhe o favor de recebel-o, e indicar-lhe as principaes bellezas que enfeitam as margens do Minho e Lima. Digne-se vossa excellencia acolhel-o com a sua costumada delicadeza, e dar-nos a honra de lhe devermos esta nova consideração. De vossa excellencia etc.==

Visconde da Cruz.

«

P. S.

Passados dias terei o prazer de visitar vossa excellencia e sua amavel familia, para quem peço respeitos e saudades.»

—Offereço-lhe esta casa como a offereceria ao senhor visconde—disse o fidalgo com palaciana graça—Queira sentar-se. Temos alguns locaes bonitos na nossa provincia; mas se vossa senhoria viu a Suissa, a Italia e alguns departamentos de França, de certo achará encarecida a pintura que lhe fizeram do Minho. Eu viajei muito com a minha familia antes de estabelecer casa em Paris, no tempo das nossas guerras intestinas! Sinceramente lhe digo que lá fóra vi a natureza mais adornada, e por isso mesmo mais bella: tudo assim é. O artista quer achar a nudez para enfeital-a com a poesia do pincel ou do buril; mas o mero curioso sente melhor o bello onde elle realmente é.

Proseguiram em conversação sobre viagens, até horas do chá. Já o hospede, a esse tempo, sabia que o seu quarto de dormir era contiguo á sala, e que o seu criado dormia na alcova inferior correspondente ao pavimento do quarto.

Antes de servir-se o chá, mandou Gastão chamar as cinco meninas, e apresentou-as a Carlos Zuzarte, que assim disse chamar-se o hospede. Felismina tocou piano para acompanhar Emma; seguiu-se Elisa a cantar, acompanhada por Leonor: Corinna estava no quarto de sua mãe. Carlos sentia-se como encantado entre aquellas meninas, que fallavam um portuguez feiticeiro em suas incorrecções, como fallariam anjos, se descessem a tractar com portuguezes, circumstancia de idioma que os poetas nunca observaram, que me lembre. Em quanto a ellas, o dizer do hospede, puro brazileiro, era coisa de muita graça, com o que ellas francamente riam, e de modo o faziam, que o viajante folgava de lhes dar motivo a rirem. É onde póde chegar a condescendencia com meninas galantes!

A noite correu ligeira para todos. Ao dia seguinte madrugou Zuzarte, e desceu ao jardim. Argentava o sol a serra d'Arga, e lá em cima os montados d'aquella mystica selva dos franciscanos, onde ainda rumorejam os psalmos das singelas almas que d'alli, tão visinhas do ceo, se alaram para Deus. Com que pena, leitor, eu acho o meu frei Luiz de Sousa estranhamente trivial e despoetico na descripção d'aquelle ermo e dos seus moradores! Elle, o dulcissimo panegyrista das solidões de Bemfica, passou por entre os cenobitas de mais ignorada vida, nas chronicas monasticas, e apenas disse: «É convento de religiosos entregues mais á vida contemplativa, que aos cuidados e trabalhos da activa.» E mais nada d'aquellas brenhas, e grutas e lageas sem nome que...

Se eu me deixava ir agora á vontade da penna, lá me ficava o romance enredado nos silveiraes da mata de S. Francisco de Vianna, por onde já passei um dia, lá muito no alto, d'onde eu avistava a casa acastellada de Gastão de Noronha, em quanto outro anachoreta me ia contando o romance d'aquella familia.

O hospede estacou surprezo á entrada d'um pavilhão de olaias. Estava lá dentro uma como estatua dealabastro, que poderia chamar-se o anjo da meditação. A estatua, porém, se o era, dos jardins do ceo devia de ser, porque tinha luz nos olhos e celestial graça no sorriso, quando Zuzarte a viu. Era Corinna da Soledade.

Cortejou-a o sujeito com certa turvação, e retirou-se. A menina correspondeu ao cumprimento, e sahiu do jardim logo que o hospede se distanceou da gruta.

Por alli se deteve contemplativo o brazileiro até horas de almoço. Lá veio procural-o Gastão de Noronha, e se andaram ambos conversando ainda sobre coisas que tendiam todas, por parte do fidalgo, a averiguar se o hospede era rico.

—Tenho trinta e oito annos—disse o brazileiro—e principío agora ainda a pensar nas delicias que tem o mundo. Até agora cuidei em fazer-me rico, pensando que bastava sel-o para ser feliz. Como me enganei, cuido d'hoje ávante em dar nova applicação á fortuna.

—Na sua idade—atalhou Gastão—quando se é rico, acham-se abertas as portas do mundo para todos os gosos.

—Não é tanto assim—replicou o hospede—A riqueza é muitas vezes um estorvo á felicidade do coração; e o coração, aos trinta e oito annos, é quasi sempre enganado pela juventude que o reflexo do oiro lhe dá. Quando me proponho um programma de vida nova, o meu primeiro pensamento é casar. A felicidade do celibatario, se elle não fôr monge ou santo, ou temperamento excepcional, é uma concatenação de deleites viciosos com muito desconto de amarguras. Para além d'este difficil passo do casamento rasgam-se-me novos horisontes, encantam-me as alegrias da vida domestica, vejo os bens que Deus concede na velhice aos que dignamente consumiram suas forças nos annos em que as forças carecem de ser subordinadas ao dever...

