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Comedia do Campo volume III (Scenas do Minho)

ANTONIO FOGUEIRA (continued 2)

Reading edition

—É diabo, rapaz, não durmas, falla-me a esse gado.

Por isso o rapasito, aguilhou com mais força os bois, que estenderam para diante as suas pesadas cabeças, contraindo fortemente os musculos, puchando com mais força.

Logo em seguida, um pouco ao lado do leito da estrada, viam-se os britadores, quebrando o seixo a martelladas repetidas, para fazerem o cascalho. N’este officio rude, que exige um exagerado esforço dos braços e de todos os musculos do tronco, empregavam-se alguns homens aleijados das pernas. Porém, alem d’estes, havia mulheres que tinham um aspecto grosseiro e masculino, fortes seios entumecidos, e que trabalhando por empreitada, podiam ir dar de mamar aos seus filhos, que choravam deitados em canastras, á sombra benefica e fresca dos salgueiros, que marginavam a estrada antiga.

Tanto estas mulheres como os homens aleijados, trabalhavam sentados no chão, cobertos com chapéus de palha baratos, que tinham comprado aos presos na cadeia da villa. O sol peninsular de agosto abrasava-os, obrigando-os a beber frequentemente tigelas de agua, que iam buscar a um ribeiro proximo. As suas conversas grosseiras, eram tocadas de palavras obscenas e sem pudor. Tinham um modo insolente de se exprimir, porque se julgavam mais livres do que os outros, que trabalhavam a jornal. O seu aspecto, pela continuação de se conservarem durante horas sentados no chão, com movimentos esforçados dos musculos dos braços e do tronco, era carecteristico e singular:—no peito havia uma forte depressão correspondente ao abaúlamento da columna vertebral; as linhas faciaes tinham uma contracção permanente de soffrimento, originada nos esforços potentosos; as narinas eram dilatadas em virtude dos movimentos respiratorios entrecortados e pelas largas expirações de compensação; o tronco e os braços tinham um desenvolvimento desharmonico em relação ás pernas; o semblante, pelo habito de olharem continuadamente para o chão, era triste e carregado, como deve ser o dos casseurs de pierre de Courbet.

Mais para diante, a estrada, era incompletamente aberta—andava-se n’um desaterro. As raparigas que transportavam terra aos cestos para o rio, íam e vinham formando um cordão movediço, como o das formigas no caminho de celleiro. As suas canções, umas vezes mundanas e que haviam aprendido com os cegos que passavam, outras vezes religiosas, ao Santissimo e ao Coração de Maria, que tinham aprendido com os missionarios, íam morrer n’uma toada monotona e ondeante nas quebradas da encosta fronteira. Quasi todas estas raparigas novas tinham, mais ou menos, um aspecto esfomeado e miseravel, a pelle grossa e avermelhada dos tempos diversos e inclementes que supportavam, os seus pés e os calcanhares gretados, as pernas estavam sujas de nodoas de terra, o olhar de algumas era tibio e doente, a côr de outras citrina e amenerrhoica, as mucosas dos beiços esfoliados e sem lhes transparecer a viva côr do sangue! Havia, porém, um certo numero d’ellas mais lavadas, que trabalhavam com mais alegria—eram as que passavam por namoros do senhor Alberto—o apontador, aquelle que as vigiava que as podia despedir, que exercia sobre todas ellas um absolutismo tyrannico! Era um rapaz forte, de uma boa corpulencia, a pelle tostada, as mãos plebeias, um farto bigode presumpçoso, uma cabelleira de terror, os dentes negros e os dedos queimados do fumo. Tinha andado a estudar em Braga muitos annos, com o fim de ser padre. Depois assentou praça no regimento de infanteria oito, para chegar a alferes. D’ali fugiu com a sobrinha de um marchante, com quem desejava casar, o que não concluiu, porque a perfida o abandonou para se amancebar com um clerigo. Por fim, Alberto, vendo-se desilludido e infeliz, ludibriado no seu amor, sem dinheiro, appareceu uma noite em casa de seu tio cirurgião, pedindo, como o filho prodigo da lenda, o esquecimento para os seus desregramentos desgraçados!... O tio cirurgião estava a cear a posta do bacalhau empurrada pelo cangeirão do berde. Era um homem sanguineo, e tomou-se de uma colera subita vendo o sobrinho, com quem gastara em Braga mais de cem moedas, de chapéu desabado e casaco roto, n’uma apparencia de malandro maltrapilho! Quil-o desancar com o estadulho das suas valentias que tinha ao canto da cosinha, onde ceava, e só depois da intervenção da Clementina, sua creada e amante de quarenta annos, a qual tambem ralhou muito com Alberto, é que o tio se tranquillisou, mandando-lhe dar uma posta de bacalhau. Mas, antes d’esta pacificação, levantando-se da lareira bebado, chegou-se ao pé de Alberto e berrou-lhe sobre o nariz, com voz temerosa e avinhada:

—Seu burro e seu ladrão! Eu aqui a ganhal-o, a apanhar molhadellas de lobo por esses montes, e você nas pandegas de Braga! Pr’o Brazil é que ha de ir. Arre, bá ganhal-o que eu tambem faço o mesmo. Mal aprendi a ler, e para arranjar esses campitos que tenho e que te hei de deixar a ti Clementina, puchei muito por este toutiço! Vá ganhal-o seu jumento, que eu ando ha quarenta annos a puchar pela cachimonia, se quero!

E bateu formidavelmente na testa, significando que só d’ali tinham saído todas as idéas, com que medicamentava os conterraneos. Affirmava ter muita gabança em não haver estudado, nem no Porto, nem em Coimbra, como os collegas que estavam na villa.

Porém, passada esta colera do primeiro momento em que viu o sobrinho, veio a pensar mais rasoavelmente, e determinou conserval-o antes por ali. Como era influente eleitoral, arranjou-lhe facilmente aquelle logar na estrada «que sempre deixava um crusado por dia, sem fazer nada!» Ficou, portanto, Alberto, na situação de indicar ao director das obras, um nigligente e aborrecido que passava os dias a jogar as damas n’um botequim da villa, os homens e as raparigas que deviam ser admittidos ou despedidos dos trabalhos na estrada! Isto dava-lhe um incontestavel predominio, e por isso eram apontadas com uma intenção reservada as moças, de que elle mais parecia gostar. Alem d’isto, Alberto, adquiria diante dos seus sobordinados que estava incumbido vigiar, a attitude de um personagem saliente. Os aborrecimentos da aldeia, tornavam-n’o triste e fatal! A sua existencia estava vasia da convivencia dos amigos, que adquirira nas batotas de Braga! Passeava a largas pernadas meditativas e não fallava aos rapazes lavradores, que tinham andado com elle no mestre de primeiras letras! Em vez de se suicidar, atirando-se ao fundo de um poço, lançou-se na leitura perigosa de romances de sensação, que os mais celebres fabulistas nacionaes e estrangeiros tinham escripto, expressamente para lhe fecundar a imaginação irrequieta e sorumbatica! Assim vivia n’um mundo incomprehensivel de emboscadas, loucuras, amores de redempção, paixões nobres e lagrimijantes, homens que se recolhiam ao desespero do sacerdocio, mulheres que fugiam aos maridos para seguirem acorbatas, santos eremitas que tinham sido famosos salteadores!... Esta illustração inoculou-lhe certas vaidades litterarias, que elle revelou no Bracarense, timidamente, sobre a epigraphe de Inspirações do Lima!... N’essas paginas, aquellas verdes e ramorosas paisagens minhotas, eram apresentadas cheias de cavernas onde se escondiam donzellas vestidas de branco, fugidas dos castellos de seus paes nobres, com amantes desconhecidos e mysteriosos. Porém, como nem tudo n’esta vida póde ser ideal, Alberto saía por vezes de entre os frescos salgueiros, onde se recolhia hostilmente a ler os seus romances, e n’uma excitação aphrodisiaca, ía espreguiçar-se entre as raparigas que trabalhavam, apalpando impudicamente os braços carnudos e os seios volumosos d’aquellas de quem gostava mais!... Os trabalhadores, que observavam de longe estes desfastios do senhor Alberto, disseram uns para os outros, descançando encostados ás enchadas, applaudindo-o, cheios de inveja.

