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Comedia do Campo volume III (Scenas do Minho)

O ENTERRO DE UM CÃO A MACEDO PAPANÇA

Reading edition

O ENTERRO DE UM CÃO

I

O velho Coruja, o coveiro, o bom amigo dos mortos, tinha pelo seu pequeno cão, uma affeição pura e desinteressada.

O Coisa acompanhava-o em toda a parte, com uma fidelidade insistente: nos enterros apparecia cansado, reflexivo e de cabeça baixa; no palheiro, onde ambos dormiam, deitava-se junto d’elle, corpo a corpo, como um companheiro familiar; nas diversas cosinhas das casas ricas da visinhança, onde o coveiro apparecia ao meio dia, sempre se mostrou submisso, quieto, esperando pacientemente que lhe dessem a sua brôa e as rapaduras do pote do caldo de farinha.

O Coruja olhava para elle com ternura, dava-lhe do seu comer, interrogava-o com naturalidade, affagava-o dizendo-lhe palavras boas, repassadas de carinho e de benevolencia...; porque partia da hypothese sensata, de ser comprehendido. O Coisa, pequeno, magro, de pello faminto, com as barbas de guloso sempre sujas, escutava-o attenciosamente, sem pestanejar e deitando-lhe a cabeça nos quartos, ficava como adormecido muito tempo.

O Coveiro comprehendia estas finas delicadezas do seu companheiro... Por isso fallava-lhe com polidez, com cuidado, escolhendo as palavras, estudando um timbre de voz meigo e delicado. Que dois corações unisonos e isochronos! As unicas desavenças que se tinham dado entre elles, eram por causa das creanças pobres... O cão perseguia-as insistentemente, se as encontrava agglomeradas, a pedir esmola, junto dos portaes ricos! N’este ponto era formalmente desobediente á palavra austera de seu amo!... O Coruja que, quando tinha vontade d’isso, sabia ser iracundo, figurava então uma voz aspera, severa e reprehensiva, ameaçando-o arrogantemente:

—Pedaço de bregeiro! Tenho-te dito muitas vezes que me deixes os rapazes. Fizeram-te algum mal? Diz lá: fizeram? Não entendes isto, maroto?!...

E se depois o cão se lhe ía enroscar aos pés, humilde e submisso, concluia com energia:

—... Pois devias entender. Elles são como nós ambos e como os outros desgraçados—andam na sua vida... Se são pobres, quem lhes ha de dar o pão, se não forem os ricos?! Vel-os acolá?—indicava incautamente os rapasitos. Andam ás esmolas, como tu e como eu!...

O Coisa olhava fixamente para o seu amigo, escutando-o sem pestanejar, e como vira que as ultimas palavras haviam sido acompanhadas de um gesto em que eram apontados os pequenos pedintes, que, amedrontados, tinham fugido para longe, interpetrando-as mal, arremettia de novo contra as creanças, perseguindo-as com mais raiva pelos caminhos.

O Coveiro mostrava-se estupido e confundido... Não comprehendia!... ficava scismando, para ver se encontrava o motivo que o animal teria, para odiar com tão afincado accinte, as creanças pobres, que via encostadas aos portaes ricos!... Não o podia perceber, elle que ignorava inteiramente a biographia do Coisa...

Encontrára-o n’uma tarde de chuva, perto de um ribeiro, onde, no dia seguinte, appareceu afogado um velho pedinte, de longa barba esqualida. O pobre animal tiritava de frio, recolhido humildemente dentro do tronco carcomido de uma cerdeira desfolhada. O Coruja, vendo-o assim, teve um ar compacido e lastimou-o com um sorriso triste. Lembrou-se que levava n’um bolso restos de pão do jantar, e, com um ar de bondade, atirou-lhe um pedaço, dizendo:

—Talvez tenhas fome... Pega lá, come.

O cão, saindo do esconderijo, abocou com rapidez e mastigou sofregamente, auxiliando a deglutição com movimentos rapidos e impulsivos de cabeça. O coveiro observando este facto, disse sorrindo:

—Home... tinhas larica. Toma lá mais um naco!...

