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A Intrusa

Julia Lopes de Almeida

Reading edition

A INTRUSA

LIVRARIA FRANCISCO ALVES—EDITOR

R. do Ouvidor, 134—Rio de Janeiro R. de S. Bento, 65—S. Paulo

Rua da Bahia—Bello Horisonte

1908

NOTA:

Este romance foi publicado em folhetim, no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 1905.

INDICE

CAPITULO I CAPITULO II CAPITULO III CAPITULO IV CAPITULO V CAPITULO VI CAPITULO VII CAPITULO VIII CAPITULO IX CAPITULO X CAPITULO XI CAPITULO XII CAPITULO XIII CAPITULO XIV CAPITULO XV CAPITULO XVI CAPITULO XVII CAPITULO XVIII CAPITULO XIX CAPITULO XX CAPITULO XXI

A INTRUSA

I

—Que temporal!

—E um friosinho! Conhecem vocês nada mais gostoso do que ouvir-se o barulho forte da chuva quando se está agazalhado? Eu estou-me regalando!

—Sempre o mesmo egoista! Como estás em tua casa!... mas... desalmado, lembra-te de nós! São quasi horas de me ir recolhendo aos meus penates. E alli o padre Assumpção, caso não fique pelo caminho, terá tambem que marchar um bom pedaço a pé. Ao Telles, esse o bond leva-o até ao quarto de dormir! Nasceu impellicado.

Por essa feia noite de chuva, conversavam em casa do advogado Argemiro Claudio, no Cosme Velho, o seu grande amigo padre Assumpção, o deputado Armindo Telles e o Adolpho Caldas, homem de quarenta annos, sem profissão determinada, mas muito bem acceito nas rodas politicas e litterarias, que frequentava assiduamente.

Tinham jantado tarde, fumavam agora na bibliotheca de Argemiro, sentados á mesa do poker.

Menos por virtude que por cansaço, padre Assumpção não quizera tomar parte no jogo e andava pela sala sacudindo o panno da batina a cada impulso das suas largas passadas. Era alto, magro, anguloso, de uma côr pallida; e nas suas feições accentuadas, em que melhor condiria o sarcasmo, havia uma tal expressão de candura, que Adolpho Caldas costumava dizer:

—O riso do Assumpção cheira a rosas brancas.

O dr. Argemiro, advogado, conforme rezavam os diarios do Rio—dos mais distinctos do nosso fôro—jogava por jogar, sem vivo interesse, só para pretexto de chamar os amigos á sua casa de viuvo e de lhe dar uma palpitação de alma que lhe ia faltando...

«Ah! uma casa sem mulher, afirmava elle, é um tumulo com janellas: toda a vida está lá fóra...» E lembrar-se que aquillo havia de ser para sempre!

O dr. Argemiro Claudio de Menezes, descendente directo dos Iglesias de Menezes, nobres de Portugal, cujo solar brazonado existe ainda, bem que arruinado, naquelle reino, em terras limitrophes da Hespanha, á beira de um rio espelhento e de pinheiraes perdidos,—era um homem ainda moço, robusto, de carnes solidas e uns olhos negros, em que talvez a raça arabe transparecesse ainda, adoçada pelo cruzamento com a lusitana. A barba preta, talhada rente ao rosto pallido, tinha já um ou outro fio prateado, e o cabello muito curto desenhava-lhe a cabeça redonda e forte. Tinha as mãos pequenas, a attitude preguiçosa, em contradicção á energia do typo. Viuvo ha sete annos de uma formosa senhora, cujo retrato apparecia em todos os cantos da casa, elle protestára não tornar a casar-se.

A mulher, filha dos Barões do Cerro Alegre, levara-lhe a melhor porção da sua vida.

Do primeiro anno do seu casamento, que durara cinco, existia uma filha, Maria da Gloria. Vivia esta menina com os avós maternos, numa chacara dos suburbios, e andava agora pelos seus onze annos e os rudimentos de portuguez e de musica. Tanto como o pae e os avós, por ella se interessava o padrinho, padre Assumpção.

Sem interromper a partida, o deputado Armindo Telles gabou-se:

—Foi hoje um dos dias mais bellos da minha vida; não preciso de mais nada para julgar-me compensado dos enormes sacrificios que a deputação me tem custado... rios de dinheiro, noites de insomnia, descomposturas de outros partidos... de tudo colhi hoje o premio. Imaginem vocês que tive de luctar renhidamente com o proprio governo, molestar collegas, ir de encontro mesmo a principios que prezo de gratidão pessoal e de conveniencia propria, e que, arrostando tudo, como um soldado na guerra, consegui a minha victoria. Imaginem se não devo estar satisfeito! Uma victoria politica, já o disse Chartrier, embriaga melhor que o mais velho licor.

—Chartrier?... perguntou com curiosidade o padre Assumpção.

Armindo Telles pareceu não ouvil-o e continuou:

—Infelizmente, temos agora na camara poucos talentos de combate. Carecemos de mais vivacidade... A indifferença de uns e a má vontade de muitos enfraquecem os golpes de um ou outro mais enthusiasta... Eu cruzei as minhas armas, nesta porfia, com os maiores talentos da camara e feri-os a todos sem piedade. Creei inimigos; pouco importa, mas triumphei!

Adolpho Caldas, levantando os olhos das cartas em leque na mão gorducha, indagou, sorrindo:

—Por que feito illustre glorificaste a patria?

—Pelo reconhecimento do Simão da Cunha, o meu collega Simão da Cunha, que a camara em peso guerreava!

Sob o bigode de Argemiro passou a sombra de um sorriso. Adolpho Caldas impregnou de candida ingenuidade os seus maliciosos olhos castanhos e disse apenas, como a procurar:

—Cunha?...

E depois:

—Ah! o Simão! sim... é desempenado. Veste-se bem.

—Não é aguia, affirmou Telles; mas é o que se chama—uma mediocridade operosa—e é, sobretudo, um homem de bem!

—Isso em politica não tem valor... commentou o dono da casa. Mas que faz você ahi, padre Assumpção, remexendo nas estantes?!

—Estou a ver se encontro algum livro de Chartrier...

—Olha, o catalogo dos livros deve estar naquella gaveta, se acaso o Feliciano já o não deitou ao fogo! Eu já nem sei o que tenho...

—O que você deve procurar é os sermões do Padre Vieira! disse malignamente Armindo Telles.

—Não preciso; sei-os de cór.

—Impinge-os como seus?

—Impingil-os-ia se os deputados fossem á igreja; mas você sabe, aos outros não... tenho medo que percebam!

Riram-se todos. Telles retrucou:

—Ainda o hei de ver na tribuna parlamentar, padre!

—Talvez. Os cilicios fazem os santos... mas eu, humilde padre, encontraria quem se batesse por mim com o mesmo denodo com que você se bateu pelo...?

—Simão da Cunha.

—Por esse senhor?

—Eu mesmo.

—Guarde as suas armas para melhor combate, amigo. Não tenho envergadura senão para um serviço—o divino. Cá tem você um livro precioso, Argemiro.

—Qual é?

—Vida de D. Frei Bertolameu dos Martyres.

Adolpho Caldas commentou:

—Solemnissimo! que bella lingua, reverendo!

—Formosa! Frei Luiz de Souza tinha a quem sahir...

Padre Assumpção ficou de pé, junto á alta estante de jacarandá, folheando o livro, muito attento.

O deputado recolheu as cartas dos parceiros: ganhava o jogo.

—A sabedoria dos proverbios está sendo compromettida... declarou Argemiro. Você prova que a felicidade em amor é compativel com a do jogo!

Adolpho Caldas accrescentou:

—Leito, tribuna e mesa. Ahi está um lema conveniente aos teus triumphos, Armindo!

Telles sorriu, respondendo sem disfarçar a vaidade:

—Leito e tribuna... vá; mas mesa, não sei porque!

Caldas, baralhando as cartas, concluiu:

—Mesa, empreguei eu na expressão lata, falando como um diccionario. Referi-me á mesa do orçamento, á mesa do baccarat e mesmo á do jantar. Não quero fazer-te a injustiça de suppôr que te alimentas a leite e a agua de Vichy... Começas a ter pança; não te pódes rir de mim; e jantaste hoje a meu lado, não te esqueças d'essa circumstancia; jantaste como um homem de boa consciencia e magnifico estomago! Fiquei-te considerando mais, depois que te vi comer.

Argemiro observou, rindo:

—É o exercicio da profissão!

Armindo Telles respondeu:

—Vocês confundem-me com o Araujo Braga... que trouxe da pasta a pratica da mastigação e leva mesmo a impudencia a ponto de dizer, como disse hontem á porta do Watson, á minha vista:—eu hoje só rôo subsidios e clientes.

—Esse tem, ao menos, o merito da franqueza. A mim então só me apparecem causas pessimas, clientes já esfolados, em osso. Se eu não tivesse alguns bens, iria esmolar na esquina declarou Argemiro.

O jogo chegára a um ponto que requeria a attenção absoluta dos jogadores. Ficaram largo tempo silenciosos, olhos fitos nas cartas, só entreabrindo a bocca para a passagem das expressões obrigadas do poker.

Padre Assumpção continuava a sua leitura, de pé, com o hombro encostado ao angulo da estante. A batina muito escorrida desenhava-lhe o corpo esguio, descendo rente á moldura do movel, confundindo-se com elle na sombra do aposento.

