AMOR CRIOULO (continued 5)
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estancia
agora perdera todo o seu ordenado e pacato aspecto antigo. A cada momento ali um afadigado enxame de obreiros voluteava incessante, não só fóra, pelas imediações, formigando em manchas de atento e aplicado ardor, como tambêm, do gradeado a dentro, pisoteando os tenros canteiros do jardim, revolvendo do
patio
a lisa areia, invadindo os quartos, encostando escadas, verrumando, parafusando, martelando, encavalados pelas paredes, debruçados da
azotea
. Esta sua dispersiva ânsia de movimento a cada passo era cortada pelo pejamento inerte duma abundante farfalha industrial: tubagens, cordas, arames, pás, alviões, pêras eléctricas, chumbo em blóco, ferros em brasa, metais luzentes, destroçadas rumas de barricas e caixas de lata estripadas. Sobrelevando aos prosaicos ruídos habituais do recinto, de tôda esta batida sonora soltava-se o ritmo sadio e folgazão dum como cântico de vitória. E do mesmo passo a mãe-terra aparecia tôda fendida e revôlta, cortada em tôdas as direcções por uma anastomose de sulcos ridentes e húmidos, aberta com prodigalidade em ruturas serpeantes,―o que fazia o infantil regalo de Dorita, todo o dia rojada sôbre a frescura plástica do sólo, embodegada e suja, a «fazer casitas».
Para a limpa execução dêsse trabalho delicado e novo, tinham vindo da cidade carpinteiros, sambladores, polidores, torneiros, electricistas. E a favor do tempo se foi a garrida e abundante decoração gradualmente definindo.―Uma cerrada fieira de lâmpadas contornava nas suas linhas essenciais a arquitectura sóbria da residência, correndo em dupla fita ao longo da cornija, cingida aos relevos terminais do
hangar
, marinhando em hélice pelas colunas. Uma espelhada cinta idêntica de vidros coloridos rodeava por inteiro o gradeamento alto do jardim, e pelo interior dêste, depois, em caprichosa profusão seguia a circuìtar e a derramar-se em lacetes numerosos, riscando troncos de árvores, desenhando globos, estrêlas, rendados, franjas, vestindo e pintalgando o ripado fresco dessoutra floresta de gongóricas pirâmides que em farta sementeira se escalonavam pelo recinto. Havia mais, ali, de árvore para árvore, de poste para poste lançados com elegância, grossos festões de buxo e sanefas berrantes de papel de côr; e na inefável palpitação do ar batia uma alacre trepidação, compacta e esplendente, de emblemas religiosos, de laços, flores,
pompons
e bandeiras. Fóra, pela intérmina expansão do campo, alinhavam-se extensas fiadas de tarimas tôscas, feitas em madeira clara e resinosa, adrede improvisadas para que à epicúrea onda da multidão elas pudéssem ser, cumulativamente, fácil estendal para a comida e cómoda estância de repouso. E no ponto culminante, ao alto, protegida pela enramalhada concha, tôda em torcicólos gigantes, dessa atormentada árvore secular, já nos últimos dias luzia suas inéditas galas um lindo nicho baldaquinado, em equilíbrio sôbre um alto lenho prismático, tombado ligeiramente, à moda veneziana, e entalhado em duro roble, com porta de cristal e um rico lampadário de bronze à frente suspenso.
Esse aprazado domingo amanheceu, por sorte, um encanto. No azul puro e diáfano do céu, peneirado duma subtil poalha de oiro que era como uma alvorada de bênçãos, apenas alguns farrapitos de nuvens, brancas e altas como asas de anjos, erravam levemente... E desde as primeiras horas que, algarreira e abundante, a multidão começou afluíndo, todos em salteiros grupos endomingados,―
con sus trapitos de cristianar
,―fundidos no guloso ímpeto do mesmo apetite místico e folião, porêm distanciados pelo traço diorâmico dos costumes e pelo desenho ideal das crenças. Vinham em alegres volatas, em chireantes golfadas, em cordas de riso uns após outros vitoriando, cantando e dançando, como se nesse dia de glória a amplidão ridente da planura se vestisse duma grande e viva alfombra cosmopolita, realçada em matizes de tôdas as latitudes, de todos os países, de tôdas as religiões, de tôdas as raças. Assim decorreram entre festivas e ingénuas pompas as anunciadas cerimónias do dia, cingidas no atropelado abraço de tôda essa grossa onde espectante. A bênção comovedora da Santa e a sua processional trasladação, depois, àquele improvisado altar da selva, foram, a um tempo, duas maviosas sinfonias de movimento e de côr, e duas tocantes demonstrações de lisa fé e piedoso entusiasmo. A vitoriosa culminação da festa estava porêm reservada para mais tarde, quando, ao cerrar da noite, aqueles quantos milhares de pequeninos globos, serpeando como vermes de fogo, saltando, faíscando aqui e ali, errantes e vagos como pirilampos, começaram de acender de roda a sua aleluia policróma. Um outro dia apontava agora, suave e discreto, não cortado já na prosaica nitidez das evidenciadoras flamas do astro-rei, porêm pela atenuada sarabanda dessa infinidade de minúsculos sóis arredondado em claridades de sonho, sôlto e ideal campo aberto, agora, às fugas da imaginação, aos arroubos do amor e aos vôos da poesia. Era todo o vasto e bigarrado recinto dos seus fundos de sombra jorrando esplendentes fontes de luz, palpitando e ardendo numa estonteadora profusão de lumes caprichosos, que definem linhas arquitecturais, que festoam silhuetas de árvores, que espirram para o espaço, que da relva rompem ou no ar se baloiçam em largas figurações de fantasia, e em que o uso das novas lâmpadas de fio metálico multiculôr dá motivo às mais deliciosas projecções de côr, às nuanças mais fantásticas e imprevistas. E por sôbre tôda essa orquestração lampejante é ainda e sempre a carcassa mégaloide do vélho
ombú
que mais destaca e mais realça, todo inflamado em recamos de gala, casquilho, remoçado agora e como que ufano do seu destino, iluminando afável e protector a passividade muda do deserto,―o polipo colossal das raízes, que poderosas esgarçam a terra, mosqueado de tijelinhas de côr, como tentáculos luminosos, no amplo seio amostrando com orgulho e abrigando com carinhos de avoengo o nicho tremeluzente, e pelo atormentado e largo bracejar da ramaria o múltiplo rosário das lâmpadas pingendo, facetadas, límpidas, fulgurantes como lágrimas de alegria.
Entretanto pela ampla e redonda extensão que êste luaceiro de festa abrangia, apinhada e confusa a ronda do populacho crescia, amontoava-se... o vago marulho da sua agitação fanfurriava em ritmos bárbaros, vibrava em cânticos, era avivado em singelas dolências pela sublinha sensual das tocatas e descantes... e a quando em quando, sob a estralada esfusiante dos fogos de artifício, à flor dêsse revôlto mar, reverberava então cá em baixo, em pinceladas goyescas, por instantes, a floresta alvar das suas cabeças em delírio.―Fazia aprazívelmente o Silveira o interessado circuìto do recinto, quando súbito, na compacta maré montante de figuras que do exterior vinham ávidas colar-se à grade do jardim, lhe pareceu distinguir um rosto seu conhecido. Irresistivelmente, adiantou-se... e, com efeito! era Luísa, a linda e fresca morenita, que na sua adorável rusticidade ali viera poisar, e que enlevada e imóvel, por um alheamento de indizível beatitude os sentidos presos e a atenção suspensa, no perfil garboso e enérgico do seu bravo defensor cravava encantada os grandes olhos negros.
Então o Silveira, entre lisonjeado e surprêso, com uma doçura cantante na expressão aproximou-se.
―Ó Luísa! A minha querida amiguita tambêm por aqui?... Como vais tu?
Por única resposta, ela teve um breve sorriso de êxtase a encrespar-lhe os lábios, e logo, còrando ligeiramente, baixou os olhos. O Silveira tornou:
―Que bôa idéa tiveste! Mas que fazes aí assim? porque não entras?
Sem articular palavra, sem se mover, Luísa manteve a mesma atitude retraída e humilde.
―Anda!―carinhoso e afável o Silveira insistiu.―Não queres comer?... não vens dançar?
Luísa movia a cabeça negativamente, fechada sempre na mesma inércia contemplativa, sem romper o seu mutismo.
―P'ra que vieste então?
Ela agora por fim, com voluptuosa pausa volvendo a abrir as brumas pálpebras, e na cálida demanda do seu galhardo interlocutor o fogo latente do olhar chispando, numa velada ternura balbuciou, singelamente:
―
Para verlo
...
O Silveira sorriu e num estremeção de vaidade, medíocremente sensível à tímida e incontida expansão da rapariga, insinuou a mão pelos ferros e acariciou-lhe ao de leve a face tostada e redonda.
E partiu a seguir, por que em cima, junto à residência, uma salva de morteiros anunciava o início do concurso coreográfico, e êle fazia parte do júri. Então a pintalgada e densa coluna das várias músicas e bailados que insofrida se achava a postos, começou montando a
ladeira
suave do jardim para ir marcialmente desfilar e luzir seus méritos frente ao estrado posto a meio da galeria,―ante a mirada crítica de Maria Mercedes, tôda de branco,―e seguindo num grosso e infindável coleamento, apartados por castas, distintos pelas côres, opostos pelos ritmos, todos cantando, vibrando, saltitando, numa grande coreia dionisíaca que era a encantadora revivescência de algum atrevido
fresco
pagão, na espontânea impetuosidade e na vida instintiva do seu movimento afirmando a irmanação genésica do homem com a Natureza, das almas com as coisas. Foi primeiro o
tango
, êsse gracioso hino da lascívia, impregnado de malícia picaresca, uma dança de perdição feita de lânguidos requebros, a um tempo trágicos e sensuais, exprimindo líricamente a conjunção fatal do amor e da morte; depois as corriqueiras
vidalitas
, acompanhadas a viola e tamboril, crónica leve e sugerente de façanhas guerreiras, de zombeteiros chismes e cómicas aventuras; a seguir, os
tristes
, lembrando os nossos
fados
, gemendo um ritmo atormentado e dolorido, quáse religioso, que dá a vaga sensação do mistério, da solidão, do infinito; as
jotas
e
sevillanas
no seu saracotear febricitante, a
tarantela
no seu académico balanceio, o
trepák
no seu simbolismo ingénuo; e o desenvôlto
gato
, o mesurado
pericón
; as
baturras
,
soleares
,
farandolas
,
chulas
,
fandangos
... e quantos mais.―Durante horas seguidas, assim na calma benéfica da noite, sob o jôrro delirante dos aplausos e na sua estúrdia ronda aquecendo a fria majestade do deserto, se agitou dançando tôda essa corda guizalhante de rústicas melopeias. E quando já os primeiros alvores da manhã clareavam o horizonte, ainda, na debandada final, a sua interminável cola sonora se via impetuosa e louçã, desparramada a rabejar pelos caminhos.
IX
Um escasso dia volvido apenas sôbre a festa, Belisário regressou à metrópole. Seguiu-o no intervalo de mais um dia o Silveira, cuja existência ali, depois do seu assinalado triunfo hípico, nas últimas semanas, decorrera tôda batida em alternâncias de cruel incerteza, assaltada de imprevistas dúvidas, cortada em antíteses absurdas, numa espectativa mortificante. As flutuações coquetas, incessantes, da sua «bôa amiga» Maria Mercedes, cujas típicas excelências tam vivamente haviam sacudido o seu temperamento de fogo e vincado o seu carácter mulherengo; êsse jôgo caprichoso e perverso entre a frialdade e a exaltação, entre o espanto e o desdêm, entre o enfado e o carinho, desconcertavam-no. Inelutávelmente, corrido de vaga humilhação, êle reconhecia em Belisário um primaz competidor. Por sôbre aquele aspecto derrancado e turvo, a despeito do podrido descalabro dêsse físico todo escórias e ruína, o Silveira, forte embora da sua virilidade radiosa e exuberante, achava-lhe superioridades: era déstro no diálogo, fino e leve, bem falante, brandia a ironia como um florete, vestia com mais elegância. Por isso a sua obrigada e constante freqùentação, ali, com êsse émulo temido, e frente a frente os dois do ídolo do seu comum cuidado, tornava-se-lhe uma coisa irritante, molesta, dolorosa, por vezes intolerável. Contudo, retirar antes dêle seria uma deserção, uma cobardia. Foi suportando... Logo porêm que o afastamento voluntário do rival arredou a emergência dessa hipótese deprimente, o Silveira abalou tambêm, na sua incontida ânsia de emancipar-se duma situação por demais incómoda, violenta, e, perante a pungente ampliação do seu despeito... porventura ridicula.