E, tirando mais brôa do bolso das calças, deu-lh’a. O animal, enguliu com rapidez o pão e aproximou-se do coveiro com obediencia—arqueava a espinha dorsal arrastando a barriga na terra, tinha movimentos lateraes e cadenciados de cauda, levantava a cabeça para lhe cheirar a mão benefica e ouviram-se-lhe latidos de agradecimento. O Coruja, olhou reflexivo para elle e, cofiando-lhe a cabeça, observou com sorriso:

—Diabo! sempre és muito feio, ladrão!

Depois atirou para o hombro a enxada de abrir as covas e foi pelo caminho adiante... Ia para um atterro.

O cão ficou quieto, humilde, a olhar para o seu bemfeitor. O coveiro, olhando para traz, viu-o n’esta posição quasi supplicante e gritou-lhe de longe:

—Tó Coisa.

O animal veio para elle depressa, contente, feliz, dando pulos de alegria, movendo festivamente a cauda, lambendo os pés do Coruja, que o affagava. E para mostrar logo, áquelle seu amigo fortuito, um bom fundo de cão agradecido, arrastava o ventre pela terra, gania amoravelmente, roçava-se-lhe pelas pernas, e por fim, conservou-se alguns momentos n’um aspecto captivante, deitado no chão, olhando para o coveiro, com a cabeça firme, a mostrar os dentes e a piscar os olhos...

Foi assim que se tomaram por companheiros inseparaveis!... O coveiro não indagou quem era o Coisa, mas eu que o sei, posso dizer que era o cão do pedinte, que no dia seguinte appareceu morto na levada do ribeiro! Tinha sido amestrado para ladrar ás creanças, para escorraçar os pequenos, magros e sujos, que podesse encontrar pedindo esmola junto dos portaes ricos. Os perseguidos fugiam assustados e chorosos, gritando muito, apertando na mão os saquinhos vasios... e ficavam de longe, a ver quando o pobre da barba esqualida saíria de ali com o maldito cão, para elles voltarem a implorar a esmola, com as suas vozes finas e plangentes.

Porém, o velho pedinte era experimentado e sceptico. Se alguem, casualmente, observava a perseguição injusta que o animal fazia aos rapazitos, elle, que fingia de aleijado, chamava-o com modos de homem irritado, ralhava-lhe muito, chegava mesmo a bater-lhe. Com este procedimento conseguia, muitas vezes, captar a benevolencia de quem o observava e obtinha alguma esmola que agradecia, dizendo:

—... Pelas bemditas almas... Por mais que me mate, não posso ensinar este ladrão. Um dia como-lhe os figados. Apesar do amor que lhe tenho, sou home p’ra isso!

E, com o fim de se mostrar digno de admiração, erguia para o companheiro o pau da justiça, tremente de cóleras! O bemfeitor, compadecido, entrevinha caridosamente a favor do animal, aconselhando:

—Deixa lá. São brutos, não sabem o que fazem. Se elles não têem alma!...

—É tamem do que me tenho lembrado, meu rico pae da caridade! Se elle tivesse uma alma, eu era capaz de lh’a metter n’um inferno, só pelo que elle é de mau para as creancinhas... coitadas!

Mas o animal não era responsavel. Tendo sido educado, por seu amo, no proposito de perseguir os concorrentes ás esmolas, obedecia-lhe. Mesmo quando o velho pedinte lhe ralhava, apontando as creanças que fugiam espavoridas e elle continuava a preseguil-as, é porque sabia ser este um signal para as escorraçar com mais impeto! Tinham-lhe ensinado que, todas as admoestações lhe impunham dever de ladrar com maior energia e vivacidade, por isso assim procedia!...

O pobre da barba, depois de obtida a esmola, premio da reprehensão infligida ao maleficente, dizia vagamente, de modo a ser ouvido pelo bemfeitor que se distanciava:

—Diabo do cão é tolo! Não sei que mal lhe fizeram os rapazinhos!...

E voltando-se para elle, outra vez, com o pau no ar, concluia:

—És mesmo ruim, como as cobras!

