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A Mao e A Luva

MACHADO DE ASSIS (continued 2)

Reading edition

X

A revelação.

Meia hora depois, indo a abrir o livro para continuar a leitura, viu Guiomar a cartinha de Jorge. Não tinha sobrecarta; era um simples papelinho dobrado, rescendendo a amores. O espirito de Guiomar estava tão longe d'aquillo que não suspeitou nada e distrahidamente o abriu. A primeira palavra escripta era o seu nome; a ultima era o de Jorge.

O primeiro gesto de Guiomar foi de colera. Se elle pudesse espreita-la pelo buraco da fechadura, e ver-lhe a expressão do rosto, é mui provavel que se lhe convertesse em aborrecimento todo o amor que até agora nutria. Mas elle não estava alli, a moça podia traduzir fielmente no rosto os movimentos do coração.

—Mais um, pensou ella; este porém...

E desta vez o gesto não foi de colera, foi de alguma cousa mais, metade fastio, metade lastima, mescla difficil e rara.

A moça ficou algum tempo quieta, a olhar para o papel, sem o querer ler, como a hesitar entre queimal-o ou restitui-lo intacto a seu autor. Mas a curiosidade venceu por fim; Guiomar abriu o papel e leu estas linhas:

«Guiomar! Perdoe-me se lhe chamo assim; as convenções sociaes condemnam-me de certo, mas o coração approva, que digo? elle mesmo escreve estas letras. Não é a minha penna, não são os meus labios que lhe falam deste modo, são todas as forças vivas da minha existencia, que em alta voz proclamam o immenso e profundo amor que lhe tenho.

«Antes de o ler neste papel, já a senhora o hade ter visto, pelo menos adivinhado nos meus olhos, na doce embriaguez que em mim produz a presença dos seus. Persuado-me de que todo o meu esforço em recalcar este affecto é vão; por mais que eu sinceramente deseje esquecel-a, não o alcançarei nunca; não alcançarei mais que uma afflição nova. O remorso de o tentar virá coroar os demais infortunios.

«Porque razão rompo hoje o silencio em que me tenho conservado, medroso e respeitoso silencio que, se me não abre a caminho da gloria, ao menos conserva-me a palma da esperança? Nem eu mesmo saberia responder-lhe; falo, porque uma força interior me manda falar, como trasborda o rio, como se derrama a luz; falo porque morreria talvez se me calasse, do mesmo modo que morrerei de desespero, se além do perdão que lhe peço, ma não der uma esperança mais segura do que esta, que me faz viver e consumir.—Jorge.»

Guiomar leu esta carta duas vezes, uma leitura de curiosidade, outra de analyse e reflexão, e ao cabo da segunda achava-se tão fria como antes da primeira. Olhou algum tempo para o papel e mentalmente para o homem que o havia escripto; emfim, poz a carta de lado, abriu o livro e continuou o romance.

Mas o espirito, que não ficara tão indifferente como o coração, entrou a fugir-lhe do romance para a vida com tal tenacidade que não houve remedio senão irem os olhos atraz delle, e a moça de novo mergulhou nas reflexões que lhe suggeria o caso da paixão de Jorge.

Paixão não era,—não o seria ao menos no sentido inteiro do vocabulo; mas alguma cousa menos, ou parecida com ella, e ainda assim verdadeira, via bem Guiomar que o poderia ser. Até que ponto chegaria entretanto, o seu adorador, se ella o desattendesse logo; e, dado o amor que a baroneza tinha ao sobrinho, até que ponto a recusa iria magoal-a? Guiomar varreu do espirito os receios que lhe nasciam de taes interrogações; mas sentiu-os primeiro, pezou-os antes de os arredar de si, o que revelará ao leitor em que proporção estavam nella combinados o sentimento e a razão, as tendencias da alma e os calculos da vida.

Excluido o receio, voltou-lhe o riso, aquelle riso interior, que é o mais involuntario e cruel, e tambem o menos arriscado que a gente póde dar ás fatuidades humanas. Não podia ser tão despresivel assim o amor de um homem, cuja ridiculez compensavam algumas qualidades boas, e que emfim era tambem distincto, ainda que a sua distincção primasse antes por um estylo rendilhado e complicado, que não é o melhor. Guiomar via tudo isso, e por outro lado, não podia obstar que elle a amasse; nem por isso achava menos temeraria aquella confissão.

A moça reflectia tambem na posição especial que tinha naquella casa o sobrinho da baroneza; via-se obrigada á presença delle, e talvez á luta, porque o pretendente não recuaria do primeiro golpe. Não havia taes receios da parte de Estevão; ella reconhecia que a paixão deste era ardente e profunda, e por isso mais capaz de desatinos; mas comparava as indoles dos dous homens, e se ambos lhe pareciam de fraca compleixão moral, nem por isso desconhecia que ao bacharel faltava certa presumpção que distinguia o outro, e com a qual teria talvez de pelejar.

Quando ella fez esta comparação entre os dous homens, ficaram-lhe os olhos um pouco mais molles e quebrados, obra de tres minutos apenas, mas tres minutos que, se Estevão soubera delles, trocaria por elles o resto de toda a vida. E comtudo, não era amor nem saudade; alguma sympathia, sim, ainda que leve e sem consequencia; mas sobretudo era pena de o não poder amar,—ou ainda melhor—era lastima de que tal coração não fora casado a outro espirito.

Guiomar reflectiu ainda muito e muito, e não reflectiu só, devaneou também, soltando o panno todo a essa veleira escuna da imaginação, em que todos navegamos alguma vez na vida, quando nos cança a terra firme e dura, e chama-nos o mar vasto e sem praias. A imaginação della porém não era doentia, nem romantica, nem piegas, nem lhe dava para ir colher flores em regiões selvaticas ou adormecer á beira de lagos azues. Nada disso era nem fazia; e por mais longe que velejasse levaria entranhadas na alma as lembranças da terra.

Volveu emfim e olhos cairam-lhe na carta. A realidade presente não se lhe podia mostrar de peor modo. Guiomar ergueu-se irritada, lançou mão do papel e machucou-o febrilmente; ia talvez rasgal-o, quando ouviu bater de manso á porta.

—Quem é? perguntou.

—Sou eu, respondeu a voz de Mrs. Oswald.

A moça foi abrir a porta; a ingleza entrou, trajada de dormir, e um vivo espanto nos olhos, que pareceu tirar-lhe a voz durante alguns segundos. Guiomar assustada perguntou:

—Que é? aconteceu alguma cousa a minha madrinha?

—Longe vá o agouro! exclamou a ingleza. Não lhe aconteceu nada; a senhora baroneza dorme naturalmente a somno solto. Venho porque do meu quarto pareceu-me ouvir rumor de passos aqui, e depois vi luz. Pensei que tivesse algum incommodo. Mas, pelo que vejo, continuou a ingleza deitando os olhos para a mezinha em que pousava o livro aberto,—pelo que vejo ainda não acabou de ler o seu romance...

—Não li ainda uma linha, depois que me recolhi, respondeu Guiomar cravando os olhos no rosto da ingleza, como tomada de um pensamento subito.

—Deveras!

—Li outra cousa, continuou a moça; li este papel.

Mrs. Oswald inclinou-se para ler também o papel, que aliás adivinhou qual fosse; Guiomar atirou-o sobre a mesa.

—Não precisa, disse ella; é uma declaração amorosa.

—De quem? perguntou a ingleza abrindo uns olhos espantados e obedientes.

—Leia o nome.

Mrs. Oswald leu a assignatura da carta, que a moça do novo lhe apresentava.

—Naturalmente, continuou Guiomar, ha nisto obra sua...

—Minha! interrompeu a outra um pouco mais rispidamente do que costumava falar.

Guiomar tinha ido sentar-se; o pésinho impaciente batia no tapete, com um movimento rapido e regular; cruzára os braços sobre o peito, fitando a ingleza com uns olhos em que se podia ler a viva exacerbação do espirito. Seguiu-se curto silencio; Mrs. Oswald puxou outra cadeira e sentou-se perto da moça.

—Por que ha de ser injusta commigo? disse ella dando á voz um tom mellifluo e supplicante; porque não ha de ver as cousas, como ellas naturalmente são? O que ha nisto é uma coincidencia curiosa, mas nada mais. Se lhe falei em semelhante cousa algumas vezes, foi porque eu mesma percebi o amor que lhe tem o Sr. Jorge; é cousa que todos veem. Imaginei que o casamento, neste caso, seria agradavel á Sra. baroneza a quem sou grata. Posso ter feito mal...

—Muito mal, interrompeu Guiomar; são cousas de familia em que a senhora nada tem que ver.

Guiomar levantou-se outra vez, deu alguns, passos, e voltou a sentar-se. Com o movimento desprenderam-se-lhe os cabellos e cairam-lhe sobre os hombros. Mrs. Oswald approximou-se della para os colher e atar, mas a moça seccamente a repelliu:

—Deixe, deixe...

E ella mesma os recompoz com as suas mãosinhas finas, e ficou depois a olhar para o chão, a morder o labio, a respirar fortemente, como se contivera a palavra que forcejava por sair impetuosa e colerica. Mrs. Oswald não disse nada durante alguns minutos; esperou que passasse o periodo agudo da irritação. Quando lhe pareceu que ella afrouxava, rompeu emfim o silencio.

—Fiz mal, fiz não ha duvida, mas a intenção não podia ser melhor. Talvez não me creia; paciencia! O que lhe peço,—nem lhe peço,—o que eu acredito piamente é que não me hade attribuir algum interesse de ordem...

Mrs. Oswald fez uma pausa para dar aberta ao protesto de Guiomar, mas Guiomar não protestou, quero dizer não protestou de viva voz; fez apenas um gesto negativo, bastante a satisfazer os melindres da ingleza. A moça foi sincera; não attribuia realmente a nenhum interesse vil,—pecuniario,—a acção de Mrs. Oswald. Nem por isso a absolvia,—não só porque ella viria concorrer talvez para uma crise penosa, mas também,—bom é notal-o outra vez,—porque a condição da ingleza naquella casa era relativamente inferior.

A ingleza continuou a falar em defeza propria, a justificar miudamente os bons sentimentos do coração, e a prometter que deixava por mão todo aquelle negocio, a seu juizo, o melhor que a moça podia fazer.

—A experiencia da vida, concluiu ella, devia ter-me convencido de que o melhor de todos os sentimentos é um egoismo quieto e calado.

Em quanto ella falava assim, Guiomar parecia volver a tranquilidade habitual. A mudança foi,—não súbita,—mas um pouco mais rapida do que devera ser, tratando-se de um espirito, como o della, em que as impressões não eram superficiaes nem momentaneas. Havia até uns toques de affabilidade no rosto e na voz, quando ella começou, a falar, o que revelaria talvez ser aquella mudança muito voluntaria e meditada.

—Está bom, Mrs. Oswald, o que passou, passou. Sinto que as cousas chegassem a este ponto, e que elle se lembrasse de escrever semelhante carta, confessando uma paixão que acredito sincera, mas a que o meu coração não póde corresponder. Amores não se encommendam como vestidos: sobretudo não se fingem, ou não se devem fingir nunca.

—Oh! decerto!

—Eu gosto delle, como parente que é de minha madrinha, e também por que ella lhe tem affeição de mãe, como a mim; somos uma especie de irmãos, nada mais.

—Tem muita razão, assentiu Mrs. Oswald. A senhora pensa e fala como um doutor. Que se lhe ha de fazer? Quem não ama não ama. Delle é que eu tenho pena!

—Gosta muito de mim, não? perguntou Guiomar fitando os olhos na ingleza.

—Oh! parece que sim! A senhora deve sabel-o tanto como eu; eu sei o que tenho visto, e creio que é muito.

—Eu nunca vi nada, respondeu seccamente Guiomar.

A resposta de Mrs. Oswald foi um sorriso de incredulidade, que a outra não viu ou não quiz ver. Houve uma pausa; Guiomar continuou nestes termos:

—Mas seja como for, a minha resposta é negativa. Estou que elle não me fará a injuria de querer casar commigo, sem que eu o ame...

Guiomar parou, como a esperar, que a outra lhe dissesse alguma cousa. Desta vez coube a Mrs. Oswald não responder nada, nem com a voz nem com o gesto. A moça inclinou o corpo poz os braços sobre os joelhos, com os dedos cruzados, e entre um riso amavel e um olhar affectuoso, continuou:

—A senhora podia, se acaso elle alguma vez lhe falou nisso ou vier a falar-lhe, podia dissuadi-lo de taes ideias, dizendo-lhe simplesmente, a verdade e dando-lhe conselhos, os conselhos que a senhora hade saber dar, e que elle aceitará de certo, porque é um bom coração, um caracter estimavel...