Os tres jogadores eram de bem differente aspecto. Em contraste ao todo severo do dono da casa, o deputado Armindo Telles alegrava a sala com os tons claros da sua roupa alvadia e da sua gravata escoceza picada por um rubi fulgurante.

Representante do Paraná, que o tinha como um politico habil, presumia conhecer as coisas e os homens do Rio de Janeiro como os da sua terra, onde a familia carpia saudades da sua pessoa airosa e bem tratada. Maleavel, imprimia ao seu jornal de Curitiba as cambiantes politicas do seu partido e a vontade soberana do seu chefe, e dest'arte equilibrava-se na invejada posição de representante da nação. Claro, louro, sem barba, que raspava escrupulosamente, elle apparentava menos edade do que a que tinha realmente. Falava com socego, num agradavel timbre de voz. Ás vezes mesmo Caldas caçoava:

—Na camara, quando o Armindo fala, não lhe escutam as palavras; ouvem-lhe a voz. C'est la voix d'or, do Congresso!

Assim como a voz elle tinha macio o gesto, que parecia obedecer a um estudo, a que por certo não se applicára nunca... As mãos, pequenas, mostravam os anneis de preço sem se desviarem muito do peito, sempre resguardado por linhos claros e fatos correctissimos.

Em frente d'elle, Adolpho Caldas, gordo e calvo, com um eterno charuto entalado entre os beiços carnudos, que o bigode castanho cobria, movia-se á vontade no seu veston de panno preto, com um bom ar de despretenciosa superioridade.

O Adolpho Caldas dizia-se rio-grandense, mas affirmavam alguns que elle era nascido em Montevidéo, de familia brasileira. Vivia desde os vinte annos no Rio de Janeiro, sempre na boa roda, de financeiros illustres e ministros afamados, chegando-se para as arvores de substanciosos fructos e boa sombra. Solteirão, intermediario de bons negocios, permittia se o luxo de uma viagem de longe em longe a Paris, cujos museus de quadros conhecia de cór.

Tinha a paixão da pintura e lia bons livros portuguezes, classicos sobretudo. Era com elle que o padre Assumpção conversava ás vezes sobre litteratura antiga, certo de que os bons livros espirituaes, como os profanos, tinham a mesma admiração no juizo competente d'aquelle homem de tão experta sagacidade.

Houve uma pequena pausa no jogo; o Feliciano entrou com os calices de Chartreuse. No abrir da porta ouviu-se o barulho da chuva batendo com força nos ladrilhos do terraço, e um arrepio de frio fez voltar-se o dr. Argemiro, que estava de costas para a entrada.

—Ó Argemiro, onde arranjaste tu este Feliciano? perguntou Caldas, mirando o copeiro, um negro de trinta e poucos annos, esgrouviado e bem vestido.

—Na familia de minha sogra... é filho da ama de minha mulher.

—Se não fôsse reliquia de familia, pedia-t'o para mim.

Feliciano serviu a todos como se não tivesse ouvido coisa nenhuma, substituiu por outros os cinzeiros já repletos e tornou a sahir, silenciosamente.

—Se me não engano, observou o Armindo Telles, vi-o outro dia em casa da Lolóta...

—Ah! tambem você?...

—Que! ir á casa da Lolóta? Mas toda a gente vae á casa da Lolóta!

—Até o Feliciano... murmurou Caldas.

—Não! o Feliciano levava um recado. Ia com uma carta minha, corrigiu Argemiro.

—Por isso ella discutiu leis com tanto apuro! Parabens. É uma mulher estonteadora...

—Não sei, a minha carta era ácêrca de negocios; ella é minha cliente.

—Homem puro, que nem sabe se as suas clientes são ou não são bonitas! Eu confesso-me peccador impenitente: quando vejo uma saia levanto logo os olhos para vêr se o rosto da dona é feiticeiro! Tape os ouvidos, padre Assumpção!

O padre sorriu e não desviou os olhos da leitura.

—Peccar ainda é e será a coisa melhor da vida, continuou o Armindo; peccado de amor, está claro. Ah, e neste Rio de Janeiro, por melhor que seja a vontade de resistir, ninguem foge á tentação! Você conhece o dr. Aguiar?

—O da Caieira?

—Esse mesmo. Pois quando pretende alguma coisa da camara ou dos ministerios, manda a mulher ás secretarias ou á casa dos deputados. A mim procurou-me ella um dia no hotel, e, como o negocio era reservado, tive de falar-lhe no meu quarto. O salão estava cheio. Ia linda!

—E?...

—O Aguiar entrou numa centena de contos; aliás a pretensão era justa; todavia, se a mulher fôsse feia, não digo isto por minha parte, creio que elle não arranjaria nada. O caso não dependia de mim, mas de quem «mais caso faz da formosura alheia»!

Armindo interrompeu o assumpto para sorver um gole de Chartreuse.

O padre Assumpção, talvez para desviar o assumpto mal encaminhado, por achar a proposito o trecho ou para fazel-o notar a Adolpho Caldas, leu alto uma phrase:

«...um peccado chama outro peccado, e este outro vem logo acompanhado até crear devassidão e ficarem em estado de se darem por sem remedio. Miseravelissimo estado que abre as portas de par em par a todo o genero de vicio e apaga toda a memoria do Céo e da Eternidade».

Padre Assumpção fechou o volumesinho de Frei Luiz de Sousa, pôl-o na estante e foi sentar-se ao lado de Argemiro.

Estava á espera de uma estiada para se ir embora; mas a chuva cahia em torrentes fortes e continuadas. Houve um momento mesmo em que a tempestade pareceu recrudescer de furia. Assumpção confessou:

—Estou com medo que o temporal d'esta tarde tenha quebrado a amendoeira do meu quintal...

Os jogadores estavam absorvidos; mal o ouviram. D'ahi a pedaço, já desinteressado do poker e prestando attenção á bulha das aguas, Argemiro propoz que ficassem todos com elle: a casa tinha quartos para hospedes. Nenhum acceitou. Caldas confessou que não sabia dormir no Rio senão em cama feita pela sua ménagère e padre Assumpção affirmou que a mãe não se deitaria senão depois de o vêr entrar.

A partida prolongou-se até ás onze horas, em que deixaram os baralhos, e Armindo foi afastar as cortinas para olhar para a rua atravez dos vidros das janellas.

—Chove ainda! E deve estar frio lá fóra! Parece-me que estou em Curitiba!

Padre Assumpção, voltando-se para o dono da casa, disse:

—Amanhã terei de ir á casa de tua sogra; queres alguma coisa para a nossa Maria?

Nossa Maria era como o padre chamava a filha de Argemiro, a quem baptisára e adorava.

—Nada... eu irei vel-a no domingo.

Quero ver se para a semana ella vem passar uns dois dias commigo.

—Aqui?

—De que te espantas?

—Ora essa! com quem a deixarás, quando tiveres de sahir?

—Vaes rir... Botei hoje um annuncio no Jornal, pedindo uma moça para tratar da casa de um viuvo só.

—Estás doido! Não caias nessa asneira... Olha que chamas o perigo para casa.

—Não posso mais aturar o Feliciano; preciso de alguem que me ajude a supportal-o. Mas a razão vocês sabem. Quero que minha filha não se crie completamente alheia á sua casa, preciso mesmo da sua companhia, ao menos uma vez por mez.

—E confiarás a nossa Maria a qualquer mulher desconhecida?!

—Gloria não deixará os avós senão por um dia... É uma consolação fugitiva, a que eu procuro. Estou velho...

Caldas preveniu:

—Olha que essas madamas trazem anzóes nas saias... Quando menos pensares... estás fisgado... E tu que és bom peixe! É uma raça abominavel, a das governantes... Verás ámanhã que afluencia de francezas velhas á tua porta! Feia ou bonita, a mulher é sempre perigosa. Eu deixar-me-ia ficar socegadinho nos braços do Feliciano!

—Que lembrança, por annuncio! repetia o padre. Ainda se não tivesses tua filha...

—Preciso de uma mulher em casa, que não seja boçal como uma criada, mas que não tenha pretensões a outra coisa. Saberei indicar-lhe o seu logar. Nem quero vêl-a, mas sentir-lhe apenas a influencia na casa. É a minha primeira condição.

—Acho-a acertada! Como já disse, só vêm para esse officio mulheres aposentadas, pela força da edade, de outros serviços! Feias mas habilidosas... No fim de algum tempo tu cahirás doente, ella será uma enfermeira carinhosa e a comedia acabará quasi sem se sentir. É o costume. O Assumpção reprova-te. Eu aviso-te.

—Consultaste ao menos tua sogra? perguntou o padre.

—Não. Ella, com receio de que eu lhe reclame a neta, negou-se sempre a coadjuvar-me nesse sentido.

—Não tires de lá a nossa Gloria. Está muito selvagem, mas está muito bem. Realmente, essas senhoras vindas por annuncio para tratarem da casa de um viuvo só, devem trazer intenções muito exquisitas. Será preferivel uma velha.

—Não! as velhas cheiram a gallinha, desde que não sejam de fina sociedade. Uma, que metti por experiencia em casa, encheu-me o jardim de patos e de perus, que ciscavam na grama. Quero uma mulher que tenha bôa vista, bom olfato e bom gosto. São as qualidades que eu exijo, por essenciaes, numa dona de casa. Quero uma moça educada.

Armindo Telles, enfiando o sobretudo, de que levantou a golla até ás orelhas, offereceu-se para vir esperal-a no dia seguinte...

