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A Primavera

A Festa de Maio POEMETTO EM DOIS CANTOS.

Reading edition

Se nos trez Poemettos precedentes pude fazer muito mais do promettido no Prologo, n’este último fica a minha palavra empenhada. Pouquissimos de seus defeitos mais palpaveis cheguei a apagar, e esses quasi só de linguagem. Receoso de me vir a faltar o tempo ou o animo, se desde a primeira pagina do Livro me começasse a esmerar seguidamente, fôra minha primeira occupação ir por todo elle despontando, á ventura e sem ordem, o que me apparecia pessimo, justamente como no Prologo deixára promettido. Conheci logo que este trabalho era insufficiente: entrei no outro mais miudo e ordenado; refundi a cito a Epistola, o Dia da Primavera, os Cantos de Abril, nenhuma das quaes Obras cheguei com tudo a lustrar. A Festa de Maio, por ser a derradeira, quasi ficou, e até nova edição (se algum dia se fizer) ficará, como era. O maior bem que lhe pude fazer, foi abri-la em dois Cantos, para que o leitor achasse marco onde descançar em tão enfadonha e comprida estrada.

DEDICATORIA ÁS SENHORAS DA LAPA DOS ESTEIOS.

SENHORAS,

A segunda tarde, que passámos em Festa na vossa Lapa, não tem jamais de nos esquecer. O vosso gracioso e cortez descer a ouvir-nos, as carícias com que amimastes o nosso Maiozinho, dando-lhe entre vós assento, detendo-o nos regaços, beijando-o, ¿como he que nos não havião de cativar, a nós, que o cingíramos de suas galas, o sentáramos em throno, pôsto que menos para apetecer, e o levantáramos por Divindade em nossos Cantos? Finalmente aquelle vosso generoso trocar de nome á Lapa, querendo que por nosso respeito se ficasse chamando dos Poetas, em tamanhos obrigações nos pozerão, que as Musas nos acodiráõ para um dia vos provarmos que nós, Sacerdotes seus, não somos ingratos. A minha, de mais atrevida que he, me envia adeante, a tributar-vos este Poema, que pois o approvastes, ja não he de vós indigno. He prezente de uma Deoza do Parnaso, não podem as trez Graças rejeita-lo.

HISTORIA da Festa de Maio.

Pelas trez horas da tarde do primeiro dia de Maio de 1822 ja nós, a Sociedade dos poetas Amigos da Primavera, nos achávamos á sombra das arvores, pelo Encanamento do Mondego, esperando anciosamente o batel, que nos havia de tornar á Lapa dos Esteios, para celebrarmos a Festa de Maio: de tantos que lá fôramos no Dia da Primavera, só faltava Anfrizo, em cuja vez recebêramos Antíono, mancebo mui dado a bons estudos, versado na lingua e poesia allemã, e autor ja então de Anacreonticas e Idillios de muito preço.

O suspirado batel acudio cedo á nossa ancia: todo toldado, alcatifado e cingido com mui curiosas invenções de verdes e flores, vinha parecendo o naviozinho do Primeiro Navegante. Abica, saltâmos-lhe dentro todos juntos; larga, vogâmos contentes e cantando. Quem bem quizesse pintar com a penna affétos do coração, não achára bastante um volume para historiar esta só tarde. Dezejára eu muito convidar cortezmente meus leitores a nos acompanharem, tomando seu quinhão em nosso folgar; mas não o posso, e ainda mal, que o de maior valia fica-lo-hão perdendo. Hiamos todos tão unidos em vontade, conformes em gôsto, feriados de cuidados, crentes na ventura, chêos e cercados de poesia, e namorados da natureza, que os todos só parecião um, um só moço, transportado em bemaventurança.

Ora cantando, ora encarecendo, quasi adorando as varias gentilezas que a perto e a longe, e por toda a parte se presentavão e renovavão de contínuo, aportámos apoz uma hora, na formosa Lapa dos Esteios. Erguemo-nos, vozeâmos, voão do barco para o ceo foguetes que todo o ar estrugem, e para a margem os hinos de uma orchestra que comnosco hia. Diz a musica muito com todos os affétos da alma, mas do contentamento, onde o ha, faz alvorôço, que muitas vezes prorompe em lagrimas. D’esta maneira triunfal saltámos para o cáes, voámos ao alto da Lapa. Conhecia-nos o sítio pelos mesmos, desconheciamo-lo nós por melhorado: obrados erão sobre a natureza milagres de Maio. Ja as arvores alardeavão ás virações montes de folhagem, que pelo ar se embalavão ao sol; era agora o rio ainda mais puro, os ares mais temperados e benignos. ¿Quereis haver alguma idea da habitação das almas felizes? quereis pintar os lugares onde as Ninfas, os Faunos e Pan apparecião aos pastores innocentes na idade de oiro? entrai a Lapa dos Esteios pelos graciosos dias de Maio. He a Primavera nos princípios uma linda menina; mas não sabe firmar o passo, balbucia, tudo teme, não se decide em nada, suas graças ja se annuncião claramente mas ainda se não desenvolverão; em Maio he moça toda viçosa de mocidade, a quem ledos cortejão Amores e Prazeres, cujo sorrir endoidece o pensamento, e vai entender com os corações. Tinha a Natureza dado a segunda mão e ultima ao lugar; mas a Arte quizera entrar com ella á competencia, sem comtudo lhe desacatar a primazia: tudo estava varrido e puro e concertado de um sem numero de vasos de muitas, e finissimas flores.