—Oh! excellente! um moço excellente!

E as duas ficaram a olhar uma para a outra, Guiomar a sorrir, mas de um sorriso, que era uma contracção voluntaria dos musculos, e a ingleza a fazer um rosto de piedade, e adoração, e pena, e muita cousa junta, que a moça só começou a comprehender, quando ella rompeu o silencio deste modo:

—Estou a duvidar se devo dizer-lhe o resto.

—O resto? perguntou Guiomar admirada. Pois que ha mais?

A ingleza approximou a cadeira. Guiomar endireitou o busto e esperou anciosa a revelação,—se revelação era,—que lhe ia fazer Mrs. Oswald. Esta não falou logo; era razoavel hesitar um pouco, lutar comsigo mesma, antes de dizer alguma cousa. Emfim, com um movimento de quem ajunta as forças todas e as emprega em cousa superior á coragem usual:

—D. Guiomar, disse ella, pegando-lhe nas mãos, ninguem póde exigir que se case sem amar o noivo; seria na verdade uma affronta. Mas o que lhe digo é que o amor que não existe por ora, póde vir mais tarde, e se vier, e se viesse seria uma grande fortuna...

—Mas acabe, acabe, interrompeu a moça com impaciencia.

—Seria uma grande fortuna para a senhora, para elle, ouso dizer que para mim, que os estimo e adoro, mas sobretudo para a Sra. baroneza.

—Como assim? disse Guiomar.

—Oh! para elle seria a maior fortuna da vida, porque é hoje o seu mais entranhado e vivo desejo, o seu desejo verdadeiramente da alma. A senhora...

—Está certa disso?

—Certissima.

—Não creio, não vejo nada que...

—Creia, deve crer. Se me promette nada dizer desta nossa conversa, nem fazer suspeitar por nenhum modo o que lhe estou contando...

—Fale.

—Pois bem,—continuou Mrs. Oswald abaixando a voz, como se alguem podesse ouvil-a na solidão daquella alcova, e no silencio, profundo daquella casa, que toda dormia,—pois bem, eu lhe direi que por ella mesma tive noticia deste seu desejo. Quando eu percebi a paixão do Sr. Jorge, falei nisso a sua madrinha, gracejando na intimidade que ella me permitte, e a senhora baroneza em vez de sorrir, como eu esperava que fizesse, ficou algum tempo pensativa e séria, até que rompeu nestas palavras: «Oh! se Guiomar gostasse delle e viessem a casar-se, eu seria completamente feliz. Não tenho hoje outra ambição na terra. Ha de ser a minha campanha.»

—Minha madrinha disse isso? perguntou Guiomar.

—Tal qual. A resposta que lhe dei foi que o casamento não era impossivel, e que nada mais natural do que virem a amar-se duas pessoas a principio indifferentes. O amor nasce muita vez do costume.

Guiomar já mal ouvia o que lhe estava dizendo a ingleza; se ainda olhava para ella, era com os olhos indecisos e empanados, de quem vae toda absorvida em pensamentos intimos.

—Foi desde esse dia, continuou Mrs. Oswald, que me pareceu conveniente falar-lhe algumas vezes nisso, sondar-lhe o coração, ver se elle favorecia o sonho de sua madrinha, tornando feliz toda esta casa... Fiz mal, convenho; mas a intenção era a mais respeitavel e santa deste mundo.

—De certo, murmurou Guiomar.

Mrs. Oswald pegou-lhe n'uma das mãos e beijou-a affectuosamente. Guiomar não a repelliu nem sequer pareceu dar-se-lhe da ternura da ingleza. As duas olharam-se uns breves minutos, sem dizer nada, como a lerem na alma uma da outra.

Guiomar não tinha a experiencia nem a edade da ingleza, que podia ser sua mãe; mas a experiencia e a edade eram substituidas, como sabe o leitor, por um grande tino e sagacidade naturaes. Ha creaturas que chegam aos cincoenta annos sem nunca passar dos quinze, tão simplices, tão cegas, tão verdes as compõe a natureza; para essas o crepusculo é o prolongamento da aurora. Outras não; amadurecem na sazão das flores; vem ao mundo com a ruga da reflexão no espirito,—embora, sem prejuiso do sentimento, que nellas vive e influe, mas não domina. Nestas o coração nasce enfreiado; trota largo, vae a passo ou galopa, como coração que é, mas não dispara nunca, não se perde nem perde o cavalleiro.

O que a afilhada da baroneza buscava ler no rosto de Mrs. Oswald era se effectivamente a madrinha nutria aquelle desejo, ou se tal revelação não era mais do que um embuste. O leitor sabe que era verdadeira; mas admittirá, sem duvida, que a moça só depois de muito interrogar e examinar lhe désse fé. Creu emfim; creu, porque era verosimil, creu porque a ingleza não se arriscaria a qualquer indiscrição da parle della, que de todo a desmascararia.

—Parece-me, disse Mrs. Oswald, que não fiz mal em lhe dizer tudo o que sabia. Conselhos não lhe dou nenhuns; o melhor delles não vale a voz do proprio coração. O seu é puro e recto; consulte-o de boa vontade, e verá se ha nelle indifferenca, ou se alguma faisca...

—Eu sei! interrompeu Guiomar. Não me lembrou consultal-o nunca.

—Faz mal, elle é o relogio da vida. Quem o não consulta, anda naturalmente fóra do tempo. Mas que vejo! continuou Mrs. Oswald deitando os olhos para o reloginho de Guiomar. Naquelle outro relogio faltam dez minutos para uma hora! Uma hora! Que diria a Sra. baroneza se soubesse que ainda estamos aqui de conversa! Retiro-me; Deus lhe dê um somno socegado, e sobretudo a faça feliz, como merece. Não lhe recommendo juizo, porque o tem de sobra. Adeus, até amanhã.

E Mrs. Oswald sahiu pé ante pé em direcção ao seu quarto.

Guiomar ficou só, alli sentada ao pé da cama, a ouvir o passo surdo, e cautelloso da ingleza. Quando o som morreu de todo, e o silencio da noite volveu ao que era, profundo e sepulchral, a moça deixou cair os braços na cama, e a cabeça nas mãos, e um suspiro desentranhou-se-lhe do peito, longo, ruidoso, magoado,—o primeiro que o leitor lhe ouve desde que a conhece—e emfim estas palavras arrancadas da alma, tão doloridas,—ia dizer tão lacrimosas,—vinham ellas:

—Oh meus sonhos! meus sonhos!

Não chorou; a alma della era das que não tem lagrimas, em quanto lhe restam forças. Os olhos estavam seccos e firmes quando ella os ergueu das mãos; o resto tinha vestigios do abalo, mas não havia nelle desanimo, menos ainda desespero.

XI

Luiz Alves.

Durante uma inteira e comprida semana, deixou Estevão de apparecer no escriptorio onde trabalhava com Luiz Alves; não appareceu tambem em Botafogo. Ninguem o viu em todo esse tempo nos logares onde elle era mais ou menos assiduo. Foram seis dias, não digo de reclusão absoluta, mas de completa solidão, porque ainda nas poucas vezes que saiu, fel-o sempre a horas ou em direcções que a ninguem via, e de ninguem era visto.

Mas não fôra essa crua e malfadada crise, e é quasi certo que elle metteria uma lança na Africa daquelles dias, que era um ponto muito serio e grave, a questão magna da rua do Ouvidor e da casa do José Thomaz, a ponderosa, crespa e complicada questão de saber se a Stephanoni estrearia no Ernani. Esta questão, de que o leitor se ri hoje, como se hão de rir os seus sobrinhos de outras analogas puerilidades, esta pretenção a que se oppunha a Lagrua, allegando que o Ernani era seu, pretenção que fazia gemer as almas e os prelos daquelle tempo, era cousa muito propria a espertar os brios do nosso Estevão, tão marechal nas cousas minimas, como recruta nas cousas maximas.

Infelizmente elle não apparecia, não sabia sequer do conflicto e do debate, occupado como estava em travar o aspero e sangrento duelo do homem contra si mesmo, quando lhe falta o apoio, ou a consolação dos outros homens. Todo elle era Guiomar; Guiomar era o primeiro e o ultimo pensamento de cada dia. A sombra da moça vivia ao pé delle e dentro delle, no livro em que lia, na rua solitaria onde acaso transitava, nos sonhos da noite, nas estrellas do ceu, nas poucas flores de seu inculto jardim.

Um leitor perspicaz, como eu supponho que hade ser o leitor deste livro, dispensa que eu lhe conte os muitos planos que elle teceu, diversos e contradictorios, como é de razão em analogas situações. Apenas direi por alto que elle pensou tres vezes em morrer, duas em fugir á cidade, quatro em ir affogar a sua dor mortal naquelle ainda mais mortal pantano de corrupção em que apodrece e morre tantas vezes a flor da mocidade. Em tudo isto era o seu espirito apenas um joguete de sensações continuas e variadas. A força, a permanencia do affecto não lhe bastava a dar seguimento e realidade ás concepções vagas de seu cerebro,—enfermo, ainda quando estava de saude.

A ideia do suicidio fincou-se-lhe mais a dentro no espirito, certa tarde em que elle saiu a espairecer, e viu um enterro que passava, caminho do Cajú. O prestito era triste,—ainda mais triste pela indifferença que se lia no rosto dos que iam piedosamente acompanhando o morto. Estevão descobriu-se e sinceramente desejou ir alli dentro, mettido naquellas estreitas tabuas de pinho, com todas as suas dores, paixões e esperanças.

—Não tenho outro recurso, pensou elle; é necessario que morra. É uma dôr só, e é a liberdade.

Ao voltar para casa, uma creança que brincava na rua, em camisa, com os pés na agua barrenta da sargeta, fel-o parar alguns instantes, invejoso daquella boa fortuna da infancia, que ri com os pés no charco. Mas a inveja da morte e a inveja da innocencia foram ainda substituidas pela inveja da felicidade, quando ao recolher-se viu as janellas abertas de uma casa visinha, e a sala illuminada, e uma noiva coroada de flores de laranjeira, a sorrir para o noivo, que sorria igualmente para ella, ambos com o sorriso indefinivel e unico da occasião.

Os cinco dias correram-lhe assim, travados de enojo, de desespero, de lagrimas, de reflexões amargas, de suspiros inuteis, até que raiou a aurora do sexto dia, e com ella,—ou pouco depois della, uma carta de Botafogo. Estevão quando viu o creado da baroneza, á porta da saia, com uma carta na mão, sentiu tamanho alvorôço, que não ouviu nada do que elle lhe disse. Supporia que a carta era de Guiomar? Talvez; mas a illusão durou os poucos instantes que elle gastou em romper a sobrecarta e desdobrar a folha de papel que vinha dentro.

A carta era da baroneza.

A baroneza perguntava-lhe graciosamente se elle havia morrido, e pedia que fosse falar-lhe ácerca da demanda que ella trazia. Estevão chegara já ao estado de só esperar um pretexto para transigir comsigo mesmo; não podia havel-o melhor. Escreveu rapidamente duas linhas de resposta, e á uma hora da tarde apeava-se de um tilbury á porta da funesta e deliciosa casa, onde havia passado as melhores e as peores horas da vida.

—Sabe porque razão lhe dei este incommodo, além do prazer que tinha em vel-o? perguntou a baroneza logo depois dos primeiros comprimentos.

—Disse-me que era por causa da demanda...

—Sim, precisamos assentar algumas cousas, antes da nossa partida.

—V. Ex. sae da côrte?

—Vamos para o roça.

Estevão empallideceu. Na situação delle, aquella viagem era a melhor cousa que lhe podia acontecer; comtudo, fez-lhe mal a noticia. A conversa que se seguiu foi toda sobre o assumpto forense, e durou uma longa hora, sem que apparecesse Guiomar. Ao despedir-se atreveu-se Estevão a perguntar por ella.

—Anda passeando, respondeu a baroneza.

Estevão despediu-se da constituinte, que o acompanhou até á porta da sala, repetindo-lhe algumas recommendações, que o advogado mal pôde ouvir e absolutamente lhe não ficaram de memoria.

A esperança de ver a moça levara-o, mais que tudo, áquella casa; saía sem ter o gosto de a contemplar ainda uma vez; mais do que isso, ameaçado de a não ver tão cedo, ou quem sabe se nunca mais. Ia elle a reflectir nisto e a approximar-se da porta, onde parava ao mesmo tempo um carro. Estevão estremeceu naturalmente, ante de ver quem ia apear-se; grudou-se ao portal, com os olhos fitos na portinhola, que um lacaio abria apressadamente.