Mas, logo que ficavam sós, cofiava amoravelmente a barriga do rafeiro, chamando-lhe seu rico cachorrinho, ganindo como elle para o reconciliar comsigo, e dando-lhe fartamente brôa da sacola, com o fim de o excitar ao crime. Incomprehensivel preversidade!...

Eis aqui estão os motivos, em virtude dos quaes, o coveiro, nunca poderia fazer comprehender ao Coisa, que a sua benevolencia era sincera e não mentirosa, como a do velho pedinte, que primeiro o educára. O modo compassivo como o Coruja entendia deverem ser olhadas as creanças pobres, que aos sabbados encontrava junto dos portaes ricos, o cão não o podia comprehender facilmente e até o interpretava ao inverso, princialmente quando lhe apontavam os rapazitos que se conservavam agrupados e cheios de susto a olharem de longe.

Mas, apesar d’esta divergencia, viveram muitos annos em concordante familiaridade, dormindo promiscuamente nos mesmos palheiros e comendo da mesma ração. Como o Coruja era um bebedo declarado, entendeu que devia habituar o Coisa a gostar de vinho, exactamente como elle, e dava-lh’o. O cão principiou pelo provar, com evidente repugnancia. Nos dias de fome, que o seu antigo amo lhe fizera passar, quando as esmolas não corriam para o sacco, tomára habitos de sobriedade. Vinho! Tal guloseima nunca provára! O pedinte de barba esqualida era extremamente egoista... emborrachava-se só. Mas, passado algum tempo, depois de ter sido preciso abrirem-lhe a bôca á força para lhe emburcar o liquido nas guelas, o Coisa gostou, e por fim já escorripichava a tijella, por onde o coveiro bebia a meia canada habitual... Tão fino bebado se mostrou depois, que andava sempre lambendo, com cuidado e esmero, até as deixar enxutas, não só a tigella do amo, mas todas as cuncas da sopa de bestas que encontrava ás portas das estalagens e tendas minhotas. Então dizia-lhe o seu amigo, rindo abertamente, com effusão, piscando os olhos, já muito torto:

—Anda grandissimo borrachão, que me pareces um padre!

Esta phrase usual, sincera e inoffensiva, que tantas vezes dissera impune, preferiu-a incautamente, uma vez, diante de um ecclesiastico que, julgando-se offendido, o reprehendeu severamente, levantando a bengala com uma intenção aggressiva! O coveiro que, pelo habito de viver entre batinas, não as respeitava, e, considerando mesmo que os padres eram homens como os outros e igualmente peccadores, lembrando-se até de que elle já tinha enterrado um bom par d’elles, respondeu com desdem e indignado:

—Olhe, talvez o seu coração não seja tão bô como o d’elle!...

O padre ficou auctoritario e colerico, e o coveiro retirou-se cheio de justiça, por ter pugnado pelo seu camarada.

Ás vezes, nos dias de muita chuva, o Coruja não podia saír do palheiro onde dormia, por causa das malditas dôres que lhe vinham á perna doente. O Coisa, n’essas occasiões, parecendo-lhe que devia prover as necessidades communs, saía a procurar comida. N’esses dias não respeitava nenhuma casa, fosse ella de quem fosse! Previdente e sagaz, obedecendo á sua primeira educação na vida mendicante, ía por ahi fóra... Porta que encontrasse aberta e d’onde saísse bom cheiro, entrava com ousadia e abocava desceremoniosamente qualquer posta de bacalhau ou qualquer salpicão que encontrasse. Mas, em vez de comer o producto da ladroagem, como faria qualquer cão vulgar e sem sentimentos, vinha depositar a comida intacta nas mãos do seu companheiro, para elle a repartir. O coveiro, no proposito de se dar seriedade, reprehendia-o com brandura, sorrindo com os seus olhos vesgos:

—Ah! grande ladrão! Home, isso não se faz!... Ir roubar o que não é da gente!... Muito mal feito, seu patife!... Come tu, anda, que eu não tenho grande fome.

