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A Morte Vence

JOÃO GRAVE (continued 3)

Reading edition

intermináveis

desfilavam diante dêle. Que interêsse poderia aquela mulher, profanada e ultrajada, despertar-lhe? Como se arrependia de a ter trazido para a sua habitação, para o seu leito! O contacto com ela manchara-o. E manchara igualmente a limpidez do seu sonho, do seu ideal, deformara a resplandecência duma beleza vislumbrada que nunca atingiria, de que não queria mesmo aproximar-se, mas que, a-pesar disso, mesmo de longe o iluminava e lhe causava orgulho! Esperava agora ansiosamente a hora em que lhe fôsse possivel desembaraçar-se de Branca, para se dar com prazer à recordação de Júlia. Parecia-lhe que essa recordação o purificaria, como uma água lustral...

A um movimento mais brusco de Frederico, devorado por impaciências que o agitavam, Branca acordou, abriu os olhos inchados de sono, sorriu-se para êle, com um sorriso em que havia gratidão, lassitude, contentamento.

―Já a pé?... É curioso. E eu que não o senti levantar!...―murmurou ela, quebrada por uma fadiga feliz.

―Pudera! Se dormias profundamente!...―respondeu Frederico.

―Quantas horas são?

―Duas e meia!...

―Ih! meu Deus!... Que preguiçosa!―exclamou, sentando-se no leito.

As longas tranças do cabelo envolveram-na tôda até à cintura. Através da ténue nuvem de ouro que formavam, alvejavam brancuras da camisa de bretanha fina, de rendas vaporosas. O bafo morno que se emanava dos lançóis amolecia-a. Tinha as faces còradas pela circulação mais apressada do sangue, e os seus olhos azúis iam-se enchendo duma luz que mais os azulava, quáse os espiritualizava. Frederico aproximou-se da beira do leito, acariciou-a levemente, passando-lhe os dedos pela face. Admirava-lhe a formosura, qualquer coisa de virgíneo, de inocente que ainda existia nela. Uma comoção estranha perturbava-o. Ah! Aquela linda rapariga―uma primavera em flor―erguendo-se do seu leito que sempre fôra casto, que nunca agasalhara corpos alheios, comunícava-lhe a impressão singular dum noivado:―e esta ideia subtilizava-o, tinha para o seu sentimento uma venturosa novidade, fazia-o esquecer de que Branca era a noiva de quem a queria.

―Ainda nem sequer me deu um beijo!―queixava-se ela, prendendo as mãos nas mãos de Frederico... Bons dias!

Êle beijou-a, sorrindo tristemente, e notou a delicadeza de Branca, que não ousara tratá-lo por tu. Abraçando-o, suspirava.

―Estás triste?―inquiriu Frederico.

―Estou. E, no entanto, nunca nenhum outro homem me tratou com tanta bondade...

―Então, como se explica essa tristeza?

Branca, repelindo-o brandamente, quis levantar-se.

―Responde!...

―Eu não sei responder... Queria ficar sempre aqui, perto do senhor... É talvez por isto, por ter de ir-me embora... Naturalmente, nunca mais nos tornaremos a encontrar...

―Porque não?

―Eu sei lá!... É sempre assim. Os amantes duma noite nunca mais se encontram...

―Mas, eu não sou como os outros―afirmou

Frederico

, fixando-a demoradamente.

―Ora! Tantas vezes tenho ouvido isso!...

Nas palavras de Branca havia uma frieza misturada de desalento que fazia mal a Frederico. Enquanto ela se penteava, sorrindo-lhe sempre―num sorriso cansado e automático―êle considerava-a mudamente, sendo invadido, de repente, por uma aversão instintiva, por uma repugnância inexplicável. E sob a influência de impressões opostas, observava a incoerência das suas sensações que umas vezes lhe tornavam apetecida aquela beleza que ia morrendo como uma rosa cortada e outras o forçavam a uma grande violência sôbre si próprio, para a não repelir brutalmente, aos empurrões, causar-lhe sofrimento, obrigá-la a chorar. De que razão psicológica oculta derivaria tudo o que nos seus sentimentos havia de ilógico, de inconseqùente? Com mêdo de soffrer mais, Frederico nem sequer ousava interrogar-se, procurando definir a laboração tumultuária da sua vida íntima.

Branca, acabando de vestir-se, sentou-se, extenuada, numa cadeira. Frederico, acendendo um charuto, passeava no quarto, a largos passos, enquanto ela o seguia com o olhar inquieto. Esperava... O quê? Naturalmente que êle a mandasse embora, pagando-lhe o amor duma noite. Na sua atitude, na expressão do rosto macerado, em que punham fundas manchas escuras as olheiras de bistre, havia resignação e melancolia. Frederico parou junto dela, encarando-a.

―Estás pronta, hein?...―perguntou.

―Estou pronta―repetiu Branca.

―Queres ir-te embora?... Mas, é que não pode ser já! Tens de demorar-te até à noite...

―Não tenho que fazer...

―Ainda bem! Almoças comigo, se isso te não desgosta. Irás depois...

Um clarão de alegria, que Frederico surpreendeu, faíscou nos olhos de Branca. Suspirou, fundamente, murmurou como se falasse para a sua consciência:

―Tenho sido tam desgraçada!...

Este grito sincero duma alma que espontâneamente se confessava chocou Frederico, que se sentou junto dela, tomando-lhe a mão que Branca abandonou o que êle efusivamente apertou entre as suas, pensando nas criaturas que incessantemente corriam atrás da ilusão duma felicidade sem nunca a alcançarem. Tambêm êle era desgraçado! Tambêm êle aspirava a uma irrealizável ventura que só um amor impossível poderia oferecer-lhe. Um destino malfadado irmanava-os na tristeza e no infortúnio:―e, talvez por isso, a sua piedade transbordou.

―Branca, queres ser a minha amante?―exclamou de repente, aturdido.

―Quero!―acudiu ela prontamente e tôda alvoraçada.

―Medita!... Se aceitas, serás só para mim... Na tua

situação

, isto não é fácil. Mas, eu é que não me conformarei com partilhas. Ouve bem!... Não terei rivais.

―Aceito―afirmou ela, novamente, com firmeza na voz.

E, como Frederico a envolvesse num olhar perscrutador, que se demorava a investigá-la, Branca, levantando-se, foi para êle, abraçou-o esteitamente, dizendo:

―Oh! meu filho, como eu te agradeço esta hora de paz e de consolação que me vem da tua oferta... Olha para mim... Assim, não!... Nos olhos... Isso mesmo! Agora, repara... Juro-te que serei só tua e que te não traírei, enquanto tu me quiseres!...

Enternecido, Frederico

beijou-a

longamente, como se o seu beijo fôsse o princípio duma doce e jubilosa festa amorosa que principiava. Almoçaram e, durante a refeição, Branca, que a intimidade que se ia estabelecendo, tornava audaz, contou-lhe os seus infortúnios e as suas amarguras, còrando muitas vezes por ter de ferir o secreto pudor da sua alma. A sua história era inteiramente igual à história de tôdas as mulheres perdidas. Uma paixão absorvente e cega em que se confia e a que tudo se sacrifica, a queda, o abandôno, a miséria final duma existência passando de mão em mão, enquanto vicejam a florescência e a beleza da mocidade. Ouvindo-a, Frederico compadecia-se, prometia-lhe daí para o futuro uma vida serena e uma emoção pura que a aurorizasse.

―Não me enganes!―suplicava Branca. Se depois de tudo isso hás de deixar-me, então, o melhor é separarmo-nos de vez...

―Não crês na minha sinceridade?... Não tens fé em mim?―interrogava Frederico.

―As desilusões teem sido tantas!...―respondia ela, duvidosa.

E baixando os olhos, na voz humilde e baixa de quem revela uma vida de vergonhas, foi dizendo tudo o que deixara pelo mundo fóra:

―Em minha casa, quando eu de lá saí, havia criancinhas pequeninas, que eram minhas irmãs e que eram puras. Nunca mais as tornei a ver...

Ao baixar da noite, desdobrou-se sôbre a cidade um denso lençol de sombra. Branca saíu contente, com a esperança de que Frederico se encontraria com ela, volvido pouco tempo, para a continuação dum capricho sentimental que ainda lhe parecia absurdo, tanto a havia surpreendido a resolução inesperada do seu amante dalgumas horas; e êle, ficando só no imenso casarão de treva e de silêncio, experimentou uma sensação de tédio mais fundo. Tôda a vida lhe parecia deserta, especialmente a vida emotiva; e, recolhendo-se, a si mesmo perguntava se valeria a pena vivê-la, sem encontrar nas almas e no mundo exterior alegrias puras e interêsses morais. Sentado numa cadeira de braços, junto duma mesa de pau preto sustentando jarras com flores que Bernardo tôdas as manhãs

substituía

, ia sofrendo o seu permanente suplicio. Verificava que, em certos momentos, ideias claras, fáceis, luminosas, o obrigavam a obedecer-lhes alegremente, e que, em outras, essas ideias eram sombrias, indecisas, indecifráveis, e o assustavam. Encontrava-se, precisamente, num dêstes últimos instantes em que as inquietações interiores o consumiam, como as brasas se consomem no fogo intenso. Justos céus! Como o seu desamparo era grande! E cada vez a solidão mais pesava à sua volta e mais insuportável lhe tornava a carga que trazia sôbre os ombros. Naquela vivenda em que nascera, erravam os espectros do pai, que não chegara a conhecer, o da mãe, que morreu na sua infância, o duma irmã, Maria das Dores, que era afilhada de Nossa Senhora, com quem brincara na meninice e que tambêm se sumira nos negros boqueirões da morte. Da sua casta, que se extinguia, era êle o derradeiro representante directo: e entrava no outono da existência sem ter a coragem e a abnegação de criar uma família. Porque não procuraria uma doce mulher que fôsse capaz de fazer um luar de ventura à sua roda, de oferecer-lhe o peito para êle repousar a cabeça nas horas de angústia, em vez de levar para o leito criaturas que

transformam

o divino sentimento do amor numa mercadoria e numa torpeza? Ah! como Nuno lhe era superior! Êsse sim! Havia seguido, na sua marcha para os tempos vindouros, o caminho da verdade e da beleza, de que êle se afastara―de que se afastava ainda mais, de dia para dia!...

Com a imaginação perdida na melancolia destas evocações aflitivas, via novamente a imagem de Júlia erguer-se, radiante de luz, ante os seus olhos: e, então, lembrava-se com infinita saudade do lar inefável e calmo de Nuno, da felicidade perene que o envolvia, radiosa como uma nuvem dourada. Enquanto êle para ali estava curtindo o seu padecimento, desgarrado de tudo quanto fôsse humano, fecundo, produtivo, sob o ponto de vista psíquico e material, Nuno, no seu escritório, e depois de um dia fértil em trabalho útil, em inteligência, repousaria lendo um livro, perto de Júlia, que a claridade aureolava e que pousaria de momento a momento a agulha da costura para colhêr um beijo na bôca nobre e risonha do marido. E não haveria acidez, cólera, impurezas, nos corações dum e doutro, unidos pelo mesmo afecto, nutrindo-se de idênticas aspirações, enlevando-se numa confiança ilimitada... Ou talvez que Júlia, ao piano, no sossêgo nocturno, tocasse uma bela página em que vozes enigmáticas narrassem, numa linguagem de som e de harmonia, a ascensão dos espíritos subtis para a purificação e para a graça. Dentro do seu berço, o filho de Nuno, ainda pequenino, dormiria inocentemente, lindo como um botão de rosa, e tôda a casa adormeceria tambêm ao embalo suave da música. Isto sim! Era viver! Mas êle, que com tanta ansiedade buscava a ternura, não passava dum esquecido do destino, dum foragido...

Fóra, na rua, começavam a acender-se os candeeiros de iluminação pública. A chama do gás, torcendo-se à ventania, projectava sôbre as vidraças sombras oscilantes e fantasmagóricas. O ruído afrouxava. Bernardo, entrando de súbito na sala, perguntou:

―Para que horas quere V. Ex.

a

o jantar?

―Eu não janto hoje, criatura―afirmou Frederico, erguendo-se e dirigindo-se ao criado.

―Santo nome de Maria! Não janta?

―Ou por outra, janto fóra. Arranjem-se lá vocês, tu e a Rosalina.

―Então, está bem!―disse Bernardo, retirando-se, sem estranhar já as excentricidades do amo, desde que nessa manhã o vira almoçar com uma mulher da vida airada, em sua própria casa.

Que fatalidade o perseguia!―pensava Frederico, reatando novamente o fio das suas meditações. A ambição duma família estava agora para sempre comprometida, porque êle não poderia ligar-se a uma mulher que não amasse, que havia de ser-lhe odiosa, sempre que se lembrasse de Júlia, sua única e infeliz paixão... Nesse instante, Frederico via-a bem real, duma personalidade bem determinada, diante de si. A sua beleza era perigosa. Nos seus olhos existia um ardor secreto que denunciava a amorosa. Parecia-lhe que ela tinha uma dessas expressões pensativas que nunca se definem com nitidez e que tanto seduzem, porque denunciam almas de indizíveis delicadezas. Frederico sentia-a em si, consagrava-lhe a adoração perseverante, o culto absoluto, o amor que se bastava a si próprio e que duraria, veemente, vivaz, enquanto êle tambêm durasse. A esta certeza, revoltava-se mais uma vez. Com efeito, que maus fados o tinham levado para casa de Nuno! E que fraqueza lamentável a sua, apaixonando-se pela espôsa do seu melhor amigo, sem que reagisse violentamente contra o amolecimento da vontade, o desfalecimento do coração!

