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Esau e Jacob

MACHADO DE ASSIS (continued 4)

Reading edition

—Tome lá, murmurou elle.

Quando a mendiga voltou do espanto, Nobrega acabava de restituir o maço á algibeira e ia a querer sair. O que a mendiga então disse veiu entremeado de lagrimas:

—Meu senhor! Obrigada, meu senhor! Deus lhe pague! A Virgem Santissima...

E beijava a nota, e queria beijar a mão que lhe dera a esmola, mas elle a escondeu, como no Evangelho, murmurando que não, que se fosse embora. Em verdade, a palavra da mendiga tinha um som quasi mystico, uma especie de melodia do céu, um côro de anjos, e fazia bem fitar-lhe os olhos encarquilhados, a mão tremula, segurando a nota. Nobrega não esperou que ella se fosse, saiu, desceu a rua, com as bençãos da mulher atraz de si; dobrou a esquina, a passo rapido, e ahi foi pensando não se sabe em quê.

Atravessou a praça, passou a cathedral e a egreja do Carmo, e chegou ao Carceller, onde entregou as botas a um italiano para que lh'as engraxasse. Mentalmente, olhava para cima ou para baixo, para a direita ou para esquerda,—em todo caso para longe,—e acabou murmurando esta phrase, que tanto podia referir-se á nota. como á mendiga, mas provavelmente era á nota:

—Talvez fosse a mesma!

Nenhum obsequio, por infimo que seja, esquece ao beneficiado. Ha excepções. tambem ha casos em que a memoria dos obsequios afflige, persegue e morde, como os mosquitos; mas não é regra. A regra é guardal-os na memoria, como as joias nos seus escrinios; comparação justa, porque o obsequio é muita vez alguma joia, que o obsequiado esqueceu de restituir.

CAPITULO LXXVII

Hospedagem

A família Baptista foi aposentada em casa de Santos. Natividade não pôde ir a bordo, e o marido estava occupado em «lançar uma companhia»; mandaram recado pelos filhos que a casa de Botafogo tinha já os quartos preparados. Desde que o carro se poz a andar, Baptista confessou que ia ficar constrangido por alguns dias.

—N'uma casa de pensão era melhor, até que nos despejassem a de S. Clemente.

—Que queria você? Não havia remedio senão acceitar, ponderou a mulher.

Flora não disse nada, mas sentia o contrario do pae e da mãe. Pensar não pensou; ia tão atordoada com a vista dos rapazes que as ideias não se enfileiraram naquella forma logica do pensamento. A propria sensação não era nitida. Era uma mistura de oppressivo e delicioso, de turvo e claro, uma felicidade truncada, uma afflicção consoladora, e o mais que puderes achar no capitulo das contradicções. Eu nada mais lhe ponho. Nem ella saberia dizer o que sentia. Teve allucinações extraordinarias.

Agora o que é mister dizer é que a ideia da hospedagem cabe toda aos dous jovens doutores. Que elles eram já doutores, posto não houvessem ainda encetado a carreira de advogado nem de medico. Viviam do amor da mãe e da bolsa do pae, inexgotaveis ambos. O pae abanou as orelhas á lembrança, mas os gemeos insistiram pelo obsequio, a tal ponto que a mãe, contente de os ver de accordo, saiu do silencio e concordou com elles. A ideia de ter a pequena ao pé de si, por alguns dias, e discernir qual era o melhor acceito, e o que devéras a amava, póde ser que tambem influisse na adopção do voto, mas não affirmo nada a tal respeito. Tambem não asseguro que tivesse grande gosto em agazalhar a mãe e o pae de Flora. Não obstante, o encontro foi cordial de parte a parte. Foi um abraçar, um beijar, um perguntar, um trocar de mimos que não acabava mais. Todos estavam mais gordos, outra côr, outro ar. Flora era um encanto para Natividade e Perpetua; nenhuma destas sabia aonde iria parar aquella moça tão senhoril, tão esbelta, tão...

—Não digam o resto, interrompeu a moça sorrindo; eu tenho a mesma opinião.

Santos recebeu-os, á tarde, com a mesma cordialidade,—talvez menos apparente, mas tudo se desculpa a quem anda com grandes negocios.

—Uma ideia sublime, disse elle ao pae de Flora; a que lancei hoje foi das melhores, e as acções valem já ouro. Trata-se de lã de carneiro, e começa pela criação deste mammifero nos campos do Paraná. Em cinco annos poderemos vestir a America e a Europa. Viu o programma nos jornaes?

—Não, não leio jornaes daquir desde que embarquei.

—Pois verá!

No dia seguinte, antes de almoçar, mostrou ao hospede o programma e os estatutos. As acções eram maços e maços, e Santos ia dizendo o valor de cada um. Baptista sommava mal, em regra; daquella vez, peor. Mas os algarismos cresciam á vista, trepavam uns nos outros, enchiam o espaço, desde o chão até ás janellas, e precipitavam-se por ellas abaixo, com um rumor de ouro que ensurdecia. Baptista saiu d'alli fascinado, e foi repetir tudo á mulher.

CAPITULO LXXVIII

Visita ao marechal

D. Claudia, quando elle acabou, perguntou-lhe com simplicidade:

—Você vae hoje ao marechal?

Baptista, caindo em si:

—Naturalmente.

Tinham ajustado que elle iria ter com o presidente da Republica explicar-lhe a commissão que exercera, toda reservada, e, sem embargo, imparcial. Diria o espirito de concordia com que andou e a estima que adquiriu. Em seguida, falaria da conveniencia de um governo que, pela fortaleza e pela liberdade, excedesse o do generalissimo; e uma phrase final bem estudada.

—Isso na occasião, disse Baptista.

—Não, é melhor leval-a feita. Eu lembrei-me desta: «Creia V. Ex. que Deus está com os fortes e os bons.»

—Sim, não é má.

—Você póde accrescentar um gesto que indique céu.

—Isso é que não. Você sabe que eu não dou para gestos, não sou actor. Eu, sem mexer um pé, inspiro respeito.

D. Claudia dispensou o gesto; não era essencial. Quiz que elle escrevesse a phrase, mas já estava de cór. Baptista tinha boa memoria.

Naquelle mesmo dia, Baptista foi ao marechal Floriano. Não disse nada ás pessoas da casa; contaria tudo na volta. D. Claudia tambem calou, era por pouco tempo; ficou esperando anciosa. Esperou duas mortaes horas, chegou a imaginar que lhe tivessem encarcerado o esposo, por intrigas. Não era devota, mas o medo inspira devoção, e ella rezou comsigo. Emfim, chegou Baptista. Ella correu a recebel-o, alvoroçada, pegou-lhe na mão e recolheram-se ao quarto. Perpetua (vêde o que são testemunhos pessoaes na historia!) exclamou enternecida:

—Parecem dous pombinhos!

Baptista contou que a recepção foi melhor do que esperava, comquanto o marechal não lhe dissesse nada, mas escutou-o com interesse. A phrase? A phrase saiu bem, apenas com uma emenda. Não estando certo se elle preferia bons a fortes, ou se fortes a bons...

—Deviam ser as duas palavras, interrompeu a mulher.

—Sim, mas lembrou-me empregar uma terceira: «Creia V. Ex. que Deus está com os dignos!»

Com effeito, a ultima palavra podia abranger as duas, e trazia esta vantagem de dar á phrase um arranjo pessoal delle.

—Mas o marechal que disse?

—Não disse nada; ouviu-me com attenção obsequiosa e chegou a sorrir,—um sorriso leve, um sorriso de accordo...

—Ou seria... Quem sabe... Você não andou bem, de certo. Commigo elle diria alguma cousa. Você expoz tudo, conforme tinhamos combinado?

—Tudo.

—Expoz as razões da commissão, o desempenho, a nossa moderação...?

—Tudo, Claudia.

—E o aperto de mão do marechal?

—Não estendeu a mão, a principio; fez um gesto de cabeça; eu é que estendi a minha, dizendo: Sempre ás ordens de V. Ex.

—E elle?

—Elle apertou-me a mão.

—Apertou bem?

—Você sabe, não podia ser um apertão de amigo, mas deve ter sido cordial.

—E nenhuma palavra? Um passe bem, ao menos?

—Não, nem era preciso. Cortejei-o e saí.

D. Claudia deixou-se estar pensando. A recepção não lhe pareceu que fosse má, mas podia ser melhor. Com ella, seria muito melhor.

CAPITULO LXXIX

Fusão, diffusão, confusão...

Atraz falei das allucinações de Flora. Realmente, eram extraordinarias.

Em caminho, depois do desembarque, não obstante virem os gemeos separados e sós, cada um no seu coupé, scismou que os ouvia falar; primeira parte da allucinação. Segunda parte: as duas vozes confundiam-se, de tão eguaes que eram, e acabaram sendo uma só. Afinal, a imaginação fez dos dous moços uma pessoa unica.

Este phenomeno não creio que possa ser commum. Ao contrario, não faltará quem absolutamente me não creia, e supponha invenção pura o que é verdade purissima. Ora, é de saber que, durante a commissão do pae, Flora ouviu mais de uma vez as duas vozes que se fundiam na mesma voz e mesma creatura. E agora, na casa de Botafogo, repetia-se o phenomeno. Quando ouvia os dous, sem os ver, a imaginação acabava a fusão do ouvido pela da vista, e um só homem lhe dizia palavras extraordinarias.

Tudo isto não é menos extraordinario, concordo. Se eu consultasse o meu gosto, nem os dous rapazes fariam um só mancebo, nem a moça seria uma só donzella. Corrigiria a natureza desdobrando Flora. Não podendo ser assim, consinto na unificação de Pedro e Paulo. Porquanto, esse effeito de visão repetia-se ao pé delles, tal qual na ausencia, quando ella se deixava esquecer do logar, e soltava a redea a si mesma. Ao piano, á palestra, ao passeio na chacara, á mesa de jantar, tinha dessas visões repentinas e breves, e das quaes ella mesma sorria, a principio.

Se alguem quizer explicar este phenomeno pela lei da hereditariedade, suppondo que elle era a forma affectiva da variação politica da mãe de Flora, não achará apoio em mim, e creio que em ninguem. São cousas diversas. Conheceis os motivos de D. Claudia; a filha teria outros que ella propria não sabia. O unico ponto de semelhança é que, tanto na mãe como na filha, o phenomeno era agora mais frequente, mas em relação á primeira vinha do atropello dos acontecimentos exteriores. Nenhuma revolução se faz como a simples passagem de uma sala a outra; as mesmas revoluções chamadas de palacio trazem alguma agitação que fica por certo prazo, até que a agua volte ao nivel. D. Claudia cedia á inquietação dos tempos.

A filha obedeceria a outra causa qualquer, que se não podia descobrir logo, nem sequer entender. Era um espectaculo mysterioso, vago, obscuro, em que ás figuras visiveis se faziam impalpaveis, o dobrado ficava unico, o unico desdobrado, uma fusão, uma confusão, uma diffusão...

CAPITULO LXXX

Transfusão, emfim

Uma transfusão, tudo o que puder definir melhor, pela repetição e graduação das fórmas e dos estados, aquelle particular phenomeno, pódes empregal-o no outro e neste capitulo.

Dito o phenomeno, é preciso dizer tambem que Flora, a principio, achava-lhe graça. Minto; nos primeiros tempos, como estava longe, não lhe achou nada; depois, sentiu uma especie de susto ou vertigem, mas logo que se acostumou a passar de dous a um e de um a dous, pareceu-lhe graciosa a alternação, e chegava a evocal-a com o proposito de divertir a vista. Afinal nem isto era preciso, a alternação fazia-se de si mesma. Umas vezes era mais lenta que outras, alguma instantanea. Não eram tão frequentes que confinassem com o delirio. Emfim, ella se foi acostumando e deleitando.

Uma ou outra vez, na cama, antes de dormir, repetia-se o phenomeno, depois de muita resistencia da parte della, que não queria perder o somno. Mas o somno vinha, e o sonho completava a vigilia. Flora passeava então pelo braço do mesmo garção amado, Paulo se não Pedro, e ambos iam admirar estrellas e montanhas, ou então o mar, que suspirava ou tempestuava, e as flores e as ruinas. Não era raro ficarem os dous a sós, deante de uma nesga de céu, claro de luar, ou todo repregado de estrellas como um panno azul escuro. Era á janella, suppõe; vinha de fóra a cantiga dos ventos mansos, um espelho grande, pendente da parede, reproduzia as figuras della e delle, confirmando a imaginação della. Como era sonho, a imaginação trazia espectaculos desconhecidos, taes e tantos que mal se podia crêr bastasse o espaço de uma noite. E bastava. E sobrava. Succedia que Flora acordava de repente, perdia o quadro e o vulto, e persuadia-se que era tudo illusão, e raro então dormia. Se era cedo, erguia-se, andava, cançava-se, até adormecer novamente e sonhar outra cousa.

