CAPITULO V
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Como Alcacere foi cercado, e com que numero de gente Portuguezes e tambem Estrangeiros
Aquelles
Estrangeiros que foram dacordo com os Portuguezes de irem sobre Alcacere se recolheram logo ás suas naos, e sendo aparelhados do que lhes compria no mez de Setembro, se foram, e seguiram a barra de Setuvel, que neste tempo era Lugar pequeno, e não era cercado, em que pescadores sómente viviam, e da gente de Portugal se acha que foram estes Capitães principaes, a saber este Dom Mateus, Bispo de Lisboa, e Dom Pedro Mestre da Ordem da Cavallaria do Templo, e Dom Mestre Gonçalo, Prior do Esprital, e Martim Barregam, Commendador de Palmella, e estes levaram comsigo da terra, Comarca de Lisboa, e de Evora, e de seus termos vinte mil homens, de que os mais eram de pé, e alguns de Cavallo, e não se acha que El-Rei Dom Affonso, que então Reinava em Portugal, fosse neste exercito em pessoa no qual tempo parece que elle deveria ser doente, ou empedido por alguma outra urgente causa, porque não pôde ser neste feito, e haveria por bem, e mandaria que se fizesse prestes, como se fez, ca não é de crer, tamanho feito sem seu mandado, e authoridade se cometesse, e o que se neste caso achou, é que os Estrangeiros em navios, que poderam ir, foram de Setuvel pelo rio acima até junto Dalcacere, onde saindo alguns para tomar uvas, os Mouros, que da sua ida eram já bem avizados, com armas lhe foram resistir, em que houve algum acometimento de peleja, de que um Mouro se diz que ficou morto, e os outros se recolheram ao Castello, e os Estrangeiros surgindo com seus navios mais ávante poseram defronte da Villa suas pranchas, e sem resistencia sairam em terra, e logo elles, e os Portuguezes que já tambem eram chegados, juntos com devida deligencia e resguardo cercaram o Castello de maneira que alguma pessoa não podia sair, nem entrar sem conhecido perigo; mas os Mouros posto que com tanta estreiteza se vissem cercados não mostravam ter por esso desmaio, nem temor, vendo que o Castello em que estavam era de muros, Torres, barreiras, e a cava mui forte, e bem provido, e acalcado de muitas gentes, e armas, e mantimentos para grandes tempos, e por milhor seneficança aos de fora de seu esforço, e confiança, poseram muitas bandeiras por cima do muro de que em sinal de desprezo diziam feas palavras, e davam suas costumadas gritas.
E os Christãos leixaram boa guarda sobre sua frota, que com gentes, e armas ficou no porto bem segura, e sobre esso uns, e outros fizeram logo combater o Castello, e vendo que pela larga, e alta cava com que o muro era em torno valado não poderam bem chegar aos muros, e cortaram tantas arvores de fruito, e juntaram tanto outro mato que sendo igual a cava com a terra de fóra podessem mais sem trabalho chegar aos muros, mas os Mouros aconselhados das necessidades e perigos em que se viam, lançaram de cima tanto fogo, com tantas cousas temperado, que a lenha da cava ardeo logo toda, por cujo impedimento leixaram logo de combater, e apoz esto ordenaram os Christãos um engenho para com pedras destroirem o muro, mas sua fortaleza de dentro era tal, que dos seixos de fóra lhe dava muito pouco, pelo qual tornáram a lançar tanta lenha na cava, com que foi chea, e tal guarda se poz, que não foi dos Mouros queimada como elles logo tentaram, por cima da qual os Christãos chegados ao muro deram um combate a que os Mouros com seu grande esforço, e muitas armas resistiram de tal maneira, que afastaram os Christãos dos muros, em que de uma parte, e da outra houve assás mortos e feridos.