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A Revolução Portugueza

Fixa-se a data do movimento e approva-se o plano definitivo

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Dias depois, começou a correr a noticia de que os navios de guerra iriam para Cascaes no começo de outubro e o almirante Candido dos Reis, conferenciando de novo com o Directorio e o comité militar, ponderou-lhes a urgencia na fixação d'uma data para a revolta. Por outro lado, o comité de resistencia, conferenciando egualmente com o Directorio, expôz-lhe claramente a situação e a impreterivel necessidade de a liquidar. O Directorio pensou, e muito bem, que, embora estivesse prompto a sanccionar a tentativa revolucionaria, precisava obter a garantia de que o movimento, a realisar-se, não se desenrolaria anarchicamente, mas sim com uma disciplina e uma ordem honrosas para a collectividade democratica. Combinou-se então confiar essa affirmação decisiva a um arbitro e o Directorio acceitou Candido dos Reis n'esse posto de enorme responsabilidade moral. É justo accentuar que tal exigencia do Directorio não representava desconfiança nos trabalhos do comité de resistencia. Em cada um dos membros d'essa organisação republicana, como em cada um dos membros do comité, havia a convicção inabalavel de que o movimento se iniciaria apesar de tudo e com probabilidades de exito. A mais rudimentar prudencia, porém, aconselhava que se averiguasse bem fundamente do estado dos elementos revolucionarios dispostos ao combate e que n'um balanço seguro de forças se baseasse a resolução definitiva do assumpto. N'outra reunião effectuada no Centro de S. Carlos, Candido dos Reis proferiu perante o Directorio a sua sentença arbitral.

—Individualmente, disse elle, eu, Candido dos Reis, simples soldado da Revolução, entendo que mesmo anarchicamente ella deve fazer-se dentro d'um curto praso. Não podemos admittir que a monarchia continue a achincalhar-nos. Como arbitro, affirmo que, embora o movimento seja mal succedido, não envergonhará, na derrota, o partido republicano.

Perante esta opinião, expressa energica e categoricamente, o Directorio decidiu sanccionar a tentativa, dar-lhe, digamos assim, um caracter official.

É interessante recordar que n'essa occasião em que o almirante Candido dos Reis manifestava a sua opinião technica ao Directorio do partido republicano, um dos organisadores do movimento fez-lhe ligeira observação sobre as probabilidades de triumpho. O almirante endireitou o busto e n'um tom de voz que não admitia replica exclamou:

—Se me julgasse incapaz de assumir o commando das forças de marinha e de as conduzir á victoria, dava um tiro na cabeça!...

Isto explica até certo ponto o mysterio da sua morte, na madrugada de 4 de outubro, á hora exactamente em que principiava a ferir-se o primeiro combate serio entre as forças revoltadas e os elementos militares de que a monarchia até então ainda dispunha. Mas, não antecipemos considerações sobre o fim tragico do almirante, visto que a elle teremos de fazer referencia áparte.

A 30 de setembro, estando já resolvida a tentativa de revolta, um dos membros do Directorio perguntou a Candido dos Reis qual a data que se devia escolher para o estalar da bomba. Resposta do almirante:

—Os acontecimentos é que hão de fixal-a.

Essa data, no emtanto, não podia ser outra senão a de 4 de outubro, pois que n'esse dia de manhã os barcos de guerra tinham ordem de mudar de fundeadouro. A madrugada de 4, isto é, momentos depois de terminado o banquete no paço de Belem, offerecido ao marechal Hermes da Fonseca, estava naturalmente indicada para o começo da insurreição. De resto, muito embora Candido dos Reis em 30 de setembro houvesse falado do caso pela fórma vaga que acima registamos, verdade é que, dois dias antes, no espirito do almirante já tinha perpassado a data de 4, apontando-a até n'uma reunião a que presidira no dia 28 d'aquelle mez. Essa reunião fôra convocada especialmente para o comité de resistencia ouvir do comité militar as indicações que, sobre a revolta, se lhe offerecesse apresentar.