No entanto, para não ser descortez e mal agradecido, acceitava o alimento que repartia com rectidão e igualdade, dando muitas vezes ao Coisa, qualquer bocado, que julgava mais appetitoso.

II

Um dia, porém, o Coisa appareceu morto na beira de um caminho, no velho sulco cavado pelas rodas dos carros, que ali tinham passado durante muitos annos! Era em janeiro, o coração do inverno, no alto Minho. Fazia um frio de lobo, mas a noite era de uma limpidez phantastica. Um luar claro dava aos objectos um destaque energico. O ruido das montanhas espalhava-se sussurrante nas profundezas dos valles cobertos de uma herva miseravel, mirrada pelo frio intenso e prolongado, pelas geadas successivas que os soes, quasi primaveraes, não conseguiam descoalhar. Os montes altos, cobertos de neve, levantavam as suas enormes carcundas de gigantes, ha seculos ali adormecidos!... O dia amanhecera com um sol rutilante, que produzia vivos reflexos nos brincos de gelo, pendentes dos braços nús das arvores, dos beiraes dos telhados, e das vertentes das fontes. Os pequenos passaros, saltando nos galhos das oliveiras, pareciam mais volumosos, porque tinham as pennas irriçadas. Os tordos, com os pios ingenuos e os melros com os assobios agudos e petulantes, denunciavam-se aos caçadores, que os perseguiam, aproximando-se encobertos com os troncos das arvores, com os muros e com os penedos, para fazerem certeiramente a pontaria.

A paisagem animára-se com o levantar do sol. Principiava a vida dos campos—os bois íam soltos para as reles pastagens, ou, cangados, puchavam aos toscos carros de duas rodas; as eguas lanzudas e famelicas, avistando-se de encosta para encosta, relinchavam; os rapazes, as mulheres e os homens trabalhavam nas hortas, na apanha de lenha para o lume e nas podas, cantando sempre, para não sentirem o frio. Passavam nos caminhos alguns pedintes de capas remendadas e de sacolas a tiracolo, cheias de brôa. Tinham o bom ar, alegre e folgasão, dos felizes despreoccupados, para quem, o dia de amanhã, será bom como o dia de hoje. Iam conversando animadamente em accidentes da sua vida vagabunda e caminhavam n’um passo largo, assobiando, cantarolando, batendo nos cães vadios com os páus a que se costumavam encostar quando pediam esmola. Foram elles os primeiros que encontraram o Coisa morto na estrada, tristemente abandonado n’um sulco de carro, como um cão desprezivel que não tivesse inspirado um affecto na vida! Junto d’este morto anonymo, os pedintes alegres, fizeram uma paragem, dizendo um d’elles, com ar trocista e de chacota:

—Olhem este asno onde se foi deitar!...

Acrescentando outro:

—É que tinha calor e não quiz dormir na palha!

Um terceiro, ainda observou, com um compadecimento fingido:

—Coitado!... Já não come mais brôa!

E por ultimo, um mocetão robusto, desertor do tres de Vianna, para dispertar a hilaridade na companhia, levantou pelo rabo o magro corpo do Coisa, e pronunciou, conservando-o suspenso:

—Eh! diabo! Está teso como minha avó torta!...

Riram-se unisonamente com as bôcas escancaradas, d’este dito excentrico, continuando depois o caminhar divertido.

Porém, o cão não estava ali esquecido, como se poderia suppor:—o Coruja tinha-o procurado durante a noite. Andou n’isso muitas horas, apprehensivo e triste, repassado de maus prenuncios. Chamou-o alto nas encruzilhadas, assobiou por elle de cima dos muros dos caminhos, teve momentos silenciosos de uma tristeza indefinida!... E, como via o Coisa não lhe apparecer, disse com a testa avincada e com uma expressão de quem suspeitava um crime:

—Que diabo! por ahi algum maroto...

Suspendeu bruscamente a phrase, concluindo-a depois, mostrando um punho cerrado:

—Pois se sei quem foi que o matou, abro-lhe a cabeça com o olho da enxada! Ainda que trezentos diabos me levem, p’ras profundas dos infernos!

