MACHADO DE ASSIS (continued 2)
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Pedro quiz responder ao remoque do irmão, e propoz comprar o retrato de Pedro I. Quando o logista tornou a si, começou a negociar a venda, mas não poderam entender-se no preço; Pedro dava os mesmos oitocentos reis do outro, o logista pedia dous mil reis. Notava-lhe que estava encaixilhado, e Luiz XVI não; além disso, era mais novo. E vinha á porta, a buscar melhor luz, chamava-lhe a attenção para o rosto, os olhos principalmente, que bella expressão que tinham! E o manto imperial...
—Que lhe custa dar dous mil reis?
—Dou-lhe dez tostões; serve?
—Não serve. Mais que isso me custou elle.
—Pois então...
—Veja sempre. Pois isto não vale até trez mil reis? 0 papel não está encardido; a gravura é fina.
—Dez tostões, já disse.
—Não, senhor. Olhe, por dez tostões leve este de D. Miguel; o papel está bem conservado, e, com pouco dinheiro, manda lhe pôr um caixilho. Vá; dez tostões.
—Se eu já estou arrependido... Dez tostões pelo imperador.
—Ah! isso não! Custou-me mil e setecentos, ha trez semanas; ganho uns trezentos reis, quasi nada. Ganho menos com o senhor D. Miguel, mas tambem concordo que é menos procurado. Este de D. Pedro I, se passar amanhã, talvez já o não ache. Vá, sim?
—Eu passo depois.
Paulo já ia andando e mirando Robespierre; Pedro alcançou-o.
—Olhe, leve por sete tostões o senhor D. Miguel!
Pedro abanou a cabeça.
—Seis tostões serve?
Pedro, ao lado do irmão, desenrolára a sua gravura. O velho logista quiz ainda bradar: «Cinco tostões!» mas iam já longe, e ficava mal negociar assim.
CAPITULO XXV
D. Miguel
—Assim como assim, ficou pensando o velho, não ha de ser enrolado e guardado que o hei de vender; vou mandal-o encaixilhar; põem-se-lhe aqui umas taboinhas velhas...
D. Miguel voltou para elle os olhos turvos de tristeza e reproche; assim lhe pareceu ao vidraceiro, mas podia ter sido illusão. Em todo caso, pareceu tambem que os olhos tornavam ao seu logar, fitando á direita, ao longe... Para onde? Para onde ha justiça eterna, cuidou naturalmente o dono. Como estivesse a contemplal-o, á porta, parou um homem, entrou, e olhou com interesse para o retrato. O logista reparou na expressão; podia ser algum miguelista, mas tambem podia ser um colleccionador...
—Quanto pede o senhor por isto?
—Isto? Ha de perdoar; quer saber quanto peço pelo meu rico senhor D. Miguel? Não peço muito, está um tanto encardido, mas ainda se lhe aprecia bem a figura. Que soberba que ella é! Não é caro; dou-lhe pelo custo; se estivesse encaixilhado, valeria uns quatro mil reis. Leve-o por trez.
O freguez tirou tranquillamente o dinheiro do bolso, emquanto o velho enrolava o retrato, e, trocados um por outro, despediram-se cortezes e satisfeitos; o logista, depois de ir até a porta, tornou á cadeira do costume. Talvez pensasse no mal a que escapára, se vendesse o retrato por dez tostões. Em todo caso, ficou a olhar para fóra, para longe, para onde ha justiça eterna... Trez mil reis!
CAPITULO XXVI
A luta dos retratos
Quasi que não é preciso dizer o destino dos retratos do rei e do convencional. Cada um dos pequenos pregou o seu á cabeceira da cama. Pouco durou esta situação, porque ambos faziam pirraças ás pobres gravuras, que não tinham culpa de nada. Eram orelhas de burro, nomes feios, desenhos de animaes, até que um dia Paulo rasgou a de Pedro, e Pedro a de Paulo. Naturalmente, vingaram-se a murro; a mãe ouviu rumor e subiu apressada. Conteve os filhos, mas já os achou arranhados e recolheu-se triste. Nunca mais acabaria aquella maldição de rivalidade? Fez esta pergunta calada, atirada á cama, a cara mettida no travesseiro, que desta vez ficou secco, mas a alma chorou.
Natividade confiava na educação, mas a educação, por mais que ella a apurasse, apenas quebrava as arestas ao caracter dos pequenos, o essencial ficava; as paixões embryonarias trabalhavam por viver, crescer, romper, taes quaes ella sentira os dous no proprio seio, durante a gestação... E recordava a crise de então, acabando por maldizer da cabocla do Castello. Realmente, a cabocla devia ter calado; o mal calado não se muda, mas não se sabe. Agora, póde ser que isto de não calar confirme a opinião de que a cabocla era mandada por Deus para dizer a verdade aos homens. E afinal o que é que ella disse a Natividade? Não fez mais que uma pergunta mysteriosa; a predicção é que foi luminosa e clara... E outra vez as palavras do Castello resoaram aos ouvidos da mãe, e a imaginação fez o resto. Cousas futuras! Eil-os grandes e sublimes. Algumas brigas em pequenos, que importa? Natividade sorriu, ergueu-se, foi á porta, deu com o filho Pedro, que vinha explicar-se.
—Mamãe, Paulo é mau. Se mamãe ouvisse os horrores que elle solta pela bôca fóra, mamãe morria de medo. Custa-me muito não ir á cara delle; ainda lhe não tirei um olho...
—Meu filho, não fales assim, é teu irmão.
—Pois que não se metta commigo, não me aborreça. Que blasphemias que elle dizia! Como eu rezava por alma de Luiz XVI, elle, para machucar-me bem, rezava a Robespierre; compoz uma ladainha chamando santo ao outro e cantarolava baixinho para que papae nem mamãe ouvissem. Eu sempre lhe dei alguns cascudos...
—Ahi está!
—Mas é que elle é que me dava primeiro, porque eu punha orelhas de burro em Robespierre... Então, eu havia de apanhar calado?
—Nem calado, nem falando.
—Então, como? Apanhar sempre, não é?
—Não, senhor; não quero pancadas; o melhor é que esqueçam tudo e se queiram bem. Você não vê como seus paes se querem? As brigas acabaram de todo. Não quero ouvir rusgas nem queixas. Afinal que tem vocês com um sujeito mau que morreu ha tantos annos?
—É o que eu digo, mas elle não se emenda.
—Ha de emendar-se; os estudos fazem esquecer creancices. Você tambem quando fôr medico tem muito que brigar com as molestias e a morte; é melhor que andar dando pancada em seu irmão... Que é lá isso? Não quero arremeços, Pedro! Socegue, ouça-me.
—Mamãe é sempre contra mim.
—Não sou contra nenhum, sou por ambos, ambos são meus filhos. E demais gemeos. Anda cá, Pedro. Não penses que eu desapprovo as tuas opiniões politicas. Até gósto; são as minhas, são as nossas. Paulo ha de tel-as tambem. Na edade delle acceita-se quanta tolice ha, mas o tempo corrige. Olha, Pedro, a minha esperança é que vocês sejam grandes homens, mas com a condição de serem tambem grandes amigos.
—Eu estou prompto a ser grande homem, assentiu Pedro com ingenuidade, quasi com resignação.
—E grande amigo tambem.
—Se elle fôr, serei.
—Grandes homens! exclamou Natividade, dando-lhe dous abraços, um para elle, outro para o irmão quando viesse.
Mas Paulo veiu logo, e recebeu o abraço inteiro e de verdade. Vinha tambem queixar-se, e sempre resmungou alguma cousa, mas a mãe não quiz ouvil-o, e falou outra vez a linguagem das grandezas. Paulo consentiu tambem em ser grande.
—Você será medico, disse Natividade a Pedro, e você advogado. Quero ver quem faz as melhores curas, e ganha as peiores demandas.
—Eu, disseram ambos a um tempo.
—Patetas! Cada um terá a sua carreira especial, a sua sciencia differente. Já estão curados do nariz? Já; não ha mais sangue. Agora o primeiro que ferir seu irmão será degradado.
Foi um recurso habil separal-os; um ficava no Rio, estudando medicina, outro ia para S. Paulo, estudar direito. O tempo faria o resto, não contando que cada um casava e iria com a mulher para o seu lado. Era a paz perpetua; mais tarde viria a perpetua amizade.
CAPITULO XXVII
De uma reflexão intempestiva
Eis aqui entra uma reflexão da leitora: «Mas se duas velhas gravuras os levam a murro e sangue, contentar-se-hão elles com a sua esposa? Não quererão a mesma e unica mulher?»
O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capitulo do amor ou dos amores, que é o seu interesse particular nos livros. Dahi a habilidade da pergunta, como se dissesse: «Olhe que o senhor ainda nos não mostrou a dama ou damas que têm de ser amadas ou pleiteadas por estes dous jovens inimigos. Já estou cançada de saber que os rapazes não se dão ou se dão mal; é a segunda ou terceira vez que assisto ás blandicias da mãe ou aos seus ralhos amigos. Vamos depressa ao amor, ás duas, se não é uma só a pessoa...»
Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escripto com methodo. A insistencia da leitora em falar de uma só mulher chega a ser impertinente. Supponha que elles devéras gostem de uma só pessoa; não parecerá que eu conto o que a leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas escrevo o que succedeu e póde ser confirmado por dezenas de testemunhas? Não, senhora minha, não puz a penna na mão, á espreita do que me viessem suggerindo. Se quer compôr o livro, aqui tem a penna, aqui tem papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler sómente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha; dou-lhe que boceje entre dous capitulos, mas espere o resto, tenha confiança no relator destas aventuras.
CAPITULO XXVIII
O resto é certo
Sim, houve uma pessoa, mais moça que elles, um a dous annos, que os agrilhoou, á força de costume ou de natureza, se não foi de ambas as cousas. Antes d'essa, póde ser que houvesse outras e mais velhas que elles, mas de taes não rezam as notas que servem a este livro. Se brigaram por ellas, não ficou memoria disso, mas é possivel, dado que tivessem tido as mesmas preferencias; no caso contrario tambem, como succedia aos cavalleiros que defendiam a sua dama.
Conjecturas tudo. Era natural que, assim bonitos, eguaes, elegantes, dados á vida e ao passeio, á conversação e á dança, finalmente herdeiros, era natural que mais de uma menina gostasse delles. As que os viam passar a cavallo, praia fóra ou rua acima, ficavam namoradas daquella ordem perfeita de aspecto e de movimento. Os proprios cavallos eram eguaesinhos, quasi gemeos, e batiam as patas com o mesmo rythmo, a mesma força e a mesma graça. Não creias que o gesto da cauda e das crinas fosse simultaneo nos dous animaes; não é verdade e póde fazer duvidar do resto. Pois o resto é certo.
CAPITULO XXIX
A pessoa mais moça
A pessoa mais moça não entra já neste capitulo por uma razão valiosa, que é a conveniencia de apresentar primeiro os paes. Não é que se não possa vel-a bem sem elles; póde-se, os trez são diversos, acaso contrarios, e, por mais especial que a acheis, não é preciso que os paes estejam presentes. Nem sempre os filhos reproduzem os paes. Camões affirmou que de certo pae só se podia esperar tal filho, e a sciencia confirma esta regra poetica. Pela minha parte creio na sciencia como na poesia, mas ha excepções, amigo. Succede, ás vezes, que a natureza faz outra cousa, e nem por isso as plantas deixam de crescer e as estrellas de luzir. O que se deve crêr sem erro é que Deus é Deus; e, se alguma rapariga arabe me estiver lendo, ponha-lhe Allah. Todas as linguas vão dar ao céu.
CAPITULO XXX
A gente Baptista
A gente Baptista conheceu a gente Santos em não sei que fazenda da provincia do Rio. Não foi Maricá, embora alli tivesse nascido o pae dos gemeos; seria em qualquer outro municipio. Fosse qual fosse, alli é que se conheceram as duas familias, e como morassem proximas em Botafogo, a assiduidade e a sympathia vieram ajudando o caso fortuito.
Baptista, o pae da donzella, era homem de quarenta e tantos annos, advogado do civel, ex-presidente de provincia e membro do partido conservador. A ida á fazenda tivera por objecto exactamente uma conferencia politica para fins eleitoraes, mas tão esteril que elle tornou de lá sem, ao menos, um ramo de esperança. Apesar de ter amigos no governo, não alcançára nada, nem deputação, nem presidencia. Interrompêra a carreira desde que foi exonerado daquelle cargo «a pedido», disse o decreto, mas as queixas do exonerado fariam crêr outra cousa. De facto, perdera as eleições, e attribuia a esse desastre politico a demissão do cargo.
