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A Mao e A Luva

MACHADO DE ASSIS (continued 3)

Reading edition

Vê o leitor que a palavra esperada, a palavra que a moça sentia vir-lhe do coração aos labios e querer rompel-os, não foi ella quem a proferiu, foi a madrinha; e se leu attento o que precede verá que era isso mesmo o que ella desejava. Mas porque o nome de Jorge lhe roçou os lábios? A moça não queria illudir a baroneza, mas traduzir-lhe infielmente a voz de seu coração, para que a madrinha conferisse, por si mesma, a traducção com o original. Havia nisto um pouco de meio indirecto, de tactica, de affectação, estou quasi a dizer de hipocrisia, se não tomassem á má parte o vocabulo. Havia, mas isto mesmo lhes dirá que esta Guiomar, sem perder as excellencias de seu coração, era do barro commum de que Deus fez a nossa pouco sincera humanidade; e lhes dirá tambem que, apezar de seus verdes annos, ella comprehendia já que as apparencias de um sacrificio valem mais, muita vez, do que o proprio sacrificio.

A baroneza acabára de falar. A alegria do rosto de Guiomar confirmou a sua primeira impressão, e se a escolha era contraria ao que ella desejava, a satisfação da afilhada pagou-lhe tudo quanto ella ira perder. Era assim aquella alma de mãe; boa, dedicada e generosa.

—Oh! madrinha! obrigada! exclamou a moça. Não me fica odiando?

—Oh! exclamou a baroneza com um tom de reprehensão.

E puxou-a para si, e abraçou-a com amor. Guiomar correspondeu ao movimento, e as duas confundiram as suas alegrias intimas e affeições sinceras.

Mrs. Oswald viu-as dahi a pouco, risonhas e entendidas. Era facil concluir qual dos dous pretendentes vencera; Guiomar não receberia de tão boa cara o sobrinho da baroneza. Tudo estava acabado; e talvez que a sua propria pessoa padecêra naquelle lance ultimo. A baroneza pedira a Guiomar que lhe explicasse a que padecimentos alludíra, mas a moça preferiu não dizer nada, não só por não affligir a madrinha, como por não dar um aspecto de rivalidade á situação entre ella e Mrs. Oswald.

A escolha estava feita, o consentimento dado. A baroneza respondeu nessa mesma tarde ao pretendente feliz. Estevão teria manifestado ruidosamente toda a alegria que semelhante resposta lhe causára; sua alma apaixonada e exuberante contaria a Deus e aos homens aquella immensa fortuna; Luiz Alves encerrou o prazer, aliás grande, dentro de si; pensou na moça e no futuro alguns instantes, mas não falou delles a ninguém.

A baroneza escreveu nesse mesmo dia ao sobrinho, communicando-lhe a resposta de Guiomar. Os leitores não terão difficuldade de admittir que o coração de Jorge não sentiu o golpe profundamente, mas sentiu alguma cousa. Não foi nessa noite á casa da tia; não foi tembem na segunda; na terceira chegou a descer as escadas; na quarta embicou para Botafogo.

—Tudo está acabado, disse-lhe a tia verdadeiramente sentida.

—Acabado! suspirou Jorge.

—Agora, é preciso animo; espero que serás homem.

—Oh! serei homem! suspirou outra vez Jorge.

E dous suspiros, arrancados do peito de um homem tão grave, deviam ser por força dous suspiros gravissimos, como facilmente acredita o leitor.

Effectivamente a physionomia do moço não tinha abatimento nem afflicção; não a amarrotava o menor vestigio de noite mal dormida, menos ainda de lagrimas enxutas. Alegre não era, mas grave e austera, como elle a trazia sempre, a contrastar com o retezado do bigode.

A baroneza imaginou comtudo que a dor do sobrinho devia te-lo mortificado muito; apertou-lhe as mãos com ternura e disse-lhe ainda algumas palavras de animação.