—Isso, é levado de seiscentos diabos p’ras moças!

Foi ao chegar ao pé dos homens que faziam esta observação, que a egua do Fogueira, na qual ía montada a Marianna Ripa, parou subitamente, de um modo inesperado, n’uma posição desconfiada—a cabeça alta, as orelhas tezas e o olhar fixo! Depois estendeu o pescoço, inclinou para diante os pavilhões auriculares para reunir proveitosamente todos os ruidos e, dilatando-se-lhe demasiadamente as pupilas, conservou-se alguns segundos olhando firmemente para uma bandeirola que fluctuava... Todas as pessoas que presenciaram esta paragem repentina se tomaram mais ou menos de uma certa irresolução!...—os jornaleiros conservaram attitudes indicisas e indagadoras parando de trabalhar; as raparigas, que acarretavam cestos de terra, ficaram a distancia um tanto receosas; o Fogueira recuou dois passos e berrou «diabo de burra!»; Marianna, apesar de rapariga corajosa, lembrou-se que lhe tinham dito que a egua era amalucada e deu instinctivamente um grito!... O amante da Ripa, temendo que o animal lhe tomasse alguma manha, dirigiu-se-lhe de mão aberta com o fim de lhe fallar, mais familiarmente... Porém, n’este momento se não lhe furta instinctivamente o corpo, ía apanhando, sobre o ventre, uma valente parelha de couces!

A esta parelha seguiram-se muitas outras em todas as direcções, dadas com desembaraço vertiginoso. A Marianna, agarrava-se tenazmente ao albardão para não caír. Os trabalhadores, com o fim louvavel de suster a egua, levantaram as enchadas e as picaretas, pondo-se diante d’ella, fazendo algazarra. Porém, este procedimento deu em resultado o multiplicarem-se prodigiosamente os pinotes e os couces. A Marianna Ripa caíu do albardão, de bruços sobre a terra, com as pernas á mostra, e a egua, de cada vez mais doida, tomou-se de uma raiva aggressiva contra os que estavam diante d’ella, e arremetteu com ousadia para elles, que lhe abriram condescendentemente caminho! E, enfurecida, enthusiasta, com o dorso arqueado, a barriga baixa, o pescoço estendido, as ancas salientes, as pernas abertas, principiou a fugir pelos campos fóra, para os lados do rio! O Fogueira permaneceu livido, pasmado, sem desembaraço, a olhar, vendo-a saltar paredes, saltar vallados, sebes e barrancos! A sua amante já se tinha levantado promptamente, toda vermelha, com medo que os homens lhe tivessem visto as pernas! Não se tinha maguado, pois caíra sobre a terra molle! Todas as pessoas que presencearam este facto, surprehendidas pela rapidez com que elle se passara, estavam sómente interessadas no galopar da egua, que viam correr, dando upas vistosas, com a cabeça alta e o rabo espalhado ao vento!...

Antes d’ella desapparecer, calculou um jornaleiro com modo reflectivo:

—Aquillo foi o dianho da mosca!...

Os que ouviram esta opinião admittiram-n’a em silencio, continuando a olhar para a egua que fugia resolutamente, sem hesitações, sem duvidas, dominada por uma idéa infernal!...

Lá no fim dos campos, estava o rio, a grande profundidade, revolvendo-se as suas aguas, com um fervor de corrente que se precipita por entre penedos! Tinha chovido muito nos dias precedentes e, por isso, o rio levava uma bravura excepcional!...

A egua corria sempre, perdida, com os olhos esgazeados, as crinas ao vento, o corpo arqueado e foi precipitar-se do alto muro, caíndo estrondosamente na agua e fez cachap, levantando enorme poeira de espuma na amplitude do ar!

Um lavrador, que andava na outra margem trabalhando pacificamente no seu campo, vendo isto, exclamou surprehendido:

—Oh! com mil diabos, que lá se spapou!

E logo que o Fogueira chegou esbaforido disse-lhe este individuo, gritando:

—Ó hominho. Essa burra que caíu ao rio era sua? Ella era maluca por força!

O Antonio Fogueira respondeu-lhe de um modo abstracto, com uma navalha aberta na mão:

—É o demonio que a leve!... Se a pilhasse, abria-lhe a barriga de cima a baixo, com esta!

Depois, lançando um olhar indagador para os dois lados do rio, perguntou:

—Mas vocemecê viu-a? Onde diabo caíu ella?

—Olhe!...—apontou para os rochedos que estavam mais abaixo.

O Fogueira aproximou-se vagarosamente do logar designado. Uns lavradores e umas raparigas, que, ali perto, andavam no trabalho, perguntaram-lhe igualmente:

—Você é dono da burra que ahi caíu?

E à affirmativa do troquilha esclareceram:

—Pois o diabo, parecia que trazia o demo no corpo. Atirou-se sobre esses penedos como um raio! Depois, o rio levou-a para baixo.

Um dos trabalhadores acrescentou:

—Aquillo era maluca, por força!

O Fogueira repetiu, com rancor, mostrando novamente a navalha.

—Tres mil demonios a arrastem pr’as profundas dos infernos! Se se não tivesse spapado, punha-lhe as tripas ao sol.

Outro dos jornaleiros ainda esclareceu, apontando com a foicinha:

—Isso é ahi um pôço que nem seiscentas pipas! Você faz lá idéa!...

Um terceiro acrescentou:

—Nunca ninguem lhe viu o fundo. Muita gente antiga, diz que o não tem; mas isso parece-me mentira.

Um rapaz esclareceu:

—Ha ahi cobras que é um inferno! O tio Domingos Briteira viu uma de mais de vinte varas. Vinte varas! que digo eu! De mais de quarenta. Ora! Se ella tinha o rabo de lá do rio e a cabeça de cá, quando elle a viu. Talvez essa cobra se enrodilhasse ás pernas da burra!

O Antonio Fogueira despediu-se de um modo triste:

—Com bem passem! Deixal-a ir. Deus os ajude.

E na volta, quando chegou ao pé da Marianna Ripa, que o esperava, disse:

—Então que tal?! O Rio Tinto prega-me uma burra maluca!

A rapariga defendeu o primo:

—Ora! Talvez elle não soubesse!...

—Não sabia o diabo que o leve! Elle m’as pagará!

VI

Em Vianna, o Fogueira e o Rio Tinto, encontraram-se hospedados na mesma estalagem. Por causa do negocio da burra, invectivaram-se reciprocamente com injurias e, se não fosse o Fanfarra e a Marianna Ripa, que se interposeram, elles chegariam de certo ás do cabo! Por fim, o Rio Tinto, com uma viva colera no olhar, tirou da sua sacca de linho os soberanos que tinha ganho ao Fogueira e, atirando-os com despreso sobre a mesa, disse com altivez:

—Ahi tens e não tornes a dizer que te roubei. Bê lá como fallas p’rá outra bês. Põe n’esse raio de cara dois carbões accesos, para saberes o que compras!...

E ficaram, sem se fallar, olhando-se como dois homens que se odeiam! Á noite tiveram occasião de se encontrar, um em frente do outro, a uma mesa de monte, arranjada ao fundo da taberna, atraz de um tabique, por dois braguezes de longas barbas suspeitas e chapéus desabados... Estes homens, para attraírem os feirantes que por ali estavam, tinham-se abancado de um modo natural e simples, principiando a jogar entre si o trinta e um. Batiam insolentemente o dinheiro nas mesas, com o fim de se tornarem vistos, fallando alto e grosseiramente. Um almocreve, contractador de peixe para Traz-os-Montes, estava ali perto, e foi naturalmente attraído! Como ceára e se sentia na amplitude beatifica de um homem bem avinhado, foi-se aproximando, sorrateiramente, com certo desdem!... Carregando o chapéu para os olhos, sentou-se junto dos jogadores, tomando n’aquillo um interesse puramente mental!... A este curioso, juntaram-se outros, attraídos por iguaes motivos, chegando-se todos á formiga, n’um desleixo simulado, sem apparencia de proposito difinido, com as mãos nos bolsos e o cigarro ao canto da bôca... E, quando a roda era já bastante compacta, um dos jogadores, sem dizer palavra e fundando-se de certo n’uma convenção anterior, atravessou o baralho no meio da mesa e, tirando mais dinheiro do bolso, contou nove corôas em prata! Depois, com outras cartas que tinha n’um bolso interno da sua jaqueta de alamares, principiou a baralhar demoradamente, lançando em volta um olhar firme e carregado! O companheiro, sem lhe dizer palavra, abriu um cinto que trazia afivelado sobre o estomago, mostrando-o cheio de libras, e tirou tres, que ajuntou ao dinheiro já contado, e disse com um modo esbanjador, n’uma voz imperiosa e rouca:

—São quatro sovranos de monte!