Júlia insinuara-se―sem querer, porque era honesta―na sua admiração, no seu desejo, na sua carne, em todo o seu ser de homem: e, sendo tam pura e tam santificada de bondade, envenenara-o para sempre, fizera dêle alguma coisa de vil e de abjecto que entrava num santuário familiar não para purificar-se ao contacto das grandes virtudes, mas para trair. Porque já traía Nuno, não por actos irreparáveis, mas pelo sentimento!...

Sôb a influência mórbida dêste raciocínio, exasperou-se. Sufocava. Os olhos dardejavam-lhe um brilho especial. Sentia a necessidade de aturdir-se, de bestializar-se, de apagar tôda a claridade da consciência. Outra vez evocou Branca. Iria para ela, embora se afundasse; havia de procurar nos ásperos delírios da sensualidade ou nas alucinações do alcool o sossêgo indispensável que lhe fugira, com o desespêro com que Alfredo de Musset procurava nos copos de absinto o reflexo verde dos olhos da Quimera! O que êle pretendia era esquecer Júlia, por todo o preço―mesmo à custa da sua dignidade...

Como as noites fôssem já frias, vestiu um sobretudo, pôs o chapéu, pegou nas luvas e na bengala e saíu, mergulhando no movimento exterior, que o acalmava. Ao chegar à porta da rua, viu, na casa fronteira, as vizinhas que, por detrás dos vidros da janela, o espiavam. Irritado, não as cumprimentou, seguindo em passos nervosos pela calçada. Tinha feito uma promessa a Branca. Ia cumpri-la, com o coração tranzido e com a certeza de que se dirigia para o mal e para uma nova dor...

VII

Certa manhã, ao entrar em casa depois de tôda uma noite passada com Branca―já instalada numa luxuosa e recolhida vivenda que Frederico para ela escolhera numa rua solitária da Foz e onde reùnira tudo quanto pudesse oferecer bem estar ao seu egoísmo e encanto aos seus olhos saudosos de beleza artística―encontrou uma longa carta de Nuno que o correio trouxera e que Bernardo solicitamente pousara sôbre a larga mesa do seu gabinete de trabalho, num sítio bem visível. Durante muito tempo conservou-a, hesitante, nas mãos, sem ter a coragem de rasgar o envelope. Mirava-a, remirava-a, voltava-a entre os dedos nervosos, estudava a letra miúda e firme do amigo, como se quisesse perscrutar nas particularidades exteriores o oculto sentido do que ela dizia, das revelações gratas ou dolorosas que iria fazer à sua inquietação de espírito cada vez mais violenta e que os delírios da sensualidade carnal não apaziguavam, ao seu sofrimento moral de dia para dia mais veemente, roendo-o com a lentidão com que um acido corrosivo rói certos metais. Era a primeira vez que Nuno lhe escrevia, desde que Frederico deixara a quinta rural, afastando-se duma atmosfera mórbida que fazia mal aos seus nervos, que lhe desgastava a energia, que lhe amolecia a vontade, fugindo à permanente adoração de Júlia―uma adoração criminosa que inutilmente se esforçava por abafar dentro do coração e que subtilmente crescia sempre, invadindo-o todo, cegando-o, alucinando-o, vivaz como uma planta daninha que se quere destruir e que constantemente surge, com teimosia, à superficie da terra. Que iria Nuno dizer-lhe? Inconscientemente, na ignorância do seu amor impuro, o amigo trabalhava contra si próprio, avivando coisas que Frederico pretendia, em vão, esquecer para que mais de-pressa curasse os seus nervos doentes, a sua alma enfêrma!...

Passeando agitadamente, com a carta apertada na mão trémula, Frederico notava que, por uma singularidade inexplicável, tôda a gente, mesmo as pessoas que mais estimava, conspiravam, contra a sua paz, contra a sua ventura. Nuno, por exemplo, havia de falar-lhe da sua felicidade conjugal, da ternura de Júlia, da sua perfeição como mulher e como espôsa, o que o atormentaria, agravaria excepcionalmente o padecimento que trazia consigo. Os beijos de Branca, a graça, a formosura esplêndida do seu corpo nú vibrando dos desejos voluptuosos que êle acendia, só lhe avivavam na imaginação ardente o fogo da paixão alucinante pela outra, por Júlia―uma complexa paixão em que havia conjuntamente delicadezas, mimos, aspirações, purezas quáse místicas e as impulsividades grosseiras duma luxúria que maculava as emotividades mais castas. Vivia, por isso mesmo, numa perpétua ansiedade, sobressaltado de temores contínuos diante dos insignificantes factos que pudessem recordar-lhe a mulher que a todo o transe deveria olvidar para seu sossêgo, por imposições da sua dignidade ainda não totalmente amolecida. Estava reduzido à necessidade de procurar a calmaria interior, aturdindo-se nas orgias sensuais com Branca, nas noitadas com os conhecidos pelos teatros e pelas mesas dos restaurantes, em que bebia até perder a lucidez da consciência, ou a fugir ao seu semelhante, acolhendo-se ao isolamento da sua fria casa de solteirão, onde não encontrava nada daquilo que o sentimento imperiosamente lhe reclamava e onde, frente a frente, o encarava o seu pior inimigo, que era êle próprio. Estas rudes emoções, de que lhe era impossível emancipar-se, iam-lhe aviltando o carácter, extenuavam-no físicamente. A fôrça, a resistência, a saúde, escapavam-se-lhe do corpo como a tranqùilidade se lhe havia escapado da alma. Durante horas seguidas, nada mais sentia do que o pêso esmagador do infortúnio que teimava em acabrunhá-lo; e, se tentava reagir era para se crivar de sarcasmos, de ironias cruéis e fulgurantes, súbitamente avassalado pelo prazer secreto de destruir-se, de se afundar mais nas torpezas que dilaceram e matam, de acabar, com um golpe feroz e rápido, aquela contínua tortura de todas as horas, fermentando nas impurezas emocionais, de que era feito o seu abjecto sêr de homem. Em Frederico, exauriam-se as fontes psíquicas de que brotam as seivas criadoras que engrandecem e nobilitam as criaturas. O seu aniquilamento tinha começado: mas, por cobardia moral ou por orgulho, evitava tudo quanto pudesse sobressaltá-lo neste vagaroso trabalho de desagregação, e lhe perturbasse a alegria feroz com que assistia à sua devastação desordenada...

Ao cabo de demoradas cogitações, aproximou-se duma janela e olhou para fóra. A manhã corria serenamente, iluminada por um fulvo sol de inverno que caía do alto sôbre a cidade como o pólen duma imensa flor de ouro. Na rua, curvada sôbre a carga do seu gigo cheio de hortaliças frescas, passava uma mulher lançando nos ares um pregão vibrante, com a saia rôta embrulhando-se-lhe nas pernas. Bernardo entrou de repente, perguntando a Frederico se tinha visto a carta que o homem do correio trouxera.

―Vi. Tenho-a aqui. Vou lê-la―respondeu.

E, quando o criado saíu, fechando a porta, Frederico, vencendo, por uma decisão súbita, tôdas as irresoluções que o alanceavam, rasgou com desespêro o envelope, desdobrou a larga fôlha de papel ennegrecida de tinta e encetou a leitura. Logo às primeiras palavras se lhe desenrugou a face que envelhecia e se abaixou a curva das suas sobrancelhas contraídas. Nuno narrava-lhe a labuta constante a que se entregava na quinta, sob as soalheiras de verão, que lhe tisnavam a pele, sob as chuvadas de outono, que lhe enrigeciam a fibra, comunicando-lhe mais elasticidade. As obras da vasta propriedade, alugada ao caseiro, estavam quáse terminadas. Instalara o vélho Mateus e a família num «palácio», só para que perto dêle não houvesse o espectáculo dissolvente da miséria humana; rompêra mais minas que, de muito longe, da encosta dos montes próximos, traziam em levadas uma água muito clara e cantante que, pelos estios calcinadores, regariam as terras, levando o alento e o vigor às culturas benéficas: transformara tudo. Entusiasmado, confiava-lhe os seus projectos futuros. Andava com ideia de se fazer lavrador, de abandonar para sempre a cidade, que só visitaria de fugida, para tomar um banho de civilização, regressando logo à simplicidade do campo, à placidez rústica. Se esta vontade vitalizadora, que o galvanizava, não viesse a esfriar, teria, mais tarde, em estábulos bem cuidados, manadas de vacas que lhe dariam o bom leite, o queijo, a manteiga. Exploraria a indústria, tam atrasada entre nós, dos lacticínios, concorrendo para a riqueza do país com uma parte da sua fértil actividade...

Frederico interrompeu a leitura da carta, para murmurar humorísticamente, como se conversasse com o amigo:

―E nas horas vagas, como Vergílio, podes fazer versos, escrever as

Geórgicas

ou as

Bucólicas

!...

Sorrindo com a sua observação, reencetou a longa epístola de Nuno que ia desenrolando outras empresas que lhe pareciam fabulosas, esquecido completamente de que Júlia lêra aquelas linhas que lhe eram dirigidas, que os seus olhos pensativos haviam pousado em cada palavra, que ela fôra mesmo composta a seu lado, num daqueles demorados e pacíficos serões que constituiam um dos maiores encantos da vida familiar do amigo. Nuno falava agora, sempre com o mesmo júbilo, em granjas, espigueiros, eirados, tulhas e celeiros para os cereais que colheria, adegas para o vinho, apetrechos de lavoura.

«Quero―dizia êle―trabalhar para aumentar assim a fortuna do meu filho―que está um figurão, um grande senhor de olhos espantados e cara rabujenta, que se ri de tudo com uma alegria a que as misérias da existência ainda não comunicaram o seu veneno e a sua dôr―de outros filhos que venham, porque me não satisfaço com ter únicamente por descendente e representante um sêr pequenino e frágil que a menor doença pode arrebatar ao meu afecto. Júlia é da minha opinião...»

Esta última frase transtornou Frederico como um insulto à pureza do seu amor, como uma maldição que tornasse estéril o seu sentimento. Parecia-lhe que Nuno o ofendia e o escarnecia, confiando-lhe a esperança que alimentava de Júlia lhe dar mais filhos―filhos que seriam seus, gerados no calor genesíaco dum beijo profundo em que duas bôcas, que se queriam, se transformavam numa só bôca, em que dois corpos, latejantes e convulsionados pela febre da fecundidade, se fundiam num só corpo! Uma cólera absurda subiu do seu coração por essa mulher que se lhe apoderara da alma e que ao marido entregava tudo e ao amante ignorado nada oferecia que o tranqùilizasse. Para Nuno, para a sua satisfação, para a sua vaidade, para a sua felicidade completa, a vida jorraria ininterruptamente do flanco de Júlia, o seu ventre geraria os sêres quáse divinos pela graça e pela inocência―sêres admiráveis em que ambos, através do tempo, se prolongassem, se perpetuassem. Para êle, que tanto a amava, e que, por isso tanto sofria, não havia mais do que uma amizade certamente sincera, mas que não bastava à sua ansiedade dolorida e que repelia com amargura! Irritado por êstes raciocínios, Frederico nada mais via em Júlia do que o facto brutal que derivava da sua ligação legítima, com Nuno―facto que manchava a purificação do amor impossível que lhe consagrava, sem que ela sequer o soubesse. Considerava que o seu drama passional se transmudava em comédia. Sentia-se ridículo e exagerava o que na sua situação havia de grotesco, para conseguir desdenhá-la, já que a não podia olvidar. Estava, certamente, fóra da equidade, da razão, da justiça, mas achava que a sua revolta era natural... Por fim, reagindo sôbre si próprio, reentrou na realidade das coisas, monologando, revoltado:

―Já não haverá então limites para a minha miséria?

Com que direito, efectivamente, se insurgia êle contra a ternura de Nuno pela espôsa? E com que direito tambêm a reclamava para si, como se ela lhe pertencesse, sem se lembrar do que devia à sua dignidade, á sua afeição fraternal, ao respeito por um lar sagrado onde entrara como um amigo e donde saíra enxovalhado, ennodoado por um sentimento criminoso que fôra impotente para sufocar, à nascença, no coração? Estaria por tal forma perdido para a vida moral sadia, honesta, elevada, que não compreendesse a vileza suprema da acção que praticava? Mas a sua libertinagem―a libertinagem em que esperava consumir-se, matar a sensibilidade, endurecer, embrutecer―era recente...

Arrependido, pedindo íntimamente perdão a Nuno da sua loucura, pegou novamente na carta que tinha pousado sôbre o peitoril da janela, continuando a lê-la. O amigo anunciava-lhe que o inverno havia chegado, com as suas intermináveis noites de treva, os seus cinzentos dias de vento e de chuva. As árvores do parque já não tinham fôlhas, a paìsagem dos arredores da quinta parecia morta ou embebida num sonho inerte em que as vidas futuras germinavam, preparando-se para ascender à luz. Nuno e Júlia levavam agora uma existência mais recolhida e monótona, porque não podiam sair de casa. A água, descendo em torrentes das serras, alagava a planície, transformava caminhos, córregos, azinhagas,

barrocais

, em rios lamacentos, tornava intransitáveis aquelas estreitas veredas, entre densos silvados, que pelas primaveras românticas floriam e se perfumavam com o aroma das madre-silvas e das roseiras bravas e onde, nas manhãs de verão, amadureciam as negras amoras silvestres...

