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A Morte Vence

JOÃO GRAVE (continued 2)

Reading edition

―É horrivel, na verdade!―asseverou Frederico.

―É pavoroso!

―Mas, sabes o que eu ainda não consegui entender bem, Nuno? Pois, é isto. Nos casos de adultério em que a mulher prevarica, as ironias insultantes da

multidão

vão para o marido. Para a prevaricadora existem a piedade e a absolvição!...

―Iniquidades sociais. A turba-multa é sempre impulsiva, injusta, não raciocina, não procura ser equitativa nos seus juízos... Mas, por isso mesmo, os traídos teem de desafrontar-se com a maior ferocidade. Eu, no logar de Fernando, matava-os! Matava-os, trucidava-os, despedaçava-os como bêstas feras!...―concluiu Nuno, rilhando os dentes de furor.

Júlia, surgindo imprevistamente, veio surpreendê-los ainda no comentário fatigante daquele escândalo clamoroso, que punha uma sombra mais negra na fisionomia de Nuno e que não deixava expandir livremente a jovialidade de Frederico.

―Então, aqui fechados, com um dia que é uma delícia, um verdadeiro dia de rosas?―exclamou ela, com uma extraordinária animação no rosto.

―Tens razão! Êsse animal do Tôrres, com as suas infelicidades caseiras, veio estragar a nossa paz de espírito―murmurou Nuno. Queres ir até lá abaixo, ao fundo da quinta, onde trago obras importantes na habitação do caseiro, Frederico? É uma diversão que nos há de fazer bem!...

―Não! Se mo permites, aproveito o tempo para pôr em ordem uma correspondência atrasada e desordenada. Olha que estou aqui, na tua hospitaleira vivenda, há duas semanas e ainda não respondi a ninguêm! Quem sabe se me julgarão morto ou exilado?

―Bem! Então vou eu. Cumpre os teus deveres de bisbilhotice.

―E eu acompanho-te, Nuno―acudiu Júlia.

―Tu? Mas é admirável a companhia. O príncipe e a princesa passarão as horas fazendo

le tour

du proprietaire

e oferecendo-se à veneração dos seus súbditos, dos seus vassalos, dos seus escravos... Então, de-pressa! Vem daí.

―Ando há tanto tempo para ir ver essa pobre gente, essa entrevada de quem me falaste, essas crianças desgraçadas...―disse Júlia, comovida.

―

Au revoir

, Frederico. E sê prolixo, homem... Olha...

Curvou-se ao ouvido do amigo, murmurou qualquer coisa que Júlia não pôde perceber, e riram ambos com alacridade. Descendo a escada, atrás da espôsa, Nuno ainda ria, jovialmente, enquanto Frederico se encerrava no escritório, diante dum tinteiro, de cadernos de papel de cartas e duma jarra com rosas frescas que Júlia tôdas as manhãs renovava para que ali houvesse continuamente graça, côr e perfume.

Sôbre a escrivaninha de pau preto com

ferragens

amarelas e polidas que refulgiam, brilhavam no banho fluido da claridade envolvente, havia um soberbo retrato de Júlia, representando-a vestida de baile, em corpo inteiro. A sua beleza, a-pesar-de morta na fotografia, tinira uma pureza de linhas, uma opulência de contornos, um relêvo, um esplendor indizíveis. O decote deixava a descoberto o

princípio

do seio, que era redondo e farto; o pescoço, desafogado da espuma das rendas, exibia uma elegância e uma nitidez impecável de modelação, tendo a gracilidade e o movimento de certos caules de flores, ondulando à aragem. Uma expressão de felicidade sem nuvens animava todo o seu rosto; e uma grande rosa prendia-se à

corsage

. Frederico esteve contemplando o retrato um instante, perdido em vagas meditações. Como ela era graciosa e divina, efectivamente! Os seus olhos tinham um encanto virginal ainda―um encanto que as lágrimas não haviam queimado. De tôda ela se exalavam, imperceptivelmente, a castidade, a sedução, a ternura. A casa estava impregnada da sua personalidade, da sua virtude, do seu enlêvo. Júlia era a bôa deusa familiar que enchia, com a sua alma, com a sua dedicação de mulher, com a sua abnegação, com o reflexo da sua formosura, aquela habitação em que um amor tam nobre vivia e se esquecia dos males da existência. E Frederico via-a sorrir ao lado de Nuno, mais presa do que nunca à sua paixão, suavizando-lhe os dias, acalmando-lhe as inquietações, assistindo à formação das suas vontades, dos seus desejos, das suas ideias, para imediatamente obedecer-lhe, oferecendo-lhe a bôca num beijo. Experimentava uma inexprimível consolação interior, pensando nela...

Ao mesmo tempo, e sem saber porquê, acudia-lhe à memória a cólera tempestuosa de Nuno, quando soube da fuga da mulher de Fernando Tôrres com o outro―uma cólera que se adensava no olhar, que ardia, que coriscava, que chamejava... Os dois amantes iriam agora, entregues ao ardor da sua volúpia pecaminosa, impura, talvez para as cidades estrangeiras onde melhor pudessem ocultar-se, na embriaguez dum gôzo que dura apenas um fugaz minuto e com que a desgraça fabrica a dor, que é eterna. Mas ao menos, considerava Frederico, seriam felizes. A si mesmo perguntava se êsse minuto, de que restaria uma perdurável recordação, não constituirá a felicidade duma vida, de duas vidas inteiras...

Para fugir ao curso mórbido das suas lucubrações, Frederico levantou-se, aproximou-se da janela, na ponta dos pés, como se temesse que o sentissem. Na radiação loura da manhã, uma alegria esparsa flutuava sôbre as coisas. De baixo, do jardim, subia um arôma adocicado. Nuno e a espôsa, de braço dado como dois namorados, afastavam-se ao longe, através dos arvoredos do parque. Por entre os troncos musgosos alvejava a brancura do vestido de Júlia―brancura que ficava pairando no ar macio... Frederico voltou a sentar-se. Uma grande, confusa tristeza abatia-se sôbre o seu coração...

IV

As primeiras manhãs de setembro tinham chegado. Emigravam as andorinhas e as rôlas bravas e no ar luminoso errava a melancolia vaga dum outono próximo. Grandes nortadas sopravam rijamente, levando através do espaço densas nuvens de poeira. Pelos arvoredos do parque, na meia tinta de luz, amareleciam as folhagens: e os crepúsculos, tendo ainda, no horizonte, reverbarações imensas, eram já um pouco húmidos. Havia, por vezes, céus brumosos que davam indeterminados longes á paisagem, tocando-a de lentos nevoeiros.

Durante todo o tempo que Frederico passara na quinta afastado da variedade e dos tumultos da vida citadina, estabelecera-se entre êle e Júlia uma estreita intimidade afectiva que mais gratas tornava as horas doces que de contínuo fugiam. Nuno andava inteiramente ocupado com as alterações a que mandara proceder nas dependências habitadas pelo caseiro, para que nelas houvesse mais confôrto e mais higiene. Interessava-o, afinal, o pobre cavador que envelhecera precocemente, nas dolorosas labutas da terra, vendo crescer à sua volta outras vidas louras, frescas e inocentes, tambêm condenadas â escravidão da gleba, e enchera-o de piedade a miséria da entrevada que no seu leito, escasso de roupas, tinha um riso de resignação, absolutamente conformada com o destino. Mesmo enfêrma, enquanto o homem, o bom Mateus, se extenuava de sol a sol, segurando entre as mãos calejadas e firmes a rabiça do arado que rasgava o seio da leiva, para fertilizá-la, ou espalhando no húmus revolvido as fecundas sementes que germinariam nas abundantes searas, remendava as roupas e dirigia o

ménage

.

―A-pesar-de doentinha―dizia uma vez o caseiro a Nuno―ainda é uma ajuda. Deus ma conserve mesmo assim, porque se morresse fazia-me grande falta...

De quando em quando Nuno, comovido, abria vagarosamente a porta cerrada, para a ver, para lhe falar. Júlia, com a sua bondade, melhorara muito a sorte da paralítica, rodeando-a de bem-estar, mandando-lhe todos os dias um alimento mais apetitoso e nutritivo: e ela, grata a estas delicadezas, não se cansava de louvar, nas suas orações ardentes, os bons senhores que ao seu lar desditoso haviam levado uma clara luz de alegria.

―Então, como vai hoje, snr.

a

Teresa? Melhorsinha, não é assim?―perguntava-lhe Nuno.

―Para aqui estou à espera da minha hora! Pois, como hei de estar, se é esta a vontade de Deus?... E curtidinha de padecimentos!―respondia ela, com um fundo suspiro.

Mas logo, no seu rosto macerado e pálido se iluminava a claridade dum sorriso.

―E a senhora e o menino?―interrogava a doente.

―Estão esplèndidos. Não há mal que lhes chegue, neste paraíso. Êles qualquer dia por aí voltam a aparecer.

―Ai! Deus os guie, que bem o merecem!...

Nuno, que não queria que à roda da sua felicidade existisse gente desgraçada, ordenou a construção duma casa nova ao lado da primitiva―que se esboroava de vetustez e que vinha dos tempos longínquos em que os seus antepassados tinham adquirido aquela propriedade que constituía a parte mais vasta dos seus domínios territoriais. Alargara os estábulos para o gado, dera maior amplitude ao alpendre e à eira e procurara longe, na encosta dos montes que ficavam ao fundo da quinta, um mais farto veio de água de rega, canalizando-o, com argamassa e pedra, para as terras alugadas ao tio Mateus, que resplandecia de contentamento e que murmurava, com a face jubilosa e enrugada em que as barbas crespas encaneciam:

―Isto é o poder do mundo! As colheitas futuras hão de encher-me celeiros e tulhas!...

―Está contente?―inquiria Nuno.

―Ora! se estou contente!... Pois, o patrão faz um milagre destes e ainda me baixa a renda! Que hei de querer mais?

O caseiro, na sua gratidão, comparava a generosidade do amo com a secura do procurador, um unhas de fome que nunca lhe atendia as mínimas reclamações, que nem sequer lhe mandava concertar o telhado por onde, nos invernos agrestes, entrava a água das chuvas, e que, nos anos hostis, não lhe perdoava um ceitil.

―Se quereis conhecer o vilão metei-lhe a vara na mão―dizia o tio Mateus, lembrando-se dêsse homem de expressão dura e coração empedernido que um mês antes do pagamento do aluguer, o procurava, exclamando:

―Olhe que é daqui a trinta dias. Previno-o, para que não venha depois com desculpas.

Agora, mercê da magnanimidade de Nuno, a esperança renascia na alma do lutador destroçado que, durante uma longa existência, em vão se afadigara para que nas suas arcas o pão fôsse mais farto e que a vida amarga vencera, acabrunhando-o de tristeza. E êsse renascimento palpitava por tôda a parte, nos vergeis, nas hortas, que eram mais viçosas, nos espíritos humildes, que adquiriam maior confiança!

Entregue ao entusiasmo das suas ocupações de proprietário rural, Nuno, em certas manhãs, abalava logo depois de almôço, de charuto aceso e uma côr de saúde na face máscula, para vigiar os trabalhos. Esta actividade nova tinha para êle um grato sabor. A princípio, Frederico acompanhava-o, interessando-se tambêm por uma lide que desconhecia. Depois, porém, enfadou-se: e, sempre que o amigo o convidava para ir até ao fim da quinta, êsse enfado acentuava-se, reflectindo-se-lhe no rosto desconsolado. Acabou por desculpar-se, dizendo-lhe:

―Não! Eu fico, se a minha companhia te não é indispensável.

―Pois fica, homem. Fica e dorme!

―Eis um ideal que me encanta, Nuno. Sempre tive as melhores disposições para o sono.

Então, Frederico, penetrado pela quebreira que amolecia o ar, descia ao parque, escolhia um recanto de sombra e lá se demorava lendo um romance ou evocando as suas recordações e pensando no caso passional que o trazia inquieto. O calor, a irradiação crua do sol, faziam pesar mais o silêncio. A atmosfera resplandecia, tinha uma vibração especial no esplendor matutino da claridade. Até ao seu isolamento chegavam o chiar dos carros de bois, vergando sob a carga e atravessando os caminhos desertos, a cantiga idílica dum pastor distante, o sussurro das folhagens estremecendo ao vento, sôbre a sua cabeça. Em certos instantes, repousando das fadigas caseiras, Júlia, ao piano, tocava uma página musical que embalava suavemente a solitude. O sol saía em ondas pelas janelas abertas aos eflúvios do jardim―e a música, nesta solidão inspiradora, adquiria maior sedução e beleza. Frederico, pousando o romance, analisava o estado particular dos seus nervos. Uma grande, inexplicável lassidão prostrava-o. Sentia-se incapaz dum mais vivo esfôrço de reflexão, dum metódico exame da sua sensibilidade. Parecia-lhe que estava fóra da sua personalidade psíquica: a realidade exterior produzia-lhe uma bizarra alucinação que o transtornava; mas, neste sobressalto intimo havia, alternadamente, certos fulgores de pensamento, relâmpagos de inteligência, que lhe aumentavam a angústia e a opressão interior. Um elemento estranho, tendo qualquer coisa de violento, de obscuro e de nítido, conjuntamente, invadia-o e perturbava-o. A imagem de Júlia acudia-lhe, sem repouso, à imaginação―e notava que essa imagem era muito diferente da mulher que êle conhecia, da espôsa encantadora e virtuosa de Nuno, Atribuía êste fenómeno desconcertante a uma singularidade do seu organismo enfêrmo. Monologava, atribulado:

―Eu estarei doente, na verdade? Doente de espírito e de corpo?