Os indiferentes, ao verem isto, sentaram-se logo nos bancos de pau, acotovelaram-se contra a mesa, olhando avidamente para as cartas e para o dinheiro! Ao longo de todos elles passou o calefrio das sensações poderosas e commoventes! O jogador, que se preparava para fazer as pagas, collocou sobre o baralho, atravessado na mesa, as tres libras em ouro, espalhou a prata diante de si, misturando-a com certo despreso e, carregando mais para os olhos o seu chapéu de abas largas disse de um modo vago:

—Eram precisas ahi quatro croaças em covre...

Então, um rapaz novo, sem barba, muito magro e amarello, com o tronco osseo apertado no seu fraque velho muito coçado nos cotovelos e lusidio nas costas, pegou nas quatro corôas, que o jogador lhe deu por cima do hombro. Com passo ligeiro e leve, dirigiu-se ao taberneiro, que estava medindo quartilhos, e pediu-lhe n’uma voz urgente, perturbada, com inflexões nervosas:

—Tio Domingos... Estas croaças em covre!...

Collocou-lh’as sobre o mostrador humido de vinho.

O tio Domingos, com o seu ar de borrachão pantagruelico, perguntou-lhe usurariamente interessado:

—Então elles hoje... ein Marquinhos?!

Marcos, amanuense do governo civil, respondeu com muita pressa, contente, encolhendo-se em si mesmo, passando n’um frenesi, o seu dinheiro de uma mão para a outra, n’um estado de impaciencia quasi sensual:

—Sim, senhor, vão fazer... São aquelles dois de Braga, o Barroso e o outro que eu não sei como dianho se chama...

—Timotheo... O Timotheo da Carcova... Quem diabo não conhece o Timotheo?!

—Sim, senhor, um nome assim arrevezado, o Timotheo... Mas ande depressa, tio Domingos!—pediu com insistencia, com a sua voz aflautada, de um timbre choroso.—De-me esse troco que estão á espera! O Barroso não se volta, emquanto lhe não levarem covre!

O taberneiro disse:

—Olha, vae-te Marquinhos, que eu levo já. Diz-lhe que eu levo já.

E depois de ter contado meticulosamente o dinheiro, escolhendo o mais falso, foi elle mesmo pôl-o sobre a mesa do jogo. As suas mãos plebeias e sujas íam cheias de patacos esverdeados, de uma côr venenosa, levando ao mesmo tempo, de baixo do braço direito, um pequeno mialheiro, que collocou em cima da mesa, dizendo n’uma voz chorosa e comica que fez rir:

—Aqui pr’ás bemditas almas!...

Esta pequena caixa de folha com uma fenda na tampa superior, era onde os jogadores teriam de deitar os baratos!

Só depois d’isto, quando em volta da mesa estavam muitos individuos com um olhar desvairado e o dinheiro apertado freneticamente na mão, á espera do momento de jogar, é que o Barroso tirou quatro cartas do baralho, collocando-as nos respectivos vertices dos angulos de um quadrilatero que traçara mentalmente... Em seguida, accendeu um cigarro, piscando os olhos com as fumaças e disse:

—Agora, meus homes, é metter-lh’o sem medo!...

Chegára o tetrico momento dos primeiros palpites! A expressão de todos os semblantes era mais viva e as respirações abrandaram-se momentaneamente. Duas vélas de cebo, em duas bogias de folha, espirravam sobre a mesa, alumiando, com fraca luz, aquelles rostos sugados! O fumo espesso e azul, o cheiro nauseabundo do peixe que se estava frigindo, envolviam o grupo dos jogadores, que se entendiam por uma linguagem breve. Os cigarros accesos, collocavam n’aquellas pelles escuras e nas barbas pretas, pontos incandescentes! E cá fóra, na loja humida da taberna, o ou-ou prolongado das vozes dos feirantes pedindo mais vinho e praguejando, continuava-se n’um unisono monotono e ondeante, de momento a momento cortado pela voz do banqueiro, o Timotheo da Corcova, que dizia com arrogancia, «jógo.»

Era quasi manhã, quando isto acabou. O Fogueira apontou durante toda a noite, de um modo accintoso, contra o Rio Tinto, e esteve sempre com uma sorte de burro! Fartou-se de ganhar dinheiro, os montes de corôas iam crescendo diante d’elle e já lhe atulhavam os bolsos. Todos os outros pontos, embirrados com isto, seguiam o partido do Rio Tinto, que estava sem sorte nenhuma, e perdiam com elle! Em virtude d’isto, quando eram cinco horas da manhã, estavam á lisa, achando-se o dinheiro no cinto do Fogueira que os tinha alimpado a todos!

Antes da meia noite, a taberna ficara vasia de gente, que tinha saído para a romaria, com fim de ver o fogo! Na rua passavam continuadamente descantes á viola. Os que perdiam ao jogo, o Rio Tinto, o Fanfarra e todos se indignavam pronunciando insultos e obscenidades contra os das esturdias... O Fogueira bem comprehendia que eram injurias contra elle, por lhes ganhar o dinheiro, e ria-se ás gargalhadas, fazendo chacota e guardando com escarneo os soberanos que os outros perdiam. Por fim, quando amanheceu, o Barroso e o Timotheo da Carcova, encontrando-se pela primeira vez, no seu dinheiro, depois de uma noite inteira de jogo, durante a qual houve um momento em que a banca perdia mais de vinte moedas, disseram com certo desafogo:

—Contra esta sorte não ha que fazer! Estamos desforros...

E levantaram a banca sendo já dia alto.

O Fogueira ganhava um bom par de moedas! Impiedoso e triumpante, principiou a contar ostentosamente o dinheiro diante de toda a gente. Batia as libras sobre a mesa, fingindo por troça, que desconfiava que ellas fossem falsas. Voltando-se para alguns dos que as tinham perdido perguntou com modo achincalhador:

—Os sobranos são bôs, ó rapazes? Vocês viriam para a feira com dinheiro falso?! Não vinham; porque haviam de ter medo ao demenistrador. O que alguns são é bem bonitos, de cavallinho. Hei de os guardar para lembrança d’esta noite.

Os que tinham perdido, conservavam-se n’uma indifferença fingida, mas hostil... Deitados por cima dos bancos, como dormindo, olhavam por baixo dos chapéus desabados. O Rio Tinto e o Fanfarra tinham uma expressão amarga e vingativa, affastados do Fogueira, fumando cigarros e olhando para elle com um rancor intrinseco! Nos seus rostos severos e contraídos reconhecia-se-lhes mais ferocidade do que tristeza!