«Mas―concluia Nuno―eu tenho os meus livros, que leio e releio para colhêr alguma humilde parcela da verdade e da beleza que através dos séculos os cérebros e as sensibilidades mais finas nunca deixaram de perscrutar; Júlia tem o seu piano, o seu Beethoven, o seu Liszt, o seu Schubert, o seu Debussy; e ambos temos ainda, para prender a esta casa solitária um encanto sempre novo, o nosso amor e o nosso filho. E estamos com uma infinita curiosidade de passar aqui todo o inverno, assistindo à ressurreição primaveril, à aleluia das fôlhas e das florações... E tu? Se te aborreceres por aí, com os teus teatros, os teus romances de coração, mais efémeros do que as rosas de Malherbe, os teus conhecimentos, os teus tédios, faz as malas e vem. Serás recebido com a afabilidade e a alegria que, no vasto mundo, apenas nesta cabana amiga encontrarás...»

As últimas linhas da carta enterneceram-no. Bom, admirável Nuno! Como a sua afectuosidade perene se recordava dêle e de tam longe o chamava!...

Havia ainda um

post-scriptum

. Frederico, alvoroçado, leu:

―«Júlia, que está aqui ao meu lado, depois de ter adormecido ao colo o nosso morgado, recomenda-se, manda-te muitas saùdades e pede-te que te lembres de nós. Anda a estudar, com interêsse, uma sonata de Beethoven, que será para ti e que, na tua volta à quinta, hás de ouvir...»

Por um momento, estas palavras tam naturais e tam simples, conturbaram-no, excitaram-lhe a imaginação. Júlia pedia-lhe para se lembrar dela, estudava pra êle uma das mais belas sonatas de

Beethoven

, talvez inspirada ao maior poeta de música por uma profunda, transfiguradora paixão, tinha consigo delicadezas do que apenas são

capazes

as almas que amam em silêncio. Quem sabe se essa doce mulher fôra tocada pelo fluido invisível do amor que o abrasava, se tambêm o amaria em segrêdo, escondendo êsse sentimento, ao mesmo tempo pecaminoso e divino, bem no fundo do coração, para que nem Nuno nem mesmo êle sequer o pressentissem? Quem poderia adivinhar, decifrar o drama oculto naquela alma tam requintadamente feminina?... Depois dalguns minutos de reflexão, porêm, o seu desvairado scismar pareceu-lhe vão e sem sombras de realidade. Com efeito, se Júlia lhe consagrasse um afecto que, por sua essência, tivesse de esconder cautelosamente, não pediria a Nuno para acrescentar à carta que acabava de receber um

post-scriptum

em que se denunciaria. O amor obrigado a esconder-se é sempre assustado, supersticioso, teme mesmo os actos mais inocentes com mêdo de revelar-se a olhos perspicazes. Não! Que ideia a sua! Júlia era, para êle, apenas uma bôa, sincera amiga, e nada mais do que isso. E esta virtude nobilitava-a para Frederico!...

Sôbre a sua alma passou, nesse momento, uma nuvem da tristeza que, por um instante, o deixara para de novo voltar a deprimi-lo; no seu espírito manifestaram-se alternativamente as crises contraditórias, a desilusão que o pungia pela secura e as aspirações indefinidas que sossegavam a intervalos o seu mal estranho. Amarrotou nervosamente nas mãos a carta de Nuno, atirando-a para cima da mesa, e, concentrado e sombrio, recomeçou o seu passeio. Voltar à quinta, ser uma testemunha da felicidade de Júlia e do marido, tam estreitamente unidos por um amor que incessantemente refloria, que ao fim de dois anos mantinha a mesma febre, a mesma ansiedade, o mesmo calor, a mesma infinita, inextinguível adoração? Não tinha coragem para isso, porque não podia conservar-se impassível, ao menos, diante do espectáculo duma ventura que ardentemente desejava para si e de que, conjuntamente, fugia como fugiria dum pavoroso crime. O amor de Júlia e de Nuno era sagrado pela sua pureza; no entanto, tomava-o, no seu egoísmo, como um insulto, como um sarcasmo de fogo que o queimava, como um escárnio ao seu infortúnio. Não! Nunca mais! Não queria presenciar a florescência maravilhosa e suave duma ternura que tam ardentemente apetecia para si e que um outro, legitímamente, fruía. A sua pessoa não era necessária em casa do amigo para que êle fôsse feliz: e Frederico, êsse carecia de estar longe de ambos para ser menos desgraçado... O que existia de paradoxal no seu caso singular! Sabia que Júlia e Nuno o estimavam fraternamente; que, se a sua alegria de viver, a sua placidez interior, dêles dependessem, seria absolutamente ditoso; que não tinha, no tumulto vertiginoso da existência, mais seguros e nobres afectos; e, no entanto, era justamente de Nuno e de Júlia que para si vinha a maior dor, a mais intensa amargura!...

E o que tambêm havia de bizarro, de incompreensível, de insensato, no seu sentimento! Amando Júlia alucinadamente, querendo-a acima de tôdas as coisas, não odiava agora Nuno, que a possuía. Pelo contrário, a sua afeição crescia cada vez mais por êsse belo rapaz que a uma dignidade inquebrantável aliava os brilhantes dons de carácter, de inteligência, de grandeza moral. Tudo aquilo lhe parecia confuso, baralhado, incoerente, fóra da realidade humana, obedecendo talvez a leis psicológicas ainda ignoradas...

Cansado de se debater sem tréguas na mesma agitação árida, nas mesmas angústias e nas mesmas perplexidades, chegava a desejar que uma catástrofe se abatesse de repente sôbre êle e o aniquilasse ou esclarecesse uma situação que não podia sofrer por mais tempo. Tudo o que viesse imprevistamente, luminoso ou sombrio, irremediável ou ditoso, suave ou amargo, seria preferível àquela tortura lenta em que o seu ser de homem se dissolvia aflitivamente. A casa parecia-lhe deserta como nunca e duma solitude apenas comparável ao ermo do seu coração. O silêncio constrangia-o. Queria o ruído, as conversas, a animação, o riso à sua roda; desejava tudo o que o aturdisse, que desviasse o rumo das suas cogitações, que o insensibilizasse por instantes. Tirou o relógio do bôlso, viu as horas. Era ainda muito cedo para o almôço. Daria uma volta pela cidade, iluminada por um sol pálido de inverno que ardia num céu claro como se fôsse feito de cristal, almoçaria mesmo em qualquer restaurante onde houvesse gente, barulho, tinir de louças e de metais, onde entrassem homens apressados e respirando fortemente, ocupados por uma actividade que os movimentasse, por um interêsse que os impelisse para a frente, sem repouso. Nesse logar, estaria melhor do que à sua mesa, diante dum fresco ramo de flores orvalhadas, de porcelanas, de esmaltes brilhantes, de pratas scintilando à luz, de toalhas de linho muito branco, tendo por companhia única o respeitoso Bernardo que o servia com a solenidade de quem celebrasse um rito e que respondia por monossílabos às suas perguntas... Pôs de novo o chapéu, pegou nas luvas e na bengala, dobrou a carta de Nuno, que guardou na gaveta, e chamou o criado para dizer-lhe que não almoçava.

―Mas, o almôço está quáse pronto!―informou Bernardo.

―Pois, come-o tu e que te saiba bem!...―atalhou, risonho.

Bernardo considerava-o com espanto, envolvia-o num olhar de surprêsa; e quando Frederico saíu, descendo as escadas com rapidez, murmurou:

―Umas vezes não almoça, outras não janta, deu agora em ficar fóra de casa, como um vadio, êle que era tam regular na sua vida... Está estragado... Enfim, eu nada tenho com isso. Sou servo, êle é patrão, tem dinheiro, tem saúde... Adeus, minhas encomendas...

Frederico, a quem a carícia do frio ar circulante refrigerava e desoprimia, encaminhou-se para a Praça da Liberdade, cortando ao acaso através de ruas ruidosas de multidão, coloridas, cheias de pitoresco, exibindo uma fisionomia característica. Nos bairros pobres, secava roupa atada em cordas por varandas e trapeiras. Ranchos de crianças sujas e rôtas erravam nas calçadas, brincando. Criadas de servir regressavam dos mercados e dos talhos com grandes cabazes de vêrga enfiados no braço. As lojas estavam apinhadas de compradores que, aos balcões, regateavam com os caixeiros. Desfilavam soldados, aos pares e de mãos dadas, com o

bonet

de vivos vermelhos sôbre a orelha e um ar obtuso nas frontes assimétricas e inexpressivas.

Perto de mercado do Anjo, duas peixeiras, de roupas descompostas e de gigas à cabeça, jogavam o braço furiosamente e insultavam-se nos termos mais duros e obscenos, entre um enorme ajuntamento de populares que riam, de bôca escancarada e de face contraída e vincada de rugas. A tôrre dos Clerigos subia na diafaneidade do espaço, projectando uma esguia mancha de sombra no ambiente luminoso e sereno.

Era a um sábado, véspera de festa. Para os lados do Bomfim, sôbre os telhados em que o sol caía a prumo, estralejavam foguetes que subiam, rechinando, no ar e que ao explodirem deixavam pequenas nuvens dum fumo branco e denso pairando na limpidez da atmosfera, como novelos de algodão que se esfiassem ao vento, sob o céu azul e fino.

Frederico marchava apressadamente, absorvido em emoções e cuidados íntimos, sem reparar na scenográfia exterior. A vida envolvente com as suas variadas formas, os seus coloridos, violentos ou ternos, a sua particular expressão, passava-lhe inteiramente despercebida, tam fundo era o recolhimento do seu espírito no drama sentimental de que não conseguia separar a personalidade psíquica. Sempre aquela obcessão a persegui-lo, sempre a venenosa flor dum venenoso desejo por Júlia―pela sua carne, pela sua beleza física, pela sua candura, pela sua graça fresca e luminosa―renascendo dentro de si, perturbando-o, embriagando-o como um perfume deletério! A luta―uma luta contínua de tôdas as horas, de todos os dias―extenuava-o. Já não podia, no desfalecimento de vontade que o esmagava, conduzir-se com firmeza pela própria razão ou pela parte incorruptivel e intacta do seu sentimento:―era conduzido pelo instinto sensual, sem dispôr de energia para uma reacção alacre e vitoriosa que o emancipasse da tortura intensa, que lhe restituisse à natureza espiritual o divino encanto perdido e a pacificação deleitosa. Nuno, ignorando a sua agonia secreta, chamava-o de longe, colaborando assim no monstruoso crime que pretendia evitar, concitando-o a uma traição que Frederico, no seu delírio, julgava já consumada porque lhe ardia na alma o lume dum amor impuro pela espôsa do amigo de tôda a vida, do camarada de estudos, do irmão com quem fizera, em plena concórdia, metade da jornada da existência. Era terrível! A fatalidade abatia-se inexoravelmente sôbre êle, encarniçava-se contra o seu infortúnio, exacerbava-lhe a dor. Frederico notava, com subtileza, a pequenez, a impotência do homem―mesmo quando ele fôr culto e dipuser duma sensibilidade―para dominar-se, para conter-se em face do mal, sempre que nesse mal houver a satisfação áspera dum gôzo, dum interêsse moral ou material. Nestes momentos, que incessantemente se repetem, o que no organismo humano, tam imperfeito, se impõe é a revolta da animalidade grosseira, apagando-se no ser consciente tudo quanto nêle há de superior!...

Mas, Frederico tentava ainda lutar contra essa animalidade, vencer a sua impetuosa paixão, conservar-se num estado de alma que o tornasse digno da afeição fraterna de Nuno, sem que tivesse de còrar de remorsos ou de vergonha, quando diante de Júlia êle lhe chamasse amigo e o apontasse como um exemplo de lealdade. Como não tinha confiança em si mesmo, como suspeitasse de que junto da mulher adorada em silêncio não pudesse esconder um amor que não devia revelar-se para poupar sofrimentos e afrontas, como temia que um instante de fraqueza e de desvairamento o levassem a cometer desatinos que não teriam remédio, caminhando aceleradamente nas ruas, cada vez se aferrava mais à ideia de não voltar a casa de Nuno e de esquivar-se a um encontro com Júlia. Longe dela, o perigo seria menor.

Pensando assim, enquanto à sua roda a multidão indiferente ria e palestrava, circulando activamente, Frederico chegou à Praça da Liberdade e entrou numa tabacaria a comprar charutos. À saída, encontrou-se face a face com alguêm que avançava para êle, de mão estendida, que o saùdava com uma exclamação jovial.

―Oh! Frederico, oh! ladrão!... Que feliz casualidade!... Há quanto tempo eu andava por estas acidentadas e sujas ruas portuenses à procura duma figura conhecida e sem a encontrar!...

―Oh! Duarte!... Duarte de Alarcão e Ataíde, dos Ataídes do Alentejo! Como diabo vieste tu parar mais uma vez a esta nobre cidade de tráfico e de negócios?

―Coisas estupendas, quimeras... Cheguei de Lisboa hoje, no correio da manhã e aqui me encontro.

Apertaram efusivamente as mãos, contemplaram-se por alguns momentos com simpatia.

―Estás mais forte e mais moreno, digno Alarcão e Ataíde!

―E tu mais corcovado e triste, D. Frederico!