—Não sei o que é que elle queria que eu fizesse mais, dizia Baptista falando do ministro. Cerquei egrejas; nenhum amigo pediu policia que eu não mandasse; processei talvez umas vinte pessoas, outras foram para a cadeia sem processo. Havia de enforcar gente? Ainda assim houve duas mortes no Ribeirão das Moças.
O final era excessivo, porque as mortes não fôram obra delle; quando muito, elle mandou abafar o inquerito, si se póde chamar inquerito a uma simples conversação sobre a ferocidade dos dous defuntos. Em summa, as eleições fôram incruentas.
Baptista dizia que por causa das eleições perdera a presidencia, mas corria outra versão, um negocio de aguas, concessão feita a um hespanhol, a pedido do irmão da esposa do presidente. O pedido era verdadeiro, a imputação de socio é que era falsa. Não importa; tanto bastou para que a folha da opposição dissesse que houve naquillo um bom «arranjo de familia», accrescentando que, como era de aguas, devia ser negocio limpo. A folha da administração retorquiu que, se aguas havia, não eram bastantes para lavar o sujo do carvão deixado pela ultima presidencia liberal, um fornecimento de palacio. Não era exacto; a folha da opposição reviveu o processo antigo e mostrou que a defeza fôra cabal. Podia parar aqui, mas continuou que, «como agora estavamos em Hespanha», o presidente emendou o poeta hespanhol, autor daquelle epitaphio:
Cuñados y juntos: Es cierto que estan difuntos;
e emendou-o por não ser obrigado a matar ninguem, antes deu vida a si e aos seus, dizendo pela nossa lingua:
Cunhados e cunhadissimos; É certo que são vivissimos!
Baptista acudiu depressa ao mal, declarando sem effeito a concessão, mas isso mesmo serviu á opposição para novos arremeços: «Temos a confissão do reu!» foi o titulo do primeiro artigo que rendeu á folha da opposição o acto do presidente. Os correspondentes tinham já escripto para o Rio de Janeiro falando da concessão, e o governo acabou por demittir o seu delegado. Em verdade, só os politicos cuidaram do negocio. D. Claudia apenas alludia á campanha da imprensa, que foi violentissima.
—Não valia a pena sair daqui, disse Natividade.
—Lá isso não, baroneza!
E D. Claudia affirmou que valia. Soffre-se, mas paciencia. Era tão bom chegar á provincia! Tudo annunciado, as visitas a bordo, o desembarque, a posse, os comprimentos... Ver a magistratura, o funcionalismo, a officialidade, muita calva, muito cabello branco, a flor da terra, emfim, com as suas cortezias longas e demoradas, todas em angulo ou em curva, e os louvores impressos. As mesmas descomposturas da opposição eram agradaveis. Ouvir chamar tyranno ao marido, que ella sabia ter um coração de pomba, ia bem á alma della. A sêde de sangue que se lhe attribuia, elle que nem bebia vinho, o guante de ferro de um homem que era uma luva de pellica, a immoralidade, a desfaçatez, a falta de brio, todos os nomes injustos, mas fortes, que ella gostava de ler, como verdades eternas, onde iam elles agora? A folha da opposição era a primeira que D. Claudia lia em palacio. Sentia-se vergastada tambem e tinha nisso uma grande volupia, como si fosse na propria pelle; almoçava melhor. Onde iam os lategos daquelle tempo? Agora mal podia ler o nome delle impresso no fim de algumas razões do foro, ou então na lista das pessoas que iam visitar o imperador.
—Nem sempre, explicou D. Claudia; Baptista é muito acanhado; vae de longe em longe a S. Christovão, para não parecer que se faz lembrado, como se isto fosse crime; ao contrario, não ir nunca é que póde parecer arrufo. Note que o imperador nunca deixou de recebel-o com muita benevolencia, e a mim tambem. Nunca esqueceu o meu nome. Já deixei de lá ir dous annos, e quando appareci, perguntou-me logo: «Como vae, D. Claudia?»
Afóra essas saudades do poder, D. Claudia era uma creatura feliz. A viveza das palavras e das maneiras, os olhos que pareciam não ver nada á força de não pararem nunca, e o sorriso benevolo, e a admiração constante, tudo nella era ajustado a curar as melancolias alheias. Quando beijava ou mirava as amigas era como se as quizesse comer vivas, comer de amor, não de odio, mettel-as em si, muito em si, no mais fundo de si.
Baptista não tinha as mesmas expansões. Era alto e o ar socegado dava um bom aspecto de governo. Só lhe faltava acção, mas a mullher podia inspirar-lh'a; nunca deixou de consultal-a nas crises da presidencia. Agora mesmo, se lhe désse ouvidos, já teria ido pedir alguma cousa ao governo, mas neste ponto era firme, de uma firmeza que nascia da fraqueza: «Hão de chamar-me, deixa estar,» dizia elle a D. Claudia, quando apparecia alguma vaga de governo provincial. Certo é que elle sentia a necessidade de tornar á vida activa. Nelle a politica era menos uma opinião que uma sarna; precisava coçar-se a miudo e com força.
CAPITULO XXXI
Flora
Tal era aquelle casal de politicos. Um filho, se elles tivessem um filho varão, podia ser a fusão das suas qualidades oppostas, e talvez um homem de Estado. Mas o céu negou-lhes essa consolação dynastica.
Tinham uma filha unica, que era tudo o contrario d'elles. Nem a paixão de D. Claudia, nem o aspecto governamental de Baptista distinguia a alma ou a figura da joven Flora. Quem a conhecesse por esses dias, poderia comparal-a a um vaso quebradiço ou á flor de uma só manhã, e teria materia para uma doce elegia. Já então possuia os olhos grandes e claros, menos sabedores, mas dotados de um mover particular, que não era o espalhado da mãe, nem o apagado do pae, antes mavioso e pensativo, tão cheio de graça que faria amavel a cara de um avarento. Põe-lhe o nariz aquilino, rasga-lhe a bôca meio risonha, formando tudo um rosto comprido, alisa-lhe os cabellos ruivos, e ahi tens a moça Flora.
Nasceu em agosto de 1871. A mãe, que datava por ministerios, nunca negou a edade da filha:
—Flora nasceu no ministerio Rio-Branco, e foi sempre tão facil de aprender, que já no ministerio Sinimbú sabia ler escrever correntemente.
Era retrahida e modesta, avêssa a festas publicas, e difficilmente consentiu em aprender a dançar. Gostava de musica, e mais do piano que do canto. Ao piano, entregue a si mesma, era capaz de não comer um dia inteiro. Ha ahi o seu tanto de exagerado, mas a hyperbole é deste mundo, e as orelhas da gente andam já tão entupidas que só á força de muita rhetorica se póde metter por ellas um sopro de verdade.
Até aqui nada ha que extraordinariamente distinga esta moça das outras, suas contemporaneas, desde que a modestia vae com a graça, e em certa edade é tão natural o devaneio como a travessura. Flora, aos quinze annos, dava-lhe para se metter comsigo. Ayres, que a conheceu por esse tempo, em casa de Natividade, acreditava que a moça viria a ser uma inexplicavel.
—Como diz? inquiriu a mãe.
—Verdadeiramente, não digo nada, emendou Ayres; mas, se me permitte dizer alguma cousa, direi que esta moça resume as raras prendas de sua mãe.
—Mas eu não sou inexplicavel, replicou D. Claudia sorrindo.
—Ao contrario, minha senhora. Tudo está, porem, na definição que dermos a esta palavra. Talvez não haja nenhuma certa. Supponhamos uma creatura para quem não exista perfeição na terra, e julgue que a mais bella alma não passa de um ponto de vista; se tudo muda com o o ponto de vista, a perfeição...
—A perfeição é copas, insinuou Santos.
Era um convite ao voltarete. Ayres não teve animo de acceitar, tão inquieta lhe pareceu Flora, com os olhos nelle, interrogativos, curiosos de saber porque é que ella era ou viria a ser inexplicavel. Além disso, preferia a conversação das mulheres. É delle esta phrase do Memorial: «Na mulher, o sexo corrige a banalidade; no homem, aggrava.»
Não foi preciso acceitar nem recusar o convite de Santos; chegaram dous habituados do jogo, e com elles Baptista, que estava na saleta proxima, Santos foi ao recreio de todas as noites. Um daquelles era o velho Placido, doutor em spiritismo; o segundo era um corretor da praça, chamado Lopes, que amava as cartas pelas cartas, e sentia menos perder dinheiro que partidas. Lá se fôram ao voltarete, emquanto Ayres ficava no salão, a ouvir a um canto as damas, sem que os olhos de Flora se despegassem d'elle.
CAPITULO XXXII
O aposentado
Já então este ex-ministro estava aposentado. Regressou ao Rio de Janeiro, depois de um ultimo olhar ás cousas vistas, para aqui viver o resto dos seus dias. Podia fazel-o em qualquer cidade, era homem de todos os climas, mas tinha particular amor á sua terra, e por ventura estava cançado de outras. Não attribuia a esta tantas calamidades. A febre amarella, por exemplo, á força de a desmentir lá fóra, perdeu-lhe a fé, e cá dentro, quando via publicados alguns casos, estava já corrompido por aquelle credo que attribue todas as molestias a uma variedade de nomes. Talvez porque era homem sadio.
Não mudára inteiramente; era o mesmo ou quasi. Encalveceu mais, é certo, terá menos carnes, algumas rugas; ao cabo, uma velhice rija de sessenta annos. Os bigodes continuam a trazer as pontas finas e agudas. O passo é firme, o gesto grave, com aquelle toque de galanteria, que nunca perdeu. Na botoeira, a mesma flor eterna.
Tambem a cidade não lhe pareceu que houvesse mudado muito. Achou algum movimento mais, alguma opera menos, cabeças brancas, pessoas defuntas; mas a velha cidade era a mesma. A propria casa delle no Cattete estava bem conservada. Ayres despediu o inquilino, tão polidamente como se recebesse o ministro dos negocios estrangeiros, e metteu-se nella a si e a um criado, por mais que a irmã teimasse em leval-o para Andarahy.
—Não, mana Rita, deixe-me ficar no meu canto.
—Mas eu sou a sua ultima parenta, disse ella.
—De sangue e de coração, isso é, concordou elle; póde accrescentar que a melhor de todas e a mais pia. Onde estão aquelles cabellos...? Não precisa baixar os olhos. Você os cortou para metter no caixão de seu finado marido. Os que ahi estão embranqueceram; mas os que lá ficaram eram pretos, e mais de uma viuva os teria guardado todos para as segundas nupcias.
Rita gostou de ouvir aquella referencia. Outr'ora, não; pouco depois de viuva, tinha vexame de um acto tão sincero; achava-se quasi ridicula. Que valia cortar os cabellos por haver perdido o melhor dos maridos? Mas, andando o tempo, entrou a ver que fizera bem, a approvar que lh'o dissessem, e, na intimidade, a lembral-o. Agora serviu a allusão para replicar:
—Pois se eu sou isso, porque é que você prefere viver com extranhos?
—Que extranhos? Não vou viver com ninguem. Viverei com o Cattete, o largo do Machado, a praia de Botafogo e a do Flamengo, não falo das pessoas que lá moram, mas das ruas, das casas, dos chafarizes e das lojas. Ha lá cousas exquisitas, mas sei eu se venho achar em Andarahy uma casa de pernas para o ar, por exemplo? Contentemo-nos do que sabemos. Lá os meus pés andam por si. Ha alli cousas petrificadas e pessoas immortaes, como aquelle Custodio da confeitaria, lembra-se?
—Lembra-me, a Confeitaria do Imperio.
—Ha quarenta annos que a estabeleceu; era ainda no tempo em que os carros pagavam imposto de passagem. Pois o diabo está velho, mas não acaba; ainda me ha de enterrar. Parece rapaz; apparece-me lá todas as semanas.
—Você tambem parece rapaz.
—Não brinque, mana; eu estou acabado. Sou um velho gamenho, pôde ser; mas não é por agradar a moças, é porque me ficou este geito... E a proposito, porque não vae você morar commigo?
