OS CANTOS DE ABRIL IDILLIO.
Reading edition
O mais deslavado e insôsso Poemetto na primeira edição, erão Os Cantos de Abril. Só a invenção fôra boa; na execução e estilo revia um tão contínuo desprimor, que me foi necessario demolir e reedificar. Por tanto, com o mesmo titulo he obra diversa, muito melhor, mas não perfeita, porque ja para a emenda da emenda não chegou a paciencia.
DEDICATORIA A MEU PAI.
He a educação o maior prezente que de homem se pode haver. Vós, meu Pai, fizestes mais do que educar-me: superior a uma preoccupação tão geral quão perniciosa, vistes nascer o meu engenho poetico e não o destruistes, viste-lo crescer e não o contrastastes, senão que antes lhe déstes amparo, bafo e desvelos. Eis aqui por tanto um reconhecimento da minha gratidão.
Oxalá possão estes versos, que me afouto a vos offerecer, agradar-vos tanto, como os Cantos de Abril, no silencio da noite e debaixo do parreiral da cabana, agradárão ao bom Menalca.
ADVERTENCIA.
Notar-se-ha que por todos os Poemettos d’este livro se dão sempre versos á infancia, e n’este Idillio tem ella não uma parte, nem a principal, senão o todo: se o porque, pode importar a alguem, agora lho direi brevemente.
Parece-me um Menino, de todas as couzas graciosas que Deos fez u graciosissima. Aquelle ajuntamento e consonancia de tantos dotes; formosura, d’elle proprio nem buscada nem sabida; graças que lhe ninguem ensinou; singeleza e candura; alegria, fraqueza, innocencia; e muito afféto, e muito mostra-lo; e total descuido do porvir; e não o temer nada; e a poesia particular do seu dizer; e a sua grammaticazinha natural que a nó nos faz rir, couzas são estas que apoz si me levão esquecido e encantado. No trato d’estes botões da humanidade, que vem abrindo, parece-me, e ja pareceo a muitos, poderem-se lucrar boas vantagens: ja não fallo em seu bondoso contentamento que talvez se pega, e na felicidade de recobrarmos horas de meninice, imitando-os, sem saber, a elles, como elles nos imitão a nós; fallo porem no muito que o nosso espirito se acostuma então a estremar o bom do máo, e a joeirar cá dentro o puro do impuro, para nem por sonhos profanar o que das mãos da natureza saío e se conserva santo. E demais, um Menino não sabe nada, quer saber tudo, e por tudo nos pergunta: ¿não he isso estar-nos pondo a caminho de muitos descobrimentos de verdades e relações das couzas, que nunca aliás por nossa preguiça ou descuido fariamos?—Muitas pessoas vejo, e faz-me pena, desamarem as creanças, despreza-las, havê-las por menos de gente, tolher-lhes as fallas, as obras de sua idade, e Deos sabe se tambem o entendimento: eu por mim, quero-lhes muito, porque entendo que excedem em valia aos seus desprezadores, e sinto que a mim me levão grande vantagem em bondade e ventura. De um ajuntamento esplendido mil vezes tenho fugido para elles: no campo, melhor que em nenhuma outra parte, saboreio esta doçura a meu contento. Todos os pequenos das aldeas em que tenho estado me conhecem, e sei que são meus amigos: apinhão-se-me ao redor em me vendo; invento jogos, historias ou conversas para elles; divirto-os, divertem-me; uns com outros, e uns de outros aprendemos.
Erão horas bem doiradas essas de minha vida, como as ja tivéra João Jaques, como as terão tido muitos, e como as poderáõ ter quantos as dezejarem.
Lisboa: 7 de Janeiro de 1837.
OS CANTOS DE ABRIL IDILLIO.