―Que queres, amigo?―atalhou Frederico, desalentado.

Ça ne marche pas!

...

Duarte havia sido seu condiscípulo, no segundo ano da Academia Politécnica, onde não concluira o curso de engenharia por ter armazenado já, segundo confessava, a quantidade do sciência suficiente para viver saborosamente a vida, com a abundante pecúnia herdada. Era, então, ruidosamente alegre, brilhante de vivacidade, tocava na guitarra, que gemia entre os seus dedos, o fado do Conde de Vimioso, com que acordava os corações namorados das trapeiras em noites de luar e de serenata e que, no seu entender, constituia a página de música mais nacional e poderosamente expressiva que Portugal havia criado, desde que entrara nos horizontes maravilhosos da civilização.

―Verdadeiramente―asseverava êle, fazendo a

blague

―a nossa Pátria possue duas coisas grandes e de génio:―a descoberta do caminho marítimo para as Índias, que definiu os nossos compatriotas como marinheiros e perseguidores de aventuras, e o fado do Conde de Vimioso, que os definiu em tudo quanto nêles existe de elegíaco, de lírico, de subjectivo. Estamos diante de duas epopeias, meninos!...

Aquele admirável Duarte! Caía do céu, providencialmente, no meio das tristezas de Frederico, das suas derrotas, dos seus desconsôlos, para os dourar com uma réstea de alegria transitória como o sol doura uma paìsagem, depois da chuva.

―Tens estado sempre em Lisboa, desde que abandonaste o Pôrto?

-Não, criatura! De vez em quando, sempre que o país me satura de enfado, e, com as suas eternas farças, o seu entremez permanente, me comunica um fastio de Tibério exausto, faço as malas, viajo, desbestializo-me, tomando um banho de elegância, de lucidez mental, por essas bemditas nacionalidades cultas da Europa. E tu? Que fazes? Que tens feito?

―Nunca saí de Portugal, Duarte! Vou murchando, por patriotismo, no nosso torrão natal, como uma couve tronchuda. Sou assim patriota...

―E selvagem!... Tambèm razoávelmente selvagem.... E agora, para onde te dirigias, a passos largos, encurtando o caminho da sepultura, como afirma o

Eclesisastes

?...

―Deambulava por aí fóra, à procura dum sítio onde almoçasse sem escândalo. Porque não vens comigo, Alarcão e Ataíde? Faríamos um pequenino ágape, celebrando êste acontecimento festivo!

―Pois, aceito!... Que diabo, estou com debilidade, com fome. E nem sequer me lembrava!...

Atravessaram, lentamente, a Praça da Liberdade, em direcção à rua de Sá da Bandeira, parando a cada instante para relembrarem episódios passados, incidentes humorísticos da mocidade há muito olvidados. Os carros eléctricos corriam velozmente sôbre os

rails

, num incessante retinir de campaínhas de alarme, os automóveis fugiam no fio do vento, entre nuvens de fumarada, atroando os caminhantes com as suas

sirènes

; das tílias altas que, nos dias ardentes de verão, espalham sôbre a calçada nódoas rôxas de sombras afagadoras, desciam as derradeiras fôlhas. Duarte, enfiando o braço no de Frederico, evocava scenas hilariantes dos anos extintos.

―Tu ainda te lembras do Martinho, homem terrível da Beira e da batota, que numa noite de azar, vendeu a alma ao Diabo por dez tostões?

―Perfeitamente!... Foi para a África. Nunca mais se soube dêle.

―Por sinal que o Diabo, cansado de comprar almas inúteis para os seus fins de regenerar o mundo pelo espectáculo da tortura, não aceitou a oferta em condições excepcionais de preço, e Martinho, despeitado, pregou-lhe a maior descompostura que êle tem apanhado, desde Santo Agostinho!

Riram com satisfação, na beleza gloriosa da manhã que os remoçava.

―Pobre camarada!―continuou Duarte. Ao dr. Fausto, o Diabo deu ainda, com a juventude, a virgindade e a beleza de Margarida. Ao nosso companheiro, não deu nem dinheiro para cigarros. Era por isso que êle dizia, com rancor, que Satanás, depois que Goëthe o descobriu oculto na consciência, tinha perdido todo o prestígio... E que é feito de Nuno, êsse encantador conviva das ceias de S. Mamede de Infesta, com bacalhau e guitarras?

―Está casado... E já tem um filho.

―Oh! O sórdido burguês!... E talvez feliz, hein?

―Enormemente feliz.

―O animal!... Tu, solteiro.

―Sim, homem! Solteiro...

―Como eu!... Como os heróis de Tyrso de Molina, sempre à caça de rôlas assustadas. Fazes bem. É assim, justamente, que procedem os homens decentes.

Tinham chegado à esquina do Café Portuense. Duarte estacou, exclamando:

―No meu tempo, havia aqui uma fonte e um tanque. Uma noite, o Andrade,

o de medicina

, quis afogar-se nesse tanque, porque acabava de saber que a costureira que amava o traíra com um oficial de barbeiro. Suicidava-se não por orgulho ofendido, mas por estética. Tive um trabalhão para evitar que êle se molhasse... O que foi feito de tôda essa água?

―Secou, desapareceu.

―Como a fé nas almas!... Oh! os tempos modernos são iconoclastas.

Frederico, afagado por todo êste riso que se irisava de jovialidade como uma espuma ténue e branca se irisa à luz, sentia-se desoprimido das suas inquietações anteriores, e abençoava aquele encontro inesperado, que o distraía, que lhe tornava mais leve e desanuviada a vida. Por momentos, tudo lhe esquecia, tudo adormecia na sua memoria e no seu sentimento:―a carta de Nuno, o amor de Júlia, a luxúria em qu Frederico, afagado por todo êste riso que se irisava de jovialidade como uma espuma ténue e branca se irisa à luz, sentia-se desoprimido das suas inquietações anteriores, e abençoava aquele encontro inesperado, que o distraía, que lhe tornava mais leve e desanuviada a vida. Por momentos, tudo lhe esquecia, tudo adormecia na sua memoria e no seu sentimento:―a carta de Nuno, o amor de Júlia, a luxúria em que se afundava com Branca. Do fundo do seu coração subia o reconhecimento para aquele bom Duarte em quem a jovialidade era perene e espontânea...

Em frente do teatro Sá da Bandeira, ainda se detiveram. Frederico, riscando gestos no ar com a ponta do dedo enluvado, dizia:

―Na parede dêste edificio já havia aquele mesmo buraco, quando eu era estudante. Caíram tronos depois disso, morreram dois Papas, houve três guerras fulgurantes, o Império Celeste mudou as suas instituìções políticas, nasceram-me na cabeça os primeiros cabelos brancos e o buraco lá está. Só êle não evolucionou porque é um documento histórico e representa o amor, o carinho, com que o Pôrto defende a sua fisionomia secular.

―Não zombes, Duarte―atalhou Frederico. Essa tendência conservadora do Pôrto é uma das suas primaciais virtudes.

―Mas, não zombo! Primeiro que tudo, o amor à tradição. Só êle engrandece os povos, no sábio e verídico dizer de Fustel de Coulanges...

Foram andando vagarosamente, meteram pelas ruas próximas, dando uma volta, porque Duarte tinha curiosidade em ver certos logares que lhe evocavam os dias distantes da mocidade, que lhe relembravam certos factos, determinados acontecimentos. A cada instante, chamando a atenção de Frederico, lhe fazia revelações, dizendo:

―Tive antigamente por aqui um namôro. Ela chamava-se Faustina e eu considerava-me o seu Marco Aurélio... Bons tempos!

Mas Duarte, nas suas vagas observações, ia verificando que a cidade envelhecia, que a idade a deformava, lhe comia a côr e o viço, como se fôsse um rosto feminino em que a beleza da juventude fôsse morrendo.

―Tudo envelhece, afinal―murmurava tristemente―o corpo humano e as próprias pedras inertes que fendem, ennegrecem, se cobrem de musgos parasitários. Que formidável poder de destruição, o da morte! Nada é eterno!...

Voltaram, novamente, à Praça, entrando por fim num restaurante. Duarte, enquanto Frederico, depois de tirar as luvas e o sobretudo, escolhia na lista os pratos, coçando a ponta do queixo numa grande, embaraçosa irresolução, lamentava-se por não ter encontrado mais nenhum dos seus condiscípulos ou dos seus conhecidos doutrora. A vida era uma infatigável dispersadora de almas. Mesmo num país tam pequeno como Portugal, os que uma vez se separam, geralmente não tornam, a falar, a não ser por acaso.

―Homem, aí tens a lista. Vê se preferes algum cozinhado―exclamou Frederico.

―Não quero ver a lista! Escolhe tu, Brillat-Savarin. Mas, mete no festim alguma iguaria bem portuguesa, bem portuense, por causa da côr local, sempre necessária a românticos como eu sou, como tu eras...

Ao passo que esperavam, esfregando os garfos e as facas nos guardanapos, diante dos copos vazios e das porcelanas que reluziam sôbre a toalha da mesa, continuaram a conversa.

―Ora, tu pelo Pôrto, Duarte!... Que bela surprêsa!

―É verdade. Por aqui me trazem, durante algumas horas, os meus pecados...

―Aventuras amorosas, aposto...

―Efectivamente, trata-se duma mulher que amo e que me quere. O marido teve a triste lembrança de vir ao Norte, nesta ocasião em que Lisboa está tam bonita, o trouxe-a com ele, para amenizar a jornada.

―Oh! devasso!...

―Que remédio! O coração humano é assim... E nada de lições de moral, porque não me convertes.

Lições de moral! E com que autoridade?―meditava Frederico. Tambêm êle amava profundamente a espôsa do seu maior amigo, pensando nela constantemente como se Júlia fôsse o centro de tôdas as suas recordações, da sua própria existência. Quem tinha ensinado a essa mulher o caminho do seu coração? Por êsse amor sofria, por êle se via condenado a viver num permanente sonho doloroso, na agitação contínua das lutas indomáveis e estéreis, oscilando entre o desejo, a noção do dever a cumprir, a agonia e o desespêro.

―Não tens dêstes saborosos casos na tua história lírica, Frederico?―atalhou Duarte.

―Eu?... Que ideia!―respondeu êle, perturbado.

O criado surgiu, de repente, com uma travessa de peixe frito na palma da mão. Serviram-se, encetaram o almoço vagarosamente. Tentando desviar o fio duma conversa que lhe desagradava, avivando-lhe sentimentos amargos, Frederico, suspendendo o garfo e voltando-se para Duarte, inquiriu:

―Tens viajado muito, não é assim?

―Bastante. Sou mesmo uma espécie de Judeu Errante muito razoável para uma nação do tamanho da nossa. De resto, as viagens são os melhores mestres. Só elas nos ensinam essa fina sciência de sociabilidade tam útil na nossa época.

―Sabes que estou resolvido a viajar tambêm? Vieste despertar-me o apetite.

―Ainda bem que te forneci uma ideia excelente.

A cada momento entravam na sala homens com as golas dos

pardessus

erguidas até às orelhas roxas de frio, que respiravam com fôrça, tossiam, se punham à vontade, abancando pelas mesas e comendo com sofreguidão, por entre o ruído monótono das conversas e o barulho dos talheres e da louça, entrechocando-se. Êste tumulto irritava Frederico, já desgostoso com a promiscuidade. Curvado sôbre o mármore côr de rosa do mostrador, um empregado pachorrento, gordo, vermelho, com uma calvície enorme e a cara tôda rapada à navalha de barba, que lhe deixara na face uma sombra azulada, olhava maquinalmente a rua, através dos vidros das portas.

―Só viajando, a gente se instrue―afirmava Duarte, devorando o seu

beef

com ovos... Diabo, êste vinho é uma peste...

Ouvindo o amigo, Frederico ia pensando, a sério, num longo passeio pela Europa, numa viagem de esquecimento e de purificação em que sarasse o seu coração enfêrmo e acalmasse a sua imaginação exaltada. As grandes capitais, com os seus vibrantes espectáculos desconhecidos, as suas multidões, as suas sumptuosidades, as suas ardentes, imperiosas solicitações a pouco e pouco lhe comunicariam a tranqùilidade espiritual que tanto desejava. Porque não? Veria outros povos, outros costumes, outras civilizações, misturar-se-ia, contente, à onda duma vida complicada que faria por analisar e compreender na sua essência e na sua expressão; encontraria, por alguns meses, uma ocupação que lhe enchesse a alma, o distraísse, lhe serenasse a febre que o queimava. No isolamento em que se confinara, o seu amor por Júlia, longe de dissipar-se, havia de precisar-se mais, de difinir-se, de fortificar-se, por influxo da paixão que o devastava e que o esgotava de tôdas as fôrças vitais, sem deixar-lhe sequer o cuidado pelas banalidades práticas... Talvez que noutros países, noutras cidades, longe de Nuno, longe da sua adoração, esta violência sentimental que o pungia diminuisse, pela multiplicidade de diversões e de interêsse em que se absorvesse...

Tinham chegado à sobremesa, e Duarte, estranhando o silêncio de Frederico, perguntou:

―Em que profundos problemas cogitas tu, criatura?

―No problema de atulhar o estômago. A minha animalidade assim o reclama.

―Estás na verdade cartesiana. Comes, logo existes...