Como os dias que ia vivendo, no meio duma confusão e duma agitação que lhe não davam tréguas, eram diversos dos que, dois meses antes, tinha passado naquele refúgio em que Nuno se abrigara com a sua ventura conjugal imensa! Então, tudo era paz, enlêvo, serenidade no seu coração, lucidez no seu cérebro. Compreendia mais fácilmente o espectáculo que o cercava; era mais acessível à bondade e à beleza; convalescia, sarava, uma esperança floria no seu scepticismo, e o calor dos afectos experimentados fundia dentro de si tôda a frieza e todo o egoísmo. E agora, não! A tranquilidade emotiva dos primeiros dias perdera-se completamente. Um agente mórbido, qualquer provocava nêle, de-certo, alterações profundas, transformava-o num sêr humano que o seu próprio sentido ignorava. Que doença seria essa? Física ou espiritual? E se fôsse espiritual, proviria da influência duma luz súbita, revelando aos seus olhos uma felicidade possível, ou da suspeita duma dor inevitavel? Frederico fazia estas interrogações a si próprio, sem encontrar uma resposta que o esclarecesse. No entanto, observando-se minuciosamente, era ditoso pensando em Júlia―e êste sentimento, ao mesmo tempo que o iluminava interiormente, gelava-o de terror, como se representasse um perigo imediato, uma catástrofe de que não pudesse já desviar-se. Ela era a companheira purificada e terna de Nuno, via-a ao lado do marido imersa na ventura que êle lhe oferecia, como uma flor imersa em aroma, surpreendia-os a cada passo beijando-se com transporte, apertando-se no mesmo abraço, peito contra peito, face contra face, para mais intensamente sentirem a pulsação dos corações. Frederico, absorvendo-se em ideias de que não conseguia emancipar-se e que eram a sua permanente obsessão, em sensações que o não abandonavam, ao estudar a sua psicologia com pavor de chegar a alguma conclusão que o aterrasse, murmurava, para se iludir:

―Verdadeiramente, não a amo com um amor físico. Sou-lhe apenas grato pelo encanto que me transmite e devo-lhe um reconhecimento moral a que não quero fugir.

Concentrando-se, calculava as consequências que uma adoração menos pura por Júlia provocaria fatalmente. Via-se perto de Nuno, escondendo, como um remorso ou como um crime, essa adoração que nunca revelaria e que lhe roeria a alma como os vermes roem os frutos podres, quando êle, com uma lealdade que se lhe espelhasse nos olhos e com uma amizade consolidada por longos anos de dedicação, lhe confessasse o reconhecimento que consagrava a Júlia, a claridade, o perfume, a graça que lhe trouxera a vida, a bôa fortuna que nela―na sua pureza, na sua beleza, na sua devoção―encontrara; e, raciocinando assim, como se admitisse a duplicidade do seu afecto por Nuno e do seu amor por Júlia, considerava que seria infinitamente desgraçado. Tinha mêdo dum tal desfecho: e, para se libertar de cogitações dolorosas, tentava esquecer, espairecer, distrair-se. Levantava-se, corria o parque a largos passos, sacudia com as mãos nervosas os arbustos floridos, fazendo cair nos musgos do chão um luminoso e colorido orvalho de pétalas, monologando:

―Ah! não, que horror! Não sinto ainda por Júlia uma paixão sensual, não a desejo pela carne, não me impele para ela um fogo impuro, uma fôrça abominável. Quando essa paixão chegar―se é que ela tem de vir―saberei ser enérgico, hei de dominar-me, fugir, esquecer...

Por nada traíria Nuno, abusando da sua hospitalidade tam carinhosa e tam franca. Não queria imitar Vaz de Sousa; não mancharia, com uma inapagável mácula, a santidade daquele lar; não toldaria a pacificação daquela morada em que se agasalhavam sentimentos perfeitos já abençoados por uma inocência angélica; não conturbaria a limpidez da sua afectividade fraterna com um punhado de lama e de vileza. Era um homem, um consciente, possuía uma dignidade, uma irredutível inteireza de carácter. De resto, Júlia, que aos dons da sua formosura aliava os dons mais nobres e elevados duma dedicação admirável, seria a primeira a repeli-lo com indignação, a execrá-lo, intimando Nuno a pô-lo fóra da porta como um ladrão que ali penetrasse para roubar uma felicidade que só a ela pertencia. E o amigo, sabendo de tudo, iria para êle com uma cólera que a imensidade da traição praticada mais avolumasse, ferozmente, as mãos crispadas, os dentes rilhados, o desvairamento homicida fulgurando nos olhos... Não era, de-certo, o temor que o fazia retroceder. Nunca fôra timorato. O que o assustava mais era a torpeza moral em que se afundaria para sempre.

―Quantos disparates a minha fantasia enfermiça arquitecta!―diria Frederico, zombando forçadamente.

Com efeito, o irremediável não se interpusera, por enquanto, entre êle, Nuno e Júlia. Podia estar absolutamente tranqùilo, sem còrar da perversidade duma acção que nem sequer se esboçava. Mas que infortúnio, o seu! O ardor dos sentidos conduzira-o a uma situação alarmante que já o fazia sofrer com amarga crueldade. Entrando naquela habitação, pela primeira vez, julgou que vinha encontrar o sossêgo de espírito, a calmaria, o repouso da alma: e, afinal, apenas encontrara uma angústia maior, uma tortura mais lancinante! Como se operara no seu ser uma transformação de tal ordem? O convívio de tôdas as horas, a ambição duma ternura igual àquela, o renascimento de ilusões que julgava extintas, deprimiram-no, certamente; o encanto que da formosura e da pureza de Júlia irradiava, penetrava-o subtilmente, contra a sua vontade, contra o seu veemente desejo. Era êle, porventura, culpado desta fatalidade? Podia ser acusado com eqùidade e justiça, pela consciência e pela inteligência que lhe formavam a individualidade psicológica e mental? De-certo que não! Êste subterfúgio apaziguava-o...

Continuava o passeio ou entregava-se, mais calmo, à leitura, olhando a vida por aspectos menos carregados. Se Nuno se demorava, ocupado pelos trabalhos que andava dirigindo, Júlia descia tambêm, um momento, ao parque, graciosa, adorável de beleza e de simplicidade. Frederico via-a avançar, com o coração pulsando desordenadamente, o sangue circulando com mais pressa nas veias e uma grande palidez no rosto. O busto de Júlia modelava-se nítidamente na leveza e na frescura duma blusa de sêda branca, deixando-lhe a descoberto o pescoço redondo, fino e alto, o princípio do colo, em que a pele se dourava à luz, uma parte dos braços que emergiam, admirávelmente contornados, da espuma de rendas das mangas: e isto provocava uma atracção irresistível, tornava mais áspera a sua ânsia. Júlia, avistando-o, ia para êle naturalmente, sem acelerar mais os passos que obedeciam ao ritmo sempre igual dos seus movimentos, falava-lhe:

―Então, para aqui só, aborrecendo-se mortalmente?...

―Oh! minha senhora, que ideia!

―Nuno sempre tem um modo de compreender a hospedagem!...

―Mas, se fui eu que não quis acompanhá-lo!... Hoje, apetece-me o isolamento.

―Tem, talvez, conversas com os espectros das suas saùdades...

―Não. Sou um esquecido do destino, um abandonado da própria saùdade. Ninguêm se interessa, por mim!

―Ninguêm?―interrogava Júlia, risonha e duvidosa.

―Ninguêm...!―afirmava Frederico, fitando-a.

Mas arrependia-se imediatamente da fixídez com que a olhava, no receio de cometer alguma grosseria que a magoasse, no susto de que o seu olhar revelasse coisas que êle nem sequer se atrevia a formular, no confuso turbilhão dos seus sentimentos―e muito perturbado, desviava a vista.

―Creio eu lá nisso!―acrescentava ela.

Numa destas ocasiões, perigosas para a serenidade de Frederico, Júlia sentou-se num outro banco, perto dêle, quis saber que livro lia, quais eram as suas leituras predilectas: e Frederico respondeu com um riso a que pretendia imprimir naturalidade:

―As minhas leituras predilectas são as biografias, a correspondência dos grandes homens, as obras de psicologia.

―Porquê, porquê?

―Porque me interessam as almas superiores...

Júlia pegou no volume que Frederico folheava, viu o título.

―Em todo o caso, lê tambêm romances!...

―Nos romances, há ainda almas, minha senhora...

―De que trata êste?

―Dum amor infeliz, dum amor que nunca se confessou, e que era incomparável de elevação, de fervor, de constância...

―Bem sei! Dum amor absurdo, dum amor que apenas existe na emoção e na ideia dos artistas... Um grande e puro amor confessa-se sempre.

―Sempre?... Eis um belo êrro!

―Ora essa! Êrro?... Não compreendo...

Para se furtar a um diálogo em que, irreflectidamente, podia traír-se, Frederico deu novo rumo à conversação.

―A uma mulher é que nunca se deve perguntar quais são os livros da sua preferência, snr.

a

D. Júlia.

―Não sei porque não. Olhe, eu digo-lhe já o que prefiro, em literatura:―são os poetas líricos.

―Não se deve fazer uma tal pergunta indiscreta às senhoras, porque na selecção das leituras os espíritos femininos revelam-se.

―Ah!―atalhava Júlia. Não sabia!...

E os seus olhos negros e imensos, banhados por um claro-escuro húmido e misterioso, pousaram-se vagamente em Frederico, parecendo contemplar aparições inefáveis, longínquas, imprecisas.

―Talvez haja alguma verdade no que diz―exclamou ela.

―Creio que há tôda a verdade...

De repente, levantou-se, pousou o livro, murmurou:

―Nuno demora-se tanto!...

E sorrindo, com um enlêvo maior na voz, uma gracilidade mais animada nos gestos:

―Coitado! Anda todo apaixonado por uma obra de generosidade e de misericórdia. É um santo. A miséria da família do caseiro atormentou-o.

―Um coração de ouro!―concordava Frederico.

―Não é verdade?―atalhou ela, tôda interessada e com o reflexo dum grande contentamento na fisionomia.

―Um coração de ouro!―repetiu Frederico, pondo nas suas palavras a convicção e a sinceridade―uma alma como poucas existem!...

Júlia agradeceu-lhe com um olhar infínitamente meigo aquele justo louvor ao marido e disse afectuosamente:

―Vou até lá acima... Acompanha-me ou ainda fica por aqui, pelas espessuras, como um namorado, com as suas lembranças?

―Ainda fico, minha senhora, mas só, sem recordações, uno e indivisível, em corpo e em alma.

Soltando uma gargalhada, Júlia afastou-se vagarosamente, colhendo uma ou outra flor no caminho, cantando entre dentes, voltando-se ainda para trás e rindo sempre; e Frederico, seguindo-a com a vista, notava que junto dela, respirando o mesmo ar, o envolvia a carícia dum ambiente em que a brisa tépida e odorífera como que emanava a vaporização duma volúpia tôda esperitual em que não havia nenhuma instigação inferior da animalidade, da substância, do sangue, dos nervos. A notação fina desta particularidade tranqùilizava-o. Ah! admirava profundamente a mulher de Nuno, mas apenas porque, entre a fealdade moral da sociedade que conhecia de perto, Júlia era um dêsses raros seres dispondo do condão de reconciliarem com a espécie o homem de temperamento sensível...

Neste devaneio infindável, as horas corriam ligeiras, a tarde baixava, um arrepio friorento passava no parque, entre os troncos, fazia tremer as fôlhas pendentes. O azul, alto e brilhante, empalidecia: e Nuno, voltando das obras, com a roupa em desalinho, despenteado, as mãos cheias de terra, veio encontrá-lo ainda sentado no banco, meditando.

―Cheio de tédio, hein? Mas a culpa é tua, Frederico!―gritou êle, surgindo, de repente, do meio das árvores.

E contou-lhe então, com entusiasmo, como fôra ocupado e fértil em resultados o seu dia, a sua actividade junto dos pedreiros e dos carpinteiros, dando ordens, fornecendo indicações, esboçando projectos de trabalhos mais vastos, pedindo esclarecimentos ao vélho Mateus sôbre a lida agrícola. Até, para se exercitar, para desemperrar as articulações, tirara a enxada ao caseiro e cavara um bom bocado! Mostrava as botas enlameadas, as mãos vermelhas do exercício violento. Frederico, ouvindo-o e como se regressasse das regiões longínquas, irreais, por onde andara com a sua fantasia, atalhou:

―Pretenderás tu fazer-te lavrador tambêm?

―E porque não?―replicou Nuno, muito sério.

―Homem, isso é ainda literatura, poesia rural à maneira das

Geórgicas

...

Mas Nuno protestava, afirmava que ia pensando, realmente, em dedicar à lavoura a sua existência improdutiva, sendo assim útil a si, aos seus, à colectividade, empregando novos processos de cultura que duplicariam a fecundidade da terra, fazendo experiências em que constantemente pensava desde que se instalara na quinta.

―Porque, sabes tu? Os nossos agricultores seguem fielmente o caminho trilhado por uma rotina secular. Não querem afastar-se dêle, desdenhando as inovações que, com menos dispêndio de fôrças, aumentariam a produção e ofereceriam óptimas compensações.