Dirigiu-se para o seu palheiro, tiritando de frio, dando suspiros e com lagrimas nos olhos. N’essa triste noite estava só. Não sentia o seu companheiro de tantos annos, introduzir-se com o fochinho entre a palha, para adormecer mais quente. Apesar dos latidos vagabundos dos outros cães da visinhança, o Coisa não se levantava esperto para ir responder ao postigo! Em vez d’este, agora era o Coruja, que, ouvindo ladrar, levantava a sua cabeça para ver se aquella era a voz do seu amigo... Debalde esperou. A noite prolongava-se por seculos, e o coveiro, dando voltas entre o colmo, sentia um calor abafante, suspirava com afflicções e não podia dormir!

Logo muito cedo, ainda a manhã apontava, saíu do palheiro para continuar as suas averiguações. Junto da igreja encontrou umas creanças da freguezia visinha, que vinham para a escola, e uma das quaes lhe disse expontaneamente:

—Ó tio Cruja, já viu o seu Coisa?

O coveiro respondeu suffocado:

—Não! Onde está?!

—Olhe, tio Cruja, a gente viu-o morto ali no caminho.

—Morto!—pronunciou o velho com aspecto rijo, inteiro e com voz commovida.

—Sim, senhor, lá em baixo, ao pé da cancella—certificaram os rapasitos, fallando todos juntos, com a intimativa ingenua das suas vozes finas, apontando para longe, no fundo do valle!...

O coveiro foi ver. No andar tinha os movimentos rapidos e incongruentes de um côxo desvairado!... No rosto transparecia-lhe a expressão amarga e deprimente de uma intensa dôr, sentida com verdade! Os olhares eram impetuosos, lampejantes e vingativos; porque continuava a predominar no seu cerebro a idéa de que algum malvado lhe tinha morto o Coisa!...

Chegou ao pé da cancella. O pequeno goso estava deitado, immovel, composto como se estivesse a dormir. Depois que o pedinte faceto o suspendera pelo rabo, tornára a caír casualmente no sulco de carro, onde o seu pequeno corpo se ageitára, no ultimo momento da vida. Com o pello faminto, irriçado pela geada que caíra durante a noite, reconhecia-se ser aquelle mesmo o rafeiro que, nas manhãs de frio costumava correr, doido e despreoccupado, adiante do Coruja, quando elle ía para os enterros. A rigidez cadaverica, apoderando-se do seu corpo magro, com a fatalidade de um acontecimento necessario, dava-lhe uma expressão de insensibilidade absoluta, expressão de indifferença pelas preoccupações da vida terrestre!...

O coveiro ajoelhou na attitude piedosa de um crente. Tocou, quasi instinctivamente, com a mão, aquelle corpo inerte, para ter a indubitavel certeza da morte do seu unico amigo! Fel-o com a profunda veneração de uma alma rude; mas, n’este contacto do corpo de um cão morto, sentiu um longo calefrio de terror!...—elle que tantas vezes experimentára despreoccupado, o frio marmoreo dos cadaveres, que os costumava lavar e vestir, para depois os metter na cova e cobrir de terra!

O Coruja levantando-se hirto, subjugado, com as feições transtornadas e com as lagrimas nos olhos, e disse resignadamente:

—Isto... havia de ser o diabo do frio...

Um pouco depois, como se respondesse a uma pergunta, que fizera a si mesmo mentalmente, acrescentou:

—...Fome!? tamem seria fome... Honte não comemos nada!...

Passados momentos ainda considerou:

—Este raio da neve!... Pois elle, com um frio de mil demonios!... A gente sempre anda agasalhada; mas os animaes—coitados!—nem uma vestia, nem uns sócos!...

A final, tendo estado muito tempo sentado n’uma pedra a contemplar o corpo inanimado do Coisa, levantou-se com um impulso generoso e disse:

—Pois tu não és menos que os outros. Tamem has de ter o teu enterro com officio.