A primeira figura que desceu foi a nossa conhecida Mrs. Oswald, que o fez, sem dar tempo a que Estevão lhe offerecesse a mão. O bacharel, desde que a vira, approximara-se rapidamente da portinhola.

Guiomar desceu logo depois. A mão apertada na luva côr de perola pousou levemente na mão de Estevão que estremeceu todo. A moça fez-lhe um comprimento risonho, murmurou um agradecimento e recolheu-se com a ingleza. Era pouco; mas esse pouco alvoroçou o bacharel, que enfiou d'alli para a cidade, em direcção ao escriptorio.

Luiz Alves admirou-se de o ver; não foi com um espanto de seis dias, como devera ser, mas de quarenta e oito horas, quando muito. Que admira? A preocupação de Luiz Alves por aquelles dias era a candidatura eleitoral; a boa nova devia chegar-lhe na primeira mala do norte. Ora, em boa razão, um homem que está prestes a ser inscripto nas tabuas do parlamento, não póde cogitar muito dos amores de um rapaz, ainda que o rapaz seja amigo e os amores verdadeiros.

Estevão não perdeu tempo em circumloquios; foi entrando e entornando a alma toda, afflicta e consolada a um tempo, no seio do velho amigo e companheiro. A cada trecho da confissão plena que elle alli lhe fez, respondia um commento, ora serio, ora gracioso de Luiz Alves. Quando Estevão porém lhe deu noticia de que a familia da baroneza ia para a roça, Luiz Alves recolheu o meio-riso que lhe pousava nos labios desde começo, e com a mais subita e sincera admiração exclamou:

—Para a roça!

—Disse-o agora mesmo a baroneza.

—Mas...

Luiz Alves não acabou; olhou ainda meio duvidoso para Estevão, e ficou algum tempo calado, a coçar o queixo com a faca de marfim e a olhar para uma gravura que pendia na parede fronteira.

—Na situação em que estou, continuou Estevão, has de dizer que a viagem é uma felicidade para mim. Pois não é; não admitto a viagem. Se ella sair da côrte, eu saio também.

—Tu estás doudo!

—Talvez.

Luiz Alves saiu daquella natural indifferença com que o ouvia, e lhe falava sempre em tal assumpto. Falou-lhe carinhoso,—talvez pela primeira vez na vida. O que lhe disse foi apenas ume edição augmentada de que lhe havia dito em anteriores occasiões,—agora com maior fundamento, porque depois do formal desengano de Guiomar, não havia outro recurso mais que ir esquecel-a de todo.

—Oh! isso nunca! interrompeu Estevão. Demais, não sei, não estou certo se ella falava de coração naquella tarde...

A candidez com que Estevão disse isto era a fiel traducção de seu espirito, e a razão de taes palavras, não a procure o leitor em outra parte mais que não seja aquelle sorriso de ha pouco, ao pé do carro, sorriso que lhe bailava no cerebro, como raio de sol coado por entre nuvens negras de tempestade.

Luiz Alves sacudiu a cabeça e enfiou os olhos pelas folhas rabiscadas de uns autos que tinha diante, e que entrou a folhear vagarosamente. Subito, bateu uma pancadinha, com a mão espalmada sobre os papeis, e levantou a cabeça:

—Ha um meio talvez de saber tudo, disse elle, de saber se ella verdadeiramente te ama, ou... Posso tenta-lo, com uma condição.

—Qual?

—A condição de eliminares as tuas pretenções. Que diabo ganhas tu em nutrir uma paixão sem efficacia nem remedio?

Esta promessa era a mais dura que se podia arrancar de um coração, em que as gerações de esperanças se succediam quasi sem solução de continuidade; fel-a, todavia, Estevão, talvez com a secreta resolução de a trahir.

Luiz Alves ficou só dahi a alguns minutos. As ultimas palavras que disse ao collega foram duas ou tres pilherias de rapaz; mas apenas ficou só tornou-se serio, e inclinando o corpo para a frente, com os braços na secretaria, e a raspar as unhas com um canivete, alli esteve largo tempo, como a reflectir, longe de Estevão, que aliás já não ía perto, e ainda mais longe dos autos que tinha diante de si. Mas em que pensava elle, se não era em Estevão, nem nos autos, nem tambem, por agora, nas suas esperanças eleitoraes Paciencia, leitor; sabel-o-has daqui a nada. Contenta-te com a noticia de que, ao cabo de vinte minutos daquella abstracção, Luiz Alves volveu a si, proferindo em alta voz esta simples palavra:

—Não ha duvida; é uma ambiciosa.

E descativado daquella preoccupação, enterrou-se de todo na leitura dos autos.

XII

A viagem.

Mal recomeçára Luiz Alves a leitura dos autos, entrou no gabinete o criado apresentando-lhe um bilhete de visita.

—Que entre! disse o advogado lendo o nome do sobrinho da baroneza.

E logo se ouviu no corredor o passo medido e lento do mancebo, que d'ahi a nada assomava á porta do gabinete, fazendo uma cortezia, sisuda, mas graciosa.

—Venho incommoda-lo, doutor? perguntou Jorge.

—Pelo amor de Deus! exclamou o advogado erguendo-se e indo buscal-o á porta. Não me incommodaria em caso nenhum; agora, sobretudo, que a leitura de uns papeis me fatigou sobre maneira, a maior fortuna que eu poderia desejar é a presença de um homem de espirito.

Jorge agradeceu este comprimento um pouco emphatico, e retribuiu-o com outra lisonjaria muito mais extensa e de maior alcance. Quer dizer que elle vinha pedir alguma cousa. Effectivamente, passados os minutos de introito e desfiadas as generalidades, Jorge impertigou-se mais do que até alli estivera e desfechou esta pergunta abrupta:

—Sabe que venho pedir-lhe uma cousa grave?

Luiz Alves inclinou-se.

—Grave e simples ao mesmo tempo, continuou o sobrinho da baroneza; mas antes disso precisava saber se é tão amigo da nossa familia, como ella o é do senhor.

—Oh! de certo!

—O senhor é o menos assiduo, talvez, das pessoas que lá vão, apezar de visinho; só agora o vejo alli mais a miudo; entretanto é como flor que se trahe pelo aroma; minha tia tem a seu respeito a melhor opinião do mundo; acha-lhe uma gravidade, e eu tambem a sinto, e nem comprehendo que um homem possa ser outra cousa. Os taes espiritos futeis...

—São insupportaveis, concluiu Luiz Alves ancioso por chegar ao objecto da visita.

O objecto era a viagem da baroneza. Um commendador, amigo do finado barão, e fazendeiro em Cantagallo, tinha promessa da viuva, havia dous annos, de ir lá passar algum tempo. A baroneza esquivara-se sempre a cumprir a palavra dada; agora porém, tal fora a insistencia, que se resolvera a ir. Ora, o que Jorge vinha propor era—, expressões delle,—uma conjuração de amigos para dissuadir a tia daquelle projecto. Affiançava ao advogado que, ainda descoberta a conjuração, teria elle a vida sã e salva.

Luiz Alves suppoz a principio que aquillo era um simples pretexto; mas, tendo observado que a bella Guiomar não era indifferente ao rapaz, comprehendeu que este tinha na conjuração proposta, um interesse inteiramente pessoal. Emfim, Jorge chegou a confessar que, se a tia insistisse em sair da côrte, elle não tinha remedio senão acompanha-la.

O accôrdo não foi difficil; ficou assentado que fariam todos os esforços para dissuadir a baroneza. Jorge quiz sair logo; reteve-o Luiz Alves algum tempo mais, com expressões de louvor habilmente tecidas e mais habilmente encastoadas na conversação; e tambem deixando-se ir á feição do espirito delle, acceitando-lhe as ideias e os preconceitos, e applaudindo-os discretamente,—serio, quando elles o eram ou pareciam ser,—chocarreiro quando vinham com ar de graça,—respondendo emfim a todos os gestos e meneios do outro, como faz o espelho por officio e obrigação:—toda a arte em summa de tratar os homens, de os attrahir e de os namorar, que elle aprendera cedo e que lhe devia aproveitar mais tarde na vida publica.

De noite foi Luiz Alves á casa da baronesa, onde poucas pessoas havia, todas de intimidade. A dona da casa, sentada na poltrona do costume, tinha ao pé de si uma senhora da mesma edade que ella, egualmente viuva, e defronte as suiças brancas e aposentadas de um ex-funccionario publico. N'um sophá, viam-se Mrs. Oswald e Jorge a conversarem em voz, ora muito baixa, ora um pouco mais elevada. Adiante, dous moços contavam a duas senhoras o enredo da ultima peça do Gymnasio. Mais longe, uma moça da visinhança gabava a outra a tesoura de Mme. Bragaldi, que pedia meças, dizia ella, ao pincel do scenographo, seu marido. Emfim, junto a uma das janellas via-se uma mocinha, viva e bonita, a dizer mil ninharias graciosas a outra pessoa, que era nada menos que a nossa conhecida Guiomar. A conversa, assim dividida, tornava-se ás vezes geral, para recair logo no particularismo anterior; os grupos modificavam-se tambem de quando em quando, do mesmo modo que o assumpto, e assim se iam matando agradavelmente as horas, que não resistiam, coitadas, nem apressavam o passo um minuto sequer.

Luiz Alves aggregara-se ao grupo da baroneza, ao qual não tardou juntar-se Jorge. O advogado teve a discrição de esperar que o assumpto viesse de si, se viesse, ou de o introduzir na conversa, quando lhe parecesse de feição. Mas Jorge, que estava impaciente, arrastou o assumpto ao debate. Luiz Alves, mostrou-se fiel á palavra dada; declarou amavelmente que se oppunha á viagem, como visinho e amigo, que reclamaria em ultimo caso o auxilio de força publica; que era um erro e um crime deixar aquella casa viuva da benevolencia e da graça e do gosto e de todas as mais qualidades excellentes que alli iam achar os felizes que a frequentavam; que, emfim, o mal era tamanho, que não deixaria de ser peccado, posto não viesse apontado nos cathecismos, e como peccado, seria de força punido, com amargas penas, no outro seculo, pelo que, e o mais dos autos, era sua decisão que a baroneza devia ficar.

Todas estas razões foram ditas como deviam de ser, de um modo galante e folgazão, a que a baroneza respondia egualmente, e que não daria nada mais de si, se Luiz Alves, mudando de estylo, não fosse pôr o assumpto em differente terreno.

—Digamos a verdade, Sra. baroneza, a viagem ha de ser-lhe immensamente incommoda, se for so isso; suas forças não são de certo eguaes ás de seus primeiros annos; sua saude é melindrosa e não poderá soffrer tanta fadiga. Confesso que falo em nome de certo interesse pessoal de amigo e de visinho; mas a principal razão não é essa. Se houvesse um motivo urgente, bem; mas tratando-se apenas de uma promessa feita ha tanto tempo, seria crueldade da minha parte não insistir que ficasse.

A baroneza defendia-se, e Luiz Alves não tardou em reconhecer de si para si que ella não se defendia com o vigor de uma resolução original e propria. A conversa, entretanto, tornára-se mais geral; de todos os lados partiam votos de opposição.

Guiomar havia já alguns minutos que não attendia á interlocutora; tinha o ouvido afiado e assestado sobre o grupo da madrinha. Ninguem a observava; mas é privilegio do romancista e do leitor ver no rosto de uma personagem aquillo que as outras não veem ou não podem ver. No rosto de Guiomar podemos nós ler, não só o tedio que lhe causava aquella opinião unanime contra o projecto da baroneza, mas ainda a expressão de um genio imperioso e voluntario.

—Estamos de accordo, creio eu? perguntou Luiz Alves olhando alternadamente para a baroneza e as outras pessoas.

—Não é possível, doutor, respondia a boa senhora.

—De certo que não é possível, interveiu Guiomar do lugar onde estava. A viagem não offerece risco, nem minha madrinha está invalida. Demais, é uma promessa feita; não se pode deixar de cumprir.

Esta opinião, dita em tom sêcco e firme, ainda que a voz nada perdesse do seu natural avelludado, equivaleu a um pouco de agua fria lançada na fervura triumphante dos animos.

—Guiomar tem razão, disse a baroneza; já agora é preciso ir; são apenas tres ou quatro mezes.

Luiz Alves olhou longamente para Guiomar, como a procurar ver-lhe no rosto todas antecedencias da resolução da baroneza. A opposição afrouxara; Jorge chamou em vão o advogado em seu auxilio. A resolução da tia, se alguma vez fora abalada, tornara-se outra vez firme.