Sempre que no seu sentimento despertava o amor por Júlia―amor que não podia adormecer perpétuamente―Frederico verificava que êle lhe transmitia uma extraordinária abundância de impressões novas e intensas que terminavam por fatigá-lo, por deprimi-lo até à tristeza e ao desalento. Precisava subtraír-se a êste trabalho interior em que o seu ser se abismava. Viajaria, pois, e levaria Branca.

―Está decidido, Alarcão e Ataíde... Dentro em breve, terás um servo humilde para a Europa.

E voltando-se para o criado, pediu a conta que pagou.

Levantaram-se, acenderam os charutos, calçaram as luvas e saíram para a rua, aspirando consoladamente o ar vivo.

―Demoras-te por esta óptima cidade, D. Duarte?

―Não, menino. Parto ainda hoje à noite. As doces exigências do coração cumpriram-se. De novo me afasto.

―Que pena!

―E até peço desculpa, por te abandonar tam cedo, depois do almôço e do afecto. Enfim, outro poder mais alto se levanta, como disse o nosso épico.

Pararam um instante na rua, apertando as mãos.

―Quando vires êsse Nuno, dá-lhe um grande abraço, por mim.

Au revoir!

...

Até à noite, Frederico vagabundeou pela cidade, detendo-se diante das

vitrines

, seguindo com a vista alguma linda mulher que passava, num forte e aristocrático rumor de sêdas. A tristeza que de manhã, com a carta de Nuno, o invadira, acentuou-se, adensando-se cada vez mais. Que suplício!... Por muito que quisesse alhear o pensamento de Júlia, surpreendia-se constantemente a reconstruí-la na fantasia, a recordar os seus suaves olhos langorosos e profundos―uns olhos que diziam tudo o que dentro dela se passava...

A lembrança dessa mulher renovava-lhe incessantemente o sofrimento, mas era-lhe muito grata.

Cansado da sua interminável vadiagem, meteu-se num carro eléctrico com destino à Foz, maldizendo a esterilidade do seu dia sem uma emoção de beleza moral superior, sem um acto nobre.

―Como isto acabrunha! ― monologava, sentado em frente duma inglesa esgrouviada, alta e sêca, com uns cabelos dum louro sêco e uns óculos de ouro na ponta do nariz, que lia um jornal de Londres.

Foi nessa noute, jantando com Branca, que Frederico lhe disse:

―Sabes? Ando com vontade de ir até Madrid, até ao inferno.

―E então eu? Deixas-me?―perguntou ela com voz de mimo.

―Não! Levo-te comigo, para nos aborrecermos ambos. O tédio, dividido por dois, deve ser menos pesado...

VIII

O inverno tinha chegado, com efeito, à quinta onde Nuno e Júlia ainda permaneciam, sem pressa de regressarem à confusão e ao alarido da cidade, de que se esqueciam na paz, na beatitude da sua vida de recolhimento e de simplicidade, no enlêvo cada vez maior da sua ventura. Como viviam únicamente um para o outro, sentiam-se bem naquele isolamento de que nenhum sobressalto exterior quebrava o ritmo. Parecia-lhes que os seus pensamentos e as suas emoções ganhavam, na solitude, maior nitidez e mais intensidade e que um amor, de instante para instante mais forte, os aproximava tanto pela beleza moral como pela beleza física, enriquecendo os matizes afectivos da sua intimidade espiritual.

A hostilidade do tempo retinha-os quáse sempre dentro de casa. Grossas cordas de água fustigavam com violência as janelas, escorregando lentamente nos vidros, alagavam o jardim, davam, um aspecto lúgubre a paìsagem que se divizava ao longe, através duma cortina de névoa cinzenta e triste. Dos montes próximos, onde densos pinheirais ondulavam e ramalhavam à ventania furiosa, despenhavam-se as torrentes, descendo entre cachões de espuma até ao vale. Por vezes, dos telhados dos casebres, que donde a onde branquejavam na desolação campestre, subiam, colunas de fumo que se torciam, se esfarrapavam, dissipando-se na atmosfera baça. Grandes nuvens negras corriam no ar, do sul para o norte, impelidas pela rajada dos furacões. No cume das serranias havia uma claridade mais límpida do que nas encostas e nas colinas onde um espêsso vapor se acumulava. As árvores sem fôlhas do parque rangiam, gemiam ao vento. De noite, especialmente, o barulho que faziam era sinistro e assustava Júlia. De quando em quando, um pedaço de céu azul rasgava-se no alto, muito puro e translúcido, e uma pálida claridade de sol derramava-se docemente, como uma bênção divina, por tôda a aldeia, dourando a verdura das relvas humildes e rasteiras que vestiam a terra negra. Nestas horas, parecia que a natureza tinha uma alma de bondade e meiguice a comunicar-lhe o encanto supremo duma poesia indizível, e duma infinita piedade pelos desgraçados. Mas em breve o ambiente de novo se toldava e a obscuridade dilatava as perspectivas.

Em certas manhãs, Nuno, com o charuto na bôca, as mãos nos bolsos das calças onde tilintavam chaves, bem agasalhado pelas roupas quentes, assomava à varanda envidraçada, espreitando através dos vidros embaciados, e logo se refugiava junto de Júlia, murmurando:

―Que invernia brava hoje vamos ter!...

Ela olhava-o demoradamente, com êsse olhar em que se reflectia tôda a pureza e tôda a ternura do seu coração e que tanto o comovia, dizendo:

―Fizemos talvez mal em nos deixarmos ficar aqui. Devíamos ter partido nos fins do verão... Mas essas obras que nunca terminaram...

―Partir para quê?―inquiria Nuno, parando diante dela. O inverno é tam fastidioso na aldeia como na cidade. E nota! É mesmo curioso ver cair a chuva entre estas árvores, pelos flancos destas montanhas. Ao menos, temos horizontes largos, desafogados, respira-se. Estamos a assistir a um espectáculo inteiramente novo para nós...

―Mas, na cidade...―contrariou Júlia, com timidez.

―Eu sei. Na cidade, há os cafés, os cinematógrafos, os teatros, outras diversões. Mas ela apenas se torna indispensável para os que não teem família ou para os que não fazem vida familiar. Para mim, que passo as noites perto de ti, tanto me importa estar aqui como num centro imensamente populoso...

Ela agradecia-lhe fervorosamete aquela doce devoção, aquela constância de afecto que nunca afrouxava, e experimentava um calor de ventura que a penetrava tôda, que amaciava à sua roda as asperezas da vida. A confiança de ambos no futuro aumentava constantemente. Tinham olvidado tudo o que se passava para alêm da história lírica da sua paixão―que havia começado anos antes e que ainda não terminara; nem um nem outro se lembravam de ter padecido algum dia. As recordações dos seus tempos antigos diluiam―se, apagavam-se, fundiam-se na fluidez original. Uma nova fôrça, uma energia prodigiosa, pulsava nos seus sêres, renovando-os a cada momento. Dentro de casa, nas alvoradas hostis ou nas tardes tempestuosas, ocupavam-se na infinidade de coisas gratas que os cuidados da habitação oferecem. Júlia, com o saco de costura no regaço, bordava, cosia, enquanto Nuno lia as suas revistas e os seus jornais ou cortava as páginas dalgum livro recente que da cidade o seu livreiro lhe mandava. No abandôno íntimo dêstes saborosos instantes, se se contemplavam, subiam-lhes da alma à memória as longínquas recordações da sua adoração revivida, com extraordinária lucidez. Encontravam, então, um fino prazer emotivo em relembrar tudo o que mais de perto com essa adoração se prendia:―os logares idílicos em que ela tinha nascido, certos objectos e certos episódios que lhe imprimiam relêvo. A elaboração interior destas lembranças emmudecia-os longamente, abismava-os numa espécie de silêncio que temiam interromper e que voluntáriamente prolongavam, para que o seu gôzo espiritual fôsse mais duradouro.

Nuno conservava tam nítidamente na memória êsses acontecimentos, que podia reconstituí-los com facilidade, sempre que quisesse. Não lhe esquecera ainda, o mínimo detalhe do seu primeiro encontro com Júlia, que chegara certa manhã a um hotel de Vizela, com o pai, a mãe e o irmão, o excelente Roberto, que fôra educado em Londres, que tinha nas maneiras, na franqueza, na correcção do porte e no córte do vestuário, acentuados traços britânicos e que partira para a America do Norte, como empregado superior duma casa bancária, dois meses depois do casàmento de Júlia. Viram-se a primeira vez no parque, por uma tarde de luz e de alegria. Ela trazia um vestido de fustão branco muito justo que lhe desenhava claramente as formas plásticas, ondulantes e de linhas puras. O seu busto era perfeito de curvas e de contornos: a sua mocidade tinha a graça subtil duma flor plenamente desabrochada. O seu chapéu de palha côr de ouro com duas rosas vermelhas presas por uma laçada de gaze de sêda branca, fazia-lhe uma discreta sombra sôbre a testa, suavizava-lhe mais a luz dos olhos suaves, iluminando-lhe o rosto dum oval delicado, imprimia-lhe maior destaque à pele das faces e do colo, que parecia alumiada por uma claridade interior e que não tinha um vinco, uma ruga. Nas suas mãos, que eram magras, pequeninas e de dedos delgados, fulgiam pedras de aneis.

Cruzaram-se no passeio, trocaram um simples olhar e foi como se ficassem compreendendo-se para sempre―porque o amor casto dá aos olhos uma inteligência especial, um admirável poder de entendimento e de expressão. Daí em diante, nunca mais Nuno deixou de a seguir dócilmente para tôda a parte, indo aos chás a que Júlia se associava, às excursões, em grandes ranchos, às serras próximas, para a contemplação dos panoramas que se vislumbram dos píncaros mais altos:―a ondulação ininterrupta e irregular do dorso das cordilheiras, que evocava um colosso fulminado, tocado a espaços por manchas de folhagem verde, alteando e deprimindo a sua ossatura monstruosa na base, elevando-se bruscamente em saltos e galgões de terreno. Em baixo, ao fim da escarpa abrupta dos montes, a natureza rebentava numa torrencial explosão de arvoredos, de milharais, de pomares, de videiras de compridos braços, enroscando-se nos troncos de olmos e de cerejeiras, como as serpentes no coração do Lacoonte, subindo até às copas e vergando de cachos.

Uma frescura e uma abundância de écloga latina, que Vergilio cantaria, em estrofes immortais, corriam alacremente nos fundos vales que se almofadavam de ervaçais e sombras; e em tôda a extensão panorâmica, as serranias sucediam-se umas às outras constantemente, como um mar de enormes vagas terrosas que a tormenta açoutasse. As senhoras, assustadas com a grandeza do espectáculo, sentiam deslumbramentos e davam gritinhos de susto; os homens riam. E Júlia e Nuno, um pouco afastados dos grupos palradores, teciam as horas de sêda e ouro do seu amor que começava e que, não sendo já segrêdo para ninguêm, provocava risinhos maliciosos, ditos picantes ou de despeito.

Ao cair da tarde, quando regressavam ao hotel para jantar, nos olhos de Júlia havia uma extraordinária fascinação e, Nuno trazia uma alvorada na alma. Depois, à noite, no salão, organizavam danças, enquanto os homens de idade se reùniam às mesas dos jogos improvisados, para as suas fastidiosas partidas de

bridge

, e as damas, sentadas pelo salão, se emaranhavam em banais conversações sem fim:―e Júlia era sempre o par de Nuno, nas valsas...

Uma vez por outra, a colónia da estância balnear levava mais longe as suas digressões, ia até Guimarães, visitando as vélhas igrejas que resplandeciam das talhas douradas, até às Taipas, até Braga, seguindo em automóveis através de estradas cortando campos onde crescia o milheiral e os feijões se cobriam de flor, onde verdejavam os linhos tenros, onde um murmúrio de aragem passava nas messes já maduras, procurando as tiras de sombra veludosa e mole caindo das árvores que, duma banda e doutra, orlavam o macadame. Era uma festa para a vista e para o sentimento dos excursionistas tôda essa larga e incomparável paìsagem do Minho, túmida de seivas, de fôrça, de vigor e duma tam rara e prodigiosa vegetação. A cada instante se detinham à beira duma fonte que gorgolejava no jôrro cristalino das suas linfas, oferecendo fresquidão e consôlo pelos dias tórridos, perto duma levada de água de rega vinda de longe, rolando pedrinhas alvas, grossos saibros reluzentes, cantando misteriosamente nas espessuras discretas dos musgos ou das ervas e transmitindo uma gloriosa vitalidade às raízes. Incessantemente topavam, trotando no cascalho da calçada, as características diligências que rangiam aos solavancos, levando nas imperiais abades rubicundos com guarda-sóis de paninho vermelho entre as pernas e dentro tôda uma população em trajos domingueiros. No meio do estrépito das ferragens, o cocheiro praguejava, fazendo estalar o chicote sôbre o lombo dos cavalos cansados. Os melros assustavam-se pelas balsas floridas, voando para longe; erguiam-se nuvens sufocantes duma poeira cáustica e mordente. Às portas dos casais que davam para as estradas, sob ramadas onde as uvas amadurciam, iam acudindo, ao ruído dos automôveis que fugiam no fio da aragem, mulheres com grosseiras mãos escondidas debaixo dos aventais de riscado, crianças em camisa, com ventres enormes e a palidez de doença na cara suja. Cães ladravam, ameaçadoramente, por debaixo dos portões vermelhos das quintas: e a ranchada jovial dos excursionistas continuava a sua marcha, rindo, palrando distraídamente. Nuno lembrava-se de que―numa destas escapadas encantadoras, por um meio-dia de soalheira abrasadora em que foram ver o castelo de Guimarães, com a sua tôrre de menagem, os seus fossos cheios de ervas parasitárias, as suas seteiras, os seus travejamentos carcomidos―Júlia, ao passar por um quintal onde um alto damasqueiro, esgalhando ramagens para todos os lados, mostrava os seus frutos dourados e penugentos, teve de repente um desejo guloso de comer damascos; e logo êle, mandando parar o carro, bateu à porta da granja, pedindo que lhos vendessem. Imediatamente, uma voz de mulher veio de dentro, convidando-o a entrar, a escolher, a fartar-se, porque aquela fruta não se vendia:―dava-se.