Outras vezes, a visão ficava sem o sonho, e diante della uma só figura esbelta, com a mesma voz namorada, o mesmo gesto supplice. Uma noite, indo a deitar-lhe os braços sobre os hombros com o fim inconsciente de cruzar os dedos atraz do pescoço, a realidade, posto que ausente, clamou pelos seus fóros, e o unico moço se desdobrou na duas pessoas semelhantes.

A differença deu ás duas visões de acordada um tal cunho de fantasmagoria que Flora teve medo e pensou no Diabo.

CAPITULO LXXXI

Ai, duas almas...

Anda, Flora, ajuda-me, citando alguma cousa, verso ou prosa, que exprima a tua situação. Cita Goethe, amiga minha, cita um verso do Fausto, adequado:

Ai, duas almas no meu seio moram!

A mãe dos gemeos, a bella Natividade podia havel-o citado tambem, antes delles nascerem, quando ella os sentia lutando dentro em si mesma:

Ai, duas almas no meu seio moram!

Nisto as duas se parecem,—uma os concebeu, outra os recolheu. Agora, como é que se dá ou se dará a escolha de Flora, nem o proprio Mephistopheles nol-o explicaria de modo claro e certo. O verso basta:

Ai, duas almas no meu seio moram!

Talvez aquelle velho Placido, que lá deixamos nas primeiras paginas, chegasse a deslindar estas outras. Doutor em materias escuras e complicadas, sabia muito bem o valor dos numeros, a significação dos gestos não só visiveis como invisiveis, a estatistica da eternidade, a divisibilidade do infinito. Era já morto deste alguns annos. Has de lembrar-te que elle, consultado pelo pae de Pedro e Paulo, acerca da hostilidade original dos gemeos, explicou-a promptamente. Morreu no seu officio; expunha a trez discipulos novos a correspondencia das letras vogaes com os sentidos do homem, quando caiu de bruços e expirou.

Já então os adversarios de Placido,—que os tinha na propria seita,—affirmavam haver elle aberrado da doutrina, e, por natural effeito, enlouquecido. Santos nunca se deixou ir com esses divergentes da casa commum, que acabaram formando outra egrejinha em outro bairro, onde pregavam que a correspondencia exacta não era entre as vogaes e os sentidos, mas entre os sentidos e as vogaes. Esta outra formula, parecendo mais clara, fez com que muitos discipulos da primeira hora acompanhassem os da ultima, e proclamem agora, como conclusão final, que o homem é um alphabeto de sensações.

Venceram estes, ficando mui poucos fieis á doutrina do velho Placido. Evocado algum tempo depois de morto, confessou elle ainda uma vez a sua formula, como a unica das unicas, e excommungou a quantos prégassem o contrario. Aliás, os dissidentes já o haviam excommungado tambem, declarando abominavel a sua memoria, com aquelle odio rijo, que fortalece alguma vez o homem contra a frouxidão da piedade.

Talvez o velho Placido deslindasse o problema em cinco minutos. Mas para isso era preciso evocal-o, e o discipulo Santos cuidava agora de umas liquidações ultimas e lucrativas. Não só de fé vive o homem, mas tambem de pão e seus compostos e similares.

CAPITULO LXXXII

Em S. Clemente

Ao cabo de poucas semanas, a familia Baptista saiu da casa Santos, e tornou á rua de S. Clemente. A despedida foi terna, as saudades começaram antes da separação, mas a affeição, o costume, a estima,—a necessidade, em summa, de se verem a miudo compensaram a melancolia, e a gente Baptista levou promessa de que a gente Santos iria vel-a dahi a poucos dias.

Os gemeos cumpriram cedo a promessa. Um delles, parece que Paulo, foi lá nessa mesma noite com recado da mãe para saber se tinham chegado bem. Disseram-lhe que sim, accrescentando Baptista, para abreviar a visita, que estavam bastante cançados. Os olhos de Flora desmentiram esta affirmação; mas dentro em pouco achavam-se não menos tristes que alegres. A alegria vinha da promptidão de Paulo, a tristeza da ausencia de Pedro. Quizera-os ambos naturalmente; mas, como é que as duas sensações se mostravam a um tempo, eis o que não entenderás bem nem mal. Certamente, os olhos iam diversas vezes para a porta, e uma vez pareceu á moça ouvir rumor na escada; tudo illusão. Mas estes gestos, que Paulo não viu, tão contente estava de se haver adiantado ao irmão, não eram taes que a fizessem esquecer o irmão presente.

Paulo saiu tarde, não só para o fim de aproveitar a ausencia de Pedro, mas ainda porque Flora o fazia demorar, com o intuito de ver se o outro chegava. Assim que, a mesma dualidade de sensação enchia os olhos da moça, até á hora da despedida, em que a parte triste foi maior que a alegre, pois que eram duas ausencias, em vez de uma. Conclue o que quizeres, minha dona; ella recolheu-se para dormir, e reconheceu que, se se não dorme com uma tristeza na alma, muito menos com duas.

CAPITULO LXXXIII

A grande noite

Ha muito remedio contra a insomnia. O mais vulgar é contar de um até mil, dous mil, trez mil ou mais, se a insomnia não ceder logo. É remedio que ainda não fez dormir ninguem, ao que parece, mas não importa. Até agora, todas as applicações efficazes contra a tisica vão de par com a noção de que a tisica é incuravel. Convem que os homens affirmem o que não sabem, e, por officio, o contrario do que sabem; assim se fórma esta outra incuravel, a Esperança.

Flora, incuravel tambem, se não preferes a definição de inexplicavel, que lhe deu Ayres, a graciosa Flora teve naquella noite a sua insomnia. Mas foi um tanto culpa sua. Em vez de se deitar quietinha e dormir com os anjos, achou melhor velar com um ou dous delles, e gastar uma parte da noite, á janella ou sentada, a recordar e a pensar, a cotejar e a completar, mettida no roupão de linho, com os cabellos atados para dormir.

A principio pensou no que lá estivera, e evocou todas as suas graças, realçadas pela virtude particular de a ter ido ver á noite, sem embargo de se terem visto de manhã. Sentia-se grata. Toda a conversação foi alli repetida na solidão da alcova, com as intonações diversas, o vario assumpto, e as interrupções frequentes, ora dos outros, ora della mesma. Ella, em verdade, só interrompia, para pensar no ausente,—e portanto não fazia mais que converter o dialogo em monologo, o qual por sua vez acabava em silencio e contemplação.

Agora, pensando em Paulo, queria saber porque é que o não escolhia para noivo. Tinha uma qualidade a mais, a nota aventurosa do caracter, e esta feição não lhe desprazia. Inexplicavel ou não, deixava-se levar pelos impotos do rapaz, que queria trocar o mundo e o tempo por outros mais puros e felizes. Aquella cabeça, apenas masculina, era destinada a mudar a marcha do sol, que andava errado. A lua tambem. A lua pedia um contacto mais frequente com os homens, menos quartos, não descendo o minguante do metade. Visivel todas as noites, sem que isso acarretasse a decadencia das estrellas, continuaria modestamente o officio do sol, e faria sonhar os olhos insomnes ou só cançados de dormir. Tudo isso cumpriria a alma de Paulo, faminta de perfeição. Era um bom marido, em summa. Flora cerrou as palpebras, para vel-o melhor, o achou-o a seus pés, com as mãos della entre as suas, risonho e extatico.

—Paulo! meu querido Paulo!

Inclinou-se, para vel-o de mais perto, e não perdeu o tempo nem a intenção. Visto assim, era mais bello que simplesmente couversando das cousas vulgares e passageiras. Enfiou os olhos nos olhos, e achou-se dentro da alma do rapaz. O que lá viu não soube dizel-o bem; foi tudo tão novo e radiante que a pobre retina de moça não podia fitar nada com segurança nem continuidade. As ideias faiscavam como saindo de um fogareiro á força de abano, as sensações batiam-se em duelo, as reminiscencias subiam frescas, algumas saudades, e ambições principalmente, umas ambições de azas largas, que faziam vento só com agital-as. Sobre toda essa mescla e confusão chovia ternura, muita ternura...

Flora recolheu os olhos, Paulo estava na mesma postura; mas do lado da porta, mettido na penumbra, a figura de Pedro apparecia, não menos bella, mas um tanto triste. Flora sentiu-se tocada daquella tristeza. Parece que, se amasse exclusivamente o primeiro, o segundo podia chorar lagrimas de sangue, sem lhe merecer a menor sympathia. Que o amor, conforme as nymphas antigas e modernas, não tem piedade. Quando ha piedade para outro, dizem ellas, é que o amor ainda não nasceu de verdade, ou já morreu de todo, e assim o coração não lhe importa vestir essa primeira camisa do affecto. Perdoa a figura; não é nobre, nem clara, mas a situação não me dá tempo de ir á cata de outra.

Pedro approximou-se, a passo lento, ajoelhou-se tambem e tomou-lhe as mãos que Paulo apertava entre as suas. Paulo ergueu-se e sumiu-se pela outra porta. O quarto tinha duas. A cama ficava entre ellas. Talvez Paulo fosse bramindo de colera; ella é que não ouviu nada, tão docemente vivo era o gesto de Pedro, já agora sem melancolia, e os olhos tão extaticos como os do irmão. Não eram taes que saissem, como os deste, ás aventuras. Tinham a quietação de quem não queria mais sol nem lua que esses que andam ahi, que se contenta de ambos, e, se os acha divinos, não cuida de os trocar por novos. Era a ordem, se queres, a estabilidade, o accordo entre si e as cousas, não menos sympathicos ao coração da moça, ou por trazerem a ideia de perpetua ventura, ou por darem a sensação de uma alma capaz de resistir.

Nem por isso os olhos de Flora deixaram de penetrar os de Pedro, até chegar á alma do rapaz. O motivo secreto desta outra entrada podia ser o escrupulo de cotejar as duas para julgal-as, se não era sómente o desejo de não parecer menos curiosa de uma que de outra. Ambas as razões são boas, mas talvez nenhuma fosse verdadeira. O gosto de fitar os olhos de Pedro era tão natural que não exigia intenção particular nenhuma, e bastava fital-os para escorregar e cair dentro da alma namorada. Era gemea da outra; não lhe viu mais nem menos que nesta.

Unicamente,—e aqui toco o ponto escabroso do capitulo,—achou cá alguma cousa indefinivel que não sentira lá; em compensação sentiu lá outra que não se lhe deparou cá. Indefinivel, não esqueças. E escabroso porque nada ha peor que falar de sensações sem nome. Crêde-me, amigo meu, e tu, não menos amiga minha, crêde-me que eu preferia contar as rendas do roupão da moça, os cabellos apanhados atraz, os fios do tapete, as taboas do tecto e porfim os estalinhos da lamparina que vae morrendo... Seria enfadonho, mas entendia-se.

Sim, a lamparina ia morrendo, mas ainda podia dar luz ao regresso de Paulo. Quando Flora o viu entrar e ajoelhar-se outra vez, ao pé do irmão, e ambos dividirem entre si as mãos della, mansos e cordatos, ficou longa mente attonita. Obra de um credo, como diziam os nossos antigos, quando havia mais religião que relogios. Voltando a si, puxou as mãos, estendeu-as depois sobre a cabeça delles, como se lhes apalpasse a differença, o quid, o algo, o indefinivel. A lamparina ia morrendo... Pedro e Paulo falavam-lhe por exclamações, por exhortações, por supplicas, a que ella respondia mal e tortamente, não que os não entendesse, mas por não os aggravar, ou acaso por não saber a qual delles diria melhor. A ultima hypothese tem ar de ser a mais provavel. Em todo caso, é o prologo do que succedeu, quando a lamparina chegou aos ultimos arrancos.