Guiomar, entretanto, erguera-se e chegara ao grupo da madrinha. Jorge fitou-a com uma expressão de vaidade e cobiça. Luiz Alves, que se achava de pé, recuou um pouco para deixal-a passar. Os olhos com que a contemplou não eram de cobiça nem de vaidade; a leitora, que ainda lembrará da confissão por elle mesmo feita a Estevão, supporá talvez que eram de amor. Talvez,—quem sabe?—amor um pouco socegado, não louco e cego como o de Estevão, não pueril e lascivo, como o de Jorge, um meio termo entre um e outro,—como podia havel-o no coração de um ambicioso.

—O Dr. Luiz Alves defende causas más, disse Guiomar sorrindo para elle; não se trata de uma cousa impossivel. Quanto a mim, Cantagallo só tem um inconveniente; sera menos divertido que a côrte; mas o tempo passa depressa...

—Nesse caso, disse Jorge suspirando eu tambem dispenso theatros e bailes; sacrifico-me á familia.

—Queres ir comnosco? perguntou a baroneza alegremente.

—Que duvida!

Guiomar mordeu o labio inferior, com uma expressão de despeito, que pôde conter e abafar, sem que ninguem a percebesse, ninguem, excepto Luiz Alves. Um sorriso tranquillo e perspicaz roçou os labios do advogado, em quanto a moça, para esconder a impressão que lhe ficara, de novo se dirigiu á janella, onde esteve alguns momentos sósinha, meia voltada para fóra e meia guardada pela sombra que alli fazia a cortina. Um rumor de passos fel-a voltar-se para dentro. Era Luiz Alves.

—Ah! disse ella fingindo-se tranquilla; agradeço-lhe não haver insistido mais nos seus conselhos.

—A intenção era boa, respondeu Luiz Alves em voz baixa; mas será agora excellente; nem tudo está perdido: eu me incumbo de salvar o resto.

Guiomar franziu a testa com o mais vivo e natural espanto; tal espanto que parecia havel-a feito esquecer outro sentimento, igualmente natural:—o do despeito que lhe causaria aquella singular familiaridade. Mas o assombro dominou tudo; Guiomar sentiu que elle lera nella a razão da insistencia e o desgosto do resultado.

A ruga desfez se a pouco e pouco, mas a moça não retirou logo os olhos. Havia nelles uma interrogação imperiosa, que a alma não se atrevia a transmittir aos lábios. Se ha nos do leitor alguma interrogação, esperemos o capitulo seguinte.

XIII

Explicações.

Luiz Alves comprehendera toda a expressão dos olhos de Guiomar; era, porém, homem frio resoluto. Inclinou o busto com toda a graça correcta e de bom tom, e disse-lhe na voz mais branda que lhe permittia o seu orgão forte e severo:

—Parece-lhe que fui um pouco audaz, não é? Fui apenas sincero; e ainda que a sua delicadeza me condemne, estou certo de que ha em seu coração misericordia de sobra...

Guiomar tinha readquirido toda a posse de si mesma.

—Está enganado, disse ella, não o condemno, pela simples razão de que o não entendi.

—Tanto melhor, redarguiu Luiz Alves sem pestanejar; o meu delicto nesse caso não passou da esphera da intenção.

—Mas... referia-se á viagem?

—Referia-me; perguntava quando iam.

Esta presença de espirito de Luiz Alves ia muito com o genio de Guiomar; era um laço de sympathia. A moça respondeu que o commendador viria buscal-as dahi a quinze ou vinte dias.

—Tres mezes apenas? perguntou o advogado.

—Tres ou quatro.

—Quatro mezes não é a eternidade, mas Cantagallo, para uma carioca da gemma, hade ser um degredo, ou quasí... Oxalá,—continuou Luiz Alves, concluindo mais depressa do que queria, ao ver que Jorge se approximava da janella,—oxalá não lhe faça esse exilio esquecer o que solemnemente lhe digo neste momento: que a senhora tem uma alma grande e nobre, e que eu a admiro!

Jorge chegára; a conversa tinha de acabar ou tomar differente rumo.

As ultimas palavras de Luiz Alves eram singularmente dispostas para deixar sulco profundo na memoria da moça. Não era uma declaração de amor, nem uma cortezania de sala cousas todas que ella ouvira muita vez, que podiam lisongea-la, e de certo a lisongeavam; era mais que um comprimento e não chegava a ser uma declaração. Commoção, não a havia na voz do advogado; firmeza, sim, e um ar de convicção profunda. Guiomar olhou para elle quasi sem dar pela presença de Jorge; mas Luiz Alves voltara-se para o recem-chegado e falava-lhe em tom jovial, bem differente daquelle que empregára pouco antes.

Se esse contraste era premeditado,—não sei se o era,—não podia vir mais de feição ao espirito de Guiomar. De quantos homens a moça tratára até alli, era o primeiro que lhe inspirava curiosidade, e tambem, naquella occasião, a primeira pessoa que só compadecia della. Veja o leitor:—curiosidade e gratidão;—veja se ha duas azas mais proprias para arrojar uma alma no seio de outra alma,—ou de um abysmo, que é ás vezes a mesma cousa.

Eu disse—compadecia—e esta só palavra, desacompanhada de outra cousa, póde fazer crer ao leitor que, durante aquelles dias em que a perdemos de vista, tornara-se Guiomar uma creatura desditosa. Nada disso; a situação era a mesma, não a mesma anteriormente á carta de Jorge, mas a mesma da noite em que ella a recebeu, situação, de certo, assaz sombria e carregada para um coração que receia ser constrangido, mas não desesperada nem angustiosa.

A baroneza, se soubera dos factos, ou se pudera ler na alma da moça, seria a primeira a dar-lhe todas as consolações. Mas não sabia. Seu desejo,—ou antes o sonho da velhice, como ella dizia n'um dos anteriores capitulos,—era deixar felizes a afilhada e o sobrinho, e entendia que o melhor meio de os deixar felizes era casal-os um com o outro. A noticia que tinha do coração da moça, a este respeito, era incompleta ou inexacta; pintavam-lhe como frieza o que era repugnancia. Mrs. Oswald dava-lhe sempre esperanças de exilo feliz e proximo, as coleras da moça não lh'as contava nunca. Da carta de Jorge não soube, nem da scena havida na alcova. O casamento continuava a apparecer-lhe com todas as probabilidades de uma esperança realizavel.

Dirá a leitora que o sobrinho não merecia tanto zelo nem tão pertinaz esperança, e terá razão; mas os olhos da baroneza não são os da leitora; ella só lhe via o lado bom,—que era realmente bom,—ainda que de uma bondade relativa; mas não via o lado mau, não via nem podia ver-lhe a frivolidade grave do espirito, nem o genero de affecto que se lhe gerava no coração.

Jorge era o seu unico parente de sangue,—filho de um irmã que vivêra infeliz e mais infelizmente morrêra, não repudiada, mas aborrecida do marido, circumstancia que lhe tornava caro aquelle moço. Mais do que a afilhada, não; nem tanto, de certo; o coração não chegaria para dividir-se egualmente em tão grandes porções; queria-lhe, porém, muito, quanto bastava para desejal-o feliz, e trabalhar por fazel-o. Accrescentemos que o destino da irmã sempre lhe estava presente ao espirito, e que ella receiava egual sorte a Guiomar; em Jorge parecia-lhe ver todos os dotes necessarios para tomal-a venturosa.

Infelizmente, Mrs. Oswald, sabedora daquelles secretos desejos e mais ou menos confidente dos sentimentos de Jorge, achara azada occasíão esta para patentear toda a gratidão de que estava possuida e a profunda amizade que a ligava á familia da baroneza. Interpoz-se para servir aos outros, e mais ainda a si propria. Viu a difficuldade, mas não desanimou; era preciso armar ao reconhecimento da baroneza. Por isso não hesitou em confiar a Guiomar o desejo da madrinha, exagerando-o, entretanto,—por que nunca a baroneza dissera que «tal casamento era a sua campanha,» e Mrs. Oswald attribuiu-lhe esta phrase mortal para todas as esperanças e sonhos da moça. Mas, se falava demasiado ao pé de uma, era muito mais sobria de palavras com a outra, e da exageração ou da attenuação da verdade resultara aquelle perenne estado de luta abafada, de receios, de indecisão e de amarguras secretas. Convém dizer, para dar o ultimo traço ao perfil, que esta Mrs. Oswald não seguia só a voz do seu interesse pessoal, mas também o impulso do proprio genio, amigo de pôr á prova a natural sagacidade, de tentar e levar a cabo uma destas operações delicadas e difficeis, de maneira que, se houvesse uma diplomacia domestica,—ou se se creassem cargos para ella, Mrs. Oswald podia contar com um lugar de embaixatriz.

Vindo agora á narração dos successos da historia, cumpre que o leitor saiba, que a carta de Jorge não teve resposta escripta nem verbal. No dia seguinte ao da entrega foi elle jantar a Botafogo; mas Guiomar não saíra do quarto, a pretexto de uma dor de cabeça; a baroneza passou o dia com ella; Jorge apenas conseguiu saber, quando de lá saiu, que a moça ia melhor. Nos subsequentes dias nenhuma resposta foi ás mãos do pretendente, nem elle conseguiu haver uns cinco minutos de conversa solitaria com a moça; Guiomar esquivava-se sempre, com aquella arte summa da mulher que aborrece, e que é nem mais nem menos egual á da mulher que ama.

Um dia, porém, não houve meio de fugir; e Jorge, que não tinha nenhuma commoção na voz, porque não tinha muita no coração, olhou para ella com olhos direitos e francamente lhe pediu uma palavra de esperança ou de desengano. A moça hesitou alguns segundos; contudo era preciso responder. Venceu a repugnância dizendo-lhe com um frio sorriso:

—Nem uma nem outra cousa.

—Nem desengano? perguntou Jorge alvoroçado.

—Ninguem pode dar nem uma cousa nem outra, disse ella; costumamos acceital-as do nosso destino.

Não era responder, como vê o leitor; Jorge ia pedir uma decisão mais transparente, mas a moça aproveitara-se da primeira impressão e esquivara-se. Quando elle recobrou a voz não viu mais que a fimbria do vestido, que se perdia na volta de uma porta.

Guiomar encurtou as redeas á familiaridade que existia entre ella e Jorge; mas, se o tratava com mais reserva, não o fazia com sequidão nem frieza, nem deixava de ser polida e affavel. A dignidade natural que havia em toda a sua pessoa servia-lhe, além disso, como de uma torre de marfim, onde ella se acastellava e mantinha em respeito o pretendente.

Dos dous homens que lhe queriam, nenhum lhe falava á alma; ella sentia que Estevão pertencia á phalange dos tibios, Jorge á tribu dos incapazes, duas classes de homens que não tinham com ella nenhuma affinidade electiva. Não egualava, de certo, os dous pretendentes; um era simplesmente trivial, outro sentimental apenas; mas nenhum delles capaz de crear por si só o seu destino. Se os não egualava, tambem os não via com os mesmos olhos; Jorge causava-lhe tedio, era um Diogenes de especie nova; atravez da capa rota da sua importancia, via-se-lhe palpitar a triste vulgaridade. Estevão inspirava-lhe mais algum respeito; era uma alma ardente e frouxa, nascida para desejar, não para vencer, uma especie de condor, capaz de fitar o sol, mas sem azas para voar até lá. O sentimento de Guiomar em relação a Estevão não podia nunca chegar ao amor; tinha muito de superioridade e perdão.

Com outra indole, aspirações differentes e vivida em diversa esphera, ama-lo-hia com certeza, do mesmo modo que elle a amava. Mas a natureza e a sociedade deram-se as mãos para a desviar dos gozos puramente intimos. Pedia amor, mas não o quizera fruir na vida obscura; a maior das felicidades da terra seria para ella o maximo dos infortunios, se lh'a puzessem n'um ermo. Creança, iam-lhe os olhos com as sedas e as joias das mulheres que via na chacara contigua ao pobre quintal de sua mãe; moça, iam-lhe do mesmo modo com o espectaculo brilhante das grandezas sociaes. Ella queria um homem que, ao pé de um coração juvenil e capaz de amar, sentisse dentro em si a força bastante para subil-a aonde a vissem todos os olhos. Voluntariamente, só uma vez acceitara a obscuridade e a mediania; foi quando se propoz a seguir o officio de ensinar; mas é preciso dizer que ella contava com a ternura da baroneza.

XIV

Ex abrupto.