—Pensa muito acertadamente, senhor Zuzarte—interrompeu o fidalgo.

—O quadro delicioso que vim achar em sua casa, senhor Gastão de Noronha, redobrou-me o encanto, porque é elle a mais sublime realidade das minhas imaginações. Que ditosa velhice a do pae que vê em volta de si cinco filhas, cinco amores de filha a florescerem-lhe a alma com as suas primaveras! Assim não se deve sentir o pezo dos annos, nem o temor da morte. O caminho final, a ultima jornada deve ser suave entre os anjos. Não é muito feliz, senhor Gastão de Noronha?

—Sou infeliz—disse, em boa consciencia, o fidalgo.

—Infeliz?! Com familia tão querida e extremosa, n'este paraizo, é infeliz!? Então lá se vão as minhas chimeras!...

—Fui ditoso até ao momento em que uma inesperada desventura me bateu á porta para me dizer que esta casa não era minha, e que as minhas filhas teriam um futuro de dependencia, obscuridade, e... Deus sabe que futuro!...

—Pois não é de vossa excellencia esta casa?—perguntou o hospede com um ar de espanto, que denotava artificio por demasia de naturalidade.

—A herança de minha mulher foi-me disputada por um parente; são vinculos que as leis concederam a um filho natural do antecessor de minha mulher. Passados alguns mezes terei de sahir com minha familia. Um descendente dos marquezes de Villa Real não terá choupana onde se abrigue com suas filhas e mulher. Aqui tem o senhor Zuzarte a razão da minha amargura. As filhas, que eram minhas delicias, estão sendo um constante incentivo de soffrimento. Eduquei-as em França, dei-lhes uma infancia de rainhas, premeditava casal-as nas primeiras familias d'esta provincia: muito fidalgas, muito prendadas e muito pobres, quem as quer, a não serem maridos de quem eu de certo as não fiava assim mesmo pobres?...

Carlos ouvia Gastão com semblante mais assombrado que compungido: dir-se-ia que aquelle homem, conscio da indole soberba do fidalgo, pasmava de ouvil-o abrir-se em palavras tão brandas, francas e humildes. De si para si dizia Gastão, vendo o aspecto indefinivel do seu hospede, que, depois da revelação da pobreza, o rico o estava olhando com menos prestigio, e talvez reflectindo no modo de esquivar-se a alguma petição de dinheiro. Esta hypothese, beliscando o orgulho do fidalgo, fel-o proromper n'estas palavras destoantes das ultimas que proferira:

—Ainda assim, as pessoas que se hospedam em casa de Gastão de Noronha, por em quanto, são recebidas como em todo o tempo. A revelação que lhe fiz, senhor Zuzarte, não é lastimas de quem acaba pedindo um favor. Tenha vossa senhoria muita confiança na minha independencia, que eu hei de morrer Gastão de Noronha. Ha mezes que o nosso amigo visconde da Cruz depositou um capital de dois contos de reis para evitar um embargo nos fructos pendentes d'estes bens: quando eu tal sube, vendi as joias de minhas filhas para embolsar o senhor visconde do seu deposito.

—Vossa excellencia está-me fazendo revelações que me confundem—atalhou o hospede—e ao mesmo tempo fere-me com suspeitas que eu não mereço! Por ventura crê-me capaz de o julgar abatido e desmerecido em seu infortunio? Que disse eu para vossa excellencia passar de uma tão nobre confissão dos seus desgostos a prevenir-me de que os hospedes em sua casa são recebidos como nos tempos prosperos?!

—Desculpe-me—acudiu Gastão—é que eu não nasci para estas queixas, e cuido sempre que a pobreza me abate aos olhos dos estranhos, desde que me vi desconsiderado dos parentes.

Entraram na casa do almoço, e encontraram D. Mafalda, que os esperava com as cinco meninas. Carlos foi apresentado á fidalga, e deteve-se conversando especialmente com ella durante o almoço. A polidez assim o mandava ao hospede: mas o familiar affecto com que elle a tratava era por demais. Notaram as meninas que elle não desfitava os olhos de sua mãe senão quando encontrava os d'ella, já tambem admirada da fixidez attenta do brazileiro.

Da casa do almoço passaram á sala do piano. Felismina foi cantar modinhas brazileiras com o requebro e mimo das ardentes e languidas filhas do Brazil. Felismina era uma formosa morena, com olhos negros, cabellos curtos e annelados como spiraes de ebano, esbelta de corpo, alta mais que todas, muito agil e inquieta, relanceando sempre a vista a todos e a tudo, a mais diserta e chistosa de todas, e a menos dada ás flores, á poesia, e ás bellezas campezinas que suas irmans encareciam umas mais que outras, e Emma, a pachorrenta Emma, esta mais que nenhuma.

Felismina estava gracejando com Zuzarte a respeito das damas brazileiras, cujas graças o hospede, sem favor, elogiava, quando um criado entrou á sala onde estavam todos, e entregou uma carta ida de Lisboa para Gastão de Noronha. Era a carta do procurador.

—Teremos golpe?—disse o fidalgo a D. Mafalda.

—Não sei qual possa ser!—respondeu a senhora—As dores mais de temer estão todas passadas.