—Ah! é para saber que tambem eu gosto de estar commigo. Irei lá de vez em quando, mas já não saio d'aqui, se não para o cemiterio.
Ajustaram visitar um ao outro; Ayres viria jantar ás quinta-feiras. D. Rita ainda lhe falou dos casos de molestia d'elle, ao que Ayres replicou que não adoecia nunca, mas se adoecesse viria para Andarahy; o coração della era o melhor dos hospitaes. Talvez que em todas essas recusas houvesse tambem a necessidade de fugir á contradicção, porque a irmã sabia inventar occasiões de dissidencia. Naquelle mesmo dia (era ao almoço) elle achou o café delicioso, mas a irmã disse que era ruim, obrigando-o a um grande esforço para tornar atraz e achal-o detestavel.
A principio, Ayres cumpriu a solidão, separou-se da sociedade, metteu-se em casa, não apparecia a ninguem ou a raros e de longe em longe. Em verdade estava cançado de homens e de mulheres, de festas e de vigilias. Fez um programma. Como era dado a letras classicas, achou no padre Bernardes esta traducção daquelle psalmo: «Alonguei-me fugindo e morei na soedade.» Foi a sua divisa. Santos, se lh'a dessem, fal-a-hia esculpir, á entrada do salão, para regalo dos seus numerosos amigos. Ayres deixou-a estar em si. Alguma vez gostava de a recitar calado, parte pelo sentido, parte pela linguagem velha: «Alonguei-me fugindo e morei na soedade.»
Assim foi a principio, Às quinta-feiras ia jantar com a irmã. Às noites passeava pelas praias, ou pelas ruas do bairro. O mais do tempo era gasto em ler e reler, compôr o Memorial ou rever o composto, para relembrar as cousas passadas. Estas eram muitas e de feição diversa, desde a alegria até a melancolia, enterramentos e recepções diplomaticas, uma braçada de folhas seccas, que lhe pareciam verdes agora. Alguma vez as pessoas eram designadas por um X ou ***, e elle não acertava logo quem fossem, mas era um recreio procural-as, achal-as e completal-as.
Mandou fazer um armario envidraçado, onde metteu as reliquias da vida, retratos velhos, mimos de governos e de particulares, um leque, uma luva, uma fita e outras memorias femininas, medalhas e medalhões, camafeus, pedaços de ruinas gregas e romanas, uma infinidade de cousas que não nomeio, para não encher papel. As cartas não estavam lá, viviam dentro de uma mala, catalogadas por letras, por cidades, por linguas, por sexos. Quinze ou vinte davam para outros tantos capitulos e seriam lidas com interesse e curiosidade. Um bilhete, por exemplo, um bilhete encardido e sem data, moço como os bilhetes velhos, assignado por iniciaes, um M e um P, que elle traduzia com saudades. Não vale a pena dizer o nome.
CAPITULO XXXIII
A solidão tambem cança
Mas tudo cança, até a solidão. Ayres entrou a sentir uma ponta de aborrecimento; bocejava, cochilava, tinha sede de gente viva, extranha, qualquer que fosse, alegre ou triste. Mettia-se por bairros excentricos, trepava aos morros, ia ás egrejas velhas, ás ruas novas, á Copacabana e á Tijuca. O mar alli, aqui o matto e a vista acordavam nelle uma infinidade de ecos, que pareciam as proprias vozes antigas. Tudo isso escrevia, ás noites, para se fortalecer no proposito da vida solitaria. Mas não ha proposito contra a necessidade.
A gente extranha tinha a vantagem de lhe tirar a solidão, sem lhe dar a conversação. As visitas de rigor que elle fazia eram poucas, breves e apenas faladas. E tudo isso fôram os primeiros passos. A pouco e pouco sentiu o sabor dos costumes velhos, a nostalgia das salas, a saudade do riso, e não tardou que o aposentado da diplomacia fosse reintegrado no emprego da recreação. A solidão, tanto no texto biblico, como na traducção do padre, era archaica. Ayres trocou-lhe uma palavra e o sentido; «Alonguei-me fugindo, e morei entre a gente.»
Assim se foi o programma da vida nova. Não é que elle já a não entendesse nem amasse, ou que a não praticasse ainda alguma vez, a espaços, como se faz uso de um remedio que obriga a ficar na cama ou na alcova; mas, sarava depressa e tornava ao ar livre. Queria ver a outra gente, ouvil-a, cheiral-a, gostal-a, apalpal-a, applicar todos os sentidos a um mundo que podia matar o tempo, o immortal tempo.
CAPITULO XXXIV
Inexplicavel
Assim o deixámos, ha apenas dous capitulos, a um canto da sala da gente Santos, em conversação com as senhoras. Has de lembrar-te que Flora não despegava os olhos delle, anciosa de saber porque é que a achava inexplicavel. A palavra rasgava-lhe o cerebro, ferindo sem penetrar. Inexplicavel que era? Que se não explica, sabia; mas que se não explica porquê?
Quiz perguntal-o ao conselheiro, mas não achou occasião, e elle saiu cedo. A primeira vez, porém, que Ayres foi a S. Clemente, Flora pediu-lhe familiarmente o obsequio de uma definição mais desenvolvida. Ayres sorriu e pegou na mão da mocinha, que estava de pé. Foi só o tempo de inventar esta resposta:
—Inexplicavel é o nome que podemos dar aos artistas que pintam sem acabar de pintar. Botam tinta, mais tinta, outra tinta, muita tinta, pouca tinta, nova tinta, e nunca lhes parece que a arvore é arvore, nem a choupana choupana. Se se trata então de gente, adeus. Por mais que os olhos da figura falem, sempre esses pintores cuidam que elles não dizem nada. E retocam com tanta paciencia, que alguns morrem entre dous olhos, outros matam-se de desespero.
Flora achou a explicação obscura; e tu, amiga minha leitora, se acaso és mais velha e mais fina que ella, póde ser que a não aches mais clara. Elle é que não accrescentou nada, para não ficar incluido entre os artistas daquella especie. Bateu paternalmente na palma da mão de Flora, e perguntou pelos estudos. Os estudos iam bem; como é que não iriam bem os estudos? E sentando-se ao pé delle, a mocinha confessou que tinha ideia justamente de aprender desenho e pintura, mas se havia de pôr tinta de mais ou de menos, e acabar não pintando nada, melhor seria ficar só na musica. A musica ia bem com ella, o francez tambem, e o inglez.
—Pois só a musica, o inglez e o francez, concordou Ayres.
—Mas o senhor promette que não me achará inexplicavel? pergunta ella com doçura.
Antes que elle respondesse, entrarám na sala os dous gemeos. Flora esqueceu um assumpto por outro, e o velho pelos rapazes. Ayres não se demorou mais que o tempo de a ver rir com elles, e sentir em si alguma cousa parecida com remorsos. Remorsos de envelhecer, creio.
CAPITULO XXXV
Em volta da moça
Já então os dous gemeos cursavam, um a Faculdade de Direito, em S. Paulo; outro a Escola de Medicina, no Rio. Não tardaria muito que saissem formados e promptos, um para defender o direito e o torto da gente, outro para ajudal-a a viver e a morrer. Todos os contrastes estão no homem.
Não era tanta a politica que os fizesse esquecer Flora, nem tanta Flora que os fizesse esquecer a politica. Tambem não eram taes as duas que prejudicassem estudos e recreios. Estavam na edade em que tudo se combina sem quebra de essencia de cada cousa. Lá que viessem a amar a pequena com egual força é o que se podia admittir desde já, sem ser preciso que ella os attrahisse de vontade. Ao contrario, Flora ria com ambos, sem rejeitar nem acceitar especialmente nenhum; póde ser até que nem percebesse nada. Paulo vivia mais tempo ausente. Quando tornava pelas férias, como que a achava mais cheia de graça. Era então que Pedro multiplicava as suas finezas para se não deixar vencer do irmão, que vinha prodigo dellas. E Flora recebia-as todas com o mesmo rosto amigo.
Note-se—e este ponto deve ser tirado á luz, —note-se que os dous gemeos continuavam a ser parecidos e eram cada vez mais esbeltos. Talvez perdessem estando juntos, porque a semelhança diminuia em cada um delles a feição pessoal. Demais, Flora simulava ás vezes confundil-os, para rir com ambos. E dizia a Pedro:
—Dr. Paulo!
E dizia a Paulo:
—Dr. Pedro!
Em vão elles mudávam da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Flora mudava os nomes tambem, e os trez acabávam rindo. A familiaridade desculpava a acção e crescia com ella. Paulo gostava mais de conversa que de piano; Flora conversava. Pedro ia mais com o piano que com a conversa; Flora tocava. Ou então fazia ambas as cousas, e tocava falando, soltava a rédea aos dedos e á lingua.
Taes artes, postas ao serviço de taes graças, eram realmente de accender os gemeos, e foi o que succedeu pouco a pouco. A mãe della cuido que percebeu alguma cousa; mas a principio não lhe deu grande cuidado. Tambem ella foi menina e moça, tambem se dividiu a si sem se dar nada a ninguem. Póde ser até que, a seu parecer, fosse um exercicio necessario aos olhos do espirito e da cara. A questão é que estes se não corrompessem, nem se deixassem ir atraz de cantigas, como diz o povo, que assim exprime os feitiços de Orpheu. Ao contrario, Flora é que fazia de Orpheu, ella é que era a cantiga. Opportunamente, escolheria a um delles, pensava a mãe.
A intimidade tinha intervallos grandes, além das ausencias obrigadas de Paulo. Apesar de não sair, Pedro não a buscava sempre, nem ella ia muita vez á casa da praia. Não se viam dias e dias. Que pensassem um no outro, é possivel; mas não possuo o menor documento disto. A verdade é que Pedro tinha os seus companheiros de escola, os namoros de rua e de aventura, os partidos de theatro, os passeios á Tijuca e outros arrabaldes. Ao demais, os dous gemeos estavam ainda no ponto de falar della nas cartas, louval-a, descrevel-a, dizer mil cousas doces, sem ciume.
CAPITULO XXXVI
A discordia não é tão feia como se pinta
A discordia não é tão feia como se pinta, meu amigo. Nem feia, nem esteril. Conta só os livros que tem produzido, desde Homero até cá, sem excluir... Sem excluir qual? Ia dizer que este, mas a Modestia acena-me de longe que pare aqui. Paro aqui; e viva a Modestia, que mal supporta a letra capital que lhe ponho, a letra e os vivas, mas ha de ir com ella e com elles. Viva a Modestia, e excluamos este livro; fiquem só os grandes livros epicos e tragicos, a que a Discordia deu vida, e digam-me se tamanhos effeitos não provam a grandeza da causa. Não, a discordia não é tão feia como se pinta.
Teimo nisto para que as almas sensiveis não comecem de tremer pela moça ou pelos rapazes. Não ha mister tremer, tanto mais que a discordia dos dous começou por um simples accordo, naquella noite. Costeavam a praia, calados, pensando só, até que ambos, como se falassem para si, soltaram esta phrase unica:
—Está ficando bem bonita.
E voltando-se um para outro:
—Quem?
Ambos sorriram; acharam pico ao simultaneo da reflexão e da pergunta. Sei que este phenomeno é tal qual o do capitulo XXV, quando elles disseram da edade, mas não me culpem a mim; eram gemeos, podiam ter o falar gemeo. O principal é que não se amofináram; não era ainda amor o que sentiam. Cada um expoz a sua opinião ácerca das graças da pequena, o gesto, a voz, os olhos e as mãos, tudo com tão boa sombra, que excluia a ideia de rivalidade. Quando muito, divergiam na escolha da melhor prenda, que para Pedro eram os olhos, e para Paulo a figura; mas como acabavam achando um total harmonico, era visto que não brigavam por isso. Nenhum delles attribuia ao outro a cousa vaga ou o qur quer que era que principiavam a sentir, e mais pareciam esthetas que enamorados. Aliás, a mesma politica os deixou em paz essa noite: não brigaram por ella. Não é que não sentissem alguma cousa opposta, á vista da praia e do céu, que estavam deliciosos. Lua cheia, agua quieta, vozes confusas e esparsas, algum tilbury a passo ou a trote, segundo ia vasio ou com gente. Tal ou qual brisa fresca.