―Santo Deus, como vais de-pressa!―contrariou Frederico. Mas isso é a multiplicação dos pães de que nos fala uma doce página da Bíblia. A multiplicação dos pães? Que digo eu? Trata-se dum milagre, mais considerável. Chegas, da cidade, vestido como um

dandy

, nada sabes de agricultura, ignoras mesmo como se produz a torrada que comes ao almôço, com manteiga, mas isso que importa? Tens audácia para tudo! Pegas num punhado de trigo, ao levantar do leito, tomas o teu café, fumas o teu charuto...

―Não rias, Frederico! Olha que começou, na verdade, para mim, uma vida nova...

―Espera, deixa-me acabar!... Espalhas êsse punhado de trigo ao raiar da manhã. Ao meio-dia, uma enorme messe de louras espigas ondula já à aragem, como um mar de ouro fôsco. Á tarde, chamas os ceifeiros, fazes a colheita e enches um celeiro!... É como nos contos do fadas...

― Bem! Não há maneira de nos entendermos―concluiu Nuno. Vamos jantar. Isso é debilidade... A fraqueza excita o teu delírio.

Atravessando os arruamentos da floresta, que escureciam, o jardim, que rescendia, Frederico ainda satirizava as intenções de Nuno, afirmando:

―Se, na realidade, pensas em fazer-te lavrador, em te consagrares à terra, então sempre te digo que há tôdas as probabilidades de que venhas a arruìnar-te...

―Arruìnar-me?

―Não tenhas dúvidas! Um simples pão, que podes comprar por um vintèm em qualquer padaria, agricultado por ti, com máquinas para arar a leira, máquinas para ceifar o trigo, máquinas para a debulha, adubos químicos, outras coisas requintadas e modernas, virá a ficar-te por cinto tostões, o que é, na realidade, barato, não te parece?

Entraram em casa, conversando e rindo. Cá fóra, ao ar livre, anoitecia. O ocaso, com sua tristeza elegíaca e o vago das suas sombras, descia apressadamente. As ramagens dos arvoredos imobilizavam-se na atmosfera. Uma névoa ténue subia da terra para o alto. Das coisas inertes parecia elevar-se um confuso múrmurio que fôsse como que a confissão da natureza para Deus. As criadas acendiam as luzes, na vivenda, e as vidraças lampejavam batidas por um súbito, inesperado fulgor de ouro. Nuno e Frederico lavaram-se, vestiram-se para o jantar, aparecendo na sala já quando os esperava Júlia―e a palestra reatou-se:

―Pois, minha senhora, dou-lhe os parabens!―exclamou Frederico, sentando-se.

―Parabens, porquê?―interrogou ela.

―Nuno está decidido a integrar-se na simplicidade e na lavoura. É bem provável que esta habitação mundana venha a transformar-se em herdade, brevemente.

―Está hoje impossível, Júlia!―retorquiu Nuno. Não compreende que um janota como eu venha a ser um agricultor razoável, a fixar-se aqui definitivamente, a despir-se de todo o artifício por amor à naturalidade.

―Ouve-o? É a renovação que começa. Teremos em Nuno, dentro de pouco, o Jorge Brumell das colheitas.

―E porque não? Porque não?―perguntou Júlia, olhando demoradamente o marido.

―Tambêm V. Ex.

a

?... Belo! Já está convertida. A coisa é mais importante e profunda do que eu julgava. Assisti, neste lar afável, ao nascimento duma religião nova...

A conversação alegrava-se, sob o reflexo da claridade que fazia relampejar as pratas, scintilar os cristais, alvejar mais puramente os linhos e brilhar com maior nitidez o verniz dos móveis e a coloração das flores que morriam nos solitários. A serenidade em que a vivenda adormecia era tanta que se ouviam os menores ruídos. A criada que servia à mesa, no seu severo vestido preto com punhos e gola de bretanha gomada, ia e vinha sôbre a alcatifa do corredor longo, em passos apressados e miúdos. Da cozinha chegava o rumor das palestras e da louça que se entrechocava. Cães latiam ao longe, pelos casais silenciosos. De vez em quando, o som duma viola passando para os serões ou para as desfolhadas nas eiras, sob a lua branca, poetizava, bucolizava a solidão...

No fim do jantar, Júlia levantou-se, estendendo a face a Nuno para o beijo costumado e apertando a mão de Frederico, para tratar da refeição dos servos. Os dois conservaram-se ainda sentados, fumando e divagando...

Depois, no seu quarto Frederico, sentindo um desalento inexprímivel pesar mais duramente à sua volta, na imensa melancolia dos ideais falhados, no desespêro da ansiedade que o devorava e da incerteza que o consumia, reencetou as suas lucubrações, sentando-se numa poltrona e deixando correr as infindáveis horas de pacificação exterior. O que agora temia era que nêle se viesse a dar o violento conflito do espírito e do instinto, perto de Júlia―o que seria um suplício que mais lhe atribularia a amargura de viver. Observava que já ao lado de Nuno não estava bem, que temia o desconhecido, que experimentava um constrangimento inexplicável. E porquê? De-certo que o amigo tinha para êle as mesmas delicadezas, as mesmas atenções, a mesma inefável simpatia; mas bastava que Nuno o fixasse mais detidamente para que logo julgasse que o seu olhar penetrante pretendia expiá-lo, ler-lhe na alma surpreender os sentimentos impuros que lá se geravam. Suspeitaria dalguma coisa? Teria Frederico deixado adivinhar o seu drama, por uma frase impensada, por uma palavra mais ardente de louvar a Júlia, por um estremecimento de paixão irreprimível que pusesse Nuno de sôbre-aviso? Não! Claramente, não! Tôdas as suas dúvidas nada mais representavam do que uma perversão da sensibilidade nervosa, uma alucinação dos sentidos...

Ainda não sabia se amava Júlia―porque tinha mêdo de interrogar-se; se a desejava carnalmente; se a admiração que lhe dedicava era de essência espiritual ou sensual: mas se, com efeito, era maior a perturbação que o alvoroçava, ninguêm―nem êle mesmo―conheceria êsse amor insensato, que ficaria para sempre secreto, que jàmais seria revelado!...

Enquanto scismava, a casa, sob o afago da sombra nocturna, repousava serena, como a felicidade que a habitava. Apenas do quarto, onde a ama dormia com o filho de Júlia e de Nuno vinha uma claridade dúbia da lamparina acesa, filtrando-se através das bandeiras das portas, que eram de vidro. E Frederico continuava os seus devaneios. Naquele momento, a mulher admirável para quem ascendiam, como um incenso, a sua crença pura e a sua admiração exaltada, adormecia tranqùilamente, junto do marido, tendo ainda na bôca o calor e o perfume dum profundo beijo apaixonado e genesíaco. Êsse calor rosava-lhe a pele da face, acelerava-lhe a circulação do sangue, tornava-a mais linda. Reconstituia-a no sono, a cabeça pousada sôbre a alvura do travesseiro por onde se espalhavam, como uma núvem, os seus cabelos desmanchados, o peito arfando docemente, a carne esplêndida vibrando de desejos... Impaciente, Frederico erguia-se, dava alguns passos irresolutos sôbre o tapête fôfo, e voltava a sentar-se sem poder aquietar. Sentia subir das recônditas intimidades do seu ser um ciúme horrivel pelo amigo, que fruía uma indizível ventura com a posse da mulher esplêndida (que tambêm o aliciava a ele―e com que formidável intensidade! Então, enclavinhando a mão trémula nos cabelos, Frederico revoltava-se contra si próprio.

―Que inferno êste, hein? E que abjecta criatura desperta em mim!...

Na realidade, Nuno era para êle o irmão, a amizade inquebrantável e fidelíssima, a afeição cega. Abrira-lhe confiadamente as portas do seu lar virtuoso, considerava-o como um membro da sua família, devotara-se-lhe inteiramente, mostrara-lhe a alma. E êle, correspondendo a esta confiança, a êste afecto, a esta devoção, estava ali, naquele doloroso momento de tortura, invejando-lhe criminosamente a espôsa legítima, odiando-o pelos beijos que com ela trocava, pela presença de Júlia no seu tálamo―um tálamo que a adoração mútua santificava e em que o ventre da mulher amada recebia o calor que faria germinar as vidas novas e esperançosas.

―Não! Isto é verdadeiramente infame!―exclamava Frederico, acusando-se com rancor.

Deitou-se, mas não podia dormir. A imagem de Júlia perseguia-o; a inquietação permanente irritava-lhe os nervos, exauria-o. Quáse imputava a Júlia a responsabilidade da dor fulgurante que sentia, da agitação que o alucinava; mas logo caía em si, arrependendo-se. Era injusto, inexorávelmente injusto! Ela não fizera nascer, por uma só palavra, por uma atitude suspeita, por uma irreflectida

coquetterie

, o sentimento funesto que o invadira. Frederico é que não pudera dominar-se, ser casto, ser nobre, ser

refractário a um desejo

vil. O culpado único do seu tormento era êle, certamente. E julgava que, por mais que sofresse, todos os seus sofrimentos não valeriam uma ligeira mágoa que pudesse causar a Júlia, se lhe revelasse o fogo em que ardia; que tôdas as suas lágrimas não valeriam uma única das lágrimas que Júlia choraria, se êle tentasse destruir-lhe uma placidez de que era tam digna, pela alma, pela bondade, pela elevação moral, pela formosura, corpórea.

Em determinados instantes, o seu cérebro tinha uma estranha lucidez. Lembrou-se, repentinamente, de factos, de acontecimentos há muito olvidados. Ocorriam-lhe trechos de leituras feitas. Recordou-se, por exemplo, de ter lido há muito tempo, num livro de que esquecera o título, esta sentença que agora solicitava particularmente a sua atenção:―«Elemento divino e principal, que a natureza produz mas que apenas a vontade aperfeiçoa, a Beleza é uma simples exteriorização da forma. Tudo é susceptível de beleza, do gesto ao acto, do olhar à palavra. Se o primeiro passo perfeito fôr o de concentrar tôdas as aspirações de beleza num sêr único, o segundo será o de preferir a beleza da alma à beleza físicamente afectiva do corpo». No delírio da sua febre, Frederico construía teorias que lhe pareciam encerrar a verdade total e que logo abandonava, como infantis: e só de manhã, quando uma luz ainda indecisa e fresca se coou através das frinchas da janela, êle conseguiu adormecer, cansado, extenuado pela vigília e pelas emoções intensas. Ao levantar-se, estava pálido, mal disposto, cheio de tédio―e pensava então que a vivenda de Nuno se lhe tornava insuportável de dia para dia...

Uma tarde, o amigo abalou para as obras que continuavam activamente. Ao passar no escritório de Nuno, para escolher um livro, Frederico encontrou lá Júlia, que bordava um pano de mesa, sentada à janela abrindo para o jardim e tôda ensombrada por uma trepadeira já sem flor. Frederico sentou-se tambêm, vendo-a trabalhar. Tinha um vestido preto que lhe imprimia maior destaque à brancura das carnações. Na gola da

corsage

, afogada ao pescoço, fulgurava um brilhante, irrizando-se à luz. Os seus dedos magros manejavam ágilmente a agulha. Como sempre, a noite de Frederico fôra tempestuosa, deixara-o doente e mais aborrecido. Resolvera internar-se no parque, à procura do isolamento, do sossêgo, que apaziguavam o seu frenesi: mas, deparando Júlia, experimentou logo a irresistível atracção que ela exercia sobre o seu sentimento e achou um doce sabor na sua companhia. Seguia mudamente o bordado, com a face encostada à palma da mão; e, para interromper um silêncio que lhe fazia, mal, exclamou:

―Só as senhoras teem paciência para tais tarefas...

―Questão de hábito―respondeu Júlia, sem levantar a cabeça.

―Eu era incapaz de chegar ao fim duma coisa dessas, que me parece mais fatigante e difícil do que os dôze trabalhos de Hércules... Estragava tudo, rasgava tudo...

―Jesus! Pois é assim impaciente?...―perguntou ela, fitando-o.

―Sou assim impaciente!

A radiação da luz fluida, que vinha de fóra, batia em cheio na cabeça de Júlia, aureolando-a; sôbre os ombros descaídos havia tambêm manchas luminosas. Frederico, perturbado, voltou-se para a estante, a escolher um volume.

―Que vaí ler?―interrogou Júlia.

―Sei lá! Talvez uma história triste dalguêm que nunca realizasse as suas aspirações. Estou hoje tam nervoso, tam melancólico!...

―Pois por isso mesmo, devia preferir as leituras alegres, para se desanuviar... E diga-me: Crê que haja pessoas correndo continuamente atrás dum ideal que nunca alcançam?

―Oh! de-certo que há!

―Eu julgo que essas pessoas estão fóra da realidade, e eis porque não encontram nunca o seu mundo...

A voz de Júlia tinha, no seu timbre de ouro, uma brandura acariciante. Frederico, enleado, contemplava-lhe o busto, que era admirável de proporções, a linha, a curva ondulante dos seios que se arredondavam sob os tecidos leves, o pescoço esbelto, o lóbulo das orelhas que o penteado deixava a descoberto e que era côr de rosa.

―Mesmo dentro da realidade―exclamou êle―nem sequer se podem atingir certos ideais.

A solitude em que a casa estava mergulhada assustava-o. Desejava o ruido, o barulho, tudo o que o aturdisse.

―Conhece alguns casos dêsses?―perguntou ela, mirando-o com a face tocada pela graça do riso.

Frederico sentiu uma perturbação instantânea, passou-lhe na mente uma névoa, tôda a resolução anterior se deteve no seu sêr, fez-se-lhe uma espécie de vácuo na consciência, a sua timidez aumentou. Sem poder falar claramente, gaguejava. Êste sobressalto inexplicável excitou ao mais alto ponto a curiosidade de Júlia que o envolvia com a luz dos seus olhos tam sinceros.