José Carlos da Maia

José Carlos da Maia
José Carlos da Maia

No dia 1 de outubro, o engenheiro Antonio Maria da Silva e Machado Santos reuniram-se no café Martinho e o primeiro, depois de communicar a opinião de Candido dos Reis, de que o movimento se devia iniciar quanto antes, ficou incumbido de prevenir os officiaes de marinha revolucionarios para uma nova reunião de elementos militares no dia seguinte, ás 4 da tarde, em pleno Chiado, no consultorio do dr. Eusebio Leão. Era o dia 2, o dia marcado para a grandiosa manifestação que, diga-se de passagem, não serviu apenas ao presidente dos Estados Unidos do Brazil para avaliar com nitidez da expansão da idéa democratica entre nós e para desfazer a má impressão provocada, á sua chegada á capital, pelo rapto imaginado e posto em execução pelo governo regenerador, mas tambem para esclarecer os mais scepticos dos conspiradores sobre o estado d'alma do elemento civil. Os milhares de manifestantes que na tarde do dia 2 de outubro se agglomeraram em frente do paço de Belem e nas arterias proximas mostraram bem claramente aos organisadores do movimento que a Republica Portugueza era um facto e que a monarchia se equilibrava a custo n'uma base tradicional, roída pela propaganda da liberdade e pelos vicios inherentes ao antigo regimen.

Á reunião do Chiado compareceram uns quarenta officiaes. Entraram á formiga no consultorio do dr. Eusebio Leão, emquanto, cá fora, na rua, Innocencio Camacho, José Barbosa, Simões Raposo e outros revolucionarios civis vigiavam attentamente pela segurança dos conspiradores militares. Na reunião, os quarenta officiaes tomaram o compromisso solemne de se insurreccionar, estabeleceram a senha e o signal de reconhecimento, cuja transmissão aos chefes de grupos populares seria feita por Miguel Bombarda e depois de terem fixado definitivamente a madrugada de 4 de outubro para o começo da Revolução, assentaram tambem decisivamente no plano de combate, modificando n'alguns pontos o plano anterior, porque os militares não queriam fornecer armas aos civis, receando desmandos e vinganças pessoaes. Ficou por isso entendido o seguinte:

Engenharia, infantaria 5 e caçadores 5, sahindo dos seus quarteis, dirigir-se-hiam para o Rocio, mandando-se depois a infantaria atacar o quartel do Carmo, para obstar á sahida da municipal. Parte da marinha desembarcava no Terreiro do Paço, apoderando-se do telegrapho e apoiando as forças que deveriam estacionar no Rocio. Infantaria 2, caçadores 2 e marinheiros do quartel d'Alcantara e parte da marinha dos navios cercava o palacio das Necessidade para prender o rei. A artilharia dividia as suas forças em duas fracções. Uma ia reunir-se a caçadores 2, ao palacio das Necessidades e outra seguia para o largo de S. Roque, apoiando as forças do Rocio e impedindo a communicação da guarda municipal pela rua do Alecrim e praça Luiz de Camões. Os grupos civis, por sua vez, com bombas e granadas de mão impediam em diversas ruas da cidade que as forças da municipal evolucionassem para o ataque ás forças revoltadas.

A senha e o signal de reconhecimento eram Mandou-me procurar?... Passe, cidadão. Candido dos Reis insistiu muito em que se adoptasse Mandou-me procurar? em vez de Mandou-me chamar? por ser menos crivel que um profano empregasse a primeira phrase de preferencia á segunda.

Ás 5 da tarde, Innocencio Camacho foi ao consultorio do dr. Eusebio Leão e, logo que a reunião terminou, cêrca das 6, fechou a porta do consultorio e seguiu para o Rocio a encontrar-se com José Barbosa afim de lhe dar conta do que os quarenta officiaes, em ultima analyse, haviam resolvido. Esqueceu-nos dizer que na mesma reunião se decidira que o quartel general do comité executivo de Lisboa e dos membros do Directorio seria installado no estabelecimento de banhos de S. Paulo.