A imaginação os levou então ao futuro, a um futuro brilhante, como elle é em tal edade. Botafogo teria um papel historico, uma enseada imperial para Pedro, uma Veneza republicana para Paulo, sem doge, nem conselho dos dez, ou então um doge com outro titulo, um simples presidente, que se casaria em nome do povo com este pequenino Adriatico. Talvez o doge fosse elle mesmo. Esta possibilidade, apesar dos annos verdes, enfunou a alma do moço. Paulo viu-se á testa de uma republica, em que o antigo e o moderno, o futuro e o passado se mesclassem, uma Roma nova, uma Convenção Nacional, a Republica Franceza e os Estados-Unidos da America.
Pedro, á sua parte, construia a meio caminho como um palacio para a representação nacional, outro para o imperador, e via-se a si mesmo ministro e presidente do conselho. Falava, dominava o tumulto e as opiniões, arrancava um voto á Camara dos deputados ou então expedia um decreto de dissolução. É uma minucia, mas merece inseril-a aqui: Pedro, sonhando com o governo, pensava especialmente nos decretos de dissolução. Via-se em casa, com o acto assignado, referendado, copiado, mandado aos jornaes e ás Camaras, lido pelos secretarios, archivado na secretaria, e os deputados saindo cabisbaixos, alguns resmungando, outros irados. Só elle estava tranquillo, no gabinete, recebendo os amigos que iam comprimental-o e pedir os recados para a provincia.
Taes eram as grandes pinceladas da imaginação dos dous. As estrellas recebiam no céu todos os pensamentos dos rapazes, a lua seguia quieta e a vaga da praia estirava-se com a preguiça do costume. Voltaram a si ao pé de casa. Tal ou qual impulso quiz leval-os a discutir ácerca do tempo e da noite, da temperatura e da enseada. Algum murmurio vago póde ser que lhes fizesse mover os beiços e começar a quebrar o silencio, mas o silencio era tão augusto que concordáram em respeital-o. E logo acháram de si para si, que a lua era esplendida, a enseada bella e a temperatura divina.
CAPITULO XXXVII
Desaccordo no accordo
Não esqueça dizer que, em 1888, uma questão grave e gravissima os fez concordar tambem, ainda que por diversa razão. A data explica o facto: foi a emancipação dos escravos. Estavam então longe um do outro, mas a opinião uniu-os.
A differença unica entre elles dizia respeito á significação da reforma, que para Pedro era um acto de justiça, e para Paulo era o inicio da revolução. Elle mesmo o disse, concluindo um discurso em S. Paulo, no dia 20 de maio: «A abolição é a aurora da liberdade; esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco.»
Natividade ficou attonita quando leu isto; pegou da penna e escreveu uma carta longa e maternal. Paulo respondeu com trinta mil expressões de ternura, declarando no fim que tudo lhe poderia sacrificar, inclusive a vida e até a honra; as opiniões é que não. «Não, mamãe; as opiniões é que não.»
—As opiniões é que não, repetiu Natividade acabando de ler a carta.
Natividade não acabava de entender os sentimentos do filho, ella que sacrificára as opiniões aos principios, como no caso de Ayres, e continuou a viver sem macula. Como então não sacrificar...? Não achava explicação. Relia a phrase da carta e a do discurso; tinha medo de o ver perder a carreira politica, se era a politica que o faria grande homem. «Emancipado o preto, resta emancipar o branco», era uma ameaça ao imperador e ao imperio.
Não atinou... Nem sempre as mães atinam. Não atinou que a phrase do discurso não era propriamente do filho; não era de ninguem. alguem a proferiu um dia, em discurso ou conversa, em gazeta ou em viagem de terra ou de mar. Outrem a repetiu, até que muita gente a fez sua. Era nova, era energica, era expressiva, ficou sendo patrimonio commum.
Ha phrases assim felizes. Nascem modestamente, como a gente pobre; quando menos pensam, estão governando o mundo, á semelhança das ideias. As proprias ideias nem sempre conservam o nome do pae; muitas apparecem orphãs, nascidas de nada e de ninguem. Cada um pega dellas, verte-as como póde, e vae leval-as á feira, onde todos as têm por suas.
CAPITULO XXXVIII
Chegada a proposito
Quando, ás duas horas da tarde do dia seguinte, Natividade se metteu no bonde, para ir a não sei que compras na rua do Ouvidor, levava a phrase comsigo. A vista da enseada não a distraiu, nem a gente que passava, nem os incidentes da rua, nada; a phrase ia diante e dentro della, com o seu aspecto e tom de ameaça. No Cattete, alguem entrou de salto, sem fazer parar o vehiculo. Adivinha que era o conselheiro; adivinha tambem que, posto o pé no estribo, e vendo logo adiante a nossa amiga, caminhou para lá rapido e acceitou a ponta do banco que ella lhe offereceu. Depois dos primeiros comprimentos:
—Pareceu-me vel-a olhar assustada, disse Ayres.
—Naturalmente, não imaginei que fosse capaz deste acto de gymnastica.
—Questão de costume. As pernas saltam por si mesmas. Um dia, deixam-me cair, as rodam passam por cima...
—Fosse como fosse, chegou a proposito.
—Chego sempre a proposito. Já lhe ouvi isso, uma vez, ha muitos annos, ou foi a sua irmã... Ora, espere, não me esqueceu o motivo; creio que falavam da cabocla do Castello. Não se lembra de uma tal ou qual cabocla que morava no Castello, e adivinhava a sorte da gente? Eu estava aqui de licença, e ouvi dizer cousas do arco da velha. Como sempre tive fé em Sybillas, acreditei na cabocla. Que fim levou ella?
Natividade olhou para elle, como receiando se teria adivinhado então a consulta que ella fez á cabocla. Pareceu-lhe que não, sorriu e chamou-lhe incredulo. Ayres negou que fosse incredulo; ao contrario, sendo tolerante, professava virtualmente todas as crenças deste mundo. E concluiu:
—Mas, emfim, porque é que chego a proposito?
Ou o passado, ou a pessoa, com as suas maneiras discretas e espirito repousado, ou tudo isso junto, dava a este homem, relativamente a esta senhora, uma confiança que ella não achava agora em ninguem, ou acharia em poucos. Falou-lhe de uma confidencia, um papel que não mostraria ao marido.
—Quero um conselho, conselheiro; e demais, para que incommodar a meu marido? Quando muito, contarei o negocio a mana Perpetua. Acho melhor não dizer nada a Agostinho.
Ayres concordou que não valia a pena aborrecel-o se era caso disso, e esperou. Natividade, sem falar da cabocla, contou primeiro a rivalidade dos filhos, já manifesta em politica, e tratando especialmente de Paulo, repetiu-lhe a phrase da carta e perguntou o que compria fazer mais util. Ayres entendeu que que eram ardores da mocidade. Que não teimasse; teimando, elle mudaria de palavras, mas não de sentimentos.
—Então crê que Paulo será sempre isto?
—Sempre, não digo; tambem não digo o contrario. Baroneza, a senhora exige respostas definitivas, mas diga-me o que é que ha definitivo neste mundo, a não ser o voltarete de seu marido? Esse mesmo falha. Ha quantos dias não sei o que é uma licença? É verdade que não tenho apparecido. E depois, o prazer da conversação paga bem o das cartas. Aposto que os homens casados que lá vão são de outro parecer?
—Talvez.
—Só os solteirões podem avaliar as ideias das mulheres. Um viuvo sem filhos, como eu, vale por um solteirão; minto, aos sessenta annos, como eu, vale por dous ou trez. Quanto ao joven Paulo, não pense mais no discurso. tambem eu discursei em rapaz.
—Já cuidei em casal-os.
—Casar é bom, assentiu Ayres.
—Não digo casar já, mas daqui a dous ou trez annos. Talvez faça antes uma viagem com elles. Que lhe parece? Vamos lá, não me responda repetindo o que eu digo. Quero o seu pensamento verdadeiro. Acha que uma viagem?...
—Acho que uma viagem...
—Acabe.
—As viagens fazem bem, mormente na edade delles. Formam-se para o anno, não é? Pois então! Antes de começar qualquer carreira, casados ou não, é util ver outras terras... Mas que necessidade tem a senhora de ir com elles?
—As mães...
—Mas eu tambem (desculpe interrompel-a) mas eu tambem sou seu filho. Não acha que o costume, o bom rosto, a graça, a affeição e todas as prendas grisalhas que a adornam compõem uma especie maternidade? Eu confesso-lhe que ficaria orphão.
—Pois venha comnosco.
—Ah! baroneza, para mim ja não ha mundo que valha um bilhete de passagem. Vi tudo por varias linguas. Agora o mundo começa aqui no caes da Gloria ou na rua do Ouvidor e acaba no cemiterio de S. João Baptista. Ouço que ha uns mares tenebrosos para os lados da Ponta do Cajú, mas eu sou um velho incredulo, como a senhora dizia ha pouco, e não acceito essas noticias sem prova cabal e visual, e para ir averigual-as, faltam-me pernas.
—Sempre gracioso! Não as vi treparem agora? Sua irmã disse-me outro dia que o senhor anda como aos trinta annos.
—Rita exagera. Mas, voltando á viagem, a senhora ainda não comprou os bilhetes?
—Não.
—Não os encommendou sequer?
—Tambem não.
—Então, pensemos em outra cousa. Cada dia traz a sua occupação, quanto mais as semanas e os mezes. Pensemos em outra cousa, e deixe lá o Paulo pedir a republica.
Natividade achou comsigo que elle tinha razão; depois, pensou em outra cousa, e esta foi a ideia do principio. Não disse logo o que era; preferiu conversar alguns minutos. Não era difficil com este sujeito. Uma das suas qualidades era falar com mulheres, sem descair na banalidade nem subir ás nuvens; tinha um modo particular, que não sei se estava na ideia, se no gesto, se na palavra. Não é que falasse mal de ninguem, e aliás seria uma distracção. Quero crêr que não dissesse mal por indifferença ou cautella; provisoriamente, ponhamos caridade.
—Mas, a senhora ainda me não disse o que queria de mim, além do conselho. Ou não quer mais nada?
—Custa-me pedir-lhe.
—Peça sempre.
—Sabe que os meus dous gemeos não combinam em nada, ou só em pouco, por mais esforços que eu tenha feito para os trazer a certa harmonia. Agostinho não me ajuda; tem outros cuidados. Eu mesma já não me sinto com forças, e então pensei que um amigo, um homem moderado, um homem de sociedade, habil, fino, cautelloso, intelligente, instruido...
—Eu, em summa?
—Adivinhou.
—Não adivinhei; é o meu retrato em pessoa. Mas então que lhe parece que possa fazer?
—Póde corrigil-os por boas maneiras, fazel-os unidos, ainda quando discordem, e que discordem pouco ou nada. Não imagina; parece até proposito. Não discordam da côr da lua, por exemplo, mas aos onze annos, Pedro descobriu que as sombras da lua eram nuvens, e Paulo que eram falhas da nossa vista, e atracaram-se; eu é que os separei. Imagine em politica...
—Imagine em amores, diga logo; mas não é propriamente para este caso...
—Oh! não!
—Para os outros é egualmente inutil, mas eu nasci para servir, ainda inutilmente. Baroneza, o seu pedido equivale a nomear-me aio ou preceptor... Não faça gestos; não me dou por diminuido. Comtanto que me pague os ordenados... E não se assuste; peço pouco, pague-me em palavras; as suas palavras são de ouro. Já lhe disse que toda a minha acção é inutil.
—Porque?
—É inutil.
—Uma pessoa de autoridade, como o senhor, póde muito, comtanto que os ame, por que elles são bons, creia. Conhece-os bem?
—Pouco.
—Conheça-os mais e verá.
Ayres concordou rindo. Para Natividade valia por uma tentativa nova. Confiava na acção do conselheiro, e para dizer tudo... Não sei se diga... Digo. Natividade contava com a antiga inclinação do velho diplomata. As cans não lhe tirariam o desejo de a servir. Não sei quem me lê nesta occasião. Se é homem, talvez não entenda logo, mas se é mulher creio que entenderá. Se ninguem entender, paciencia; baste saber que elle prometteu o que ella quiz, e tambem prometteu calar-se; foi a condição que a outra lhe poz. Tudo isso polido, sincero e incredulo.