―Diga!...―insistiu ela.

―Talvez!―respondeu Frederico. Tenho-me entregado a êstes estudos especiais, porque o maior prazer duma alma é reconhecer outras almas belas.

―Oh! mas essas almas escapam-se a tôda a observação―atalhou Júlia.

―Não. Quando muito, constituem um mistério―mas mistério que se sente...

Desvairado, Frederico levantou-se, encaminhando-se para a porta.

―Tem que fazer?―interrogou Júlia.

―Não... Absolutamente nada.

―Então, sente-se, seja a minha companhia,

se isso

lhe não desagrada.

―Oh! minha senhora!...

As fontes latejavam-lhe, uma vermelhidão febril afogueava-lhe as faces, a sua respiração acelerava-se.

―E como se denunciam, às vistas perspicazes, as almas de que fala?―inquiriu Júlia, baixando o rosto sôbre o bordado.

―Pelo encanto que irradiam, pelo domínio que exercem, pela inspiração que produzem.

―Julgo que está enganado. As almas femininas, por exemplo, furtam-se às mais subtis análises. Se um homem louvar a beleza duma mulher, ela sorrirá, não se defendendo, mas ocultando-se às revelações íntimas...

―Mesmo quando ama? Sendo o amor a obra da alma, ela revela-se totalmente sob a sua influência...

Insensívelmente, o diálogo entre os dois tinha resvalado para um plano perigoso, e Frederico empregava esforços violentos para subtrair-se às tentações, porque começava a ter receio de dizer tudo a Júlia, de lhe confessar o seu supremo segrêdo, de lhe denunciar, com lágrimas, o seu inferno, o seu tormento de tôdas as horas. Ia-lhe fugindo a faculdade de pensar, de reflectir antecipadamente na significação das suas palavras e de calcular-lhes as conseqùências, porque erradamente supunha que o interrogatório de Júlia, tam natural, tinha qualquer cousa duma provocação.

―Mas ainda me não disse francamente se conhece alguma dessas almas―exclamou ela, de novo.

―Não conheço, mas tenho a certeza de que existem...

―Nos romances?

―Ah! nos romances, há lenda daquele príncipe que se sabia perto da mulher que amava, que lhe sentia as palpitações do coração, mas que não podia tocar-lhe nem vê-la, porque uma cortina de névoa opaca o separava dela!...

Júlia, esquecendo as mãos no regaço, olhou-o então longamente, como se quisesse compreender alguma obscuridade psicológica que pressentia: e Frederico, comprometido, levantou-se logo, rindo um riso nervoso e atalhando:

―Mas, é claro! O que os romances dizem não tem veracidade. E estas nuvens só aparecem aos príncipes e às princesas...

Dirigiu-se para a porta, resolutamente, depois de tirar um livro da estante.

―Sai?―perguntou Júlia.

―Sempre vou um pouco até ao jardim, tomar ar...

E desceu rápidamente sem se voltar, desgostoso consigo próprio, excitado, ainda no pavor da leviandade irremediável que ia cometendo. Ah! não! Aquilo não podia continuar! Era muito duro, muito cruel para êle. Agora, compreendia que o temido conflito do seu espírito com o seu instinto se daria fatalmente, se prolongasse por mais um dia, uma semana, a sua estada perto de Júlia. Chegaria uma hora de fraqueza em que a energia lhe faltasse para dominar-se. Antes de isso acontecer, fugiria para longe, tentaria esquecer. Queria ser digno de amizade de Nuno e do afecto da mulher de quem um amor infeliz o aproximara. Estava ainda a tempo! E firmemente, nesse mesmo dia, ao jantar, anunciou a sua partida inevitável, pretextando a solução urgente de negócios que não deviam ser adiados...

V

Foi num inquietante estado de alma que Frederico deixou a vivenda pacífica onde o seu sentimento fizera, inesperadamente, uma tam alarmante descoberta, regressando ao Pôrto sem um fim determinado, sem mesmo pensar na maneira de evadir-se duma intensa e amarga tortura. A certeza de que amava a mulher de Nuno com um amor que poderia levá-lo, violentamente, a todos os crimes e a tôdas as degradações da alma, obcecava-o e obrigava-o a reflectir na impureza da argila de que é formado o coração humano. Fugia de Júlia, do amigo, do repousado lar em que vivera tam plácidos dias―antes da fatalidade duma adoração que quisera evitar, a que tentou, em vão, resistir e que lentamente se lhe apoderou de todo o sêr consciente―em condições trágicas para a sua emoção. Sentia-se enfeitiçado por uma espécie de malefício ao mesmo tempo cruel e doce, que lhe causava sofrimento e saùdade e que nêle abolia o senso moral sem, no entanto, lhe conturbar a lucidez da inteligência a ponto de não discriminar entre o bem e o mal...

Durante a jornada para o Pôrto foi sobressaltado, várias vezes, por uma singular diversidade de sensações. Ia fugindo como um bandido, trémulo, aterrado, com mêdo de tudo―e porquê? Ninguêm conhecia o seu drama, bem oculto, bem recalcado dentro de si próprio―a não ser que Júlia o tivesse adivinhado, porque as mulheres; em coisas de sentimento, são subtis. Aquela deserção representava a cobardia dum homem incapaz de afrontar altivamente o primeiro perigo que diante de si imprevistamente se levantava, com a segurança de que venceria; mesmo incapaz de dominar as instigações da outra personalidade em que se desdobrava e que o concitava ao êrro, à deslealdade, à vileza, solicitando a imediata satisfação dum desejo gerado no seu egoísmo e na sua sensualidade; que se mostrava impotente para conter a expansão vertiginosa do instinto. Alucinava-o a quáse eliminação da vontade―de que o último lampejo se exaurira com a resolução de sair apressadamente da casa de Nuno, inventando um pretexto fútil em que se traíria, se o amigo não depositasse nêle a maior confiança. Raciocinando nesta leviandade, Frederico monologava, encolhido a um canto do combóio, sem mesmo espreitar rápidamente a maravilhosa paisagem, que atravessava:

―Como fui imprudente, na realidade!

E agora, que estava mais sereno, aquela imprudência atemorizava-o. Reconstituía na

imaginação

sobreexcitada a surprêsa de Nuno, quando lhe comunicou a resolução firme de voltar à cidade. Fixando-o com uns olhos penetrantes que o devassavam até às recônditas intimidades da consciência, êle exclamara:

―O que? Vais-te embora?

―Sim, vou!―atalhara bruscamente, com uma perturbação que o denunciava. Assuntos complicados a liquidar, um inferno...

―Homem, sê sincero. Tu o que estás é aborrecidíssimo, odiando êste cárcere, abominando esta solidão, morto por te veres de novo no ruído, no tumulto urbano...

―Mas não, mas não! Que ideia!...

Júlia expiava-o tambêm interrogadoramente, com um olhar em que à vivacidade se mesclava uma pontinha de ironia amável.

―Para que hás de negar?―insistia Nuno.

―Oh! filho, mas que impertinência tamanha, a tua!... Frederico é um homem do mundo e julga ter cumprido já os deveres da amizade para connosco, dando-nos algumas semanas da sua companhia. Se quiséssemos retê-lo aqui por mais tempo, entre estas árvores, nesta solidão, no meio dêste deserto, seria tirânico da nossa parte!―afirmara Júlia benévolamente.

―É claro―acrescentou Nuno ―eu não te imponho o sacrifício de nos aturares até à consumação dos séculos... O meu despotismo não chega a tanto...

―Sacrifício?... Mas que sacrifício?... Se eu te estou a dizer...

―Bem, acabou-se!―concluiu Nuno. Parte...

―Quem sabe, de resto, se haverá na cidade algum motivo superior que o reclame a tôda a pressa?―insinuara ainda Júlia com aquele riso que era de graça, de bondade, de malícia e de doçura e que tanto encantava Frederico.

―Certamente, minha senhora... Há um motivo!―respondeu êle.

―Sentimental?―inquirira Nuno, rindo tambêm.

―Crê que estou a falar a sério!―replicara Frederico.

Propositadamente, para desviar o rumo da conversa, que o fazia sofrer e o forçava a simular para esconder uma verdade que não podia ser conhecida sem vergonha para êle, sem dor para Nuno e sem cólera amargurada para Júlia, Frederico procurou ser alegre, mas inutilmente. A intensidade da comoção experimentada crestou-lhe a floração do humorismo, tornou-o fúnebre; e as horas que se seguiram à sua decisão foram monótonas, tristes, cheias de fadiga. A cada instante, Nuno murmurava, fumando um charuto e quebrando a cinza na beira do cinzeiro de porcelana:

―Vais, então, para o Pôrto, scelerado, reentras nos teus hábitos.

Frederico notava nestas palavras de afecto, que lhe doíam como um queixume, a vaga sombra dum desconsôlo, e dizia:

―Vou, de-certo... Deveres... As obrigações primeiro e as devoções depois. O método é tudo... E tu? Ficas por aqui ainda?

―Fico. Há uma infinita multidão de factos que exigem a minha presença... Alêm disso, esta é que é a minha casa... Júlia dá-se bem. Eu passo óptimamente. Retirar-me, para quê?

―Pois olha que sou muito capaz de voltar ao calor das vossas afeições, em concluindo os meus negócios!

―Que lisonjeira mentira!―acudiu Júlia, aconchegada na sua cadeira, ainda à mesa do jantar, seguindo o diálogo com a face inclinada na mão.

―Oh! minha senhora, eu nunca minto, por princípio. Seria um pecado.

―Não! Muitas vezes, mentir por amabilidade é uma virtude que denuncia puros dons de alma.

Tornou-se impossivel animar a palestra em tôda a noite. Frederico pensava que o desalento se comunicara, como um fluido subtil e dissolvente, a Júlia e a Nuno, destruindo o gôzo espiritual daquele momento: e foi para ele um grande alívio o instante em que pôde recolher-se ao seu quarto, isolar-se, concentrar-se nas suas meditações. Deitando-se e apagando a luz, reencetou a análise da sua própria psicologia. A impressão que Júlia lhe produzia na sensibilidade era cada vez mais forte. Por enquanto, a imagem da mulher amada iluminava-se ainda de esplendor, movia-se num círculo de claridade e de pureza que o coagia a uma adoração casta. Não atravessaria a zona luminosa que o separava dela, para tocar-lhe com mãos profanas. Chegaria, porêm, uma hora de alucinação em que a generosidade e a grandeza moral que prevaleciam na sua organização desaparecessem, fundindo-se a um fogo de voluptuosidade impetuosa, e em que a sua áspera ânsia carnal, numa súbita e espontânea erupção de luxúria, o impelisse às piores injustiças, às violentas rebeliões, às brutalidades, às loucuras em que nada se respeita. Frederico temia essa hora e libertava-se, pela fuga, da sua terrível influência. Por enquanto, conservava tôda a sua energia, tôda a sua lucidez mental, podia calar-se a tempo, encerrar o seu amor secreto num silêncio impenetrável; mas não viria a perder essas faculdades redentoras se prolongasse a sua estada junto da mulher que inocentemente excitara a sua paixão? Era preciso cortar como flor venenosa o sentimento vil que lhe germinara na alma, exilar-se para longe, esquecer... Tam ardente era nêle a imaginação que lhe parecia que a voz de Júlia tremera ao ouvir-lhe anunciar a partida e que os seus imensos olhos, negros e húmidos, fazendo-se mais lânguidos e acariciadores sob as pestanas, cravando-se nos dêle, lhe pediam que ficasse, o aliciavam com promessas de tôda a sorte. Resistir aos avisos da dignidade, que o mandavam retirar sem demora, seria uma abjecção, um acto inqualificável. Êsse amor, apenas nascente, tinha para êle a sordidez, a vilania, a crápula dum incesto―porque Nuno era o seu irmão. Não reagir contra a voz secreta e criminosa do instinto puramente animal que o tentava a não sair do lado de Júlia representaria a queda num abismo insondável, a submissão que o desonraria para sempre, o remorso, uma dor futura que nem sossegaria sequer, mesmo que fôsse possível satisfazer a ignomínia da paixão que o exasperava.

―Não! Não!―murmurava Frederico, revolvendo-se no leito. Partindo, serei ainda nobre e bom.

E a bondade, para êle, era a mais pura, a mais alta manifestação da vida consciente. Alucinado por um sentimento que agitava tudo o que no seu ser de homem havia de imperfeito, de inferior, de grosseiro, sofrendo tôdas as torturas que um amor impossível e sem esperança pode fazer experimentar a um temperamento ardentemente apaixonado, Frederico sentia, como uma carícia de inexprimível enlêvo, essa bondade à sua volta, naquele calmo lar tam digno. Ela irradiava da candura dum berço onde dormia a inocência sem culpas; denunciava-se numa adoração conjugal que se perpetuava indefinidamente com o mesmo encanto do dia maravilhoso em que principiara; emanava-se de Júlia como uma espécie de imaterialidade visível e penetrava-o a êle mesmo fazendo-lhe transbordar de ternura o coração, purificando-o de pensamentos maus. Por mais duma vez―absorvido na sua meditação e louvando-se pela coragem, pela energia que revelava, afastando-se dum enlêvo que para êle condensava, nesse momento, a felicidade suprema―Frederico descobria uma desconhecida frescura de emoções novas e apaziguadoras, passava-lhe na alma um sôpro vital que o rejuvenescia. Mas êste entusiasmo era fugaz: e uma saùdade muito funda―a saùdade de tudo o que perdia―continuava a exaltá-lo.