Tendo chegado a Buenos-Aires ao entardecer, acolheu-se logo ao hotel, jantou e nessa noite não saíu. Apreensivo e triste, sentia uma grande necessidade de isolamento... e cedo se encerrou no quarto e abandonou-se à tortura voluptuosa das suas íntimas cogitações, cujas mórbidas volutas o surdo embalo dos vagos rumores da Avenida, em baixo, favorecia. Na manhã seguinte ergueu-se tarde. Aquele destemperado vibrar dos nervos impunha-lhe agora um preguiceiro e salutar repouso. Porêm, apenas terminado o almôço, picou-o um vivo apetite de expansão, de arejo, de movimento; precisava desabafar... queria falar, mexer-se, descompôr alguêm, ver caras conhecidas. Acendeu pronto o cigarro, tomou o chapéu e saíu logo, em demanda do amigo Azeredo, que mudára de pensão e residia agora ali perto do hotel, na
calle Libertad
, a não mais de quatro
cuadras
.―Era um pequeno prédio antigo, sem porteiro e sem ascensor. O Silveira teve que subir uma extensa escada de mármore, em caracól, quáse às escuras, e encontrou-se súbito num modesto e exíguo
hall
, pavimentado a baldosas negras e verdes, guarnecido por uma vélha mobília de vêrga, globos de vidro estanhado, missangas,
crochets
, enredadeiras e vasitos com plantas. Veio-lhe ao encontro o dono da casa, um aparatoso andaluz, de alentada envergadura, loiro e obêso, o
pijama
e calça de riscado vestidos sumáriamente sôbre a pele, e os felpudos pés nus mal contidos nas babuchas.
―O sr. Azeredo ainda estava à mesa.
Quiere Usted pasar
?...
Acedendo curioso ao afável convite, o Silveira seguiu o solícito introdutor ao longo dum corredor tristonho e esguio, com anteparo de zinco sôbre o saguão, e ao cabo entrou no comedor, uma crepuscular peça oblonga, tomada quáse totalmente pela mesa, em tôrno da qual, havendo cessado de comer, os seus seis convivas, guardanapos depostos e arredadas as cadeiras, em amena chalra, num baralhamento pelintra, familiarmente se esqueciam. O Azeredo, mal que viu o amigo, ergueu-se de salto a abraçou-o efusivamente.
―Oh, João! meu grande vadio... Finalmente! Cuidei que te ficavas por lá...―E numa palmada cordeal sôbre o ombro, indicando a cadeira que, ao lado dêle, a
mucama
havia pronto achegado:―Senta-te... Que magnífico que vens!
Em seguida, com aquele seu invariável ar salteiro e risonho, o Azeredo fez em globo a apresentação do amigo aos outros comensais, com uma sublinha especial, é de saber, perante a dona da casa, à direita da qual êle tinha o honroso privilégio de sentar-se,―e que era uma grossa e bem fornida vasca, quadrada, ruiva, de epiderme branda e leitosa, viúva havia ano e meio, e todavia agora ligada maritalmente ao andaluz... por conveniências domésticas. À direita do Azeredo sentava-se uma joven corista do
Avenida
, miudita, clara e franzina como um mimo de bazar, os olhos maquilhados fortemente, esborifado o cabelo, e na morbidez cansada da expressão saltando em contraste provocador o narizito petulante. O nariz era tambêm a única feição acentuadamente vincada, nessoutra vaga e estirada figura espectral que tinha logar à mesa em frente dêle, à esquerda da dona da casa,―um incompreendido violinista de café-concerto, a pele como pergaminho, os músculos como arame, rechupado, lívido, transparente. Mais à esquerda, havia um acomodatício e bronco pintor de taboletas. Finalmente, com depreciativo orgulho posta, e sentada como por demais, entre êstes dois últimos, aparecia uma gorda e casquilha quarentona, com o ar presunçoso e taful, pastosa, feia, arrogante, que era a mais insensata e hilariante personificação do burlesco; vestia uma curiosa bata ornitológica, tôda carregada de passamanarias, vidrilhos, contas e plumagens, bigarrada em côres de papagaio, em tons berrantes; a testa era rudimentar, e uns desastrados laivos de água oxigenada sarapintavam cómicamente a maranha abstrusa do cabelo pegajoso e sujo; pela fartura pendente do colo moreno havia por igual, às dedadas, a lambugem clara dos cosméticos; e à raíz da face opada rasgavam-se uns grandes olhos brilhantes mas apáticos, na sua vítrea imobilidade reflectindo uma fixidez obtusa de sáurio, uma credulidade estúpida.
O Silveira compreendeu num relance que esta presumida e grotesca marafona era naquele momento o centro burlão das atenções e o tema desopilante da conversa. Com efeito, não tardou que o amigo lhe não dissesse, apontando com solenidade a exibitiva carcassa em frente, numa irónica reverência:
―Chegas na melhor ocasião. Tenho o prazer e a honra de te apresentar a
señorita
Calliope Cernadas, uma joven e distinta cantora, próxima debutante no
Colón
...―E com um patente ar zombeteiro, num gesto de solícito apoio aos circunstantes, acentuou:―Em plena primavera da vida, como vês... Vinte e cinco anos,
no mas
. Um flamante embrião de artista e um coração inabordável! Não é certo?...
De roda houve um bem simulado cabeceamento de convicta anuência, enquanto a embaída vítima trejeiteava desvanecidos requebros, em meio do côro hilariante da assistência. E para ela agora com a mesma urbana solenidade, o Azeredo, indicando o amigo:
―O meu amigo e patrício João da Silveira, solteiro, rico, poeta... O homem que lhe convêm... Um grande fidalgo e um grande enamorado.
No mais caricato arremêdo de êxtase, a enxundiosa Calliope revoluteava a apática inexpressão dos olhos, mordia o lenço, parodiava atitudes infantís e motêtes ingénuos. Entretanto, na sua apologética parlenda o Azeredo tornou:
―Uma voz de oiro!
―Dito por todos os mestres,―confirmou Calliope com fatuìdade.
―Cinco anos de Conservatório e dez de lições particulares.
A inocente visada teve um salto de despeito. E a seu lado o violinista, coçando deliciado a nuca, piscando um ôlho:
―Não se pode dizer um talento muito espontâneo...
Porêm, vagamente apiedado, o Silveira:
―Deve ter começado de muito criança.
―Era tudo fôrça da vocação...―aclarou o Azeredo, no mesmo tom escarninho:―Quando largou o
biberon
, já solfejava.
Em volta da mesa, agora, o riso estalou sem rebuço. E o avantajado andaluz, que acendera o cachimbo, fazia, mudo, sorridente e matreiro, o giro atento da casa.
Mas de repente o Azeredo, consultando o relógio, ergueu-se.―Eram horas de voltar ao escritório:―E saíu rápido, com o amigo, conduzindo-o familiarmente ao seu quarto singelo e claro, com varanda sôbre a rua. Ainda podiam quedar-se uns minutos. Acendeu o cigarro e sentou-se, na préga trocista dos lábios apagando-se-lhe as derradeiras vibrações por êsse jôgo desopilante com a
señorita
Cernadas. O Silveira perguntou-lhe―que
bolha
fôra aquela de mudar de pensão? E com ar enfadado, sucudindo os ombros, o Azeredo explicou:
―Aquilo lá era uma maçada, menino! Imagina: a tal viúva chilena dava-me uma sorte completa... e que rica mulher! impetuosa, louca, insaciável! Porêm o lamecha do caixeirola, perdidamente embeiçado por ela e sem sorte, tudo era voltar-se contra mim, dardejava-me olhares de desafio... um riso! fazia-me arremessos... E à sua arisca Dulcineia escrevia então umas cartas lacrimosas e tétricas, tresandando bafio romântico, nas quais havia desgrenhados apelos ao refúgio amargo da morte, e por entre cujos rábidos arrancos tremeluziam ameaças de vingança.
―Que te importava a ti?
―Não, mas é que ao mesmo tempo essa pobre rapariga
tanguista
, que era uma triste lambisgoia, dizia-se apaixonada por mim e daí seringava-me a todo o momento, metia-me bilhetinhos pelo buraco da fechadura, espiava-me, com scenas de ciúmes... Uma carraça, uma cataplasma, um tédio! Uma noite, comeu as cabeças tôdas duma caixa de fósforos e foi naquela casa um reboliço... vomitórios, fricções, prantos, desmaios... tivemos que levá-la à Assistência.
―És o terror das pensões baratas.
―De sorte que eu então, p'ra evitar uma dupla tragédia, tive um iluminado rasgo de prudente decisão e raspei-me. E aqui, estou bem. E uma casa
reinadía
... O diabo da patroa joga como uma danada nas carreiras, e de cada vez que ganha, é um deboche de
champagne
com os hóspedes e as amigas.―E logo num tom de desafectada cordealidade, todo dobrado para o amigo:―E tu por lá, meu maganão?...
O Silveira desfiou regaladamente a narrativa entusiasta e louçã da sua breve estada no campo,―a imensidade lendária da
pampa
, a luz, a côr, a paìsagem, o inéditismo claro dos aspectos, a rude singeleza dos costumes. Espraiou-se em gratas referências ao hospitaleiro carinho dos Saavedras, enaltecendo de preferência, em enternecidas frases, essa doce e encantadora figura de D. Teresa, na sua aberta simplicidade, na sua bondade inverosímil.
Com um risinho misterioso, o Azeredo aventurou:
―Sim, sim... Ainda tu não sabes quanto ela é de boa!
―Então?...
―É uma sogra rara, única, paradoxal.
―Como assim?
―Sabes que ela tem uma filha casada, agora em Paris, a qual lhes deu já um netito, êsse
guapo muchacho
, o Eduardo, que é a exclusiva adoração do avô. Ora o pai do pequeno é um perdulário, um sem vergonha, um sensualão, um estroinaço impenitente. Pois esta D. Teresa, na sua louca dedicação pela filha, tem a santa ingenuidade de assegurar uma mesada ao genro só p'ra que êle, com as suas
calaveradas
, não dê desgostos à mulher.
―É bôa! Era uma sogra assim que me servia.
―Não haverá duas na terra.
A seguir, o Silveira, depois duma pausa,―e como quem tímidamente retarda o defrontar com uma dificuldade, ou voluptuosamente dilata a fruìção dum prazer,―referiu-se a Maria Mercedes, pastichou-lhe em tintas de vivo entusiasmo o deslumbramento da beleza física, apontou em vagas e trémulas linhas de incerteza a complicação desconcertante do seu perfil moral. E nesta empolgante análise retrospectiva, a despeito do tom deliberadamente ligeiro dos seus conceitos, a cada momento a comoção traía-o. Inadvertido e quente, descobria-se. Um sôpro de íntimo incêndio trazia-lhe a alma aos lábios, ao ensaiar a turbadora evocação dêsses formidáveis episódios, dessas horas atormentadas e profundas, relâmpagos de enlêvo, eternidades de dôr, delícias dum instante.
O Azeredo, dando-se grado a grado conta da situação, escutava-o em silêncio, num crescendo de apiedada estranheza, com aborrecimento, com quesília, com desgôsto. E por fim, tomando o chapéu para sair, com a bôca severa e os cílios graves, aconselhou:
―Tem-me conta com essa
gaja
... Começa por te derreter os miolos e acaba por te fundir a algibeira.
―É rica.
―Não importa. A esta gente aqui está-lhes na massa do sangue:
estafarem
o seu e o alheio.
Voltaram naturalmente a juntar-se naquela tarde os dois amigos. Jantaram na
Rôtisserie Sporstman
, e foram ao teatro
San Martin
, desemborrar um pouco os nervos na contemplação da mímica petulante e lúbrica da Pastora Império. No dia seguinte, esperto e ligeiro, deu-se pressa o Silveira em ir fazer o giro matinal de Palermo, onde já sob a claridade molhada do ar, na renovação da temporada elegante, um cordão de deliciosas silhuetas dandinava pela orla escovada das
pelouses
, e a envernizada frescura do asfalto se emplumava do trotar garboso das amazonas. Sentia-se bem... Reganhava-o o sugestivo encanto da vida ampla e fácil da cidade. Naquele doce ambiente de agrados e belezas o seu estimulado ser tinha um aprumo salutar... a vontade tomava raízes, a sua galharda juventude frondejava em ímpetos, sentia o pensamento inerte, embevecida a alma, o coração cativo.―Buenos-Aires, bem se dizia... era o Paris da América, seguramente!―Vinha-lhe o dulceroso apetite de quedar-se esquecidamente ali, nesse adorável ninho da felicidade, essa esplendorosa sucursal do Paraíso, deslumbrante e imensa caravançara onde à compita, vinha estrelar-se o escol das civilizações, onde émulos se davam cita os génios de tôdas as raças, o melhor dos progressos, das grandes conquistas morais e materiais de todo o mundo... ali, o privilegiado solar da fortuna, da abundância e da harmonia, a terra das mulheres de lindas bôcas, de rostos de linhas puras e suaves, tendidas com nobreza.