No dia seguinte, o Antonio da Engracia, percorreu com a sua amante todo o campo da Agonia, onde era a feira. Sempre que estavam perto d’elle o Rio Tinto e o Fanfarra, que o olhavam de travez, com modo ameaçador e reservado, puchava por dinheiro com escarneo! N’esse dia satisfez á Marianna muito mais do que as suas exigencias de mulher vaidosa pediam! Comprou-lhe uns brincos caros e um par de argolas de cabacinhas, na barraca do Ferreira, um ourives do Porto. Nos mercadores mandou cortar um saiote vermelho do melhor panno e umas roupinhas chibantes. Comprou-lhe lenços de seda de furta-côres e chinellas de verniz! Quando pagava, affectava sempre gestos esbanjadores, que feriam os que o viam!... Porém, esta intenção mostrou-se com verdadeira dureza na feira do gado, onde principiou a examinar detidamente a melhor egua, para a comprar! Era um animal vistoso, pelo qual um gordo ecclesiastico minhoto pedia vinte e cinco moedas! O Fogueira chegou-se á egua, assentou-lhe duas palmadas na anca azevichada e fel-a estremecer. Puchou lhe, em seguida, pelo rabo, obrigando-a a estacar firmemente... Examinou-a nas mãos e nos pés até aos cascos, para ver se estava puchada. Observou-a na dentadura, levantando-lhe a cabeça e affastando-lhe os beiços polposos com o fim de lhe calcular a idade... Passou-lhe os dedos diante dos olhos, para lhe experimentar a vista... Finalmente, quiz-se mostrar um troquilha experimentado, para que o não enganassem outra vez!...

O ecclesiastico, dono da egua, seguia discretamente, com um sorriso gabosola e um olhar entendedor, o exame do Fogueira, fungando estrondosamente a sua pitada de meio grosso. O amante da Marianna Ripa, com a faixa vermelha apertada no ventre e o chapéu de abas largas inclinado para a nuca, perguntou-lhe em voz alta e com pronuncia insolente; pois sabia que era ouvido pelo Rio Tinto que o cocava de perto:

—Ó senhor padre! Ella é maluca?

O sacerdote, João Pitança, á pergunta inesperada, e cuja intensão e alcance não podia comprehender, respondeu com uma gargalhada sonoramente timbrada:

—Ah! ah! ah!... Maluca! Home essa! Ah! ah! ah!... Como diabo ha de ser maluca a melhor egua da feira?! Ah! ah! ah!... Só essa pergunta me faria chorar de riso! Se foi por chalaça que o dissestes, fizeste-me rir. Ah! Ah! Ah!...

Affastando-se da sobrinha—uma rica moça de bons seios e boas ancas!—que se conservou a distancia com o guarda sol pendente das mãos crusadas sobre o ventre, aproximou-se do animal, bateu-lhe confiadamente na anca e chibatou-a com a sua varinha de marmelleiro para ella dar reviravoltas...

—Ora maluca!—continuou. Que demonio de lembrança a tua! Leva-a a contento meu rapaz! Pagas-ma p’ra outra feira se quizeres!

O Fogueira respondeu-lhe n’um tom de chacota, sempre com o fim de offender o Rio Tinto, que o continuava a escutar n’uma desattenção simulada:

—Não, que ha por ahi muito quem queira enganar a gente vendendo burras malucas... Ha muito ladrão com cara de gente! O senhor abbade não faz idéa!

—Abbade, não—emendou o ecclesiastico. Um simples padre, meu rapaz, um simples padre. Mas quanto á egua pódel-a levar, que é trigo limpo. Não tem um argueiro, pódes ver á vontade—concluiu o sacerdote, com o seu ar de homem bem comido e bem bebido, assoando-se fortemente ao lenço de panninho que desdobrára completamente ao ar!

Mas o melhor era montal-a—observou. Montando-se acabavam todas as duvidas. Se o Fogueira queria ver, corria-a elle mesmo, padre João Pitança, ali n’aquelle campo da Agonia, que era bom para isso. Não pensasse o comprador que tinha n’isso a menor duvida. Ou então, se antes queria, o Fogueira que arranjasse um picador da sua confiança, e veria como a egua se vispava por ali fóra, que nem um corisco! O amante da Marianna Ripa gostou d’aquelle desembaraço do ecclesiastico, e com ar galhofeiro e atrevido de homem que tem o bolso bem cheio de soberanos, disse-lhe:

—Então monte lá v. s.ª primeiro. Tamem quero ver a sua perna.

O padre João não hesitou um momento. Apertou melhor a cilha á egua e as correias das suas esporas. Com a mão esquerda nas redeas, repuxou-as de certo modo, para o animal enfeitar a cabeça. Alisou-lhe as crinas, passou-lhe a mão direita na anca, metteu o pé esquerdo no estribo de pau e com um balanço de homem acostumado, caíu no selim de um modo firme e airoso, como um lanceiro! Em seguida, com o seu riso aberto, de camponez vaidoso, disse para os troquilhas que o observavam com interesse:

—Isto é fino meus homes!...

E esporeou com habilidade a egua, para a obrigar a algumas reviravoltas, que abriram um largo circulo no povo circumjacente. Depois deu a primeira envestida na carreira, só para obrigar o animal a parar de repente; mas voltou ao logar d’onde partira, dizendo para o Fogueira:

—É cousa boa, meu rapaz! Cá não se engana ninguem! Não sou d’essa gente, nem a quero na minha companhia—pronunciou com vaidade.

As abas do seu comprido casaco sacerdotal, caíam dos lados. Com as pernas firmes, calculadamente encostadas ao ventre da egua, conservava-a n’uma vaidosa impaciencia de partir. Carregou o seu chapéu de abas largas para lhe não voar com o vento e foi-se chegando a passo, para o sitio onde se devia correr. A cabeça do animal, firme e altiva denotava certa magestade e orgulho!... O padre João Pitança retesava-lhe com intelligencia as redeas, para a egua se enfeitar, e esperava o momento opportuno de estar bem desempedida a carreira... Depois, quando esse momento chegou, partiu n’um travado meudo e veloz, diante de centenares de espectadores, que o viram sumir-se por entre uma atmosphera de poeira dourada pelo sol poente, o que lhe dava, tanto a elle como á egua, um volume indiciso e esfumado! D’ali a poucos minutos voltou, a galope rasgado, e estacou firme e de repente, no mesmo ponto d’onde tinha partido! O Fogueira confessou accenando com a cabeça:

—Sim, senhor! Uma boa perna, senhor padre!

Outro feirante disse:

—E rica mão de redea!

O ecclesiastico surriu-se com satisfação. O troquilha montou tambem o animal e correu-o. Por fim concordaram no preço de vinte e tres moedas, que o Fogueira pagou logo.

Todas as circumstancias impelliam os maus figados do Rio Tinto para um rancoroso procedimento de vingança! A pisporrencia do Fogueira ao gastar dinheiro, a sorte de burro que tivera ao jogo, as suas provocações com palavras e com gargalhadas de chacota, faziam-lhe remoer as entranhas lá por dentro, dando-lhe certa gana de o abrir de meio a meio! Principiou a conhecer que lhe entrava na organisação um appetite infernal de se vingar do amante da Ripa! Conhecia, por uma reflexão interior, que a cabeça se lhe estava enchendo de idéas perversas!... O Fanfarra, logo que elle lhe disse que tinha vontade de ter uma aquella com o Fogueira, tomou abertamente o mesmo partido, e n’uma intimidade infame, urdiram um plano para se vingarem das desfeitas que tinham recebido durante o dia!

Poderiam sair-lhe ao encontro, dar-lhe uma grande coça, a ponto de o deixarem estendido sem sentidos no meio da estrada, e roubar-lhe o dinheiro que levasse, que ainda havia de ser um bom par de moedas. Podiam porque eram dois homens destimidos, não tinham escrupulos e, talvez, já não fosse a primeira que faziam!... Mas o peor era a Marianna Ripa, que de certo acompanharia o seu amante!... Era preciso desembaraçarem-se d’ella por qualquer fórma!... O Rio Tinto conhecia bem sua prima... Era uma rapariga desembaraçada, que tinha tanta coragem e resolução, como qualquer d’elles... Dizia-se que envenenara um padre, com quem estivera amancebada dois annos! O primo troquilha tanto não acreditava n’este boato, que tinha sido a melhor testemunha de defeza da rapariga, o que muito concorreu para a livrar da cadeia onde esteve oito mezes, por causa d’este negocio!...

—Já tu bês que a conheço muito bem, e que até ella tamem póde entrar na cousa—concluiu com pronuncia intelligente...

Por isto o Rio Tinto mesmo é que fallou á Marianna, que teve alguma difficuldade, alguns escrupulos em atraiçoar o seu amante. Mas elle e o Fanfarra logo lhe rebateram todas essas asneiras dizendo:

—Não sejas tola... Que tens a ganhar com isso!?... Elle deixa-te por ahi qualquer dia e ficas a chupar no dedo!...