O dia 3 de outubro, uma segunda feira, amanhece prodigamente beijado pelo sol. Todos os jornaes salientam a imponencia da manifestação da vespera e o povo republicano prepara-se para repetil-a d'ahi a vinte e quatro horas, quando o marechal Hermes da Fonseca, encaminhando-se para bordo do S. Paulo, fizer na Camara Municipal as suas despedidas á cidade de Lisboa. Projecta-se assim uma segunda parada das forças democraticas, tão brilhante como a do dia 2, tão enthusiastica, tão vibrante de commoção, tão anciosa de liberdade.

Antes do almoço, o marechal Hermes da Fonseca visita a Sociedade de Geographia. É no regresso do illustre brazileiro ao paço de Belem que a noticia tragica, a noticia sensacional, começa a circular primeiro nas redacções dos diarios vespertinos e depois nos cafés, nos ajuntamentos das ruas. «Um attentado contra o dr. Bombarda ... um louco desfechou sobre elle tres tiros de pistola....» E a opinião alarma-se, a opinião agita-se, um fremito de espanto e de pavor convulsiona d'um extremo ao outro a capital, os jornaes são positivamente assaltados por creaturas desejosas de saber pormenores, e em frente dos placards agglomera-se uma massa rumorejante, que ao dispersar lamenta sincera e doridamente o succedido.

A caminho do hospital de S. José, para onde o ferido se fizera elle proprio transportar, vae longa fila de intimos e de correligionarios. Os primeiros que ouvem do dr. Bombarda a narração do attentado são, depois dos seus collegas no corpo docente da Escola Medica, os srs. drs. Brito Camacho e João de Menezes. O mallogrado professor fala-lhes sereno e tranquillo e descreve sem a menor difficuldade como o caso se deu. Estava no gabinete de consultas de Rilhafolles e o creado annunciou-lhe a visita d'um antigo pensionista do hospital, o tenente de estado maior Apparicio Rebello. Mandou-o entrar e assim que o teve em frente da sua secretaria, manifestou-lhe, n'uma phrase amavel, a sua surpreza por vêl-o restabelecido. O tenente não disse palavra. Tirou do bolso do casaco uma Browning—este systema de pistolas vulgarisou-se em Portugal com o 28 de janeiro e o regicidio—e alvejou o dr. Bombarda primeiro no peito e a seguir no ventre. O eminente psychiatra ergueu-se corajosamente da cadeira e ainda conseguiu deitar as mãos ao aggressor. Mas este continuou a desfechar e só quando um dos guardas de Rilhafolles o subjugou é que o dr. Bombarda poude dirigir-se á porta do hospital e metter-se no mesmo trem que ali conduzira o tenente, ordenando ao cocheiro que o levasse sem demora ao banco de S. José.

Examinado por tres dos seus collegas, resolve-se a soffrer uma operação dolorosa. É o ultimo recurso á sciencia, recurso, aliás, de successo problematico. Mas, antes, o dr. Bombarda tira do bolso uns papeis e queima cuidadosamente um d'elles. É a lista da organisação civil da revolta que não tarda a estalar, o registo das forças populares que dentro em pouco serão chamadas a collaborar na implantação da Republica. Ainda na vespera, ao concluir uma reunião de conspiradores, o grande propagandista liberal pedira esse papel ao sr. Simões Raposo, justificando o pedido d'este modo:

Embarque da familia real na Ericeira

Embarque da familia real na Ericeira
Embarque da familia real na Ericeira

—Eu guardo-o, porque estou menos arriscado que você a ser preso. Mesmo no caso d'uma busca policial a Rilhafolles, escondo-o facilmente nas folhas d'um livro da minha bibliotheca.

E o sr. Simões Raposo concordara com o alvitre porque, tendo secretariado desde o começo dos trabalhos o comité de resistencia, conservara de memoria tudo o que o papel dizia e de um instante para o outro recompol-o-hia sem grande difficuldade. Mas, prosigamos na narrativa dos tragicos incidentes de 3...