Leu Gastão a carta, e disse com alvoroço:

—O Fernando manda suspender a execução, e retirar o processo de julgamento com desistencia! Que significa isto?

—O quê, papá?—exclamou Felismina, que mal ouvira, de entretida que estava com o brazileiro.

—É o primo Fernando que desiste da demanda—disse Mafalda.

—Foi elle!—exclamou Corinna.

Voltaram-se todos para a menina que soltara o brado, e viram-a muito escarlate.

—Elle! quem?—perguntou o pae.

Corinna balbuciou confusas palavras, e não soube como explicar aquelle disparate, que parecia o despertar subito d'um arrobamento semelhante a somnambulismo!

Se não existissem os pronomes

este

e

elle

, Corinna teria exclamado:

—Foi Antonio d'Azevedo!

E, se ella tal dissesse, ninguem a entenderia, excepto o leitor.

XIV.

Pediu Zuzarte licença para compartir do contentamento da familia. Em breves e alegres termos, D. Mafalda disse que seu primo Fernando de Athaide desistia da acção que tinha vencida, quando menos se esperava. Sem rebuço de vão orgulho, a fidalga enumerou quantas desventuras estavam eminentes á sua familia, e a ella, pobre mãe e esposa, que, ao mesmo tempo, se havia de separar de marido e filhas para ir quinhoar o pão da caridade de parentes, que, muitas vezes, lh'o atirariam á cara com a cruel censura aos desperdicios da emigração.

O brazileiro mostrava-se jubiloso do successo; e, cada vez que as meninas bem-diziam seu primo Fernando, era muito de notar-se que o hospede guardava um silencio indelicado.

Instado por Felismina a dar explicação do seu silencio, e mais ainda d'um certo tregeito de fria admiração, disse o brazileiro, como surprendido em mysterioso sentimento, qualquer que fosse:

—Eu não sei de que hei de louvar esse senhor Fernando de Athaide, posto que o respeito muito por ser tão proximo parente de vossas excellencias.

—Não sabe?!—disse Mafalda com vehemencia.

—Não, minha senhora.

—Pois a desistencia d'uma fortuna, que era já sua...—tornou a fidalga.

—Minha senhora—replicou Zuzarte—eu conheço o primo de vossa excellencia.

—Conhece!—exclamaram todos.

—Fernando de Athaide desistindo de algumas dezenas de contos, obedeceu talvez a um sentimento de vaidade, o mais barato de quantos lhe tenho conhecido. Seu primo, minhas senhoras, é hoje um millionario. A balança do seu oiro não ergueu duas linhas com o desfalque do valor d'estes vinculos. Não ha virtude que deva espantar-nos na desistencia d'um objecto inutil.

—Não quero pensar assim, nem consinto que minhas filhas assim pensem—tornou Mafalda.

—Pois bem—retorquiu o brazileiro—convenho que em vossas excellencias a superabundancia de sensibilidade reverta em gratidão; aposto, porém, que o senhor Gastão de Noronha não pensa assim.

—Penso como minha mulher—disse o fidalgo—Penso que lhe devemos muito ao generoso Fernando, porque eu fui mau para com elle. Quando estavamos em Paris, recebi duas cartas suas, muito attenciosas, ás quaes não respondi. Chamava-me primo, e eu tive a estupida arrogancia de rejeitar o parentesco de um homem que, por delicados termos, me convidava a entrar com elle em negociações ácerca dos vinculos, que eu illegalmente administrava. Depois d'isso, tenho rejeitado todas as conciliações propostas, e, no arrasoado de minha defeza, fiz que os lettrados empregassem termos injuriosos contra a sua pretendida filiação de nosso tio Fernão de Athaide. Era de crer que fosse implacavel o odio do vencedor, depois que eu, á força d'armas, lhe resisti ainda em ultimo lance. Ora, senhor Zuzarte, seja embora millionario Fernando, força nos é confessar que ha sangue muito fidalgo n'aquellas veias! Se eu pudesse apertal-o ao coração n'este momento, exultaria do nobre orgulho com tal parente!

Carlos Zuzarte fez um signal de assentimento ás calorosas razões de Gastão, e derivou a prática a outro assumpto. Felismina, porém, teimou em fallar de seu primo Fernando, pedindo ao brazileiro que lhe contasse o que sabia d'elle.

—Que interesse, minha senhora!—disse Zuzarte com ar de maravilhado—O primo de vossa excellencia é um homem de bigode grisalho, olhos pretos, alto, debil, muito trigueiro, alegre ás vezes, outras muito triste, com muitos amigos e muitos inimigos...

—É solteiro?—atalhou Felismina.

—É solteiro, e já agora assim morrerá, porque, se me não engano, deve ter trinta e oito annos.

—Justamente—disse Mafalda—Meu tio Fernão morreu ha vinte e dois, e lembra-me elle dizer-me que Fernando teria dezoito. Queria meu tio que eu casasse com o primo; mas como falleceu quasi repentinamente, não chegou a mandal-o chamar.

—Se vossa excellencia tem casado com elle—disse Zuzarte—esta scena, em que todos figuramos, estava na massa dos impossiveis! Ora vejam vossas excellencias que em bem pouco está o não virem á luz da vida magnificos espectaculos! Que quer vossa excellencia saber mais de seu primo, senhora D. Felismina?