CAPITULO XXXIX
Um gatuno
Chegaram ao largo da Carioca, apearam-se e despediram-se; ella entrou pela rua Gonçalves Dias, elle enfiou pela da Carioca. No meio desta, Ayres encontrou um magote de gente parada, logo depois andando em direcção ao largo. Ayres quiz arrepiar caminho, não de medo, mas de horror. Tinha horror á multidão. Viu que a gente era pouca, cincoenta ou sessenta pessoas, e ouviu que bradava contra a prisão de um homem. Entrou n'um corredor, á espera que o magote passasse. Duas praças de policia traziam o preso pelo braço. De quando em quando, este resistia, e então era preciso arrastal-o ou forçal-o por outro methodo. Tratava-se, ao que parece, do furto de uma carteira.
—Não furtei nada! bradava o preso detendo o passo. É falso! Larguem-me! sou um cidadão livre! Protesto! protesto!
—Siga para a estação!
—Não sigo!
—Não siga! bradava a gente anonyma. Não siga! não siga!
Uma das praças quiz convencer a multidão que era verdade, que o sujeito furtara uma carteira, e o desassocego pareceu minorar um pouco; mas, indo a praça a andar com a outra e o preso,—cada uma pegando-lhe um dos braços, a multidão recomeçou a bradar contra a violencia. O preso sentiu-se animado, e ora lastimoso, ora aggressivo, convidava a defeza. Foi então que a outra praça desembainhou a espada para fazer um claro. A gente voou, não airosamente, como a andorinha ou a pomba, em busca do ninho ou do alimento, voou de atropello, pula aqui, pula alli, pula acolá, para todos os lados. A espada entrou na bainha, e o preso seguiu com as praças. Mas logo os peitos tomaram vingança das pernas, e um clamor ingente, largo, desaffrontado, encheu a rua e a alma do preso. A multidão fez-se outra vez compacta e caminhou para a estação policial. Ayres seguiu caminho.
A vozeria morreu pouco a pouco, e Ayres entrou na Secretaria do Imperio. Não achou o ministro, parece, ou a conferencia foi curta. Certo é que, saindo á praça, encontrou partes do magote que tornavam commentando a prisão e o ladrão. Não diziam ladrão, mas gatuno, fiando que era mais doce, e tanto bradavam ha pouco contra a acção das praças, como riam agora das lastimas do preso.
—Ora o sujeito!
Mas então?... perguntarás tu. Ayres não perguntou nada. Ao cabo, havia um fundo de justiça naquella manifestação dupla e contradictoria; foi o que elle pensou. Depois, imaginou que a grita da multidão protestante era filha de um velho instincto de resistencia á autoridade. Advertiu que o homem, uma vez creado, desobedeceu logo ao Creador, que aliás lhe dera um paraiso para viver; mas não ha paraiso que valha o gosto da opposição. Que o homem se acostume ás leis, vá; que incline o collo á força e ao bel-prazer, vá tambem; é o que se dá com a planta, quando sopra o vento. Mas que abençoe a força e cumpra as leis sempre, sempre, sempre, é violar a liberdade primitiva, a liberdade do velho Adão. Ia assim cogitando o conselheiro Ayres.
Não lhe attribuam todas essas ideias. Pensava assim, como se falasse alto, á mesa ou na sala de alguem. Era um processo de critica mansa e delicada, tão convencida em apparencia, que algum ouvinte, á cata de ideias, acabava por lhe apanhar uma ou duas...
Ia a descer pela rua Sete de Setembro, quando a lembrança da vozeria trouxe a de outra, maior e mais remota.
CAPITULO XL
Recuerdos
Essa outra vozeria maior e mais remota não caberia aqui, se não fosse a necessidade de explicar o gesto repentino com que Ayres parou na calçada. Parou, tornou a si e continuou a andar com os olhos no chão e a alma em Caracas. Foi em Caracas, onde elle servira na qualidade de addido de legação. Estava em casa, de palestra com uma actriz da moda, pessoa chistosa e garrida. De repente, ouviram um clamor grande, vozes tumultuosas, vibrantes, crescentes...
—Que rumor é este, Carmen? perguntou elle entre duas caricias.
—Não se assuste, amigo meu; é o governo que cae.
—Mas eu ouço acclamações...
—Então é o governo que sobe. Não se assuste. Amanhã é tempo de ir comprimental-o.
Ayres deixou-se ir rio abaixo daquella memoria velha, que lhe surdia agora do alarido de cincoenta ou sessenta pessoas. Essa especie de lembranças tinha mais effeito nelle que outras. Recompoz a hora, o logar e a pessoa da sevilhana. Carmen era de Sevilla. O ex-rapaz ainda agora recordava a cantiga popular que lhe ouvia, á despedida, depois de rectificar as ligas, compôr as saias, e cravar o pente no cabello,—no momento em que ia deitar a mantilha, meneando o corpo com graça:
Tienen las sevillanas, En la mantilla, Um letrero que dice: Viva Sevilla!
Não posso dar a toada, mas Ayres ainda a trazia de cór, e vinha a repetil-a comsigo, vagarosamente, como ia andando. Outrosim, meditava na ausencia de vocação diplomatica. A ascenção de um governo,—de um regimen que fosse,—com as suas ideias novas, os seus homens frescos, leis e acclamações, valia menos para elle que o riso da joven comediante. Onde iria ella? A sombra da moça varreu tudo o mais, a rua, a gente, o gatuno, para ficar só deante do velho Ayres, dando aos quadris e cantarolando a trova andaluza:
Tienen las sevillanas En la mantilla...
CAPITULO XLI
Caso do burro
Se Ayres obedecesse ao seu gosto, e eu a elle, nem elle continuaria a andar, nem eu começaria este capitulo; ficariamos no outro, sem nunca mais acabal-o. Mas não ha na memoria que dure, se outro negocio mais forte puxa pela attenção, e um simples burro fez desapparecer Carmen e a sua trova.
Foi o caso que uma carroça estava parada, ao pé da travessa de S. Francisco, sem deixar passar um carro, e o carroceiro dava muita pancada no burro da carroça. Vulgar embora, este espectaculo fez parar o nosso Ayres, não menos condoido do asno que do homem. A força despendida por este era grande, porque o asno ruminava se devia ou não sair do logar; mas, não obstante esta superioridade, apanhava que era o diabo. Já havia algumas pessoas paradas, mirando. Cinco ou seis minutos durou esta situação; finalmente o burro preferiu a marcha á pancada, tirou a carroça do logar e foi andando.
Nos olhos redondos do animal viu Ayres uma expressão profunda de ironia e paciencia. Pareceu-lhe o gesto largo de espjrito invencivel. Depois leu nelles este monologo: «Anda, patrão, atalha a carroça de carga para ganhar o capim de que me alimentas. Vive de pé no chão para comprar as minhas ferraduras. Nem por isso me impedirás que te chame um nome feio, mas eu não te chamo nada; ficas sendo sempre o meu querido patrão. Emquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o teu dominio não vale muito, uma vez que me não tiras a liberdade de teimar...
—Vê-se, quasi que se lhe ouve a reflexão, notou Ayres comsigo.
Depois ria de si para si, e foi andando. Inventára tanta cousa no serviço diplomatico, que talvez inventasse o monologo do burro. Assim foi; não lhe leu nada nos olhos, a não ser a ironia e a paciencia, mas não se pôde ter que lhes não désse uma forma de palavra, com as suas regras de syntaxe. A propria ironia estaria acaso na retina delle. O olho do homem serve de photographia ao invisivel, como o ouvido serve de eco ao silencio. Tudo é que o dono tenha um lampejo de imaginação para ajudar a memoria a esquecer Caracas e Carmen, os seus beijos e experiencia politica.
CAPITULO XLII
Uma hypothese
Visões e reminiscencias iam assim comendo o tempo e o espaço ao conselheiro, a ponto de lhe fazerem esquecer o pedido de Natividade; mas não o esqueceu de todo, e as palavras trocadas ha pouco surdiam-lhe das pedras da rua. Considerou que não perdia muito em estudar os rapazes. Chegou a apanhar uma hypothese, especie de andorinha, que avoaça entre arvores, abaixo e acima, pousa aqui, pousa alli, arranca de novo um surto e toda se despeja em movimentos. Tal foi a hypothese vaga e colorida, a saber, que se os gemeos tivessem nascido delle talvez não divergissem tanto nem nada, graças ao equilibrio do seu espirito. A alma do velho entrou a ramalhar não sei que desejos retrospectivos, e a rever essa hypothese, outra Caracas, outra Carmen, elle pae, estes meninos seus, toda a andorinha que se dispersava n'um farfalhar calado de gestos.
CAPITULO XLIII
O discurso
Natividade é que não teve distracções de especie alguma. Toda ella estava nos filhos, e agora especialmente na carta e no discurso. Começou por não dar resposta ás effusões politicas de Paulo; foi um dos conselhos do conselheiro. Quando o filho tornou pelas ferias tinha esquecido a carta que escrevêra. O discurso é que elle não esqueceu, mas quem é que esquece os discursos que faz? Se são bons, a memoria os grava em bronze; se ruins, deixam tal ou qual amargor que dura muito. O melhor dos remedios, no segundo caso, é suppol-os excellentes, e, se a razão não acceita esta imaginação, consultar pessoas que a acceitem, e crêr nellas. A opinião é um velho oleo incorruptivel.
Paulo tinha talento. O discurso daquelle dia podia peccar aqui ou alli por alguma emphasis, e uma ou outra ideia vulgar e exhausta. Tinha talento Paulo. Em summa, o discurso era bom. Santos achou-o excellente, leu-o aos amigos e resolveu transcrevel-o nos jornaes. Natividade não se oppoz, mas entendia que algumas palavras deviam ser cortadas.
—Cortadas, porque? perguntou Santos, e ficou esperando a resposta.
—Pois você não vê, Agostinho; estas palavras tem sentido republicano, explicou ella relendo a phrase que a affligira.
Santos ouviu-as ler, leu-as para si, e não deixou de lhe achar razão. Entretanto, não havia de as supprimir.
—Pois não se transcreve o discurso.
—Ah! isso não! O discurso é magnifico, e não ha de morrer em S. Paulo; é preciso que a Côrte o leia, e as provincias tambem, e até não se me daria fazel-o traduzir em francez. Em francez, póde ser que fique ainda melhor.
—Mas, Agostinho, isto póde fazer mal á carreira do rapaz; o imperador póde ser que não goste...
Pedro, que assistia desde alguns instantes ao debate, interveiu docemente para dizer que os receios da mãe não tinham base; era bom por a phrase toda, e, a rigor, não difteria muito do que os liberaes diziam em 1848.
—Um monarchista liberal póde muito bem assignar esse trecho, concluiu elle depois de reler as palavras do irmão.
—Justamente! assentiu o pae.
Natividade, que em tudo via a inimizade dos gemeos, suspeitou que o intuito de Pedro fosse justamente comprometter Paulo. Olhou para elle a ver se lhe descobria essa intenção torcida, mas a cara do filho tinha então o aspecto do enthusiasmo. Pedro lia trechos do discurso, accentuando as bellezas, repetindo as phrases mais novas, cantando as mais redondas, revolvendo-as na bôca, tudo com tão boa sombra que a mãe perdeu a suspeita, e a reimpressão do discurso foi resolvida. Tambem se tirou uma edição em folheto, e o pae mandou encadernar ricamente sete exemplares, que levou aos ministros, e um ainda mais rico para a Regente.
—Você diga-lhe, aconselhou Natividade, que o nosso Paulo é liberal ardente...
—Liberal de 1848, completou Santos lembrando as palavras de Pedro.
Santos cumpriu tudo á risca. A entrega se fez naturalmente, e, no palacio Isabel, a definição do «liberal de 1848» saiu mais viva que as outras palavras, ou para diminuir o cheiro revolucionario da phrase condemnada pela mulher, ou porque trazia valor historico. Quando elle voltou a casa, a primeira cousa que lhe disse foi que a Regente perguntara por ella, mas apesar de lisongeada com a lembrança, Natividade quiz saber da impressão que lhe fizera o discurso, se já o lêra.
—Parece que foi boa. Disse-me que já havia lido o discurso. Nem por isso deixei de lhe dizer que os sentimentos de Paulo eram bons; que, se lhes notavamos certo ardor, comprehendiamos sempre que elles eram os de um liberal de 1848...
—Papae disse isso? perguntou Pedro.
—Porque não, se é verdade? Paulo é o que se póde chamar um liberal de 1848, repetiu Santos querendo convencer o filho.