Já o leitor ficou entendendo que a viagem a Cantagallo era obra quasi exclusiva de Guiomar. A baroneza relutara a principio, como das outras vezes fizera, e o commendador pouca esperança tinha já de a ver na fazenda. Mas o voto de Guiomar foi decisivo. Ella fortaleceu, com as suas, as razões do commendador, allegando não só a obrigação em que a madrinha estava de desempenhar a palavra dada, mas ainda a vantagem que lhe podiam trazer aquelles tres mezes de vida roceira, longe das agitações da côrte; emfim, invocou o seu proprio desejo de ver uma fazenda e conhecer os habitos do interior.

Não havia tal desejo, nem cousa que se parecesse com isso; mas Guiomar sabia que na balança das resoluções da madrinha era de grande peso a satisfação de um gosto seu. O sacrificio duraria tres ou quatro mezes; ella afrontaria, porém, dez ou doze se tantos fossem necessarios, para fugir algum tempo ás pretenções de Jorge, sem embargo de lhe repugnar todo o viver que não fosse a vida fastosa e agitada da côrte. Eu, que sou o Plutarcho desta dama illustre, não deixarei de notar, que, neste lance, havia nella um pouco de Alcibiades,—aquelle gamenho e delicioso homem de Estado, a quem o despeito tambem deu forças um dia para supportar a frugalidade spartana.

Infelizmente, Jorge reduziu todos esses calculos a nada. Ella contava com o seu demasiado apego aos regalos da côrte, não contava com as suggestões de Mrs. Oswald, que percebera o plano, e torcera a primeira resolução de Jorge, que era ficar e esperar. O sacrificio da parte delle era compensado pela probabilidade da victoria, a qual não consistia só em haver por esposa uma moça bella e querida, mas ainda em tornar muito mais summarias as partilhas do que a baroneza deixaria por sua morte a ambos. Esta consideração, que não era a principal, tinha ainda assim seu peso no espirito de Jorge, e, sejamos justos, devia tel-o: possuir era o seu unico officio. Assim era que não só a moça deixava de obter um bem, mas cahia de um mal em outro maior; tel-o ao pé de si, onde as distracções seriam menos promptas e variadas, equivalia a adoecer de fastio e morrer de inanição.

Imagine-se por isso em que estado lhe ficou o espirito depois da declaração de Jorge. Não havia meio de fugir ao pretendente, era preciso tragal-o. Esta perspectiva abateu-lhe totalmente o animo. Uma confidente, em taes situações, é um presente do ceu; mas Guiomar não a tinha, e se alguma pessoa lhe merecesse tal confiança, é certo ou quasi certo que lhe não diria nada. Suas dores eram altivas, as tristezas de seu coração tinham pudor. Espiritos desta casta ignoram a consolação que ha, nas horas de crise, em se repartirem com outro; triste, mas feliz ignorancia que lhes poupa muita vez o contacto de uma consciência aleivosa e ruim.

No meio do longo reflectir, soaram-lhe na memoria as palavras de Luiz Alves; ella ouviu-as de novo, taes quaes elle as proferira, desde a phrase descortez até à expressão respeitosa. Uma era o commentario da outra, e ambas podiam explicar-lhe o caracter de Luiz Alves, se tivesse alguns elementos mais para conhece-lo; em todo o caso, era a ponta do veu levantada. Embora se lhe não podesse ler no fundo do espirito, via-se desde já qual era o seu methodo de acção.

Qualquel outro homem, depois do effeito produzido pela primeira declaração, não se atreveria ou não lhe importaria tentar mais nada para desfazer o projecto da viagem. Mas o espirito de Luiz Alves tinha a obstinação do dogue. Era-lhe necessario que a familia da baroneza não saisse da côrte; este objecto havia de alcança-lo a todo o trance. Elle espreitava as occasiões, aproveitava as circumstancias, tinha a habilidade de intercalar o pedido em qualquer retalho de conversação, onde menos apropriado pareceria a qualquer outro. Jorge applaudia-o com as forças todas de que podia dispor o seu interesse. A baroneza oppunha ás suggestões do advogado a resistencia molle e atada de quem deseja aquillo mesmo que recusa.

—O doutor é terrivel, dizia ella. Em se lhe mettendo uma cousa na cabeça, ninguem mais o tira dahi.

—Justamente, é uma ideia fixa. Sem ideia fixa não se faz nada bom neste mundo.

Guiomar sustentava a resolução da madrinha, posto não o fizesse a miudo, nem no mesmo tom secco e imperioso da primeira noite. Seu impulso era ser coherente; ao mesmo tempo não queria parecer aos olhos de Luiz Alves que lhe acceitava o concurso para obter o que aliás desejava de todo o coração; sería laval-o da primeira culpa.

O argumento que mais influia no animo de todos, o que devera ter affastado a ideia de semelhante viagem, era o perigo de affrontar o cholera-morbus que por aquelle tempo percorria alguns pontos do interior. Um dia de manhã soube-se que em Cantagallo havia apparecido o terrível inimigo. Desta vez Luiz Alves triumphou sem dizer palavra; a baroneza recuou deante daquelle facto brutal.

A viagem desfez-se pois, a contento de todos, salvo talvez de Mrs. Oswald, que receiava muito da mocidade casadeira da côrte, e dos bellos olhos castanhos de Guiomar. Mrs. Oswald temia ver surgir a cada passo um novo inimigo emboscado em algum theatro ou baile, ou quando menos na rua do Ouvidor, e não via que o inimigo novo podia ser que estivesse litteralmente ao pé da porta. A sagacidade da ingleza desta vez foi um tanto myope. A razão é que Luiz Alves, em todos aquelles seus preliminares, houve-se com habilidade; longe de procurar a moça, parecia nada haver alterado nos seus sentimentos, nem desejar mudar a especie de relações que até alli mantinha. Guiomar, entretanto, não podia deixar de comparar aquella especie de attenciosa indifferença que havia delle para ella, com as palavras que anteriormente lhe ouvira, e o resultado da comparação não lhe parecia muito claro.

Na noite do mesmo dia em que ficou assentado defferir a viagem para melhores tempos, achavam-se em casa da baroneza algumas pessoas de fóra; Guiomar, sentada ao piano, acabava de tocar, a pedido da madrinha, um trecho de opera da moda.

—Muito obrigada, disse ella a Luiz Alves que se approximára para dirigir-lhe um comprimento. Está alegre! Parece que é a satisfação de me haver mallogrado o maior desejo que eu tinha nesta occasião.

—Não fui eu, disse elle, foi a epidemia.

—Sua alliada, parece.

—Tudo é alliado do homem que sabe querer, respondeu o advogado dando a esta phrase um tanto emphatica o maior tom de simplicidade que lhe podia sair dos labios.

Guiomar curvou a cabeça e esteve alguns instantes a perpassar os dedos pelas teclas, em quanto Luiz Alves, tirando de cima do piano outra musica, dizia-lhe:

—Podia dar-nos este pedaço de Bellini, se quizesse.

Guiomar pegou machinalmente na musica e abriu-a na estante.

—Era então vontade sua? perguntou ella continuando o assumpto interropido do dialogo.

—Vontade certamente, porque era necessidade.

—Necessidade,—tornou ella começando a tocar, menos por tocar que por encobrir a voz; mas necessidade por que?

—Por uma razão muito simples, porque a amo.

A musica estacou. Guiomar erguera-se de um salto. Mas nem o gesto da moça, nem a sorpresa das outras pessoas, perturbou o advogado; Luiz Alves inclinou-se para o mocho, como a concertal-o, e voltando-se para Guiomar, disse-lhe graciosamente:

—Pode sentar-se-agora; está seguro.

Guiomar sentou-se outra vez muda, despeitada, a bater-lhe o coração como nunca lhe batera em nenhuma outra occasião da vida, nem de susto, nem de colera, nem... de amor, ia eu a dizer, sem que ella o houvesse sentido jamais. Não se demorou muito tempo alli; com a mão tremula folheou a musica que estava aberta na estante, deixou-a logo e levantou-se.

Nestes derradeiros movimentos ninguem reparou; e se alguem pudesse reparar em alguma cousa, a moça tomara a peito desvanecer todas as suspeitas. A primeira impressão fora profunda, mas Guiomar tinha força bastante para dominar-se e fechar todo o sentimento no coração.

O que se passou depois, quando, livre de olhos estranhos, pôde entregar-se a si mesma, isso ninguem soube, a não serem as paredes mudas do quarto, ou o raio de lua coado pelo tecido raro das cortinas das janellas, como a espreitar aquella alma faminta de luz. Soube-o, talvez, o seu espelho, quando no dia seguinte lhe reflectiu o rosto desfeito e os olhos quebrados. Se foi a meditação nocturna que os amolleceu e apagou, não o perguntou elle, naturalmente porque o sabia; mas talvez advertiu comsigo que se eram assim mais bellos, pediam outro rosto em que caissem melhor. O de Guiomar queria-os como elles eram, severos, firmes e brilhantes.

A baroneza tambem não deixou de ver que a afilhada não accordara com o mesmo ar do costume; achou-a taciturna e distrahida.

—Eu, madrinha? perguntou Guiomar simulando um sorriso de admiração.

—Será engano de meus olhos.

—Não é outra cousa; estou como sempre, como hontem, como amanhã. Passei a noite um pouco mal, é verdade; mas o que tive desapareceu inteiramente. A prova...

Guiomar parou neste ponto, chegou-se á madrinha e deu-lhe um beijo.

—A prova, continuou ella, é que ainda hoje me acha bonita, não é?

—Creança! respondeu a baroneza, dando-lhe uma pancadinha na face.

A tranquillidade da moça era simulada; apenas a madrinha voltou as costas, cobriu-se-lhe o rosto com o mesmo veu. Ella aprendera desde creança a disfarçar as suas preoccupações.

Quanto a Luiz Alves, posto houvesse contado com o seu methodo cru e abrupto, saiu dalli sem plena certeza do resultado. Esta incerteza abalou-o mais do que elle suppunha; e foi, sem duvida, a primeira occasião em que sentiu que a amava devéras, ainda que o seu amor fosse como elle mesmo: placido e senhor de si. No dia seguinte, Estevão interrogou-o a respeito de Guiomar.

—Creio, disse elle depois de reflectir alguns instantes,—creio que por ora não deves perder as esperanças todas.

XV

Embargos de terceiro.

Durante tres dias deixou Luiz Alves de ir á casa da baroneza, estando aliás a morrer por isso. Entrava porém no plano esta ausencia; era das instrucções que elle mesmo dera ao seu coração; não havia remedio senão observal-as.

No quarto dia recebeu um bilhete da baroneza que o comprimentava pela eleição. A mala do norte chegára, e com ella a noticia da victoria eleitoral. Estava Luiz Alves deputado; ia emfim dar a sua demão no fabricos das leis. Estevão foi o primeiro que o felicitou; era o antigo companheiro dos bancos da academia; tanto ou mais do que os outros devia applaudir aquella boa fortuna. Não lhe escondeu, entretanto a inveja que ella lhe mettia:

—Deputado! suspirou elle. Oh! eu tambem podia ser deputado.

Estevão dizia isto, como a creança deseja o dixe que vê no collo de outra creança,—nada mais. Eram os seus sonhos de outr'ora, que renasciam taes quaes eram, inconsistentes, vagos, prestes a dissiparem-se com o primeiro raio da manhã.

Luiz Alves apressou-se a ir agradecer á baroneza a felicitação. Guiomar teve um leve estremecimento quando o viu, mas recebeu-o tranquilla e risonha, quasi indifferente. O advogado era habil; não a perseguiu com os olhos; sobre accordar a attenção das demais pessoas, era seguir o methodo commun. Elle não queria parecer-se com os outros.

Guiomar, entretanto, observava-o a espaços, de revez, como a querer sorprehendel-o; a pouco e pouco, porém, o seu olhar foi sendo mais direito e firme. O de Luiz Alves era natural e egual como antes era, como era ainda agora com todos.

Ao sair, junto á porta de uma sala, onde acaso a topou, Luiz Alves teve occasião de lhe dizer esta simples palavra:

—Perdoou-me?

A moça retirou a mão, que elle tinha presa na sua, e furtou o corpo, ao mesmo tempo que lhe caiam as palpebras.

—Perdoou-me? repetiu-elle.

Guiomar retirou-se sem dizer palavra. Luiz Alves esperou que ella desapparecesse e saiu. A moça, entretanto, ficou irritada por nada lhe ter respondido, sendo verdade que nada achou nem acharia talvez que lhe responder; mas arrependeu-se e pensou longo tempo naquillo.

Quer dizer que o amava? Quer dizer que estava prestes a isso. A arraiada branqueava o ceu, tingiria depois o cimo dos montes, entornar-se-hia emfim pela encosta abaixo, até apparecer o sol,—o sol contemporaneo de Adão, e do ultimo homem que hade vir.