—Diga tudo o que souber—respondeu a menina.

—Eu não sei mais nada, minha senhora. A ultima vez que o vi no Rio de Janeiro foi no escriptorio de um velho jurisconsulto, onde tinha banca de advogado um moço portuguez chamado Antonio d'Azevedo Barbosa.

Corinna da Soledade estremeceu expansivamente, como se ninguem a visse, e como por influição magnetica, a cadeira per si mesma se arrastou algumas pollegadas para mais perto do brazileiro. A leitora de certo não acredita n'este magnetismo da cadeira.

Gastão de Noronha relanceou os olhos a Corinna, e as irmans tambem.

—Eu não sei que influencia teve este nome no meu auditorio!—disse o brazileiro, sorrindo.

—Em que consiste a fortuna de Fernando?—interrompeu Gastão com mal disfarçada zanga.

—Em terras, dinheiro, escravos, navios e predios—respondeu Zuzarte—Esta grande labutação demanda um bom zelador, que o primo de vossas excellencias, por natural preguiça, não póde ser. Ouvi-lhe então dizer, que tendo de sahir para demorada viagem na Europa, deixava seu advogado no Brazil o honrado Antonio d'Azevedo, com um ordenado bastante ás suas despezas. Bem escolhido patrono! Em poucos mezes, o doutor conquistou, no Brazil, um nome que vale muito grande fortuna, conservando-se lá seis annos. Alguem me disse que Antonio d'Azevedo amara em Portugal uma menina nobre, e fôra ao Brazil enriquecer-se para voltar a casar-se com ella. Se isto é verdade, devem dar-se os parabens á noiva, que o laborioso moço tinha lá uma boa fada á sua espera.

Gastão de Noronha ergueu-se, e disse com impetuosa acrimonia:

—O senhor sabe que está em casa do pae d'essa senhora, que Antonio d'Azevedo cuida comprar com o dinheiro ganhado no Brazil?

—Como?!—exclamou Carlos com a mais magistral naturalidade—Vossa excellencia assombra-me! Dar-se-ha caso que seja alguma d'estas senhoras a menina que... Com effeito! Parece que estamos compondo um romance!

—Romances d'uma minha filha...—tornou o fidalgo—Não fallemos mais d'isso... que a ferida ainda sangra...

—Eu peço perdão se avivei dores e saudades, sem a menor intenção, nem suspeita de....—disse Carlos.

—Pois está claro que vossa senhoria ignorava tudo...—replicou o fidalgo.

E voltando-se a Corinna, soltou um frouxo de mau riso, riso de repreza cólera, porque lhe vira as lagrimas correrem nas faces a fio.

Carlos não pôde conter esta exclamação:

—Que grande e digno amor!

Gastão fitou-o com certo espanto e azedume, e disse, em occasião opportuna, ao ouvido de sua mulher:

—Não sei o que hei de pensar d'este homem! O acaso não faz d'estas coincidencias senão nas novellas...

O incidente passara. O brazileiro encostara-se ao peitoril d'uma janella com Felismina, e ahi conversaram largo tempo ácerca dos amores de Corinna e Antonio d'Azevedo. Parece que o apologista do bacharel se saboreava muito em discorrer de amores alheios, e não perdia azo de invocar o coração da menina a decidir em theses amorosas, que elle muito de industria estabelecia. A direcção que levou o dialogo, não a sei eu cabalmente dizer; é certo, porém, que Felismina, conversando n'aquelle dia com sua mãe muito á puridade, lhe disse que o brazileiro lhe perguntara se ella poderia amal-o. N'essa mesma noite Mafalda revelou ao marido a pergunta. O marido pensou na resposta, e disse que tinha razões para suppor que Carlos Zuzarte era homem muito rico. A senhora entendeu as clausulas de tal resposta, e disse a Felismina que o pae ouvira a noticia com agrado.

—E tu, filha—accrescentou D. Mafalda—gostas do Carlos?

—Não desgosto, maman.

—E querias casar com elle?

—Se o papá quizesse... Mas olhe que elle não me disse que queria casar comigo, maman!

—Bem sei, filha, bem sei; mas assim é que se principiam os casamentos. Como o visconde da Cruz cá vem, elle nos dirá quem é o brazileiro, e depois, se o partido fôr de vantagem e tu quizeres, o que ha de fazer-se ao tarde, faça-se ao cedo.

Em quanto esta scena, nem edificante, nem rara, se passava no quarto de Mafalda, Corinna fôra sentar-se na varanda mais solitaria do palacete, e o proposito levara alli Carlos Zuzarte, acompanhado de Emma e Leonor, que lhe andavam mostrando a porção antiga do edificio. O brazileiro approximou-se de Corinna em quanto as duas meninas desceram ao jardim a colher agua em pequenas bilhas, e disse-lhe:

—Minha senhora! alegre-se que ha de ser feliz! Antonio d'Azevedo ha de ser seu marido, porque Deus é justo com os corações corajosos sem deshonra. Espere, e vencerá. Faça de conta que esta revelação lhe vem do ceo!

—Bem haja!—disse Corinna apertando-lhe a mão.