Por um serão de Abril suave e ameno, Menalca, a bella Dafne, e seus trez filhos, Estavão-se a folgar ante a cabana. Por entre as parras do sonoro alpendre A mansa lua chêa se enlevava, Espreitando esta rústica familia. Menalca erà ja velho: os justos Deozes, Querendo premiar lhe a larga vida Passada em os amar e amar aos homens, De Citheréa ao Filho havião dito: “Filho de Citheréa, entrega Dafne Por esposa na Menalca, a fim que o velho Remoce, vendo ao lar a mocidade, E a virtude que tem o alegre em outrem.” Amor nem sempre aos Deozes obedece, Porem amava a Dafne; entrançou logo A florente cadêa, e vendo-os prezos, Tanto a si mesmo do que fez se aprouve, Que ficou sempre entre elles na cabana. “Filho de Citheréa, accrescentárão Depois os Deozes, da-lhe o teu retrato Em filhos, e uma filha irmã das Graças, A fim que em seu crepúsculo da tarde. O velho inda se alegre, e abrace esp’ranças: Da-lhe prole, o fada-la a nós pertence.” E Amor lhe déra prole, dois meninos Seu retrato, e uma filha irmã das Graças. Ja rosas de abril decimo florecem No semblante de Silvia; um anno a vence Titiro; e vence a este um anno Alexis. Menalca, em juncos molles estendido, Tem da esposa no candido regaço Como em ninho amoroso a branca fronte: Pelas feições transpira-lhe bondade; O mistico luar o diviniza. Dafne o contempla muda, e niveos dedos De afagar umas cãs sentem vaidade. Elle a querida mão colhe entre as suas, Beijada a achêga ao rosto, os fracos olhos Derrama pelos céos alumiados, E fitando-os na lua “Olhai, meus filhos, Olhai, disse elle, como brilha a lua! Que suavidade e paz não côa ao largo O astro das noites! como attráe da terra Nosso espirito humilde a pensamentos De outro mundo melhor, mansão de Deozes! Que esp’ranças, de saudades misturadas, Não traz a pura noite ás almas puras! Dias que em vão suspiro, amenos dias Da minha mocidade...! agora jazo Como arvore das folhas despedida, Que mais não florirá, porque o machado Ja lhe abrio marca para se ir ao fogo. Então era eu cantor chamado ás festas, E afamado por longe entre os cantores Na frauta e no rabil, porque os meus cantos Erão sempre á Virtude e á Natureza. Por uns serões assim, como acodião Todos a ouvir-me! As Ninfas era fama Que descião do bosque, e pelas sarças Vinhão pôr mais de perto o ouvido á escuta: E os ventos se detinhão, recostados Aos duros troncos, sem bolir co’os ramos. Té dizião que a frauta, em que eu tangia, O benevolo Pan ma déra em sonhos. E ora jaz, annos ha, de pó coberta! Em tôrno ao meu fogão ja não se apinhão Os pegureiros a aprender-me os cantos, Meu cabello nevou, nevou minha alma. Ah! se não fosseis vós, Dafne, meus filhos, Vivido tenho assaz, pedíra aos Numes Tornar a ver meus pais n’outras cabanas, Onde he perpetua a luz, e a eternidade Uma estação de musicas e flores. Quando eu la renascer á vossa espera, Á tua espera ó Dafne, á vossa ó filhos, Resurgirá comigo a minha frauta; E com ella enganando aquella ausencia, Penosa até no Elisio, em versos novos Louvando os Immortaes, e eterno eu mesmo, Pedir-lhes-hei comtudo que só tarde Vos levem para mim; que vos derramem De virtudes e bens copiosas bençãos Sempre n’esta cabana, onde hei nascido; E que no meu sepulchro o passageiro Diga parando—Ó bom pastor Menales, Leve te seja a terra, e tu contente Porque os teus filhos te excedêrão todos.” Aqui sentio caír na fronte calva Uma calada lagrima, e doeo-lhe Ter nublado o prazer de seus Penates. Senta-se, alegra o rosto, enchuga os olhos; E unindo ao seio a esposa “Ouvi meus filhos:” O cantar diz co’a noite, agrada á lua, Contenta á vossa mãi. Cantai louvores D’este suave Abril; nunca em meus versos Deixei de o celebrar, quando era moço. Os pastores de outr’ora Abril sagrarão A Venus, graciosa Mãi de tudo. Vede-a n’aquella estrella estar sorrindo; As glorias do seu mez são glorias d’ella. Alexis, principia, eu te acompanho Co’a tua mesma frauta; os sons da frauta Dão como vida ás solidões da noite. Seja a toada a que inventei (quão lédo!) No dia que