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Chronica de El-Rey D. Affonso II

CAPITULO VIII

Reading edition

Como os Christãos combateram e tomaram o Castello Dalcacere

Os

Christãos por esta vitoria ficaram alegres, e mui esforçados, depois de consultarem sobre a milhor maneira que teriam para tomar a Villa, fizeram duas escadas grandes, e com gente darmas que comprio foram logo juntas ao muro para o entrarem, e comessarem de combater o Castello; mas os Mouros com a necessidade que tinham de salvar suas vidas, dobráram suas forças, pelo qual assi com fogo, com pedras, e traves, e setas, que de cima do muro lançavam, afastaram os Christãos longe do muro, em que da uma parte, e da outra foram muitos mortos, e feridos, e porque os Christãos viram que aquella qualidade de combate por a grande fortaleza, e desposição dos muros lhe não socedia como dezejavam, fizeram logo cavas, e minas por baixo da terra para as poerem debaixo dos muros, e postos em contos os derribarem por fogo; mas os Mouros que desto por avizos, ou por conjeituras foram bem sabedores contraminaram as cavas dos Christãos, e uns, e outros com peleja mui crua se encontraram, em que houve muito sangue derramado, e com grandes fogos, e cousas fumosas que os Mouros fizeram, lançaram os Christãos fora das cavas, e pozeram sobre si segura guarda, pelo qual vendo os Christãos que alguma cousa das cometidas de todo lhes não aproveitava, elles, por conselho, e ordenança do Capitão da frota, que era homem engenhoso, e de bom esforço, fizeram logo duas bastidas de madeira muito fortes, e tão altas que cada uma dellas sobejava por cima das mais altas Torres do Castello, donde os combates que nellas poseram iam seguros, e não temiam os danos dos Mouros, e com esto, e com outros engenhos que mais ordenaram, e com muitos bésteiros, e frecheiros commetteram o Castello rijamente por muitos lanços do muro, por cima do qual os Mouros com a força das setas, e pedras que lhe lançavam, não ouzavam parecer nem resistir como dantes faziam, e vendo-se fracos de suas forças, e desesperados já em tudo, de todo o soccorro, e finalmente porque se não podiam suster, fizeram sinal que se queriam render, e sobre seguro, que lhes foi dado, vieram á pratica, e apontamento, em que pediram as vidas, e fazendas, mas as vidas sómente lhe foram outorgadas com segurança das quaes elles abriram as portas do Castello, e assi seguros se sahiram, e foram para onde quizeram, e o Alcaide do Castello, que antre elles era a pessoa mais principal, não se quiz ir com os outros, mas acha-se que da tomada da Villa, a tres dias por sua vontade foi bautizado, e tornado Christão, e os outros Mouros que os Christãos acharam pelas Aldeas, e Lugares de redor todos, se diz que sem resistencia morreram a ferro, e os grandes despojos que da batalha passada se recolheram, e na Villa se acharam foram logo igualmente repartidos sem aventagem dalgum, salvo que ao Capitão de fóra, porque por seu conselho e ordenança o cerco fora sempre regido lhe deram mais déz por prezioneiros, que elle tomára.

E porque ao Bispo de Lisboa não foi sobre elles dada alguma avantagem, que bem merecia, o Capitão da frota a que tal escasseza não pareceo bem, por seu conforto lhe disse: «Reverendo Bispo, posto que vós aqui pelo bem recebeis mal, e pela bondade malicia rogo-vos que a estes homens, que tão mal o conhecem, e fazem sejais paciente, porque o principal galardão que por este trabalho mereceis Deos nosso Senhor que é bom, e justo, e porque bem o recebestes volo dará bom no Ceo, e será melhor que este de cousas da terra». E com esto os Estrangeiros se recolheram a suas frotas, e se partiram para onde quizeram, e o Bispo com os senhores Portuguezes, que ao cerco vieram depois de leixarem a Villa afortalezada, e bastecida, como viram que compria, tambem se tornaram para suas terras, e cazas, e esta tomada de Alcacere em tempo deste Rei Dom Affonso II foi em dia de S. Lucas, a dezoito do mez de Outubro da era de nosso Senhor de mil duzentos e dezasete annos, (1217) e dahi a um anno este Rei Dom Affonso com a Rainha Dona Orraca sua molher lhe deo foral que agora tem, como por elle parece.

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