Murmurava, na sua viagem para o Pôrto:

―Fiz, talvez, uma asneira. Desertando, demonstrei a mim próprio que sou cobarde, que tenho mêdo, que sou incapaz de resistir...

Então, arrependido, levantava-se do banco em que ia sentado, dava alguns passos nervosos no compartimento em que viajava só e assaltavam-no tentações de descer da carruagem na primeira estação e de voltar para trás, regressando a casa de Nuno e de Júlia. Logo, porém, caía em si, exclamando:

―Mas estou doido, doido! Êsse regresso seria uma revelação, uma confissão completa pelo menos para Júlia, porque nada escapa à sagacidade das mulheres, em amor.

Para se distrair, dissipar os sentimentos contraditórios que o desvairavam, curvou-se à janela da carruagem, observando o panorama que se desdobrava ao sol no esplendor das suas tintas. A manhã resplandecia como um cristal translúcido; tôdas as côres se aviventavam na radiação da luz. As forfas elegantes das árvores, que donde aonde davam sombra e manchavam de verdura os descampados, desenhavam-se com nitidez de linhas e de contornos no azul claro, e a serenidade deliciosa do céu cumunicava-se à natureza inteira. A largura infinita do espaço, mais branco para as bandas do nascente, mais anilado no alto, parecia decorada, vestida como para uma festa voluptuosa e delicada. A profundidade alvacenta e luminosa do ar que envolvia e vivificava tôdas as coisas tinha para Frederico uma novidade nunca surpreendida. Parecia-lhe que Júlia, despertando-lhe a faculdade de amar, lhe despertara tambêm a faculdade de compreender.

Lentamente foi-se-lhe atenuando nos olhos a imagem feminina que sem repouso acariciava. O fenómeno fisiológico intenso que imprimira uma completa modificação à sua consciência em horas tam ardente e dolorosamente vividas, dava agora um rumo diferente aos seus pensamentos―e isto desanuviava-o um pouco. Caía numa dessas cogitações sem objecto definido que constituem verdadeiros e inefáveis desfalecimentos de espírito...

Desejava chegar depressa ao Pôrto, reentrar na serenidade da sua vida de solteirão, mergulhar no tumulto citadino, entregar-se todo à satisfação dos seus caprichos, à sua fantasia, à multiplicidade dos seus prazeres, com a secreta esperança de esquecer completamente, de depurar-se, para ser outra vez digno do afecto de Nuno e da confiança de Júlia. Enquanto dentro de si vivesse aquele amor criminoso, julgava-se impuro:―e como impuro, não deveria pensar no regresso à vivenda do amigo, que era um templo e que a sua impureza profanaria. Foi nesta excitação que entrou no Pôrto, num sábado à tarde.

Começou, então, para Frederico um sombrio período do miséria moral e de sofrimento. Jàmais a sua existência lhe aparecera tam solitária, tam inútil, tam recuada das verdades construtivas e dos sentimentos renovadores. Um inexplicável desalento enchia-o de desgôsto, humilhava-o. Nunca, como nesses dias alucinantes em que, em vão, procurava aturdir-se, afundar-se na embriaguez de tôdas as excitações, Júlia lhe parcera tam desejável. Um fogo sensual muito violento ia secando nêle tôdas as fontes da virtude e da honestidade: e a sua ausência infligia-lhe fulgurantes torturas. Recordava, com uma vivacidade que lhe aumentava o padecimento, a sua graça de mulher, as perfeições do seu corpo, a doçura que a sua posse lhe transmitiria. O ciúme, que já por mais duma vez sentira por Nuno, intensificava-se. Como se na evocação das coisas amargas houvesse para a sua alma um gôzo especial, Frederico imaginava a cada momento Júlia nos braços do marido, fundindo-se ambos no mesmo beijo abrasador, dando-lhe tôda a sua carne latejante, todo o sangue das suas veias, murmurando-lhe ao ouvido tôda a sorte de meiguices em palavras entrecortadas e ternas. E via-a rolando a cabeça desfalecida no ombro de Nuno, cerrando as pálpebras num delíquio, mais côrada, com os lábios pálidos, o peito arfando apressadamente. Insurgia-se contra êste amor conjugal como se êle representasse um crime, como se exprimisse um pecado e como se fosse êle o traído... Um acesso de impaciência e de cólera interrompia este delírio dos seus sentidos. Reentrando novamente nos domínios luminosos da inteligência, Frederico exclamava:

―Preciso de reagir contra esta doença que me devasta, senão enlouqueço!

Esperava que a crise lhe concedesse tréguas, e para apressar êsse instante que seria venturoso e afável para êle, ia aos teatros, aos concertos, freqùentava as reùniões das pessoas do seu conhecimento, nunca faltava nos logares onde o mundanismo se dá

rendez-vous

: mas, nas salas de espectáculos, nos salões de baile, nas

soirées

familiares, surpreendia-se a aguardar a entrada súbita de Júlia, radiante no esplendor duma beleza a que a vida campestre tivesse insuflado mais graça e maior poder de sedução, sem reparar em nada do que à sua volta ocorria. As senhoras achavam-no muito mudado e diziam-lho, entre ironias. Não tinha a alegria antiga, a vivacidade doutrora, era um outro Frederico sem a jovialidade que o caracterizava e o impunha às admirações.

Uma noite, em casa de D. Francisca de Medeiros, que às terças-feiras reùnia algumas famílias íntimas, a sua tristeza foi notada pelas damas com quem se entregara, em outras épocas, às suavidades do

flirt

. Uma delas, D. Felismina Trigoso, que nutrira a esperança de ser por êle amada em tempos findos de que ainda conservava a lembrança doce, surpreendendo-o a um canto a folhear uma revista ilustrada, não se conteve.

―Sabe?―exclamou ela―tôdas nós o estranhamos.

―E porquê, minha senhora?―inquiriu Frederico, fechando a revista e erguendo-se.

―Estranhamo-lo por essa melancolia, pelo desinterêsse de tudo o que o cérca, pelo isolamento em que voluntáriamente se encerra.

―É que ando a fazer um severo exame de consciência. Fui um grande pecador, e para ganhar a glória celeste, decidi fechar-me num convento, ser monge, penitenciar-me―disse êle.

―Não disfarce, não finja!

―Mas sou sincero!

―O que pretende é ocultar qualquer coisa―insistia ela.

―Ocultar o quê?

―Que sei eu? Talvez alguma paixão infeliz, algum desgôsto muito profundo.

―Ah! como é errado o seu juízo! V. Ex.

a

não sabe, então, que as criaturas que se recolhem, que se isolam, que se concentram, são precisamente as felizes?

―As felizes?

―Certamente! Só a felicidade é egoísta, concentrada, e não gosta de revelar o seu gôzo interior. O sofrimento, pelo contrário, precisa das multidões, das testemunhas, para dilatar-se.

―Paradoxos...

―Não, minha senhora. V. Ex.

a

não conhece, de-certo, Heraclito, um filósofo da antiguidade clássica, que, quando sofria, procurava as praças públicas, as ruas das cidades, para chorar... Se eu fôsse desgraçado...

D. Felismina ria saborosamente daquela abundante verbosidade que incitava ao humorismo pelos efeitos do contraste.

―Se fôsse desgraçado?...―interrogava ela.

―Se fôsse desgraçado, rompia aqui num chôro de tal ordem, que a policia teria de acudir!...

―Venham cá, venham cá!―chamou D. Felismina―está hoje brilhante!...

As outras senhoras acudiram, num grande rumor de riso e de sêdas amarrotadas: e D. Felismina, voltando-se para a dona da casa, murmurou:

―Tem estado a dizer-me coisas monstruosas, não calcula!...

―Sim?―atalhou D. Francisca, com um sorriso afável iluminando-lhe o rosto simpático. Então, de que falavam?

―De grandes verdades, minha senhora―respondeu Frederico. Afirmava eu que as paixões amorosas mais sérias, porque decidem de todo um destino, são as que alvorecem nos corações de cincoenta anos de idade. A snr.

a

D. Felismina, porêm, é de opinião contrária e assevera que essas paixões só podem ser sentidas aos vinte anos...

―Não era de nada disso!―protestou D. Felismina. É um mistificador...

―E ainda não experimentou nenhuma, Frederico?

―Não, D. Francisca. Encontro-me na infância. Tenho apenas trinta e cinco anos, estou muito longe da minha primavera!...

O riso animou-se mais nas bôcas femininas, que louvavam tôda aquela alegria, tôda aquela mocidade de espírito, e, por momentos, Frederico atraíu as atenções; mas foi um fogo-fátuo êsse instante de jubiloso alvorôço, que se dessipou totalmente, quando D. Felismina, muito solicitada, se sentou ao piano, tocando uma página de Mendelssohn, que ela interpretava maravilhosamente.

De novo isolado e absorvido nos seus pensamentos dolorosos, folheando outra vez a revista que o fatigava de tédio e que tinha aberta sôbre uma mesa de pau preto onde, em jarras de faiança antiga, brilhantes de esmaltes e de coloridos, morriam e se desfolhavam lentamente ramos de azáleas brancas, Frederico observava aquele mundo fútil de exterioridades encantadoras e recordava-se de Júlia. O ambiente era, na verdade, elegante. O salão estava decorado com gôsto. Um tapête de tons suaves, rosa e verde-malva, amortecia o som dos passos e tornava mais confortável o compartimento; os móveis, leves e bem lançados, destacavam-so pela forma e pelos estofos que os recobriam. Sôbre um fogão de mármore, que resplandecia de brancura na crueza da luz eléctrica, um relógio de bronze, estilo Luis

xiv

, marcava as horas que longos ponteiros dourados indicavam num mostrador esmaltado em que corria, no esplendor das tintas, uma scena idílica, evocando as telas de António Watteau, com pares de namorados enlaçando-se sob as árvores. Ao fundo, um piano Bechstein com velas ardendo em serpentinas de prata e acendendo fulgores de chama no verniz negro da madeira, tinha uma graça ornamental pesada e imóvel. Sòbre a alcatifa, encostados dum lado e doutro às paredes, que um papel côr de ouro fosco forrava, havia enormes vasos do Japão, com figurinhas de mulheres abrigando-se do calor sob largas umbelas de sêda, penteados altos seguros por pregos de feitios bizarros e cegonhas de bico vermelho adormecendo à beira de lagos, junto de cerejeiras em flor.

Etagères

de ricas talhas sustentavam graciosamente cristais cheios duma água que scintilava na claridade e em que esplendia a graça duma rosa ou a beleza do ramos de violetas, exalando-se em arôma. O que mais seduzia Frederico era a harmonia, a disposição bem achada de cada peça de mobiliário, contribuindo para o equilíbrio do conjunto, a correcção das linhas plásticas e decorativas. Por êste arranjo impecável, reconstituía êle a individualidade psicológica de D. Francisca, que se fanava na sua viuvez de longos anos, que devia ser inteligente, ter um sentimento acessível às emoções produzidas pela arte, possuir uma alma feita de tôdas as delicadezas e de tôdas as bondades. Para ela subiam o culto puro do seu afecto, a sua ternura de homem. Sem saber porquê, D. Francisca fazia-o lembrar com mais doçura de Júlia, que havia de ter, mais tarde, uma velhice assim, encantadora, um porte que inspirasse admiração e respeito, uns olhos em que vivessem milagrosamente as imagens dos sonhos mortos...

Num gabinete ao lado, servindo de

fumoir

e de sala de jôgo, os homens entregavam-se com interêsse ao seu

bridge

, enquanto esperavam pela hora da debandada, discutindo, em voz baixa, escândalos sentimentais ou casos frustes de política. A atmosfera pesava, aquecida pela luz, carregada de perfumes. E a música de Mendelssohn ia dizendo, numa voz de sortilégio, a aspiração das almas pelos finos amores idealizados, tudo o que murmura nas florestas pelos crepúsculos religiosos, tudo o que suspira nas aragens, tudo o que sussurra nas fontes e nas folhagens. Conturbado, Frederico fechou a ilustração, levantou-se, deu algumas voltas, sacudido por uma emoção muito viva e muito forte...

Aquela música segeria-lhe uma outra que ouvira em casa de Nuno, por uma noite inspiradora e silenciosa, pouco depois de chegar à aldeia e de conhecer Júlia mais de perto. Nem um só pormenor lhe havia esquecido, tam violenta fôra a comoção experimentada. A sua inteligência tinha uma extraordinária argúcia. Relembrava o enlêvo daquela hora reveladora; a graça ideal do busto de Júlia, sentada ao piano; o banho luminoso que descia do candeeiro suspenso no alto e batendo em cheio na sua cabeça, aureolando-a; a ligeireza, dos seus dedos longos e brancos pousando ágilmente sôbre as teclas de marfim; o seu olhar animado e brilhante; o viço dos seus lábios vermelhos e húmidos; o jardim florindo ao luar; a massa confusa de sombra formada pelo parque, ao longe...

Entrou na sala do jôgo, parando durante minutos. A conversa banal dos homems enfastiava, sufocava-o o cheiro do fumo. Veio novamente para junto das damas que sonhavam ainda sob a influência perturbante e emotiva da música. D. Felismina tinha acabado de tocar e sorria, cansada, encostando ao piano um braço nú, emergindo da alvura das rendas, redondo, gordo e puramente medelado. Frederico, gentilmente, cumprimentou-a.