Depois de batalharem algum tempo com ella, convenceram-n’a... Que diabo!... O Fanfarra e o Rio Tinto, a final de contas tinham rasão. Isto de amigos, quando menos se pensa, arrumam para o canto uma pobre rapariga, como se faz aos sócos velhos que não prestam. Ella bem tinha visto o que acontecera com outras... Homens... trazem ás vezes muitos trabalhos. Aquelles oito mezes de cadeia, por causa da morte do padre João de Pinho, tinham-lhe aberto muito os olhos. Estivera para ir por uma barra fóra e, em boa verdade, sem ter tido grande culpa... O resalgar que deitára na malga de caldo com que o padre tristemente se envenenára, não era para o matar a elle, que até era um raio de home de quem gostava; mas para dar cabo da Tonia Salgada, um pedaço de coira, por quem o ladrão andava baboso, esquecendo-a ingratamente a ella, que tanta borracheira lhe aturara, durante dois annos! Não tinha peso nenhum na consciencia por esta morte!... O ecclesiastico é que tinha pegado, por sua livre vontade, na malga destinada á Tonia... Marianna teria ido degredada, se não fosse seu primo, que jurou diante do senhor demenistrador, primeiro, e, depois, diante do senhor juiz, na casa d’este e no dia da audiencia «que na occasião da tal morte, a Marianna, estivera em casa d’elle a sedar linho até de noite e lá comera e dormira». Tambem o podia jurar sem receio; porque ninguem a tinha visto em todo esse dia, que passára escondida no palheiro do padre... á espera.

A Antonia Salgada já vivia de portas a dentro com o seu amigo, já lhe fazia a comida, chegando ao desaforo e á pouca vergonha de jantarem á mesma mesa, como dois casados!—distincção que a Ripa nunca recebera, nem nos seus melhores dias, da parte d’aquelle excommungado, que devia, por força, estar a arder no inferno! Marianna soube isto; porque os espreitára. N’esse instante desesperado, veio-lhe uma impulsiva idéa de vingança!—o coração deu-lhe um baque de justiça, um salto dentro do peito, como quem diz «dá cabo d’aquelle diabo de lesma!...» Pelo muito particular conhecimento que tinha da casa do ecclesiastico, sabia que, embrulhado n’um papel azul, entre livros guardados n’uma caixa de pinho, estava um pouco de veneno de ratos, que o sacerdote comprára na villa. Entrou um dia lá na casa, quando todos estavam para o campo, e tirou o papel azul... Depois estabeleceu o seu plano de desforra, que poz em pratica d’esta maneira: Escondeu-se, uma manhã cedo, antes do dia romper, no palheiro do padre João, que era paredes meias com a cosinha. Levou um naco de brôa e uma racha de bacalhau; porque contava passar lá o dia inteiro. Durante toda a manhã, divertiu-se, a observar a tronga da Antonia, andando no preparo do jantar, para o que até matou a melhor gallinha! Uma cousa assim!... era de morrer de riso! Se a quizessem ver, como se rebolava por aquella cosinha! Parecia a dona da casa, cantarolando o bemdito, as modas do Coração de Maria ensinadas pelos ultimos missionarios, e o Afasta janota, arreda... moda dos cegos que tinham estado na ultima romaria do Soccorro. Ai que raiva se lhe apoderou do coração! Não sabe como se conteve, que se lhe não atirou ali mesmo ao gasganete, fazendo-lhe deitar uma lingua de palmo!... Por fim, quando no relogio da igreja deram as onze, a bebeda tirou da caixa uma toalha lavada, estendeu-a na mesa, sempre cantando com voz esganiçada. Depois encheu duas malgas de caldo, poz a gallinha e o presunto n’uma torteira de barro e saíu para chamar senhor padre João o seu—rico senhor padre João!—que andava na horta, a regar...

Foi durante os minutos d’esta ausencia que Marianna saíu do seu esconderijo e deitou todo a resalgar na malga que presumia ser a da sua rival! Pouco depois chegou o sacerdote, de tamancos, correndo atraz da moça pela cosinha dentro, com muito estrondo! Ella, a delambida, a fingir que fugia cheia de medo!... Seguiu-se um momento soturno, em que gosou, no meio de uma angustia ciumenta, a sua proxima, cruel e decisiva vingança! Pois aquelle alma de damnado, ali mesmo nas suas barbas, não se vae pôr a andar atraz da moça, não a agarra pela cintura, dando-lhe beijos e abraços, não atira com ella ao chão, com relinchos de cavallo! N’este momento, Marianna, achou mais repugnante o padre do que a tronga! Emquanto durou esta expansibilidade animal do ecclesiastico, ella soffreu os finos acicates do ciume, morderam-n’a até ás entranhas. Sentia-se espoliada n’um beneficio que lhe pertencia! Em vez de ser a ella que o malvado dava todas aquellas provas de amor, via-se reduzida a espreitar por uma frincha da porta e a presenciar enertemente tudo aquillo, Santo Nome de Maria! Teve tentações de entrar na cosinha, pegar n’um machado que estava ao pé da lareira e dar com elle na cabeça de ambos! Um ladrão e uma desvergonhada d’aquellas! A Ripa sentia-se com animo de os abrir, a um e a outro, e de lhes trincar o coração!... Mas uma voz interior de contentamento e de saciedade, apregoava-lhe o seu proximo triumpho e aconselhava-a a conservar-se escondida, como estava!... Aquella molengona, que lhe roubava a felicidade, dentro em pouco sentiria horriveis dôres nas entranhas e havia de estorcer-se n’aquelle chão terreo da cosinha, como um demonio escorraçado pela agua benta!...

Depois, o padre e Antonia, foram para a mesa e o maldito troca de proposito as malgas só para dar a melhor,—a de pó de pedra, a que era d’elle e que nem ás visitas offerecia!—á lambisgoia, que a acceitou toda derretida! N’este momento caíu-lhe a alma aos pés! Teve um movimento expontaneo de amor, de generosidade ou de compaixão, e chegou a pôr a mão na caravelha, para lhe ir arrancar da mão o veneno! Todo o seu corpo estremeceu, desde as unhas dos pés até á raiz dos cabellos, quando o padre João disse para a Antonia com ar interrogativo e saboreando o caldo com estalidos gulosos de lingua.

—Ó moça, tu deitaste assucar no caldo!...

Ao que ella respondeu, toda chieira:

—É porque ó senhor, parece-lhe dôce tudo que eu façe.

Marianna perdeu parte da consciencia e da vontade, ficando aniquilada, entorpecida, desorientada, entre a idéa feroz de uma vingança justa e o remorso, ou receio, de um crime que seria descoberto e punido! Não teve resolução, nem desembaraço para nada! O ecclesiastico bebeu a malga quasi de uma assentada, depois de ter comido a gallinha, com duas enfusas de vinho rascante. A Ripa deixou-se caír desfallecida no chão terreo! O sacerdote, acabado o jantar, saíu para ir levar o Senhor a uma moribunda. A amasia, tambem foi acompanhar Nosso Pae!... Ficou ella, só, dentro d’aquella casa, entregue ao proprio cerebro! Um silencio tenebroso cercou-a n’este terrivel momento!... N’uma especie de spasmo e de embrutecimento cheio de medo, foi-se metter debaixo da palha, tapando os ouvidos para nada escutar!