CAPITULO XLIV
O salmão
Pelas férias é que Paulo soube da interpretação que o pae dera á Regente daquelle trecho do discurso. Protestou contra ella, em casa; quiz fazel-o tambem em publico, mas Natividade interveiu a tempo. Ayres pôz agua na fervura, dizendo ao futuro bacharel:
—Não vale a pena, moço; o que importa é que cada um tenha a suas ideias e se bata por ellas, até que ellas vençam. Agora que outros as interpretem mal é cousa que não deve affligir o autor.
—Affligir, sim, senhor; pôde parecer que é assim mesmo... Vou escrever um artigo a proposito de qualquer cousa, e não deixarei duvidas...
—Para que? inquiriu Ayres.
—Não quero que supponham...
—Mas quem duvida dos seus sentimentos?
—Podem duvidar.
—Ora, qual! Em todo caso, vá primeiro almoçar commigo um dia destes... Olhe, vá domingo, e seu irmão Pedro tambem. Seremos trez á meza, um almoço de rapazes. Beberemos certo vinho que me deu o ministro da Allemanha...
No domingo fôram os dous ao Cattete, menos pelo almoço que pelo amphytrião. Ayres era amado dos dous; gostavam de ouvil-o, de interrogal-o, pediam-lhe anecdotas politicas de outro tempo, descripção de festas, noticias de sociedade.
—Vivam os meus dous jovens, disse o conselheiro, vivam os meus dous jovens que não esqueceram o amigo velho. Papae como está? E mamãe?
—Estão bons, disse Pedro.
Paulo accrescentou que ambos lhe mandavam lembranças.
—E tia Perpetua?
—Tambem está boa, disse Paulo.
—Sempre com a homoepathia e as suas historias do Paraguay, accrescentou Pedro.
Pedro estava alegre, Paulo preoccupado. Depois das primeiras saudações e noticias, Ayres notou essa differença, e achou que era bom para tirar a monotonia da semelhança; mas, emfim, não queria caras fechadas, e indagou do estudante de direito o que é que elle tinha.
—Nada.
—Não póde ser; acho-lhe um ar meio sorumbatico. Pois eu acordei disposto a rir, e desejo que ambos riam commigo.
Paulo rosnou uma palavra que nenhum delles entendeu e saccou do bolso um maço de folhas de de papel. Era um artigo...
—Um artigo?
—Um artigo em que tiro todas as duvidas a meu respeito, e peço ao senhor que me ouça, é pequeno. Escrevi-o a noite passada.
Ayres propoz ouvil-o depois do almoço, mas o rapaz pediu que fosse logo, e Pedro concordou com esto alvitre, allegando que, sobre o almoço, podia perturbar a digestão, como ruim droga que devia ser, naturalmente. Ayres metteu o caso á bulha e acceitou ouvir o artigo.
—É pequeno, sete tiras.
—Letra miuda?
—Não, senhor; assim, assim.
Paulo leu o artigo. Tinha por epigraphe isto de Amós: «Ouvi esta palavra, vaccas gordas que estaes no monte de Samaria...» As vaccas gordas eram o pessoal do regimen, explicou Paulo. Não atacava o imperador, por attenção á mãe, mas com o principio e o pessoal era violento e aspero. Ayres sentiu-lhe aquillo que, em tempo, se chamou «a bossa da combatividade». Quando Paulo acabou, Pedro disse em ar de mofa:
—Conheço tudo isso, são ideias paulistas.
—As tuas são ideias coloniaes, replicou Paulo.
Deste introito podiam nascer peores palavras, mas felizmente um criado chegou á porta annunciando que o almoço estava na mesa. Ayres ergueu-se e disse que á mesa daria a sua opinião.
—Primeiro o almoço, tanto mais que temos um salmão, cousa especial. Vamos a elle.
Ayres queria cumprir deveras o officio que acceitara de Natividade. Quem sabe se a ideia de pae espiritual dos gemeos, pae de desejo somente, pae que não foi, que teria sido, não lhe dava uma affeição particular e um dever mais alto que o de simples amigo? Nem é fóra de proposito que elle buscasse sómente materia nova para as paginas nuas de seu Memorial.
Ao almoço, ainda se falou do artigo, Paulo com amor, Pedro com desdem, Ayres sem uma nem outra cousa. O almoço ia fazendo o seu officio. Ayres estudava os dous rapazes e suas opiniões. Talvez estas não passassem de uma erupção de pelle da edade. E sorria, fazia-os comer e beber, chegou a falar de moças, mas aqui os rapazes, vexados e respeitosos, não acompanharam o ex-ministro. A politica veiu morrendo. Na verdade, Paulo ainda se declarou capaz de derribar a monarchia com dez homens, e Pedro de extirpar o germen republicano com um decreto. Mas o ex-ministro, sem mais decreto que uma caçarola, nem mais homens que o seu cozinheiro, envolveu os dous regimens no mesmo salmão delicioso.
CAPITULO XLV
Musa, canta...
No fim do almoço, Ayres deu-lhes uma citação de Homero, aliás duas, uma para cada um, dizendo-lhes que o velho poeta os cantara separadamente, Paulo no começo da Illiada:
—«Musa, canta a colera de Achilles, filho de Peleu, colera funesta aos gregos, que precipitou á estancia de Plutão tantas almas válidas de heroes, entregues os corpos ás aves e aos cães...»
Pedro estava no começo da Odyssea:
—«Musa, canta aquelle heroe astuto, que errou por tantos tempos, depois de destruida a santa Illion...»
Era um modo de definir o caracter de ambos, e nenhum delles levou a mal a applicação. Ao contrario, a citação poetica valia por um diploma particular. O facto é que ambos sorriram de fé, de acceitação, de agradecimento, sem que achassem uma palavra ou syllaba com que desmentissem o adequado dos versos. Que elle, o conselheiro, depois de os citar em prosa nossa, repetiu-os no proprio texto grego e os dous gemeos sentiram-se ainda mais épicos, tão certo é que traducções não valem originaes. O que elles fizeram foi dar um sentido deprimente ao que era applicavel ao irmão:
—Tem razão, Sr. conselheiro,—disse Paulo,—Pedro é um velhaco...
—E você é um furioso...
—Em grego, meninos, em grego e em verso, que é melhor que a nossa lingua e a prosa do nosso tempo.
CAPITULO XLVI
Entre um acto e outro
Aquelles almoços repetiram-se, os mezes passaram, vieram férias, acabaram-se férias, e Ayres penetrava bem os gemeos. Escrevia-os no Memorial, onde se lê que a consulta ao velho Placido dizia respeito aos dous, e mais a ida á cabocla do Castello e a briga antes de nascer, casos velhos e obscuros que elle relembrou, ligou e decifrou.
Emquanto os mezes passam, faze de conta que estás no theatro, entre um acto e outro, conversando. Lá dentro preparam a scena, e os artistas mudam de roupa. Não vás lá; deixa que a dama, no camarim, ria com os seus amigos o que chorou cá fóra com os espectadores. Quanto ao jardim que se está fazendo, não te exponhas a vel-o pelas costas; é pura lona velha sem pintura, porque só a parte do espectador é que tem verdes e flores. Deixa-te estar cá fóra no camarote desta senhora. Examina-lhe os olhos; tem ainda as lagrimas que lhe arrancou a a dama da peça. Fala-lhe da peça e dos artistas. Que é obscura. Que não sabem os papeis. Ou então que que é tudo sublime. Depois percorre os camarotes com o binoculo, distribue justiça, chama bellas ás bellas e feias ás feias, e não te esqueças de contar anecdotas que desfeiem as bellas, e virtudes que componham as feias. As virtudes devem ser grandes e as anecdotas engraçadas. Tambem as ha banaes, mas a mesma banalidade na bôca de um bom narrador faz-se rara e preciosa. E verás como as lagrimas séccam inteiramente, e a realidade substitue a ficção. Falo por imagem; sabes que tudo aqui é verdade pura e sem choro.
CAPITULO XLVII
S. Matheus, IV, 1-10
Se ha muito riso quando um partido sobe, tambem ha muita lagrima do outro que desce, e do riso e da lagrima se faz o primeiro dia da situação, como no Genesis. Venhamos ao evangelista que serve de titulo ao capitulo. Os liberaes fôram chamados ao poder, que os conservadores tiveram de deixar. Não é mister dizer que o abatimento de Baptista foi enorme.
—Justamente agora que eu tinha esperanças, disse elle á mulher.
—De quê?
—Ora de quê! de uma presidencia. Não disse nada, porque podiam falhar, mas é quasi certo que não. Tive duas conferencias, não com ministros, mas com pessoa influente que sabia, e era negocio de esperar um mez ou dous...
—Presidencia boa?
—Boa.
—Se você tivesse trabalhado bem...
—Se tivesse trabalhado bem, podia estar já de posse, mas vinhamos agora a toque de caixa.
—Isso é verdade, concordou D. Claudia olhando para o futuro.
Baptista passeava, as mãos nas costas, os olhos no chão, suspirando, sem prever o tempo em que os conservadores tornariam ao poder. Os liberaes estavam fortes e resolutos. As mesmas ideias pairavam na cabeça de D. Claudia. Este casal só não era egual na vontade; as ideias eram muitas vezes taes que, se apparecessem cá fóra, ninguem diria quaes eram as delle, nem quaes as della, pareciam vir de um cerebro unico. Naquelle momento nenhum achava esperança immediata ou remota. Uma só ideia vaga... E foi aqui que a vontade de D. Claudia fincou os pés no chão e cresceu. Não falo só por imagem; D. Claudia levantou-se da cadeira, rapida, e disparou esta pergunta ao marido:
—Mas, Baptista, você o que é que espera mais dos conservadores?
Baptista parou com um ar digno e respondeu com simplicidade:
—Espero que subam.
—Que subam? Espera oito ou dez annos, o fim do seculo, não é? E nessa occasião você sabe se será aproveitado? Quem se lembrará de você?
—Posso fundar um jornal.
—Deixe-se de jornaes. E se morrer?
—Morro no meu posto de honra.
D. Claudia olhou fixa para elle. Os seus olhos miudos enterravam-se pelos delle abaixo, como duas verrumas pacientes. Subito, levantando as mãos abertas:
—Baptista, você nunca foi conservador!
O marido empallideceu e recuou, como se ouvira a propria ingratidão de um partido. Nunca fôra conservador? Mas que era elle então, que podia ser neste mundo? Que é que lhe dava a estima dos seus chefes? Não lhe faltava mais nada... D. Claudia não attendeu a explicações; repetiu-lhe as palavras, e accrescentou.
—Você estava com elles, Como a gente está n'um baile, onde não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha.
Baptista sorriu leve e rapido; amava as imagens graciosas e aquella pareceu-lhe graciosissima, tanto que concordou logo; mas a sua estrella inspirou-lhe uma refutação prompta.
—Sim, mas a gente não dança com ideias, dança com pernas.
—Dance com que fôr, a verdade é que todas as suas ideias iam para os liberaes; lembre-se que os dissidentes na provincia accusavam a você de apoiar os liberaes...
—Era falso; o governo é que me recommendava moderação. Posso mostrar cartas.
—Qual moderação! Você é liberal.
—Eu liberal?
—Um liberalão, nunca foi outra cousa.
—Pense no que diz, Claudia. Se alguem a ouvir é capaz de crêr, e dahi a espalhar...
—Que tem que espalhe? Espalha a verdade, espalha a justiça, porque os seus verdadeiros amigos não o hão de deixar na rua, agora que tudo se organisa. Você tem amigos pessoaes no ministerio; porque é que os não procura?
Baptista recuou com horror. Isto de subir as escadas do poder e dizer-lhe que estava ás ordens não era concebivel sequer. D. Claudia admittiu que não, mas um amigo faria tudo, um amigo intimo do governo que dissesse ao Ouro-Preto: «Visconde, você porque é que não convida o Baptista? Foi sempre liberal nas ideias. Dê-lhe uma presidencia, pequena que seja, e...»
Baptista fez um gesto de hombros, outro de mão que se calasse. A mulher não se calou; foi dizendo as mesmas cousas, agora mais graves pela insistencia e pelo tom. Na alma do marido a catastrophe era já tremenda. Pensando bem, não recusaria passar o Rubicon; só lhe faltava a força necessaria. Quizera querer. Quizera não ver nada, nem passado, nem presente, nem futuro, não saber de homens nem de cousas, e obedecer aos dados da sorte, mas não podia.