―Sabe que é um nobre temperamento de artista?

―Ora! Gentilezas...

―Mas não, mas não! É perfeita. Não lhe parece, D. Francisca?

―De-certo! Eu acho-a admirável.

―E fica-lhe bem a modéstia―acudiu uma outra senhora, D. Maria do Céu, espôsa dum magistrado, muito nutrida, entre duas filhas magras e pálidas.

―Não é modéstia, D. Maria. É sinceridade.

―A música desperta em mim singulares comoções, fazendo aflorar tudo o que na minha organização há de mais elevado moral e mentalmente―disse ainda Frederico. É por isso que eu a considero a arte superior, pelos sentimentos e pelas ideias que inspira, quando os seus executantes lhe transmitem uma alma. E é êste, justamente, o seu caso, minha senhora.

―Para que há de zombar duma

dilettante

sem pretenções?―exclamou D. Felismina.

―Mas então, ninguêm me acredita, mesmo se digo a verdade! Arranja fama de

blagueur

e deita-te a dormir―comentou Frederico, risonhamente.

Demorou-se mais alguns momentos numa palestra que o aborrecia, pelo seu ar de cortesia convencional; e, por fim, despedindo-se, saíu, seguido pelo olhar de D. Felismina, que outrora galanteara, fazendo nascer na sua ternura feminina uma fina flor de ilusão. A caminho de casa, pela rua mergulhada numa meia obscuridade que mais o entristecia, Frederico meditava na sua condenação atroz e monologava:

―Como custa ser honesto!

Efectivamente, a saùdade de Júlia acompanhava-o para tôda a parte, no passeio, no teatro, nas ceias ruidosas com amigos, nas reùniões familiares, velava-lhe os sonos inquietos, seguia-o sem repouso, vigiava-lhe a formação das emoções e dos pensamentos. Não podia separar-se dela um só minuto. Sentia-a tirânicamente no coração como um remorso conjuntamente aflitivo e suave, no sangue, como um fluido que o incendiava, nos nervos. Em vão procurava libertar-se. Para a apagar no cérebro e na alma, torturava-se inutilmente. Julgava-se abandonado de tôdas as afeições, mesmo de Nuno, que nunca mais dera sinal de si, desde que Frederico deixara a quinta, no terror de praticar uma vilania. Escrevera-lhe para lá uma longa carta, narrando-lhe o repouso inolvidável das horas que perto dêle e de Júlia passara durante duas semanas, pusera nas palavras mais vibração e calor, por imaginar que também ela leria essas linhas em que o seu sentimento transbordava de gratidão, dissera-lhe a solitude e a angústia dos dias que ia vivendo na cidade, longe dum lar que lhe mostrára nítidamente a realização da felicidade terrestre―e nenhuma resposta recebera. Porquê? Traíria êle, nessa confissão ardente, um segrêdo que ninguêm devia conhecer? Suspeitaria Nuno dalguma coisa? Não teria a carta chegado ao seu destino? Estas dúvidas pungiam-no.

Enquanto caminhava, pelas ruas ermas que se esgueiravam como cobras na sombra que as fileiras irregulares de prédios projectavam nas calçadas, Frederico sentia um grande desalento subir e invadi-lo todo. Como a sua existência era estéril! Nem alegrias morais presentes nem confiança no futuro. Evocava, por uma especial associação de ideias e de sentimentos, a melancolia da sua vida desde os dias já remotos da infância, e, por instantes, todo o passado se iluminava aos seus olhos.

Aos oito anos, quando as outras crianças ricas brincavam e eram amimadas pelas mãos puras das mães, fôra êle metido num colégio como interno, depois de lhe vestirem um fardamento. No internato onde a sua meninice se enclausurara, deitava-se, levantava-se, ia para as aulas, para as refeições, para a banca de estudo, para os ócios do recreio, sempre ao toque duma sineta. A sua individualidade passiva resumia-se em obedecer; os deveres da disciplina vergavam-no, a êle que era então tam tímido, sem vontade, incapaz de rebeldias. Com que lucidez maravilhosa se lembrava duma época para êle desoladora! Não lhe escapavam os mínimos detalhes. Recordava, por exemplo, a ansiedade com que, tanto êle como os condiscípulos, esperavam a hora da folga, durante as lições enfadonhas que um homem imensamente calvo e de bigodes brancos―o snr. Justino―lhes professava. O snr. Justino tinha uma voz que soava falso, uma face engelhada, vestia um vélho

frac

muito coçado na gola e nos cotovelos. Os seus olhos, que eram vivos e pequeninos, faíscavam por detrás dos vidros das lunetas. Nunca se irritava, era fleugmático, pachorrento, as suas palavras arrastavam-se no silêncio da sala―um silêncio tam profundo que, em junho, se ouvia o lento zumbido das moscas descrevendo, no vôo, movimentos giratórios incoerentes. Os rapazes chamavam a êste pobre professor, que era a imagem dos lutadores destroçados, o

D. Ana

. Escondendo-se com os livros abertos e postos ao alto nas carteiras, curvando o busto, deitavam a língua de fóra, faziam momices, trejeitos humorísticos, protestando assim contra a prisão nas idades em que as infâncias, como as flores, amam os grandes espaços livres, o tumulto, as indisciplinas. Por vezes, das bancadas elevava-se um murmúrio confuso, estalavam risos abafados, as solas das botas raspavam, impacientemente, o soalho frio e encardido.

D. Ana

, interrompendo a sua vagarosa exposição, erguia a cabeça, fitava um minuto os colegiais, que logo emmudeciam, atemorizados, dizia, na sua voz de falsete:

―Então, meninos! Que é isso? Mais respeito e mais atenção!...

A tranqùilidade restabelecia-se imediatamente, mas por pouco tempo. Perto de Frederico, um estudante com raras aptidões para o desenho fazia a lápis a caricatura do snr. Justino, com as lunetas dependuradas tristemente do nariz que sugeria o agudo e longo bico dum pássaro. A semelhança dos traços era flagrante e já com uma notável noção do grotesco. O caricaturista dava a sua obra humorística a Frederico, dobrada em quatro. Êle abria-a e lia por baixo da figura ridícula do mestre:―«Veja e passe adiante». Frederico via e passava, sufocando o riso na palma da mão com que comprimia a bôca. A caricatura corria assim tôdas as bancadas dum extremo ao outro, despertando as hilaridades que não podiam expandir-se e que espalhavam a inquietação, o nervosismo, a impaciência, na aula. Por vezes, o prefeito, que era muito severo e a quem os rapazes denominavam de

Mata e esfola

, surgia de repente à porta. Na sua bochecha còrada e gorda, tôda rapada, barbeada de fresco, como a dum padre, espelhava-se a indignação. Lançava um

schiu!

muito sibilado que fazia entre os escolares o efeito duma ameaça...

Os rapazes odiavam-no, imputavam-lhe a responsabilidade de todos os castigos sofridos, a supressão da sobremesa e das liberdades do recreio, as longas e fastidiosas páginas de escrita em que se repete um verbo cem vezes―e prometiam vingar―se... Depois,

D. Ana

terminava a lição, os livros fechavam-se de estalo, com alarido formidável, uma sineta badalava na solidão e os colegiais saltavam as carteiras, com o

bonet

agarrado nas mãos, corriam para o jardim que floria ao sol, no esplendor das formas e das colorações, pulavam por entre os arvoredos que projectavam na areia branca do chão largas máculas de sombra oscilante.

Era a hora melhor e mais doce para os internos do Colégio. Formavam-se grupos, organizavam-se jogos, a gritaria tornava-se ensurdecedora. Dum céu muito nítido vinha uma luz muito loura que dormia pacíficamente nas clareiras. As mimosas enchiam-se de florações de ouro. Os adolescentes que pertenciam a classes mais adiantadas não se associavam aos divertimentos dos mais novos―passeavam dois a dois, liam versos rimados na solitude dos seus quartos, sonhavam com possíveis glórias literárias e tinham escondidos, entre o colchão e o enxergão das camas de ferro, que recordavam tarimbas de caserna, romances de enrêdo complicado e sensacional, que devoravam às escondidas, no refúgio dos momentos de descanso. Alguns, mesmo, ocultavam-se com as ramarias das árvores, para fumarem cigarros...

Frederico reconstituía com verdade surpreendente todos os episódios dos seus longínquos anos de colegial, sem deixar esquecido o menor detalhe. Relembrava que já nessa era remota era infeliz. Nunca pôde criar amigos entre os camaradas, que o miravam desconfiados, que se afastavam dêle, que o satirizavam. Uma vez, insurgindo-se contra estas inexplicáveis antipatias, que não provocava, teve uma grave questão com um estudante, Pedro de Menezes, contundindo-lhe a face com um forte murro. Os guardas acudiram, foi repreendido severamente pelo director do Colégio, que nem sequer escutou as suas desculpas e privado dos folguedos do recreio por tôda uma semana. O conflito, que o tornou temido, mais o incompatibilizou com os condiscípulos. Passou a ser designado pelo nome irónico de

Ferrabrás

e repelido amargamente pelos escolares, que o detestavam...

Feitos os exames, vinham as férias, os descuidados meses de liberdade por praias, termas, quintas rurais, sem a tirania dos livros, sem os abomináveis toques da sineta, que tinham para êle o horror dum dobre a finados, sem as reprimendas dos mestres, quando as lições se não sabiam. A população do Colégio debandava alegremente. As casas ricas mandavam carros e automóveis para levar os seus; os mais modestos mandavam simplesmente um criado. Frederico ia, então, para junto da mãe, já viúva, que andava sempre vestida de preto, rezando pelos corredores ou ralhando, em voz baixa, com os servos. Chamava-se D. Isabel de Noronha e havia casado, aos trinta anos, com o capitalista Simão de Noronha, muito mais vélho do que ela e que fôra fulminado por uma congestão cerebral poucos meses depois do nascimento de Frederico, único herdeiro da sua abundante fortuna porque uma sua irmãzinha morrera aos dois anos de idade.

Dentro da casa, Frederico sentia-se mais só do que no Colégio. A mamã, absorvida nos fervores da devoção religiosa, nos ardores do seu misticismo, mal reparava nêle, e não ser para o admoestar pelo barulho que fazia na vivenda, sempre de janelas cerradas à luz exterior, como se lá dentro se chorasse uma desdita permanente, como se a morte a povoasse. De manhã e à noite, ao levantar do leito e ao deitar-se, Frederico aproximava, com indiferença, o rosto da bôca materna e recebia um beijo frio e rápido. No fim do almôço, do jantar e depois do chá, ela obrigava-o a rezar, de pé, junto da mesa e de mãos postas, pela glória de todos os santos mencionados na

Legenda Dourada

, de Voragine, que tinha sempre sôbre a mesinha de cabeceira, perto dum castiçal de prata.

De vez em quando, vinham visitas, quáse sempre senhoras idosas tambêm severamente vestidas de preto, com quem D. Isabel se fechava, no oratório da casa, durante horas seguidas. Nestas ocasiões, Frederico fruía uma liberdade mais larga. Descia à cozinha, palrava com as criadas que se riam muito das suas diabruras, jogava o arco nos arruamentos do jardim... Depois, as férias acabavam, a mamã reforçava o enxoval, puxava-o para junto do peito sêco em que nenhum desejo profano arfava―rosando-lhe as carnes duma ponta de sangue mais vivo―despedia-se dêle com o mesmo beijo frio que lhe causava arrepios, murmurava em voz sumida:

―Vê se tens juízo... Porta-te bem.

Frederico regressava jovialmente ao Colégio, de que já tinha saùdades, e ouvia os seus condiscípulos, com inveja e tristeza, narrarem uns aos outros o encanto das vilegiaturas por estâncias de águas e estâncias marítimas, das pequenas viagens recreativas com a família, das reùniões e das danças nos Casinos, onde alguns tinham arranjado namoros.

―E tu,

Ferrabrás

, onde passaste o verão?―perguntavam-lhe.

Frederico, por vergonha, para não ser humilhado, tinha vontade de mentir, inventando digressões maravilhosas; mas a mentira repugnava-lhe. Calava-se, ruborizado, afastando-se dos camaradas...

Mais tarde, concluiu os preparatórios, a mamã morreu duma doença do coração, foi nomeado um tutor para administrar os seus bens, aumentados considerávelmente pela viúva que vivia parcimoniosamente, que abominava o luxo como se êle representasse ou um pecado ou um escândalo.

Na Academia Politécnica travou conhecimento com Nuno, que como êle tirava o curso de engenharia, que era igualmente rico e órfão. As suas relações estreitaram-se mais de dia para dia, talvez por esta coincidência que os identificava. Aproximava-os uma singular semelhança de infortúnios, de temperamento e de carácter e foram, durante seis anos, como dois bons irmãos. Nunca no afecto de ambos se levantou uma discórdia que os separasse um instante... E era êste o tempo mais doce e mais feliz da sua existència de homem, pelo menos aquele de que se recordava com maior ternura. Mas Nuno, uma vez, anunciou-lhe o seu casamento. Estavam, então, em Vizela, tôdas as noites se dançava no salão do hotel, e todos os dias se passeava no parque, se organizavam merendas no alto das serras, gericadas, barcarolas, no rio, ao som de guitarras românticas. Frederico assistiu à lenta formação do amor que encheu o coração de Nuno, que o levou para a felicidade conjugal, para as bemditas alegrias da paternidade, para os deveres e para as sérias responsabilidades da vida familiar. A princípio, tomou a inclinação do amigo por Júlia como um banal

flirt

, como um capricho de que nada restaria quando cada um fôsse para o seu lado. Depois, vendo-o desinteressado de tudo quanto não fôsse Júlia―que fielmente acompanhava para tôda a parte, com quem tôda a noite valsava ou conversava, em quem falava contínuamente como se ela representasse o símbolo das suas mais belas aspirações―sentiu que Nuno estava bem preso e bem apaixonado e que o desfêcho lógico daquele namôro seria o casamento. A partir de então, a sua vida fez-se mais solitária e mais despegada, os seus entusiasmos arrefeceram, perdeu tôdas as suas galvanizadoras confianças. Nesta solitude, porêm, era ainda relativamente feliz, até ao momento em que Nuno teve a má ideia de aproximá-lo de Júlia, já mãe.