nasceste, e a nossos olhos Se doirou de alegria esta cabana: Bem a sabes, começa, e Pan te ajude. ALEXIS. Eu amo o verde Abril, porque he formoso, Todo está chêo de arvores vestidas. TITIRO. Eu amo o alegre Abril, porque he sonoro; Vem cantado por bandos de avesinhas. SILVIA. Eu amo o rico Abril porque he cheiroso, Espalha em cada prado um mar de flores. ALEXIS. A folhagem traz sombra, as sombras trazem: Seus folgares da sésta á gente grande, E a nós para brincar franca licença. TITIRO. As aves são dos ares alegria; Chamão na madrugada os preguiçosos, E divertem na lida aos lavradores. SILVIA. Flores dão côr á terra, e cheiro ás auras; Flores são mãis da fruta; os Deozes rindo As crearão, e rindo acceitão flores. ALEXIS. O Pan que está na gruta do arvoredo Não pára senão lá, por mais que o mudem; Sinal que um bosque e a sombra apraz aos Deozes. Tudo ali he formoso á maravilha! Por baixo a fresquidão, por cima o verde; A terra de reflexos variada; O této sonoroso e movediço; Mais alto, o ceo azul, dado ás amostras. E que direis do rio entre arvoredos? ¿Como se pintão na agua aquellas folhas, E o vento que as revolve, e as pombas alvas Pelos ramos, e um sol desfeito em muitos? Parece que no fundo do remanso Tem Pan outro arvoredo, igual em tudo. Quando hoje eu lá passava, a Pan dei graças, Porque achei que um tal sítio encantaria Ó meu Pai, teus passeios solitarios. TITIRO. Fonte como a das Náiades nenhuma: Cantão-lhe em volta passaros sem conto; Sinal que o bando alado apraz ás Ninfas. Por ali me regala ir espreitando Tantos ninhos por entre tantas folhas. Admiro a perfeição d’aquelles berços, E o tino com que os pobres de uns brutinhos Os souberão livrar a soes e a chuvas: Aqui uma avezinha inda sem pennas, Outra a romper da casca; alem uns ovos Branquejão d’entre o musgo, e ja palpitão; Se os tóco, sinto dentro o passarinho, E fujo com temor que a mãi o engeite. ¡Ver as mãis vir do pasto alvoraçadas, Darem o almoço aos filhos que pipilão, E co’as azas e peito agazalha-los! E ver logo os maridos tão contentes A gorgear-lhe á roda! o porque o fazem Mal sabeis vós; cuidais que he diverti-las! Oh que não: he ja dar lições e exemplos De canto aos filhos seus: não de outra sorte O nosso pai nos ensinou seus versos. SILVIA. C’roas frescas de rosas cada dia De Citheréa ás portas amanhecem; Sinal que a Citheréa aprazem flores. Todo o anno era Abril se eu fôra a Deoza! Nunca no meu altar e ás minhas portas Faltarião montões de flores frescas. Todas só para ti as cobiçava, Ó minha mãi: com ellas te enfeitára Cada hora do dia; cada noite As renovára ao leito onde tu dormes; Não porias teus pés senão em flores. Se o passageiro ás vezes me pergunta, Quando me encontra á borda do caminho, “Quem he a tua mãi?” eu lhe respondo Chêa de gloria “A minha mãi he Dafne!” Hontem de tarde o graciosa Amintas, O pobre guardador das duas cabras, Quando o meu pão lhe dei pedio-me um beijo, Chamou-me bella, e disse que o meu rosto Era como o de Dafne, ou como as rosas. Sendo assim, bella sou, que outra pastora Igual a minha mãi não ha na aldea, Nem flor em todo o mundo irmã da rosa. ALEXIS. O vizinho Milão, que hoje he tão rico, Não tinha mais que uma arvore, e de terra Só quanto aquella sombra lhe cobria. “Corta-a Milão, dizião-lhe os pastores, Alegras teu campinho, e terás lenha Para aquecer a choça um meio inverno”— —“Eu? respondia o triste, eu pôr machado Na boa da minha arvore? primeiro Me falte lume alheio o inverno todo, Que eu mate a que a meu pai ja dava séstas; A que de meu avô me foi mandada, Que a não poz para si; e a que nos braços Me embalou tanta vez sendo menino. Os Deozes a existencia lhe dilatem, Que assim lhe quero eu muito, e o meu campinho Produza o que podér, que eu sou contente.”