Duma das vezes, ao desembocar na
Avenida das Palmeiras
, cêrca do lago, pareceu-lhe distinguir na sua frente, entre o pintalgado baralhamento da quádrupla fita de veículos, uma figura sua conhecida. Era com efeito o grosso e ponderado Mafiori, que descia dum aparatoso
Peugeot
, e mal que reconheceu o Silveira, veio logo adonde a êle, importante mas afável, a oferecer-lhe as duas mãos e a perguntar-lhe―como ia. Cortês e solícito por igual, pediu-lhe tambêm o Silveira informações dos seus negócios. O marquês estava remoçado, parecia feliz. Os olhos flácidos tinham mais brilho, a vasta e epilada testa desanuviára, e tôda a face rosada e redonda florescia, erguida pela saúde ou dilatada pelo prazer. Às interessadas perguntas do amigo, êle sorriu.―Bem! muito bem!―E com a sua fidalga e resignada bonomia aclarou, encolhendo os ombros,―que aquela forçada abdicação dos seus fóros nobiliárquicos trouxéra-lhe sorte, afinal. Estava fazendo bastante negócio. Fizera uma bôa venda aos Spantuzzi, outra aos Ribolto, estava alcatifando de novo a casa tôda dos Arriola,―um palácio!―e tinha uma grande encomenda para o
Jockey-Club
.
E sempre com dignidade, uma ligeira sublinha de irónico desdêm a encrespar-lhe os lábios:
―A esta hora, já as venerandas ossadas dos meus maiores hão-de haver estremecido, várias vezes, de indignado horror, nos seus ricos mausoléus lavrados. Uma indignação de mau gôsto, no fim de contas... Porque outra coisa não há a fazer nesta terra, que com todo o seu exibitivo pedantismo não passa duma mercearia colossal. Tudo mais ou menos se negoceia aqui: é uma questão de rótulo. O segrêdo está na arte de embair o freguês a encarecer a fazenda.
Depois, num gesto de paternal incitamento:
―Porque não faz o mesmo, meu amigo...?
Súbito, como na onda vaga da multidão descortinasse algo que o interessava, despediu-se de improviso, embrulhando banais desculpas e rematando amável:
―Eu continuo no
Plaza
. Venha um dia almoçar comigo.
E êle que segue dissimuladamente na peugada duma mulher grande e loira, de idade à primeira vista inclassificável, artista lírica em disponibilidade ou
demi-mondaine
em decadência.
Certo foi que a prática significação daquele seu conselho calou suasiva e funda no ânimo inconsistente do Silveira.―Seria realmente uma coisa acertada, sensata, oportuna, tentar um negóciosito. Porque não?... Já várias vezes êle o havia pensado: fazer como tôda a gente. Êle trouxéra consigo uns contitos de réis, p'r'ó que désse e viésse... e porque não procurar engrossá-los? de preferência a desbaratá-los p'r'aí estúpidamente, em aventuras banais com mulheres ou jogando à tôa na roleta e nas carreiras?... E, ainda, mais a dura preocupação dos interêsses monetários poderia ser quiçá um derivativo salutar, e ter a virtude de pelo seu áureo deslumbramento dissipar moles inclinações piégas e furtá-lo a exaltações perigosas, como essa agora da diabólica
Miquêtas
... Vá feito! Era o caminho a seguir.
Desta forma, o
Silveira
, sensível ao contágio do mercantilismo ambiente, perdido, como tantos outros, na embriagadora miragem dum engrandecimento rápido e retumbante, nos dias subseqùentes dava-se com afinco à leitura dos anúncios comerciais dos diários, concorria aos leilões, era um assíduo freqùentador das
vitrines
dos corretores, onde em taboletas relumbrantes de emissões de títulos, vendas de lotes de terras e quejandas alicantinas, se acenava aos incautos com fortunas fabulosas. A intervalos, as venusinas predilecções do seu carácter reganhavam o natural ascendente, e êle então pensava em visitar os Wimeyer, que contudo ainda não haviam regressado do campo. Queria tambêm voltar a ver os Améglio; porêm aquela cavilosa duplicidade de
Mrs.
Edith irritava-o... Era porêm evidente que, por momentos, a branca crôsta da sua alma metalizava-se. Já jogava em fundos e entrára com capital para a fundação duma
Sociedade Internacional de Seguros
. Êle era o primeiro a fazer troça de si mesmo, desconhecia-se... e com familiar abandôno comentava, perante o Azeredo:
―Tem graça! eu tam influido agora com negócios... coisa que não é nada o meu feitio.
E meio incrédulo, o amigo:
―Não te dura muito!
Contudo, o Azeredo, vagamente scéptico mas no fundo de acôrdo, entendia que sim, que fazia muito bem! porêm tinha que precaver-se e ter muito ôlho contra essa imensa praga de
estafadores
e meliantes... Ao mais pintado êles faziam o
conto do vigario
, a cada instante! Por isso, que não tratasse senão com gente bem conhecida. Havia de apresentá-lo no
Club Progresso
, onde teria ocasião de relacionar-se com importantes financeiros e industriais, com grandes e autênticos
terratenientes
, com fazendeiros honestos e firmas garantidas.
Entretanto, tôdas as manhãs, com uma pontualidade de amanuense, o endurecido Silveira subia a
Avenida de Mayo
para ir ver as cotações da Bôlsa e em seguida fazer, por
San Martin e Reconquista
, o interessado giro do bairro clássico dos negócios, dando-se a acariciadora ilusão de ser já um grande capitalista ou proprietário. E ao mesmo tempo alguêm havia que, com solícita antecedência e uma pontualidade igual, em face mesmo do seu hotel, da esquina oposta da Avenida, em plena rua, aguardava em suspenso a sua aparição e espiava afincadamente a realização quotidiana dêste acto banal da sua vida exterior.―Uma simples e adorável rapariga do campo, verdadeiro diamante em bruto, miudita, morena, bem calçada mas vestindo pobremente, com o ar um pouco estranho, desageitada, esquiva, em cabelo. Tinha férvidamente posta a vida, o apetite, o desejo, na enternecida fixidez dos grandes olhos negros, incansavelmente apontados ao portão espelhento do hotel; e, fechada no exclusivismo da sua mordente inquirição, como que buscava anular-se para tudo o mais, tímida e pequena ante o roce brutal da multidão, furtando-se aos galanteios, repelindo, assustada e arisca, as propostas equívocas dos que passavam. Depois, quando a aprumada figura do Silveira assomava à porta e saía, passeio fóra, a caminhar distraídamente, a sua encantadora e ignorada espia vibrava ao imperceptível estímulo dum inefável júbilo interior e seguia-lhe humilde na peugada, durante uma ou duas
cuadras
, paralelamente; e por fim, quando se perdia ao longe, na atropelada onda do movimento, aquele desprevenido alvo do seu cuidado, ela por seu turno, à primeira esquina, dobrava e desaparecia tambêm num relance.
Mais de uma semana, com inalterável precisão, dia por dia, se prolongou e repetiu êste jôgo inocente para o inadvertido ânimo do Silveira absolutamente despercebido. Té que, duma vez, como êle tivesse que dirigir-se à
calle
Vitória, apenas saíu do hotel cortou direito a Avenida e veio assim a cruzar-se, quáse ombro com ombro, com a interessante figurita anónima que o espiava, e que na sua deliciada confusão, ao primeiro instante, queria evitá-lo, eliminar-se, fugir... Impossível deixar de notá-la. E logo súbito, numa expansão de grata surprêsa, reconhecendo-a:
―Ó Luísa! tu aqui?...
Tolhida numa vergonha, a gentil rapariga torceu as mãos, baixou os olhos, enquanto a frescura virginal da face tôda se conflagrava em tintas de incêndio.
Abrindo acolhedor os braços, o Silveira interrogou:
―Então? deixaste a
chacra
onde trabalhavas?
―
No me pagaban
.
―E teu irmão?
―
Me pegaba
.
―Pobrezita! bem digo eu...―bondadoso o Silveira tornou; e com apiedado interêsse, a seguir:―Fugiste então e vieste p'ra Buenos-Aires governar a vida?
Numa tácita aquiescência, muda e indecisa, Luísa sorria vagamente.
―E gostas?―indagou o Silveira, muito afável; e como a sua linda desconhecida abanasse afirmativamente a cabeça, com o vago sorriso de há um momento aquecido agora por uma adorável expressão convicta:―E porquê?
Luísa teve uns segundos de comovido silêncio e por fim, dobrando humilde o busto, com as abatidas pálpebras seguindo, em baixo, o movimento dos pés, que em taramelados giros raspavam trémulos na orla do passeio, murmurou:
―
Porque aqui estoy mas cerca de Usted
...
Pelos arrepiados nervos do Silveira uma branda emoção correu, mixto fundente de orgulho e de prazer, de fatuidade e de ternura. Sentiu-se quebrado, preso... Atingiu-o em cheio na alma a ingénua confissão, a doçura sentimental da rapariga. Naquela tarde havia uma reùnião de acionistas da tal
Sociedade Internacional de Seguros
, e êle ia agora à
calle
Vitória para ter uma conferência prévia com um dos membros da Comissão Directiva, pois sobravam razões para desconfiar que semelhante
Sociedade
não passava duma audaz mistificação, duma burla descaradíssima, na qual êle via já infelizmente a arder o seu rico dinheiro! Porêm, num pronto, a aparição de Luísa, ante a inefável magia daquelas palavritas de oiro, vencido pela singela eloqùência duma confissão tam espontânea e tam formal, tôda a sua grande preocupação financeira,―uma preocupação de enxêrto,―se lhe varreu do sentido... Ao mesmo tempo, numa tristeza de instinto, fitava com demora a sua passiva interlocutora, olhava-a bem, considerava a sua rudeza inata, o exotismo da sua figura, a miséria do seu arranjo... e sentia-se vèxado; via-se que não podia decentemente quedar-se ali assim muito tempo, às claras, nesse comprometedor
tête-à-tête
num logar tam público, nem tampouco acompanhar com ela. Mas tambêm,―que demónio!―esquivar-se agora e deixá-la, retribuir êsse infantil abandono com a indiferença, seria a maior das ingratidões, uma desumanidade, uma cobardia. Por isso êle, de repente, cedendo a um cavalheiresco impulso interior e todo dobrado para Luísa, olhando-a com carinho:
―Já almoçaste? queres comer?
Por seu turno, Luísa, sem ousar encará-lo, as mãos juntas erguidas aos lábios e confrangendo o busto, tartamudeou uns monossílabos de embaraço. E o Silveira então, adivinhando-a, tomou-lhe do braço, e com afectuosa decisão, familiarmente:
―Anda daí!
Internou-se com ela em Vitória, mandou-a seguir rua abaixo, na sua frente, um pouco a distância, em direcção ao Congresso; e aí dobraram rápido para Entre Rios, onde entraram num
bar-restaurant
de ínfima classe, velhacouto barato de
menesterosos
, rufiões, cocheiros,
chauffeurs
, caixeiros sem patrão e
redobloneros
sem clientela.
Abancaram os dois a uma das mesas mais interiores, numa discreta penumbra, e, à aproximação solícita do moço, dobrado em interrogativa atitude depois de haver passado maquinalmente o guardanato sôbre a tábua encardida, o Silveira insistiu com a suave morenita p'ra que dissesse―o que queria tomar. E ela, numa deliciosa hesitação, com a face incendida e os olhos húmidos, sem acabar de ageitar-se na cadeira, não atinava igualmente com o que havia de escolher.―Não queria comer. Passára-lhe a vontade...―Contudo, após uma laboriosa inquirição pela hipertrófica lista dos ágapes em giro, decidiu-se afinal por um chocolate
liviano
e
sandwiches
. Êle pediu um
Bilz
. E com familiar naturalidade, num singelo abandôno, algareira, feliz, Luísa foi então contando:―Ela não andava por'li assim tam perdida como o seu
querido nenito
imaginava. Já estivera por duas outras vezes em Buenos-Aires; a última, quando foi do centenário. Tinha mesmo aqui uma irmã... E que lá no campo moíam-na com trabalho e ainda em cima não lhe pagavam. Guilherme, o irmão, era um desalmado, um bruto. Ela arrastava assim uma vida de negra, era certo... mas, em suma, como não sabia o que era mundo e não alcançava a mais, ia-se conformando... A vélha adivinha de Castelli lá dizia: que cada um nasce com o seu destino já talhado. Que lhe havia de fazer?... Porêm que depois, de repente, nessa terrível tarde que afinal se volveu p'ra ela numa aurora, ao vê-lo surgir tam milagrosamente e salvá-la, sentiu que se lhe abrira qualquer coisa dentro da alma! como ela não sabia explicar... via e abrangia agora as coisas por uma outra forma, compreendia como podia
quererse
a alguêm... e que a sua verdadeira existência começara naquele momento, que não mais poderia quedar-se ali onde a querida imagem do seu rico protector, lhe aparecia a todo o momento, infiltrada de saùdade, reclamando-a com império.
Premindo-lhe a mão com doçura, o Silveira interrogou:
―Mas que te importa a ti?...
E ela, num profundo acento, gravemente:
―
Nada mas me importa en el mundo!