Tudo se mistura, á meia claridade; tal seria a causa da fusão dos vultos, que de dous que eram, ficaram sendo um só. Flora, não tendo visto sair nenhum dos gemeos, mal podia crêr que formassem agora uma só pessoa, mas acabou crêndo, mormente depois que esta unica pessoa solitaria parecia completal-a interiormente, melhor que nenhuma das outras em separado. Era muito fazer e desfazer, mudar e transmudar. Pensou enganar-se, mas não; era uma só pessoa, feita das duas e de si mesma, que sentia bater nella o coração. Estava tão cançada de emoções que tentou erguer-se e ir fóra, mas não pôde; as pernas pareciam de chumbo e colladas ao solo. Assim esteve, até que a lamparina, ao canto, morreu de todo. Flora teve um sobresalto na poltrona, e ergueu-se:

—Que é isto?

A lamparina apagou-se. Foi accendel-a. Viu então que estava sem um nem outro, sem dous nem um só fundido de ambos. Toda a fantasmagoria se desfizera. A lamparina (agora nova) alumiava o seu quarto de dormir, e á imaginação creára tudo. Foi o que ella suppoz, e o leitor sabe. Flora comprehendeu que era tarde, e um gallo confirmou essa opinião, cantando; outros gallos fizeram a mesma cousa.

—Ora, meus Deus! exclamou a filha de Baptista.

Metteu-se na cama, e, se não dormiu logo, tambem não se demorou muito; não tardou a estar com os anjos. Sonhou com o canto dos gallos, uma carroça, um lago, uma scena de viagem do mar, um discurso e um artigo. O artigo era de verdade. A mãe veiu acordal-a, ás dez horas da manhã, chamando-lhe dorminhoca, e alli mesmo, na cama, lhe leu uma folha da manhã que recommendava o marido ao governo. Flora ouviu satisfeita; acabara a grande noite.

CAPITULO LXXXIV

O velho segredo

Natividade dormiu tranquilla, em Botafogo, mas acordou pensando nos filhos e na moça de S. Clemente. Viera reparando nos trez. Parecera-lhe antes que Flora não acceitava um nem outro, logo depois que os acceitava a ambos, e mais tarde um e outro alternadamente. Concluiu que ainda não sentiria nada particular e decisivo; naturalmente iria com os tempos, a ver qual destes a merecia deveras. Elles é que pareciam sentir egual inclinação e egual ciume. Dahi alguma possivel catastrophe. A separação não supprimiria tudo; mas, além de que, separadas as familias, nem tudo seria presente a seus olhos, as visitas podiam ser menos frequentes e até raras. Tinha assim o que quizera.

Ao demais, ia chegando o tempo de ir para Petropolis; propriamente, chegára. Natividade cuidava de subir com os filhos. Sempre haveria lá no alto damas elegantes, diversões, alegria. Podia ser até que elles achassem noivas, e bastava uma para um. O que ficasse sem ella teria a liberdade de desposar Flora. Calculos de mãe; vieram outros que os modificaram, e outros que os restauraram. Quem fôr mãe que lhe atire a primeira pedra.

Nenhuma outra mãe atirou a primeira pedra á nossa amiga. Quero crêr que a razão disto não foi senão a propria discrição de Natividade. Suspeitas e calculos iam ficando no coração della. Calou tudo e esperou.

Ao cabo, Flora cada vez gostava mais de Natividade. Queria-lhe como se ella fosse sua mãe, duplamente mãe, uma vez que não escolhera ainda nenhum dos filhos. A causa podia ser que as duas indoles se ajustassem melhor que entre Flora e D. Claudia. A principio, sentiu não sei que inveja amiga, antes desejo, quando via que as fórmas da outra, embora arruinadas pelo tempo, ainda conservavam alguma linha da esculptura antiga. Pouco a pouco, foi descobrindo em si mesma o introito de uma belleza, que devia ser longa e fina, e de uma vida, que podia ser grande...

Flora conhecia a predicção da cabocla do Castello, relativamente aos dous gemeos. A predicção não era já segredo para ninguem. Santos falara della em tempo, apenas occultando a subida de Natividade ao Castello; emendou a verdade, dizendo que a cabocla é que viera a Botafogo. O resto foi revelado em confiança, como ao finado Placido, e ainda depois de alguma luta. Trez ou quatro vezes investiu e recuou. Um dia, a lingua deu sete voltas na bôca, e o segredo saiu medroso e sussurrado, mas perdeu o medo pelo gosto de mostrar que os rapazes seriam grandes. Emfim, o segredo foi esquecendo. Mas Perpetua, por isto ou aquillo, contou-o agora á moça Baptista, que a ouviu incredula. Que podia saber a cabocla do futuro?

—Sabia, e a prova é que adivinhou outras cousas, que não posso contar e eram verdadeiras. Você não imagina como o diacho da cabocla via longe. E tinha uns olhos de espetar o coração.

—Não acredito, D. Perpetua. Pois agora o futuro da gente... E grandes como?

—Isso não disse por mais que Natividade lhe perguntasse; disse só que seriam grandes e subiriam muito. Talvez venham a ser ministros de Estado.

Perpetua parecia haver comprado os olhos á cabocla. Enfiava-os pela amiga abaixo, até o coração, que aliás não batia com força nem apressado, mas tão regular como de costume. Entretanto, não sendo impossivel que os dous rapazes chegassem aos altos deste mundo, Flora deixou de objectar e acceitou a predicção, sem outra palavra mais que um gesto, —sabes, creio,—um gesto de boca, fazendo descair os cantos della, levantando os hombros levemente, e espalmando as mãos, como se dissesse: Emfim, póde ser.

Perpetua accresceptou que, mudado o regimen, era natural que Paulo chegasse primeiro á grandeza, —e aqui espetou bem os olhos. Era um modo de de apanhar os sentimentos de Flora, acenando-lhe com a elevação de Paulo, pois bem podia ser que viesse a amar antes o destino que a pessoa. Não achou nada. Flora continuou a não se deixar ler. Não lhe attribuas isto a calculo, não era calculo. Seriamente, não pensava em nada acima de si.

CAPITULO LXXXV

Trez constituições

—Você crê deveras que venhamos a ser grandes homens? perguntára Pedro a Paulo, antes da queda do imperio.

—Não sei; você pode vir a ser, quando menos, primeiro ministro.

Depois de 15 de novembro, Paulo retorquiu a pergunta, e Pedro respondeu como o irmão, emendando o resto:

—Não sei; você póde vir a ser presidente da republica.

Já lá iam dous annos. Agora pensavam mais em Flora que na subida. A boa moral pede que ponhamos a cousa publica acima das pessoaes, mas os moços nisto se parecem com velhos e varões de outra edade, que muita vez pensam mais em si que em todos. Ha excepções, nobres algumas, outras nobilissimas. A historia guarda muitas dellas, e os poetas, epicos e tragicos, estão cheios de casos e modelos de abnegação.

Praticamente, seria exigir muito de Pedro e Paulo que cuidassem mais da constituição de 24 de fevereiro que da moça Baptista. Pensavam em ambas, é verdade, e a primeira já dera logar a alguma troca de palavras acerbas. A constituição, se fosse gente viva, e estivesse ao pé delles, ouviria os ditos mais contrarios deste mundo, porque Pedro ia ao ponto de a achar um poço de iniquidades, e Paulo a propria Minerva nascida da cabeça de Jove. Falo por metaphora para não descair do estylo. Em verdade, elles empregavam palavras menos nobres e mais emphaticas, e acabavam trocando as primeiras entre si. Na rua, onde o encontro de manifestações politicas era commum, e as noticias á porta dos jornaes frequente, tudo era occasião de debate.

Quando, porém, a imagem de Flora apparecia entre elles por imaginação, o debate esmorecia, mas as injurias continuavam e até cresciam, sem confissão do novo motivo, que era ainda maior que o primeiro. Effectivamente, elles iam chegando ao ponto em que dariam as duas constituições, a republicana e a imperial, pelo amor exclusivo da moça, se tanto fosse exigido. Cada um faria com ella a sua constituição, melhor que outra qualquer deste mundo.

CAPITULO LXXXVI

Antes que me esqueça

Uma cousa é preciso dizer antes que me esqueça. Sabes que os dous gemeos eram bellos e continuavam parecidos; por esse lado não suppunham ter motivo de inveja entre si. Ao contrario, um e outro achavam em si qualquer cousa que accentuava, senão melhorava, as graças communs. Não era verdade, mas não é a verdade que vence, é a convicção. Convence-te de uma ideia, e morrerás por ella, escreveu Ayres por esse tempo no Memorial, e accrescentou: «nem é outra a grandeza dos sacrificios, mas se a verdade acerta com a convicção, então nasce o sublime, e atraz delle o util...» Não acabou ou não explicou esta phrase.

CAPITULO LXXXVII

Entre Ayres e Flora

Aquella citação do velho Ayres faz-me lembrar um ponto em que elle e a moça Flora divergiam ainda mais que na edade. Já contei que ella, antes da commissão do pae, defendia Pedro e Paulo, conforme estes diziam mal um do outro, Naturalmente fazia agora a mesma cousa, mas a mudança do regimen trouxe occasião de defender tambem monarchistas e republicanos, segundo ouvia as opiniões de Paulo ou de Pedro. Espirito de conciliação ou de justiça, applacava a ira ou o desdem do interlocutor: «Não diga isso... São patriotas tambem... Convem desculpar algum excesso...» Eram só phrases, sem impeto de paixão nem estimulo de principios; e o interlocutor concluia sempre:

—A senhora é boa.

Ora, o costume de Ayres era o opposto dessa contradicção benigna. Has-de lembrar-te que elle usava sempre concordar com o interlocutor, não por desdem da pessoa, mas para não dissentir nem brigar. Tinha observado que as convicções, quando contrariadas, descompõem o rosto á gente, e não queria ver a cara dos outros assim, nem dar á sua um aspecto abominavel. Se lucrasse alguma cousa, vá; mas, não lucrando nada, preferia ficar em paz com Deus e os homens. Dahi a arranjo de gestos e phrases affirmativas que deixavam os partidos quietos, e mais quieto a si mesmo.

Um dia, como ella estivesse com Flora, falou daquelle costume della, dizendo-lhe que parecia estudado. Flora negou que o fosse; era inclinação natural defender os ausentes, que não podiam responder por nada; demais, applacava assim um dos gemeos com quem falasse, e depois o outro.

—Tambem concordo.

—E porque ha de o senhor concordar sempre? perguntou ella sorrindo.

—Posso concordar com a senhora, porque é uma delicia ir com as suas opiniões, e seria mau gosto rebatel-as, mas, em verdade, não ha calculo. Com os mais, se concordo, é porque elles só dizem o que eu penso.

—Ja o tenho achado em contradicção.

—Póde ser. A vida e o mundo não são outra cousa. A senhora não saberá isto bem, porque é moça e ingenua, mas creia que a vantagem é toda sua. A ingenuidade é o melhor livro e a mocidade a melhor escola. Vá desculpando esta minha pedanteria; alguma vez é um mal necessario.

—Não se accuse, conselheiro. O senhor sabe que eu não creio nada contra a sua palavra, nem contra a sua pessoa; a propria contradicção que lhe acho é agradavel.

—Tambem concordo.

—Concorda com tudo.

—Olha aqui, Flora; dá licença, conselheiro?

Esqueceu-me dizer que esta conversação era á porta de uma loja de fazendas e modas, rua do Ouvidor. Ayres ia na direcção do largo de S. Francisco de Paula e viu a mãe e a filha dentro, sentadas, a escolher um tecido. Entrou, comprimentou-as, e veiu á porta com a filha. O chamado de D. Claudia interrompeu a conversação por alguns instantes. Ayres ficou a olhar para a rua, onde subiam e desciam mulheres de todas as classes, homens de todos os officios, sem contar as pessoas paradas de ambos os lados e no centro. Não havia borborinho grande, nem socego puro, um meio termo.

Talvez algumas pessoas fossem conhecidas de Ayres e o comprimentassem; mas este tinha a alma tão mettida em si mesma que, se falou a uma ou duas, foi o mais. De quando em quando, voltava a cabeça para dentro, onde Flora e a mãe faziam a sua consulta. Ouvia as palavras trocadas ainda agora. Sentia-se curioso de saber se finalmente a moça escolhia a um dos gemeos, e qual destes. Vá tudo; tinha já pezar que não fosse algum, posto não lhe importasse saber se Pedro ou Paulo. Quizera vel-a feliz, se a felicidade era o casamento, e feliz o marido, sem embargo da exclusão; o excluido seria consolado. Agora, se era por amor delles, se della, é o que propriamente se não póde dizer com verdade. Quando muito, para levantar a ponta do veu, seria preciso entrar na alma delle, ainda mais fundo que elle mesmo. Lá se descobriria acaso, entre as ruinas de meio celibato, uma flôr descorada e tardia de paternidade, ou, mais propriamente, de saudade della...