Imagine-se o que seria o primeiro encontro de Jorge com Guiomar. A moça estava serena, talvez risonha e até compassiva. Se tivesse de casar com elle odiara-o de certo; agora já lhe perdoava o amor. Jorge pela sua parte não deixou de ficar um tanto abalado, em parte commoção, em parte constrangimento, sendo porém o constrangimento maior do que a commoção. Nos labios pairou-lhe um desses sorrisos em que o olhar penetrante do povo ou a sua imaginação pintoresca descobriu a côr amarella. Se outro fosse o aspecto, é provavel que ella lhe conservasse, ao menos, o respeito. Mas aquelle sorriso perdeu-o de todo no animo de Guiomar.

Na primeira occasião que se lhe offereceu, expandiu-se Jorge com Mrs. Oswald.

—Perdeu-se tudo... murmurou elle.

A ingleza não respondeu.

Jorge continuou ainda a falar, e a ingleza e ouvir, mas a ouvir só, e a querer divertil-o daquelle assumpto.

—Tudo se perdeu, disse emfim o sobrinho da baroneza, talvez por culpa sua.

—Minha? perguntou Mrs. Oswald.

—Sua.

—Mas...

Jorge hesitou um instante.

—Não mostrou calor sufficiente, disse elle emfim.

—Que quer? disse Mrs. Oswald. O coração não se pode dominar, nem ha meio de impor-lhe um sentimento. D. Guiomar é uma santa creatura, ama devéras ao seu rival; ha nada mais justo do que casa-los?

—De maneira que...

—De maneira que tudo era licito fazer na supposição de que ella não amava a outro, mas uma vez que ama...

Luiz Alves, na noite do dia em que recebeu a carta, foi á casa da baroneza, que o recebeu com o melhor de seus sorrisos. A felicidade de Guiomar fazia-a completamente feliz; nem iras, nem resentimentos, como annunciara Mrs. Oswald. Todo o castello de cartas caíra por terra, desde que a sinceridade da baroneza interveiu.

XIX

Conclusão.

Marcado o casamento para dous mezes depois, todo o tempo de intervallo foi despendido pelos noivos naquelle deleitoso viver, que já não é o colloquio furtivo do simples namoro, nem é ainda a intimidade conjugal, mas um estado intermedio e consentido, em que os corações podem entornar-se livremente um no outro. Aquelles não tinham nada do amor extatico e romanesco de Estevão, mas amavam sinceramente, ella ainda mais do que elle, e tão feliz um como outro.

A gente que os conhecia commentou de todos os modos e feitios aquelle caso inesperado, e a mais de um roeu a inveja do favor com que o ceu tratára a Luiz Alves. A gentileza e a elegancia da moça não encontravam objecção no espirito de ninguem; todos as confessavam e applaudiam, porque até o silencio mortificado de algumas bellezas rivaes, se porventura as havia,—era tambem applauso e do melhor. Quanto ao caracter de Guiomar, divergiam muito as apreciações; e um dia, em que Luiz Alves lhe contava uns trechos de conversa ouvidos a furto, e de que era objecto a noiva, ella pareceu reflectir longo tempo, e emfim respondeu:

—Não admira que haja tanta opinião differente; é natural, porque nunca vulgarisei o meu espirito. Entretanto, a opinião dos outros importa-me pouco; eu quizera saber a sua.

—A minha é que é um anjo.

Guiomar fez um gesto gracioso de enfado, como quem não esperava aquelle comprimento velho e commum, aliás eternamente, novo,—porque não ha outro mais prompto e mais bello nas nossas linguas christãs. O noivo sorriu, mas nada lhe disse, e todavia podia dizer-lhe alguma cousa,—aquillo, pelo menos, que o leitor lhe ouviu n'um dos capitulos anteriores.

—Se não sabe o que sou,—continuou Guiomar,—eu mesmo o direi, para que se não case commigo assim de emboscada, e não lhe aconteça unir-se a um demonio, suppondo que é um anjo...

—Um demonio! exclamou Luiz Alves rindo.