No alto assentámos o altar do Deozinho Maio: todo elle era verdura; duas colunas, artificiosamente fabricadas de flores, e rematadas em umas maçanêtas de igual marmore, se alevantavão dos dois cantos da frente, e communicando-se no cimo por um semicirculo, que na materia e primor não desdizia do resto, ajudavão a formar um genero de portico bem vistoso e engraçado; os lados, fundo e abobada do recinto erão de ramos verdes de todas as qualidades, bem entrelaçados e bordados de frescas e vermelhas rosas; no meio estava um assento pequeno, á feição de poial rústico, tecido de lustrosas heras, onde se via recostado o Maio em acto mui gentil, e com um geito todo seu. Era um Menino de cinco annos, louro como o sol, e alvo como a neve, cabellos crespos e annelados, caídos por um e outro hombro: de roupagem, não tinha outra de seu que um aventalinho, que debaixo dos peitos lhe descia aos joelhos; o qual, assim como os listões que de cima dos hombros lho vinhão tomar encruzando-se por deante e pelas costas, estava recamado de cedro e buxo, com sua orla mui accesa de flores de romeira, cravos, e rosas: calçava cothurnos de seda escarlate; na cabeça ostentava corôa de verdura, e do braço esquerdo como que acenava ás vontades com um cabazinho, farto dos frutos do seu tempo; e tudo por modo tal, que a bôca se não sabia determinar se o diria nu ou vestido, nem a fantasia dos poetas se o quereria simples Menino, ou verdadeira Divindade.

Mandámos por dois dos nossos vizitar e convidar para a Festa as amaveis Senhoras, cuja he a Lapa, as quaes na quinta que por cima fica tem seu perpétuo domicilio. Não tardarão: recebemo-las como convinha, nós com a festa dos nossos musicos, e com muitos seus abraços as Senhoras, que abaladas dos annuncios de tão bôa tarde, nos tinhão feito a honra de acudir ao sítio. Ja era crescido o auditorio, e muito para contentar e accender engenhos: fomo-nos uns a outros seguindo com os poemas que levavamos, os quaes em fórma de rito religioso, se recitavão em pé deante do altar, fazendo a nossa orchestra uma harmoniosa ráia de poema a poema, que para tudo as tardes de Maio deixão tempo. Poz-se-lhe remate com os vinhos e saudes d’uma saborosa merenda, como á primeira tarde da Primavera se havia feito. Passou-se o serão parte pelas salas, outra parte pelo jardim das nossas hospedeiras.

A noite era uma das mais bellas de tal mez: a lua brilhantissima despedia até os horisontes um clarão quasi diurno, não se enxergando nuvem por todo o descampado do seu céo; refletia-se, e desenrolava sua alcatifa de movediça prata ao longo d’esse Mondego tão digno de seus amores; o ar era tão manso e quêdo, que as luzes, curiosamente distribuidas por entre os vasos de flores, nem de leve estremecião; suave era de ver sair por toda a parte d’entre planta e planta uns reflexos verdejantes mui amigos dos olhos, muito mais da fantasia de poetas.

Prazeres que o coração estriou por uma noite assim enfeitiçada, não são para se poderem pintar. Pouco tardou que a sociedade, como acontece, se não soltasse e dispartisse em ranchos pequenos: a musica errante e fóra dos olhos, umas vezes folgando, suspirando outras, e outras como quem sismava algumas amorosas mágoas, hia-se ja pelos arvoredos da quinta, ja ribeiras do rio acima e abaixo, tão grata, que ainda não sei couza que mais quizesse. Muitos e muitas baillavão arcadicamente sob a abobada do céo, em quanto nós outros, os que das Musas só fôramos fadados para versos, os estudavamos e repetiamos á porfia. Algumas semelhantes horas devia ter passado o primeiro que escreveo Elisios.

Era a noite crescida para muito alem do meio, quando nos despedimos; e la foi caír na eternidade um dia, que ainda agora me persegue saudoso, e apoz o qual nenhum outro veio semelhante.

A Festa de Maio.

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