Flora trouxe novamente a rosa fresca e rubra da primeira hora. Não falaram mais de contradicção, mas da rua, da gente e do dia. Nenhuma palavra ácerca de Pedro ou Paulo.

CAPITULO LXXXVIII

Não, não, não

Elles, onde quer que estivessem naquelle momento, podiam falar ou não. A verdade é que, se nenhum consentia em deixar a moça, tambem nenhum contava obtel-a, por mais que a achassem inclinada. Tinham já combinado que o rejeitado acceitaria a sorte, e deixaria o campo ao vencedor. Não chegando a victoria, não sabiam como resolver a batalha. Esperar, seria o mais facil, se a paixão não crescesse, mas a paixão crescia.

Talvez não fosse exactamente paixão, se dermos a esta palavra o sentido de violencia; mas, se lhe reconhecermos uma forte inclinação de amor, um amor adolescente ou pouco mais, era o caso. Pedro e Paulo cederiam a mão da pequena, se houvessem de consultar só a razão, e mais de uma vez estiveram a pique de o fazer; raro lampejo, que para logo desapparecia. A ausencia era já insoffrivel, a presença necessaria. Se não fôra o que aconteceu e se contará por essas paginas adiante, haveria materia para não acabar mais o livro; era só dizer que sim e que não, e o que estes pensaram e sentiram, e o que ella sentia e pensou, até que o editor dissesse: basta! Seria um livro de moral e de verdade, mas a historia começada ficaria sem fim. Não, não, não... Força é continual-a e acabal-a. Comecemos por dizer o que os dous gemeos ajustaram entre si, poucos dias depois daquelle sonho ou delirio da moça Flora, á noite, no quarto.

CAPITULO LXXXIX

O dragão

Vejamos o que é que estes ajustaram. Vinham de estar com Ayres no theatro, uma noite, matando o tempo. Conheceis este dragão; toda a gente lhe tem dado os mais fundos golpes que póde, elle esperneia, expira e renasce. Assim se fez naquella noite. Não sei que theatro foi, nem que peça, nem que genero; fosse o que fosse, a questão era matar o tempo, e os trez o deixaram estirado no chão.

Fôram dallí a um restaurant. Ayres disse-lhes que, antigamente, em rapaz, acabava a noite com amigos da mesma edade. Era o tempo de Offenbach e dá opereta. Contou anecdotas, disse as peças, descreveu as damas e os partidos, quasi deu por si repetindo um trecho, musica e palavras. Pedro e Paulo ouviam com attenção, mas não sentiam nada do que espertava os écos da alma do diplomata. Ao contrario, tinham vontade de rir. Que lhes importava a noticia da um velho café da rua Uruguayana, trocado depois em theatro, agora em nada, uma gente que viveu e brilhou, passou e acabou antes que elles viessem ao mundo? O mundo começou vinte annos antes daquella noite, e não acabaria mais, como um viveiro de moços eternos que era.

Ayres sorriu, porquanto elle tambem assim cuidou, aos vinte e dous annos de edade, e ainda se lembrava do sorriso do pae, já velho, quando lhe disse algo parecido com isso. Mais tarde, tendo adquerido do tempo a noção idealista que ora possuia, comprehendeu que tal dragão era juntamente vivo e defunto, e tanto valia matal-o como nutril-o. Não obstante, as recordações eram doces, e muitas dellas viviam ainda frescas, como se viessem da vespera.

A differença da edade era grande, não podia entrar em pormenores com elles. Ficou só em lembranças, e cuidou de outra cousa. Pedro e Paulo, entretanto, receiosos de que elle os adivinhasse e comprehendesse o desprezo que lhes inspiravam as saudades de tempos remotos e extranhos, pediram-lhe informações, e elle deu as que podia, sem intimidade.

Ao cabo, a conversação valeu mais que este resumo, e a separação não custou pouco. Paulo ainda lhe pediu Offenbach, Pedro uma descripção das paradas de 7 de setembro e 2 de dezembro; mas o diplomata achou meio de saltar ao presente e particularmente a Flora, que louvou como uma bella creatura. Os olhos de ambos concordaram que era bellissima. Tambem louvou as qualidades moraes, a finura do espirito, taes dotes que Pedro e Paulo reconheceram tambem, e dahi a conversação, e porfim o ajuste a que me referi no começo deste capitulo e pede outro.

CAPITULO XC

O ajuste

—Quanto a mim, um de vocês gosta della, senão ambos, disse Ayres.

Pedro mordeu os beiços, Paulo consultou o relogio; iam já na rua. Ayres concluiu o que sabia, que sim, que ambos, e não trepidou em dizel-o, accrescentando que a moça não era como a Republica, que um podia defender e outro atacar; cumpria ganhal-a ou perdel-a de vez. Que fariam elles, dada a escolha? Ou já estava feita a escolha, e o preterido teimava em a torcer para si?

Nenhum, falou logo, posto que ambos sentissem necessidade de explicar alguma cousa. Tinham que a escolha não era clara ou decisiva. Outrosim, que lhes cabia o direito de esperar a preferencia, e fariam o diabo para alcançal-a. Taes e outras ideias vagavam silenciosamente nelles, sem sair cá fóra. A razão percebe-se, e devia ser mais de uma,—primeiro, a materia da conversação,—depois, a gravidade do interlocutor. Por mais que Ayres abrisse as portas á franqueza dos rapazes, estes eram rapazes e elle velho. Mas o assumpto em si era tão seductor, o coração, apesar de tudo, tão indiscreto, que não houve remedio se não falar, mas falar negando.

—Não me neguem, interrompeu Ayres; a gente madura sabe as manhas da gente nova, e adivinha com facilidade o que ella faz. Nem é preciso adivinhar; basta ver e ouvir. Vocês gostam della.

Elles sorriam, mas já agora com tal amargor e acanhamento que mostravam o desgosto da rivalidade, aliás sabida delles. Tal rivalidade era tambem sabida de outros, devia sel-o de Flora, e a situação lhes parecia agora mais complicada e fechada que d'antes.

Tinham chegado ao largo da Carioca, era uma hora da noite. Uma victoria da Santos esperava alli os rapazes, a conselho e por ordem da mãe, que buscava todas as occasiões e meios de os fazer andar juntos e familiares. Teimava em emendara natureza. Levava-os muita vez a passeio, ao theatro, a visitas. Naquella noite, como soubesse que iam ao theatro, mandou aprestar a victoria que os conduziu para a cidade, e ficou á espera delles.

—Entre, conselheiro, disse Pedro, o carro dá para, trez: eu vou no banquinho da frente.

Entraram e partiram.

—Bem, continuou Ayres, é certo que vocês gostam della, e egualmente certo que ella ainda não escolheu entre os dous. Provavelmente, não sabe que faça. Um terceiro resolveria a crise porque vocês se consolariam depressa; tambem eu me consolei em rapaz. Não havendo terceiro, e não se podendo prolongar a situação, porque é que vocês não combinam alguma cousa?

—Combinar quê? perguntou Pedro sorrindo.

—Qualquer cousa. Combinem um modo de cortar este nó gordio. Cada um que siga a sua vocação. Você Pedro, tentará primeiro desatal-o; se elle não puder, Paulo, você pegue da espada de Alexandre, e dê-lhe o golpe. Fica tudo feito e acabado. Então o destino, que os espera, com duas bellas creaturas, virá trazel-as pela mão a um e a outro, e tudo se compõe na terra como no céu.

Ayres disse mais cousas antes de se apear á porta da casa. Apeado, ainda lhes perguntou:

—Estamos de accordo?

Os dous responderam de cabeça affirmativamente, e, ficando sós, não disseram nada. Que fossem pensando, é natural, e porventura o tempo lhes pareceu curto entre o Cattete e Botafogo. Chegaram á casa, subiram a escada do jardim, falaram da temperatura, que Pedro achava deliciosa e Paulo abominavel, mas não disseram assim para não irritar um ao outro. A esperança do ajuste é que os levava á moderação relativa e passageira. Vivam os fructos pendentes do dia seguinte!

Cá estava o quarto á espera delles, um brinco de arranjo e graça, de commodidade e repouso. Era a mãe que dava os últimos retoques todos os dias; ella cuidava das flôres que seriam postas nos vasinhos de porcellana, e ella mesma as ia tirar á noite e pôr fóra das janellas para que elles não as respirassem dormindo. Cá estavam as velas ao pé das duas camas, mettidas nos seus castiçaes de prata, um com o nome de Pedro, outro com o de Paulo, gravados. Tapetinhos de suas mãos, laços dados por ella nos cortinados, finalmente o retrato della e o do marido pendurados á parede, entre as duas camas, naquelle mesmo logar em que estiveram os de Luiz XVI e Robespierre, comprados na rua da Carioca.

Ao pé de cada um dos castiçaes acharam um biIhetinho de Natividade. Aqui está o que ella dizia: «Algum de vocês quer ir commigo á missa, amanhã? Faz annos que seu avô morreu, e Perpetua está adoentada.» Natividade esquecera de lhes falar antes, e, aliás, andava bem sem elles, mormente de carruagem; mas gostava de os ter comsigo.

Pedro e Paulo riram do convite e da fórma, e um delles propoz que, para agradar á mãe, fossem ambos á missa. A acceitação da proposta veiu prompta; já não era harmonia, era uma especie de dialogo na mesma pessoa. O céu parecia escrever o tratado de paz que ambos teriam de assignar; ou, se preferes, a natureza corrigia as indoles, e os dous rixosos começavam a ajustar o ser e o parecer. Tambem não juro isto, digo o que se póde crêr só pelo aspecto das cousas.

—Vamos á missa, repetiram.

Seguiu-se um grande silencio. Cada um ruminava o ajuste e o modo de o propor. Emfim, de cama a cama, disseram o que lhes parecia melhor, propuzeram, discutiram, emendaram e concluiram sem escriptura de tabellião, apenas por acceitação de palavra. Poucas clausulas. Confessando que não podiam assegurar a escolha de Flora, concordaram em esperar por ella durante um prazo curto; trez mezes. Dada a escolha, o rejeitado obrigava-se a não tentar mais nada. Como tivessem a certeza final da escolha, o accordo era facil; cada um não faria mais que excluir o outro. Não obstante, se ao fim do prazo, nenhuma escolha houvesse, cumpria adoptar uma clausula ultima. A primeira que acudiu foi deixarem ambos o campo, mas não os seduziu. Lembrou-lhes recorrer á sorte, e aquelle que fosse designado por ella, deixaria o campo ao rival. Assim passou uma hora de conversação, após a qual, cuidaram de dormir.

CAPITULO XCI

Nem só a verdade se deve ás mães

Às nove horas da manhã seguinte, Natividade estava prompta para ir á missa que mandava dizer na matriz da Gloria; nenhum dos filhos se lhe apresentou.

—Parece que dormem.

E duas, trez, quatro, cinco vezes, foi até á porta do quarto a ver se ouvia rumor, como resposta ao bilhete que deixara. Nada. Concluiu que teriam entrado tarde. Só não atinou que dormissem sobre o ajuste, nem que ajuste era. Uma vez que o fizessem em cama fôfa, tudo ia bem. Emfim, acabou de calçar as luvas, desceu, entrou no carro e foi para a egreja.

A missa era anniversaria, como dizia o bilhete. Uso velho; o pae tinha a sua missa, a mãe outra, os irmãos e parentes outras. Não lhe esqueciam datas obituarias, como não lhe esqueciam natalicias, quaesquer que fossem, amigas ou parentas; trazia-as todas de cór. Doce memoria! Ha pessoas a quem não ajudas, e chegam a brigar comsigo e com outros por abandono teu. Felizes os que tu proteges; esses sabem o que é 24 de março, 10 de agosto, 2 de abril, 7 e 31 de outubro, 10 de novembro, o anno todo, suas tristezas e alegrias particulares.

Voltando á casa, viu Natividade os dous filhos no jardim, á espera della. Elles correram a abrir-lhe a portinhola do carro, e depois de a apearem e lhe beijarem a mão, explicaram a falta. Tinham resolvido ir ambos, mas o somno...

—O somno e a preguiça, concluiu a mãe rindo.

—Foi só o somno, disse Pedro.

—Accordamos agora mesmo, acabou Paulo.