Que medonhas horas ali passou, sob a impressão accusadora de todos os factos que n’esse dia a interessaram. Horas depois, d’ali mesmo, ella ouviu o alarido da freguezia, correndo em gritos a casa do ecclesiastico, quando, quatro homens de béca, o traziam pelos caminhos n’uma padiola, com a batina e o roquete todo rasgado! Tinha tido os primeiros engulhos do envenenamento, quando ministrava á moribunda a Extrema Uncção, cercado do respeito submisso dos fieis ajoelhados em volta! Depois, principiou a sentir-se mais afflicto, sentou-se sobre uma caixa com os santos oleos na mão, e, como as afflicções cresciam assustadoramente, suspendeu com intelligencia a applicação do sacramento! Nem escalda-pés, nem mesinhas receitadas pelo cirurgião Manco, poderam produzir o beneficio desejado e, mesmo assim vestido sacerdotalmente, os homens que tinham acompanhado o Santissimo o trouxeram n’uma padiola para casa e o poseram, sobre a cama, já sem falla! Os soluços, as ancias, os vomitos, os gritos de dor que elle ainda teve, até ao momento de morrer, eram uma eterna condemnação, para a negra alma peccadora de Marianna Ripa, que os ouvia, escondida debaixo da palha! Se tivesse comsigo uma navalha, durante aquelles instantes infernaes, tinha-a enterrado bem funda no proprio coração, para se punir! Tamanho era o seu arrependimento e a sua contricção, n’este momento unico, que desejou morrer ali mesmo de uma morte repentina, bem medonha e horrenda! Mas depois, alta noite, desapavorou-se mais, escutando as conversas vulgares do sachristão com os outros homens, que ficaram a vigiar o morto e conversavam, riam e escarravam alto, já muito bebados! Então saltou para os campos pelo postigo do palheiro e fugiu, indo refugiar-se em casa do Rio Tinto, a quem contou tudo, para se accusar. O primo serenou-a dizendo-lhe:

—Mas elles não te viram, não, rapariga?

—Não viram. Ninguem sabe que fui eu—respondeu soffocada.

—Então bem, não tenhas medo.

Mas a justiça sempre a prendeu, por simples desconfianças, fundadas em que foi encontrado no chão da cosinha do padre, um tamanco que lhe pertencia. Porém, como fôra creada na casa, facil foi explicar este achado... O Rio Tinto, com o seu sangue frio é que a livrou da justiça, jurando a pé junto, como um cavallo, que Marianna Ripa estivera todo o dia em casa d’elle a sedar linho! Nunca poderia esquecer este grande serviço que o primo lhe fizera! Sentia-se-lhe presa pela gratidão, e quando elle lhe pediu para não ir com o Fogueira prometteu-lh’o, promptificando-se ao mesmo tempo a saber ao certo o caminho que o troquilha seguiria de Vianna para casa. Mas ainda assim, deve dizer-se: impoz como condição, pediu muito ao Fanfarra e ao Rio Tinto, que o não matassem, que não fizessem mal ao rapaz. Disculpava-o: era um estouvado, um espanta lobos por acaso, mas tinha um bom coração—rapaz de franquezas, nada era d’elle, tudo dava! O Rio Tinto serenou-a: não o queria matar—sómente desejavam alivial-o da chelpa que lhe havia de fazer peso no cinto. Para que queria elle, um rapaz solteiro e sem filhos, tanto dinheiro, como o que lhe dera a mãe, da venda dos campos, e como o que lhes ganhára ao monte?! De mais a mais era um burro tão feliz, que até arranjára o sustituto p’rá tropa, por quinze moedas, quando, todo mundo, gente mais pobre, tinha dado vinte. É bem certo dizer-se que a agua corre sempre para o mar e que, quando se é feliz, é-se feliz a valer! Aquillo estava mesmo a pedir uma alma de Deus que lhe tirasse a chelpa!...

A rapariga concordou. Receberia tanto como elles, pelos esclarecimentos que obtivesse. Porém, insistiu, ainda uma vez, com afinco e honestidade, em que não o matariam, em que o haviam de deixar ir em paz, depois de lhe tirarem o que levasse no cinto!... O Fanfarra, porém com um rosto ingenuo e sério, observou:

—Isso lá, tamem... que não tire elle pela gente!... Quando lhe pedirem o milho que o ponha e que não bufe... Se assim quizer que vá com seiscentos diabos, que ninguem lhe quer a pelle para tambor.

O Rio Tinto observou sensatamente:

—Ah! elle vendo que são dois resolvidos, não se ha de ir pôr com aquellas... Olhem que isto de estar assim de noite, no meio de um caminho só, onde nem todos os santos lhe podem valer se quizer pimponices... faz respeito.

E convieram em que, se elle se quizesse fazer fino, lhe iriam aos untos, sem mais aquellanças. O melhor era elle deixar-se de asneiras; porque lhe tinham uma sêde... lá do fundo. O Rio Tinto confessou ao Fanfarra, quando não estava presente a Marianna Ripa, que com o Fogueira ainda desejava ajustar umas contas velhas e que talvez fosse esta a occasião... E com um sorriso medonho, de copo em punho, observou:

—Isso lá, se não dá os sobranos depressa, leva uma tapona real.

—Melamos-lhe aquelle coiro!—acrescentou o outro com intimativa.

Chegaram a combinar mais detalhadamente no modo como procederiam. Não ignoravam que o Fogueira era têso, mas tambem não lhe tinham medo. Eram dois. Bem armados, com as choupas dos seus páus argolados e com navalhas de ponta e mola, que sempre usaram trazer no bolso interior da jaqueta de briche, julgavam-se temiveis. No entanto, para não serem conhecidos, cobririam as caras barbadas com lenços esboracados no sitio dos olhos e da bôca e fallariam na voz tôrva dos salteadores das lendas! O caminho, depois dos esclarecimentos da Ripa, era mesmo a calhar, e o Rio Tinto conhecia-o perfeitamente. Por isso elle mesmo é que determinou o sitio em que poderiam esperar o Fogueira. Era uma encruzilhada, onde havia uns carvalhos que, nas noites sem luar, tinham o volume incomensuravel das sombras phantasticas e pavorosas! O amante da Marianna passaria ali pela meia noite, pouco menos... A escuridade, o sitio e a hora, concorriam para o effeito d’esta scena de romance theatral. Só faltava a capa, o sombréro e o bacamarte para ser um quadro de Goya!...

Os salteadores ensaiavam-se com antecedencia: sairiam de repente de entre os velhos troncos nodosos e, mandando fazer alto, diriam imponentemente com voz soturna: «Seu amigo, ponha ahi o que leva!» Se o desse por bem e logo, deixavam-n’o com os demonios; se quizesse fanfar tirar-lhe-íam o dinheiro á força e moer-lhe-íam o canastro. Disse-o claramente o Rio Tinto com o seu rancor de mau homem:

—Se bufa paga-mas todas juntas. Á gana que lhe tenho, ponho-o molle como uma bosteira de gado! O bocado maior, não se ha de ver!

VII

O Antonio Fogueira saíu, ao escurecer, de Vianna, com idéa de chegar, na manhã seguinte, á sua freguezia, fazendo, assim, todo o caminho de noite. Não havia luar e as estrellas, quasi tão vivas como nas limpidas noites de inverno, diffundiam na amplidão luz sufficiente para, a pequena distancia, se poder apreciar o vulto das pessoas, a grandeza das arvores e dos penedos proximos. Quando elle saíu de Vianna, com muita gente conhecida, dispediu-se da Marianna Ripa até á proxima feira dos nove. Pelo caminho, os seus companheiros, foram dirivando para outros destinos e, quando era pela volta da meia noite, o Fogueira caminhava só, destacando-se, no silencio ambiente, como uma côr viva se destaca n’um fundo escuro, o saliente resfolgar da sua egua, que trotava n’um passo moderado e cadente, batendo com as ferraduras nas pedras avulsas do caminho. A estrada que seguia era estreita, orlada de arvores copadas, o que augmentava a escuridão... O Fogueira, apesar de não ser medroso, sentia, em volta de si, um certo vasio que lhe dava uma sensação de desamparo... de abandono!... Inconscientemente principiou a pensar n’um mau encontro, a lembrar-se que lhe podiam vir ao caminho alguns ladrões, se por acaso soubessem que o seu cinto ía tão bem recheado de soberanos! Quando se surprehendeu dominado por estas idéas extravagantes, sorriu incredulamente... Bem sabia não haver por ali ladrões, e que sómente, uma ou outra vez, se roubava uma poçada de agua, para valer a algum campo de milho, que se mirrava de secura. Mas dado mesmo o caso que lhe apparecesse um ou dois ladrões!? Não era elle um dos melhores jogadores de pau das feiras minhotas?! O seu lodam não tinha uma choupa de romper um peito?! A sua egua não era bastante impetuosa, para abrir caminho por entre um regimento de soldados, e bastante fugideira, para não ser pilhada pelo melhor cavallo a toda-a-brida?!... Porém, como lhe veio esta idéa esquisita de se lembrar de ladrões?! Como diabo lhe deu a caturrice para ali?! Não sabia, mas a verdade é que lhe desagradou o encontrar-se a pensar em taes amigos, quando era certo, que tinha o cinto atulhado de dinheiro... No momento em que elle se sorria destas asneiras, chegava a um pequeno largo, onde havia uns carvalhos antigos, cuja ramagem copada lhe deu facilmente uma impressão amedrontadora, como a de uma igreja, ou de um cemiterio que, n’uma estrada rural, se encontra desprevenidamente! O silencio aqui era simplesmente interrompido pelo som metallico de uma pequena fonte, que pingava junto de um muro. O Fogueira sentiu-se n’este momento mais isolado, e, talvez, em virtude da impressão desagradavel que este sentimento de desamparo lhe causou, attendeu com mais intelligencia a tudo que o cercava. Um tremor incaracteristico, mas energico, irradiou-lhe em todo o corpo; porque dois homens, dando largas passadas de tragedia, de paus argolados levantados ao ar, se lhe opposeram com arrogancia, dizendo com voz soturna:

—Faça lá alto, ó seu amigo!

A egua susteve-se logo, desconfiada, com um olhar inquieto, a cabeça levantada, as orelhas espertas! O Fogueira estremeceu involuntariamente, um formigueiro rabiou-lhe ao longo da espinha, ficando n’uma especie de spasmo, depois de ouvir aquella voz rouca, avinhada, uma voz de timbre seu conhecido, mas que, n’este momento, não podia dizer de quem era... Toda esta scena rapida e inesperada, deu-lhe uma idéa pavorosa de cousa sinistra, da intervenção do demonio nos successos da sua vida, de acontecimento só explicavel em historias de bruxas!... Porém, recuperando a serenidade, reconheceu que eram realmente dois homens mascarados, que se lhe oppunham no caminho e que deveria por força ser, para o roubarem... Seguindo o proprio instincto, tirou o seu pau ferrado de entre a perna e o albardão, levantou-o para elles com arrogancia e dizendo «qual alto, nem meio alto!» esporeou energicamente a egua, para romper com velocidade por entre os dois mascarados. O animal, que era fino e sensivel, deu um corcovo, indo esbarrar-se contra uma corda que estava intensionalmente atravessada no caminho e, o Fogueira, ficou desmontado; mas com tanta felicidade que, quando os aggressores íam a caír sobre elle, encontraram-n’o de pé, fazendo-lhes face, com o páu em guarda, emquanto que, a distancia, se ouviam as ferraduras da sua egua batendo nas lages da calçada.

Este momento de silencio foi tenebroso! Havia dois homens contra um, na escuridade indicisa de um caminho orlado de arvores, que se definiam no ar com os seus enfolhamentos volumosos e espessos! O Fogueira esperava um ataque simultaneo da parte dos salteadores, e já calculava defender-se, de costas contra o muro, sustentando-se assim até poder bimbar o primeiro, para depois se encontrar com o segundo que accommetteria com força. Mas um dos mascarados, baixando o páu com desdem, disse n’uma voz trocista de compaixão, para lhe mostrar que o tinha comprehendido:

—Home, não te faças fino, que te enganas. Deita ahi a marmelada que levas no cinto e vae-te c’os demonios, se não póde-te saír a cousa torta!

Esta intimação ironica e despresadora offendeu, mais do que tudo, o Fogueira, insufflando-lhe uma energia raivosa contra os dois aggressores. Não o conheceriam elles?! Não saberiam que era o melhor jogador do pau das feiras minhotas?!—disse comsigo este sanguineo estouvado! Pois estavam em momento de o experimentarem!—pensou n’um silencio rancoroso e indomavel. E logo depois, n’um impeto leonino e sem tatica, cresceu aggressivamente para ambos, tomado de um frenesi tão diabolico, que os fez recuar alguns passos n’este primeiro ataque. O Rio Tinto disse-lhe com uma voz já menos disfarçada, aparando-lhe as pauladas:

—Ah! queres á valentona?!... Vamos então lá a ver!...

Houve um instante de hesitação, um momento instinctivo de pausa, em que de parte a parte se pensou rapidamente em accommetter com a maior energia. O Fogueira era bastante conhecido, como jogador temivel. O Rio Tinto e o Fanfarra sabiam-n’o melhor do que ninguem; porque muitas vezes se tinham encontrado emparceirados em desordens e, talvez n’este momento, se lembrassem que, um d’elles, devia á presteza e generosidade d’este valente rapaz, não ter ficado morto no S. Sebastião de Villa Nova!... Porém, apesar d’isto, no momento actual, elles eram dois contra um! A enorme sêde de vingança, e a natural maldade e valentia incontestada dos dois salteadores, davam-lhes reconhecidas vantagens. O Fogueira, ainda que fóra de si, já tinha conhecido pela guarda dos adversarios que elles sabiam do negocio:—reconheceu que eram jogadores. Mas o seu natural impetuoso e imprevidente levou-o a saír da defeza, com o fim de os atacar, e com a idéa de fazer a um d’elles, a sua finta predilecta á bôcado estomago; empregando, ainda assim, muito olho para não perder a protecção do muro, que lhe guardava as costas. Na soturnidade da noite, profunda e cava, por entre os espessos troncos de carvalhos folhosos, no meio do silencio imponente das montanhas visinhas que se levantavam na amplidão, ouviam-se os estalidos seccos e breves dos paus, batendo uns nos outros, por entre as respirações de cançaço cortadas de palavras injuriosas e cheias do rancor dos combatentes! No escuro, a que elles já tinham habituado os olhos, os seus corpos furtavam-se habilmente aos golpes, saltando de lado para lado, sempre n’uma incerteza de posição! O Fogueira, como era só, precisava empregar maior esforço e tal raiva que, no fim de cinco minutos, fez saltar o pau do Rio Tinto, para lhe atirar a pontuada ao estomago! Este porém, como lhe conhecia bem o jogo, deu um largo salto de recuo e, em vez de ir buscar outra vez a sua arma, metteu rapidamente a mão ao bolso interior da vestia, tirando a sua comprida navalha que abriu de prompto e disse na voz natural:

—Agora ha de ser com esta. Ataca com força rapaz!—gritou ao companheiro.

Principiou um d’esses momentos terrivelmente sinistros, em que entre dois homens se estabelece esta negra idéa—de se matarem um ao outro! O Fogueira conheceu immediatamente o perigo, quando viu faiscar a lamina da navalha, que mesmo á luz tibia das estrellas brilhára aos seus olhos, como um relampago! N’esta lucta obscura, que se passava no silencio de uma noite de primavera e na tranquillidade de um caminho rural, havia muita ferocidade condensada! O Antonio Fogueira tinha, até ali, sustentado os ataques dos adversarios; mas, agora, para se furtar á navalha de um assassino, só o poderia conseguir inutilisando o Fanfarra, que o ensarilhava de cada vez mais, fazendo-lhe um jogo de mil demonios! Por isso, com a ligeireza de um cabrito montez, saltava para a direita, para a esquerda, para a frente, para traz... evitando os dois inimigos que o procuravam com pertinacia... com furia! O Rio Tinto praguejava, ameaçava-o com voz rouca... quasi natural... O Fogueira tel-o-ía conhecido em outras circumstancias; mas, em momento tão apertado, nem reflexão tinha para isso... As forças eram desiguaes... o filho da Engracia enfraquecia-se visivelmente, e a elle, que era corajoso, veio-lhe a idéa de um soccorro providencial... Sentia-se já extenuado e aggredido de cada vez com mais tenecidade, com mais rancor, com maior impeto! Aquelle que o procurava por todos os modos, para o anavalhar, pronunciou com voz clara, já sem pretensões de disfarce:

—Agora Fanfarra, deixa-me c’o elle!...