Adolpho Caldas calçou as galochas, augurando que a moça educada teria mais de quarenta annos e não se resignaria a não conhecer monsieur... E concluiu:—cá estou para espectador da scena. Vamos rir.

Só o padre Assumpção não enfiou sobretudo nem calçou galochas, limitando-se a tirar do cabide o seu grande guarda-chuva inglez. Elle alli estava para defender a afilhada de um mau contacto... previa desastres que procuraria obstar. Ora, como pudéra Argemiro cahir naquelle ridiculo...

Sahiram os tres, calados, para a chuva; e o Feliciano, alagando os sapatos nos ladrilhos do vestibulo, desejou a todos—muito boas noites—e fechou a porta.

II

Era meio-dia quando um bond das Aguas Ferreas parou á entrada do Cosme Velho e uma moça desceu para a rua, com ar vexado. O bond continuou o seu caminho; ella consultou uma notasinha da carteira e entrou num predio côr de milho secco, ladeado por um jardim em meio abandono.

Um rapazinho lavava o vestibulo; a moça olhou para elle ainda embaraçada e perguntou:

—O dono da casa...?

Felizmente, o pequeno não a deixou concluir; estava prevenido e gritou logo para dentro, fazendo correr uma porta de vidro que devassou um trecho do interior:

—Ó seu Feliciano, venha cá! E voltando-se para a recem-chegada:—A senhora entre.

Ella levantou cuidadosamente o seu vestido de lã preta, para que se não molhasse no chão enxarcado, e atravessou o vestibulo em bicos de pés.

O rapazinho olhou e viu que ella levava as botinas esfoladas, tortas no calcanhar, e que tinha os artelhos finos. Mal ella chegava á porta do fundo, quando appareceu um negro, muito empertigado, com um arzinho desdenhoso e enfiado num dolman branco de impeccavel alvura.

Ella repetiu a mesma phrase e elle fez-lhe um gesto para que o acompanhasse.

Seguiram por um corredor até ao escriptorio do dr. Argemiro, que escrevia á secretária, no meio de um montão de papeis, muito atarefado, já prompto para sahir.

Feliciano avisou da porta:

—Uma pessoa que vem pelo annuncio!

O advogado levantou os olhos e viu entrar na sala uma figura meio encolhida, que lhe pareceu ter um hombro mais alto que o outro e cujas feições não viu, porque vinham cobertas com um véu bordado e ficavam contra a claridade.

—Tenha a bondade de sentar-se... permitta-me mais um momento e prestar-lhe-ei toda a attenção...

Ella fez um gesto de assentimento e sentou-se perto da porta. Elle, bem illuminado pela claridade de fóra, apressou as ultimas notas, fazendo ranger a penna no papel. Chegada a vez de ordenar as folhas esparsas pela secretária e de acamal-as na pasta, para não perder muito tempo, foi dizendo:

—Antes de mais nada, como estes annuncios reclamando senhoras para casas de viuvos são ambiguos e prestam-se a interpretações pouco airosas, digo-lhe desde já que preciso, para governante de minha casa, de uma senhora séria, uma senhora honesta, a quem eu possa francamente confiar minha filha, que é uma menina de onze annos. Ella móra fóra, mas deverá vir passar de vez em quando alguns dias em minha companhia...

Sendo essa a condição essencial, não extranhará por certo que lhe peça algumas informações...

Argemiro esperou um instante, a vêr se ella se decidia a falar sem ser interrogada; mas a coitada encolheu-se na cadeira e elle foi forçado a perguntar:

—A senhora é viuva?

—...Não senhor... sou solteira...

—Ah... mas já governou alguma casa, naturalmente?...

—Sim... senhor...

—Bem... Desculpe-me a minuciosidade. Poderá dizer me em que casa desempenhou o cargo a que se propõe?

Ella pareceu não entender; depois disse baixo:

—Na minha... na de meu pae...

—Ah!... O nome de seu pae é...

—Meu pae morreu... e é por isso que eu...

Houve uma pausa. Argemiro consultou o relogio. Era tarde. O diabo da mulher não serviria?!

—Que edade tem?

—Vinte e cinco annos...

—É saudavel? A saude é tambem uma das condições que eu exijo.

—Sou.

—Pois, minha senhora, infelizmente tenho o tempo contado e não posso demorar-me. Vou procurar em poucas palavras fazer-me bem entendido; pesso-lhe que me escute com a maior attenção e que me responda com absoluta franqueza.

Como lhe disse, quero uma governante para minha casa, que seja ao mesmo tempo uma companheira para minha filha nos dias em que ella vier vêr-me. Para isso é preciso que essa governante seja uma senhora séria, sobretudo educada, não digo instruida, mas que emfim não seja analphabeta e que tenha habitos de asseio, de ordem e de economia. É absolutamente preciso pôr um dique á impetuosidade das minhas despezas domesticas. Eu não posso tratar d'isso. A senhora dirigirá tudo, com energia, de modo a regularisar as coisas definitivamente. Para isso lhe darei toda a força moral. Ha uma clausula, que talvez lhe pareça absurda, mas é indispensavel na nossa situação, caso a senhora acceite as condições que estipulo...

Elle parou, com ar interrogativo.

Ella respondeu com um fio de voz tremula:

—Perfeitamente...

—É esta: não nos vermos senão quando isso fôr absolutamente indispensavel, ou melhor, não nos vermos nunca! A razão d'esta exquisitice, ou d'esta mania, não póde ser explicada por inteiro em poucas palavras; supponha, porém, que repouza só nisto: não querer eu que paire sobre quem deve velar por minha filha nem a sombra de uma suspeita! A minha casa é grande, tem dois pavimentos e eu passo o dia na cidade, só vindo jantar á noite. Na minha ausencia toda a casa será sua; desde que eu entre a senhora saberá e poderá evitar-me. Acha isso possivel?

—Acho...

—Concorda em que seja assim?

—Concordo.

—Pense na responsabilidade que vae assumir.

—Já pensei...

—Eu sou exigente. Quero sentir na minha casa a influencia de uma pessoa moça, saudavel e ordenada. Não quero vêr essa pessoa, por motivos que expuz e por outros particulares e que não vêem ao caso, como tambem já disse. Aviso-a de que sou commodista. A senhora julga-se com os predicados que apontei?

—Julgo-me.

—Tanto melhor; parece-me que nos entenderemos. Todavia, desejaria, repito, que a senhora me desse algumas informações a seu respeito. Como se chama?

—Alice Galba.

—Galba... tenho idéa de ter conhecido na minha infancia um velho com esse nome... um botanico, se me não engano...

—Era meu avô...

—Então seu pae...

—Meu pae morreu ha dez annos...

Argemiro puxou o relogio. Era a hora do bond; levantou-se apressado, apanhando a pasta e o chapeu.

—A senhora veio tão tarde! E temos ainda uma coisa a combinar: o ordenado?

A moça levantou-se com timidez.

—O senhor dará o que entender...

—Ora essa! Eu não sei.

—Eu tambem não... É a primeira vez que me emprego...

Argemiro presentiu sinceridade naquella confissão e olhou para a moça. Mal percebeu, atravéz do véo, um rosto magro e pallido.

«Parece-me feia...» pensou elle comsigo, com uma pontinha de desgosto; e logo alto:

—Onde poderei mandar prevenil-a?

—Eu virei, quando determinar, saber a sua resposta.

—Se quer ter esse trabalho... Venha então quinta-feira. Sómente, peço-lhe mais algumas informações sobre os seus antecedentes e que fixe o seu ordenado.

Elle já se mostrava impaciente, caminhando para a porta, como a despedil-a. Ella fez uma reverencia timida e sahiu.

Quando Argemiro chegou á rua, com a sua pasta pejada de papeis, viu Alice subir para o bond e notou, como o seu criado, que ella levava as botinas rotas e tinha os artelhos delicados.

O diabo da rapariga fizera-o perder um tempo precioso, e talvez inutilmente. Quem sabe? talvez apparecesse outra mais geitosa. Tudo lhe desagradava nesta, desde os hombros encolhidos até ás botas esfoladas...

Quando Argemiro voltou á casa para jantar, encontrou o padre Assumpção, que vinha trazer-lhe noticias de Maria da Gloria.

—Tua filha pediu-me que te viesse hoje mesmo dizer que está com muitas saudades tuas. Que diabo fazes, que a não vais ver?

—Bem sabes em que consumo as horas... uma estupidez! É tão longe aquillo, e minha sogra fecha tão cedo a casa!... Ah, estou morto por trazer minha filha, ao menos uma vez de quinze em quinze dias, para jantar commigo, encher esta minha casa triste de riso e de alegria. Como a achaste?

—Magnifica, muito córada, forte! A avó exasperada porque ella não lhe pára no estudo. Quando eu cheguei estava ella encarapitada no muro, apanhando as amoras do visinho; quando entrou trazia o avental manchado e a saia toda descozida. A avó mostrou-me aquillo muito queixosa, mas Gloriazinha mal a deixava falar, tantos eram os beijos que lhe dava!

Riram-se ambos, Argemiro e o padre.

—A avó tem razão; minha filha já está muito crescida para aquelles modos de rapaz...

—É uma criança... deixa-a.

—Mas afinal, de quem é a culpa? Dos avós. Se ella morasse commigo seria muito outra.

—Não estaria tão bem.

—É uma selvagem... esta é que é a verdade; mal sabe lêr, rabisca umas letras em pessima calligraphia... e toca sem compasso umas intoleraveis lições do methodo! Já era tempo de saber muito mais. Não te parece?