E façamos justiça ao homem. Quando elle pensava só na fidelidade aos amigos sentia-se melhor; a mesma fé existia, o mesmo costume, a mesma esperança. O mal vinha de olhar para o lado de lá; e era D. Claudia que lhe mostrava com o dedo a carreira, a alegria, a vida, a marcha certa e longa, a presidencia, o ministerio... Elle torcia os olhos e ficava.
A sós comsigo, Baptista pensou muita vez na situação pessoal e politica. Apalpava-se moralmente. Claudia podia ter razão. Que é que havia nelle propriamente conservador, a não ser esse instincto de toda creatura, que a ajuda a levar este mundo? Viu-se conservador em politica, porque o pae o era, o tio, os amigos da casa, o vigario da parochia, e elle começou na escola a execrar os liberaes. E depois não era propriamente conservador, mas saquarema, como os liberaes eram luzias. Baptista agarrava-se agora a estas designações obsoletas e deprimentes que mudavam o estylo aos partidos; donde vinha que hoje não havia entre elles o grande abysmo de 1842 e 1848. E lembrava-se do visconde de Albuquerque ou de outro senador que dizia em discurso não haver nada mais parecido com um conservador que um liberal, e vice-versa. E evocava exemplos, o partido progressista, Olinda, Nabuco, Zacharias, que fôram elles senão conservadores que comprehenderam os tempos novos e tiraram ás ideias liberaes aquelle sangue das revoluções, para lhes pôr uma côr viva, sim, mas serena. Nem o mundo era dos emperrados... Neste ponto passou-lhe um frio pela espinha. Justamente nessa occasião appareceu Flora. O pae abraçou-a com amor, e perguntou-lhe se queria ir para alguma provincia, sendo elle presidente.
—Mas os conservadores não cairam?
—Cairam, sim, mas suppõe que...
—Ah! não, papae!
—Não, porquê?
—Não desejo sair do Rio de Janeiro.
Talvez o Rio de Janeiro para ella fosse Botafogo, e propriamente a casa de Natividade. O pae não apurou as causas da recusa; suppol-as politicas, e achou novas forças para resistir ás tentações de D. Claudia: «Vae-te, Satanaz; porque escripto está: Ao Senhor teu Deus adorarás, e a elle servirás.» E seguiu-se como na Escriptura: «Então o deixou o Diabo; e eis que chegaram os anjos e o serviram.» Os anjos fôram só um, que valia por muitos; e o pae lhe disse beijando-a carinhosamente:
—Muito bem, muito bem, minha filha.
—Não é, papae?
Não, não foi a filha que tolheu a deserção do pae. Ao contrario. Baptista, se tivesse de ceder, cederia á mulher ou ao Diabo, synonimos neste capitulo. Não cedeu de fraqueza. Não tinha a força precisa de trahir os amigos, por mais que estes parecessem havel-o abandonado. Ha dessas virtudes feitas de acanho e timidez, e nem por isso menos lucrativas, moralmente falando. Não valem só stoicos e martyres. Virtudes meninas tambem são virtudes. É certo, porém, que a linguagem delle, em relação aos liberaes, não era já de odio ou impaciencia; chegava á tolerancia, roçava pela justiça. Concordava que a alternação dos partidos era um principio de necessidade publica. O que fazia era animar os amigos. Tornariam cedo ao poder. Mas D. Claudia opinava o contrario; para ella, os liberaes iriam ao fim do seculo. Quando muito, admittiu que na primeira entrada não déssem logar a um converso da ultima hora; era preciso esperar um anno ou dous, uma vaga na camara, uma commissão, a vice-presidencia do Rio...
CAPITULO XLVIII
Terpsichore
Nenhuma dessas cousas preoccupava Natividade. Mais depressa cuidaria do baile da ilha Fiscal, que se realisou em novembro para honrar os officiaes chilenos. Não é que ainda dançasse, mas sabia-lhe bem ver dançar os outros, e tinha agora a opinião de que a dança é um prazer dos olhos. Esta opinião é um dos effeitos daquelle mau costume de envelhecer. Não pegues tal costume, leitora. Ha outros tambem ruins, nenhum peor, este é o pessimo. Deixa lá dizerem philosophos que a velhice é um estado util pela experiencia e outras vantagens. Não envelheças, amiga minha, por mais que os annos te convidem a deixar a primavera; quando muito, acceita o estio. O estio é bom, callido, as noites são breves, é certo, mas as madrugadas não trazem neblina, e o céu apparece logo azul. Assim dançarás sempre.
Bem sei que ha gente para quem a dança é antes um prazer dos olhos. Nem as bailadeiras são outra cousa mais que mulheres de officio. Tambem eu, se é licito citar alguem a si mesmo, tambem eu acho que a dança é antes prazer dos olhos que dos pés, e a razão não é só dos annos longos e grisalhos, mas tambem outra que não digo, por não valer a pena. Ao cabo, não estou contando a minha vida, nem as minhas opiniões, nem nada que não seja das pessoas que entram no livro. Estas é que preciso pôr aqui integralmente com as suas virtudes e imperfeições, se as têm. Entende-se isto, sem ser preciso notal-o, mas não se perde nada em repetil-o.
Por exemplo, D. Claudia. tambem ella pensava no baile da ilha Fiscal, sem a menor ideia de dançar, nem a razão esthetica da outra. Para ella, o baile da ilha era um facto politico, era o baile do ministerio, uma festa liberal, que podia abrir ao marido as portas de alguma presidencia. Via-se já com a familia imperial. Ouvia a princeza:
—Como vae, D. Claudia?
—Perfeitamente bem, Serenissima senhora.
E Baptista conversaria com o imperador, a um canto, deante dos olhos invejosos que tentariam ouvir o dialogo, á força de os fitarem de longe. O marido é que... Não sei que diga do marido relativamente ao baile da ilha. Contava lá ir, mas não se acharia a gosto; póde ser que traduzissem esse acto por meia conversão. Não é que só fossem liberaes ao baile, tambem iriam conservadores, e aqui cabia bem o aphorismo de D. Claudia que não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha.
Santos é que não precisava de ideias para dançar. Não dançaria sequer. Em moço dançou muito, quadrilhas, polkas, valsas, a valsa arrastada e a valsa pulada, como diziam então, sem que eu possa definir melhor a differença; presumo que na primeira os pés não saiam de chão, e na segunda não caiam do ar. Tudo isso até os vinte e cinco annos. Então os negocios pegaram delle e o metteram naquella outra contradança, em que nem sempre se volta ao mesmo logar ou nunca se sáe delle. Santos saiu e já sabemos onde está. UItimamente teve a fantasia de ser deputado. Natividade abanou a cabeça, por mais que elle explicasse que não queria ser orador nem ministro, mas tão sómente fazer da camara um degrau para o senado, onde possuia amigos, pessoas de merecimento, e que era eterno.
—Eterno? interrompeu ella com um sorriso fino e descorado.
—Vitalicio, quero dizer.
Natividade teimou que não, que a posição delle era commercial e bancaria. Accrescentou que politica era uma cousa e industria outra. Santos replicou, citando o barão de Mauá, que as fundiu ambas. Então a mulher declarou por um modo secco e duro que aos sessenta annos ninguem começa a ser deputado.
—Mas é de passagem; os senadores são edosos.
—Não, Agostinho, concluiu a baroneza com um gesto definitivo.
Não conto Ayres, que provavelmente dançaria, a despeito dos annos; tambem não falo de D. Perpetua, que nem iria lá. Pedro iria, e é natural que dançasse, e muito, não obstante o afinco e paixão dos seus estudos. Vivia enfeitiçado pela medicina. No quarto de dormir, além do busto de Hyppocrates, tinha os retratos de algumas summidades medicas da Europa, muito esqueleto gravado, muita molestia pintada, peitos cortados verticalmente para se lhe verem os vasos, cerebros descobertos, um cancro de lingua, alguns aleijões, cousas todas que a mãe, por seu gosto mandaria deitar fóra, mas era a sciencia do filho, e bastava. Contentava-se de não olhar para os quadros.
Quanto a Flora, ainda verde para os meneios de Terpsichore, era acanhada ou arrepiada, como dizia a mãe. E isto era o menos; o mais era que com pouco se enfadaria, e, se não pudesse vir logo para casa, ficaria adoentada o resto do tempo. Note-se que, estando na ilha, teria o mar em volta, e o mar era um dos seus encantos; mas, se lhe lembrasse o mar, e se consolasse com a esperança de o mirar, advertiria tambem que a noite escura tolheria a consolação. Que multidão de dependencias na vida, leitor! Umas cousas nascem de outras, enroscam-se, desatam-se, confundem-se, perdem-se, e o tempo vai andando sem se perder a si.
Mas donde viria o tedio a Flora, se viesse? Com Pedro no baile, não; este era, como sabes, um dos dous que lhe queriam bem. Salvo se ella queria principalmente ao que estava em S. Paulo. Conclusão duvidosa, pois não é certo que preferisse um a outro. Se já a vimos falar a ambos com a mesma sympathia, o que fazia agora a Pedro na ausencia de Paulo, e faria a Paulo na ausencia de Pedro, não me faltará leitora que presuma um terceiro... Um terceiro explicaria tudo, um terceiro que não fosse ao baile, algum estudante pobre, sem outro amigo nem mais casaca que o coração verde e quente. Pois nem esse, leitora curiosa, nem terceiro, nem quarto, nem quinto, ninguem mais. Uma exquisitona, como lhe chamava a mãe.
Não importa; a exquisitona foi ao baile da ilha Fiscal com a mãe e o pae. Assim tambem Natividade, o marido e Pedro, assim Ayres, assim a demais gente convidada para a grande festa. Foi uma bella ideia do governo, leitor. Dentro e fóra, do mar e de terra, era como ura sonho veneziano; toda aquella sociedade viveu algumas horas sumptuosas, novas para uns, saudosas para outros, e de futuro para todos,—ou, quando menos, para a nossa amiga Natividade—e para o conservador Baptista.
Aquella considerava o destino dos filhos,—cousas futuras! Pedro bem podia inaugurar, como ministro, o século XX e o terceiro reinado. Natividade imaginava outro e maior baile naquella mesma ilha. Compunha a ornamentação, via as pessoas e as danças, toda uma festa magna que entraria na historia. Tambem ella alli estaria, sentada a um canto, sem se lhe dar do peso dos annos, uma vez que visse a grandeza e a prosperidade dos filhos. Era assim que enfiara os olhos pelo tempo adiante, descontando no presente a felicidade futura, caso viesse a morrer antes das prophecias, Tinha a mesma sensação que ora lhe dava aquella cesta de luzes no meio da escuridão tranquilla do mar.
A imaginação de Baptista era menos longa que a de Natividade. Quero dizer que ia antes do principio do seculo, Deus sabe se antes do fim do anno. Ao som da musica, á vista das galas, ouvia umas feiticeiras cariocas, que se pareciam com as escossezas; pelo menos, as palavras eram analogas ás que saudaram Macbeth:—«Salve, Baptista, ex-presidente de provincia!»—«Salve, Baptista, proximo presidente de provincia!»— «Salve, Baptista, tu serás ministro um dia!» A linguagem dessas prophecias era liberal, sem sombra de solecismo. Verdade é que elle se arrependia de as escutar, e forcejava por traduzil-as no velho idioma conservador, mas já lhe iam faltando diccionarios. A primeira palavra ainda trazia o sotaque antigo: «Salve, Baptista, ex-presidente de provincia!» mas a segunda e a ultima eram ambas daquella outra lingua liberal, que sempre lhe pareceu lingua de preto. Emfim, a mulher, como lady Macbeth, dizia nos olhos o que esta dizia pela bôca, isto é, que já sentia em si aquellas futurações. O mesmo lhe repetiu na manhã seguinte, em casa. Baptista, com um sorriso disfarçado, descria das feiticeiras, mas a memoria guardava as palavras da ilha: «Salve, Baptista, proximo presidente!» Ao que elle respondia com um suspiro: Não, não, filhas do Diabo...
Ao contrario do que ficou dito atraz, Flora não se aborreceu na ilha. Conjecturei mal, emendo-me a tempo. Podia aborrecer-se pelas razões que lá ficara, e ainda outras que poupei ao leitor apressado; mas, em verdade, passou bem a noite. A novidade da festa, a visinhança do mar, os navios perdidos na sombra, a cidade defronte com os seus lampiões de gaz, embaixo e em cima, na praia e nos outeiros, eis ahi aspectos novos que a encantaram durante aquellas horas rapidas.