A seguir, por entre as freqùentes olhadas oblíquas da freguesia equívoca do
bar
, intrigada pelo estranho
accouplement
daquele rico
mozalbete
com uma tam ordinária
piba
, Luísa continuou desfiando,―que, resolvida a partir, fôra a socorrer-se com aquela santa senhora, D. Teresa, a qual lhe deu algum dinheiro e uma carta de recomendação para êsse
gran comercio de imagenes
que havia na
calle
Suipacha, onde a admitiram como caixeira. Tinha graça! todo o dia agora a lidar com santos, ela que nunca se havia confessado nem comungado na sua vida.
―Conféssas-te agora a mim.
―
Es que el señor es mi santo preferido
.
El señor y San Antonio.
―Mas então, estando aí empregada, como é que?...
―
A las once salgo á almorzar. Y yo iba en una carrera y luego me ponia en acecho, ya sabe, frente mismo á su hotel. Por suerte algunas veces mi amor tardaba en salir... Y yo entonces, despues de verlo y seguido un rato, como ya no tenia tiempo, volvia apurada á la tienda, sin comer
.
―Que disparate!
―
Es la cosa mas natural... Y no se me importa: soy de poco comer
.
―E aqui onde vives?
―
En la calle Tucumán, en una pensión muy cómoda e barata, dirijida por una espécie de monjas, que ese buen santero de Suipacha me indicó. La casa es solo para señoras y señoritas. Tengo un lindo cuarto, con el piso encerado y la camita blanca. Tratan muy bien à la gente. Pero tiene una cosa fastidiosa: no se permitem visitas y despues de las nueve de la noche ya nadie puede salir
.
―Se precisares de alguma coisa...
E com crescente animação Luísa, num progressivo abandôno de todo o seu ser confiado e vibrante:
―
Preciso, si... preciso verlo, oirlo, tenerlo algunos momentos cerca de mi, asi, bien cerquita! Sus ojos me llenan el corazon de sol, su simple presencia me infunde valor. Preciso tanto de ella como del aire y de la luz, para vivir... e con ella me contento, toda vez que no puedo aspirar á su cariño. Lejos de Usted es como yo ya no podria vivir! Porque ahora es una cosa tan diferente... Si el señor vise como yo, allá afuera, vivia solita y triste, sin afectos, sin amparo, sin una pisca de alegria!... Por eso necesito que se me convierta en un dulce y leal amigo de siempre, mi generoso protector dun instante. Que cargosa le voy a ser!... No se acuerda el señor de aquella noche en que la siniestra lechuza nos seguia todo el camino?... Nos ligó en la vida y en la muerte. Es la suerte ya vê... Y yo confio en ella y á ella me entrego, y estoy contenta. Porque decia mi abuelita, que Dios tenga en su gloria, que cuando la felicidad se pone delante de nosotros á abrirnos un camino, es como la desgracia,―es por mucho tiempo
.
Vagamente apreensivo, num frio e convencional sorriso, o Silveira murmurou:
―Bem, está bem...
Luísa agora mudára de expressão, e com adorável infantilidade, tristemente, olhando-se com desprêzo:
―
Lo peor es que yo, verdaderamente, en esta facha, me averguenzo... si, reconozco, tengo que confessar que no soy digna de Usted!
―Mas logo, numa coqueteria ingénua, recobrando-se:―
Ah! pero tambien yo sé vestirme como las señoritas de la ciudad. Y tengo com qué, gracias al Señor!
―Não tens um chapéu?
―
Como no! Y una linda blusa de seda, pollera con pliegues y cordon de oro
.―Atirava com decisão o guardanapo:―
Vá a ver!
O Silveira expandiu-se num claro riso, entre trocista e incrédulo; e após uma pausa, voltando a afagar-lhe com carinho a mão sôbre a mesa, suavemente:
―Mas, dize-me: então, sério, sério, não te lembra o campo?
―
Que me voy a acordar?
―Não deixaste por lá nenhuma inclinação? não tens saùdades?
―
Inclinación?... Acaso sé lo que es eso!
―Era natural...
―
Nadie! nadie!
―E com um sincero calor, beijando os dois indicadores postos em cruz:―
Juro! por esta... Yo naci sin una flor en el alma. Yo andaba por ahi como una pelota lanzada al acaso, sin paradero, sin hogar, sin destino. Quien hacia caso de mi
?...―Depois, comovidamente, com os antebraços ao alto, as mãos postas em súplica e as pupilas ardentes num amoroso enlêvo despedidas ao busto atónito do Silveira:―
Ahora, si! es que yo creo haber finalmente encontrado mi familia, mi mundo... ahora es que yo compreendo la razón y el fin de mi vida. Que feliz soy! Cuanto le debo!
Súbito, como no seu enlevado giro os alarmados olhos de Luísa se fixassem no grande mostrador circular do relógio da sala, a timorata rapariga estremeceu, e como quem desperta dum sonho:
―
Ah! pero que tarde es!... Que disculpa voy á dar en la tienda, valgame Dios?
―E pondo-se de salto em pé, apressurada, inquieta:―
Disculpe-me, si?... Es forzoso. Voy á tomar el tranvia.
Arredou a cadeira de golpe, e enquanto o Silveira pagava, sem uma palavra de despedida mais, sem um agradecimento banal, sem mesmo esperar por êle, partiu precipitadamente.
O Silveira ficou ainda, uns minutos, como avergado ao pêso dum inconfessável cuidado. Acendeu um cigarro, saíu morosamente... e longamente depois, penseroso, inerte, foi subindo a pé a praça do Congresso.―Em que viria aquilo a dar?... ia vagamente contrariado, porque sentia que demasiado o preocupava aquele trivial episódio
callejero
. Increpava-se da sua debilidade. O saboroso desenlace desta aventura picante seduzia-o, fazia-lhe negaças ao desejo; mas simultâneamente, perante a turbadora ameaça do contubernal convívio com essa criatura delicada e simples, o seu epicúrio egoísmo revoltava-se. E como quem padece dum mal secreto, como se premeditasse algum delituoso plano ou houvesse cometido alguma acção indigna, guardou-se de contar qualquer coisa ao Azeredo.
Curioso foi que à hora habitual, na manhã seguinte,―e embora não houvessem feito nenhum acôrdo prévio,―lá estavam os dois outra vez cada um no seu posto; dando-se até o caso singular de ser o Silveira quem apareceu primeiro. Pronto êle havia baixado ao salãosinho de leitura do hotel e daí, sem mesmo pensar em almoçar, recostado com indolência num
fauteuil
, junto à janela, seguia espiando em disfarce a aparição, na esquina defronte, da sua linda e suave companheira.―Nada tinham combinado, mas de seguro que ela havia de vir!―E, forte nesta acariciadora evidência, a curtos intervalos êle não despegava de apontar os olhos codiciosos ao outro lado da rua. Muito não tardou que a sua femieira impaciência não fôsse satisfeita. E então, mal que o insofrido galã viu em frente, debuxar-se no torvelinho vago da multidão a fina silhueta apetecida, ergueu-se, tomou o chapéu, correu à porta... num momento estava junto dela.―Vinha outra, com efeito, naquela manhã, conforme anunciára. Já parecia alguêm... Cómicamente travestida em
señorita
, trajava uma singela blusa em
soyau
crême, decotada, com largo cabeção à Tudor, segundo a moda; uma saia negra em sino, muito curta, com sobre-saia
plissée
, da mesma côr; bota de pelica e verniz, e meia branca; ao colo um ténue fio de oiro; na cabeça um barato chapéusito
panier
, de palha castanha, rebatido sôbre os olhos e atrás em sôlta curva erguido sôbre a mòlhada luzidía do cabelo, pregado à nuca; e umas luvas triviais de algodão branco, pospontadas de negro, sujeitavam a rústica aspereza das mãos, donde pendia uma bolsinha de sêda.
Entalada nesta convencional, e para ela quáse inédita, indumenta urbana, Luísa aparecia desfigurada. Era uma autocaricatura. Era como uma estiolada flor trazida do campo. Na sua improvisada encadernação havia o que quere que fôsse de contrafeito e exótico, que a desfavorecia. Ela mesmo não se sentia à vontade... os movimentos eram hirtos, a expressão estranha, não sabia que fazer dos braços. Estava adorável de embaraço e de ridículo. Mas a tudo sobrelevava sem esfôrço o contôrno picante da sua figura, e dessa contrafacção irrisória zombava triunfal a sua mocidade recendente, a sua palidez fresca de flor, a sua graça nativa, a sua confiança ingénua, o seu viço exuberante.
Saùdaram-se por um cordeal apêrto de mão, e de roda dela o Silveira tudo era mirá-la de gôsto e aplaudi-la, complacente e risonho festejando-a por aquele milagre de metamorfose tam sedutora como imprevista. Achava-a encantadora. Porque de todo aquele ingénuo esfôrço ressaltava a exclusiva, a ardente preocupação de interessá-lo; todo êsse preparo coquete era um discreto convite, um desafio evidente, que o enardecia... Do mesmo passo, a confusa e tímida criança, no íntimo lisonjeada, pedia mimadamente―
que no le hiciese burla
...-e trejeiteava umas infantís e humildes expressões que, eram a demanda subtil do seu agrado.
Contudo o Silveira encontrou-a triste. Mantinha-se inconcebivelmeute perplexa, muda, cabisbaixa. O que quere que fôsse de penoso e molesto lhe ensombrava a expressão, lhe pesava nos lábios e abatia o vôo sonhador das pálpebras. Interrogou-a com insistente carinho e ela sempre no mesmo silêncio embaraçoso e difícil; té que por fim, por muito instada, balbuciou a custo:―que ao entrar na loja, na véspera, como chegasse uma hora mais tarde, não quiserem saber de razões nem desculpas. Pagaram-lhe e despediram-na.
Tomado dum indominável frio egoísta, o Silveira exclamou:
―E agora?...
―
Ahora que sé yo?
―murmurou Luísa mansamente; e na sua resignação fatalista, encolhendo os ombros:―
Busco otra casa
.
Insensivelmente haviam retomado a andar, rua abaixo, agora já sem esquivanças, sem hesitações nem dúvidas, mano a mano, como dois iguais, como dois bons amigos. Mas seguiam sem palavra ferir, silenciosos e graves, a par um do outro e distanciados pela interposição dêsse arreliador problema económico, filosofando em comum sôbre a dura incerteza do futuro. Porêm, súbito, um outro problema bem mais grave formularam as exigências fisiológicas do Silveira,―a necessidade de almoçar. E êste era de solução imperativa, imediata. Fez sinal ao primeiro
taxi
fechado que passou, empurrou para dentro a rapariga e, de mão à portinhola e pé no estribo, ordenou ao
chauffeur
que tomasse em direcção ao arrabalde, aí para Flores ou Olivos, e que aterrasse nalgum pequeno
restaurant
, aceado e cómodo, onde pudesse almoçar-se bem e a bom recato.
E nesse acomodatício bucolismo de fóra de portas foi onde gozaram o seu primeiro idílio,―breves, fugazes horas de paz e de enlêvo, vividas ao acalentador abrigo dos muros dum exíguo
patio
colgado de trepadeiras, em cujas sombras transparentes os raios do sol vinham quebrar-se, dançando, como sarabandas de beijos, como boquitas de oiro. Gradualmente aquecendo, o Silveira, profissional emérito nas práticas da sedução, envolvia-a em cariciosas espírulas de encantamento e de sonho, acenava-lhe com promessas, espertava-lhe desejos, insinuava-lhe desvarios, dizia-lhe coisas audazes e perversas que a deslumbrada criança recolhia inteiras, num embevecimento ingénuo, com os grandes e lindos olhos muito abertos, que pareciam escutar. Depois Luísa tambêm, no progressivo alento da confiança e pelo eflúvio excitante da comida, tornava-se ligeira, expansiva, fácil, tagarela, e com a sua vozita límpida e vibrátil, titilando como uma luz ao vento, fazia o enternecido relato do seu passado, da sua vida de desamparo e miséria... e como agora sempre o seu pensamento rodava incessante em volta do seu rico amor... desnudava as mais íntimas prégas do seu sentir, punha da mais comovedora evidência a intacta virgindade da sua carne e a nívea pureza da sua alma. Ao cabo, no regresso, quando dentro do auto os dois outra vez, êle cingiu-lhe a cintura, puxou-a a si, beijou-a sôfregamente... e ela abandonava-se, poisando-lhe em delíquio a cabeça contra o peito, encolhidita, humilde, gozando o prazer inefável de sentir-se pequena junto ao homem que adorava.
Nos dias subseqùentes, é de saber, a embriagadora scena a repetir-se. Um e outro tinham o dia todo por seu: nem ela nutria agora maior empenho em buscar nova colocação, nem tampouco êle se interessava demasiado pelos negócios. Narcotizava-os a tirania mole do instinto, embalava-os, adormecia-os uma preguiceira onda de prazer. E assim, numa despótica e mútua sedução, dias pós dias, foram indominávelmente consumindo o tempo e pelo seu amoroso exclusivismo enchendo as horas, num delicioso deambular de acaso, alheios ao mundo, perdidos pelas tascas dos bairros suburbanos, delidos nas orvalhadas sombras do Tigre, extraviados na quietude vaga e balsâmica do campo. E êste delicioso parêntesis de sonho engrinaldava-o Luísa com um chancear cristalino e alegre, intervalado de carícias tam espontâneas e tam ardentes, que o inflamado Silveira não sabia por vezes a que sobreùmanas fôrças socorrer-se para enfrear a violência do desejo. Eram as consabidas étapas duma capitulação moral, gostosa, inevitável, em que a alucinada criança ia deixando a pedaços o pudor,―essa epiderme da alma,―como antes, pelo campo, a fímbria da rústica saia esgarçada nas balsas dos caminhos.