―E aqui está―murmurou êle com infinita desolação―o que um amor sem esperança pode fazer dum homem!... Que sorte!...

No ermo da sua casa desabitada, Frederico, no enorme silêncio que invadia os longos corredores, as salas sombrias com um desagradável cheiro e bafio, sentia tôda a imensidade da sua derrota. Era um vencido. Para êle, o futuro não tinha horizontes luminosos, desde que uma adoração impura, penetrando-lhe insidiosamente na alma e incitando-o a trair uma amizade fraternal, lhe cortara toda a possibilidade de vir a amar com paixão e pureza uma outra mulher que não fôsse Júlia. Revoltava-se contra aquela adoração, acusava-se a si próprio por não ter sabido manter uma absoluta impassibilidade de sentimento diante da espôsa de Nuno. A fatalidade pesava sôbre o seu destino, sôbre o seu coração, que empolgava com mão de ferro.

―Mas serei eu o único responsavel?― monologava.

E, na sua dor, alucinado por uma perturbação que lhe toldava o cérebro e a noção da equidade, quáse que responsabilizava Júlia pela sua beleza aliciante, pela sua superioridade de mulher e pelas suas admiráveis virtudes.

VI

Não podendo viver tranqùilamente perto de Júlia, com o seu segrêdo sempre oculto, nem longe dela, com a angústia interior que o devorava, Frederico procurou aturdir-se na febre duma vida em que se esquecesse, que o consumisse lentamente e em que corrompesse a parte pura do espírito, excitando a sua avidez de prazer nos delírios das paixões voluptuosas. Queria libertar-se dum suplício que tanto lhe atribulava a existência. A fatalidade retinha-o entre o amor e os deveres da lealdade para com um homem que era, mais do que o seu amigo, a única pessoa a quem consagrava um afecto profundo. Se, numa alucinação, obedecesse aos impulsos desordenados e abomináveis do instinto carnal, mancharia a limpidez do seu sentimento afectivo: e, só de pensar na possibilidade dum arrebatamento que o levasse a confessar a Júlia a sua adoração pecaminosa―que ela, de-certo, repeliria indignadamente, porque era pura, honesta e refractária às tentações criminosas―uma dor muito funda agravava a sua exaltação física e o seu desequilíbrio emocional...

Notava, em todo o caso, que se tivesse a coragem, a audácia e o cinismo de praticar uma acção vil, não seria o padecimento de Júlia que mais vivamente o pungiria, causando-lhe mágoa e comiseração. A sua piedade ia tôda para Nuno, tam leal, tam comovido de bondade, dotado dum carácter do melhor ouro. Na sua perturbação, imaginava, por vezes, que todo o mal estava feito, que a situação criada pela sua loucura amorosa era já irremediável:―e concentrava-se, transido, para melhor reconstituir a figura de Nuno, no instante em que conhecesse o duplo ultraje à sua dignidade de marido e à sua honra de homem, errando alucinado pela casa erma, barafustando cheio de cóleras vingadoras, ferido na sua alma e na sua confiança, devastado, com a morte no coração e o calor da vergonha nas faces, acusando-o a êle com mais fulgurante raiva do que à espôsa, procurando-o por tôda a parte para lavar com sangue a afronta e a humilhação que o tinham maculado e coberto de escárnio. Então, diante dêste sofrimento, Frederico, espavorido, passava a mão trémula pelos cabelos, agitava-se violentamente para entrar na realidade das coisas, murmurava:

―É horrível, horrível!...

Readquirindo a serenidade e a lucidez, considerava como o seu crime seria monstruoso e sem perdão se êle não soubesse reagir vitoriosamente contra a fraqueza dos sentidos. Mas reagiria a todo o transe, muito emhora a reacção o fizesse sofrer, afirmava Frederico a si próprio:―e parecia-lhe que a sinceridade com que se defendia de desfalecimentos de energia atenuava a imensidade da sua falta.

Foi numa destas crises fulgurantes, repetidas vezes provocadas pela desordem da sua conduta, que Frederico decidiu fugir da inquietação e do remorso, mergulhando na embriaguez dos gozos que a fonte impura dos vícios lhe oferecia como consolação lógica e única da sua singular doença. Ainda a princípio pensou que entregando-se, com delírio, à deliqùescència de todos os abusos, se tornaria indigno da amizade de Nuno e do afecto de Júlia: mas, no seu romantismo, sentia um júbilo íntimo em degradar-se por ela, em descer aos pântanos das misérias morais, erguendo sempre os olhos em èxtase para a mulher intensamente amada através de tudo, como os ergueria para uma claridade purificadora e divina.

Orgulhoso e curioso dos seus actos, havia de ir até ao fim, embora o caminho fosse errado e nêle se transviasse―porque era incapaz de conceber abnegações por si próprio.

Perturbado e cheio de confusão por esta ideia fixa, Frederico, que durante muitas semanas viveu completamente isolado, começou a aparecer de repente em tôda a parte, a freqùentar os cafés e os Clubes. Era novo, era rico, sabia insinuar-se, aliciar. Na roda dos seus conhecimentos houve espanto.

A ressurreição foi saùdada com ruidosa alegria, e logo alguns rapazes resolveram solenizar o acontecimento extraordinário com uma ceia em que o

champagne

festivamente estalasse e a

verve

corresse com uma scintilação dourada sob a brancura da luz eléctrica. Alberto de Sequeira, que trazia no dedo um grande anel brazonado e se vangloriava de pertencer às raças finas, desejava um banquete sério e decente, em que os convivas fôssem de casaca, correctos e irrepreensíveis, como para uma mesa em que estivessem duquesas.

―Vejam que devemos isto a Frederico e a nós, à nossa classe social, à nobreza das nossas estirpes―comentou êle.

O Paiva, toureiro amador e guitarrista, insurgiu-se, porêm, muito desdenhoso de fidalguias e pragmáticas, bradando:

―Não, senhor! Nada disso. Trata-se duma festa pagã, para comemorar a volta à estúrdia e à pândega dum companheiro. Temos, portanto, de meter-lhe paganismo:―a rabona igualitária, a ninfa de gordos braços, lânguidos olhos e saborosos beijos. Olha agora a casaca! Não querem ver? Palavra de honra, é escandaloso!...

―Sim, é claro! Devemos meter-lhe a ninfa ! A casaca é fúnebre, e nós vamos para uma calorosa manifestação de regosijo!―concordou o Taveira, filho dum capitalista enriquecido na Argentina.

―Pois não é assim?―interrogou o Paiva.

―Mas...―atalhou Alberto.

―Não, filho! Não há mas nem meio mas. Venha o belo pagode, a bela bacante agitando no ar o seu tirso e saracoteando um

maxixe

desbragado...

―Muito bem!―acrescentou ainda o Paiva. A bacante e o

maxixe

, primeiro... O resto, é silêncio, como Hamlet dizia a Horácio.

Com efeito, a ceia realizou-se numa noite memorável, depois do teatro, durou até à madrugada do dia seguinte e ficou marcando uma hora triste de desvio moral na existência de Frederico. Aí conheceu êle a mulher, a intrusa, que havia de exercer uma influência nefasta na sua vida e no seu sentimento. Chamava-se Branca, tinha vinte anos, resplandecia duma beleza capitosa que o fogo dos ósculos impuros ia queimando lentamente, era alta, loura, notava-se-lhe no rosto uma candura, uma espécie de

virgindade

que certas criaturas femininas nunca perdem por mais baixo que desçam nos charcos da miséria. Foi Paiva quem lha apresentou, exclamando irónicamente:

―Aqui tens tu um regaço de sêda onde os príncipes gostariam de dormir as suas séstas de amor. Infelizmente, pertence a um desgraçado país que nem amar sabe e onde não há príncipes... Tem de contentar-se com os filhos da nossa virtuosa burguesia! Mal empregada! Como o poeta célebre, esta Musa da orgia chegou muito tarde a um mundo muito vélho, caro amigo!...

Frederico apertou-lhe a mão friamente, rindo da apresentação.

―Na Grécia antiga―continuou Paiva―os filósofos da linhagem nobre e genial de Platão repousariam e meditariam sob a luz doce dos seus olhos com o respeito com que repousavam à sombra do Partenon. Branca seria a inspiradora, a deusa. Até talvez se lhe levantasse um templo, como à vaca Ísis, no Egito!...

―Ora! O cavalheiro está a chuchar comigo!...―exclamou ela, amuada.

―Agora, o que Branca desconhece, meu filho, é a linguagem sonora e harmoniosa em que falavam os Imortais... «O cavalheiro está a chuchar comigo!» Vê tu que abominação. Se Péricles ouvisse esta Xantipa, morreria com uma síncope cardíaca ou correria a embriagar-se com o vinho das doces colinas de Atenas. Perdoa-lhe tu, que és generoso...

―E que não sou Péricles!―atalhou Frederico.

A ceia correu tumultuosamente alegre, e os convivas do «festim pagão», como havia anunciado Paiva, beberam mais do que os deuses de Homero. Frederico tinha ficado junto de Branca, que constantemente o acariciava com a suavidade do seu olhar cheio de promessas, que lhe floriu a botoeira com uma rosa e que, durante tôda a noite, revelou uma melancolia que mais vivo destaque imprimia à sua graça dorida. Alberto de Sequeira, toldado pelo alcool, com as faces escarlates, agarrado a uma companheira de Branca, a Eugénia, tam conhecida nas

garçonnières

da mocidade elegante, dava-lhe beijos e oferecia-lhe os seus pergaminhos com a mão de marido. Ela, rindo à gargalhada, recusava, dizia-lhe que não tinha vocação para espôsa.

―Vai para um convento, vai para um convento!―intimou Paiva, de pé, ao lado da mesa, erguendo o braço e apontando com o dedo.

―Sim! Talvez para um convento!―concordava Eugénia, enroscando os braços à volta do pescoço de Alberto. E então?...

A tristeza de Branca no meio da jovial estúrdia impressionou Frederico. Perguntou-lhe:

―Que tem?

―Nada! Estou hoje assim!... São dias.

―Tem «telha», é o que tem―afirmou uma outra, Luísa, a quem Paiva fazia ardentes confissões, prometendo-lhe um scetro, uma realeza.

―Ou um scetro ou um poema. Escolhe―gaguejava êle. E pode ser que, para a imortalidade, te convenha mais o poema. Ainda não morreram Beatriz, Laura, Virgínia. Ainda nem sequer morreram aquelas loiras germânicas cantadas por Goëthe.

―Quem são essas damas?―inquiriu Luísa.

―São umas senhoras das minhas relações... Não é verdade, Frederico?

―Beatriz, Laura... Certamente! E damas muito finas!―asseverou Frederico.

Novamente se curvou para Branca, pegando-lhe na mão, mirando-a nos olhos, interrogando:

―E foi sempre assim triste?...

―Para que quere saber?

―Porque me interesso por si... Aí está!

―Acredito eu lá nesse interêsse!

Na mesa, onde brilhavam ainda nos cristais restos de vinhos e licores que pareciam pedras preciosas líquidas, desfolhavam-se as flores. O dourado fulgor da luz batia em cheio nos linhos, fazia reluzir o vidrado das porcelanas. Os criados entravam o saíam, cambaleantes de sono, coçando a cabeça, com os guardanapos sôbre o ombro. O ambiente aquecido pesava e sufocava. Frederico subiu uma vidraça que dava para fóra, sentido-se reanimar por uma lufada de ar frio. Sôbre a cidade, arqueava-se um céu

picado

de estrêlas, que já empalideciam no cerraceiro da treva que devorava tôda a vida. Por um momento, Frederico, encostado ao peitoril da janela, julgou-se aviltado. Experimentava a sensação desgostante de ter caído numa imundície que o sujava, que o invadia dum nojo profundo; e mentalmente comparava a frescura de impressões de que um amor oculto e malfadado fizera vibrar a sua sensibilidade, a ventura risonha entrevista em exaltações de imaginação, o sôpro de alegria eterna que respirou junto de Júlia, com aquela torpeza, em que se afundava. A solidão da rua que, em baixo, se escoava na sombra, a frialdade do vento, tudo o que para êle havia de novo, de desconhecido, naquela noitada iniciadora, excitavam-no, sacudiam-no. Fumando, olhava as alturas celestes que, no esplendor das constelações scintilantes lhe sugeriam arabescos de luz, uma estranha feeria que ardesse, rutilasse na escuridão. Dentro, os beijos arrulhavam. Branca, levantando-se, aproximou-se de Frederico, encostou-se-lhe ao braço, dizendo numa voz de mimo e de fraqueza:

―Estou tam fatigada!