—Nem mais nem menos, retrucou ella rindo tambem. Saiba pois que sou muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero que me adivinhem e obedeçam; sou tambem um pouco altiva, ás vezes caprichosa, e por cima de tudo isto tenho um coração exigente. Veja se é possível encontrar tanto defeito junto.

Luiz Alves respondeu que eram tudo qualidades excellentes, e esteve quasi a dizer que lhe faltava mencionar ainda outra, que era a fundamental de todas; preferiu alludir a ella depois do casamento.

O casamento effectuou-se, no dia marcado, com as solemnidades do estylo. A manhã daquelle dia trajava um manto de neblina cerrada, que o nosso inverno lhe poz aos hombros, como para resguardal-a do rigor benigno da temperatura, manto que ella sacudiu dalli a nada, afim de se mostrar qual era, uma deliciosa e fresca manhã fluminense. Não tardou que o sol batesse de chapa nas aguas tranquillas e azues, e nessas collinas onde o verde natural ia alternado com a alvura das habitações humanas. Vento nenhum; apenas uma aragem, branda e fresca, que parecia o ultimo respirar da noite já remota, e que só a trechos agitava as folhas do arvoredo.

A chacara naquelle dia era a mesma que nos outros, mas Guiomar achou-lhe um aspecto novo e melhor, uma como expansão divina que animava as cousas em redor della. Toda a alma feliz é pantheista; parece-lhe que Deus lhe sorri de dentro da flor que desabrocha, do fundo da agua que serpeia murmurando, e até de envolta com o cipó humilde e rustico, ou no seixo bronco e despresado do chão. Era assim a alma de Guiomar naquella manhã. Nunca as arvores, as flores, a gramma rasteira lhe pareceram mais vecejantes; o sentimento interno hauria aquella vida exterior, do mesmo modo que o pulmão bebia o puro ar matinal.

De envolta com essas sensações communs a toda a alma, havia ainda as que eram della,—della, que via alli o seu ultimo sol de moça solteira e contemplava por antecipação a aurora nova, o dia longo e feliz de suas férvidas ambições. Neste ponto despia a sua fantazia as azas de folha agreste, com que andara a pairar no meio daquella vegetação, para envergar outras de seda e brocado, e voar sabe Deus a que sitios de grandeza humana.

O acaso quiz que naquella manhã vestisse o mesmo roupão com que Estevão a vira do outro lado da cerca, e trouxesse no collo e nos pulsos o mesmo broche e os mesmos botões de saphira. Não tinha o livro; mas, em falta desta circumstancia, havia outra, que era a mesma daquella celebre manhã, havia uns olhos que do outro lado do cerca a espreitavam namorados. Não eram, porém, os mesmos; eram os do noiva, com quem ella foi encontrar o seus;—e o mais doloroso de tudo é que nem a cerca, nem os demais accessorios, nada lhe lembrou o outro homem que morria por ella. A felicidade é isto mesmo; raro lhe sobra memoria para as dores alheias.

Não menos alegre do que ella parecia a baroneza naquelle dia. De longe em longe surgia-lhe na memoria a ideia do sobrinho, mas já não havia tristeza de não ter effectuado o casamento, como desejára; tão leve foi o golpe em Jorge e tão indifferente andava elle, que a boa senhora comprehendeu que o amor, se existira, não era grande, e sobretudo não perdurou; a ideia de que isto mesmo podia acontecer-lhe ao cabo de seis semanas de casado, fel-a dar graças a Deus do nenhum exito de seus planos.

Mrs. Oswald egualmente se mostrava feliz,—talvez ainda mais, porque era-o apparatosamente, como se quizesse resgatar as passadas culpas. Guiomar entendia a intenção latente das manifestações ruidosas com que ella andava a felicital-a e bajula-la; mas o dia não era de rancores nem de resentimentos, e ella recebia sorrindo as cortezanices da ingleza.

O casamento fez-se, emfim. As lagrimas que a baroneza derramou, quando viu Guiomar ligada para sempre, foram as mais bellas joias que lhe podia dar. Nenhuma mãe as verteu mais sinceras; e, seja dito em honra de Guiomar, nenhuma filha as recebeu mais dentro do coração.