Debalde prudencialmente o Azeredo, já ao tempo conhecedor da situação, buscava conter e dissuadir o amigo. Fazia-lhe ver, dêsse resvalo inobre em que se obstinava, as responsabilidades, os contras, os alçapões, os tédios... porventura os perigos.―Que precisão tinha êle? com tanta mulher por'í e noutras condições, e mais educadas, mais lindas, melhores, seguramente!―A nada porêm cedia a libidinosa querença do Silveira. Se êle a princípio hesitára, agora, mercê da garra mansa do convívio, o domínio, o gôzo, a plena posse de Luísa tornára-se para êle uma idéa obsidiante. Pressentia-lhe o aroma e o sabor dos frutos silvestres. Como um cacho ruivo de medronhos, embebedava-o o apetite acirrante de mais esta aventura, tanto na sua tradição como do seu agrado. Por fim, lógicamente, amaram-se na cumplicidade mercenária duma
casa amueblada
. E logo nessa noite o Silveira, quando a sós, no hotel, com a reflexiva calma do seu leito, sentiu correr-lhe a espinha um frio de vaga e presága angústia. Inexplicavelmente, e uma vez dissipado agora, com a posse, o encanto, o devassado mistério dessa criatura confiada e simples, uma sorte de áspero cuidado espancava-lhe o sono... remordia-o um amargo e apiedado sentimento, para êle desconhecido. Tinha supersticiosas apreensões e vinha-lhe uma tristeza. Quereria retrogradar, increpava-se, arrependia-se... No desfecho tam plausível e tam humano dêsse vulgar lance de amor, a sua consciência em alarme futurava qualquer coisa encaminhada a fazer sangrar a sua alma e a pesar no seu destino.
X
Mais ou menos o mesmo severo aspecto revestiram, no dia seguinte e quando inteirado do sucedido, os repreensivos comentários do Azeredo, que duramente increpou o amigo.―Afinal havia caído na mesma estupidez de sempre! E p'ra quê, no fim de contas?... Porque não soubera reprimir-se, atalhar o mal a tempo, furtar-se, desertar, reagir? E que tivesse vergonha! pois aquela premeditada violência era sempre no fundo uma acção indigna.
Depois, com uma doçura amável a cantar-lhe na expressão, sensatamente ponderava:
―Sim, porque essa pobre rapariga agora não te larga... tens que ampará-la no novo caminho que lhe fizeste. Pendura-se-te da vontade, enrosca-se-te ao desejo. E é bem feito! E vai tu, com o teu bom génio, com êsse feitio brando e sensualão, deixas-te gradualmente prender, apiédas-te, habituas-te, condescendes... e acabarás por descer a essa equívoca situação tam do agrado de todo o bom português: a mancebia.
―Não é mulher p'r'a mim,
―P'r'os homens fracos e lascivos como tu, tôdas as mulheres estão à altura.―E num gesto nobre e viril, sacudindo os ombros:―Porque não fazes como eu?... Tentações dessas prefiro que venham adonde a mim. Fica-se sempre bem... Foi o meu caso com a chilena. O verdadeiro prazer deve ter asas, ser leve como uma pena e fácil como os frutos maduros. Até por uma questão de egoísmo. Pois tu não vês? que diabo!... perante a epicúrea gula dos nossos sentidos, o convidativo saber da mulher feita vale mais que o espanto semsabor da virgindade.
Confundido e vèxado, o Silveira concedia―que sim... o seu amigo tinha razão. São destas coisas que acontecem. Já tinha que ser...―Mas logo, com desdenhosa arrogância, recobrando-se:―O que não valia a pena era dar ao caso maior importância. O que melhormente agora ali o interessava era ganhar
plata
. O mais, queria lá saber!―Aproveitando jubiloso a derivante, logo o Azeredo lhe disse que ainda na véspera, no
Club Progresso
, o comendador Niatello com todo o interêsse lhe perguntára por êle.
―Tem estranhado a tua ausência e com razão. Nunca mais apareceste!
O Silveira prometeu que iria naquela noite sem falta. E com efeito, cêrca das 10 horas, aí entravam os dois a portada banal do
Club
, na
Avenida de Mayo
. Transporta a modesta escalinata, em mármore branco e mosaico, e atravessado em cima um esguio vestíbulo envidraçado, cortaram logo para o primeiro salão, à direita, uma grande e bem esquadrada peça participando do simultâneo carácter de centro de conversação,
fumoir
, biblioteca e sala de leitura. O teto, alto e distante, era todo artezonado em bastos e simétricos caixotões de estuque lavrado, com abundância de oiros e relêvos; pelo amplo lençol das paredes, forradas duma espécie de brocado verde, de lã, com filetitos de oiro, penduravam-se aparatosas taboletas emoldurando recompensas industriais, oleografias, espelhos, a lista impressa dos sócios e o plano policromo da cidade; em baixo, sôbre o envernizado
parquet
, havia uma mesa enorme, pejada de jornais e revistas, e disseminavam-se em profusão as cadeiras, poltronas, sofás,
causeuses
e
fauteuils
de tôda a espécie, obrigado refúgio à modorrenta inércia dum avultado número de assistentes, dos quais alguns, raros, em traje de
soirée
ou
smoking
, porêm a maior parte encadernados no comodismo plebeu do jaquetão, e todos com arrastado vagar discorrendo sôbre triviais casos mundanos ou tricas vulgares de negócios.
Junto a uma janela abancava, com três sócios mais, o comendador Niatello, um quinquagenário reforçado e grande, de queixo querençoso, de olhos ladinos, saltando com dominador relêvo da abaçanada flacidez da larga face curtida e negrusca, inteiramente escanhoada. Mal que êle descortinou os dois amigos, logo de chamá-los de longe com protectores acenos familiares, afectuosamente. E à sua aproximação ergueu-se e adiantou-se a acolhê-los, numa solícita cortesia, convidando-os logo a tomar
asiento
e apresentando-os sorridente aos três companheiros.―Todos vélhos. Vicente Alvear, descendente duma antiga família colonial e herdeiro duma grossa fortuna, era ainda uma bela figura marcial, com a sôlta elegância de movimentos que nos dá uma vida fácil. Recêm-chegára da Europa, dizia as coisas mais triviais com solene entono, tinha um certo
aplomb
fidalgo, e o seu rosto liso, afável e atraente iluminava-se da espelhada abundância e frescura do bigode e cabelo, totalmente brancos. Não assim José Piétronero, que desbarbado, esguio, pequenino, era a mais completa e flagrante realização dum dêstes grilhetas eternos do trabalho, vestindo pobremente, com a arisca silhueta repregada sôbre si mesma, os olhitos cavilosos, a face rechupada e o chinó grisalho, recurvo o dorso como um cifrão, as mãos crispadas como garras. Finalmente, Pedro Urquiza era o mais galhardo e mocetão dos três. Grosso, moreno, gordote, a cara opada e macia, o cabelo lustrado de óleos, as mãos moles e brunidas, era bem um tipo de puro e contumás
porteño
, no córte arrogante do busto, no desempêno viril dos gestos, na linha imperativa da bôca, entre voraz e insolente, na dura expressão do olhar, entre altaneiro e cínico. Trajava com afectação, de calça excessivamente curta, polainas, grande pérola na gravata e um cravo branco no olhal do jaquetão cintado.
Foi êle quem imediatamente reatou conversa. Fazia a apologética enumeração das fabulosas riquezas naturais do país, postas agora a claro: os jazigos petrolíferos de Comodoro Rivadavia, as hulheiras de Chubut, os incontáveis tesouros em minério da cordilheira. Tanta maravilha por'í assim a explorar! tanta coisa misteriosa, ignorada, inédita, imprevista! No mundo não havia melhor.
―Parece-lhe então que todo êsse sul da Rèpública?...―indagou ingénuamente Vicente Alvear, avançando o busto com interêsse...
―É o nosso futuro Potosi, não há dúvida! Bem vê, o norte para a exploração intensiva é ainda demasiado selvagem, o centro está dando o mais que pode dar... de sorte que é para essas caudais de abundância do sul que deve de preferência voltar-se a nossa atenção e canalizar-se o nosso dinheiro.
―Parece que essa obra do carvão de Chubut
es un cuento
,―mascou o cauto Piétronero com frieza, fransindo desconfiado os olhos e apertando os braços.
―Como,
un cuento
!?
―Sim... eu li algures a opinião do engenheiro Rivoretto, um informe oficial, que diz que são jazigos demasiado recentes.
―Pelo contrário,―acudiu o Alvear com entusiasmo,―na Europa corre que é um carvão que pode competir com o melhor de Cardiff.
―Poderá... daqui a mil anos.
―Tudo isso são abomináveis maquinações e intrigas de tanto invejoso, tanto malfadado empatador que p'r'aí abunda!―contestou indignado Pedro Urquiza. E com persuadente intimativa:―Não tenham dúvida: o valor das hulheiras de Chubut, mas o valor actual, imediato, é enorme. Depois, há ainda os mananciais do Neuquem, há tôda essa imensa e feraz Patagónia...―E num ardor de patriótica exaltação, pondo-se em pé, com os lábios imperiosos, com uns olhos de vidente:―Ah, creiam, meus amigos! por tudo, até pela raça, é no sul que repousa o engrandecimento, é do sul que há-de avassaladoramente romper e impôr-se o grande futuro da Rèpública. E o dever de todos nós é, desde já! não só acompanhar, mas estimular êsse portentoso fenómeno natural com as nossas melhores reservas de actividade, de inteligência e de numerário.―Rodeou o grupo em duas passadas nervosas, e por fim, abatendo a mão sôbre o engerido ombro do Piétronero:―Você que diz?
Este teve um instintivo estremecimento, e naquele gesto tam seu, de como quem defende a algibeira, encolhendo os braços todo dobrado:
―Eu não sou ambicioso... não digo nada.
―Duvida? tem receio?
―Não sei, não sei... Aquilo que tenho custou-me tanto a ajuntar!...
―Não diga isso! Um homem como você, dos do bom tempo, quando inesperadamente se acordava rico... Um felizão, que apanhou fortunas de mão beijada...
―Sim... porêm o meu amigo não atenta agora, com as reviravoltas da crise, em quantos títulos eu tenho comprometidos... não toma em conta a imensidade de terrenos que eu comprei a 30 pesos o hectare, e que neste momento não valem 5... Ninguêm mos quere!
―São injustificadas apreensões. Lá virá seu tempo.
―Virtualmente estou pobre.
Uma girândola de incrédulos risos acolheu êste lamento hipócrita. E a seguir num generoso arranque de confiança, o Alvear:
―Pois eu cá, não! eu estou meio tentado. O dinheiro que os meus me legaram, p'ra que o quero eu? senão p'ra pô-lo ao serviço do meu país, ajudando-o e engrandecendo-me?... Que essas novas empresas consigam do govêrno, pelo menos, o apoio moral, e o meu capital disponível estará com elas.
―Bravo! meu nobre amigo. Muito bem!―exclamou com festiva arrogância o grosso Urquiza, dobrado com esfôrço, sobre a espalda do amigo. E logo para o Silveira, que, sentado ao lado, seguia num vago deslumbramento o giro tintinabulante do diálogo:―E que diz a isto o nosso simpático estrangeiro?
Aqui interveio o ladino comendador, até então silencioso, e que com dulcerosa expressão, envolvendo protector o Silveira na chispa traficante do olhar, astutamente:
―Ah, o meu joven amigo não precisa aventurar-se tam longe p'ra fazer fortuna. Tem um pouco mais perto, já sabe... os meus terrenos da província de Cordoba. Não é verdade?
Maquinalmente, o Silveira sorriu; enquanto o Azeredo fransia a testa com desgôsto, o negrusco aliciador continuava:
―Pode ali fazer uma rica exploração agrícola em larga escala. É o mais simples e o mais seguro.
―Eu gosto muito do campo.
―Aí tem! Que melhor oportunidade que a que eu lhe ofereço agora? E olhe que poucos lotes me restam já... Um terreno privilegiado, não imagina! Ainda não viu a exposição dos produtos dessa minha terra, aqui em Florida?... Faz o assombro de tôda a gente. Vá ver, vá... e eu tenho a antecipada certeza que de lá o meu amigo correrá ao meu escritório.
―Haveria logar para tudo...―magnânimo o Urquiza aventurou.
―Nada! nada!