—Ora! sabe em que tempo se devem plantar os repolhos e podar as roseiras, como se córa roupa e se deitam gallinhas. É uma sciencia rara hoje em dia e muito util. Tua sogra pediu-me que lhe ensinasse o cathecismo, para a primeira communhão.

—E tu...

—Eu disse-lhe que deixasse a menina por emquanto adorar a Deus a seu modo. Quando eu entrei na chacara ella repartia fructas com a criançada pobre da vizinhança.

—É brutinha, mas tem bons sentimentos...

—É um anjo; o ser selvagem não é culpa sua; mudará com o tempo.

—Não basta o tempo; estás convencido de que ella precisa de mais alguma coisa... Pobre criança, terei o direito de sacrifical-a ao egoismo da avó? Andamos errados conservando-a lá... não acoroções a minha negligencia; esta é a verdade. Se eu pudesse organisar a minha vida de outro modo... A proposito: veio hoje uma rapariga, pelo annuncio do jornal, offerecer-se para governante. Só uma! vês tu? E vocês a dizerem que viriam em rebanho! Antes viessem varias, poderiamos escolher. D'esta gostei pouco. Pareceu-me acanhada, toda torta.

—Corcunda?

—Não... não sei. Preciso da tua intervenção. Ella voltará quinta-feira á tarde; conversa tu com ella e decide tudo. Não quero tornar a vêl-a, mas desde já te digo que seja como fôr, direita ou torta, será preferivel a coisa nenhuma.

—Vaes crear uma situação embaraçosa e insustentavel. Já não estás em edade de fantasias.

—Fala para ahi. Que disse tua mãe?

—Contra a minha espectativa, aprova a tua resolução...

—Por força.

—Mas não acredita que se possa viver sob o mesmo tecto com uma creatura sem nunca lhe pôr a vista em cima.

—Com esta, coitadinha, parece-me que isso ha de ser facil. Confesso-te até que a sua fealdade me desconcertou. Eu desejaria uma governante bonita, ou pelo menos graciosa. A belleza suggestiona e dá a tudo que a rodeia um movimento de elegancia. Imagina, se ella effectivamente fôr aleijada. Será escarnecida pelos criados e furtará toda a originalidade á nossa situação!

—Preferes o perigo...

—Para pôr á prova a minha impassibilidade e dar-me ares de heroe—respondeu, rindo, Argemiro. Preciso exercitar a minha vontade e o meu sangue-frio.

—Tolices!

—Mas que queres que eu te diga, a ti que me conheces de cór e salteado?! Vens com uns ares exquisitos assustar-me com um futuro que não promette coisa nenhuma! Tu bem sabes que o verdadeiro motivo d'esta imposição está nisto: ser-me-ia penoso vêr agitar-se em torno de mim uma mulher, nesta casa, onde nenhuma outra entrou depois que morreu a minha. A minha viuvez é tão saudosa, tão viuva, que só vivo para sentil-a. Não digo senão a ti estas coisas, com medo de parecer ridiculo. Tu me comprehenderás: foste seu amigo, seu confessor, soubeste mais da sua alma do que eu mesmo, darás razão a este aferro. Amo minha mulher atravéz do tempo, com a mesma tenacidade dos primeiros dias. Ella preside á minha vida, soberanamente.

Expliquei á outra, que ahi veio, que só uma razão me obrigava a impôr-lhe esta clausula extravagante: não querer dar azo á maledicencia e aos commentarios dos criados... Como se isso me importasse!

—E ella?

—Acceitou.

—Emfim... acho que fazes mal. Mas isso é comtigo. Preferiria que te casasses, apezar...

—Ah, isso nunca! Minha mulher, sabes bem, pediu-me que não me tornasse a casar; fez-me jurar... far-lhe-ei a vontade. Tanto mais que nenhuma mulher me interessa, a não ser...

—A não ser...

—Para essa especie de amores que só tem um sabor—o da frivolidade. Eu não sou santo, mas sou fiel. Acredites ou não, a verdade é que não me deito nunca sem beijar o retrato de Maria, desde o dia da sua morte pendente á minha cabeceira. Tenho a sensação de que a alma d'ella não sae d'esta casa que tanto amava; como que a sinto a envolver-me todo... Lá fóra sou um viuvo como outro qualquer, não me abstenho nem da côrte á mulher de salão, nem do abraço á mulher do peccado; mas logo que entro em minha casa, parece-me sentir as mãos finas de Maria segurarem as minhas e a sua voz, que não esqueço, repetir-me aquella sua phrase ciumenta e que era como que o seu estribilho:—ama-me, a mim só! a mim só!

Houve uma pausa. Padre Assumpção observou:

—A nossa Maria não se parece com a mãe...

—Nada.

—Sahiu a ti.

—Talvez. Mas vamos jantar, que tenho de ir ao Lyrico.

Á mesa, logo ao sentar-se, Argemiro viu á direita do seu prato um rasgão na toalha, do tamanho de um nickel; mostrou-o com um gesto de enfado ao padre Assumpção.

—Naturalmente, uma dona de casa faz falta... observou este.

Jantaram sem alegria; á sobremesa o criado foi buscar a caixa dos charutos e Argemiro, levantando o talher de christofle mostrou ao padre que o garfo tinha signaes de fogo na extremidade dos dentes, e que as laminas das facas começavam a bailar nos cabos.

E tudo aquillo era novo!

Padre Assumpção sorriu:

—Agora reparas em tudo!

Feliciano trouxe os charutos e Argemiro reconheceu que o negro se sortira abundantemente com os seus havanas. Sempre o mesmo abuso! Olhando com attenção para o criado, viu que elle ostentava cynicamente uma das suas camisas bordadas; tambem não estava certo de lhe haver dado já aquella bonita gravata roixa de bolinhas pardas. Como o padre Assumpção era considerado de casa, Feliciano, mesmo á vista d'elle, apresentou ao amo as contas da semana.

—A ode do desperdicio!

Era um batalhão de cifras encarreiradas, pelo almasso abaixo, atropellando-se no seu exaggero que as fazia saltar aos olhos de Argemiro. Desde o fornecedor das fructas finas, até á serzideira da roupa branca, todos tomavam vulto através a multiplicação do negro.

—Vês, Assumpção? quasi um conto de réis numa quinzena, isto numa casa propria, onde ha adega e que a chacara do sogro enche de perús, ovos, leitões e hortaliça! No tempo de Maria passava-se melhor, havia mais gente e gastavase muito menos.

—Ainda tens um recurso...

—Qual?

—Uma pensão...

—Deus me livre! A casa de pensão é a valla commum da vida. Repugna-me! e voltando-se para o negro:

—Olha cá, explica-me: porque, pagando eu tanto dinheiro a uma costureira, ella deixa buracos como este numa toalha de mesa? Que especie de costureira é essa?

O Feliciano fazia-se de parvo quando lhe convinha.

—É uma especie de velha...

—Ah! uma especie abominavel! Despede-a.

Acabado o jantar, padre Assumpção sahiu para a sua caminhada até ao largo do Machado, como de costume, e Argemiro foi vestir-se para o espectaculo. Quando, já encasacado, enfiava o sobretudo, viu o Feliciano estender-lhe um papel, murmurando com a maior naturalidade:

—Mais uma conta que me esqueci de entregar; estava no fundo do bolso.

—O teu bolso não tem fundo, nunca se póde encher! Que conta é essa?

—Uma conta antiga, de um carro...

Argemiro estava de bom humor. Riu-se. E sahiu pensando:—acabou-se o teu reinado, ladrão!

O salão do Lyrico estava repleto.

O primeiro acto ia quasi no fim.

Agarrados um ao outro, o tenor e a soprano esguelavam-se em protestos de amor. O publico via aquillo com respeito e certa solemnidade. Argemiro levantou os olhos para o camarote da Pedrosa, que olhava exactamente para elle nesse momento. No primeiro intervallo subiu a apresentar a essa senhora os seus respeitos. Ella estendeu-lhe a mão enluvada, segurando-o com dominio, fazendo-o sentar-se ao pé de si. Pedrosa esquivou se para o corredor, em conversa com o Conselheiro Isaias e o dr. Sebrão.

O Pedrosa almejava a pasta da fazenda; andava na occasião ostentando pelos jornaes grandes artigos financeiros, coalhados de algarismos encarreirados como formigas por entre a seccura sábia da phraseologia. Ah! como esses artigos espantavam uns e espicaçavam a maledicencia de outros, que os attribuiam ao Benedicto Lemos, um bohemio intelligente como o diabo e bebedo como uma gambá.

Elle, o Pedrosa, adulava agora o Sebrão e o Conselheiro Isaias, ambos commensaes e amigos do Presidente da Republica.

Era um homem arguto.

A esposa, baixa, trefega, de um moreno pallido sob o qual se via arder uma alma ambiciosa, instigava-o a ir ao encontro das posições apparatosas da alta politica.

Vingava-se do Destino a ter feito mulher, conservando-se moça através dos quarenta annos. Não era bonita, mas a sua expressão de desafio, que agradava aos homens e irritava as mulheres, tornava-a talvez um tanto original. Gostava de impôr a sua auctoridade. Para o Argemiro era de tão carinhoso acolhimento, que elle trabalhava por penetrar-lhe as intenções.

Conversavam os dois, como se esperassem ambos uma palavra reveladora, quando entrou no camarote o Benjamim Ramalho, todo tezo no seu alto collarinho, com uma camelia branca na lapella e o cabello achatado sobre as orelhas pequenas e redondinhas. A Pedrosa mal disfarçou a sua contrariedade. Benjamim curvava-se deante d'ella numa reverencia. E depois de sentado:

—Magnifico este primeiro acto. Não gostou?