— Sorrião-se os pastores; o carvalho Cada vez mais as sombras estendia, E Milão de anno em anno hia a mais pobre. Lembrou-lhe um dia, em bem, que uma videira Plantada a par com o tronco, o enfeitaria, E os cachos pendurados pela cópa Lhe darião tambem sua vindima: E eis que ao abrir a cova, acha um thesouro! Desde então ficou rico, e diz-me sempre, Que os Deozes immortaes lhe hão dado em prémio Por amar suas arvores. He elle Quem mas ensina a amar, são d’elle os versos, Com que ao bosque de Pan cantei louvores. TITIRO Deozes, tocai o peito de Mirtilo Porque não sáia máu quando fôr grande. Hoje, entrando na mata, o vi la dentro Andar armando aos passaros. Que pena, Disse em mim; não ser passaro um momento; Não poder ir correndo o bosque aos pios, E dizendo em cada arvore “Cautella Meus irmãozinhos do ar; vejo inimigo; Não saiaes; o inimigo anda no bosque...!” Paciencia, assim mesmo hei de acudir-lhes. Vou-me por entre as moutas rastejando Até ao ouco e immenso castanheiro, Que abre em seu tronco uma portada de heras, E se nomêa a casa de Silvano. Trepo, e dentro me escondo: os meus vizinhos Lá por cima na cópa papeavão, Cuido que adivinhando o que eu faria. Encósto a boca á fresta carcomida, Que está fronteira ao portico da entrada, E clamo em rouca voz “Pára Mirtilo.” Parou, ergueo-se, e poz-se a olhar em roda; Vendo tudo em socego ás redes torna. Com voz mais estrondosa e mais horrenda, Torno-lhe eu a bradar “Mirtilo pára.” Não esperou terceira: arroja tudo, Salta, vôa; oh que riso! uns echos fêos Lhe hião gritando apoz “Mirtilo pára.” Somio-se; á terra pulo, espreito o mato, Acho as redes, os presos sólto, os mortos Levo-os onde ôlho de ave os não descubra: Encho-as de pedras, na torrente as lanço, E corro a procura-lo—“Oh tu não sabes, Lhe digo, de que morte escapo agora! Não te engano, era um Deos, vi-o eu, rangia Os dentes, bracejava uma alta fouce, Vinha a saír das sombras do arvoredo; Vio-me e gritou me “Pára” eu páro e chóro. —“Es tu que andas armando ás minhas aves? Pois eu vou dar-te o ensino; as tuas redes Ja te lá vão por esse rio abaixo, E agora has de ir tu morto á caça d’ellas.”— E então vem para mim, co’a fouce aos lanços Cortando pelo ar—“Bom Deos, perdoa, Lhe grito a soluçar co’as mãos erguidas, Eu sou Titiro, o filho de Menalca, As tuas aves amo, e temo os Deozes: Eu redes, eu caçar!”—“Estou perdido! Disseste que eu ... Mirtilo me interrompe.” —“Não, Mirtilo, socega, eu não lho disse, Nem sabia que tu ... fallemos baixo Que nos não ouça o Deos. Olha, este p’rigo Passou, mas outra vez não te aventures, Que eu bem sei como o vi, não te perdoa. Deixa ás pobres das aves innocentes Divertir-te e cantar; nada mais querem; Não tens razão, não teus de as perseguires. Quanto ás redes, eu quero consolar-te: Ouve Mirtilo, acceita este cestinho De cana entretecida em juncos verdes, E este meu cajadinho em boa altura Liso, airoso, e sem nós.”—Assim dizendo, Enfiei-lhe no braço o meu cestinho De cana entretecida em verdes juncos, E entreguei-lhe o cajado. Então Mirtilo Me abraçou, e saltando de contente, Jurou-me nunca mais armar ás aves. SILVIA. Glicera por vaidosa he que ama as flôres: Apanha-as para si não para os Deozes, Não lhas merece a Mãi e alcança-as Mopso. Quando em nosso jardim vejo Glicera, Ja me eu ponho a tremer: corta as melhores, He seu costume; enfado-me, sorri-se; Chóro, ri-se; e enfeixando-as, me repete: “Que te servem por ora estas floritas? Deixa passar mais cinco primaveras, E então sim, nem mais uma hei de furtar-te; Pois sei te hão de servir quaes me hoje servem.” Coitado de quem he como eu menina, Que se manda esperar por primaveras! Que podia eu fazer? queixei-me ás Ninfas. Hontem, ja pôsto o sol, quando erão horas De logo vir Glicera, a presumida, Que furta e vai cantando; ajoelhei-me Co’as mãos póstas por entre as minhas flôres. E disse: “Como as arvores tem ninfas, Que lhes morão la dentro e as aviventão, Ha ninfazinhas a velar nas flores. Ninfazinhas das flores, escutai-me: Se a rega, com que as folhas aquecidas Vos refresquei ha pouco, vos foi grata, Olhai por vós, fazei com que Glicera, Como eu vos vi e ouvi, vos veja e ouça; Apparecei-lhe como a mim, por sonhos, Vestidas de mil côres, perfumadas, Pequenas, mui mimosas, e só outras Em