Qué esperanza
... Creia, amigo Silveira, nenhum negócio como êste meu. Garanto-lhe que, em dois anos, tem o valor do seu capital quintuplicado. Quere ver?
E, dizendo, o acobreado Niatello sacava duma pasta e desdobrava aparatosamente sôbre a mesa uma grande planta policróma, enquanto de roda os três vélhos cambiavam entre si um imperceptível olhar escarninho, e o Azeredo impaciente beliscava o braço ao Silveira.
―Bem! vou ao meu assalto de florete,―anunciou, num sêco gesto de despedida, o Urquiza. E para o Silveira, com especial predilecção:―Tive imenso prazer em conhecê-lo, pode crêr...
Calle
Lavalle, 1391, inteiramente ao seu dispôr. E fóra disso, pelas tardes, encontra-me sempre invariávelmente fazendo a
calle
Florida, no
Jockey Club
ou aí pela livraria
Mendeski
, pelo
Wictomb
, à porta do
Lacloche
ou no
Rumplmeyer
.
Seguiu, breve e altaneiro, para o interior da casa, tomando-lhe o exemplo, a poucos minutos passados, Vicente Alvear e o Piétronero, que deixaram o comendador a desdobrar à vontade a sua estratégia de sedução perante os dois portugueses. Assentou êle em pêso a negra mão convincente sôbre uma larga fôlha de papel-tela, onde tentadoramente se estrelava uma grande mancha trapezoidal, escaqueada por um labirinto de pequeninos rectângulos, brancos, amarelos, azúis e verdes, que uma floresta de traços negros definia, e carimbados a algarismos vermelhos. A toalha esfíngica da fortuna.
―Isto aqui é o melhor que pode haver, notem os srs. bem! Província de Cordoba, departamento de Iulumba. Dôze horas de ferro-carril; é um passeio. O lote que eu lhe ofereço é êste, o n.º 13, um número de sorte, um verdadeiro
regalo
. Veja: são cêrca de oito mil hectares, terrenos absolutamente virgens, a dois passos da linha férrea, abundantes carreteiras, e em condições topográficas excepcionalmente favoráveis, entre a montanha e o rio.
―Há-de ser caro...
―Quê, caro? objectou com a mais teatral isenção o comendador.―O meu amigo não me conhece... De tanta soma de terras aqui vendidas já eu tirei um lucro bastante compensador; de sorte que agora êste resto,―que não é um refugo, senão um mimo,―ceder-lho hei por nada, quáse de graça.
―E como é que tanta preciosidade―arriscou com impertinência o Azeredo,―se conservou até agora assim baldia, estéril, ignorada, inútil?
―E um fenómeno vulgar em tôda esta imensidade.
―Bem, mas em todo o caso este meu amigo, sem ver, sem se informar melhor... não pode assim de golpe comprometer-se...
―E porque não vão lá primeiro, certificar-se? Eu até estimo.
―Desnecessário!―atalhou, num rasgo de quente decisão, o Silveira.―Está posta de parte, por descabida entre nós, a questão de confiança.―Depois a meia voz, para o Azeredo:―Talvez convenha, hein?―E na hipnose ingénua do oiro, erguendo-se:―Olhe, meu caro comendador, eu não resolvo nada de pronto; no entanto peço-lhe que me reserve o lote, que me dê um prazo.
―Só sendo muito curto, já vê...
―Eu àmanhã sem falta vou ver a sua exposição, e em seguida, em qualquer hipótese, passarei pelo seu escritório.
E com um efusivo apêrto de mão despediu-se e afastou-se, com o Azeredo, enquanto o comendador dobrava e guardava, num jubiloso vagar, o seu trapaceiro
dossier
, com a segurança ardilosa do triunfo a bailar-lhe no olhar astuto.
Não muitos metros andados na direcção dos bilhares, chamou a atenção dos dois amigos, quáse travando-lhes o passo, um grupo atónito e compacto que em extátíca suspensão escutava o verbo suasivo e ardente dum invisível charlatão, sob o domínio empolgante da sua embaìdora parlenda desdobrando cifras e barafustando enganos.
―É um assunto que eu pensei maduramente, meus senhores!―pregoava êle na sua ardorosa invocação, convictamente.―É uma grande empresa, um negócio estupendo!
Cá de fóra e de longe, o Silveira não podia distinguir a figura do industrioso perorador; mas pareceu-lhe reconhecer aquela voz sacudida e vibrante, de timbre metálico, saltando no silêncio espectante de em tôrno como um jôrro de moedas batidas sôbre o balcão. Ergueu-se então em bicos de pés... e, com efeito! era o seu abortivo Ramón Alvarez quem com tam compenetrada fúria encarecia as maravilhas dalgum inédito elixir da sua lavra. E que de repente, ao vê-lo:
―Oh, meu caro Silveira! Que feliz, que providencial acaso! Quanto estimo!
Pase
,
pase
, venha ouvir... Como chega a propósito!
E tam pronto fez praça ao amigo, logo êle, para não perder o calor sugestivo do momento, rompeu clamoroso outra vez:
―Trata-se nem mais nem menos que da construção dum grande, um alado, um colossal e gigantesco pára-sol sôbre tôda a praça de Mayo.
Os paresiados rostos dos circunstantes fulguraram num rasgo de admiração alarve. E êle, impudente, imperturbável:
―Os senhores compreendem bem a minha idéa, o meu fim essencial: oferecer um pouco de comodidade ao grosso publico, furtar às inclemências do calor e ao rigor das intempéries tôda a imensa aluvião humana que de sol a sol febrilmente circula e se agita nessa túmida aorta da cidade. Mas de passo eu quero reùnir ao útil o agradável, quero adornar de atractivos, rodear de fartas e lindas diversões, essa benéfica estância de repouso. Será um ponto de reùnião forçado, uma obrigada estação de prazer,
chic
, estética, elegante. Haverá por exemplo ali assim, logo em baixo, tôda a sorte de
tiendas
,
restaurants
, bazares,
garages
de automóveis, que sei eu?... Depois, em cima, envolvendo o grande suporte central, e suspenso, teremos um vasto salão de concertos; dos extremos de cada vareta, ao largo de tôda essa perifería, eu farei igualmente suspender quantidade de teatrinhos, cinemas,
bars
, estufas, e por fim, no afusado remate do vértice, rendado e fino como uma agulha de catedral, erguer-se há um lindo
belvedére
e flutuará um balão cativo.
―Encantador, grandioso, realmente!
―É uma idéa bem americana!
―Parecer-lhes há estranha, à primeira vista...―ponderou o grotesco Alvarez, sorridente, pendulando a fenomenal cabeça com modestia.―E no entanto nada de mais exequível, de mais oportuno, de mais simples, de mais a propósito.
Mas por entre o côro basbaque dos aplausos algumas birrentas dúvidas surdiam.
―Acho um plano em demasia arrojado.
―Impraticável talvez...
―Como, impraticável?―de salto o Alvarez acudiu, com o frio cobalto dos olhos súbito incendido.―Ao contrário, hoje, com o ferro e o cimento, é tudo quanto há de mais fácil.
―A mim parece-me a renovação da cómica façanha do
homem das botas
... com a diferença que esta não custou dinheiro,―disse em surdina para o Silveira o Azeredo.
―E a forma prática de o realizar?―interpelou um ouvinte mais rebelde.
―A municipalidade consentirá? Já obteve a concessão do exclusivo?
―Ainda não... porêm tenho a promessa formal do
édecan
da Presidência.―Um crédulo cabeceamento de aplauso acolheu esta animadora notícia.―O lucro vai ser imediato, enorme, colossal!―tornou dogmático o Alvarez; e após uma ardilosa pausa, abrindo familiar os braços, singelamente:―Agora o que há, é que estas coisas, sem dinheiro, sem muito capital... Eu só não posso... Pensei numa sociedade por acções, de cem pesos, cobráveis em duas prestações. Está ao alcance de tôdas as bolsas. Uma coisa de nada! Aqueles dos srs. que me queiram acompanhar...
Entretanto, nas fôlhas do providencial
carnet
que um solícito
corredor
ia fazendo adrede circular pela assistência, choviam abundantes as adesões e as rubricas dos subscritores. O Silveira inscreveu-se com cem acções, levado na rútila asa dos seus sonhos de fortuna.
Na manhã seguinte, tomado de plutonómica impaciência, êle aí ia visitar, em
calle
Florida, o tam apregoado mostruário agrícola do comendador. A distância de mais de meia
cuadra
, já êle distinguiu um grosso grupo de mirones, na sua curiosa inquirição colados com avidez à montra, tomando o passeio e daí alastrando ainda em arrelienta cauda pela rua. Tanta soma de interêsse foi para o hipnotizado Silveira mais um estímulo. Estugou o passo, e, breve, a poder de firmeza e de decisão, pedindo vénia, acotovelando, rompendo, atropelando, logrou alcançar o posto de exame desejado.―Um perfeito deslumbramento! Distribuida com arte e colmando superabundante a vidreira, havia a mais tentadora profusão de bulbos, de sementes, de frutos, leguminosas e gramíneas de toda a sorte e tudo sôltamente luxuriando em côres sadías e brunidas, em túmidas e aveludadas curvas, em farturas reçumantes, escarolados cofres da abundância, gordos, frescos, viçosos, grandes como êle nunca vira igual! Alguns eram duma corpulência descomunal, verdadeiros prodígios da Natureza.
Havia ali batatas grandes como melões, melões que pareciam abóboras, abóboras que eram como as tôrres da Senhora dos Remédios ou do Bom Jesus, na sua terra. Seguramente, na última exposição promovida pelo Vilarinho de S. Romão no Palácio de Cristal, e que tam falada foi, não aparecera nada capaz de se comparar com isto. Era uma possança paradisíaca que metia positivamente num chinelo os afamados feijões e as couves de S. Cosme, os pêssegos do Varosa ou os calombros de Lamego. Que portentosa produção e que privilegiada terra!
Nem todos pareciam, entretanto, manter esta corrente ingénua de sentir, no heterogéneo grupo da assistência. Um que outro dito mordaz passava dissimulado ou esfusiava escarninho; alguns rodavam num propósito manifesto de troça, assobiando; e mesmo junto à orelha do indignado Silveira, alguêm houve que, fransindo o nariz, com implicativo acento exclamou:
―Hum! A mim parece-me isto um
conto do vigário
.
O Silveira sentiu ganas de contraditar a blasfémia; e sobranceiro a êste deletério contágio, como um decisivo gesto do seu protesto pessoal a tanta soma de imbecilidade e ingratidão, súbitamente, deixou por seu turno a vidreira e seguiu na pressurosa demanda do comendador,―não fôsse algum mais diligente e esperto antecipar-se-lhe!―e adquiriu para si o famoso lote n.º 13. Oito mil hectares de terra virgem, a dez pesos o hectare. Um ovo por um rial. Um negócio de mão cheia.
Descontado êste dinheiro, mais o capital que arriscára na
Sociedade Internacional de Seguros
, e o custo das cem acções, do dia anterior, não lhe restava já do seu parco património, feitas bem as contas, mais do que com que viver, e bem escassamente, quando muito, por um ano... Oh, mas que importava isso, se dentro em poucos meses, seguramente, êle dos seus esplêndidos negócios ia colhêr rios de dinheiro!―Bem bom! bem bom!―dizia-se, esfregando as mãos, sorridente.―É um dito êste bem certo: que há males que veem por bem... Afinal, em bôa hora viera. Ia
fazer a América
, veriam! Ainda havia de mandar depois as brôas ao Afonso Costa. E que esmagadora lição êle infligia à Laurita!
Arrastado na falaz miragem dêste sonho magnificente, tôda a tarde o Silveira levou, desocupado e frívolo, em prazenteiros
flirts
pela cidade. Começára o delicioso mês de maio, o opulento batedor da
season
, arrepiado dos primeiros frios e com as suas plácidas manhãs envôltas vagamente, como por uma peliça cara, nas peroladas franjas da neblina. Apetecia o confôrto caseiro e lembrava, gratamente, o sôpro morno dos
calentadores
, o efusivo calor das recepções mundanas, o tépido e sensual ambiente das veladas, dos concertos, dos bailes, dos teatros. Haviam-se inaugurado já os selectos
tés
dominicais do Plaza, e os aristocráticos cartazes com o
elenco
do
Colón
tenorinavam líricas tentações pelas esquinas. Ao longo da Avenida de Mayo, limpa já de ruturas, porêm ciscada a trechos pela chuva outoniça da folhagem dos seus plátanos, várias brigadas de obreiros lidavam regulamentarmente, desdobrando tubagens, firmando plintos, marchetando escudos, aprumando postes, bandeiras, mastaréus, pendurando sanefas de lumes e articulando pórticos de ripado, para as próximas iluminações das festas da Independência. E tornavam a aparecer as equipagens de preço, e pelas ourivezarias e casas de modas cruzavam, em vagarosa importância, as grandes figuras conhecidas. Era
la gente bien
da grande cidade que, de novo, condescendia em mostrar-se, era um novo ciclo da sua ostentosa vida social a definir-se. Opulências, brilhos, vertigens, intrigas, caprichos, loucuras, traições, amores... Era a lampejante renovação de mais um dêsses embriagadores remolinhos de fortuna, de engano e de prazer em que o aturdido Silveira estava disposto agora a deixar-se envolver, pronta e avassaladoramente.