Dalli a dias, entrando Luiz Alves em casa da baroneza, teve a boa fortuna de encontrar a moça sosinha, na sala do trabalho, d'onde a baroneza se ausentára cinco minutos antes. Mrs. Oswald achava-se fóra. Era a hora da tardinha; o dia estava prestes a afogar-se no seio da noite.

Guiomar, mollemente sentada n'uma cadeira baixa, tinha um livro aberto sobre os joelhos e os olhos no ar. Luiz Alves sorprehendeu-a nessa attitude meditativa, mais bella do que nunca, porque assim, e áquella hora, e com o vestido meio escuro que lhe realçava a côr de leite da face, tinha um quê de gracioso e severo, ao mesmo tempo, que parecia buscado de proposito para recebe-lo.

—Minha madrinha já vem, disse Guiomar logo depois de lhe estender a mão, que elle apertou e sentiu um pouco tremula.

—Talvez daqui a cinco minutos, disse elle; é bastante para decidir o meu destino. Duas vezes lhe perguntei se me perdoara; pela terceira lhe peço que me responda; custa pouco uma unica palavra; custa menos ainda, um unico gesto.

A moça olhou algum tempo para o livro que tinha diante de si. A manhã, porem, era já alta no coração de Guiomar, a claridade intensa, o sol quente e vivo, por que ella não olhou muito tempo para o livro, nem hesitou mais do que era natural e exigivel naquella occasião. Dous minutos depois fez o gesto, um gesto só, mas ainda mais eloquente do que se ella falasse,—estendeu-lhe a mão.

Luiz Alves apertou-lh'a entre as suas.

A commoção era natural em ambos; alli estiveram alguns instantes calados, elle com os olhos fitos nella, ella com os seus no chão. As mãos tocavam-se e os corações palpitavam unisonos. Decorreram assim cinco breves minutos. Ella foi a primeira que rompeu o silencio.

—Um gesto, um só gesto, e é o meu destino que lhe entrego com elle, disse Guiomar olhando em cheio para o moço.

—Ainda não. Se os nossos destinos se ligarem, estou convencido de que o meu amor, pelo menos, terá a virtude de a tornar feliz. Mas nada está feito ainda, e se eu fui breve e apressado na confissão, não o desejo ser na consagração que lhe peço.

Luiz Alves calara-se; a moça olhava para elle como buscando entende-lo.

—Sim, continuou elle; melhor é que não ceda a um instante de enthusiasmo. Minha vida é sua; todo o meu destino está nas suas mãos... Comtudo, não quero sorprehender-lhe o coração neste momento; no dia em que me julgar verdadeiramente digno de ser seu esposo, ouvi-la-hei e seguila-hei.

A resposta da moça foi apertar-lhe as mãos, sorrir, e embeber os seus olhos nos delle. O passo da baroneza interrompeu esta contemplação.

Guiomar amava deveras. Mas até que ponto era involuntario aquelle sentimento? Era-o até o ponto de lhe não desbotar á nossa heroina a castidade do coração, de lhe não diminuirmos a força de suas faculdades affectivas. Até ahi só; dahi por diante entrava a fria eleição do espirito. Eu não a quero dar como uma alma que a paixão desatina e cega, nem faze-la morrer de um amor silencioso e timido. Nada disso era, nem faria. Sua natureza exigia e amava essas flores do coração, mas não havia esperar que as fosse colher em sitios agrestes e nus, nem nos ramos do arbusto modesto plantado em frente de janella rustica. Ella queria-as bellas e viçosas, mas em vaso de Sèvres, posto sobre movel raro, entre duas janellas urbanas, flanqueado o dito vaso e as ditas flores pelas cortinas de cachemira, que deviam arrastar as pontas na alcatifa do chão.

Podia dar-lhe Luiz Alves este genero de amor? Podia; ella sentiu que podia. As duas ambições tinham-se adivinhado, desde que a intimidade as reuniu. O proceder de Luiz Alves, sobrio, directo, resoluto, sem desfallecimentos, nem demasias ociosas, fazia perceber á moça que elle nascera para vencer, e que a sua ambição tinha verdadeiramente azas, ao mesmo tempo, que as tinha ou parecia tel-as o coração. Demais, o primeiro passo do homem publico estava dado; elle ia entrar em cheio na estrada que leva os fortes á gloria. Em torno delle ia fazer-se aquella luz, que era a ambição da moça, a atmosphera, que ella almejava respirar. Estevão dera-lhe a vida sentimental,—Jorge a vida vegetativa; em Luiz Alves via ella combinadas as affeições domesticas com o ruido exterior.

Uma vez entendidos, é difficil que dous corações se encubram, pelo menos aos olhos mais sagazes. Os de Mrs. Oswald eram dos mais finos. A ingleza percebeu dentro de pouco tempo que entre elles havia alguma cousa. Interrogar a moça era inutil, sobre perigoso; seria ir, de coração leve, em busca de odio, talvez. Todavia se ainda fosse possivel salvar tudo? Guiomar resistiria difficilmente a um desejo de madrinha; era possível vencel-a por esse lado.

Mrs. Oswald concebeu então um projecto insensato, que lhe pareceu aliás excellente e de bom aviso. O desejo de servir a baroneza e levar uma ideia ao fim tapou-lhe os olhos de razão. Ella foi directamente a Jorge.

—Sabe o que me está parecendo? disse ella. Parece-me que ha mouro na costa.

—Mouro na costa! exclamou Jorge com uma tal expressão de desgosto, que era facil comprehender o fundo de suspeita já existente em seu espirito.

—Nada menos, disse a ingleza; mas um mouro que se póde capturar.

E a ingleza expoz um plano completo que o sobrinho da baroneza ouviu um tanto perplexo. O plano consistia em ir Jorge pedir a moça á baroneza, em presença della propria. A baroneza, que nutria o desejo de os ver casados, não deixaria de fazer pezar o seu voto na balança, e era muito difficil que a gratidão de Guiomar não decidisse am favor de Jorge.

—A gratidão... e o interesse, continuou ella; Devemos contar tambem com o interesse, que é um grande conselheiro intimo. Ella não ha de querer sacrificar a affeição da madrinha, que para ella vale...

—Oh! que triste lembrança! interrompeu Jorge, recuando diante da ideia de Mrs. Oswald.

A ingleza sorriu,—e deixou por mão aquelle argumento; firmou-se porém no da affeição. Guiomar não se opporia a um desejo da madrinha; era urgente dar-lhe o golpe. Jorge não se atrevia a sorprehender por esse meio a acquiescencia da moça; mas acreditava na efficacia delle, e sobretudo receiava perder a causa. Uma vez que a vencesse, tudo podia confiar do tempo e do seu amor.

O conselho foi seguido pontualmente. De noite, em presença da baroneza á hora da despedida,—porque elle hesitara a maior parte do tempo,—praticou Jorge aquelle acto insensato de declarar á moça que a amava e de lhe pedir a mão. A tia sorriu de contentamento, mas teve a prudencia de não proferir nada emquanto Guiomar, empallidecendo, nada dizia, porque nada achava que dizer.

O silencio durou cerca de tres e quatro minutos, um silencio acanhado a vexado, em que nenhum delles se atrevia a reatar a conversação. A baroneza, pela sua parte, imaginava que os dous estavam emfim entendidos, e que a declaração era autorisada pela moça. O enleio de Guiomar não era dos que podessem dar cabimento a esta supposição; mas a boa senhora via com os olhos dos seus bons desejos.

—Pela minha parte, declarou emfim a baroneza, não me opponho; estimaria muito que acabassem por ahi. Mas é negocio do coração; devo esperar a resposta de Guiomar.

E voltando-sa para a afilhada:

—Pensa e resolve, minha filha, disse ella; e se fores feliz, sel-o-hei ainda mais do que tu.

Duas vezes pairou a negativa nos labios da moça; mas a lingua não se atrevia a repellir a palavra do coração. No fim de alguns instantes:

—Reflectirei, respondeu ella beijando a mão a madrinha; e continuou voltando-se para Jorge:—Boa noite! Até amanhã.

XVI

A confissão.

Na mesma noite em que Jorge, cedendo ás suggestões de Mrs. Oswald, tentava o ultimo recurso que no intender da ingleza havia, achava-se Luiz Alves em casa, commodamente sentado n'uma poltrona de couro, defronte da janella com os olhos no mar e o pensamento nas suas duas candidaturas vencidas. Meia noite estava a pingar; uma pessoa descia de um tibury e batia-lhe á porta.

Era Estevão.

Luiz Alves naturalmente admirou-se de o ver alli áquella hora; mas Estevão explicou-lhe tudo.

—Venho passar meia hora comtigo, ou a noite toda se quizeres. Estava em casa aborrecido, a pensar... bem sabes em que...

—Nella? interrompeu Luiz Alves.

—Agora e sempre.

Luiz Alves torceu o bigode, e olhou tres ou quatro vezes para o collega, em quanto este tirava o chapeu e dispunha-se a ir buscar uma cadeira para sentar-se ao pé do outro.

—Estevão, disse Luiz Alves depois de algums instantes de reflexão, e voltando a poltrona para dentro, ouve-me primeiro e resolverás depois se ficas a noite ou se te vás embora immediatamente. Talvez escolhas este ultimo alvitre.

—Vás falar-me de Guiomar?

—Justamente.

Estevão sentou-se defronte de Luiz Alves. Seu coração batia appressado; dissera-se que toda a sua vida pendia dos labios do amigo. Houve um instante de silencio.

—Nenhuma.... nenhuma esperança então? murmurou Estevão.

—Disseste a fatal palavra! exclamou Luiz Alves. Sim, não tens nenhuma esperança.

—Mas.... como sabes?

—Não me interrogues; eu não poderia dizer-te tudo o que ha. Poupa-me, ao menos, esse triste dever.

Estevão sentiu arrasarem-se-lhe os olhos d'agua. Quiz falar, mas as palavras iam-lhe saindo envoltas em soluços.

Luiz Alves fumava tranquillamente, acompanhando com os olhos os rolinhos de fumo que lhe fugiam da ponta do charuto. Este silencio durou cerca de dez minutos. O mar batia compassadamente na praia. A voz da onda e o latido de um cão ao longe eram os unicos sons que vinham quebrar a mudez daquella hora solemne para um desses dous homens que ia perder até o repouso da esperança.

Estevão foi o primeiro que falou:

—Ama a outro, não é? perguntou elle com a voz tremula.

—Ama, respondeu surdamente Luiz Alves.

Estevão ergueu-se e deu alguns passos na sala, sem dizer palavra, a morder a ponta do bigode, parando ás vezes, outras traduzindo com um gesto desordenado os sentimentos que lhe tumultuavam no coração. A dor devia ser grande, mas a manifestação já não era a mesma que o leitor lhe viu, dous annos antes, quando elle foi confiar ao amigo o primeiro desengano de Guiomar.

—Parece-me que eu adivinhava isto mesmo, disse elle, emfim, parando em frente de Luiz Alves. Este desejo que me accometteu de vir aqui, a este hora, sem certeza de encontrar-te, era mais um beneficio do meu destino. Devia esperal-o. Que vida tem sido a minha, Luiz! Agarrei-me, nem sei por que, á esperança de ser amado por ella, de a vencer pela piedade, ou pelo remorso, ou por qualquer outro motivo que fosse,—o motivo importava pouco... O essencial é que ella me pagasse em ternura e amor todas as dores que curti, as lagrimas todas que tenho devorado em silencio... E era so essa esperança que ainda me dava forças... que me fazia crer feliz, como pode sel-o um desgraçado, como podia sel-o eu, que nasci debaixo de ruim estrella.... Oh! se tu souberas... Não, não sabes, nem ella tambem, ninguem sabe nem saberá nunca tudo quanto tenho padecido, tudo quanto....

Interrompeu-se. Duas lagrimas, espremidas do fundo do coração, saltaram-lhe dos olhos e desceram-lhe rapidas a perder-se entre os cabellos raros e finos da barba. Elle sentiu que outras podiam vir, e foi sentar-se n'um sophá, meio voltado de costas para Luiz Alves. As outras vieram, porque o coração ainda as tinha para as dôres supremas; mas correram-lhe silenciosas, sem um soluço, sem uma queixa unica.

Luiz Alves lavantara-se e chegara á janella. Seu espirito, apezar de frio e quieto, parecia agora um pouco alvoroçado. Não era dor; e não sei se lhe podia chamar remorso. Mau-estar apenas, e commiseração. O coração era capaz de affeições; mas, como ficou dito no primeiro capitulo, elle sabia rege-las, modera-las e guia-las ao seu proprio interesse. Não era corrupto nem perverso; tambem não se póde dizer que fosse dedicado nem cavalheresco; era, ao cabo de tudo, um homem friamente ambicioso.