A Pedrosa respondeu quasi seccamente:

—Muito.

Benjamim olhou para o Argemiro, que poz o binoculo para o camarote da Vieirinha. A Pedrosa, percebendo o movimento do advogado, seguiu-lhe o exemplo. Benjamim ficou por um momento só, perplexo; hesitou, comprehendeu que chegára inopportunamente e acabou binoculando tambem a Vieirinha!

Depois de um curto silencio ouviu-se a voz da dona do camarote num commentario de enfado:

—Não é feia aquella senhora, mas veste-se muito mal...

Benjamim, confirmando:

—Realmente, não tem gosto... usa umas côres muito espantadas...

Argemiro sorriu por dentro. A pobre da Vieirinha tinha um peccado: ser casada com um ministro, cuja pasta apanhára no ar quando vinha atirada ás mãos do Pedrosa!

Argemiro, sem retirar o binoculo:

—Então, Benjamim, você gostou muito do primeiro acto?

—Absolutamente!

—Homem feliz...

—Porque?!

—Porque póde gostar absolutamente de alguma coisa... quando para toda a gente tudo no mundo tem restricções...

—Pois olhe, acudiu a Pedrosa sem poder disfarçar uma pontinha de inveja; pela sua insistencia em olhar para a Vieirinha, dir-se-ia que ella, ao menos para o senhor, não tem restricções.

A Pedrosa tinha geito para dizer as coisas mais duras como se as tivesse fervido em mel. Falou rindo. Benjamim riu-se tambem e o advogado respondeu com um suspiro:

—É que aquella senhora não permitte com facilidade que a gente a veja de perto...

—Sim?! Deve ser para que não lhe vejam os defeitos... ou talvez tivesse estado num convento. A proposito, minha filha deixa ámanhã definitivamente o collegio das Irmãs de Sião. Vou buscal-a a Petropolis. Estou velha, com uma filha já moça!... Sabbado quero apresental-a aos meus amigos. Ella tem grande predilecção pelo sr. dr. Argemiro!

Notou então o advogado que a Pedrosa o olhava com uma expressão differente, como se lhe visse na cara pela primeira vez qualquer coisa desconhecida...

Intrigava-o aquillo, mas não achou a explicação até ao fim da visita; Benjamim atrapalhava-o. Em que pensaria a Pedrosa?...

Ao sahir do camarote, sentiu-se agarrado no corredor pela mão do marido, que o reteve, apresentando-o ao conselheiro Isaias e ao dr. Sebrão, a quem alcunhou de Demosthenes brasileiro.

Argemiro ouvira já o collega, num dos seus mais famosos discursos no Senado.

O conselheiro Isaias approvou o cognome de Demosthenes dado ao Sebrão, lamentando que o Rio de Janeiro não tivesse, como a formosa Athenas, o gosto fino pela palavra, tão desbaratada aqui, e não considerasse a politica como uma das artes superiores... tambem elles conheciam o dr. Argemiro Cláudio e sabiam que elle escrevia actualmente um livro juridico de extraordinario interesse...

Pedrosa, ufano da amizade dos tres, resplandecia de orgulho.

Argemiro cumprimentou-o pelo seu artigo d'essa manhã. Bons argumentos; excellentes demonstrações!

Pedrosa esfregou as mãos: sim, elle era sincero e estudara a questão a fundo. Fôra impelido á publicidade por uma serie de circumstancias muito especiaes; do contrario nunca sahiria do seu retiro, onde queimava as pestanas a lêr os mestres e a estudar as mais graves questões financeiras do paiz...

O conselheiro Isaias affirmou:

—Ainda não pude lêr o seu artigo; mas o Presidente leu-o e ficou bem impressionado.

Pedrosa deu um saltinho involuntario:

—O Presidente leu o meu artigo? Gostou? Ah, mas naturalmente! Elle ha de forçosamente vêr que eu não aponto alli senão erros da administração passada e que lhe tem acarretado a elle enormes embaraços...

—Difficeis de vencer...

—Facilimos, senhor, facilimos!

—A verdade é que o Presidente não está bem rodeado e deixa-se influenciar pelos ministros, mais do que convém... objectou Sebrão.

—Isso! approvou Pedrosa, estendendo a mão em fórma de juramento.

Os outros olhavam para elle com certa admiração. Pedrosa continuou, um tanto confidencial:

—Eu é que não quero dizer a ultima palavra...

Nesse instante rompeu a musica e Argemiro achou mais interessante ir ouvir o segundo acto da Tosca, do que a ultima palavra do Pedrosa. Cumprimentou-os á pressa e caminhou para a escada.

III

O trem dos suburbios ia partir, quando Adolpho e Argemiro entraram na gare da Central. Adeante d'elles corria uma multidão pressurosa e atrapalhada, sobraçando embrulhos e arrastando crianças.

—A hora do jantar aqui é uma hora perigosa, Argemiro! E digam que o feijãozinho não tem prestigio!

Nesse instante sentiram-se empurrados. Eram umas senhoras que lhes tomavam a deanteira no assalto, muito nervosas, olhando para traz, a contar-se, com medo que não ficasse alguma extraviada.

—Isto é uma ignominia. Obriga tua sogra a vir cá para baixo.

—Imagina se não lhe tenho pedido! Cada vez que vou vêr minha filha é este horror! E perco um tempo!

Caldas rogou uma praga.

—Que foi isso?! olha se te mandam para o xadrez!...

—Aquelle sujeito ia-me arrebatando o pacote dos marrons de tua filha! Não lhe basta a carga. Gente amiga de embrulhos, a dos suburbios! Olha.

—Não tenho tempo. Entra.

Entraram ambos para um carro.

Cheirava a carvão de pedra e havia calor.

Argemiro continuou, depois de sentado:

—Minha sogra tem razão; ella vive como uma abbadessa de convento rico; tem um prestigio por toda aquella redondeza que nem calculas... Muito boa, muito esmoler, é o centro de uma população de pobres e de familias que, se não dependem d'ella materialmente, acostumaram-se á sua tutela moral e não a dispensam. Eu comprehendo-a e dou-lhe razão. Ha ainda outro motivo que a obriga a viver na chacara: é o empenho de ter a neta só para si. Minha mulher, não sei se já te disse, era filha unica e criada com um mimo raro; durante o tempo em que vivi casado tive occasião de conhecer a mãe mais extremosa que jámais vi. Para mim foi de uma bondade e de uma ternura encantadora. Amava-me porque via bem quanto eu fazia a filha feliz... A neta reproduz para ella a filha morta. Gloria foi para casa da avó, muito pequena; foi ella quem a criou, julga-se com todo o direito a guardal-a para sempre... E é para tel-a só para si, nos mesmos logares em que cresceu minha mulher, que teima em não sahir do seu canto...

—E comtigo não se conta?

—Considera-me muito, mas entende, e com razão, que não posso ter Gloria em minha companhia.

—E se te casares?

—Ella sabe bem que isso não acontecerá nunca. Minha sogra herdou o ciume da filha... Sabes que minha mulher me pediu que não me tornasse a casar...

—Todas as mulheres rogam aos maridos a mesma coisa, e afinal... todos os viuvos se casam! Mais depressa que os solteiros, nota.

—Sinto-me bem assim.

—Teu sogro aferra-se tambem por gosto a este sitio?

—Por gosto e por economia. Elle explica melhor a sua predilecção pelo campo, dizendo que, á sombra das suas mangueiras, se sente mais longe da republica...

—Ahi está! e eu nunca o ouvi falar em politica...

—Não é homem que discuta factos consummados. Depois, está velho e é amigo do repouso... Fez-se botanico, para entreter os ocios da chacara. Teve uma mocidade tempestuosa; a mulher não foi feliz; agora então, para compensal-a, dá-lhe toda a soberania e é um cordeiro. O bom velho fez esquecido o mau rapaz...

Argemiro reparou que ainda tinha nas mãos distrahidas um lequezinho de papel apanhado á entrada do vagão. Revirou-o entre os dedos: tinha uma vareta quebrada, unida ás outras por um fio de linha.

—Deve ser d'aquella moça que se remecheu ha bocado procurando qualquer coisa... Pensei que lhe tivessem roubado o relogio!

—Talvez faça falta...

Era d'ella. Argemiro ao entregar-lhe o leque notou lhe um movimento de alegria mal disfarçada. Voltou a sentar-se e Caldas instou:

—Influe teu sogro a vender as suas terras em Minas. O Barreto pediu-me para organizar uma colonia suissa, para a industria dos lacticinios... e convem-lhe adiccionar ás d'elle as terras do barão. Dão-lhe resultado?

—Filho, não sei. Meu sogro é um homem calado e eu fujo de mostrar interesse por questões de dinheiro. Mas onde diabo vaes tu arranjar suissos?!

—Á China, talvez... Que pergunta! Irei á Suissa, homem!

—Sempre arranjas uns negocios!

—Nunca os procuro. Elles entram por seus pés em minha casa; ahi, ou os recebo ou atiro-os pela porta fóra. Fica certo que negocios procurados não prestam. Não ha nada como um sujeito passar por homem rico, para enriquecer... O proprio individuo chega até a illudir-se e a ficar mais bonito... Conheces maior volupia que a do dinheiro, senhor absoluto do mundo todo? Só o que é bom e caro, dá prazer...