Ora, justo no dia seguinte, primeira terça-feira do mês, os Wimeyer recebiam. Às 6 da tarde, lá estava pontualmente o Silveira à portita discreta e esguia dêsse modesto rés-do-chão da
calle
Paraguay. Desta vez a criada, sem hesitar, abriu logo o batente da porta envidraçada, dando afável o passo ao visitante, que se encontrou num escuro e enfadonho
hall
, de teto envidraçado, onde êle poisou o chapéu e a bengala, passando logo, à esquerda, ao salãosinho da frente, que dava para a rua. Aí, sôbre um coçado sofá, no logar de cerimónia, espapavam-se duas assaz ponderáveis matronas, amplas e obêsas, de negro, com muitos bandós e pérolas, atendidas solícitamente pela dona da casa. E não havia mais senão, um pouco à parte, junto ao piano fechado prudencialmente, duas raparigas vestidas de claro, ambas dum córte igual, em pé e com o exíguo ventre em abandôno à frente, os ombros ladeiros,―cuja frívola atenção Irene e Dolores buscavam maquinalmente prender, mostrando-lhes num convencional agrado um jornal de modas, que as duas delambidas olhavam como por demais, de pálpebras froixas, o longo narizito afilando enjoado no rosto impertinente.
Fez naturalmente sensação a imprevista entrada do Silveira, cortando assim de improviso a sorna frialdade do pequeno círculo feminino. D. Catalina festejou-o muito, dando-lhe com marcada alegria as bôas-vindas, e logo, com o seu ar repousado e lânguido de sempre, apresentando-o às duas bisarmais amigas. A seguir, o Silveira dirigiu-se a cortejar o apartado grupo das quatro jovens, que lhe acenavam com sorrisos; e então, ao defrontar-se com Irene, estremeceu e sentiu que lhe banhava a espinha um frio de estranheza. Olhava, olhava e não queria crêr... Estava mais alta, mais dura e mais forte, engrossára deplorávelmente. Parecia-lhe outra, desagradava-lhe, desconhecia-a... Já D. Catalina o chamava afectuosamente, ageitando-lhe cadeira a seu lado, e o desencantado Silveira não conseguia confortar-se do seu desgôsto nem repôr-se do seu espanto. Sofria a mais amarga e dolorosa decepção! Que era feito então dessa alada e fugidía figura de há dois meses antes? que lance cruel do azar ou que tirania estúpida de raça lhe haviam assim desfeito o encanto ideal dessa visão bemdita, durante a viagem?... Êle estava a ver! perdera a sua linha fidalga, aquele soberbo ar de
palmeira imperial
, na sua aérea esbeltez, na sua altívola frescura... Tinha agora uns ombros quadrados e roliços, um pulso de cavador, uma anca rotundamente animal, espatinados os seios, a pele ardída, as feições empastadas e sob o queixo fazia refêgos. Como fôra aquilo, em tam pouco tempo?!
Entretanto, D. Catalina, sem poder dar-se conta desta arreliadora surprêsa do Silveira, carinhosamente interpelava-o:―Como tinha êle passado durante todo aquele tempo? E Buenos-Aires que lhe parecia?―Impaciente e distraído, o Silveira arrastava quaisquer vagas banalidades. E logo mui dulcerosa a mãe Wimeyer:―Que êles é que nunca poderiam esquecer tam bom amigo. Falavam nêle todos os dias... E que haviam recêm-chegado. Dolores estivera com o pai em Salta. Irene, não! essa era mais
regalona
, acompanhára a mãe no Tigre.
―Nunca o vimos por lá...―aqui acudiu naturalmente Irene.―Todos os dias à espera!
Com o ar humilde e contrito, quáse vèxado, o Silveira balbuciou―que, com efeito, confessava o seu pecado... mas nunca tinha ido ao Tigre.
―Como!? E ainda o diz?―reprimendou, a fazer de agastada, a doutoral mãe de Irene.―Não podemos perdoar-lhe semelhante falta! A nossa melhor estância de verão... Nem a Suíça... Dito por todos!
―O Tigre é lindo!―acudiu com ênfase uma das paparretas de junto do piano, aproximando-se.
―A minha filha deu-se muito bem por lá...―tornou D. Catalina.―Erguia-se muito cedo, todo o dia ao ar livre... pescava, montava a cavalo, remava muito. Não vê como lhe fez bem?
Neste preciso momento, Irene aproximava-se do Silveira e vinha oferecer-lhe uma chávena de chá, còrando ligeiramente, com a sua habitual singeleza. E posta assim, natural e simples, diante dêle, revelava numa irrecusável eloqùência êsse subito e passivo avatar burguês da sua figura.
Não era nada já a esquiva e patrícia silhueta ideal do
Almeria
; antes, entre tantos, um rebarbativo exemplar mais de fêmea prolífica e segura. Tomando enguiçado da bandejita a chávena, o Silveira não podia no íntimo perdoar-lhe... Os seus olhos agora repeliam-na, o seu coração repudiava-a. Perdera para êle todo o interêsse. Sentia-se roubado.
Contudo, atencioso e galante por instinto, dos lábios frios ia deixando, com importante pausa e um pouco à tôa, escapar seus lisonjeiros comentários
sôbre
a sociedade e a vida
porteña
, frisando a tempo a sua impressão e déstramente sublinhando de admirativas frases o tiroteio vago de perguntas com que o pequeno círculo feminino o assediava,―tôdas agora em interessado grupo rodeando-o, e as raparigas já com desabusada familiaridade depois que souberam que êle não era casado.
Foi quando pai Wimeyer entrou, e ao divisar o Silveira, os seus olhitos claros chisparam num guloso raio de alegria. Vinha invariávelmente todo de negro, e sempre rosado, gordote, apesar de bastante mais avelhentado. E logo, com o seu ar didático e afável, adiantando-se:
―Oh, o nosso bom e simpático português por cá! Finalmente... Já me tardava. Quanto gôsto eu tenho!
O Silveira teve um mudo calafrio de terror; e, num aberto desvanecimento, D. Catalina para o marido:
―Diz que gosta imenso de Buenos-Aires.
―Promete radicar-se na Argentina,―acrescentou Irene.
E dogmaticamente o dr. Justus:
―É o que deve fazer! Em estando mais vinculado aqui, verá como se sente bem. A Argentina é um país cativante, remunerador. Tem o meu exemplo.
―E então que pode encontrar por'í uma linda noiva...―lisonjeira interveio uma das arcáicas bisarmas do sofá, em pancaditas suaves de regalo sôbre o ventre.
―Encontra com certeza!―a mãe Wimeyer sublinhou, num risinho inteligente.
―E em todo o caso―tornou com dulcerosa intimativa o dr. Justus―as nossas prometidas lições que não esqueçam.
―Quando vossa excelência quiser...―balbuciou o Silveira com esfôrço, ante a estopante ameaça empalidecendo.
―Não creia que a ideia inicial seja minha. Não. Tem até graça... sugeriu-ma um vélho compatriota seu, filho da India, o dr. Gomes, que eu em Lisboa conheci casualmente. Que homem talentoso, raro, profundo, subtil! Era uma figura estranha e insinuante, com os seus agudos olhos de vidente, as suas atitudes estáticas de
fakir
, a sua cútis de bronze oxidado, a sua longa barba messiânica. Habitávamos a mesma pensão, e aí sôbre coisas da alma e do espírito nós caturrávamos longamente. E vai êle então, que era um tuberculoso irremissível, ao morrer legou-me um precioso manuscrito garatujado de números, fórmulas, símbolos e chavetas complicadas, que era a embrionária génese do seu plano. Uma teoria genial! Tenho que pô-la a claro.
―Pois sim...―atalhou benevolente a mãe Wimeyer,―porêm, deves compreender que o sr. Silveira terá coisas mais agradáveis que o interessem. Na sua idade...
―Ainda um rapaz...―protectora reforçou a dama suave do regalo.
―Há tempo p'ra tudo. Não é certo?
―Como não?―maquinalmente o Silveira aquiesceu.
E como neste momento uma das grossas figuras do sofá se erguesse para sair, êle despediu-se tambêm, com a promessa de voltar pronto, e deu-se pressa em alcançar a rua. Ansiava por ver-se a salvo... dali bem longe. Ia na resoluta disposição de tam cedo não voltar. Desta aziaga mansão de desencanto e horror concorriam simultâneamente a distanciá-lo―a birra pedagógica do pai e o engrossamento prosaico da filha.
Chegado ao hotel, o Silveira encontrou um cartão do conde Améglio, com duas linhas amáveis reclamando a sua presença.―Pedia-lhe que passasse pelo local da sua exposição,
calle
Viamonte, e iriam depois a casa os dois tomar chá, com a condessa.―A primeira impressão foi de encantado alvorôço. Num sugestivo instante, o seu insatisfeito apetite evocou, reviu e enroscou-se à deliciosa imagem da irlandesa, fazendo-lhe saltar nos nervos chispas lúbricas de desejo. Porêm, ao mesmo tempo quáse, chamavam-no ao telefone. Era Jorge Saavedra que lhe anunciava o regresso, dêle e da família, do campo, rogando-lhe por igual que aparecesse, se, antes, êle mesmo não fôsse visitá-lo.―Finalmente... Ainda bem!―Nova e mais deliciosa impressão lhe fez correr, pelos sentidos em alarme, a grata e inesperada notícia.―Sim! porque a volta dos Saavedras significava que teria vindo tambêm Maria Mercedes. E êle morria por tornar a vê-la... oh, a esta de preferência a tudo o mais! Era um vivo e complicado demónio que, pela fórma mais adorávelmente despótica, se lhe instalára na vontade e lhe monopolizára a existência. Pois êle poderia lá viver sem ela, ali, próximos e familiares os dois dentro da mesma cidade, sob o mesmo azul carinhoso, no mesmo ambiente perturbador, ao mesmo contacto amigo! E, depois, tinha contas que ajustar com ela... Havia uma deprimente situação que liquidar entre os seus brios varonis e essa criatura enigmática e divina. Assim duplamente lho impunham o seu coração machucado e o seu amor-próprio ferido.
Na tarde seguinte, querendo iniciar a sua galante digressão pelo mais fácil, tomou o Silveira um auto e rodou para Viamonte, onde entrou num pequenino salão térreo, decorado com ricos móveis Renascença, pelas paredes verdoengas um profuso mostruário de telas de preço, porêm de gente deplorávelmente vazio. Na desconfortante solidão daquela fracassada armadilha artística apenas, lenta e merencóreamente, se movia o dono da casa,―uma baça figura loira, de olhos claros de porcelana, barbicha em ponta e lunetas, e o cabotino Améglio, astutamente cingido ao crítico de arte de
La Nación
, a quem com loquaz intimativa, num atropelado desbarato de grossos gestos e frases feitas, buscava alarvemente encaminhar a atenção e subornar o critério. E depois que êste partiu, o mesmo conde, agora absolutamente só com o Silveira, e no íntimo vèxado por aquela evidenciação patente do seu rotundo insucesso, contudo assumia atitudes de importância, e num desvanecido ar superior, os olhos negligentes na face cínica, passando a mão pelo cabelo, atribuía, fátuo e altaneiro, o facto a um mesquinho concurso de causas bem inferiores ao seu alto propósito. E enumerava com desdêm,―o pouco adiantado da estação, a crise, a incultura geral, o retraímento invejoso dos artistas, a hostilidade surda da imprensa.
Passado pouco tempo, e ninguem havendo a atender, os dois retiraram e dirigiram-se ao pensionato pelintra que os Di Paoli ocupavam, na Praça do Congresso. Aí, das paredes roçadas e encardidas, quáse totalmente nuas, apenas agora pendiam, destacando sôbre uma medíocre miuçalha industrial, uma pequena paìsagem de realce e o bárbaro retrato da condessa. Esta acolheu o Silveira naturalmente, com um risinho afável mas sem calor, sem a mínima demonstração expansiva, com uma frieza exasperante, fechada outra vez naquela expressão calma, alheada e infantil que a bordo, era para o insofrido galã o maior encanto e o melhor estímulo. Falaram ligeiramente sôbre uma quantidade de coisas indiferentes e banais, o Silveira fez o pitoresco relato da sua estada no campo; e por fim, como o diálogo voltasse naturalmente a recair sôbre a digressão artística do conde e o seu resultado económico, êste num abandôno de familiar confiança, manifestou ao amigo,―que, devia dizer-lhe com franqueza, as coisas não lhe corriam nada bem... Estava por completo desalentado, não tinha vendido nada! Parecia-lhe aquilo um país de pedantes e impostores.―E numa autorevelação inconsciente:―Tudo puro charlatanismo.