―Não quero isso, não quero. Venda-ma...

―Oh! meu senhor, graças a Deus não precisamos. Olha agora levar dinheiro por uma miséria assim!...―teimou a aldeã, que era linda e ainda nova, acudindo ao limiar. Entre, entre...

E reparando em Júlia, que tinha ficado com o irmão no autómóvel, a mulher acrescentou:

―E a menina e outro senhor tambêm!... Com tôda a franqueza!

Por fim, entraram alegremente e merendaram, com delícia, sob o damasqueiro acolhedor, enquanto a aldeã, sorridente e com uns dentes brancos brilhando no seu esmalte entre uns lábios muito vermelhos, os incitava a comerem mais.

―E podem levar, se quiserem!―oferecia ela.

Chamava-se Maria da Luz, era casada havia seis anos com um lavrador abastado e já três criancinhas, de olhos muito espantados, belas como a mãe, se lhe agarravam às saias. Nuno, enlevado, deu uma moeda de prata a cada uma, para comprarem doces.

―Não! Isso é que não!―acudiu a aldeã, tôda còrada. Ficava-lhe por bom preço a fruta, meu senhor!

―Ora essa!―atalhou Nuno. Coitados dos pequeninos, que são tam simpáticos. Deixe, deixe...

As crianças estenderam a palma das mãos côr de rosa, apertaram, muito contentes, as moedas, enquanto a mãe lhes gritava:

―Então, como se diz?!... Como se diz?!... Êstes mafarricos que me consomem, não aprendem a bôa educação nem à mão de Deus Padre!...

Todos êstes inefáveis episódios duma época distante e bem feliz se tinham gravado fundamente no cérebro de Nuno; e diante de Júlia, que era sua espôsa, que era mãe do seu filho, sentia um prazer infinitamente doce em reavivá-los. O casamento fôra combinado ainda em Vizela, ao fim dum curto namôro, com grande desespêro de Frederico que tambêm estava nessas termas, que ia espairecendo os seus tédios entregando-se a um meigo

flírt

sempre novo em cada dia e que julgava severamente a imprevista evasão, do amigo, da vida despreocupada de solteiro...

Nas longas horas que agora passavam sós, dentro de casa, Nuno e Júlia gostosamente evocavam o seu passado, que era de dois anos―porque apenas começaram a viver uma existência séria desde que se conheceram e se ligaram por laços que nenhuma dor ou nenhuma fatalidade romperiam―e que lhes pareciam do dia anterior, tam rápidamente o tempo lhes fugia sem que êles o percebessem e sem que na sua emoção deixasse resíduos de amargura e de tristeza.

―Tu lembras-te?―perguntava êle, fechando o livro que tinha nas mãos, enquanto Júlia esquecia sôbre o regaço a agulha do bordado.

―Lembro!―afirmava ela com um sorriso que a espiritualizava e transmitia maior encanto à sua beleza. Lembro-me, como se tudo isso fôsse de ontem...

―Frederico não queria que eu casasse, dizia-me horrores da vida conjugal, procurava afastar-me de ti por todos os processos, teimava em que eu o acompanhasse numa viagem que tencionava fazer. Creio mesmo que chegou a ser teu inimigo, o pobre rapaz...

―Meu inimigo?... Que ideia! E porquê?

―É claro, não te tinha ódio, não te queria mal, mas não perdoava à mulher que lhe arrebatava o amigo de sempre, o camarada, o companheiro... Era só por isto!

Ah! êsse bom Frederico! Ambos pensavam um pouco nêle―Nuno com saùdade e com uma secreta pena daquela vida tam fecunda pela inteligência e pelo carácter, que se esterilizava, que era improdutiva, como um pragal áspero em que nunca, por acaso ao menos, caísse uma semente fértil; Júlia, com o encanto, com a afeição que lhe merecia o homem tam idêntico ao marido pelo coração, e de tanta grandeza de alma, de tanta finura de espírito...

―O que fará êle por êsse Pôrto, neste desabrido inverno?―interrogava ela.

―Aquilo que todos os rapazes, livres de responsabilidades caseiras, fazem, naturalmente. Êle não quis estar connosco, havia coisa que o chamasse, que o seduzisse... Mas, ouve! Não sei que singularidade descobri em Frederico nos últimos dias. Parecia-me mais desalentado, mais triste do que o costume, amava a solidão, quáse que me fugia... Apenas despertava da sua melancolia quando tocavas, no piano, essas páginas de Schubert que sempre admirou.

―Êle não tinha, para estar alegre, as mesmas razões que nós temos, bem sabes. É só, não ama, não é amado, anda á procura dum destino que ainda não encontrou...

―E que não encontrará jàmais. Aparentemente enérgico, é um fraco de vontade, sofre de preguiça de sentimento, tem os defeitos da raça a que pertence...

―Oh! Nuno! Que severidade!

―Não! Que amizade! Porque eu estimo profundamente Frederico. Não há alma tam leal como a dêle, dedicação mais capaz, de sacrifícios pelas pessoas a quem se devotar! Mas, minha filha, é incompleto como eu, como todos nós...

―Como tu?

―Como eu, não digo bem... Frederico foi mais infeliz...

As horas deslizavam apressadamente, nestas conversas em que ambos se entretinham e em que melhor se estudavam... Por vezes, discutiam juntos o mesmo romance, o mesmo poema, ou então Júlia ia para o piano e Nuno, de pé proximo dela, ia-lhe voltando as fôlhas do caderno de música. Nos momentos de repouso, enquanto a chuva caía, monótona e aborrecida, chamavam a ama, que acudia com a criança ao colo e um grosso grilhão de ouro ao pescoço. Júlia pegava no filho, com ternura e delicadeza, beijava-o num transporte, amimava-o, passava-o ao marido, que o embalava nos braços. O pequenino sorria, com a face cheia de covas, agitando as mãos, galrando, espalhando por tôda a casa uma grulhada infantil. Depois, Nuno beijava-o tambêm longamente, picando-lhe a carinha tenra das faces com a barba crespa, o que o fazia chorar.

―Dá-o cá! Coitadinho!... Tem mêdo dos teus bigodes de turco―dizia Júlia, sorrindo.

―Não! É que é já mais teu amigo do que meu, o ingrato...

À noite, em seguida ao jantar, quando a treva temerosamente afogava todos os aspectos na mesma confusa massa negra e o sossêgo envolvia a vivenda com as vidraças douradas pela luz, o criado, o Manuel, soltava os cães de fila durante o dia amarrados a fortes cadeados de ferro; as portas do rés-do-chão fechavam-se com estrondo; a Francisca, uma vélha cozinheira, arrumava a cozinha, que ficava em baixo, que era revestida de azulejos e que se iluminava com a fulguração dos metais e dos esmaltes faíscando, relampejando sob o clarão da fogueira. Os molossos, de afiados colmilhos saíndo-lhes da bôca babujada como pontas de punhais, latiam, uivavam no jardim e no parque, à ventania que sacudia vertiginosamente as árvores; outros latidos ouviam-se ao longe, vindos das granjas e das herdades; o pequenino adormecia ao peito farto da ama, ainda com o bico rosado do seio que o amamentava na bôca sem dentes, e era levado com mimos e cautelas para o berço, aquecido antecipadamente com botijas de água a ferver: e Nuno e Júlia continuavam ainda os seus serões, conversando, lembrando-se piedosamente dos pobres que não teriam roupa nos leitos, por aquele frio, enregelado, hostil inverno, e experimentando uma ternura doce e secreta no isolamento rural em que se confinavam com a sua felicidade―almas satisfeitas e contentes que nada mais queriam da vida...

Uma vez por outra, o céu desanuviava-se, as manhãs raiavam límpidas como uma imensa e pura flor azul que desabrochasse iluminada por um sol muito louro que dourava os outeiros, os cimos dos montes, tocava as altas ramarias dos arvoredos dum fulgor vivo que parecia arder, scintilar no esplendor da atmosfera. Então, a alegria ressuscitava na paìsagem soturna como uma ave que, pela primavera, é de repente surpreendida pela alvorada gloriosa entre os ramos floridos e começa a cantar sob o mistério celeste de que vitoriosamente desce a luz. Envolvidas pelo banho fulvo da claridade, as próprias coisas inertes pareciam impregnar-se de alma, davam a ilusão de serem dotadas de movimento. Errava no ar uma beleza esparsa; as perspectivas, na nitidez do ambiente, prolongavam-se indefinidamente, cheias de poesia e de vago. A vivenda, elevando-se no meio do jardim, com as suas grossas paredes, as suas varandas, os seus telhados de largo beiral onde as pombas arrulhavam em certos instantes, as suas escadas de pedra com grades de ferro pintadas de verde, em que as roseiras de trepar se enroscavam, animava-se tambêm com o júbilo triunfal daquela festa da natureza. Mais satisfeitos e expansivos, os criados palravam na cozinha, à volta da mesa do almôço.

Uma temperatura morna que fazia inchar os gomos das árvores e das madre-silvas dos valados―que em maio se cobriam de florações e ofereciam embalo e perfume aos ninhos inocentes―convidava aos lentos, agradáveis passeios. Nuno, sentindo o coração desopresso e ligeiro, corria a levar a Júlia a bôa nova, em palavras comovidas e risonhas, interrompendo-a no seu trabalho.

―Que linda manhã, meu amor!―exclamava êle. Vem daí! Faremos uma pequena digressão pela quinta... Até nos abrirá o apetite e nos renovará a saúde. Ao mesmo tempo, desentorpeceremos as pernas emperradas por tôda uma semana de cativeiro.

―Pois vamos!―concordava ela com júbilos e ingenuìdades quáse infantis. Gosto tanto de passear matinalmente!

Animada e sorridente, Júlia vestia a tôda a pressa um casaco de agasalho, calçava as galochas sôbre os pequeninos sapatos de verniz, punha na cabeça um gorro de lã branca, feito por ela nos seus serões, e saíam ambos, de braço dado, aspirando o cheiro acre da terra molhada, internando-so pelas sombrias e ermas alamedas do parque onde as mimosas começavam a florir na pompa dos cachos de ouro pálido, tremendo brandamente à aragem e a que o sol imprimia mais brilho e côr, desciam, por caminhos empedrados, às terras de cultivo já verdejantes de pastos para o gado, dos trêvos, torneavam as extensas vinhas que enchiam tonéis, em setembro, dum vinho aromático e leve, passavam pelos vergeis bem tratados onde, em abril, as pereiras, os pessegueiros e as macieiras vergavam de florescências multicôres que lembravam irisados enxames de borboletas levantando vôo, e paravam, enfim, diante da habitação destinada ao caseiro e que era o orgulho de Nuno.

―Vês tu o que se fez, hein? E a planta foi minha. Para alguma coisa havia de servir-me o curso de engenheiro. O vélho Mateus está aqui óptimamente instalado com a sua gente―dizia êle. Não parece?

Júlia aprovava, com um gesto afável da cabeça, enquanto Nuno minuciosamente lhe ia fornecendo mais indicações:

―Aqui―explicava êle―é a casa de moradia; alêm, ficam os estábulos para os bois, os currais para os porcos, os alpendres para a guarda dos apetrechos de lavoura... Dêste lado, mandei construir as adegas, a eira, o espigueiro e os celeiros. Que me dizes a tudo isto? Olha que foi obra minha!

Na graça luzente da manhã, as paredes caiadas de branco alvejavam sob o tom vermelho dos telhados. Ao fundo, para lá dos terrenos agricultados, rumorejavam pinheirais e cresciam os matos aromáticos que o rosmaninho, no estio, pintalgava de manchas rôxas. Júlia, enlevada, contemplava o marido com ternura, afagava-o com o olhar.

―E agora―continuava Nuno, depois de terem avançado mais alguns passos―aqui está o grande tanque que me deu que entender e em que tanto te falei, durante todo o verão findo, não sei se te recordas.

―Recordo!―afirmava ela.

―Servirá de reservatório das águas de rega que fui buscar longe, por meio dum cano, à encosta daquele monte de pinheiros. Oh! é uma água maravilhosa, muito pura, filtrada por camadas sobrepostas de rocha, e saibro grosso. Quando, nos dias quentes, a colhia para beber, o copo ficava logo nevado. É saborosa e frigidíssima. Porque não mandas a Francisca buscá-la à bôca da mina para o nosso chá? Ando há tanto tempo para dizer-te isto e esquecia-me sempre!...

―Está bem, mandarei―prometia Júlia.

―Pois, essa água corre para êste tanque. Quando se quiser regar, é só soltar a levada e ei-la por êsses campos, fluindo, fecundando, dando alento às plantações e às sementeiras!

―O que tu sabes já das lidas agrícolas, Nuno!―exclamava ela com admiração.