Estevão levantara-se outra vez e pegara no chapeu.

—Vem cá, disse Luiz Alves entrando e indo ter com elle; vejo que estás mais homem do que antes. Resta o que sejas completamente; varre da memoria e do coração tudo o que possa referir-se...

—Que remedio! interrompeu Estevão sorrindo amargamente; que remedio tenho eu se não esquece-la! Mas quando?

—Mais breve talvez do que suppões...

Luiz Alves não acabou; Estevão olhara para elle com um gesto de espanto e fora sentar-se outra vez.

—Mais breve do que supponho! exclamou elle. Tu não tens coração: não tens sequer observação nem memoria. Não vês, não sentes que esta paixão é o sangue do meu sangue, a vida da minha vida? Esquece-la! Era bom se eu a pudesse esquecer; mas a minha má sina até essa esperança me arranca, porque este padecer intimo, constante, ha de ir commigo até á morte...

Desta vez era Luiz Alves que passeava de um lado para outro. Em seu espirito despontava uma ideia, que elle examinava, a ver se a poria alli mesmo em execução. Era dizer-lhe tudo. Estevão viria a sabel-o mais tarde; melhor era que o soubesse logo e por elle. Ao mesmo tempo reflectia na exaltação dos sentimentos do rapaz; a dor certamente se lhe aggravaria, em sabendo que era elle o preferido de Guiomar. O coração, que perdoaria a um extranho, condemnaria ao amigo.

Estevão, assentado, com os olhos no tecto, parecia entregue ás suas reflexões, mas só parecia, por que elle não pensava, evocava antigas memorias, fazia surgir diante de seus olhos a figura gentil de Guiomar, sentia-lhe o imperio dos bellos olhos castanhos, ouvia-lhe a palavra doce e avelludada entornar-se-lhe no coração. Não evocava só, creava tambem, pintava com a imaginação a felicidade que lhe poderia dar a moça, se entre todos os homens o escolhera, se elles dous vinculassem os seus destinos. Elle via-a ao pé de si, cingia-lhe o braço em volta da cintura, enchia-lhe de beijos os cabellos, tudo isto em meio de uma paisagem unica na terra, porque a abundancia da natureza cresceria ao contacto daquelle sentimento puro, casto e eterno. Não falo eu, leitor; transcrevo apenas e fielmente as imaginações do namorado; fixo nesta folha de papel os vôos que elle abria por esse espaço fóra, unica ventura que lhe era permittida.

No meio dessas visões foi accordal-o Luiz Alves.

—Tens razão de sentir, disse este; mas não gastes o coração, que ha maiores sorpresas na vida... Em todo o caso, deixa-me dizer-te que nenhuma razão tens de censura...

—Censuro eu alguém?

—Ha no amor um germen de odio que póde vir a desenvolver-se depois. Talvez chegues a accusala de te não querer; nesse dia reflecte que os movimentos do coração não estão nas mãos da vontade. Ella não tem culpa se outro lhe despertou o amor.

—Ah! incumbiu-te da defesa!

Luiz Alves sorriu; elle contava com a recriminação.

—Não, não me incumbiu da defesa, disse elle; sou eu que a tomo por minhas mãos. Que defendo eu aqui se não a natureza, a razão, a logica dos sentimentos, dura e inflexivel como toda a outra logica? Ha no fundo das tuas palavras um sentimento de egoismo...

—O amor não é outra cousa, respondeu Estevão sorrindo por sua vez. Queres que inda em cima lhe agradeça este desespero? Queres que vá apertar a mão ao homem que a soube vencer?

Luiz Alves mordeu a ponta do labio e acercou-se da janella. Quando ia a voltar para dentro ouviu um rumor na janella ao pé, a primeira da casa da baroneza. Luiz Alves deu um passo mais. Não viu ninguem; viu apenas o resto de um vestido que fugia e um objecto que lhe caia aos pés. Inclinou-se a apanhal-o. Era uma grande folha de papel envolvendo, para lhe dar mais peso, outra folha pequena dobrada em quarto. Luiz Alves aproximou-se da luz, e leu rapidamente o que alli vinha escripto. Leu, metteu o papel na algibeira e encaminhou-se disfarçadamente para a janella. Ninguem; a casa da baroneza dormia.

Quando voltou para dentro, Estevão tinha-se levantado. Elle vira cair o papel, apanhal-o e lel-o Luiz Alves. Não entendeu nada do que se passara; mas seu olhar como que pedia uma explicação.

Luiz Alves foi direito ao fim.

—Estevão, disse elle, vás saber a verdade toda; não poderia occultar-te o que se ha passado, nem conviria talvez que tu a soubesses por boca de outro. Guiomar podia amar-te, eras digno della, e ella digna de ti; mas a natureza não os fez um para o outro. São duas almas excellentes que seriam infelizes unidas. Quem ha aqui que censurar? Mas se a natureza explica o sentimento della, egualmente explica o de um terceiro, que sou eu. Tu confiaste-me as dores e as esperanças de teu coração; era conhecer toda a minha amisade e a profunda estima que sempre te consagrei. Mas nem tu nem eu contavamos commigo; por que tambem eu tenho coração, e os prestigios da belleza tambem falam á minha alma. Não a pude ver a frio. A paixão obscureceu-me. Nesta minha felicidade de amar e ser amado, acredita que sou alguma cousa infeliz, por que ha lagrimas tuas, ha o teu padecer longo e cruel, que eu imagino e deploro. A confissão é franca; não te falo em arrependimento, porque são actos do coração e não da consciência, que essa é pura e honrada. E depois desta exposição fiel, cuido que lastimarás commigo o encontro em que o acaso ou a má sorte nos reuniu a todos tres; mas não me accusarás nem me recusarás a tua velha estima. Falo só da estima; a amisade, creio que não poderá ser a mesma. Mas presarás o meu caracter. Pela minha parte, nem uma nem outra cousa perece; sei o que vales. Não sei aonde nos lançará a onda do destino amanhã. Pela ultima vez, porém, espero que apertarás a mão do teu amigo.

Luiz Alves concluíra estendo-lhe a mão. Estevão olhou para elle, mas não disse uma só palavra, não fez um gesto unico: caminhou para a porta e saiu.

—Estevão! gritou Luiz Alves.

Mas só lhe respondeu o rumor dos pés que desciam, e pouco depois o do tilbury que rolava surdamente na terra humida da praia.

Luiz Alves levantou seccamente os hombros; chegou-se á luz e releu o escripto.

XVII

A carta.44814481448144814481448144814481448144814481

Não era preciso reler o papel para entendel-o; mas olhos amantes deliciam-se com letras namoradas. O papel continha uma palavra unica:—Peça-me,—escripta no centro da folha, com uma lettra fina, elegante, feminina. Luiz Alves olhou algum tempo para o bilhete, primeiramente como namorado, depois como simples observador. A lettra não era tremula, mas parecia ter sido lançada ao papel em hora de commoção.

Desta observação passou Luiz Alves a uma reflexão muito natural. Aquelle bilhete, pouco conveniente em quaesquer outras circumstancias, estava justificado pela declaração que elle proprio fizera á moça alguns dias antes, quando lhe pediu que o conhecesse primeiro, e que no dia em que o julgasse digno de o tomar por esposo, elle a ouviria e acompanharia. Mas se isto era assim em relação ao bilhete, não o era em relação á hora. Que motivo obrigaria a moça a deitar-lhe da janella, á meia noite, aquelle papel decisivo, eloquente na mesma sobriedade com que o escrevêra?

Luiz Alves concluiu que havia alguma razão urgente, e portanto, que era preciso acudir á situação com os meios da situação. Quanto á razão em si, não a pôde descobrir. Occorreu-lhe o facto, aliás patente, da côrte que o sobrinho da baroneza fazia a Guiomar, mas ignorava as circumtancias que lhe eram relativas, e não pôde passar além.

Não direi que Luiz Alves gastasse a noite a cavar fundo no terreno das conjecturas vagas. Não era homem que perdesse tempo em cousas inuteis; e nada mais inútil naquella occasião do que tentar explicar o que nenhuma explicação podia ter para elle. O que resolveu foi obedecer ao recado da moça; pedi-la sem hesitação nem preambulo. Mas se o caso lhe não produziu insomnia, não deixou de lhe estender a vigilia, além da hora usual, como era de geito naquella occasião solemne, sobretudo, tratando-se de creatura que por aquelles tempos era a inveja e a cobiça de muitos olhos. Luiz Alves não era, como Estevão, um adoravel scismador, não se nutria de imaginações e devaneios, alimento que funde pouco ou nada, mas scismou algum tempo, embebeu-se uma hora na contemplação ideial da mulher que elle soubera escolher. O somno chegou, e o devaneio confundiu-se com o sonho.

Guiomar dormiria tão repousadamente como elle? Dormia; a noite, porém, fora-lhe muito mais agitada e amarga, como era natural depois da declaração de Jorge e das insinuações da madrinha.

A moça recolhera-se ao quarto, logo depois da declaração. As pessoas da casa nada puderam ler-lhe no rosto, salvo a pallidez repentina e o rubor que se lhe seguiu: mas, logo que ella se achou só, deu toda a expansão aos sentimentos que até alli pudera conter.

O primeiro delles era o despeito; Guiomar sentia-se humilhada com aquella declaração, assim feita, de emboscada e sobresalto, para arrancar-se-lhe um consentimento que o coração e a indole repelliam. Nenhuma consulta, nenhuma autorisação prévia; parecia-lhe que a tratavam como ente absolutamente passivo, sem vontade nem eleição propria, destinado a satisfazer caprichos alheios. As palavras da madrinha desmentiam esta supposição; mas, a noticia que ella tinha da resolução da baroneza, neste negocio, diminuia muito o valor de taes palavras. Se era uma campanha, como dissera Mrs. Oswald, queriam constrangel-a com apparencias de moderação, e o tempo que lhe deixavam para reflectir era-o realmente para considerar, sosinha comsigo, na necessidade de pagar os benefícios que recebêra.

Não a accusem de ter feito estas reflexões, logo que entrou no quarto, com os olhos scintillantes e os labios frios de colera. Eram naturaes; primeiramente porque suppunha que o seu casamento com Jorge estava deliberado e se realisaria, quaesquer que fossem as circumstancias; depois, porque a alma della era melindrosa; não esquecia os beneficios recebidos, mas quizera que lh'os não lembrassem por meio de uma violencia: fazel-o, era o mesmo que lançar-lh'os em rosto.

—Não! murmurava emfim a moça, forçar-me, reduzir-me á condição de simples serva, nunca!

Mas esta colera apaziguou-se, e o coração venceu o coração. Guiomar recordou a constante ternura da baroneza para com ella, a sollicitude com que lhe satisfazia os seus menores desejos, que eram alli ordens, e não combinava tamanho amor com a supposta violencia que lhe queria fazer. Não tardou em arrepender-se das palavras incoherentes que lhe haviam fugido, e dos sentimentos maus que attribuíra ao coração da baroneza. Cruzou as mãos no peito e ergueu o pensamento ao ceu, como a pedir-lhe perdão. Guiomar, em meio das seducções da vida, que tantas eram para ella e de todo lhe levavam os olhos, não perdera o sentimento religioso, nem esquecera o que lhe havia ensinado a fé ingenua e pura de sua mãe.

A cólera acabára, mas veiu depois a luta entre a gratidão e o amor,—entre o noivo que lhe propunha a affeição da madrinha e o que o seu proprio coração escolhera. Ella nem ousava tirar as esperanças á baroneza, nem immolar as suas proprias,—e uma de duas cousas era preciso que fizesse naquella solemne occasião. O que sentiu e pensou foi longo e cruel; mas se tal duello podia travar-se-lhe na alma, não era duvidoso o resultado. O resultado devia ser um. A vontade e a ambição, quando verdadeiramente dominam, podem lutar com outros sentimentos, mas hão de sempre vencer, porque ellas são as armas do forte, e a victoria é dos fortes. Guiomar tinha de decidir por um dos dous homens que lhe propunha o seu destino; elegeu o que lhe falava ao coração.