Parada
,
parada
, conforme êles diziam... porêm no fundo nada de quantioso, de firme, de sólido. Queria êle saber?... Êsse belo Corot que êle ali havia visto, mandára-o, a pedido do milionário Spantuzzi, o célebre coleccionador, a casa dêle, para o estudar devagar, para se inteirar melhor, para ver...―Cruzava indignado os braços.―Isto havia dois meses. O tempo fôra passando... Era pr'a considerá-lo vendido, não era verdade?... Pois que agora lhe devolvera o quadro, com uma carta muito sêca, dizendo que afinal Corot não era dos pintores da sua predilecção, e que já tinha três, e que por isso resolvera não comprar...
Abria numa irritação os braços, e sacudindo a cabeça com dignidade e erguendo-se, acremente:
―E tudo o mais assim! Há três meses, apenas, em Buenos-Aires e já gastei quinze mil francos. E lucros nenhuns... Um pavor! Em má hora vim aqui... Que tremenda desilusão! Vou retirar breve seguramente.
Deplorando-o com sinceridade o Silveira, e num instintivo terror aproximando a sua sorte da do conde, tentava confortá-lo. Porêm, súbito, êste, aplacado, risonho e com afável singeleza, a mão interesseira estendida à parede:
―O seu quadrito ali está... P'ra onde quere que lho mande?
O Silveira estremeceu. Nem êle se lembrava já... E contudo hão havia meio, agora, de furtar-se decorosamente àquela polida insinuação, que para o seu carácter valia uma intimação formal. Que enormidade iria êle cobrar-lhe? Alguns dois ou três mil pêsos, estava a ver... Um rombo muito sofrível no seu já tam reduzido capital, um saque não previsto que lhe desequilibrava o orçamento. E é que não havia remédio!... Numa retracção íntima de terror, êle increpava-se duramente pela sua imbecilidade, dava ao diabo o azarento acaso dêste conhecimento... Porêm, breve, a sua proverbial imprevisão a fazer-lhe bailar no espírito aquela suculenta miragem das abóboras e dos melões do lote n.º 13. Providencial compensação! Que importava o resto?... Ele poderia bem, já agora, ajudar êste pobre diabo e burlar-se da condessa... que a sua brilhante e áurea desforra estava certa, depois. Questão de tempo... deixar correr!
E com marcada sobranceria, ao despedir-se, recomendou então ao conde, sem discutir o preço, que lhe mandasse o quadrito ao hotel, com a conta, no dia seguinte.
Queria ainda naquela tarde encontrar-se com Jorge. Baldado empenho porêm, pelo momento; pois que, tendo chegado ao hotel e telefonado sucessivamente para casa dêle, para o
Circulo de Armas
, para o
Jockey-Club
e para o
Plaza
, de parte nenhuma lhe davam notícia dêle nem sabiam dizer-lhe onde porventura se poderia encontrar.―Estaria p'r'aí talvez na sessão
vermouth
dalgum teatro barato. Mas qual?... Fôssem lá saber!―Ficaria o encontro então para a noite, sôbre o jantar. Disposto pacientemente a esperar, o Silveira correu a coluna de anúncios dos espectáculos, na
Prensa
e viu que naquela noite havia no
Palace Théâtre
uma função em benefício de
La Caja Dotal de Obreras
, pia instituìção patrocinada pelas damas da primeira sociedade. Lá estaria certo o rapaz. E possívelmente Maria Mercedes...
Alentado por êste desejo e enardecido por esta esperança, logo que acabou de comer, o Silveira saíu. Mal havia dado porêm, confiado e quente, os primeiros passos, e logo à esquina da
cuadra
seguinte, ei-lo que se defronta súbito com Luísa... a qual buscou simular um encontro de acaso, mas que, tímida e inexorável, mais uma vez o estava dali espiando, seguramente.
O Silveira teve um claro sacudimento de arrelia, e brusco e hostíl, plantado com dureza frente à sua adorável e simples amiguita, fitando-a com império:
―Que fazes tu aqui!? que quere isto dizer?...―E como a atónita rapariga se mantivesse muda, numa compungida atitude de assombro, os olhos baixos, a fria prega dos lábios transida de amargura, êle na mesma clara dureza tomou:―Não são horas e mais que horas de recolheres a casa? Como vais agora entrar?
Luísa ergueu para o seu áspero censor os grandes olhos, repassados de piedade, e após uns segundos de embaraço, naturalmente:
―
Yo cambié de domicilio
.
―O quê!? Deixaste essa bôa casa de Tucumán? Que fizeste tu por lá?
―
Yo nada, señor
.
―Puseram-te na rua?
Ao golpe achincalhante da interpelação, a pobre Luísa fez-se branca, torceu-se numa contorsão aflitiva, e logo, reagindo, a protestar com suavidade, as mãos trémulas em magoada cruz sôbre o peito:
―
Nada tienen que reprocharme alli, se lo juro! Al contrario, las buenas madres eran bien amigas mias.
―Nesse caso, então?...
Nova pausa, de eloqùente silêncio agora, e logo ela, còrando, a segredar docemente:
―
Es que yo no podia pasar asi todas las noches, sin verlo
...
―Com efeito!―exclamou o Silveira, numa fatuìdade sorridente.
―
La culpa es toda suya, ya vé
...
Insensível porêm o Silveira à voluntária e total abdicação desta alma:
―De sorte que te encontras agora aqui assim à tuna, sem uma ocupação, sem família, sem casa nem abrigo?
―
Yo no le pido nada
.
―Pois, meu rico amor, se vinhas co'a idéa de entreter a noite comigo, perdeste o teu tempo.―E como a desconfortada rapariga o envolvesse numa fundente expressão de carinho e ensaiasse um tímido gesto suplicante:―Não! não! Vou com pressa. Tenho um compromisso. Palavra!
―
Que compromiso mayor que el nuestro?
―És tôla!
E no mesmo instante o Silveira, duro sempre e insensível, jogado ao ímpeto do seu cobarde egoísmo, voltou costas e seguiu caminho, deixando a sua amantesita infeliz pregada e fria como uma estátua, os lábios lívidos, tolhida de dôr e de vergonha, imobilizada de pasmo e de tristeza.
Cortando logo para Corrientes, o arreliado Silveira caminhava rápido e, a intervalos, voltava-se, a inquirir se porventura, e a despeito da sua formal negativa, êle não seria seguido. Enfastiou-o de-véras o episódio. Incendeu-o num furor pueril, que lhe punha asas nos pés, a insistência piégas da rapariga.―Tam longe êle estava agora de semelhante coisa!―Três dias havia que não sabia dela, buscando insensivelmente furtar-se e fechar impunemente o ciclo de mais esta fugaz aventura com o sêlo cómodo do olvido.―Por que era uma maçada, no fim de contas, a peganhice infantil dessa seresma! Bôa rapariga, não havia dúvida... Mas tambêm as môças que êle, na sua terra, tivera a sorte de arrastar a uma torpêza igual, eram bôas como esta... e mais dóceis, mais razoáveis. Sabiam medir distâncias, compreendiam a situação. A breve trecho, eram elas as primeiras a anular-se... voltavam ao que eram e não o importunavam mais, conformavam-se sem lamúrias e deixavam-no em descanso. Ao passo que agora esta carraça... Em má hora lhe tinha acudido!―E a biltraria recôndita do seu ânimo fortalecia-se. Erguia a cabeça com jubiloso arreganho e caminhava mais apressado. Porêm a espaços, não obstante, se num claro de grata recordação a sua alma evocava a cândida imagem de Luísa, crescia-lhe súbito no íntimo uma onda de condoída ternura, que o envolvia, que o abrandava, que o fazia arrepender-se e parar no caminho. E êle revia então, em num furor pueril, que lhe punha asas nos pés, a insistência piégas da rapariga.―Tam longe êle estava agora de semelhante coisa!―Três dias havia que não sabia dela, buscando insensivelmente furtar-se e fechar impunemente o ciclo de mais esta fugaz aventura com o sêlo cómodo do olvido.―Por que era uma maçada, no fim de contas, a peganhice infantil dessa seresma! Bôa rapariga, não havia dúvida... Mas tambêm as môças que êle, na sua terra, tivera a sorte de arrastar a uma torpêza igual, eram bôas como esta... e mais dóceis, mais razoáveis. Sabiam medir distâncias, compreendiam a situação. A breve trecho, eram elas as primeiras a anular-se... voltavam ao que eram e não o importunavam mais, conformavam-se sem lamúrias e deixavam-no em descanso. Ao passo que agora esta carraça... Em má hora lhe tinha acudido!―E a biltraria recôndita do seu ânimo fortalecia-se. Erguia a cabeça com jubiloso arreganho e caminhava mais apressado. Porêm a espaços, não obstante, se num claro de grata recordação a sua alma evocava a cândida imagem de Luísa, crescia-lhe súbito no íntimo uma onda de condoída ternura, que o envolvia, que o abrandava, que o fazia arrepender-se e parar no caminho. E êle revia então, em todo o seu incondicional abandôno, em tôda a sua rústica simpleza, essa esplêndida flôr do campo, a tinta ardente da sua epiderme, o alçapão de desejos que era a sua bôca, o lume de paixão espirrante dos seus olhos cheios de fogo... e pensava.―Talvez que esta sentisse mais e melhor que as outras... Valeria mais que tôdas!
Esta quáse palpável evidência perturbava-o. Já perdia a noção exacta do rumo que levava. Entrou no vestíbulo do
Royal
, tomando-o por o
Palace Théâtre
; e por êste passou desgarradamente, uma e duas vezes, antes de reconhecê-lo. Pesava-lhe na alma essa obsidiante luta interior entre o apiedado alarme da sua consciência e a farta repulsão do seu desejo......
NOTA FINAL
Abel Botelho, o artista ilustre que às letras do seu país legou tantas páginas de inspiração e de beleza, não teve tempo de concluir o romance
Amor Crioulo
, escrito longe da sua terra e da sua gente mas sempre com a imaginação e os olhos postos na Pátria distante. A morte colheu-o de súbito, paralisando para sempre a mão augusta que tam activamente lidou e a lúcida inteligência que nunca se fatigou de combater, durante meio século de esfôrço permanente e fecundo, para atingir um ideal de perfeição suprema.
Analista subtil do coração humano, psicólogo, moralista pelo castigo áspero do sarcasmo, Abel Botelho desceu a profundidades poucas vezes exploradas antes dêle, tentando imprimir uma utilidade social à sua arte. A vasta obra que nos deixou e em que a sua alta personalidade se perpetuará, tem de ser tomada como uma lição, mesmo nos seus aspectos de mais cru realismo e na sua mais cruel expressão―que fazem dela um flagrante documento da época e do meio em que foi elaborada. Vista em conjunto―que é como deve ser julgada pelos espíritos imparciais―há-de necessáriamente reconhecer-se-lhe um mérito estético e moral.
Os derradeiros capítulos que compôs, com tanta ternura e tanto relêvo artístico, foram estes do
Amor Crioulo
, que os seus Editores hoje lançam aos alaridos da publicidade para que nada se perca de tudo quanto o romancista excelso produziu. O livro ficou incompleto. Todas as pacientes buscas encetadas, para se encontrar a parte final, em Lisboa, onde Abel Botelho tinha a sua casa, e em Buenos-Ayres, onde êle era o representante diplomático do Governo da Rèpública Portuguesa, foram infrutíferas. A doença inesperada interrompêra, certamente, o trabalho do escritor insigne, que a morte não tardaria a eliminar da comédia da existência. A acção do romance estava em pleno desenvolvimento quando o braço do seu autor caíu desfalecido. Adivinha-se, no entanto, o desfecho do
Amor Crioulo
pela leitura dos coloridos, nervosos e movimentados episódios em que a sua tessitura se desenha vigorosamente e o conflito sentimental se estabelece.
Publicando-o tal como lhes foi entregue, os Editores contribuem com novos e valiosos subsídios para o estudo e para a crítica da individualidade de Abel Botelho que, na moderna literatura nacional, se afirmou com nobre superioridade. A Escola realista entre nós poucas figuras mais elevadas possue. Abel Botelho era um pintor por vastas massas, dispondo duma paleta muito rica, um minucioso observador da vida que à sua volta desenrolava maravilhosos scenários e que êle reproduzia com surpreendente fidelidade e um justo conhecimento dos tons e dos valores.
Foi, em todo o caso, lamentável que não terminasse êste volume póstumo―porventura aquele em que pôs mais devotado carinho, mais emoção, mais orgulho de raça, e que, mesmo fragmentado, o denuncia como uma entidade representativa. Nem ao menos pôde corrigir as provas em que os escritores da sua rara estírpe dão sempre os últimos retoques de graça, de harmonia, de equilíbrio e de luz. A elevada honra dessa tarefa foi-me confiada a mim, procurando eu desempenhá-la o melhor que me foi possível e suprindo pela vontade de acertar o que me falta em competência. Qualquer êrro que no texto apareça terá, portanto, de me ser imputado, e não ao escritor modelar que tanto dignificou a sua nacionalidade nos luminosos domínios do pensamento e da arte.
Pôrto, 28 de julho de 1919.
João Grave.