―Minha filha, tem-se estudado um pouco o pelo processo prático, que é ainda o melhor―respondia êle, jovialmente. O meu verão, êste ano, foi útil!

O caseiro, o tio Mateus, se os pressentia, vinha logo para êles, de chapéu na mão, com o seu rosto enrugado que o bom riso sadio, vindo da alma, espiritualizava de bondade, cumprimentando-os respeitosamente. Nuno correspondia ao cumprimento, murmurando:

―Olá! É você, Mateus? Então, como vão os trabalhos, homem?

―Crédo, meu senhor! Com êste inverno de desgraça e de castigo, nada se pode fazer. Tudo parado. As terras estão encharcadas, são lama...

―Não que tambêm nós nunca nos contentamos com o que temos. Se o bom tempo e o calor se prolongam, pede-se, implora-se chuva com preces, orações, lágrimas. Afinal, chega ―Não que tambêm nós nunca nos contentamos com o que temos. Se o bom tempo e o calor se prolongam, pede-se, implora-se chuva com preces, orações, lágrimas. Afinal, chega a chuva, e a humanidade sempre insatisfeita de novo deseja sol. Deus deve ver-se e desejar-se com pedidos tam contraditórios, não é verdade, tio Mateus?―perguntava Nuno alegremente.

―Deus é sábio, é justo, sabe o que faz, meu senhor―replicava o caseiro, rindo. Mas tudo se quere em conta. Nem muito ao mar nem muito à terra. Assim é que é...

―E a doente está melhorzinha?―inquiria Júlia.

―Melhor, coitadinha?... Vai vivendo!... As melhoras dela só na cova. E tanto tem sofrido!...

―Não fale dêsse modo, tenha esperança...

―Pois esperança tenho eu. Esperança e paciência, que ela tudo merece―concluía êle, com voz enternecida e trémula.

Comovida, Júlia fitava-o; e êle, para desviar o rumo da conversa, que o fazia sofrer, acudia:

―Então, hoje a passear?

-Com êste bom sol, não podíamos ficar fechados―dizia Nuno.

―Está de rosas, meu senhor, de rosas!...

Demoravam-se ainda a tagarelar por alguns instantes e depois; vagarosamente, regressavam a casa, na imensa paz que envolvia a natureza e que baixava sôbre árvores, lameiros, casais e selvas, como uma bênção. Voltavam joviais, traziam a alma dilatada de encanto. Como o inverno era lindo na aldeia! Na cidade, os grandes espectáculos naturais passavam-lhes despercebidos na agitação das atormentadas aglomerações humanas, nas atmosferas toldadas de fumo.

―Aquele Frederico, aquele doido!―bradava Nuno. Podia ter ficado aqui connosco, a fazer um severo exame de consciência, a rejuvenescer. Era uma companhia e purificava o sentimento que agora talvez traga pelos boeiros citadinos!...

―Jesus, Nuno! Que expressões tam duras!―repreendia Júlia.

―Sim! Pelos boeiros, pelas sargêtas. É assim mesmo. Hei de dizer-lho com esta ferocidade, numa carta terrível... Enquanto que aqui era a luz, era a pureza...

Lavavam-se, almoçavam com saborosas lentidões, conservavam-se à mesa por muito tempo, conversando. E à tarde, ainda tornavam a sair, atravessando pousios, congostas entre sebes, visitando a aldeia próxima, com um interêsse, uma curiosidade que nunca findava...

Um dia, logo ao romper da manhã, a ama foi tôda aflita bater à porta do quarto, chamando Júlia.

―Que quere?―perguntou, ela, de dentro.

―Era para contar à senhora uma coisa a respeito do menino, que não está bom.

―Que diz você, mulher?...―gritou Júlia, com voz angustiada. Tu ouves isto, Nuno?...

Saltou da cama, vestiu um roupão, calçou as chinelinhas de setim côr de rosa, bordadas a branco e ouro, que estavam sôbre o tapête, e correu logo, assustada, inquieta, enquanto o marido, alarmado, se levantava tambêm, vestindo-se atarantadamente.

―Que tem o menino?―perguntou Júlia, abrindo a porta da alcôva. Onde está êle, onde o deixou você?

―Deitado no berço... Está um pouco desassossegado...

Júlia dirigiu-se ao quarto da ama, que ficava ao lado do seu, entrou desvairadamente, fóra de si, sacudindo, com irritação nervosa, as madeixas do cabelo solto que lhe caíam sôbre a testa, ajoelhou junto do berço da criança que ergueu carinhosamente nos braços. Encostou-lhe a cabecinha inocente e desfalecida à sua face, amimou-a, passando-lhe levemente as pontas dos dedos pela carne tenra do rosto, murmurando com indizível ternura:

― Está doentinho, o meu amor?... Está?!...

Afastava-o de si, amparando-o com as mãos amorosas, para melhor, mais demoradamente o observar, espreitando, comovida, os seus olhos amortecidos com um círculo arroxeado à volta, e achava-o, na verdade, mais pálido, mais abatido.

―Oh! minha Mãe Santíssima! Mas isto que será? Como notou você a doença do meu filho, ama?

―É que, durante a noite, tossiu algumas vezes, minha senhora.

―Tossiu?―perguntou Júlia, aflita. E a tosse era rouca?

―Pois era!...

―E porque nâo foi logo avisar-me?

―Pensei que não seria nada!...

Nuno, que tinha acudido tambêm, curvou-se sôbre o ombro de Júlia, envolveu o filho num olhar de inquietação e de meiguice, inquirindo:

―Afinal, o que tem? Parece-me tam tranqúilo!...

―De-pressa, Nuno! Manda já um criado a Guimarães, a procurar um automóvel fechado. Que vá a cavalo... E que se não descuide. Temos de partir imediatamente para o Pôrto.

―Um automóvel?... Partir imediatamente para o Pôrto?―interrogava Nuno, maquinalmente, Mas espera!... Dize...

-Depois te digo... O criado que vá sem pêrda de tempo... O nosso filho tem uma tosse rouca. Sabes o que é?... Não sabes? É a difteria, é talvez a morte...

Nuno, empalidecendo, abalou, enfiado, pelo corredor, desceu a quatro e quatro os degraus da escada, gritou:

―Manuel! Manuel!... Onde estás tu?

―Aqui, patrão!―respondeu o servo, saindo dum canto e trazendo nas mãos um pedaço de camurça com que estava limpando e polindo metais.

―Pousa o que estás a fazer, monta na égua e vai a Guimarães, onde procurarás um automóvel fechado, por todo o preço. Que venha a tôda a velocidade. É um caso urgente.

―Sim, meu senhor.

―Mas vai! Deixa-te de cumprimentos, de mesuras, que diabo! Se te estou a dizer que é urgente!...

O criado desapareceu de pronto, e Nuno, desorientado, ficou na cozinha, passeando agitadamente, a largos passos, sôbre os mosaicos. Justos céus! A difteria! O seu filho tinha a difteria. Êle havia de assistir, impotente, longe de todo o socorro da sciência, ao lento agonizar dum corpinho sem culpa em cujas veias corria o seu sangue, em cuja alma inocente se fundia tambêm a sua alma! Havia de vê-lo asfixiar, com o rosto congestionado, os olhos saltando fóra das órbitas, sacudido por convulsões horríveis e sem poder acudir-lhe! Era terrível, terrível! Do seu coração de pai subia urna grande, avassaladora cólera, contra tudo e contra todos. Que mal faria aquele pobre sêr de castidade e de luz que nem sequer conhecia a vida e que tam cedo começava a sofrer dos seus males inevitáveis para que fôsse submetido a uma tal tortura?... Esquecia-se de Júlia que em cima soluçava, andava dum lado para o outro, mudo, sombrio, puxando as barbas, arrepelando-se.

―Que foi, meu senhor? Que desgraça aconteceu?―perguntou a cozinheira, que o contemplava, assustada, encostando-se ao fogão ainda apagado.

―Um horror, Francisca. Um verdadeiro horror. O menino está muito doente.

―Santo Deus!―exclamou ela.

―E temos de ir já para o Pôrto, a senhora, o doente, a ama, eu e tu. O Manuel e as outras criadas ficam ainda a pôr tudo em ordem, e seguirão mais tarde. Arranja as coisas, despacha-te.

Subiu, novamente, a escada como um autómato, governado mais pelo instinto do que pela inteligência. O padecimento alheio sempre o tinha perturbado; mas agora o de seu filho era-lhe atroz... Sentada numa cadeira de braços, com a criança aconchegada ao peito, Júlia chorava silenciosamente. As lágrimas caíam-lhe fio a fio dos olhos. Perto dela, a ama repetia sem descanso:

―Uma destas, uma destas!...

Nuno parou diante da espôsa, revolvendo com as mãos chaves que tinha no bôlso, entalado, sem poder articular as palavras, sem saber como havia de consolar aquela dor inconsolável.

―Que desventura a nossa, que desventura!...―gaguejava Júlia.

―Mas tranqùiliza-te, por Deus! Pode ser que a doença não valha nada, que te enganes―acudiu êle, por fim.

―Tenho um pressentimento funesto! E olha que as mães nunca se enganam.

E voltando-se para a ama:

―Pegue no menino, mas com cuidado... Vou-me arranjar. E veste-te tambêm, Nuno, para estares pronto.

-Sim, menina!...

Uma hora depois, um automóvel parava, em baixo, junto do portão do jardim. Nuno chamou as criadas, deu-lhes ordens para elas transmitirem a Manuel, mandou que, depois de tudo arrumado, seguissem para a casa do Pôrto e entrou no carro com Júlia―que conduzia o filho ao colo, muito embrulhado, agasalhado em lãs quentes―com a ama e com a cozinheira, dizendo ao

chauffeur

que, até Guimarães, largasse com a maior velocidade.

Estava uma cinzenta e fria manhã ameaçando chuva. Pelos altos montes, por vales tristes e planícies monótonas, a paìsagem azulava-se no ar baço. Um vento glacial sacudia os ramos das árvores. Nuno e Júlia nem sequer olhavam para fóra, através das portas de vidro do automóvel, concentrados como iam no seu sofrimento.

Em Guimarães, procuraram alvoroçadamente um médico, que logo os tranqùilizou, com um sorriso, acabando de observar o pequenino enfêrmo. Não era caso para sustos―afirmou.

―Oh! doutor! Quanta alegria nos dá!...―interrompeu Nuno, avançando para êle e apertando―lhe efusivamente a mão.

―Mas não é a difteria?―perguntou Júlia, ainda duvidosa. Êle tem tosse rouca!

Não! Não era a difteria―asseverou o clínico, já vélho e ageitando os óculos de aro de ouro sôbre o nariz. Uma simples bronquite sem complicações que a tornassem de mau carácter. Curava-se com resguardo, num compartimento em que não houvesse oscilações de temperatura, e com a aplicação de revulsivos externos.

―Vês, Júlia?―disse Nuno. Não é nada de cuidado. Eu bem o dizia.

―O alarme desculpa-se nas mães... É tam natural!―exclamou o médico.

―E até podíamos voltar para trás, continuarmos a nossa estada na aldeia.

―Não!―replicou Júlia com firmeza. Para trás, não voltaremos. Já que estamos aqui, seguiremos para o Pôrto. Não ficaria sossegada.

-Pois, como quiseres...

O médico receitou, deu instruções; Nuno pagou a consulta generosamente. Despediram-se e reentraram, mais calmos, no automóvel, continuando a viagem―através de estradas, de campos melancólicos, de bosques que rugiam à ventania―para o Pôrto, onde chegaram de tarde e já com uma chuva desabrida fustigando as casarias, alagando, encharcando as ruas negras duma lama viscosa, quáse líquida. Moravam em Costa Cabral, numa vélha casa apalaçada de dois andares feita no gôsto arquitectural das antigas vivendas portuguesas, e que todo o verão estivera fechada. Foi um reboliço na habitação deserta e cheia de treva. O automóvel largara velozmente, e, enquanto Júlia, com o filho nos braços, procurava, no átrio imerso em escuridão, uma cadeira para sentar-se, Nuno, a ama e a cozinheira, abriam portas e janelas com alarido, para que a luz diurna entrasse e desse vida e alegria ao casarão ermo.

Outros médicos vieram e receitaram, nesse mesmo dia, serenando temores sem motivo. A pouco e pouco renasceu a confiança na alma de Júlia e de Nuno que, todo ocupado com a sua reinstalação inesperada no palacete da cidade, não saía, lidando activamente, dando ordens, substituindo na vivenda a espôsa que não deixava, ainda atribulada, o leito da criança. E agora, outra vez no Pôrto, outra vez na sua morada citadina, sentia-se bem, entre mobiliários que conhecia e que considerava como amigos vélhos, entre paredes a que se afeiçoara, no meio dum ambiente de quietação em que vivera desde a infância, em que morara, a que tantas recordações inolvidáveis andavam presas. Novamente a felicidade entrava na sua alma, na alma de Júlia, que assistia amorosa e risonha à convalescença do filho. A nuvem agoureira passara, dissipara-se inteiramente. Já se encontravam outra vez reconciliados com a vida que, por momentos, os amargurara.

―É verdade, Júlia―dizia uma noite Nuno. Sabes de quem me lembrei agora, repentínamente? Foi de Frederico! Ainda nem sequer apareceu!

―Pois tu não tens saído, nem sequer lhe escreveste! De-certo que ignora o nosso regresso. Ninguêm o sabe, alêm dos vizinhos... E pode ser até que não esteja no Pôrto...