A resposta, porém, não podia a moça demoral-a nem esquival-a, não convinha, talvez, prolongar a luta e a duvida. Quando isto pensou, veiu-lhe ao espirito uma ideia decisiva, a de confessar tudo á madrinha. Hesitou, porém, entre fazel-o ella propria ou por boca de Luiz Alves, cujas palavras, apontadas acima trazia escriptas na memoria. Preferia este meio; mas não lhe bastava preferil-o, era mister realisal-o, e para isso só dous modos tinha, escrever-lhe ou falar-lhe. O segundo podia não ser tão prompto, e talvez falhasse occasião apropriada; adoptou o primeiro, e recuou logo. A carta seria mandada por um famulo, mas o espirito de Guiomar era a tal ponto sobre si que repelliu semelhante intervenção. A janella estava aberta; dalli viu luz na sala de Luiz Alves e a sombra do moço, que passeava de um lado para outro. Occorreu-lhe então a ideia que poz por obra, conforme ficou dito no capitulo anterior.

Tal é a historia daquella palavra escripta rapidamente n'uma folha de papel. Apesar da declaração de Luiz Alves e das circumstancias em que a moça se achou, o leitor facilmente comprehenderá que ella não a escreveu sem pelejar comsigo mesma, sem vacillar muito entre a repugnancia e a necessidade. Afinal foram vencidos os escropulos, que é tanta vez o seu destino delles, e força é dizer que não os vencem nunca de graça, porque elles falam, arrazoam, obstam o mais que podem, mas é vulgar passarem-lhes por cima. A moça entretanto, apenas lançara a carta, arrependeu-se; a dignidade teve remorsos; a consciência quasi a accusava de uma acção vil. Era tarde; a carta chegára a seu destino.

Na manhã seguinte, a baroneza acordou mais alegre que de costume. Cuidara ver em Guiomar, na noite anterior, alguma cousa que só lhe pareceu enleio natural da situação. Guiomar erguera-se tarde; a manhã estava chuvosa e a madrinha não deu o seu passeio. A moça foi beijar-lhe a mão e a face, como costumava, e receber della o osculo materno. O rosto parecia cançado mas um veu de affectada alegria disfarçava-lhe a expressão natural, á semelhança das posturas de toucador, de maneira que a baroneza, pouco ledora de physionomias, não discerniu naquella a verdade da impostura. Impostura, digo eu, devendo entender-se que é honesta e recta, porque a intenção da moça não era mais do que não amargurar a madrinha, e tirar-lhe motivo a qualquer afflicção antecipada.

—Dormiu bem a minha rainha de Inglaterra? perguntou Mrs. Oswald, pondo-lhe familiarmente as mãos nos hombros.

—A sua rainha de Inglaterra não tem coroa, respondeu Guiomar comum sorriso contrafeito.

Pela volta do meio dia, recebeu a baroneza uma carta de Luiz Alves. Abriu-a e leu-a. O advogado pedia-lhe a mão de Guiomar. Poucas linhas, cortezes, simplices, naturaes, feitas por quem parecia senhor da situação.

—Mrs. Oswald, disse a baroneza á sua dama de companhia que se achava na mesma sala, leia isto.

A ingleza obedeceu.

—Isto não quer dizer nada, observou ella depois de alguns instantes. É um pretendente mais; devemos crer, porém, que são muitos, e que se os outros não lhe escrevem cartas destas, é por que são menos affoutos. A Sra. baroneza pensa que os olhos de sua afilhada são innocentes? continuou a ingleza sorrindo. Eu cuido que devem estar carregados de crimes, e que ha mortos...

—Mas não vê, Mrs. Oswald, interrompeu a baroneza, que esse homem parece estar autorisado?

Mrs. Oswald calou-se como quem reflectia. Logo depois expoz uma serie de argumentos e considerações, se não graves em substancia, pelo menos nas roupas com que ella os vestia, umas roupas seriamente britannicas, como as não talharia melhor a melhor tesoura da camara dos communs. Toda ella dava ares de um argumento vivo e sem réplica. Havia em seus cabellos, entre louro e branco, toda a rigidez de um syllogismo; cada narina parecia uma ponta de um dilemma. A conclusão de tudo é que nada estava perdido, e que a felicidade de Jorge era cousa não só possivel, mas até provavel, uma vez que a baroneza mostrasse,—era o essencial,—certa resolução de animo muito util e até indispensavel naquella occasião. Mrs. Oswald offerecia-se para ir chamar a moça immediatamente.

—Pois vá, vá, disse a baroneza.

A ingleza saiu d'alli e foi ter com Guiomar. Quando a viu de longe compoz um sorriso, e Guiomar, vendo-a sorrir, sentiu como que um movimento interno de repulsa.

—Venho buscal-a, disse Mrs. Oswald, para uma cousa que a senhora está longe de imaginar.

Guiomar interrogou-a com olhos.

—Para casar!

—Casar! exclamou Guiomar sem comprehender a intenção da mensageira.

—Nada menos, respondeu esta. Admira-se, não? Tambem eu; e sua madrinha egualmente. Mas ha quem tenha o mau gosto de apaixonar-se por seus bellos olhos, e a affronta de a vir pedir, como se se podissem as estrellas do ceu...

Guiomar comprehendeu de que se tratava. Olhou desdenhosamente para a ingleza, e disse em tom secco e breve:

—Mas, conclua, Mrs. Oswald.

—A senhora baroneza manda chamal-a.

Guiomar dispoz-se a ir ter com a madrinha; Mrs. Oswald fel-a parar um instante, e com a mais meliflua voz que possuia na escala da garganta, disse:

—Toda a felicidade desta casa está em suas mãos.

XVIII

A escolha.

Mrs. Oswald tinha falado de mais. A baroneza não a incumbira de dizer á afilhada a razão porque a mandava chamar. Aconteceu, porém, que aquella indisçrição não foi a unica. Mrs. Oswald, em vez de esquivar-se e deixar que entre Guiomar e a baroneza fosse tratado o assumpto que as ia reunir, cedeu á curiosidade, e acompanhou a moça.

A baroneza estava sentada, entre duas janellas, com a carta aberta nas mãos, tão attenta em relel-a, que não ouviu o rumor dos pés de Guiomar e de Mrs. Oswald.

—Madrinha chamou-me? perguntou Guiomar parando em frente della.

A baroneza ergueu a cabeça.

—Ah! É verdade; sim; chamei-te. Senta-te aqui.

Guiomar arrastou a cadeira que ficava mais proxima e sentou-se ao pé da baroneza. Esta, entretanto, havia dobrado lentamente a carta, e tinha os olhos no chão, como a procurar por onde começaria. Quando os levantou deu com a ingleza. Ia já a falar, mas estacou. A affeição que lhe tinha não impediu que achasse demasiada familiaridade a presença de Mrs. Oswald em semelhante occasião. Esperou alguns instantes; mas como a ingleza parecesse inteiramente distrahida:

—Mrs. Oswald, disse a baroneza, vá ver se ja deram de comer aos passarinhos.

A ingleza percebeu que estes passarinhos, naquelle caso, eram uma pura metaphora, e que a baroneza nada mais fazia do que pedir-lhe delicadamente que se fôsse embora. Todavia, não se deu por achada.

—Parece-me que não, disse ella; vou já saber disso.

—Olhe, disse a baroneza quando ella já ia a meio caminho; encoste-me essas portas, e dê ordem para que ninguem nos interrompa.

A ingleza obedeceu e saiu. A careta que fez ao sair ninguem lh'a pôde ver, e não se perdeu nada.

As duas ficaram sós.

—Senta-te aqui, Guiomar, disse a baroneza indicando um banquinho que lhe ficava aos pés.

Guiomar deixou a cadeira e foi sentar-se no banquinho, pousando amorosamente os braços nos joelhos da madrinha. Esta cingiu-lhe a cabeça com as mãos, e assim esteve longo tempo sem falar, mas eloquente naquella mudez, em que a palavra pertencia ao coração. Ambas estavam commovidas; e Guiomar, de envolta com um suspiro, murmurou este unico e doce nome:

—Mamãe!

Era a primeira vez que ella lhe dava este nome, e tão fundo lhe calou na alma á baroneza que a resposta foi cobril-a de beijos.

—Sim, tua mãe, disse a madrinha; a que te deu o ser não te amaria mais do que eu. Tens a alma e a ternura da filha que o ceu me levou, e se todas as mães que perdem filhos podessem substituil-os do mesmo modo, desapparecia do mundo a maior e mais cruel dor que ha nelle...

A resposta de Guiomar foi apertar-lhe as mãos e beijar lh'as. Seguiu-se uma pausa, em que a commoção a pouco e pouco desappareceu, e a baroneza olhou para a carta de Luiz Alves, amarrotada pelo gesto de Guiomar.

—Guiomar, disse ella emfim, já reflectiste no pedido de hontem á noite?

A moça esperava que a madrinha lhe falasse no pedido de Luiz Alves; a pergunta da baroneza desnorteou-a um pouco. Sua intelligencia, porém, era clara e sagaz; a resposta foi outra pergunta:

—Uma noite será bastante para decidir de todo o resto da vida? disse ella sorrindo.

—Tens razão, minha filha; mas a pergunta era natural da parte de quem quer ver realizado um desejo. Jorge pediu-te em casamento. Sabes que é um excellente caracter?

—Excellente, respondeu a moça.

—Uma boa alma, continuou a baroneza, e um moço distincto. Parece gostar muito de ti, segundo disse hontem, não? É natural; só me admira que não te amem muitos mais.

A baroneza parou; Guiomar brincava com as franjas da manga sem se atrever a levantar os olhos.

—Deves saber, continuou a baroneza,—que eu estimaria ver que este casamento se effectuasse; estou convencida de que te faria feliz, e a elle também, pelo menos tanto quanto é possivel julgar das cousas presentes... Que diz o teu coração?

E como Guiomar não respondesse logo:

—Ah! esquecia-me do que me disseste ha pouco. Uma noite não é bastante para decidir de todo o resto da vida. Bem; ouvir-me-has mais duas cousas. A primeira é que... Lê tu mesma esta carta.

A baroneza deu a carta a Guiomar, que a abriu e leu o pedido que Luiz Alves fazia de sua mão. Em quanto ella percorria com os olhos as poucas linhas escriptas, a madrinha parecia observa-la fixamente, como a tentar ler-lhe no rosto a impressão que o pedido lhe fazia, se espanto, se satisfação. Não houve espanto nem satisfação apparente; Guiomar leu a carta e entregou-a á madrinha.

—Leste? É a primeira cousa que eu queria dizer-te. O Dr. Luiz Alves pede-te em casamento; tens de escolher entre elle e Jorge. A segunda cousa é que dos dous pretendentes Jorge é o que meu coração prefere; mas não sou eu que me caso, és tu; escolhe com plena liberdade aquelle que te falar ao coração.

Guiomar erigiu o busto e olhou direitamente para a madrinha, com taes signaes de espanto no rosto, que esta não poude deixar de lhe perguntar:

—Que tens?

A moça não respondeu; quero dizer não lhe respondeu com os labios; travou-lhe da mão e apertou-a entre as suas, e ficou a olhar para ella como a reflectir. A expressão de seu rosto passara do espanto á satisfação e desta a uma cousa que parecia a um tempo indignação e asco.

—Oh! madrinha! exclamou Guiomar, porque se não entenderam logo os nossos corações? Não havia mister pôr de permeio um espirito importuno e desconsolador. Se eu advinhara essas palavras que acabou de dizer, não teria padecido metade do que me fazem padecer ha longos dias...

—Padecer?

—Padecer; nada menos. Mas deixemos isso. Foi o seu coração que falou e o meu que ouviu; posso agora dizer-lhe francamente o que sinto, sem receio de a affligir.

Não precisava dizer mais nada; a escolha que ella ia fazer estava já indicada pelo menos. Entendeu-o a baroneza, que fechou o rosto e suspirou. A afilhada ouviu-lhe o suspiro, e percebeu a tristeza subita; arrependeu-se de ter ido tão longe.

—Percebo, respondeu a baroneza, queres dizer que dos dous pretendentes escolhes o Dr. Luiz Alves?

A moça conservou-se calada; a madrinha olhava para ella com uma expressão de anciedade que a affligiu.

—Fala, repetiu a baroneza.

—Escolho... o Sr. Jorge, suspirou Guiomar depois de alguns instantes.

A baroneza estremeceu.

—Falas serio? Não creio; não é esse o sentimento do teu coração. Vê-se que não é. Queres illudir-me e a ti também. Percebo que o não amas; não o amaste nunca. Mas amas ao outro, não é? Que tem isso? Não me dá o prazer que eu teria se... Que importa, se fores feliz? A tua felicidade está acima das minhas preferencias. Era um sonho meu; desejava-o com todas as forças; faria o que pudesse para alcançal-o; mas não se violenta o coração,—um coração, sobretudo, como o teu! Escolhes o outro? Pois casarás com elle.

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