Argemiro sorriu, lembrando-se do lequezinho quebrado, e do gesto de contentamento que fizera a dona ao rehavêl-o. Pobrezinha...

Caldas, por ter confiança no amigo, entrou a falar-lhe baixo da sua cooperação nos relatorios do Vieirinha, ainda maior trabalho do que tivera com os relatorios do Theobaldo, quando ministro da fazenda...

—Dize-me cá, atalhou Argemiro. Em que disposição está o presidente a respeito do Pedrosa, sabes?

—O burro do Pedrosa vae ser ministro.

Argemiro riu-se; Caldas retomou o fio das suas confidencias interrompidas.

O trem corria de estação em estação, com os seus guinchos ensurdecedores. Uma criança chorava no collo da mãe afflicta; um grupo de rapazes amarellos e desdentados falava de eleições do Club Riachuelo, ao pé de uma senhora de cabellos grisalhos, bem vestida, e que viajava só.

Lá fóra a paizagem estendia-se larga, banhada de sol escaldante. Um véu fino de pó dourava a atmosphera. Laranjeiras pequenas, de grandes fructos dourados, alegravam aqui e acolá um ou outro ponto dos campos mal tratados, onde em gramados secos trilhas barrentas descreviam linhas tortuosas.

—Isto é desconsolador... observou Argemiro, apontando para a extensa pradaria, onde em vários trechos se agrupavam casinhas feias.

—E este trem poderia rolar entre pomares cheirosos. O Brasil é a terra da flôr exquisita e da fructa saborosa. De um lado e de outro d'estas estradas, se tivessemos camponezes e agricultores de bom gosto, veriamos, Argemiro, lindas orchideas suspensas na galharia de arvores fructiferas. Olha bem para aquillo! É precizo não ter absolutamente gosto nem instincto, para se fazer uma cerca assim, de paus tortos, aqui no paiz do bambú. Do lindissimo bambú! Ah! o Japonez! que povo feliz e aproveitador... Vou lembrar ao Barreto instalarmos aqui uma colonia de Japonezes, com a condição de fazerem elles mesmos as suas casas e trazerem muitas musmés bonitas...

—Condição essencial!

—E que tu com toda a tua viuvez aproveitarias melhor do que eu...

—Aprecio pouco o typo e detesto a raça...

Adeante, o grupo de rapazes augmentára com outros sujeitos, que, abandonando os seus logares, tinham vindo discutir a eleição do club. Um dos moços, no calor da discussão, sentára-se no braço do banco em que viajava a senhora de cabellos grisalhos. Ella encolheu-se, com ar constrangido. O rapaz gritava aos outros:

—Se eu não tivesse educação, não teria contido o impeto que tive de esbofetear o Andrade, alli mesmo no club!

Um outro advertiu-o de que elle estava incommodando a viajante; elle levantou-se com uma desculpa e foi nesse instante que o trem parou em Madureira.

Caldas e Argemiro encontraram na estação a victoria do barão, que os esperava.

—Lá em casa todos bons? perguntou Argemiro ao cocheiro.

—Todos bons.

—Nota esta exquisitice, Adolpho; só me lembra que minha filha póde estar doente, no momento em que me approximo d'ella. Assalta-me então o terror de a ir encontrar de cama...

A chacara do barão ficava a um kilometro da estação. O carrinho partiu ao galope de um cavallo ligeiro, e dez minutos depois transpunha o largo portão da chacara, seguindo até á porta da habitação, por uma extensa rua de mangueiras bellissimas.

—Como isto repousa a gente! exclamou Caldas, aspirando com força o aroma da flôr de fructa e pascendo o olhar pela frescura d'aquellas sombras.

—O Paraiso... murmurou Argemiro, esticando o pescoço, a vêr se via, ainda que de longe, a filha.

Antes que o carro chegasse á casa, Maria da Gloria atravessou aos gritos um grande relvado lateral da rua e irrompendo d'entre as mangueiras atirou-se para o carro alegremente:

—Papae! papae!

O cocheiro mal teve tempo de diminuir a marcha do animal e ella trepou para o estribo, enfiando no carro a cara afogueada e risonha. O pae segurou-a, puxando-a para dentro, sem coragem de ralhar com ella por aquella imprudencia. Tentou falar, ella cobriu-lhe as barbas e a bocca de beijos.

—Que exhuberancia! exclamou Caldas, rindo.

Chegavam á porta do velho palacete dos barões do Cerro Alegre.

No patamar da escada, o sogro de Argemiro, barbeado de fresco, com o seu corpo franzino dentro de brins bem alvejados e o boné de seda preta seguro na mão fina e nervosa, sorria á espera dos hospedes, a quem abraçou.

—Mamãe?

—Espera-os na sala do meio. Entrem.

Argemiro aprendera com a mulher a chamar a baroneza de mamãe; percebendo agora quanto aquelle titulo commovia o coração da velha, continuava a dispensal-o de bom grado. Era como se a alma da morta lhe passasse pelos labios todas as vezes que dizia essas duas syllabas amadas.

A baroneza era uma senhora gorda, alta, de lindos olhos negros e cabellos completamente brancos.

Tinha as faces flacidas, a carne do pescoço descahida, a boca larga, a testa curta e ainda roubada pela espessura das sobrancelhas escuras. Cosia sentada em uma cadeira de balanço, ao lado de uma mesa redonda, coberta de um panno escuro e onde floria em um vaso um ramo de crysantemos pallidos.

—Bemvindos sejais! exclamou ella com a sua voz forte, de contralto.

Argemiro beijou-lhe a mão e sentou-se a seu lado. Caldas entreteve-se a conversar como barão, que, pedida a vénia, cobrira com o boné de seda os seus cabellos brancos e encaracolados.

—Então, meu filho, como acha sua filha?

—Forte... muito alta!

—Cresce de dia para dia! Se não vivesse no campo, com esta liberdade, não sei que seria... Precisa ralhar com ella: está muito voluntariosa...

—Tem a quem sahir...

—A mãe era um cordeirinho...

—Mas a avó é energica. E eu...

—Você é um homem. Sua mulher puxava toda ao typo do pae; Gloriazinha sahiu mais a mim... olhe para aquellas sobrancelhas!...

—Parecem uns bigodes! retrucou Argemiro para fazer zangar a filha. E depois de a beijar nos olhos: E a respeito de estudos?

—Isso! falle-lhe nisso! É uma vadia de força... o avô não se cança de a chamar e de ensinar-lhe as lições. Mas santos de casa...

—Pois chamemos os de fóra. Vae buscar os teus livros, Gloria.

—Ora, papae... depois... eu...

—O que ella quer é andar como os cabritos, aos saltos e correrias... eu, emfim, consinto nisso, porque com aquelle crescimento não deve haver sujeição... Graças a Deus, ella tem uma saude de ferro.

—Por isso mesmo precisa ter outros modos... se a puzessemos em um collegio?

Pelos olhos da baroneza passou a sombra de um desgosto e ella disse:

—Se quizerem matal-a...

O barão protestou:

—Isso nunca. Collegios nem para rapazes. São logares de perdição. O que temos a fazer é interessal-a pelo estudo.

—Mas como?

—Ha de haver um meio... Ó Gloria, vae tocar a tua ultima lição, anda. A professora de musica não está descontente...

Gloria amuou.

—Eu não sei nada!

—Como não sabes?! Vae tocar!

—Não...

—Gloria!

—Não...

—Esta menina!

Argemiro olhava para a filha com desgosto. A baroneza interveio:

—Depois do jantar teremos tempo; ella está com vergonha... manda botar o jantar na mesa, Gloria; depois tocarás...

Gloria aproveitou o ensejo e correu para o interior, onde d'ahi a instantes soavam as suas gargalhadas fortes, muito barulhentas.

O pae informou-se, voltando-se para o sogro:

—Como vae ella na leitura?

O velho abanou a cabeça, sorrindo; mas a avó exclamou, dirigindo-se ao Caldas:

—Se ella quizesse! não imagina o talento que aquella menina tem! aprende tudo com uma facilidade espantosa, de relance!

—Mas o diabo é que ella não quer! asseverou o avô, rindo.

—Ora! não é tanto assim; o sr. Caldas é capaz de pensar que a nossa Gloria é uma analphabeta!

—Quasi.

—Ora, não digas isso! Ella lê... e escreve... e demonstra muito geito para a musica. Afinal, não se educa para doutora nem para professora. No meu tempo não se exigia tanto...

—Não é razão. A mulher hoje precisa ser instruida, solidamente instruida, mamãe, e eu quero, eu exijo que minha filha o seja.

—Está direito, mas sempre quero saber se o sacrificio do estudo tem compensações verdadeiras! Andar atrás de uma pobre creança o dia inteiro, fazendo-a conjugar verbos e compôr e recompôr orações grammaticaes, atirando-lhe para dentro da cabeça nomes de terras e complicações mathematicas; curvar-lhe a espinha em cima de mappas e linhas geometricas, cançar-lhe a vista antes de tempo, roubando-lhe a liberdade que dá saude, alegria e ousadia, olhem que não me parece obra de amôr nem de caridade! Eu, cá por mim, confesso: fujo da sala do estudo quando vejo meu marido chamar a neta para a lição...