No dia seguinte chegou o visconde da Cruz, o bem-vindo para todos, e particularmente para Corinna. Carlos Zuzarte, ao apertar-lhe a mão, murmurou estas palavras:

—Seja discreto, quanto lhe pedi!

—Pois duvída?!—respondeu o visconde.

Gastão, logo que pôde, apartou-se com o visconde, e teve com elle o seguinte dialogo:

—Será censuravel pedir eu a vossa excellencia algumas informações ácerca d'este meu hospede?

—Não é, senhor Gastão—disse o visconde—Direi o que souber.

—Este sujeito parece-me excellente creatura.

—Não sei: recommendaram-m'o como pessoa muito rica. Em materia de costumes nada me disseram.

—Mas muito rico, sim?

—Já tive a honra de dizer a vossa excellencia que é muito. Viaja em navio proprio, e podia viajar com estado de quatro navios...

—Oh! é muito!—interrompeu Gastão abrindo os olhos ao tamanho da boca.

—Estou quasi a adivinhar que vossa excellencia observou que elle amava alguma de suas filhas!...

—Quem lh'o disse?—acudiu alegremente o fidalgo.

—Ninguem m'o disse, meu nobre amigo, nem eu me orgulho de adivinhal-o: quem quer o faria. Qual é a menina predilecta? Naturalmente a senhora D. Corinna.

—Ora... Corinna! não sei que distincção é a de minha filha Corinna! Não são tão formosas como ella as outras?

—São formosissimas todas—respondeu o visconde—mas aquella tem mais que as outras um cunho de melancolia...

—De tolice, meu amigo, o cunho é de tolice... Não é ella; ainda bem que não é... Corinna tem de dar má sahida com os taes amores... Deus perdoe a quem contribuiu para aquella demencia...

—Fui eu?...

—Bem sabe que foi, senhor visconde...

—Pois Deus ha de não só perdoar-me, mas glorificar-me com a satisfação de ter approximado dois anjos...

—Não sei para quê...

—Para se amarem e darem um exemplo de sacrificio raro, sublime e invejavel... Não vim a enfadal-o, senhor Gastão... Começa vossa excellencia a enrugar a testa, e tão bom hospedeiro merece melhor recompensa. Como estão os seus negocios?

—Acabou a questão com meu primo.

—Sim?! e como acabou?

—Desistiu.

—Bello! mil parabens! Não tem, pois, vossa excellencia nada que o penalise?

—Estou contentissimo. A minha casa volta a ser, se não invejavel pela ostentação, ao menos pacifica e bastante ás minhas despezas em agradavel mediania.

—Precisa vossa excellencia de dinheiro para remir-se de algumas dividas?

—Mil graças; ainda tenho algum do producto das joias.

—Mas quer vossa excellencia resgatar as joias de suas filhas? Abro-lhe com franqueza o coração e a bolsa.

—Dispenso o seu obsequio. Minhas filhas enfeitam-se com flores: cá n'estas montanhas o melhor joalheiro é a natureza. Cada primavera é um milhar de cofres de pedrarias preciosas abertos por esses montes e veigas.

—Santa e bella poesia!—disse o visconde—Queria vel-o coherente comsigo mesmo, meu amigo! Se a natureza lhe dá tantas riquezas em flores, porque não ha de querer acceitar das mãos d'ella um genro dotado com quantas virtudes podem adornar o rei da creação?

—Um genro! de quem me falla?—acudiu enleado o fidalgo.

—Fallo-lhe d'um Antonio de Azevedo Barbosa, que sabedor dos infortunios de vossa excellencia...

O visconde reteve a exuberancia do coração, talvez indignado, e doeu-se de levar tão longe seu zelo.

Gastão ia pedir-lhe explicações, quando o visconde, turbado de sua irreflexão, recorreu, ao avisinharem-se duas meninas, a ir ter com ellas, pedindo-lhes flores dos seus canteiros.

Emma e Leonor desceram ao jardim, e o visconde seguiu-as. Carlos Zuzarte passeava n'uma rua abobadada de arvoredo, com Felismina; no tôpo d'esta rua estava Corinna da Soledade corrigindo umas trepadeiras que descahiam da direcção que a sua cultora lhes dera.

O visconde estugou o passo; quando a viu, approximou-se, e disse-lhe:

—A sua felicidade está a chegar. Exulte, minha amiga. São mais alguns mezes: doire-os com a esperança, que é um bem quasi egual á mais querida realidade, quando se tem a certeza.

—A certeza!—exclamou ella.

—Sim, a certeza.

—Ó senhor visconde, meu bom amigo, diz-me uma coisa? Como sabe este brazileiro que eu vou ser feliz?...

—Sabe-o: tem a quasi certeza, e eu tenho a certeza completa. Deus não ha de querer desmentir-nos.

Appareceu Gastão ao fundo da rua, e logo o visconde dirigiu em voz alta perguntas ás meninas que cortavam perto as flores.

Gastão, ao vêl-o perto de Corinna, disse a Mafalda:

—Estes populares são uns pelos outros! Parece que andam conjurados a darem cabo dos titulos e das raças distinctas!

—Porque dizes isso, Gastão?—perguntou Mafalda.

—Porque o digo?! Pois não vês o interesse que este visconde tem em que a nossa Corinna case com o homem de Barcellos! É teima que me ha de fazer chegar a mostarda ao nariz!