Dominado por esta idéa generosa, foi d’ali á igreja, buscar a sua enxada de coveiro, que costumava ter guardada por detraz do altar-mór! Era para abrir a cova ao Coisa. Na sachristia, revestia-se, para dizer missa, o padre José Pitança. Ao sentir pela igreja acima as pancadas sonóras e de uma intensidade desigual, de uns sócos, sobre o pavimento da igreja, observou ligeiramente para o sachristão:

—É o Cruja. Já vem por ahi com alguma carraspana. Eh!... Eh!... Eh!...

Quando o coveiro saía, atravessando a sachristia de enxada ao hombro, o ecclesiastico, com as mãos sobre o rins, atando as fitas do amicto, suspendeu o murmurar de resa e perguntou em voz alta:

—Quem diabo morreu, ó Cruja?

—O meu cão—respondeu com brevidade.

—E para que levas tu a enxada?

—Para lhe fazer um enterro.

O sacerdote teve uma gargalhada bulhenta de caçador. O coveiro offendido, respondeu-lhe com orgulho:

—Olhe que nem eu, nem você somos melhores que elle. Merece-o mais que muitos fidalgos.

E saiu bruscamente, coxeando.

O Coruja, com o fim de realisar a idéa generosa de fazer um enterro excepcional ao seu cão, procurou primeiro um caixão que lhe podesse conter o corpo. Para isso encontrou uma tábua comprida, sobre a qual o estendeu, alinhando-o cuidadosamente, para ficar bem composto, n’uma posição sensata e natural. Subiu a uma oliveira, da qual cortou uns ramos para cobrir o cadaver, para o enfeitar, dizendo n’uma voz socegada e de respeito: «esta é a tua mortalha». Depois, no proposito de organisar um acompanhamento e dar a isto uma apparencia de cortejo funebre, conseguiu que, a troco de uma promessa de pequena recompensa, quatro rapazitos que andavam n’um monte á garavalha, pegassem ao caixão. O caixão era a tábua com o cadaver em cima coberto pelos ramos de oliveira, posta em seguida sobre dois fueiros, tirados, pelo Coruja, de um carro que estava no caminho!... A cada extremidade de fueiro pegou um dos convidados. Depois, quando tudo estava em boa ordem, o coveiro, com a sua voz rouca e falhada, no tom faceto de uma alegria mentirosa, disse:

—Toca a andar rapasiada. Levemos este nosso irmão para o descanço eterno!

As creanças obedeceram com sinceridade infantil, caladas e respeitosas. O sahimento foi por um estreito caminho, com direcção a um alto pincaro, onde o Coruja determinou abrir a sepultura do seu velho amigo. Atraz do feretro ía elle, com a enxada ao hombro, a cabeça descoberta, um aspecto de contentamento triste, entoando o canto-chão, n’uma voz roufenha, pausada e distraída, imitando o phrasear dos sacerdotes nos officios:

Béu, béu, béu, Vae p’r’ó céu.

Ao que os rapazes, que conduziam o corpo, respondiam, fingindo vozes profundas e graves, espaçando as syllabas:

Engola, engola, Vae p’r’a cova.

Depois, todos juntos, communicando uns aos outros certa alegria sorumbatica e nervosa, cantavam em côro, n’um tom mais cadenciado, largo e solemne:

Quem ’stiver no inferno Saia cá p’ra fóra!

As creanças achavam isto divertido, apesar de procurarem adquirir semblantes sérios e respeitosos, fingindo attitudes de homens, endireitando o tronco, e esforçando-se por acertar o passo. Porém, como não sabiam coordenar bem os movimentos, em certo instante, pucharam em differentes sentidos e quasi deixaram caír desastradamente o cadaver do Coisa!... O coveiro sentiu rasgar-se-lhe o coração e deu um grito instinctivo e dilacerante! Os rapazes pararam rapidamente, ficando quietos e silenciosos diante d’aquella manifestação inexperada de uma dôr humanamente sentida! Continuaram depois o seu caminho, n’um silencio meditado e mais triste!...