Disputaram dar-lhe o braço; Natividade os satisfez dando um braço a cada um. Em casa, ao mudar de roupa, Natividade reflectiu que, se Flora lhes tivesse feito algum pedido, elles accordariam cedo, por mais tarde que se deitassem; a memoria serviria de despertador. Passou-lhe uma sombra rapida, mas depressa se reconciliou com a differença. Assim que, não foi por ciume, mas para os trazer a outras seducções e separal-os da guerra ante a bella Flora, que a mãe teimou em levar os filhos para Petropolis. Subiriam na primeira semana de janeiro. A estação seria excellente; annunciou festas, citou nomes, notou-lhes que Petropolis era a cidade da paz. O governo póde mudar cá embaixo e nas provincias...

—Que provincias, mamãe? atalhou Paulo.

Natividade sorriu e emendou.

—Nos Estados. Vae desculpando os descuidos de tua mãe. Bem sei que são Estados; não são como as provindas antigas, não esperam que o presidente lhes vá aqui da Côrte...

—Que Côrte, baroneza?

Agora os dous riram, mãe e filho. Passado o riso, Natividade continuou:

— Petropolis é a cidade da paz; é, como dizia outro dia o conselheiro Ayres, é a cidade neutra, é a cidade das nações. Se a capital do Estado fosse alli, não haveria deposição de governo. Petropolis,—vejam vocês que o nome, apesar da origem, ficou e ficará,—é de todos. A estação dizem que vae ser encantadora...

—Eu não sei se posso ir já, disse Paulo.

—Nem eu, acudiu Pedro.

Ainda uma vez estavam de accordo, mas aqui o accordo trazia provavelmente o divorcio, reflectiu a mãe, e o prazer que lhe deram aquellas duas palavras morreu depressa. Perguntou-lhes que razão tinham para ficar e até quando. Se estivessem estabelecidos com o seu consultorio medico e a sua banca de advogado, era bem; mas, se nenhum delles começara ainda a carreira, que fariam cá embaixo, quando ella e o marido...

—Justamente; eu tenho que fazer uns estudos de clinica na Santa Casa, respondeu Pedro.

Paulo explicou-se. Não ia praticar a advocacia, mas precisava de consultar certos documentos do século XVII na Bibliotheca Nacional; ia escrever uma historia das terras possuidas.

Nada era verdade, mas nem só a verdade se deve dizer ás mães. Natividade ponderou que elles podiam fazer tudo entre as duas barças de Petropolis; desciam, almoçavam, trabalhavam, e ás quatro horas subiriam, como a demais gente. Em cima achariam visitas, musica, bailes, mil cousas bellas, sem contar as manhãs, a temperatura e os domingos. Elles defenderam o estudo, como sendo melhor por muitas horas seguidas.

Natividade não teimou. Mais depressa ficaria esperando que os filhos acabassem os documentos da Bibliotheca e a clinica da Santa Casa. Esta ideia fel-a attentar para a necessidade de ver estabelecidos o joven medico e o joven advogado. Trabalhariam com outros profissionaes de reputação e iriam adiante e acima. Talvez a carreira scientifica lhes désse a grandeza annunciada pela cabocla do Castello, e não a politica ou outra. Em tudo se podia resplandecer e subir. Aqui fez a critica de si mesma, quando imaginou que Baptista abriria a carreira politica de algum delles, sem advertir que o pae de Flora mal continuaria a propria carreira, aliás obscura. Mas a ideia do mando tornava a óccupar a cabeça da mãe, e cheios della os olhos fitavam ora Pedro, ora Paulo.

Chegaram a accordo. Elles subiriam aos sabbados e desceriam ás segundas; o mesmo por occasião de dias santos e festas de gala. Natividade contava com o costume e as attracções.

Na barca e em Petropolis era objecto de conversação a differença entre os filhos, que só iam lá uma vez por semana, e o pae, que trazia tantos negocios ás costas, e subia todas as tardes. Que fariam elles cá em baixo, quando alguns olhos podiam attrail-os e agarral-os lá em cima? Natividade defendia os gemeos, dizendo que um ia á Santa Casa e outro á Bibliotheca Nacional, e estudavam muito, ás noites. A explicação era acceitavel, mas, além de fazer perder um assumpto aos bonitos dentes do verão, podia ser invenção dos rapazes; naturalmente, iriam ás moças.

A verdade é que elles faziam rumor em Petropolis, durante as poucas horas que lá passavam. Além do mais, tinham a semelhança e a graça. As mães diziam bonitas cousas á mãe delles, e indagavam da razão verdadeira que os prendia á capital, não assim como eu digo, nu e cru, mas com arte fina e insidiosa, arte perdida, porque a mãe insistia na Bibliotheca e na Santa Casa. Deste geito, a mentira, já servida em primeira mão, era servida em segunda, e nem por isso melhor acceita.

CAPITULO XCII

Segredo acordado

Emfim, que segredo ha que se não descubra? Sagacidade, boa vontade, curiosidade, chama-lhe o que quizeres, ha uma força que deita cá para fóra tudo o que as pessoas cuidam de esconder. Os proprios segredos cançam de calar,—calar ou dormir; fiquemos com este outro verbo, que serve melhor á imagem. Cançam, e ajudam a seu modo aquillo que imputamos á indiscrição alheia.

Quando elles abrem os olhos, faz-lhes mal a escuridão. Um raio de sol basta. Então pedem aos deuses (porque os segredos são pagãos) um quasi nada de crepusculo, aurora ou tarde, posto que a aurora prometta dia, emquanto a tarde cae outra vez na noite, mas tarde que seja, tudo é respirar claridade. Que os segredos, amiga minha, tambem são gente; nascem, vivem e morrem. Agora o que succede, quando um olhar de sol penetra na solidão delles, é que difficilmente sae mais, e geralmente cresce, rasga, alaga, e os traz pela orelha cá para fóra. Vexados da grande luz, elles a principio andam de ouvido em ouvido, cochichados, alguma vez escriptos em bilhetes, ainda que tão vagamente e sem nomes, que mal se adivinhará quaes sejam. É o periodo da infancia, que passa depressa; a mocidade pula por cima da adolescencia, e elles apparecem fortes e derramados, sabidos como gazetas. Emfim, se a velhice chega, e elles não se vexam dos cabellos brancos, tomam conta do mundo, e acaso conseguem, não digo esquecer, mas aborrecer; entram na familia do proprio sol, que quando nasce é para todos, segundo dizia uma taboleta da minha infancia.

Taboletas da minha infancia, ai, taboletas! Quizera acabar por ellas este capitulo, mas o assumpto não teria nobreza nem interesse, e ainda uma vez interromperiamos a nossa historia. Fiquemos no segredo divulgado; é quanto basta. Uma veranista elegante não dissimulou o seu espanto ao saber que os dous irmãos combinavam n'um ponto que faria romper os maiores amigos deste mundo. Um secretario de legação insinuou que podia ser brincadeira dos dous.

—Ou dos trez, accrescentou outra veranista.

Iam de passeio á Quitandinha, a cavallo. Ayres acompanhava-os, e não dizia nada. Quando lhe perguntaram se Flora era bonita, respondeu que sim, e falou da temperatura. A primeira veranista perguntou-lhe se era capaz de supportar aquella situação. Ayres respirou, como quem vem de longe, e declarou que aos pés de um padre seria obrigado a mentir, taes eram os seus peccados; mas alli, na estrada, ao ar livre, entre senhoras, confessou que matara mais de um rival. Que se lembrasse trazia sete mortes ás costas, com varias armas. As senhoras riam; elle falava soturno. Só uma vez escapou de morrer primeiro, e inventou uma anecdota napolitana. Fez a apologia do punhal. Um que tivera, ha muitos annos, o melhor aço do mundo, foi obrigado a dal-o de presente a um bandido, seu amigo, quando lhe provou que completára na vespera o seu vigesimo nono assassinato.

—Aqui está para o trigesimo, disse-lhe entregando a arma.

Poucos dias depois soube que o bandido, com aquelle punhal, matara o marido de uma senhora, e depois a senhora, a quem amava sem ventura.

—Deixei-o com trinta e um crimes de primeira ordem.

As damas continuavam a rir; elle conseguiu assim desviar a conversação de Flora e seus namorados.

CAPITULO XCIII

Não ata nem desata

Emquanto indagavam della em Petropolis, a situação moral de Flora era a mesma,—o mesmo conflicto de affinidades, o mesmo equilibrio de preferencias. Cessado o conflicto, roto o equilibrio, a solução viria de prompto, e, por mais que doesse a um dos namorados, venceria o outro, a menos que interviesse o punhal da anecdota de Ayres.

Assim passaram algumas semanas desde a subida de Natividade. Quando Ayres vinha ao Rio de Janeiro, não deixava de ir vel-a a S. Clemente, onde a achava qual era d'antes, salvo um pouco de silencio em que a viu mettida uma vez. No dia seguinte recebeu uma carta de Flora, pedindo-lhe desculpa da desattenção, se a houve, e mandando-lhe saudades. «Mamãe pede que a recommende tambem ao senhor e á familia da baroneza.» Esta recommendação exprimia o consentimento obtido da mãe para que lhe escrevesse a carta. Quando elle tornou ao Rio, correu a S. Clemente e Flora pagou-lhe com alegria grande o silencio daquella outra manhã. Todavia, não era espontanea nem constante; tinha seus cochilos de melancolia. Ayres voltou ainda algumas vezes na mesma semana. Flora apparecia-lhe com a alegria costumada, e, para o fim, a mesma alteração dos ultimos dias.

Talvez a causa daquellas syncopes da conversação fosse a viagem que o espirito da moça fazia á casa da gente Santos. Uma das vezes, o espirito voltou para dizer estas palavras ao coração: «Quem és tu, que não atas nem desatas? Melhor é que os deixes de vez. Não será difficil a acção, porque a lembrança de um acabará por destruir a de outro, e ambas se irão perder com o vento, que arrasta as folhas velhas e novas, além das particulas de cousas, tão leves e pequenas, que escapam ao olho humano. Anda, esquece-os; se os não pódes esquecer, faze por não os ver mais; o tempo e a distancia farão o resto.»

Tudo estava acabado. Era só escrever no coração as palavras do espirito, para que lhe servissem de lembrança. Flora escreveu-as, com a mão tremula e a vista turva; logo que acabou, viu que as palavras não combinavam, as letras confundiam-se, depois iam morrendo, não todas, mas salteadamente, até que o musculo as lançou de si. No valor e no impeto podia comparar o coração ao gemeo Paulo; o espirito, pela arte e subtileza, seria o gemeo Pedro. Foi o que ella achou no fim de algum tempo, e com isso explicou o inexplicavel.

Apesar de tudo, não acabava de entender a situação, e resolveu acabar com ella ou comsigo. Todo esse dia foi inquieto e complicado. Flora pensou em ir ao theatro para que os gemeos não a achassem á noite. Iria cedo, antes da hora da visita. A mãe mandou comprar o camarote, e o pae approvou a diversão, quando veiu jantar, mas a filha acabou com dôr de cabeça, e o camarote ficou perdido.

—Vou mandal-o aos jovens Santos, insinuou Baptista.

D. Claudia oppôz-see guardou o camarote. A razão era de mãe; posto lhe tardasse a escolha e o casamento, ella queria vel-os alli comsigo, falando, rindo, debatendo que fosse, com os olhos pendentes da filha. Baptista não entendeu logo nem depois; mas para não desagradar á esposa, deixou de obsequiar os rapazes. Uma occasião tão boa! Não era muito para elles que possuiam com que despender, e despendiam; o obsequio estava na lembrança, e tambem na cartinha que lhes escreveria, mandando o camarote. Chegou a redigil-a de cabeça, apesar de já inutil. A mulher, ao vel-o calado e serio, cuidou que fosse zanga e quiz fazer as pazes; o marido arredou-a brandamente com a mão. Redigia a cartinha, punha no texto um gracejo sizudo, dobrava o papel e lançava-lhe este sobrescripto gemeo: «Aos jovens apostolos Pedro e Paulo.» O trabalho intellectual tornou mais dura a opposiçâo de D. Claudia. Uma cartinha tão bonita!

CAPITULO XCIV

Gestos oppostos

Como póde um só tecto cobrir tão diversos pensamentos? Assim é tambem este céu claro ou brusco,—outro tecto vastissimo que os cobre com o mesmo zelo da gallinha aos seus pintos... Nem esqueça o proprio craneo do homem, que os cobre igualmente, não só diversos, senão oppostos.