não mostrar-lhe a ella um ar festivo. Dizei-lhe como os Deozes vos crearão Para amores de zefiros, recreio De borboletas e olhos, e formosas Copeiras do formoso mel doirado: Dizei-lhe que tão bella e curta vida Não se deve encurtar, que as deshumanas Tem máo fim, que apezar de passageiras, Ninfas sois, e o Destino ha de vingar-vos: Que se tornar sacrílega a colher-vos, Vossos fragrantes ultimos suspiros Seráõ de queixa aos ceos, e antes de tempo As rosas no seu rôsto hão de murchar-se.” Como eu isto dizia, entrou Glicera: Murchas trazia as rosas de seu rôsto, Não rio, nem colheo nada, e suspiráva. Penada de a assim ver, beijei-a, e disse: “Se alguma d’estas flores te contenta, Eu mesma a vou cortar.”—“Não (me responde) Ja não quero mais flores, Mopso ingrato As que ultimas lhe dei deo-as a outrem: Como as flores me engeita hei de engeita-lo.” Ao que eu logo acudi—“Vês tu, Glicera, Fallei verdade ou não? nascem as flores Só para as nossas mãis, e para os Deozes, Da-lhas tu, e verás se hão de engeitar-tas.” MENALCA. Basta meus filhos, basta; não ha sombras Tão gratas no verão, cheiro de flores Tão suave, ou tão ledo canto de aves, Que me recrêem como os vossos versos. Vinde, vinde, abracemo-nos, ó filhos: Dei-vos eu a doutrina; engenho os Fados; Mas os Deozes virtude: alcatifais-me De bem viçosa esp’rança o meu declivio: Dais-me o que nem pedir ouzava aos Deozes. Antevejo a florir-me a sepultura ... DAFNE. Entremos na cabana: aquella nuvem Quer encobrir a lua; ergueo-se o vento, Não tarda muito algum ligeiro orvalho.
NOTA AO IDILLIO.
Na muita rama que ao Idillio decotei para esta segunda edição, ninguem, por mais que a cate, poderá achar fruto, nem sequer uma triste flôr, se a não he o passo que para aqui traslado, da falla de Alexis pag. 96 na primeira edição; ácerca do qual e de tudo o mais quanto supprimi ou accrescentei, releva reclamar pela maior indulgencia dos leitores. Não ma negará quem ja alguma vez houver experimentado como de todas as couzas, que parecendo tenues, são agras e laboriosas, a mais agra, laboriosa, e não sei se diga impossivel, he poetar e metrificar as fallas da infancia: caminho he esse que estreitissimo corre por entre precipicios, sendo maravilha que ahi os maiores engenhos se tenhão, e sigão sem caír ou para a direita ou para a esquerda. O primeiro e melhor juiz do homem candido he a sua consciencia: a minha me diz que os trez filhos de Menalca nem sempre, antes poucas vezes, fallão como conviria: de sobejo são poetas para meninos e rusticos; e tanto, que se não fôra a resalva, que logo do comêço lhes vai lançada, de serem filhos de improvizador, e por elle doutrinados no canto, não haveria perdão que de ridiculos os salvasse.
Segue-se o excerpto, com todos seus defeitos e aleijões de nascença:
O MENINO ALEXIS. Ver-me no bosque de prazer me enchia; Quando Amintas, chamando-me da gruta, Aonde estão de musgo revestidas As imagens das Náiades da fonte, Assim me disse, dando-me uma rosa: —“Eu te darei uma pequena ovelha, Toda branca, na testa só malhada, Se fores ter com Egle, e lhe entregares A rosa, que te dou, se lhe disseres “Egle, Amintas por ti morre de amores.” Beija-a depois na face, e continúa; “Egle, este beijo é do extremoso Amintas.” ¿Não a vês la ao longe entre os salgueiros, Apascentando as candidas novilhas? Corre; e não tardes a buscar a ovelha.”— Eu fui correndo a ella, dei-lhe a rosa, Beijei-lhe a face, e disse-lhe: “Este beijo, Egle, este beijo é do extremoso Amintas.” Nada me respondeo, sorrio-se, e as faces Como a rosa encarnadas lhe ficárão. Abraçando-a depois, lhe disse alegre, “Egle, Amintas por ti morre de amores.” Rio-se outra vez, e dando-me na face, “Oh como tu és máo! vai-te, me-disse, Não posso ... não, não quero acreditar-te.” Nada lhe respondi, voltei á gruta, Onde o Pastor contente e alvoraçado Me deo sem custo uma pequena ovelha Toda branca, na testa só malhada. ¡Como a minha ovelhinha é bella, e mansa! Andei com ella todo o dia ao pasto Pela relva do bosque, etc.