Êle voltou-se bruscamente, irritado contra aquela interrupção importuna que vinha quebrar-lhe o fio das lucubrações e fazê-lo reentrar de repente na realidade das coisas, mas logo se conteve diante da desdita duma mocidade e duma beleza que tôdas as brutalidades da luxúria iam contagiando e maculando; e, do fundo da sua bondade, ascendeu a emoção compassiva para tanta fragilidade e tanto infortúnio. A delicadeza de alma de Frederico tornava-o incapaz de ser grosseiro e violento com uma mulher, fôsse ela quem fôsse: e Branca, alêm de débil, tinha a graça romântica duma formosura a suavizar-lhe o rosto, o aspecto doentio, uma meiguice que parecia nascer da humildade dolorosa da sua vida e da escravidão do seu corpo. Isto amoleceu a dureza de Frederico, apiedou-o. Pegando-lhe na mão que ela abandonou, disse:

―Cansada, hein?

―Oh! Muito cansada e morta por me ver longe dêste logar, acredite!―respondeu Branca.

―Então, não gostou, não se divertiu?

―Eu?!... Estou para aqui!...

Enquanto falava, Branca olhava-o com uma expressão em que havia ternura e sofrimento. Frederico pensou que aquela sensibilidade numa mulher costumada a vender-se era exagerada. Talvez ela fingisse uma dor que não sentia para o comover, para obter certas complacências que lhe agradavam, por cálculo ou por outra circunstância qualquer: mas, fixando-a mais demoradamente, pareceu-lhe surpreender nos olhos um sorriso que tremia e nos lábios pálidos uma súplica que não ousava denunciar-se claramente, com mêdo de ser repelida, e que no seu silêncio queria dizer:

―Leva-me contigo!... Sou uma companheira ainda desejável para algumas horas. Porque não experimentas? Farei tudo quanto me fôr possível para te distrair, para ser amável!...

Esta suposição comunicou-lhe aos nervos uma languidez sensual: e, avançando para Branca, que se havia afastado alguns passos e que aconchegava uma pele de repôsa à volta do colo friorento, exclamou:

―Pois partamos. Eu acompanho-a...

Nesse momento

, Sequeira, com o charuto meio queimado na bôca, dormia com os braços apertados na cinta de Eugénia; Luísa bebia café com Paiva, pela mesma chávena; outros convivas da ceia jovial, espalhados pela sala, palravam, pesados e sonolentos. Já através das vidraças se filtrava uma claridade matinal indecisa e o ar era mais penetrante e vivo. Frederico anunciou que se retirava e que levava Branca. Foi um alarido.

―O quê? Antes do nascer do sol?―interrogou com estranheza o Andrade estrábico.

―Certamente―afirmou Frederico. Não nos encontramos num estado de alma suficientemente puro para compreendermos e sentirmos a poesia da aurora.

―É uma perfídia!―gritaram muitas vozes.

―É sono! E eu tambêm me saio e levo Luísa!―acudiu Paiva.

―Mas, é o rapto das sabinas!...―exclamou o Andrade.

―Oh! senhores, que chiste êste diabo tem!―aplaudiu Paiva, enquanto os outros riam saborosamente.

Frederico vestiu o casaco, despediu-se, deu o braço a Branca, que o esperava arrepiada e frioenta.

―Que Eros vos seja propício!―disse ainda o Andrade, que nessa noite estava em veia.

Frederico, que descia, já o não ouviu. Ajudou Branca a subir para o automóvel que o tinha trazido, acordou o

chauffeur

que dormitava, encostado ao volante, e partiu velozmente, envolvido na carícia tónica da brisa matutina que o refrigerava e que rescendia às seivas de que se impregnava, adejando por quintais e jardins. Quando entrou em casa, com Branca, o sol elevava-se numa explosão de ouro, e uma leve poeira de luz errava, ardia sôbre os telhados, incendiava as vidraçarias, que relampejavam, irradiavam súbitos clarões...

Às duas horas da tarde, ao despertar do seu profundo sono, espreguiçou-se, bocejou. Prostrava-o uma grande lassidão, desgostava-o interiormente um tédio como nunca havia experimentado, tinha mau gôsto na bôca, sentia-se embrutecido. Branca dormia a seu lado, fazendo um pequenino volume sob a roupa. Olhou-a atentamente. Estava ainda mais pálida do que na véspera; à volta dos seus olhos havia um grande círculo arroxeado, a mão que tinha fóra da roupa era exangue e tam magra que se lhe adivinhavam todos os ossos. A pele da face e do colo, porêm, era duma brancura, duma transparência que mostrava nítidamente a rêde azulada dos vasos sanguineos; e no seu perfil havia uma regularidade, uma pureza, uma correcção de traços incomparáveis. Frederico esteve a considerá-la durante algum tempo, com uma piedade que a narração da sua vida atormentada e dolorosa―que Branca lhe fizera com os olhos rasos de lágrimas―mais aumentava. A essa piedade mesclava-se conjuntamente um desgôsto muito profundo e que êle não sabia explicar, uma vergonha íntima, uma humilhante sensação de vèxame. Arrependia-se já de ter compartilhado o seu leito com uma criatura de acaso, que se alugava às noites, que nunca tinha visto, por quem mal sentira um minuto de interêsse. Fôra aquela a primeira vez! Resistira sempre a trazer para casa as mulheres que na rua se ofereciam passivamente aos seus beijos, por pudor, por dignidade, por altivez de carácter. Que alucinação o afastara da honesta linha que traçara à sua existência de homem? Que desvario lhe conturbara a lucidez da razão, não lhe deixando ver o que no seu procedimento havia de sórdido, de inferior?... Outra vez envolveu Branca num olhar vagaroso. Ela continuava dormindo e arfando de leve no ritmo da respiração. Frederico novamente se enterneceu. Teria ela, porventura, culpa de andar de mão em mão como uma rosa a que se aspira todo o perfume e que depois se abandona? Certamente que não. Era uma vítima do egoísmo dos homens que lhe apeteciam, por momentos, a beleza e a frescura da juventude e que em seguida, enfastiados, saciados, a repeliam. Cumpria o seu destino triste...

A obscuridade do quarto era cortada, de quando em quando, por claridades inesperadas que se filtravam através das frinchas das janelas. Frederico ouvia o ruído que vinha do exterior, do ar livre, da rua―murmúrios de conversas, de risos, de disputas, rolar de carros que passavam arrastando-se nas pedras da calçada.

―Deve ser muito tarde...―pensou.

Espreguiçou-se com lentidão. Tinha na cabeça uma desordenada multidão de ideas que não chegavam a clarificar-se, a definir-se límpidamente. Ia reconstituindo a scena da noite anterior, a alegria da ceia com mulheres―um espectáculo inteiramente banal para êle―os ditos humorísticos e picantes do Paiva... Acudiam-lhe à memória os mais apagados pormenores dessa festa de rapazes.

―E como hei de desfazer-me desta criatura, que tenho em casa, sem provocar curiosidades escandalosas no bairro?―monologou de repente.

Aí estava, na realidade, uma coisa bem dificil! Morava num sítio muito povoado e muito indiscreto, havia mesmo, em frente à sua habitação, uma outra com vizinhas bisbilhoteiras que passavam os dias por detrás dos cortinados, espreitando, investigando, devassando. Uma delas, bem galante no esplendor dos seus vinte e quatro anos, direita como uma estátua, com uns olhos negros e perturbantes e uns seios que se arredondavam sob a macieza, dos tecidos da blusa como os das patrícias romanas sob o

peplum

, sorria-se com afabilidade sempre que o via assomar à janela saùdando-a cerimoniosamente... Durante muito tempo, Frederico contemplou-a com encanto, como se quisesse surpreender-lhe no rosto a revelação dum sonho de amor que, no seu coração virginal, se ia formando e desabrochando com a inocência e a beleza duma flor. Depois, cansou-se e esqueceu-a... Se ela visse Branca sair da sua vivenda, em pleno dia, alarmaria a rua, daria, da sua varanda, uma vasta publicidade àquela irreflectida aventura de Frederico:―e, quando mais tarde passasse, tudo seriam risinhos abafados e irónicos nas suas costas, segui-lo-iam todos os olhares escarnecedores, durante uma semana inteira a sua reputação constituiria o tema obrigatório e fundamental da eloqùência da vizinhança!... Era um solteirão, era independente, tinha um desdêm absoluto pelos juízos e pelas opiniões que os outros formulassem a seu respeito:―no entanto, a perspectiva de andar durante horas hilariantes exposto ao ridículo público e cheio de grotesco, vèxava-o. Precisava de ser prudente, de acautelar-se, não por Branca, que nada perderia, mas por si. E decidiu conservá-la em casa, até à noite, comer, mesmo, em sua companhia, um almôço que o Bernardo, seu criado de confiança, iria buscar ao restaurante que freqùentava e, assim que as sombras nocturnas descessem, despedir-se dela com um beijo―e algumas notas de Banco. Aborrecia-o, porêm, o facto de ter de ficar uma tarde inteira fechado, diante duma pobre rapariga que fôra o seu capricho dum instante o que o não prendia nem pelas graças do espírito, nem pelos dons da inteligência e da cultura, nem sequer por uma beleza que começava a fanar-se, queimada pelo fogo da luxúria.

―Olha que estopada eu arranjei por minhas próprias mãos!...―murmurava, desconsolado.

A inexprimível sensação de desalento e de desgôsto que o minava desde que despertou intensificava-se na sua alma. Experimentava alguma coisa de inconcebível; a sua vida interior acelerava-se e fazia-o sofrer amargamente. Julgava-se com severidade:―ia caindo de baixeza em baixeza. Até onde chegaria?...

A certa altura das suas divagações, lembrou-se, subitamente, de Júlia: e esta lembrança tam pura era como uma acusação muda, pela torpeza moral em que principiava a debater-se. Se ela soubesse!... Se ela adivinhasse algum dia, por uma extraordinária intuição amorosa, vulgar nas mulheres de sensibilidade mais fina e de razão mais lúcida, que Frederico a amava e que, quando êsse amor era uma alvorada de poesia na sua alma, longe de o elevar, de o sublimar, de lhe inspirar as grandes bondades e as grandes abnegações, o impelia para os braços de criaturas que pertencem a todos e lhe fazia apetecer os beijos voluptuosos de bôcas femininas que osculam os homens que lhes pagam!... Se Júlia pudesse assistir em espírito ao espectáculo do seu coração devastado diante da imagem luminosa dela e duma cortesã, que tôdas as noites dormia em leitos sempre diferentes! Absolvê-lo-ia dessa miséria? Não se sentiria ela salpicada tambêm pela lama em que Frederico se atolava?... Mas Júlia viveria na perpétua ignorância dos sentimentos impuros que acordavam no seu organismo doente e, mesmo que viesse a conhecer tantos desvarios, não se consideraria traída porque não queria dêle mais do que uma estima fraternal... Por entre a névoa das emoções opostas que o faziam vibrar, Frederico raciocinava ainda com certa clareza. A crise por que estava passando sugeria-lhe palavras que um dia tinha lido em Taine. Compreendia naquele momento que a vida humana―a do corpo ou a da alma―era infinita e de uma imensa multiplicidade: mas que apenas certas das suas porções, certos dos seus instantes, mereciam subsistir, como expressões conscientes superiores. Êsses instantes, essas porções, a que aludia o filósofo excelso, eram marcados pelas atitudes morais que nobilitam o ser pensante. Fóra disso, nenhuma grandeza existia!...

Levantou-se vagarosamente, para não despertar Branca no seu sono. Ha quanto tempo―pensava Frederico―ela não teria uma hora tam sossegada, tam calma como aquela! Nem sempre encontraria amantes condescendentes como êle!... Uma caridade igual e tranqùila iluminava o quarto. Sôbre uma cadeira, amontoado e amachucado, estava o vestido da pobre flor de todos, tendo por cima o espartilho de setim côr de rosa que êle lhe havia ajudado a despir, na pressa violenta de aspirar o perfume de amor que a sua carne exalava. Sôbre uma outra cadeira, pousava uma pele de raposa preta do Japão e um chapéu de palha de Itália dum tom de ouro fôsco picado pelo colorido suave de dois ramos de lilases. Deu alguns passos, com os pés nus, no tapête de Bruxelas, que espalhava uma nota de confôrto e de elegância no compartimento; e, hesitante, voltou-se ainda para olhar Branca. Sôbre a alvura do travesseiro, destacava docemente a mancha fulva duns cabelos louros desmanchados, emmoldurando um rosto sereno e branco, de linhas muito finas. Uma colcha de sêda escarlate bordada a matiz desenhava nítidamente as formas correctas do gentil corpo adormecido. Como Branca era linda e digna de piedade! E o que a vida, com as suas impurezas e as suas terríveis degradações, fizera duma alma outrora virginal que poderia ter sido a graça divina dum lar, uma adorável espôsa, uma admirável mãe capaz de todos os sacrifícios e de tôdas as exaltações da ternura!...

Passou ao quarto de banho, que ficava próximo, mergulhou ávidamente na canôa de ferro esmaltado que Bernardo enchera, duma água fria que o tonificou, enxugou-se a um lençol felpudo e começou a vestir-se lentamente. Mais desanuviado, com a pele cheirando ao perfume do sabão com que se lavara, Frederico contemplou novamente Branca e observou que uma série de sensações antagónicas se sucediam umas às outras na sua emotividade. A verdade apresentou-se diante dos seus olhos. Afinal, Branca não era mais do que uma criatura trivial que se entregava a todos os que a desejassem. O seu ventre estéril era conhecido de muitos olhos lúbricos; a sua bôca havia sido esmagada por milhares de bôcas masculinas, em beijos bestiais. Odiosas imagens fisicas

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