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A Velhice do Padre Eterno

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Quando eu morrer abram-me o peito E d'esta jaula, onde houve um leão, Tirem, o carcere era estreito, Meu velho e altivo coração. Depois sem dó e sem respeito, Sem um murmurio de oração, Lancem-no assim, vai satisfeito, Á valla obscura, á podridão, Para que durma e se desfaça No lodo amargo da Desgraça, Por quem bateu continuamente, Como um tambor que entre a metralha Estoira ao fim d'uma batalha, Rouco, furioso, ancioso, ardente!

Nota

Em seguida á

morte de D. João

comecei a escrever um novo poema―

A Morte do Padre Eterno

,

[1]

cujo plano completo, até aos minimos detalhes, estava de ha muito elaborado no meu espirito.

Mas em torno d'esta ideia principal germinou um grande numero de ideias acessorias, d'onde nasceu um livro novo

A Velhice do Padre Eterno

, collecção de 50 poesias, que são 50 balas que, partindo de diversos pontos, vão todas bater no mesmo alvo.

Em 1879 estava adiantada a

Morte do Padre Eterno

e quasi concluida a

Velhice

.

Uma enfermidade de quatro annos successivos interrompeu a obra.

Volvendo a saude, voltou o trabalho. O trabalho nasce espontaneamente da alegria, como um fructo nasce

espontaneamente

d'uma flôr.

Publico hoje o 1º volume da

Velhice do Padre Eterno

. O 2.º, já na imprensa, sahirá a luz com brevidade. No 1.º volume predomina a satyra, no segundo a epopeia. Os dois completam-se. A critica, só reunidos, os poderá julgar inteiramente.

Creio, se a saude me não faltar, que a

Morte do Padre Eterno

dentro de um anno estará impressa.

E depois de morto D. João e morto Jehovah, resta-me resuscitar Jesus e desagrilhoar Prometheu.

Esse ultimo poema, o

Prometheu Libertado

, será o fecho da trilogia, o complemento da minha obra.

Terei os annos de vida necessarios para escrever esse livro? Não sei; no entanto rogo a Deus do fundo da minha alma que me deixe terminar com um hymno de esperança e de harmonia uma batalha de coleras e de sarcasmos.

O plano está concebido ha muito. A ideia é simples e creio que bella. A primeira parte é a epopeia do Trabalho, a glorificação de Prometheu pela humanidade e pela natureza.

Na segunda parte de Jesus Christo, levantando-se do seu tumulo, vem fulminar o abutre e desacorrentar Prometheu.

O heroe é libertado pelo santo. A crença e a sciencia, a rasão e a fé, depois d'um combate do milhares de seculos reunem-se finalmente n'uma paz luminosa, n'uma communhão indestructivel.

A liberdade de Prometheu significa o desaparecimento de todas as tyranias, e a resurreição de Jesus a morte de todos os dogmas. Um é a justiça humana, e outro a aspiração immortal para uma justiça absoluta. O Caucaso e o Golgotha ficam sendo para a humanidade os dois grandes altares da religião eterna Futuro!

Julho―1885.

Guerra Junqueiro.

Notas

[1]

A Morte de Jehovah

era o titulo primitivo.

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