Feito o singelo auto de fé, o sabio professor volta-se para os operadores e colloca-se á sua inteira disposição. O trabalho dos cirurgiões é demorado e extenuante. Dura longos minutos, porque os projecteis da Browning perfuraram violentamente os intestinos e ha o justo receio de uma peritonite fatal. Cá fóra, nas immediações do hospital e da Escola Medica, a multidão de curiosos engrossa a olhos vistos. Os placards augmentam de momento a momento a anciedade do publico com as informações sobre o estado do enfermo.

Ao cahir da tarde, não ha esperanças de o salvar. A opinião corrente é de que o criminoso foi suggestionado pelo clericalismo. O dr. Bombarda combatera desde annos distantes a reacção e o fanatismo e aventa-se a hypothese de que elle succumbe a um manejo cruel d'esses seus dois inimigos. A excitação popular é tão intensa que um padre, no Rocio, passa um mau bocado, só porque alguem lhe ouviu dizer a respeito do attentado:

—Foi bem feito!... Não se perde nada.

No Chiado e na Avenida da Liberdade ha correrias da policia, tentando inutilmente abafar essa colera surda que estremece em ondas ameaçadoras. De grupo para grupo, faiscam exclamações de desespero. Pensa-se abertamente n'uma desforra retumbante. O povo liberal, que a essa hora ainda não sabe que um grupo de homens decididos resolveu fazer dentro de pouco a Revolução, prepara-se expontaneamente para qualquer coisa que o attentado decerto provocará. Os mais impulsivos gritam ás escancaras:

—Ah! os clericaes querem guerra!... Pois tel-a-hão!

Ninguem duvida. O assassinio do dr. Bombarda vae ser o ponto de partida para uma lucta sem treguas entre liberaes e reaccionarios, tanto mais accesa quanto é certo que o governo regenerador anda a burlar a opinião, fingindo satisfazer-lhe as reclamações no tocante á expulsão dos congreganistas de Aldeia da Ponte e do Barro.

Ás seis e minutos, o eminente democrata exhala o ultimo suspiro. Mas, facto extranho: n'esse momento de verdadeira crise, quando se suppõe que a agitação popular vae assumir um caracter gravissimo, aquecida ao rubro pela noticia da morte, na atmosphera da cidade como que perpassa uma voz mysteriosa mas incisiva, recommendando socego e prudencia. Alguns jornaes republicanos recebem mesmo indicações n'esse sentido. Nada de placards que enfureçam o povo: nada de titulos berrantes que augmentem o alarme e a indignação. Calma, muita calma... energia, sim, mas sem furia. A Revolução está á porta. E, se o governo monarchico se assusta com a attitude hostil do povo... toma as suas medidas de precaução e embaraça, ainda que inconscientemente, a eclosão do movimento.

Entretanto, os organisadores da revolta escoam-se silenciosamente por entre a multidão, dando a ultima demão aos preparativos. Previnem-se amigos e companheiros do ideal, chamam-se urgentemente a Lisboa os conspiradores que dias antes se tinham ausentado da cidade, ha conciliabulos rapidos em diversos pontos, os chefes de grupo são convocados para o Centro de S. Carlos a receberem armas e instrucções. A esta reunião devia presidir o dr. Bombarda... O dr. Bombarda, estendido n'um leito de morte, é substituido pelo sr. Simões Raposo. O material revolucionario, que até então estivera quasi todo abrigado sob as vistas cautelosas do sr. Martins Cardoso, é canalisado para aquella aggremiação, a dois passos da policia e sem que a policia dê por isso. Os massos com revolveres entram, sem recato, sem precauções, no edificio... Nas salas do Centro allude-se ao movimento em tom tão claro e expressivo que um dos revolucionarios que estaciona no largo, em frente do theatro lyrico, galga apressadamente as escadas, a recommendar maior discreção:

—Falem mais baixo!... Na rua ouve-se tudo...

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