Chegaram á curva da rua onde estavam Felismina e Carlos.

Gastão sorriu-se e passou ávante, dizendo a Mafalda:

—Tenho a certeza de que é riquissimo o brazileiro.

—Mas plebeu, não é?

—Não averiguei: ha de ser naturalmente. Mas que pensas tu? Do modo como por cá está isto, o homem, se quizer, é conde ámanhan. Tem cinco navios! cinco navios, Mafalda!... Que te parece? as intenções d'elle serão boas?

—Creio que sim. A pequena sympathisa verdadeiramente com elle. Pareciam dois tolos a brincar á róda do tanque, e assim que o Carlos lhe pede que cante modinhas brasileiras, ella ahi vai logo ao piano, e elle morre por ouvil-a. Quando isto é de quatro dias, que fará se elle se demorar?

—Era uma felicidade, Mafalda! Fortuna de milhões! Então é que diziamos um adeus á aldeia e a estes parvos cá do Minho, que fazem consistir a sua grandeza nobliarchica em terem dois cyprestes á porta, quatro patos reaes n'um tanque, e um lacaio com grandes botas... Ainda tenho esperanças de voltarmos a Paris! Aquillo é que é viver!

—Ai! Paris!—suspirou Mafalda, reclinando a cabeça sobre o hombro do marido—ai! Paris!

XV.

Decorreram alguns dias de excursões pelo Minho e Lima. O visconde acompanhou o festivo rancho. As meninas iam felizes: a propria Corinna, com as suas esperanças, egualava as irmans em contentamento. A espaços, Zuzarte ou o visconde lhe diziam uma palavra confortadora, de modo que o desconfiado Gastão não désse fé. No que elle muito reparava era nas repetidas conversações dos dois hospedes, que se apartavam da caravana para fallarem com certos visos de mysterio.

—Em quanto a mim—dizia o fidalgo a D.Mafalda—o brazileiro consulta o visconde a respeito de Felismina. Seria bom prevenil-o.

Chegaram a Ponte do Lima. D. Mafalda quiz visitar o carneiro de seu tio Fernão de Athaide. Ajoelharam todos a orar por alma do fidalgo. Carlos Zuzarte com tal devoção o fez, que deu nos olhos de todos.

—Parece que é bom christão!—disse Mafalda a Felismina—Vê tu que o homem tinha lagrimas nos olhos, e veio perguntar-me se eu ajoelhara por formalidade, se por sincero sentimento de respeito ás cinzas de meu tio! Que pergunta!...

Alojaram-se n'um velho palacio das margens do Minho, onde tinham nascido os avoengos de Mafalda: era a casa onde expirara Fernão. As meninas riram muito, e andavam a reboque umas das outras nos vastos salões esburacados. No quarto onde morreu o camarista de D. João VI estava um retrato d'elle, roido de traça e pó, com as feições quasi apagadas. O brazileiro disse a Gastão de Noronha que Fernando d'Athaide havia de apreciar grandemente o mimo d'aquella carunchosa lona. Prometteu Noronha mandar retocar o retrato, e presentear-lh'o.

Nem Mafalda, nem alguma das meninas quiz pernoitar no quarto, onde morrera o tio, e estivera inhabitado desde então. Dormiram n'elle o visconde e o brazileiro.

Dois dias depois proseguiram o passeio desandando para o palacete das margens do Lima. O visconde recolheu-se ao Porto, e Carlos Zuzarte ficou ainda sem designar destino.

Abriu-se o theatro lyrico no Porto. O brazileiro convidou a hospedeira familia a visitarem a galera que elle tinha fundeada no Douro, e a gosarem-se de algumas noites de theatro. As quatro meninas iam endoidecendo de alegria com o convite, e mais ainda com a condescendencia do pae. Corinna entristeceu-se. A felicidade adoçava-lhe a solidão agora mais que nunca. Os sitios onde nos afizemos a scismar e soffrer com a nossa saudade dão-nos a sombra do ausente que choramos sempre que a mágoa lá se vai carpir. Se depois nos afastamos d'aquelles sitios, a saudade já é dupla: parece que os novos logares, onde imos, nos não conhecem, nem sabem porque choramos. A nossa dor dera-nos além um clima nosso; aqui tudo estranhamos, tudo nos parece em dobro apartado. Esta sensação amarga adivinhava Corinna da Soledade, quando pediu a sua mãe licença para ficar com o governo da casa. Gastão deu a licença sem constrangimento; mas Carlos Zuzarte não prescindiu da companhia de Corinna, e de modo lh'o disse a ella, que a menina não hesitou.

Esperava-os no Porto uma casa nobre mobilada com riqueza. Pasmou Gastão das rapidas providencias do seu hospede: este disse que, tencionando residir alguns mezes no Porto, incumbira o seu amigo visconde da decoração da casa.

Pediu o brazileiro a D. Mafalda se convidava as suas relações no Porto para lhe honrarem as salas por occasião d'um baile, que elle queria dar ao visconde da Cruz. Deu-se um baile explendido, como o fidalgo portuguez os dava em Paris.

Concorreram as senhoras de primeira sociedade e formosura.