Flora, no quarto, não cuidava então de bilhetes nem camarotes; tambem não acudia á dôr de cabeça, que não tinha. Se falou nella foi por ser uma razão proxima e acceitavel, breve ou longa, conforme a necessidade da occasião. Não supponhas que está rezando, embora tenha alli um oratorio e um crucifixo. Não viria pedir a Jesus que lhe livrasse a alma daquella inclinação desencontrada. Posta á beira da cama, os olhos no chão, pensava naturalmente em alguma cousa grave, se não era nada, que tambem agarra os olhos e o pensamento de uma pessoa. Mordeu os beiços sem raiva; metteu a cabeça entre as mãos, como se quizesse concertar os cabellos, mas os cabellos estavam e ficavam como dantes.

Quando se levantou era totalmente noite, e accendeu uma vela. Não queria gaz. Queria uma claridade branda que désse pouca vida ao quarto e aos seus moveis, que deixasse algumas partes na meia escuridade. O espelho, se fosse a elle, não lhe repetiria a belleza de todos os dias, com a vela posta em cima de uma papeleira antiga, a distancia. Mostrar-lhe-hia a nota de pallidez e de melancolia, é verdade, mas a nossa amiguinha não se sabia pallida, nem se sentia melancolica. Tinha na tristeza desvairada daquella occasião uma pontinha de abatimento.

Como tudo isso se combinava, não sei, nem ella mesma. Ao contrario, Flora parecia, ás vezes, tomada de um espanto, outras de uma inquietação vaga, e, se buscava o repouso de uma cadeira de balanço, era para o deixar logo. Ouviu bater oito horas. Dahi a pouco, entrariam provavelmente Pedro e Paulo. Teve lembrança de ir dizer á mãe que a não mandasse chamar; estava de cama. Esta ideia não durou o que me custa escrevel-a, e aliás já lá vae na outra linha. Recuou a tempo.

—É um desproposito, disse comsigo; basta não apparecer. Mamãe dirá que estou adoentada, tanto que perdemos o theatro, e, se vier aqui, digo-lhe que não posso apparecer...

As ultimas palavras sairam-lhe de viva voz, para maior firmeza da resolução. Projectou reclinar-se já na cama; depois achou melhor fazel-o quando ouvisse o passo da mãe no corredor. Todas essas alternativas podiam vir de si mesmas; entretanto, não é impossivel que fosse tambem um modo de sacudir quaesquer lembranças aborreciveis. A moça temia ir atraz dellas.

CAPITULO XCV

O terceiro

Temendo ir atraz dellas, que havia de fazer Flora? Abriu uma das janellas do quarto, que dava para a rua, encostou-se á grade e enfiou os olhos para baixo e para cima. Viu a noite sem estrellas, pouca gente que passava, calada ou conversando, algumas salas abertas, com luzes, uma com piano. Não viu certa figura de homem na calçada opposta, parada, olhando para a casa de Baptista. Nem a viu, nem lhe importaria saber quem fosse. A figura é que tão depressa a viu como estremeceu e não despegou mais os olhos della, nem os pés do chão.

Lembras-te daquella veranista de Petropolis que attribuiu um terceiro namorado á nossa amiguinha? «Um dos trez», disse ella. Pois aqui está o terceiro namorado, e póde ser que ainda appareça outro. Este mundo é dos namorados. Tudo se póde dispensar nelle; dia virá em que se dispensem até os governos, a anarchia se organisará de si mesma, como nos primeiros dias do paraiso. Quanto á comida, virá de Boston ou de Nova-York um processo para que a gente se nutra com a simples respiração do ar. Os namorados é que serão perpetuos.

Aquelle era official de secretaria. Geralmente os empregados de secretaria casam cedo. Gouvêa era solteiro, andava ás moças. Um domingo, á missa, reparou na filha do ex-presidente, e saiu da egreja tão apaixonado que não quiz outra promoção. Tinha gostado de muitas, acompanhou algumas, esta foi a primeira que o feriu devéras. Pensava nella dia e noite. A rua de S. Clemente era o caminho que o levava e trazia da Repartição. Se a via, olhava muito para ella, detinha-se a distancia, á porta de uma casa, ou então fingia acompanhar com os olhos um carro que passava, e tirava-os do carro para a moça.

Quando amanuense, fizéra versos; nomeado official, perdeu o costume, mas um dos effeitos da paixão foi restituir-lh'o. Comsigo, em casa da mãe, gastava papel e tinta a metrificar as esperanças. Os versos escorriam da penna, a rima com elles, e as estrophes vinham seguindo direitas e alinhadas, como companhias de batalhão; o titulo seria o coronel, a epigraphe a musica, uma vez que regulava a marcha dos pensamentos. Bastaria essa força á conquista? Gouvêa imprimiu alguns em jornaes, com esta dedicatoria: A alguem. Nem assim a praça se rendia.

Uma vez deu-lhe na cabeça mandar uma declaração de amor. Paixão concebe despropositos. Escreveu duas cartas, sem o mesmo estylo, antes contrario. A primeira era de poeta; dava-lhe tu, como nos versos, adjectivava muito, chamava-lhe deusa por afiusão ao nome de Flora, e citava Musset e Casimiro de Abreu. A segunda carta foi um desforço do official sobre o amanuense. Saiu-lhe ao estylo das informações e dos officios, grave, respeitoso, com Excellencias. Comparando as duas cartas, não acabou de escolher nenhuma. Não foi só o texto diverso e contrario, foi principalmente a falta de autorisação que o levou a rasgar as cartas. Flora não o conhecia; quando menos, fugia de o conhecer. Os olhos della, se encontravam os delle, retiravam-se logo indifferentes. Uma só vez cuidou que traziam a intenção de perdoar. Que esse breve raio de luz lhe desabotoasse as flores da esperança (começo a falar como a primeira carta) era possivel e até certo; tão certo que lhe fez perder o ponto na Repartição. Felizmente, era optimo empregado; o director ampliou o quarto de hora de tolerancia, e attendeu á dôr de cabeça, causa de triste insomnia.

—Dormi sobre a madrugada, acabou o official.

—Assigne.

Senão quando, morre-lhe o padrinho ao Gouvêa, e em testamento deixou ao afilhado trez contos de reis. Qualquer acharia nisso um beneficio, Gouvêa achou dous: o legado e a occasião de travar relações com o pae de Flora. Correu a pedir-lhe que acceitasse a procuração de legatario, ajustando logo os honorarios e as despezas. Com pouco, foi procural-o á casa, e para que o advogado désse a noticia do constituinte á familia, empregou muitos ditos subtis e graciosos, contou anecdotas do padrinho, expoz conceitos philosophicos e um programma de marido. Descreveu tambem a situação administrativa, a promoção eminente, os louvores recebidos, commissões e gratificações, tudo o que o distinguia de outros companheiros. De resto, ninguem na Repartição lhe queria mal. Aquelles mesmos que se creram prejudicados, acabavam confessando que era justa a preferencia dada ao Gouvêa. Não seria tudo exacto; elle o cria assim, ao menos, e, se não cria tudo, não desmentiu nada. Perdeu tempo e trabalho. Flora não soube da conversação.

Nem soube da conversação, nem deu agora pelo vulto, como lá disse. tambem disse que a noite era escura. Accrescento que começou a pingar fino e a ventar fresco. Gouvêa trazia guarda-chuva e ia a abril-o, mas recuou. O que se passou na alma delle foi uma luta egual á dos dous textos da carta. O official queria abrigar-se da chuva, o amanuense queria apanhal-a, isto é, o poeta renascia contra as intemperies, sem medo ao mal, prestes a morrer por sua dama, como nos tempos da cavallaria. Guarda-chuva era ridiculo; poupar-se á constipação desmentia a adoração. Tal foi a luta e o desfecho; venceu o amanuense, emquanto a chuva ia pingando grosso, e outra gente passava abrigada e depressa. Flora entrou e fechou a janella. O amanuense esperou ainda algum tempo, até que o official abriu o guarda-chuva e fez como os outros. Em casa achou a triste consolação da mãe.

CAPITULO XCVI

Retraimento

Aquella noite acabou sem incidente. Os gemeos viéram, Flora não appareceu, e no dia seguinte duas cartinhas perguntavam a D. Claudia como passára a filha. A mãe respondeu que bem. Nem por isso Flora os recebeu com a alegria do costume. Tinha alguma cousa que a fazia falar pouco. Pediram-lhe musica, tocou; foi bom, porque era um meio de se metter comsigo. Não respondeu aos apertos de mão, como elles suppunham que fazia até ha pouco. Assim foi essa noite, assim fôram as outras. Ora um, ora outro chegava primeiro, imaginando que a presença do rival é que tolhia a moça; mas a precedencia não valia nada.

CAPITULO XCVII

Um Christo particular

Tudo isso lhe custava tanto, que ella acabou pedindo ao seu Christo um logar de governador para o pae,—ou qualquer commissão fóra daqui. Jesus-Christo não distribue os governos deste mundo. O povo é que os entrega a quem merece, por meio de cedulas fechadas, mettidas dentro de uma urna de madeira, contadas, abertas, lidas, sommadas e multiplicadas. A commissão podia vir, isso sim; a questão era saber se Jesus-Christo acudirá a todos os que lhe pedem a mesma cousa. Os commissarios seriam infinitamente mais que as commissões. Esta objecção foi logo expellida do espirito de Flora, porque ella pedia ao seu Christo, um de marfim velho, deixa da avó, um Christo que nunca lhe negou nada, e a quem as outras pessoas não vinham importunar com supplicas. A propria mãe tinha o seu particular, confidente de ambições, consolo de desenganos; não recorria ao da filha. Tal era a fé ingenua da moça.

Certarmente, já lhe havia pedido que a livrasse daquella complicação de sentimentos, que não acabavam de ceder um ao outro, daquella hesitação cançativa, daquelle empuxar para ambos os lados. Não foi ouvida. A causa seria talvez por não haver dado ao pedido a fórma clara que aqui lhe ponho, com escandalo do leitor. Effectivamente, não era facil pedir assim por palavras seguidas, faladas ou só pensadas; Flora não formulou a supplica. Poz os olhos na imagem e esqueceu-se de si, para que a imagem lêsse dentro della o seu desejo. Era demais; requerer o favor do céu e obrigal-o a adivinhar o que era... Assim cuidou Flora, e resolveu emendar a mão. Não chegou lá; não ousou dizer a Jesus o que não dizia a si mesma. Pensava nos dous, sem confessar a nenhum. Sentia a contradicção, sem ousar encaral-a por muito tempo.

CAPITULO XCVIII

O medico Ayres

Um dia pareceu á mãe que a filha andava nervosa. Interrogou-a e apenas descobriu que Flora padecia de vertigens e esquecimentos. Foi justamente um dia em que Ayres lá appareceu de visita, com recados de Natividade. A mãe falou-lhe primeiro e confiou-lhe os seus sustos. Pediu-lhe que a interrogasse tambem. Ayres fez de medico, e, quando a moça appareceu e a mãe os deixou na sala, cuidou de a interrogar cautelosamente.

Vão proposito, porque ella mesma iniciou a conversação, queixando-se de dôr de cabeça. Ayres observou que dôr de cabeça era molestia de moça bonita, e, tendo confessado que este dito era banal, descobriu-lhe o motivo. Não queria perder a occasião de lhe dizer o que toda a gente sabia e dizia, não só aqui, como em Petropolis.

—Porque não vae a Petropolis? concluiu.

—Espero fazer outra viagem mais longa, muito longa...

—Para o outro mundo, aposto?

—Acertou.

—Já tem bilhete de passagem?

—Comprarei no dia do embarque.

—Talvez não ache. Ha grande concurrencia para aquellas paragens; melhor é comprar antes, e, se quer, eu me encarrego disso; comprarei outro para mim, e iremos juntos. A travessia, quando não ha conhecidos, deve ser fastidiosa; ás vezes, os proprios conhecidos aborrecem, como succede neste mundo. As saudades da vida é que são agradaveis. A gente de bordo é vulgar, mas o commandante impõe confiança. Não abre a bôca, dá as suas ordens por gestos, e não consta que haja naufragado.

—O senhor está caçoando commigo; eu creio até que estou com febre.

—Deixe ver.

Flora estendeu-lhe o pulso; elle, com ar profundo:

—Está; febre de quarenta e sete grãos, a mão está ardendo, mas isto mesmo prova que não é nada, porque aquellas viagens fazem-se com as mãos frias. Ha de ser constipação, fale a sua mãe.