―Ah! não! Não deixaria a cidade sem me avisar... E estou zangado com êle―concluiu Nuno, risonhamente. O coração dum verdadeiro amigo devia adivinhar. Serei duro, quando o aviste. Há de ouvi-las bonitas...

Fóra, na rua, os candeeiros de iluminação pública chamejavam ao vento, sob um céu acarvoado. A patrulha da guarda deslizava como uma sombra, sem ruído. A aglomeração das casarias ia adormecendo no silêncio nocturno...

IX

Frederico sentia-se cada vez mais esgotado de energias, mais fraco de vontade, à medida que se gastava nos delírios da paixão carnal, nos desvairamentos duma existência que nem sequer procurava já equilibrar, porque a vida, para êle, perdera todo o interêsse. À sua excitação física, de dia para dia mais intensa, correspondia um desfalecimento moral que constantemente se agravava, debilitando-lhe o carácter, secando-lhe as fontes criadoras de sensibilidade. Convencido da sua própria impotência, trazendo no peito um coração árido, invadido por uma dolorosa melancolia que só os acessos da sensualidade, em horas letais de luxúria, conseguiam dissipar por momentos, levava uma existência desregrada de prazeres de tôda a sorte, em que a luz da sua própria inteligência, tam lúcida outrora, principiava a vacilar. Contudo, conservava-se no seu sentimento alguma coisa que não queria morrer, que era vivaz, persistente, que se obstinava em persegui-lo, empurrando-o violentamente para as maiores loucuras:―o seu amor por Júlia. Era uma obcecação, uma ideia fixa que o aguilhoava sem repouso, por mais que pretendesse esquecê-la. Temendo que o isolamento, a solitude, exacerbassem essa adoração perversa e abominável, que o enxovalhava sempre que espreitava, espavorido, a própria consciência, freqùentava os teatros e o jôgo assíduamente e perdia grossas quantias com absoluta indiferença, porque apenas desejava aturdir-se: arranchava a comesainas tumultuosas com os amigos e ía depois, exaltado pelo alcool, passar a noite com Branca, que definitivamente se apossara dêle e que Frederico considerava como um mal necessário ao apaziguamento da sua tortura, como uma ilusão mentirosa de que derivava, para a sua inquietação permanente, um pouco de tranqùilidade. Os seus nervos enfermos careciam daquela mulher, como certos doentes carecem de venenos para adormecer uma dor fulgurante que os angustia. Consagrava-lhe por isso reconhecimento em vez de ódio. A casa em que a tinha instalado, com riqueza e luxo, era para êle, nas horas de maior atribulação, o logar que uma graça consoladora habitava. Nestes momentos devastadores, submisso como um crente, pousava sôbre a fronte doce e pálida de Branca um beijo quáse religioso, que ela lhe agradecia com um sorriso inexpressivo.

Em certos instantes mais calmos, porêm, quando podia observar-se com lucidez, julgava-se serenamente, acusava-se de se estar aviltando e praticando uma infâmia, procurando apagar com a febre duma lascívia brutal a recordação dum amor puríssimo. Alarmado, cheio de remorsos, entregava-se a longas cogitações, tentando encontrar uma explicação para aquela anormalidade. Que natureza vulgar ou grosseira era a sua que, em vez de ter uma origem de inspirações divinas na paixão amorosa mais elevada que até aí o fizera vibrar, tinha nela, afinal, só um estímulo que o impelia para as abjecções deprimentes? Como é que o amor por Júlia não iluminava a cegueira da sua alma, o não sublimava de tôdas as imperfeições terrestres? E seria, na verdade, amor o que por ela sentia ou apenas um desejo bestial:―o desejo do seu corpo tam perfeito, da sua carne esplêndida, da sua beleza perturbante? Duvidava da sua sinceridade, e sofria mais amargamente por esta dúvida.

O entusiasmo que a ideia duma demorada viagem pelo estrangeiro nêle despertara, em breve arrefeceu. Não manifestava curiosidade por nada: a alegria de viver havia fugido do seu espírito: e pensava, com terror, na perspectiva de sair de sua casa, do seu país, para meter-se, com um monte de malas, em combóios que rolassem monótonamente por terras desconhecidas, para viver na barafunda dos hoteis, entre multidões indiferentes e egoístas. Que enorme alteração tudo isto representaria para os seus hábitos rotineiros, que fadiga mesclaria ao seu cansaço e que tédio juntaria ao seu aborrecimento! E, afinal, para quê? Que lucro positivo tiraria êle duma vagabundagem a outras nacionalidades habitadas por povos diversos do seu? Não lucraria nada! De resto, só se deve viajar em absoluta serenidade espiritual, em pleno contentamento de alma: e Frederico não possuia nem essa serenidade nem êsse contentamento essencial. Não! Não abandonaria o Pôrto. Neste burgo se iria definhando, consumindo, aniquilando!...

Às vezes, Branca, abraçando-o, amimando-o, com carícias em que se não escondia o frio, a secura, o desinterêsse, relembrava-lhe a promessa que Frederico lhe fizera de a levar ao estrangeiro. Gostava tanto de ir a Paris! Ai! Paris era a sua ambição! E, para o convencer, apontava-lhe exemplos de rapazes com dinheiro que tinham ido com as amantes, numa jovial jornada, por essa Europa fóra.

―O Gusmão, por exemplo! Levou a Adriana.

―O Gusmão?―inquiria Frederico. Quem é êsse Gusmão?

―Ora! Tu conheces!... Um trigueiro, de grandes bigodes, que tem um lindo automóvel e que vive aí para os lados de S. Roque. Há quantos anos êle pôs a Adriana por conta! É como se fôssem casados. Aquela sim. Está de grande!...―terminava Branca, fazendo beicinho.

―Pois tambêm tu hás de ir ver a Europa, sossega. Mas mais tarde... Por enquanto, não posso. Preciso primeiro de deixar umas coisas em ordem―afirmava êle, sentando-a nos joelhos e passando-lhe um braço à volta de pescoço.

―Sim, sim! Bem acredito eu nisso!...

―Não acreditas!... Olha para mim... Mas olha bem de frente. Dize lá. Eu tenho cara de quem mente?...

―Não quero dizer que mentes...

―Então, que queres dizer?...

Ela não respondia, fazia-se mais amáv Ela não respondia, fazia-se mais amável entre os seus braços, pousava-lhe a cabeça no ombro, muito terna, muito quebrada, com geitos estudados e pieguices; e Frederico, perturbado, beijava-a furiosamente, exclamando:

―De resto, para sermos felizes, não precisamos de sair daqui...

Uma noite, de volta do teatro Sá da Bandeira, onde fôra ver uma revista deplorável, sem vivacidade, sem espírito, sem arte, maculada por ditos e situações lúbricas, encontrou na rua o jovial Paiva que passava, muito embuçado, rente às paredes.

―Pára aí, criatura―bradou Frederico. Há quanto tempo te não vejo!...

―Oh! menino! Pois és tu?―respondeu Paiva.

Cumprimentaram-se, trocando um demorado apêrto de mão.

―Para onde diabo vais, a esta hora e com tanto mistério, Paiva magnífico?

―Vou para o namôro.

―Para o namôro?...

―Sim! Um caso de sentimento, uma inclinação irresistivel, com diálogos de janela, noite alta―porque o pai é austero―com estrêlas que se contemplam tristemente, com suspiros. Coisa muito séria.

―Oh! Paiva! Tambêm tu?

―É verdade, grande Frederico. Tambêm eu! Que queres? Assim acabam todos os românticos. E adeus, filho. Não posso demorar-me. Já vou tarde. A pequena espera-me... Olha! Aparece qualquer dia, para conversarmos. Depois te direi tudo.

―Vai! Sê pontual como Romeu. Não faças sofrer com a tua ausência os corações ingénuos.

Partiram cada um para o seu lado, em sentido oposto; mas, apenas Frederico tinha dado alguns passos, Paiva, voltando-se de repente, chamou-o aproximando-se novamente dêle:

―Ouve lá, ó Frederico... Ia-me esquecendo... Tu sabes quem está no Pôrto, chegado há seis ou sete dias?

―Não sei. No Pôrto está tanta gente!

―Pois, é Nuno, o teu amigo Nuno.

―O quê?―bradou Frederico, sobressaltado. Nuno? Não pode ser.

―E porque não pode ser? Se eu te estou a dizer que está! Vi-o esta manhã na Praça da Batalha. Vinha do correio... Parámos um momento a palestrar. Até êle me perguntou por ti.

―Essa agora! Nuno no Pôrto! E sem me dizer nada!

―Como não te disse nada? Tu é que lhe foges, ao que parece. Já te procurou em casa e não te encontrou. Deixou-te uma carta urgente e não lhe respondeste! Foi o que êle me asseverou, e até um pouco ressentido... Aparece-lhe! Escreve-lhe... E adeus!

Com efeito, havia uma semana que Frederico não ia a casa. Branca retinha-o, no seu leito de amante, uma parte da noite e uma parte do dia, porque só muito tarde, às vezes de madrugada, lhe batia à porta, de regresso das estúrdias ou das bancas de tavolagem com a roupa em desalinho, o olhar vago e ardendo dum brilho especial, numa secreta e áspera revolta contra si próprio. Ficava tôda a manhã deitado, dormindo com as mãos fechadas junto da cara, a pele humedecida por uma transpiração álgida, agitado de sonhos pavorosos. Quando o sol ia já muito alto, entrando no quarto em feixes de raios difusos e rutilantes e inundando móveis, cortinados e tapêtes com a sua dourada cabelugem que faíscava, lampejava nos espelhos, Branca acordava-o, sacudindo-o com fôrça, chamando-lhe dorminhoco, tirando a roupa da cama, entre gargalhadas. Frederico espreguiçava-se, bocejava. Ela, de

robe-de-chambre

de sêda, cabelos soltos e despenteados caindo-lhe pelas costas, um ar petulante e vicioso que punha uma desagradável mácula na sua meiguice mas que a tornava mais picante, aninhava-se nas tapeçarias que alcatifavam o soalho, rolava a cabeça na beira do leito com lentidões de gata amimada, ria-se da moleza de Frederico, fazendo-lhe momices que êle repelia, enfastiado. Sempre que despertava dos seus desvairos sensuais, sentia um desgôsto muito fundo pela miséria moral em que ia resvalando rápidamente, sem coragem para romper com torpezas o reentrar numa existência honesta. Branca amuava, dizia-lhe que êle já a não amava, que estava morto por desfazer-se dela, falava em morrer.

―Mas, vê lá! Se me queres deixar, confessa-o francamente!―acrescentava.

Frederico irritava-se, chamava-lhe douda, saltava do leito, tomava banho, vestia-se, reconciliando-se com Branca; e, então, volvidas horas de repouso que êle aproveitava para ler os jornais, para folhear revistas estrangeiras ilustradas, almoçavam muito juntos na pequenina sala de jantar que as jarras de flores aromatizavam, o papel claro das paredes alegrava e a que os mobiliários caros davam confôrto, elegância e beleza ornamental. Pelos aparadores scintilavam pratas e reluziam porcelanas; de grandes pratos cheios de fruta madura exalavam-se arômas aperitivos; os cristais irisavam-se à luz; e Frederico achava então um certo enlêvo naquela vida comum, parecia-lhe que tinha um lar, uma companheira solícita, que possuia no mundo uma alma para quem a sua personalidade não era estranha. Muitas vezes, jantava mesmo com Branca, saindo à noite para as suas vadiagens, que se prolongavam até horas mortas. Seis dias seguidos assim foram deslizando, sem que êle se lembrasse, sequer, de ir a sua casa. E por isso Nuno o não encontrara, por isso não tivera, mais cedo, notícias do imprevisto regresso do amigo ao Pôrto―regresso de que só por acaso havia sido informado...

Enquanto caminhava pelas ruas já desertas e cheias de sombra, perdia-se em suposições. Nuno dissera-lhe que passaria o inverno na aldeia, quando se separaram, e voltara a afirmar-lhe, em carta, êsse propósito. Que facto, grave certamente, o teria feito mudar de tenções? Aborrecimento da monotonia rural, da solidão rústica? Saudades da animação, da sociabilidade citadinas? Não! Nuno não era mundano, abominava as exibições, os convívios banais. Taciturno, misantropo, já na sua mocidade só estava bem com uma ou duas amizades mais íntimas à sua roda. Depois que se casara, meteu-se dentro da sua vivenda e da sua felicidade, sequestrou-se de todo, gostosamente, às curiosidades indiscretas da rua e das salas. Que razão forte, que motivo imperioso, o teriam, pois, desalojado da solitude campestre, obrígando-o a refugiar-se no Pôrto?

―E se Júlia adoeceu?―monologou Frederico, invadido por um sobressalto repentino.

Uma comoção dolorosa apoderou-se de todo o seu ser; sentia um fundo mal-estar interior, uma angústia que o atordoava, que lhe apertava o coração, que o constrangia. Com efeito, aí estava a explicação da volta de Nuno ao Pôrto. Não podia ser outra! Naquele momento, a mulher que êle amava com infinita doçura, sofreria, queimada pela febre, ir-se-ia fanando na sua beleza viçosa, na gentileza do seu encanto supremo, enquanto Nuno, apreensivo, assistindo transido a uma dor que não podia sarar, nem ao menos tinha ao seu lado alguêm que o confortasse, que lhe desse esperança.

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