Carlos Zuzarte afigurou-se a muitas meninas um bom marido; todas, porém, excepto uma, se abstiveram de revelar o seu parecer n'um sorriso ao brazileiro, por verem que eram cinco, e todas bellas, as filhas do fidalgo commensal do ricasso; ora a exceptuada não deu pêso a isso, e distinguiu-se em branduras e cortezias que deram na vista.

Felismina foi quem primeiro as viu. Podera não! O seu amor era verdadeiro, porque disparatou em ciumes. Sahiu das salas, recolheu-se ao seu quarto, e, nem com ordem do pae, sahiu de lá. O brazileiro soube isto, e sorriu-se como a vaidade do coração sorri. Foi elle, em pessoa, pedir a Felismina que voltasse á sala: estava fechada por dentro, e disse pela fechadura da porta que não ia servir de escarneo á sua rival. Carlos sustentou o dialogo á fechadura, foi eloquente quanto se póde ser por um tal systema de embocadura de suspiros, e conseguiu que Felismina promettesse voltar á sala.

O brazileiro levou á evidencia de todos que amava a filha de Gastão, desde que o seu perdoavel orgulho se inflou com os ciumes, acintemente provocados.

No dia immediato jantaram a bordo da galera, que se chamara

Aurora

, e n'aquelle dia appareceu chrismada em

Felismina

. Este successo para Gastão de Noronha teve o valor do terceiro proclame lido á missa conventual.

Á noite não sahiram de casa, nem receberam visitas, excepto o visconde da Cruz, e seu irmão Luiz Taveira, que, desde o baile, scismava muito com Leonor, filha de Gastão, a mais mimosa de todas em structura, coisa assim como sonho, sylpho, ou quer que era de imponderavel, que parecia nas walsas uma borboleta de azas iriadas.

Que esperto era aquelle Gastão de Noronha! Deu logo pela ternura dos olhares de Luiz, e de si para si disse: «Mudam os ventos, mudam os tempos!»

Estava, pois, reunida a familia, o dono do palacete, e os dois Taveiras convidados ao desembarque.

Ao retirarem os taboleiros do chá, o brazileiro convidou Felismina a jogar o xadrez, sob condição de ficar sujeita á vontade do vencedor a liberdade do vencido. Felismina annuiu. Todos cercaram os jogadores com anciosa curiosidade.

—Gósto de ver a attenção que nos prestam—disse Zuzarte—porque não é brincadeira isto. Esquecia-me, porém, ouvir o senhor Gastão de Noronha, antes de acceitar a annuencia de sua filha. Vossa excellencia não vem com embargos, se a sorte fôr funesta á senhora D. Felismina?

—Quaes embargos!—exclamou Gastão rindo estrondosamente—E se ella vencer? haverá embargos por parte do cavalheiro Zuzarte?

—Ninguem se importa com o meu destino.

—Quem sabe!...—disse Felismina—Tenho medo....

—Que teme, minha senhora?—perguntou Zuzarte com meiguice.

Felismina sorriu e córou.

Jogaram. Os peões, os delfins, o castello, o rei e rainha do brazileiro, foram todos derrotados e assoprados miseravelmente. Felismina venceu.

—Estou á sua disposição, minha senhora!—disse Zuzarte.

—Está?—acudiu ella com as morenas faces retinctas de escarlate.

—Estou: que determina?

—Que fique sendo o nosso amigo sempre; que não torne para o Brazil.

—Ficarei. Quer-me então como um parente, sim? Irmão, tio, primo... veja lá: qual parentesco lhe quadra mais?

—Seja primo—disse Felismina.

—Pois, sim, seja primo—disseram todas as meninas.

—Pois então venham dar todas um abraço em seu primo—tornou o brazileiro erguendo-se—O primeiro abraço ha de ser o de minha prima Mafalda, sobrinha de meu pae Fernão de Athaide.

Houve um spasmo em todas as senhoras, que pareciam, ao encarar-se mutuamente, perguntarem umas ás outras se tinham entendido o dizer do brazileiro.

—Então, prima Mafalda!—tornou Fernando de Athaide—se não acceita o parentesco que sua filha nos dá, acceite o que nos deu a natureza. Aqui tem o mau, o perseguidor, o implacavel Fernando de Athaide! Vingue-se agora, dando-lhe um abraço de abafar-lhe o ruim coração que trasborda de felicidade!

Mafalda correu aos braços de Fernando; Corinna, Emma, Felismina, Elisa, Leonor, todas a um tempo, pareciam contentar-se com apertar-lhe os braços. O proprio Gastão abrindo os seus queria abraçar o grupo d'um amplexo.

Fernando de Athaide, beijado e abraçado por todas, sentou-se extenuado, e murmurou:

—Devo esta felicidade a Corinna. Dê-me um outro abraço, minha prima Corinna: a si devo o que sou agora; a si é que toda esta familia deve a felicidade que eu posso dar-lhe.

—A mim?!—disse Corinna.

—Como assim, primo Fernando?—acudiu Mafalda—a gente não sabe como é que Corinna deu causa a isto!...