—Mamãe não cura.

—Póde curar, ha remedios caseiros; em todo caso, peça-lhe, e ella póde mandar chamar um medico.

—Medico dá tizanas, e eu não gósto de tizanas.

—Nem eu, mas tolero-as. Porque não experimenta a homoeopathia, que não tem gosto, como a allopathia?

—Qual é a que lhe parece melhor?

—A melhor? Só Deus é grande.

Flora sorriu, de um sorriso pallido, e o conselheiro percebeu algo que não era tristeza de passagem ou de creança. Novamente lhe falou de Petropolis, mas não insistiu. Petropolis era a aggravação do momento actual.

—Petropolis tem o mal das chuvas, continuou. Eu, se fosse a senhora, saía desta casa e desta rua; vá para outro bairro, casa amiga, com sua mãe ou sem ella...

—Para onde? perguntou Flora anciosa.

E ficou a olhar, esperando. Não tinha casa amiga, ou não se lembrava, e queria que elle mesmo escolhesse alguma, onde quer que fosse, e quanto mais longe, melhor. Foi o que elle leu nos olhos parados. É ler muito, mas os bons diplomatas guardam o talento de saber tudo o que lhes diz um rosto calado, e até o contrario. Ayres fôra diplomata excellente, apesar da aventura de Caracas, se não é que essa mesma lhe aguçou a vocação de descobrir e encobrir. Toda a diplomacia está nestes dous verbos parentes.

CAPITULO XCIX

A titulo de ares novos...

—Vou arranjar-lhe uma casa boa, disse elle, á despedida.

Desde que estava em Petropolis, Ayres não ia jantar a Andarahy, com a irmã, ás quintas-feiras, segundo ajustára e consta do cap. XXXII. Agora foi lá, e cinco dias depois Flora transferia-se para a casa della, a titulo de ares novos. D. Rita não consentiu que D. Claudia lhe levasse a filha, ella mesma a foi buscar a S. Clemente, e Ayres acompanhou as trez.

A mocidade de Flora na casa de D. Rita foi como uma rosa nascida ao pé de paredão velho. O paredão remoçou. A simples flôr, ainda que pallida, alegrou o barro gretado e as pedras despidas. D. Rita vivia encantada; Flora pagava o agazalho da dona da casa com tanta ingenuidade e graça, que esta acabou por lhe dizer que a roubaria á mãe e ao pae, e foi ainda occasião de riso para as duas.

«Você me deu um lindo presente com esta moça, escrevia D. Rita ao irmão; foi uma alma nova, e veiu em boa occasião, porque a minha anda já caduca. É muito docilzinha, conversa, toca e desenha que faz gosto, tem aqui tirado riscos de varias cousas, e eu saio com ella para lhe mostrar vistas apreciaveis. Às vezes, apresenta uma cara triste, olha vagamente, e suspira; mas eu pergunto-lhe se são saudades de S. Clemente, ella sorri e faz ura gesto de indifferença. Não lhe falo dos nervos, para não a affligir, mas creio que vae melhor...»

Flora tambem escreveu as conselheiro Ayres, e as duas cartas chegaram á mesma hora a Petropolis. A de Flora era um agradecimento grande e cordial, mal entremeado de alguma palavra saudosa; confirmava assim a carta da outra, posto não a houvesse lido. Ayres comparou-as, lendo duas vezes a da moça para ver se ella escondia mais do que transparencia do papel. Em summa, confiava no remedio.

—Não os vendo, esquece-os, pensou elle; e se na visinhança houver alguem que pense em gostar della, é possivel que acabe casando.

Respondeu a ambas, na mesma noite, dizendo-lhes que na quinta-feira iria almoçar com ellas. A D. Claudia escreveu mandando-lhe a carta da irmã, e foi passar a noite em casa de Natividade, a quem deu a ler as cinco cartas. Natividade approvou tudo. Notava só que os filhos não lhe escreviam, e deviam estar desesperados.

—A Santa Casa cura, e a Bibliotheca Nacional tambem, retorquiu Ayres.

Na quinta feira, Ayres desceu e foi almoçar a Andarahy. Achou-as como as tinha lido nas cartas. Interrogou-as separadamente para ouvir por bôca as confissões do papel; eram as mesmas. D. Rita parecia ainda mais encantada. Talvez a causa recente fosse a confidencia que fez a moça, na vespera. Como falassem de cabellos, D. Rita referiu o que tambem consta do cap. XXXII, isto é, que cortára os seus para os metter no caixão do marido, quando o levaram a enterrar. Flora não a deixou acabar; pegou-lhe das mãos e apertou-as muito.

—Nenhuma outra viuva faria isto, disse ella.

Aqui foi D. Rita que lhe pegou nas mãos, pôl-as sobre os seus hombros, e concluiu o gesto por um abraço. Todas as pessoas louvaram-lhe a abnegação do acto; esta era a primeira que a achou unica. E dahi outro abraço longo, mais longo...

CAPITULO C

Duas cabeças

Tão longo foi o abraço que tomou o resto ao capitulo. Este começa sem elle nem outro. O mesmo aperto de mão de Ayres e Flora, se foi demorado, tambem acabou. O almoço fez gastar algum tempo mais que de costume, porque Ayres, além de conversador emerito, não se fartava de ouvir as duas, principalmente a moça. Achava-lhe um toque de languidez, abatimento ou cousa proxima, que não encontro no meu vocabulario.

Flora mostrou-lhe os desenhos que fizera, paisagens, figuras, um pedaço da estrada da Tijuca, um chafariz antigo, um Principio de casa. Era umas dessas casas, que alguem começou muitos annos antes, e ninguem acabou, ficando só duas ou trez paredes, ruina sem historia. Havia ainda outros desenhos, uma revoada de passaros, um vaso á janella. Ayres ia folheando, cheio de curiosidade e paciencia; a intenção da obra suppria a perfeição, e a fidelidade devia ser approximada. Emfim, a moça atou os cordões á pasta. Ayres, parecendo-lhe que ficara um desenho ultimo r escondido, pediu que lh'o mostrasse.

—É um esboço, não vale a pena.

—Tudo vale a pena; quero acompanhar as tentativas da artista; deixe ver.

—Não vale a pena...

Ayres insistiu; ella não pôde recusar mais tempo, abriu a pasta, e tirou um pedaço de papel grosso em que estavam desenhadas duas cabeças juntas e eguaes. Não teriam a perfeição desejada por ella; não obstante, dispensavam os nomes. Ayres considerou a obra, durante alguns minutos, e duas ou trez vezes levantou os olhos para a autora. Flora já os esperava, interrogativa; queria ouvir o louvor ou a critica, mas não ouviu nada. Ayres acabou de observar as duas cabeças, e pousou o desenho entre os papeis.

—Não lhe dizia que era um esboço? perguntou Flora, a ver se lhe arrancava uma palavra.

Mas o ex-ministro preferiu não dizer nada. Em vez de achar quasi extincta a influencia dos gemeos, vinha dar com ella feita consolação da ausencia, tão viva que bastava a memoria, sem presença dos modelos. As duas cabeças estavam ligadas por um vinculo escondido. Flora, vendo continuar o silencio de Ayres, comprehendeu acaso parte do que lhe passava no espirito. Com um gesto prompto, pegou do desenho e deu-lh'o. Não lhe disse nada, menos ainda escreveu qualquer palavra. Qualquer que fosse, seria indiscreta. De mais, era o unico desenho a que ella não pôz assignatura. Deu-lh'o como se fôra um penhor de arrependimento. Em seguida, atou novamente as fitas da pasta, emquanto Ayres, rasgava calado o desenho e mettia os pedaços no bolso. Flora ficou por um instante parada, bôca entre-aberta, mas logo lhe apertou a mão, agradecida. Não pôde evitar que lhe caissem duas pequeninas lagrimas,—como outras tantas fitas que lhe atavam para sempre a pasta do passado.

A imagem não é boa, nem verdadeira; foi a que acudiu ao conselheiro, andando, ao voltar de Andarahy. Chegou a escrevel-a no Memorial, depois riscou-a, e escreveu uma reflexão menos definitiva: «Talvez seja uma lagrima para cada gemeo.»

—Póde acabar com o tempo, pensou elle indo para a barca de Petropolis. Não importa; é um caso embrulhado.

CAPITULO CI

O caso embrulhado

Tambem os gemeos achavam o caso embrulhado. Quando iam a S. Clemente, tinham noticias da moça, sem que lhes déssem certeza do regresso. O tempo andava; não tardaria que consultassem a sorte, como dous antigos.

A rigor, não contavam as semanas de interrupção, uma vez que a escolha se não dava, e elles podiam trazer da consulta o contrario da inclinação definitiva da moça. Reflexão justa, posto que interessada. Cada um delles não queria mais que prolongar a batalha, esperando vencel-a. Entretanto, não confiavam um do outro este pensamento gemeo, como elles. Ambos se iam sentindo exclusivos, a affeição tinha agora o seu pudor e necessidade de calar. Já não falavam de Flora.

Nem só de Flora. Crescendo a opposição, recorriam ao silencio. Evitavam-se; se podiam, não comiam juntos; se comiam juntos, diziam pouco ou nada. Às vezes, falavam para tirar aos criados qualquer suspeita, mas não advertiam que falavam mal e forçadamente, e que os criados iam commentar as palavras e a expressão delles na copa. A satisfação com que estes communicavam os seus achados e conclusões é das poucas que adoçam o serviço domestico, geralmente rude. Não chegavam, porém, ao ponto de concluir tudo o que os ia tornando cada vez mais avessos, a ponto de odio que crescia com a ausencia da mãe. Era mais que Flora, como sabeis; eram as proprias pessoas inconciliaveis. Um dia houve na copa e na cozinha grande novidade, Pedro, a pretexto de sentir mais calor que Paulo, mudou de quarto e foi dormir mal em outro não menos quente que o primeiro.

CAPITULO CII

Visão pede meia sombra

Entretanto, a bella moça não os tirava da mesma alcova sua, por mais que buscasse devéras fugir-lhes. A memoria os trazia pela mão, elles entravam e ficavam. Iam depois embora, ou de si mesmos, ou empurrados por ella. Quando tornavam, era de sorpresa. Um dia, Flora aproveitou a presença para fazer um desenho egual ao que dera ao conselheiro, mais perfeito agora, muito mais acabado.

Tambem cançava. Então saía do quarto e ia para o piano. Elles iam com ella, sentavam-se aos lados ou ficavam defronte, em pé, e ouviam com attenção religiosa, ora um nocturno, ora uma tarantella. Flora tocava ao sabor de ambos, sem deliberação; os dedos é que obedeciam á mecanica da alma. Para os não ver, inclinava a cabeça sobre o teclado; mas o campo da visão os guardava, se não era a respiração que se fazia sentir defronte ou dos lados. Tal era a subtileza dos seus sentidos.

Se fechava o piano e descia ao jardim, succedia muita vez que os ia achar alli, passeando, e a comprimentavam com tão boa sombra, que ella esquecia por instantes a impaciencia. Depois, sem que os mandasse, iam embora. Nos primeiros tempos. Flora tinha medo que a houvessem abandonado de todo, e chamava-os dentro de si. Ambos tornavam logo, tão doceis, que ella acabou de se convencer que a fuga não era fuga. nem elles sentiam desprezo, e não os evocou mais. No jardim era mais rapido o desapparecimento, talvez pela extrema claridade do logar. Visão pede meia sombra.

CAPITULO CIII

O quarto

Sei, sei, trez vezes sei que ha muitas visões dessas nas paginas que lá ficam. Ulysses confessa a Alcinoos que lhe é enfadonho contar as mesmas cousas. Tambem a mim. Sou, porém, obrigado a ellas, porque sem ellas a nossa Flora seria menos Flora, seria outra pessoa que não conheci. Conheci esta, com as suas obsessões ou como quer que lhes chames.

Nem por isso, nem ainda porque houvesse colhido algum abatimento e nervos, deixava Flora de enfeitar muito, de se fazer mais linda, e ter mais de um namorado incognito, que suspirava por ella. Não faltava quem a admirasse de passagem, e fosse vel-a, quando menos, no banco verde, á porta do jardim, ao pé da irmã de Ayres. Póde ser que conhecesse algum, Gouvêa, por exemplo; em verdade, era como se os não visse.

Um delles valia mais que todos pela carruagem,—tirada por uma bella parelha de cavallos,—capitalista do bairro. A casa delle era um palacete, os moveis feitos na Europa, estylo imperio, apparelhos de Sèvres e de prata, tapetes de Smyrna, e uma vasta camara com dous leitos, um de solteiro, outro de casados. O segundo esperava a esposa.