Na noite do casamento, quem olhasse para o lado do mar, veria pouco distante dos grupos de curiosos, attrahidos pela festa de uma casa grande e rica, um vulto de homem sentado sobre uma lagea que acaso topára alli. Quem está affeito a ler romances, e leu esta narrativa desde o começo, suppõe logo que esse homem podia ser Estevão. Era elle. Talvez o leitor, em lance identico, fosse refugiar-se em sítio tão remoto, que mal podesse acompanhal-o a lembrança do passado. A alma de Estevão sentiu uma necessidade cruel e singular, o gosto de revolver o ferro na ferida, uma cousa a que chamaremos—voluptuosidade da dor, em falta de melhor donominação. E foi para alli, contemplar com os indifferentes e ociosos aquella casa onde reinava o goso e a vida, e naquella hora que lhe afundava o passado e o futuro de que vivera. Não o retinha a constancia do stoico; pela face emmagrecida e pallida lhe corriam as lagrimas derradeiras, e o coração, colhendo as forças que lhe restavam, batia-lhe forte na arca do peito.

Defronte delle refulgia de todas as suas luzes a mansão afortunada; detraz batia a onda lenta e melancolica, e via-se o fundo da enseada, escuro e triste. Esta disposição do logar servia ao plano que elle concebera, e era nada menos do que matar-se alli mesmo, quando já não pudesse soffrer a dor, especie de vingança ultima que queria tomar dos que o faziam padecer tanto, complicando-lhes a felicidade com um remorso.

Mas este plano não podia realisar-se, pela razão de que era mais um devaneio, que se lhe dissipou como os outros. A frouxidão do animo negou-lhe essa ultima ambição. Os olhos podiam fitar a morte, como podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe os meios de caminhar a ella. Esteve alli, pois, até o fim; e em vez de mergulhar na agua e no nada, como delineára, regressou tristemente para casa, tropego como um ebrio, deixando alli a sua mocidade toda, porque a que levava era uma cousa descolorida e sêcca, esteril e morta. Os annos passaram depois, e á medida que vinham, ia-se Estevão afundando no mar vasto e escuro da multidão anonyma. O nome, que não passara da lembrança dos amigos, ahi mesmo morreu, quando a fortuna o distanceou delles. Se elle ainda vegeta em algum recanto da capital, ou se acabou em alguma villa do interior, ignora-se.

O destino não devia mentir nem mentiu á ambição de Luiz Alves. Guiomar acertara; era aquelle o homem forte. Um mez depois de casados, como elles estivessem a conversar do que conversam os recem-casados, que é de si mesmos, e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar confessou ao marido que naquella occasião lhe conhecera todo o poder da sua vontade.

--Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luiz Alves, que, assentado, a escutava.

—Resoluto e ambicioso, ampliou Luiz Alves sorrindo; você deve ter percebido que sou uma e outra cousa.

—A ambição não é defeito.

—Pelo contrario, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de faze-la vingar. Não me fio só na mocidade e na força moral; fio-me tambem em você, que ha de ser para mim uma força nova.

—Oh! sim! exclamou Guiomar.

E com um modo gracioso continuou:

—Mas que me dá você em paga? um logar na camara? uma pasta de ministro?

—O lustre do meu nome, respondeu elle.

Guiomar, que estava de pé defronte delle, com as mãos prezas nas suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambições trocaram o osculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquella luva tivesse sido feita para aquella mão.

FIM

INDICE Advertência de 1907 Advertência de 1874

I.—O fim da carta

II.—Um roupão

III.—Ao pé da cerca

IV.—Latet anguis

V.—Meninice

VI.—post-scriptum

VII.—Um rival

VIII.—Golpe

IX.—Conspiração

X.—A revelação

XI.—Luiz Alves

XII.—A viagem

XIII.—Explicações

XIV.—Ex-abrupto

XV.—Embargos de terceiro

XVI.—A confissão

XVII.—A carta

XVIII.—A escolha

XIX.—Conclusão

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