—Eu imagino que elle ha de ser muito rispido... commentou Caldas, sorrindo. Argemiro pegou nas mãos da sogra e disse:

—Mamãe, talvez que a senhora tenha razão; mas a verdade é que a Gloria já chegou a uma edade em que não deve ser tratada como o animalzinho amimado que é. Precisamos preparal-a para o futuro, que é sempre incerto. Imagine que um dia, que infelizmente ha de vir, faltem á nossa Gloria os seus cuidados, os do avôsinho e os meus... que será d'ella, se fôr uma ignorante, ella que é tão impulsiva e... e tão geniosa; hein?

—Quando isso acontecer, para longe o agouro, sua filha estará casada!

—Estará ou não. E se fôr mal casada? Se o marido esbanjar toda a sua fortuna e a atirar depois ás ortigas?

Os olhos da baroneza encheram-se de lagrimas; o velho pigarreou, advertindo o genro que avançara demais no caminho das hypotheses; mas a baroneza reagiu, sorrindo:

—Gloria casará bem, com um homem que a ame e a respeite. Não faltava mais nada! minha neta mal casada! pobre... desprezada... precisando trabalhar para viver... que coisa horrivel!

—O que é horrivel, mamãe, não é trabalhar; é não saber trabalhar!

—Ora... a necessidade é o melhor mestre; se algum dia... oh! não! nem pensar nisso!... A minha Gloria nasceu para ser amada. Eu leio naquelles olhos esse destino... É um pouco brusca... é um tanto auctoritaria... ora adeus! os homens gostam d'isso.

Riram-se e o riso abafou um suspiro em que o Argemiro murmurou:

—Eu queria-a mais meiga...

—Vovó! o jantar está na mesa! gritou Gloriazinha do corredor, fallando com a bocca cheia.

—Já ella me foi ás nozes... não tenho remedio senão concordar que ella é um diabinho e que é assim que eu a amo!

Foi só á sobremesa que Argemiro declarou ter tomado uma governante para casa, e querer d'ahi em deante ter uma visita da filha todas as semanas. Era um sacrificio para elle, homem tão occupado, ir alli a miude. Assim dividiriam o trabalho.

A sua Gloriazinha iria jantar com elle todos os sabbados, que era o seu dia mais livre.

A sogra parecia aterrada.

—Uma governante!... quem a inculcou? perguntou ella, mal disfarçando a sua má impressão.

—Ninguem; respondeu o genro placidamente; arranjei-a por annuncio.

A baroneza pulou na cadeira.

—Por annuncio! metteu em sua casa, na casa da milha filha, uma mulher por annuncio! E quer confiar-lhe a sua filha durante as horas em que ella estiver na cidade? Oh! meu amigo, isto não parece seu!

—Que queria, mamãe, que eu fizesse! Quantas e quantas vezes lhe pedi que me ajudasse a arranjar uma preceptora para Maria e que fôsse ao mesmo tempo governante da minha casa, e a senhora não se quiz nunca dar a esse trabalho... afinal eu não lhe roubo a neta. Maria da Gloria irá só aos sabbados. É justo que eu tambem gose um pouco da companhia de minha filha. Voltará no proprio sabbado, ou no domingo pela manhã...

—Era só o que faltava... Gloria dormir fóra de casa, entregue a uma mulher sahida Deus sabe de onde! Uma mulher de annuncio! Uma... A baroneza conteve-se; e depois de uma pausa, em que bateu com o garfo na mesa:—é velha, ao menos, essa creatura?

—É moça...

—Hein!?

—Tem vinte e poucos annos.

—Não é possivel, Argemiro, ter essa mulher em casa!

—Porque?!

—Não é conveniente...

—Pois já lá está. Entrou esta manhã.

—Poderá sahir esta noite...

—Não. Eu já esperava esta tempestade, e pela millesima vez direi isto: Eu não podia dispensar em casa uma pessoa que soubesse dirigir os meus criados, coisa de que eu sou incapaz. Reparem bem para o Feliciano: veste-se no meu guarda-roupa, fuma os meus charutos, folhéa as minhas revistas e serve-se da minha carteira muito melhor do que eu! Os outros, por seu lado, roubam como pódem e trazem o serviço mal acabado, feito por favor... Além disso, eu quero ter minha filha á minha mesa, uma vez por semana, ao menos, e não podia deixal-a só, entregue a homens, e que homens! Concordem que não é exigir muito!

—Pois sim! Fizesse tudo isso, mas arranjasse governante respeitavel, mulher edosa e com bons certificados... Conheço o seu caracter, sei que não poria nunca minha neta em contacto com uma... Ahi tremeu o queixo á baroneza e ella concluiu suffocadamente:

—Pobre da minha filha!

Houve um silencio constrangido. O barão interrompeu-o:

—Bom, bom! Está tudo determinado: aos sabbados Gloria irá visitar o pae. É muito justo...

—A moça é bonita, papae? perguntou Gloria.

A baroneza olhou para o genro com curiosidade.

—Não sei... fallei-lhe uma vez só, e ella levava a cara tapada por um véu lavrado, muito espesso. Mas não me pareceu bonita; nem mesmo isso me importa. Quanto aos attestados, mamãe, ella deu-m'os e bons. O Padre Assumpção tomou algumas informações a seu respeito e todas excellentes. Está claro que eu não tomaria levianamente uma mulher, a quem, embora por poucas horas, terei de confiar minha filha.

—Eu preferiria que você desmanchasse a casa e viesse morar comnosco... não sei o que parece ir uma mulher extranha para o logar de... minha filha...

—Oh, mamãe, que lembrança! A senhora repare que esta é uma mulher mercenaria, uma alugada, pouco mais do que criada, não passa d'isso... O logar de Maria é insubstituivel no meu coração, bem o sabe, melhor que ninguem. Quanto a eu morar aqui, isso é absurdo; preciso viver na cidade: os meus negocios não me permittem este luxo do campo... Agora só lhe peço uma coisa: tomar esta minha resolução como irremediavel e acceital-a, ao menos, por algum tempo...

Gloria assistira a toda a scena com muita attenção. O avô só no fim se lembrou da conveniencia de a afastar. Caldas, um pouco constrangido, demorava-se a descascar a sua laranja, conservando um silencio discreto, e foi só depois do jantar que elle pôde convencer o barão a vender as suas terras ao ministro para a formação da colonia suissa, exploradora dos lacticinios.

A baroneza retirou-se para o seu quarto, declarando uma enxaqueca subita. Argemiro aproveitou o momento para conversar um bocado com a filha.

—Escuta, meu amôr, porque é que tu não modificas esses teus modos de rapaz? Já estás crescida.

Ella abraçou-o com frenesi pelo pescoço.

—Olha que me amarrotas o collarinho! disse elle rindo. Não me respondes?

—Eu não sei!...

—Gostas de ir jantar commigo todos os sabbados?

—Se gosto! Havemos de ir ao theatro, sim, papae?

—Ainda é cedo... terás tempo...

—Eu tenho uma vontade doida de ir ao theatro!...

—Irás... irás, se fôres boasinha e docil a teus avós... teu avó queixa-se de que estudas pouco... não quero isso.

—Não gosto de estudar; não gosto e não quero.

—Não quero?! não quero! então isso é coisa que se diga?!

—É. Eu não quero mesmo! Se o papae soubesse como é aborrecido estudar! Outro dia fiquei com tanta raiva que até rasguei o livro!

—Oh!

—Que espanto! olhe, foi assim: vovô lembrou-se de me chamar, exactamente quando eu ia para a horta ajudar a Emilia a apanhar vagens...

—É muito divertido apanhar vagens?

—É mais divertido do que estar sentada ao pé de vovô, na sala, com a penna na mão ou o livro deante dos olhos! Eu estava lendo e estava pensando na horta, estava escrevendo e estava pensando na horta, estava fazendo contas e a maldita horta não me sahia da cabeça!... Vovô ralhou commigo; eu não sei que disse e elle levantou a régua para me dar... vovó entrou, zangou-se com vovô... Sahiram os dois, eu fiquei sózinha... um pouco arrependida... quiz estudar... abri o livro, mas não sei o que é que tinha nos olhos, que não via bem... Então, desesperada, rasguei o livro...

—O que tinhas nos olhos eram lagrimas, minha filha, lagrimas de remorso por ter respondido mal ao teu avô, que te ama tanto, e teres sido causa de outro desgosto ainda maior...

—Oh! papae! exclamou Gloria, atirando-se de encontro ao peito de Argemiro, lacrimejante.

—O que me vale é que tens bom coração...

Durante a viagem de regresso, Argemiro e Caldas fallaram pouco. Um pensava na familia, o outro em negocios. Foi já quasi no fim que Argemiro desabafou:

—Preciso tomar uma resolução séria a respeito de minha filha. Viste bem como a educam? O avô não sabe ser severo; a avó prejudica-a pelo seu excesso de amôr, e a menina cresce cheia de vontades e á lei da natureza! Se fallo em collegio, arrepiam-se; se fallo em trazel-a para mim...

—Estás doido? têl-a comtigo, como? Olha que eu não quiz nem podia intervir naquella scena de familia; mas a tua sogra tem razão. Que diabo! uma mulher, arranjada por annuncio, póde lá tomar conta de uma menina que está exactamente na edade mais delicada da mulher! Deixa a pequena com os velhos e arranja-lhe uma preceptora ingleza ou allemã. Verás o milagre. Vocês custam a atinar com as coisas simples! São uns complicados...

—Talvez tenhas razão...

—Por força. Eis-nos chegados. Apparece ámanhã na Camara, ás duas horas; o Telles vae soltar o verbo. Não faltes.