—A esposa ha de ser esta, pensou elle um dia, ao ver Flora.

Era maduro; trazia o rosto batido dos ventos da vida, a despeito das muitas aguas de toucador; ao corpo faltava aprumo, e as maneiras não tinham graça nem naturalidade. Era o Nobrega, aquelle da nota de dous mil reis, nota fecunda, que deitou de si muitas outras, mais de dous mil contos de reis. Para as notas recentes, a avó perdia-se na noite dos tempos. Agora os tempos eram claros, a manhã doce e pura.

Quando viu a moça, e fez a reflexão que lá fica, extranhou-se a si proprio. Vira outras damas, e mais de uma com escriptos nos olhos, dizendo-lhe o vasio do coração. Esta era a primeira que veramente lhe prendeu a vontade e lhe deteve o pensamento. Tornou a vêl-a; a gente visinha notou porv'entura a frequencia recente do capitalista. Emfim, Nobrega acabou por se fazer entrado na casa de D. Rita, com desgosto dos seus habituados, que assim se viam esquecidos do amphytrião. Nobrega, entretanto, dera ordens bastantes para que fossem todos servidos e agazalhados, como se elle estivesse presente.

A ausencia não lhe faria perder as loas dos amigos. Ao contrario, os servos podiam dar testemunho do que todos elles pensavam do «grande homem.» Tal era o nome que lhe applicara o secretario particular, e pegou. Nobrega sabia pouca orthographia, nenhuma syntaxe, licções uteis, de certo, mas que não valiam a moral, e a moral, diziam todos, acompanhando o secretario, era o seu principal e maior merito. O fiel escriba accrescentava, que sendo preciso despir a camisa e dal-a a um mendigo, Nobrega o faria, ainda que a camisa fosse bordada.

Agora mesmo, este amor era, ao cabo, um movimento de caridade. Em pouco tempo, aquelle gosto de relance passou a grande paixão, tão grande que elle não a pôde conter, e resolveu confessal-a. Hesitou se o faria á propria moça ou á dona da casa. Não tinha animo para uma nem outra. Uma carta suppria tudo, mas a carta pedia lingua, calor e respeito. Se, ao menos, o gesto de Flora lhe dissesse alguma cousa, ainda que pouca, vá; a carta seria então uma resposta. Mas não lhe dizia nada o gesto da moça. Era só cortez e gracioso; não ia além dessas duas expressões.

D. Rita percebeu a inclinação de Nobrega e achou que era a melhor solução da vida para a hospede. Todas as incertezas, angustias e melancolias vinham acabar nos braços de um ricasso, estimado, respeitado, dentro de um palacete com uma carruagem ás ordens... Ella mesma punha em relevo este premio grande da loteria de Hespanha.

Emfim, o secretario de Nobrega redigiu com a melhor linguagem que possuia uma carta em que o capitalista pedia a D. Rita o favor de consultar a moça amada.

—Não escreva palavrinhas doces, recommendou elle ao secretario. Gósto dessa moça com um sentimento de protecção, antes que outra cousa. Não é carta de namorado. Estylo grave...

—Uma carta secca, concluiu o secretario.

—Totalmente secca, não, emendou Nobrega, uma carta lisongeira, sem esquecer que não sou creança.

Assim se cumpriu. Ia a cumprir-se demais; Nobrega achou que o estylo podia ser um tanto ameno; não fazia mal pôr duas ou trez palavras apropriadas ao objecto, belleza, coração, sentimento... Assim se cumpriu fmalmente, e a carta foi levada ao seu destino. D. Rita ficou contentissima. Justamente o que ella queria. Tinha o plano feito de concluir, por acto seu, uma historia melancolica, a que daria, por derradeira pagina, conclusão deslumbrante. Não pensou em dizel-o primeiro ao irmão, pela razão de querer que elle recebesse a noticia completa, tudo feito e acabado. Releu a carta; dispoz-se a ir logo, mas ha pessoas para quem o adagio que diz que «o melhor da festa é esperar por ella», resume todo o prazer da vida. D. Rita tinha essa opinião. Todavia, entendeu que taes cartas não são das que se guardam largo tempo, nem aliás das que se communicam sem cautella. Esperou vinte e quatro horas. Na manhã seguinte, depois de almoçadas, leu a carta á moça. O natural é que Flora ficasse espantada. Ficou, mas não tardou que risse, de um riso franco e sonoro, como ainda não rira em Andarahy. D. Rita ficou espantadissima. Suppunha que, não a pessoa, mas as vantagens e circumstancias pleiteassem a favor do candidato. Esquecia os seus cabellos entregues á sepultura do marido. Deu conselhos á moça, poz em relevo a posição do pretendente, o presente e o futuro, a situação esplendida que lhe dava este casamento, e por fim as qualidades moraes de Nobrega. A moça escutou calada, e acabou rindo outra vez.

—A senhora sabe se serei feliz? perguntou.

—Creio que sim; agora, o futuro é que confirmará ou não.

—Esperemos que o futuro chegue, comquanto me pareça muito demorado. Não nego as qualidades daquelle homem, parece bom, e trata-me bem, mas eu não quero casar, D. Rita.

—Realmente, a edade... Mas nem, ao menos, quer pensar alguns dias?

—Está pensado.

D. Rita ainda esperou um dia. A resposta negativa, dado que Flora viesse a mudar de opinião, podia ser uma desgraça para esta. Uso os proprios termos della, comsigo, grande desgraça, posição esplendida, sentimento profundo. D. Rita ia aos extremos, deante daquelle rico-homem dos ultimos annos do seculo.

CAPITULO CIV

A resposta

Não querendo dar a resposta nua e crua, D. Rita consultou a moça, que lhe respondeu simplesmente:

—Diga que não pretendo casar.

Quando Nobrega recebeu as poucas linhas que D. Rita lhe mandou, ficou assombrado. Não contava com recusa. Ao contrario, era tão certa a acceitação que elle tinha já um programma do noivado. Imaginava a moça, os olhos timidos, a bôca cerrada, o veu que lhe cobriria a linda carinha, a delicadeza delle, as palavras que lhe diria entrando em casa. Tinha já composto uma invocação á Mãe Santíssima, para que os fizesse felizes. «Dou-lhe carro, dizia comsigo, joias, muitas joias, as melhores joias do mundo... » Nobrega não fazia ideia exacta do mundo; era uma expressão. «Hei de dar-lhe tudo, sapatinhos de seda, meias de seda, que eu mesmo lhe calçarei...» Estremecia de cór, ao calçar-lhe as meias. Beijava-lhe os pés e os joelhos.

Tinha imaginado que ella, ao ler a carta, devia ficar tão pasmada e agradecida, que nos primeiros instantes não pudera responder a D. Rita; mas logo depois as palavras sairiam do coração ás golfadas. «Sim, senhora, queria, acceitava; não pensara em outra cousa.» Escreveria logo ao pae e á mãe para lhes pedir licença; elles viriam correndo, incredulos, mas, vendo a carta, ouvindo a filha e D. Rita, não duvidariam da verdade, e dariam o consentimento. Talvez o pae lh'o fosse dar em pessoa. E nada, nada, nada, absolutamente nada, uma simples recusa, uma recusa atrevida, porque em fim quem era ella, apesar da belleza? Uma creatura sem vintem, modestamente vestida, sem brincos, nunca lhe vira brincos ás orelhas, duas perolasinhas que fossem. E porque é que lhe furaram as orelhas, se não tinham brincos que lhe dar? Considerou que ás mais pobres meninas do mundo furam as orelhas para os brincos que lhes possam cair do céu. E vem esta, e recusa os mais ricos brincos que o céu ia chover sobre ella...

Ao jantar, os amigos da casa notaram que elle estava preoccupado. De noite, elle e o secretario sairam a pé. Nobrega buscou em si o gesto mais frio e indifferente que pôde, quasi alegre, e annunciou ao secretario que Flora não queria casar. Não se descreve a admiração do secretario, em seguida a consternação, finalmente a indignação. Nobrega respondia magnanimo:

—Não foi por mal; foi talvez por se julgar abaixo, muito abaixo da fortuna. Creia que é boa moça. Póde ser tambem, quem sabe? Por ter sido um mau conselho do coração. Aquella moça é doente.

—Doente?

—Não affirmo; digo que póde ser.

O secretario affirmou.

—Só a doença, disse elle, explicará a ingratidão, por que o acto é de pura ingratidão.

Aqui tornou a nota da indignação, nota sincera, como as outras. Nobrega gostou de ouvil-a; era um compadecimento. No fim, cumpriu a ideia que trazia ao sair de casa; augmentou-lhe o ordenado. Podia ser a paga da sympathia; o beneficiado foi mais longe, achou que era o preço do silencio, e ninguem soube de nada.

CAPITULO CV

A realidade

A molestia, dada por explicação á recusa do casamento, passou á realidade dahi a dias. Flora adoeceu levemente; D. Rita, para não alarmar os paes, cuidou de a tratar com remedios caseiros; depois, mandou chamar um medico, o seu medico, e a cara que este fez não foi boa, antes má. D. Rita, que costumava ler a gravidade das suas molestias no rosto delle, e sempre as achava gravissimas, cuidou de avisar os paes da moça. Os paes viéram logo. Natividade tambem desceu de Petropolis, não de vez; em cima, tinham medo de algum movimento cá embaixo. Veiu a visitar a moça, e, a pedido desta, ficou alguns dias.—Só a senhora me póde curar, disse Flora; não creio nos remedios que me dão. As suas palavras é que são boas, e os seus carinhos... Mamãe tambem, e D. Rita, mas não sei, ha uma differença, uma cousa... Veja: parece-me que até já rio.

—Já, já; ria mais.

Flora sorriu, ainda que daquelle sorriso descorado que apparece na bôca do enfermo, quando a molestia consente, ou elle fórça a seriedade propria da dôr. Natividade dizia-lhe palavras de animação; fel-a prometter que iria convalecer em Petropolis. A enfermidade começou a ceder. D. Claudia acceitou a offerta de D. Rita, e lá ficou aposentada. Natividade ia á noite para Botafogo e voltava de manhã. Ayres descia de Petropolis um dia sim, um dia não.

Tambem os gemeos lá iam saber da enferma. Agora mais que d'antes, sentiam a fortaleza do vinculo que os prendia á moça. Pedro, já medico, ainda que sem pratica, punha mais autoridade nas perguntas, concluia melhor dos symptomas, mas as esperanças e os receios eram de ambos. Algumas vezes, falavam mais alto que de costume e de conveniencia. A razão, por egoista que fosse, era perdoavel. Suppõe que os cartões de visita falassem; alguns, mais soffregos, proclamariam os seus nomes, para que soubessem logo da presença, da cortezia e da anciedade. Tal cuidado da parte dos dous era inutil, porque ella sabia delles e recebia as lembranças que lhe deixavam.

Flora ia assim passando os dias. Queria Natividade sempre ao pé de si, pela razão que já deu, e por outra que não disse, nem porventura soube, mas podemos suspeital-a e imprimir. Estava alli o ventre abençoado que gerára os dous gemeos. De instincto, achava nella algo particular. Quanto ao influxo que exercia nella, por essa ou qualquer outra causa, não a sabia Natividade; contentava-se em ver que, ainda agora, e em tal crise, Flora não perdera a amizade que lhe tinha. Passavam as horas juntas, falando, se não fazia mal falar, ou então uma com as mãos da outra entre as suas. Quando Flora adormecia, Natividade ficava a contemplal-a, com o rosto pallido, os olhos fundos, as mãos quentes, mas sem perder a graça dos dias da saúde. As outras entravam no quarto, pé ante pé, esticavam os pescoços para vel-a dormir, falavam por gestos ou tão baixo que só o coração as adivinharia.

Quando pareceu melhorar, Flora pediu um pouco mais de luz e de céu. Uma das duas janellas foi então escancarada, e a enferma encheu-se de vida e riso. Não é que a Febre se fosse de todo. Essa bruxa livida estava ao canto do quarto, com os olhos espetados nella; mas, ou de cançada, ou por obrigação imposta, cochilava a miudo, e longamente. Então a enferma sentia só o calor do Mal, que o medico graduava em trinta e nove ou trinta e nove e meio, depois de consultar o thermometro. A Febre, ao ver esse gesto, ria sem escandalo, ria para si.

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