—Eu lhe digo, prima: se Antonio d'Azevedo não tivesse amado Corinna, nunca o eu conheceria no Rio de Janeiro; e, se eu não viesse a encontrar o amigo, o anjo, o honrado amante de Corinna, creia vossa excellencia que seria hoje o perseguidor d'estas pobres meninas. Foi elle quem me ensinou, com duas palavras, como o Christo as dizia aos maus, a ser bom, compassivo e misericordioso. Vi-lhe lagrimas mal abafadas no coração; e quiz Deus que ellas me cahissem no meu. D'ellas se gerou a felicidade de todos nós, de todos, menos a d'elle... Adiante... Elle está debaixo da mão de Deus... A sua hora de premio ha de tambem chegar... Meu primo Gastão, eu perdi o jogo com minha prima: perdi o direito de me revoltar contra as suas decisões; mas, ainda assim, o coração põe embargos, e vossa excellencia será o juiz, e minha prima Mafalda tambem. Eu peço-lhe para minha esposa sua filha Felismina: antes quero ser irmão que primo d'estas meninas; hei de sentir alguma vez o prazer de chamar a vossa excellencia pae. Dá-me sua filha?

—Com orgulho, com soberba, como a não daria ao primeiro sangue de Portugal!—exclamou Gastão, conduzindo Felismina aos braços de Fernando.

O visconde da Cruz felicitou Gastão, e discorreu com enthusiasmo sobre o pathetico lance, a respeito do qual tambem eu faria aqui de vontade um discurso, se o leitor quizesse medir sua paciencia com o meu fôlego oratorio. A chave de oiro com que o visconde fechou a parlanda foi apresentar todas as licenças necessarias para os noivos se receberem na egreja parochial de Cedofeita, com dispensa de proclames e attestados canonicos do imperio do Brazil. Isto deu realces de alegria á sobre-excitação em que todos estavam. Mafalda queria manter-se em sua gravidade dos quarenta annos; mas parecia irman de suas filhas. Gastão andava a querer levantar toda a gente nos braços, e, a fallar a verdade, não só levantava, mas apertava as costellas franzinas do noivo com todo o amor dos seus musculos d'aço, musculos que desmentiam a fidalga placidez, que é condição das finas raças. N'estas idas e voltas, Luiz Taveira não perdia Leonor de olho, e a espiritual menina, com quanto mui angelica, d'esta vez dava semelhanças d'aquelles anjos despenhados por crime de inveja. O deliquio com que ella o fitava parecia dizer: «A mim não se me dava de me parecer com os mortaes n'estas alegrias da mana Felismina!» A pachorrenta Emma é que se movia menos n'aquella geral vertigem. Sentou-se a conversar com o visconde, e teve o descôco de dizer que já se não podia ter em pé, e que estava saudosa das suas almofadas de relva nas margens do Lima.

Seguiu-se, dias depois, o casamento. Não foi fallado, nem estrondoso. Até os jornaes o ignoraram, ou, se o souberam, vingaram-se da sovinice dos noivos, deferindo para mais galhardas bodas as quatro phrazes ramalhudas do costume.

Ao jantar concorreram unicamente o visconde, seu irmão, e o velho pae dos Taveiras, ancião de muita gravidade e respeito, um dos velhos modelos do commerciante portuense, coberto de honradas cans, com muita consciencia em logar de sciencia, e poucas palavras, mas pesadas a oiro, e authorisadas como se fossem maximas que encerrassem a experiencia d'uma longa vida.

Terminado o jantar, apagado o afôgo dos brindes, e travada serena pratica ácerca dos verdadeiros bens da vida, Bernardo Taveira fallou assim:

—Eu, se tivesse uma filha, havia de procurar-lhe marido dotado com os verdadeiros bens da vida: que vem a ser saude, honra, trabalho e religião; religião bastaria dizer, porque ella encerra tudo. No meu tempo achavam-se moços bons, que não tinham outro dote; e o homem que acertava com um, dava-se por feliz, se tinha filha a casar, ou grandes cabedaes a administrar. Eu não sei se ha muitos d'estes moços n'estes ruins tempos; o que de véras sei é que os poucos que ha, batem ás portas dos ricos, e estes não lh'as abrem, sem que elles mandem adiante a certeza de que o seu honrado trabalho está já em bom fructo de acções bancarias; e, se elles mostram o fructo, sem dar ideia da arvore boa ou má que os deu, isso tambem não importa... Senhor Gastão de Noronha, eu hospedei em minha casa um moço chamado Antonio d'Azevedo Barbosa. Era pobre, e sem occupação. Tinha a sua formatura, a sua habilidade; mas, apesar de amigos protectores, não tinha que fazer. Muitas vezes eu disse em mim: «Se eu tivesse uma filha, dava-a a este moço pobre.» O meu hospede teve razões para sahir de Portugal e ir ao Brazil: dei-lhe lá as relações dos meus amigos, e a alguns disse eu que o recebessem como receberiam meu filho. Ia recommendado por sua honra: foi o que mais lhe valeu lá. Azevedo principiou a trabalhar e logo a ser conhecido como lettrado. Advoga, e ha de ser rico; e, se não fôr rico, ha de ser sempre mais do que isso: ha de ser um thesouro de virtudes. Peza-me realmente não ter uma filha; mas quando vejo que vossa excellencia tem quatro solteiras, não resisto á vontade de lhe pedir uma em nome de Antonio de Azevedo.

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