Quando subiam a encosta do monte, o rosto do Coruja cobriu-se de certa melancolia, caminhando devagar, com o corpo inclinado para diante, absorvido na idéa da sua perda! Chegando ao cimo, parou junto de uma agglomeração de penedos. Esteve alguns segundos meditativo encostado á enxada... Mas depois, dando á cabeça um movimento impulsivo e retomando o seu tom comico anterior, disse com o chapéu levantado ao ar:

—Alto ahi!... oh! rapaziada!

Os pequenos pararam, pousando no chão o feretro.

O coveiro principiou a abrir ali mesmo a sepultura. O som baço e profundo da enxada, batendo cadentemente na terra, dilatava-se, reproduzindo-se nos angulos da montanha.

No exercicio da sua triste profissão, o Coruja tinha, n’este momento unico, um aspecto maguado... Todo curvo sobre a cova que ía abrindo, com uma expressão facial de rigida tristeza, impunha-se austero, digno, respeitavel!...

As creanças, graves, silenciosas, olhando absorvidas para elle, obedeciam a um sentimento que não saberiam explicar!... Tomavam parte no sentimento do coveiro e, d’este modo, com a sensibilidade ingenua e infantil, acabavam a tonalidade dolorosa d’este quadro triste!

Em frente das montanhas imponentes e do amplo horisonte, a respiração era facil, regular, socegada. Todos sentiam a tranquillidade, o socego, a paz silenciosa dos logares ermos! O Coruja, para acabar o seu trabalho, desceu ao fundo da sepultura e principiou a cavar com esmero dos lados. Desejava que o corpo ficasse cuidadosamente ageitado, como n’um berço!... Por fim, disse aos seus companheiros n’uma voz natural:

—Chegae-me para cá esse caixão.

E tirando cuidadosamente os ramos de cima do corpo, sopezou a tábua, para a collocar no fundo com o cuidado e com o amor com que collocaria o corpo de uma creança morta! Um dos assistentes confessou com naturalidade:

—Parece... como os anjinhos.

O Coruja devolveu a esta expressão singela e amoravel:

—Tens rasão. Olha que tinha uma alma como elles.

E passou a mão na cabeça d’esta creança, que lhe penetrára o pensamento, com a amisade com que o poderia fazer a um seu filho... Acrescentou depois, com voz comprimida pela dôr, mas esforçando-se por ser alegre:

—Vamos lá a cantar os officios, para ajudar a entrar esta alma no céu da bemaventurança!...

Recomeçaram de um modo mais calmo, penetrados de comica circumspecção, o funebre canto-chão.

Dizia o Coruja de um lado:

Béu, béu, béu, Vae p’r’ó céu.

Respondiam as creanças do outro:

Engola, engola, Vae p’r’a cova.

Depois entoavam todos em côro:

Quem ’stiver no inferno Saia cá p’ra fóra!

Repetindo isto muitas vezes, andavam em volta da sepultura. As creanças seguiam o coveiro, como acolytos. O Coruja, com um ramo de oliveira na mão, significava espargir o morto, com agua benta hypothetica!

Por fim cobriu-se de terra o defunto. Espetaram-se sobre a cova os ramos de oliveira, e todo o mundo se retirou. Os rapazes íam adiante do coveiro, contentes e felizes, atirando pedras que rolavam pelo monte abaixo. Um d’elles, vendo-lhe lagrimas nos olhos, perguntou a um companheiro:

—Porque é que o tio Cruja chora?

Ao que o interrogado respondeu intelligentemente:

—Ora... era amigo do Coisa.

Nos tempos subsequentes ainda viram, algumas vezes, o Coruja subir aos penedos sobranceiros á sepultura! Demorava-se ali horas, olhando para o largo horisonte, cantarolando sempre, como era seu costume nos momentos tristes! N’um dia em que o barbeiro Zé Maximo, com o seu ar importante de banalidade, lhe perguntou indiscretamente, sorrindo-se com modos de troça, «Ó Cruja, tu, diz que fizestes um grande enterro ao teu Coisa!», elle respondeu com azedume:

—É verdade, meu grandissimo jumento! Merecia-o melhor que tu.

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