E logo em seguida, o Fogueira, sentiu-se abraçado pelo seu inimigo, a quem desmascarou no instante em que a comprida navalha lhe entrava no coração, rasgando-lh’o com tal força, que só teve tempo de dizer n’um suspiro final:

—Ah! ladrão de Rio Tinto, que me matastes!

Foi este o ultimo grito de angustia e as ultimas palavras que proferiu!... O seu corpo deixou-se caír no chão, desfallecido, com os braços pendentes e o sangue a golfar-lhe pela ferida e pela bôca! Ainda teve alguns movimentos convulsivos, acompanhados de um rouco respirar stertoroso, com borbulhões de espuma sanguinea pelo nariz! A sua energia ainda manifestou um instante de louca rehabilitação, pertendendo, aquelle corpo moribundo, levantar-se sobre os joelhos! Mas a final caíu brutamente, ficando exanime, insensivel, de bruços sobre a terra!...

O Rio Tinto e o Fanfarra conservaram-se, durante um longo minuto, a olhar para o cadaver, silenciosos, estupidos, n’uma impotencia inexplicavel, quasi sem poderem fugir! Sentiam-se agora mais covardes, mais irresolutos, depois de consummado o crime! Não tendo uma precisa comprehensão das circumstancias, esperavam, um tanto passivamente, qualquer castigo que viria do alto, de uma implacavel região de justiça, para os punir!... Alguem que, por casualidade, os tivesse visto, poderia aproximar-se sem que elles se escondessem; pois que, durante este minuto sinistro, conservavam-se sisudos, calados, a olhar um para o outro, com os braços pendentes!... Mas, logo depois, o Rio Tinto, que era mais preverso e malvado, recuperando com certa promptidão a sua podre consciencia, disse, em voz insultante, para o cadaver:

—Ora ahi tens!... É assim que se ensinam os pimpões!...

E permanecendo algum tempo com o ouvido á escuta, para que alguem se não aproximasse inesperadamente, observou em seguida ao Fanfarra que, dominado por um terror supersticioso, escutava o som metallico da agua da fonte:

—Não tenhas medo... Não é ninguem... É ali a pingar...

Porém, como o Fanfarra, ainda se conservava n’esta insensibilidade estupida e incomprehensivel, o Rio Tinto dispertou-o dizendo-lhe, com um acêno imperativo de cabeça:

—Então?!

O outro troquilha encolheu os hombros, com certo desleixo, indicando que fizesse elle o que quizesse, que estava prompto para tudo... O assassino do Fogueira, dando movimentos desengonçados ao tronco e á cabeça, proferiu com certa ironia feroz e temivel, condemnando aquelle estado de arrependimento:

—Ora põe-te com aquellas. Talvez ainda lhe tenhas medo. Olha que já se não mexe...—concluiu impellindo o cadaver com um pontapé.

E, logo, curvando-se sobre o corpo ainda quente, desafivelou-lhe o cinto que suspendeu no ar, tilintando escarnecedoramente com o dinheiro, e rematou n’uma voz de contentamento miseravel:

—Ouvel-os? Cá cantam?! Fazem um certo arranjo.

O sangue ensopava a terra, jorrando em borbotões ruidosos pela bôca do cadaver e pela ferida! O Rio Tinto, tendo guardado o roubo, observou com modo mais familiar, pondo a mão no hombro do companheiro, que permanecia na mesma apparente insensibilidade:

—Agora... pernas para que vos queremos. Toca a andar, que póde vir por ahi algum patrão!...

Retrocederam pelo mesmo caminho, primeiro n’um passo rapido, depois a fugir, o Fanfarra atraz do Rio Tinto. Tomaram á esquerda, por um atalho pouco frequentado, que os devia levar, atravez de uns montes, a outra estrada...

O Fanfarra, quando já estava mais seguro de si, parou subitamente, para considerar:

—Olha lá... Ficaria elle bem morto?!

O Rio Tinto certificou-lh’o do seguinte modo:

—Deus te dê mais vida do que elle tem!

Mas o Fanfarra, visivelmente preoccupado com esta idéa, como estavam muito perto disse:

—Home... ainda é escuro... Voltemos a espreitar se elle se mexe!

E voltaram n’um passo rapido, melhor seguros de si, com a alma mais desanuviada e perversa. Ficaram a pequena distancia, de traz do muro, escutando... O silencio prolongava-se preguiçosamente na profundidade do valle. Sómente o pingar monotono da fonte proxima perturbava este alvorecer indiciso, que os passaros já principiavam a alegrar. Os assassinos, para se certificarem positivamente da morte do Fogueira, e como a escuridade ainda os protegia, saíram do logar onde se tinham prudentemente escondido e aproximaram-se do cadaver, com certa ousadia e confiança. O corpo continuava a jazer exanime, de bruços sobre a terra! Não tinha o menor signal de vida—nem sequer perturbava o silencio da noite, com a respiração tenue do moribundo!

O Rio Tinto, empurrando outra vez o cadaver despresivelmente com o pé, pronunciou com um sorriso cynico:

—Estás bem morto! Pagastel-as todas. Já não comes mais brôa.

O Fanfarra, que era menos animoso, observou-lhe com certo modo urgente:

—Home, deixa-o lá, coitado! Fujamos nós, que já se vae vendo!... Pode vir por ahi algum demonio...

O Rio Tinto concluiu com uma intonação trocista:

—Aposto que tens pena d’elle!... Ou é medo?!... Não tenhas medo; nem elle, nem os que podem vir te prendem. Se algum pimpão ahi apparecesse agora, fazia-se-lhe o mesmo e eram dois que ficavam estendidos.

Depois afastaram-se do cadaver e do caminho que tinham trazido de Vianna, por atalhos seus conhecidos. D’ali a poucos minutos, transpunham o cabeço sobranceiro á estrada. O Rio Tinto concluiu com serenidade:

—Agora é que é bom dar á perna, que ella vae-se mostrando...

Referiam-se á manhã que rompia, com uma claridade roxa. Era o alvorocer de um formoso dia de sol. As cumiadas dos montes circumvisinhos ainda se esfumavam indicisamente no azul; porém, o tremulusir das estrellas que fôra, durante a noite, vivo e inconstante, como o dos brilhantes nos bailes da opulencia mundana, principiava a extinguir-se. O ar sadio e oxigenado dos campos, dava ao corpo dos madrugadores a sensação macia de uma ligeira humidade refrigerante. Dos pinheiraes e das mattas de carvalhos, já saíam os gaios ralhadores, com o seu vôo largo, annunciando, por cima das penedias, o dia que chegava. Os braços enfolhados das arvores nascidas nas eminencias, recortavam-se no céu, tenuemente anillado, manchando-lhe a pureza. A modo que o dia se ía illuminando melhor, as arvores e as massas de penedos destacavam-se, com mais precisão. Da côr roxa primitiva, o céu, foi insensivelmente passando para a côr de rosa, depois para o azul plumbeo, por fim colorindo-se todo por igual, quando as estrellas já se não percebiam, adquiriu o verdadeiro tom de azul ferrete, uma côr humida e energica, propria das manhãs de primavera no clima do Minho. O nevoeiro tenue, como um gaze lançado sobre os montes e os campos, foi se pouco a pouco condensando no fundo do valle. A vida laboriosa dos trabalhadores ía manifestar-se nos caminhos e nas encostas. Seria um dia alegre como todos os dias,—os milhos continuariam a crescer, e as poucas cearas de centeio pintar-se-iam com o amarello da ganga... Porém, n’este pequeno largo plantado de velhos carvalhos annosos e onde uma pobre veia de agua pingava continuadamente, estava disposta uma surpreza desagradavel, para o primeiro madrugador da aldeia. Era o cadaver de um rapaz de vinte e tantos annos, assassinado com uma facada, que lhe entrára no coração! O seu corpo estava de bruços, no supremo abandono da morte! O sangue saído da ferida, molhava a terra e manchava-lhe a cara. E, a vivificante luz da manhã, o orvalho que refrigéra, as côres da paizagem que enebriam pela complexidade de tons... essa força omnipotente que vem da natureza, pairava sobre o morto, com um scepticismo ironico e dominador!...

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