Não lhe faltavam pares, nem conversação, nem alegria alheia e propria. Toda ella compartia da felicidade dos outros. Via, ouvia, corria, esquecia-se do resto para se metter comsigo. Tambem invejava a princeza imperial, que viria a ser imperatriz um dia, com o absoluto poder de despedir ministros e damas, visitas e requerentes, e ficar só, no mais recondito do paço, fartando-se de contemplação ou de musica. Era assim que Flora definia o officio de governar. Taes ideias passavam e tornavam. De uma vez alguem lhe disse, como para lhe dar força: «Toda alma livre é imperatriz!»
Não foi outra voz, semelhante á das feiticeiras do pae nem ás que falavam interiormente a Natividade, acerca dos filhos. Não; seria pôr aqui muitas vozes de mysterio, cousa que, além do fastio da repetição, mentiria á realidade dos factos. A voz que falou a Flora saiu da bôca do velho Ayres, que se fôra sentar ao pé d'ella e lhe perguntara:
—Em que é que está pensando?
—Em nada, respondeu Flora.
Ora, o conselheiro tinha visto no rosto da moça a expressão de alguma cousa e insistia por ella. Flora disse como pôde a inveja que lhe mettia a vista da princeza, não para brilhar um dia, mas para fugir ao brilho e ao mando, sempre que quizesse ficar subdita de si mesma. Foi então que elle lhe murmurou, como acima:
—Toda alma livre é imperatriz.
A phrase era boa, sonora, parecia conter a maior somma de verdade que ha na terra e nos planetas. Valia por uma pagina de Plutarcho. Se algum politico a ouvisse poderia guardal-a para os seus dias de opposição ao governo, quando viesse o terceiro reinado. Foi o que elle mesmo escreveu no Memorial. Com esta nota: «A meiga creatura agradeceu-me estas cinco palavras».
CAPITULO XLIX
Taboleta velha
Toda a gente voltou da ilha com o baile na cabeça muita sonhou com elle, alguma dormiu mal ou nada. Ayres foi dos que acordaram tarde; eram onze horas. Ao meio dia almoçou; depois escreveu no Memorial as impressões da vespera, notou varias espaduas, fez reparos politicos e acabou com as palavras que lá ficam no cabo do outro capitulo. Fumou, leu, até que resolveu ir á rua do Ouvidor. Como chegasse á vidraça de uma das janellas da frente, viu á porta da confeitaria uma figura inesperada, o velho Custodio, cheio de melancolia. Era tão novo o espectaculo que alli se deixou estar por alguns instantes; foi então que o confeiteiro, levantando os olhos, deu com elle entre as cortinas, e emquanto Ayres voltava para dentro, Custodio atravessou a rua e entrou-lhe em casa.
—Que suba, disse o conselheiro ao criado.
Custodio foi recebido com a benevolencia de outros dias e um pouco mais de interesse. Ayres queria saber o que é que o entristecia.
—Vim para contal-o a V.-Ex.; é a taboleta.
—Que taboleta?
—Queira V.-Ex. ver por seus olhos, disse o confeiteiro, pedindo-lhe o favor de ir á janella.
—Não vejo nada.
—Justamente, é isso mesmo. Tanto me aconselharam que fizesse reformar a taboleta que afinal consenti, e fil-a tirar por dous empregados. A visinhança veiu para a rua assistir ao trabalho e parecia rir de mim. Já tinha falado a um pintor da rua da Assembléa; não ajustei o preço porque elle queria ver primeiro a obra. Hontem, á tarde, lá foi um caixeiro, e sabe V.-Ex. o que me mandou dizer o pintor? Que a taboa está velha, e precisa outra; a madeira não aguenta tinta. Lá fui ás carreiras. Não pude convencel-o de pintar na mesma madeira; mostrou-me que estava rachada e comida de bichos. Pois cá debaixo não se via. Teimei que pintasse assim mesmo; respondeu-me que era artista e não faria obra que se estragasse logo.
—Pois reforme tudo. Pintura nova em madeira velha não vale nada. Agora verá que dura pelo resto da nossa vida.
—A outra tambem durava; bastava só avivar as letras.
Era tarde, a ordem fora expedida, a madeira devia estar comprada, serrada e pregada, pintado o fundo para então se desenhar e pintar o titulo. Custodio não disse que o artista lhe perguntára pela côr das letras, se vermelha, se amarella, se verde em cima de branco ou vice-versa, e que elle, cautelosamente, indagára do preço de cada côr para escolher as mais baratas. Não interessa saber quaes fôram.
Quaesquer que fossem as côres, eram tintas novas, táboas novas, uma reforma que elle, mais por economia que por affeição, não quizera fazer; mas a affeição valia muito. Agora que ia trocar de taboleta sentia perder algo do corpo,—cousa que outros do mesmo ou diverso ramo de negocio não comprehenderiam, tal gosto acham em renovar as caras e fazer crescer com ellas a nomeada. São naturezas. Ayres ia pensando em escrever uma Philosophia das Taboletas, na qual poria taes e outras observações, mas nunca deu começo a obra.
—V.-Ex. hade-me perdoar o incommodo que lhe trouxe, vindo contar-lhe isto, mas V.-Ex. é sempre tão bom commigo, fala-me com tanta amizade, que eu me atrevi... Perdoa-me, sim?
—Sim, homem de Deus.
—Comquanto V.-Ex. approve a reforma da taboleta, sentirá commigo a separação da outra, a minha amiga velha, que nunca me deixou, que eu, nas noites de luminarias, por S. Sebastião e outras, fazia apparecer aos olhos da gente. V.-Ex., quando se aposentou, veiu achal-a no mesmo logar em que a deixou por occasião de ser nomeado. E tive alma para me separar della!
—Está bom, lá vae; agora é receber a nova, e verá como daqui a pouco são amigos.
Custodio saiu recuando, como era seu costume, e desceu tropego as escadas. Deante da confeitaria deteve-se um instante, para ver o logar onde estivera a taboleta velha. Deveras, tinha saudades.
CAPITULO L
O tinteiro de Evaristo
—...Este caso prova que tudo se póde amar muito bem, ainda um pedaço de madeira velha. Creiam que não era só a despeza que elle naturalmente sentia, eram tambem saudades. Ninguem se despega assim de um objecto tão intimo, que faz parte integral da casa e da pelle, porque a taboleta não foi sequer arriada um dia. Custodio não teve occasião de ver se estava estragada. Vivia alli como as portadas e a parede.
Era ao jantar, em Botafogo. Só quatro pessoas, as duas irmãs, Santos e Ayres. Pedro fôra jantar a S. Clemente, com a familia Baptista.
D. Perpetua approvou os sentimentos do confeiteiro. Citou, a proposito, o tinteiro de Evaristo. A irmã sorriu para o marido, e este para a mulher, como se dissessem: «lá vem elle!» Era um tinteiro que servira ao famoso jornalista do primeiro reinado e da Regencia, obra simples, feita de barro, egual aos tinteiros que a gente chã comprava nas lojas de papel daquelle e deste tempo. O sogro de D. Perpetua, que lh'o dera em lembrança, tivera um da mesma edade, massa e feição.
—Veiu assim de mão em mão parar ás minhas. Não chega aos tinteiros do mano Agostinho nem de Natividade, que são luxuosos, mas tem grande valor para mim.
—Sem duvida, concordou Ayres, valor historico e politico.
—Meu sogro dizia que delle sairam os grandes artigos da Aurora. A falar verdade, eu nunca li taes artigos, mas meu sogro era homem de verdade. Conhecia a vida de Evaristo, por ouvil-a a outros, e fazia-lhe louvores que não acabavam mais...
Natividade buscou desviar a conversação para o baile da vespera. Tinham já falado delle, mas não achou outro derivativo. Entretanto, o tinteiro ainda ficou algum tempo. Não era só uma das lembranças de D. Perpetua, reliquia de familia, era tambem uma de suas ideias. Prometteu mostral-o ao conselheiro. Elle prometteu vel-o com muito gosto. Confessou que tinha veneração aos objectos de uso dos grandes homens. Emfim, o jantar acabou, e elles passaram ao salão. Ayres, falando da enseada:
—Aqui está uma obra, que é mais velha que o tinteiro do Evaristo e a taboleta do Custodio, e, não obstante, parece mais moça, não é verdade, D. Perpetua? A noite é clara e quente; podia ser escura e fria, e o effeito seria o mesmo. A enseada não differe de si. Talvez os homens venham algum dia atulhal-a de terra e pedras para levantar casas em cima, um bairro novo, com um grande circo destinado a corrida de cavallos. Tudo é possível debaixo do sol e da lua. A nossa felicidade, barão, é que morreremos antes.
—Nao fale em morte, conselheiro.
—A morte é uma hypothese, redarguiu Ayres, talvez uma lenda. ninguem morre de uma boa digestão, e os seus charutos são deliciosos.
—Estes são novos. Perecem-lhe bons?
—Deliciosos.
Santos estimou ouvir este louvor; achava-lhe uma intenção directa á sua pessoa, aos seus meritos, ao seu nome, á posição que tinha na sociedade, á casa, á chacara, ao Banco, aos colletes. É talvez muito; seria um modo emphatico de explicar a força da ligação delle aos charutos. Valiam pela taboleta e pelo tinteiro, com a differença que estes significavam só affeicção e veneração, e aquelles, valendo pelo sabor e pelo preço, tinham a superioridade do milagre, pela reproducção de todos os dias.
Taes eram as suspeitas que vagavam no cerebro de Ayres, emquanto elle olhava mansamente para o amphytrião. Ayres não podia negar a si mesmo a aversão que este lhe inspirava. Não lhe queria mal, de certo; podia até querer-lhe bem, se houvesse um muro entre ambos. Era a pessoa, eram as sensações, os dizeres, os gestos, o riso, a alma toda que lhe fazia mal.
CAPITULO LI
Aqui presente
Perto das nove horas, ou logo depois, chegou Pedro com o casal Baptista e Flora.
—Vimos trazer o seu menino, disse Baptista a Natividade.
—Obrigado, doutor, acudiu Santos, mas elle je não está em edade de se perder por essas ruas, e, se se perder, acha-se logo, accrescentou sorrindo.
Natividade não gostou da graça, tratando-se do filho e ao pé della. Era talvez excesso de pudor. Ha muito excesso nesse sentido, e o acertado é perdoal-o. Ha tambem excessos contrarios, condescendencias faceis, pessoas que entram com prazer na troca de allusões picantes. tambem se devem perdoar. Em summa, o perdão chega ao céu. Perdoai-vos uns aos outros, é a lei do Evangelho.
Elle, o rapaz, é que não ouviu nada; interrompera a conversa que trazia com Flora, e trocadas algumas palavras, os dous fôram reatar o fio a um canto. Ayres reparou na attitude de ambos; ninguem mais lhes prestava attenção. Ao cabo, a conversa era em voz surda; não os poderiam ouvir. Ella escutava, elle falava; depois era o contrario, ella é que falava, elle é que ouvia, tão absortos que pareciam não attender a ninguem, mas attendiam. Possuiam o sexto sentido dos conspiradores e dos namorados. Que conversassem de amores, é possivel; mas que conspiravam, é certo. Quanto á materia da conspiração, podereis sabel-a depois, brevemente, daqui a um capitulo. O proprio Ayres não descobriu nada, por mais que quizesse fartar os olhos naquelle dialogo de mysterios. Persuadiu-se que não era grave, porque elles sorriam com frequencia; mas podia ser intimo, escondido, pessoal, e acaso extranho. Suppõe um fio de anecdotas ou uma historia comprida, cousa alheia; ainda assim podia ser delles sómente, porque ha estados da alma em que a materia da narração é nada, o gosto de a fazer e de a ouvir é que é tudo. Tambem podia ser isto.
Vêde, porém, como a natureza encaminha as cousas minimas ou maximas, mormente se a fortuna a ajuda. A conversação tão doce, ao que parecia, começou por um enfado. A causa foi uma carta de Paulo, escripta ao irmão, e que este se lembrou de mostrar a Flora, dizendo-lhe que tambem a mostrára á mãe, e a mãe se zangára muito.