Argemiro chegou a casa muito fatigado e entrou para o seu quarto. Extranhou logo ao principio qualquer coisa que não pôde determinar o que fosse, mas que o impressionou bem. Ao pendurar a roupa no cabide de pé, viu que o tinham alliviado do grande peso de ternos de casimira, que o Feliciano deixava accumulados alli semanas e semanas, por preguiça de os escovar e guardar. Enfiando o robe-de-chambre, notou que lhe tinham pregado um botão que lhe faltava. E pensou: Realmente, só as mulheres sabem governar bem uma casa...

Sentou-se ao lado de uma mesa a lêr um jornal, mas a folha descahiu-lhe das mãos e elle pôz-se a olhar para um retrato da mulher, suspenso em um cavalletezinho de prata fôsca. A saudade da sua morta revivia todas as vezes que vinha de vêr a filha; sentia-lhe a falta então, poderosamente. Se ella vivesse! Ah, se ella vivesse correria tudo suavemente!

Argemiro levantou o retrato e contemplou-o de perto. Quantas vezes beijára aquella fronte larga e pallida, emmoldurada por cabellos loiros, que tão mal se adivinhavam na photographia! Que pena não ter Gloria herdado a finura d'aquellas feições, tão bem delineadas, tão puras, nem a doçura d'aquelle caracter, que só o ciume conseguia agitar. Pobre ciumenta, quantas torturas inventára para seu martyrio! Que imaginação a d'ella para crear fantasmas de amôres...

Argemiro cerrou os olhos, depondo o retrato sobre a mesa; e calculou: se ella fosse viva estaria agora com trinta e dois annos... teriamos um rancho de filhos... um rapaz... Tanto desejei um rapaz!... e Maria teria outra educação... Pobre da minha filha, foi a sacrificada!...

IV

Num bello sabbado, o Barão do Cerro Alegre trouxe a neta á cidade e foi depôl-a no escriptorio do pae, que a esperava, já impaciente. O velho não se demorou; tinha horror ás ruas abafadas e ás feias salas dos escriptorios. Mostrava-se mesmo apressado em se desembaraçar da incumbencia, temendo ser cumplice em algum desastre que acontecesse a Maria, que via cercada de perigos, sempre que sahia da sua chacara. Ainda assim, não se pôde conter e recommendou ao genro:

—Dizem que por ahi ha muitas febres... é preciso ter prudencia! A avó pede-lhe que não deixe a Maria comer dôces na confeitaria. Ella póde abusar, é gulosa...

—Vá descansado; e obrigado!

Emquanto Argemiro despachava uns papeis, Maria ora se debruçava na sacada, ora remexia todo o escriptorio do pae.

Mas Argemiro tinha pressa tambem de atravessar as ruas com a sua Gloriazinha pela mão, e abreviou o trabalho. Sahiram; e as recommendações dos pobres velhos foram absolutamente esquecidas...

Maria da Gloria agarrou-se ao pae, atordoada com o borborinho do povo com que ia esbarrando; aquillo alvoroçava-a sem divertil-a, mas a pouco e pouco, a cada paragem para uma conversa de minutos, em que os amigos do papae lhe beijavam a mão, como a uma princeza, acordava nella uma curiosidade extranha por esta vida da cidade, tão embaraçada de enleios. Queria ver tudo, retinha Argemiro em frente das vitrinas, embarafustava pelas lojas; e como via em exposição muitas coisas que não tivera nunca, exigia-as do pae, que, docil como a cêra molle, ia comprando tudo, sentindo-se ainda feliz por satisfazer assim a sua Maria, só d'elle, nesse sabbado bemdito.

Quando chegaram ás Laranjeiras, o pae subiu logo para o seu quarto e recommendou a Gloria que esperasse na sala Alice Galba, a quem mandou avisar, pelo Feliciano, que viesse receber a menina.

Maria recostou-se no sofá, esmagando no estofo as papoilas do seu chapeu á jardineira. A antipathia da avô suggerira-lhe instinctiva repugnancia por essa intrusa, como chamavam lá em casa a governante das Laranjeiras. Ah, mas Gloria tinha o seu plano, não deixaria que a outra tomasse confiança comsigo. Uma alugada, uma mercenaria!

E dava-se ares de grande dama, muito atirada sobre os almofadões de pellucia, com uma expressão de desprezo afeiando-lhe a bocca e as suas faces rosadas, de criança. Realmente aquella attitude não era agradavel, o chapeu sobretudo incommodava-a mortalmente, e sentia enterrar-se-lhe nas costas, como um castigo, a ponta de um colchete. Supportou o sacrificio heroicamente, até que viu entrar na sala, com o modo mais simples e desembaraçado do mundo, uma moça, nem bonita nem feia, vestida de cinzento, com aventalzinho preto e um molho de chaves pendentes da cintura.

Gloria impertigou-se mais. Alice approximou-se d'ella sorrindo e estendeu-lhe as mãos, duas mãos muito brancas e longas. Gloria levantou-se, sem se dignar tocar nessas mãos, e disse com aspereza:

—Quero vêr o meu quarto.

Alice contemplou-a com tristeza e curiosidade; depois, voltando as costas:

—Siga-me...

Atravessaram o corredor, subiram uma escada e entraram em um quarto forrado de azul, com janellas abertas para os lados do Sylvestre e duas camas brancas.

—É aqui?!

—É aqui.

—De quem é esta cama?

—Sua.

—E aquella?

—Minha.

—Eu quero dormir sózinha; não sou medrosa. Arrange outro quarto para mim. Agora, tire-me o chapeu!

Gloria sentou-se na cama, brutalmente. Alice tirou-lhe o chapeu e endireitou-lhe o cabello. A menina foi ao espelho, achou-se bem penteada e lá no fundo da sua consciencia concordou que jámais sentira pousar sobre a sua cabeça mãos mais habilidosas. Voltando-se, contemplou Alice de alto a baixo, e perguntou:

—Quantos annos tem?

—Vinte e tres.

—Parece mais velha.

Alice sorriu.

—Eu tenho doze...

—Parece mais criança...

—Hein?! toda a gente diz que já pareço uma moça! É myope?

—Parece criança no juizo, minha amiguinha, e é por eu vêr muito bem que lhe digo isto... Não seja má... venha lavar as mãos; seu pae espera-a para jantar; não está ouvindo o tympano? É o signal...

Gloria tremia, sem atinar com a resposta para semelhante affronta. Depois, num desabafo:

—Você é muito grosseira!

Alice apoiou-se ás costas da cama e fechou os olhos.

—Bem diz vovó: sempre é mulher de annuncio!

—Quê?!

Gloria não respondeu, e correu, rindo ás gargalhadas, para a mesa do jantar.

Argemiro esperava-a de braços abertos.

—Ah! como a tua alegria me faz bem ao coração! Senta-te aqui e conta-me: por que te ris tanto?

—Por nada... átoa!

—Átoa! como é bom rir átoa!

Como eu preciso da tua innocencia ao pé de mim! Ri sempre, meu amôr!... Olha o guardanapo... Estás contente?... aqui tens o teu pãozinho... É a primeira vez que jantas sozinha com teu pae... que te parece? Olha a tua sopinha... Está a teu gosto?

—Eu não quero sôpa.

—Estás sem apettite?

—Eu não gosto de sôpa.

—Ah, aqui é preciso gostar de tudo, minha senhora! uma pessoa de educação nunca diz a uma mesa:—eu não gosto d'isto, eu não gosto d'aquillo... toma a tua sopinha... E agora dize-me: como achaste a D. Alice?

—Horrenda.

Feliciano sorriu, sorriu com tamanha indiscreção, que Argemiro reprehendeu-o com um olhar.

—Seja boa e é o que se quer... precisas tratal-a com delicadeza e amizade; ouviste? é, graças a ella que te tenho hoje aqui... Queres vinho? muito pouco... com agua... assim... Ora, a minha Gloria! Tomára já ver-te moça e tomando conta definitivamente d'isto tudo, para ter-te sempre aqui... sempre!

Gloria, que recusára a sôpa, comia agora com satisfação. O pae revia-se nella, todo contente.

A mesa estava bem posta; desde que Alice entrára não deixára de haver flôres e fructas ao jantar.

Gloria, confundindo a elegancia com o luxo, exclamou:

—Que mesa rica, papae!

—Se viesses jantar commigo antes da D. Alice estar aqui, não dirias isso, embora na mesa estivessem as mesmas porcellanas e os mesmos talheres. Repara nisto, minha filha, que a arte e o gosto dão ás coisas mais simples uma apparencia de conforto e de alegria muito agradaveis á vida. A minha mesa era triste... agora é assim!

Feliciano franziu as sobrancelhas, mal humorado. Gloria confessou:

—Lá em casa só se botam flôres na mesa em dia de visitas...

—Porque tua avó é uma senhora velha e cansada. Compete agora a ti esse trabalho. Informa-te com a D. Alice a esse respeito. Ella parece perita na arte de fazer bouquets. Repara para aquelle...

—Quem não sabe!

—Pensas que é facil?

—Tenho certeza.

—Pois então incumbo-te de fazeres todos os dias um ramo para a mesa de teu avô...

—Está dito.

Argemiro não cessava de olhar para a filha, num embevecimento de noivo, muito sollicito em servil-a, provocando-lhe as expansões, com uma alegria de moço. Ella percebia a adoração e abusava, ora rindo, ora franzindo o narizinho aos pratos que o Feliciano lhe apresentava.

Entre as peças da baixella figurava nesse dia na mesa do jantar um candelabro de prata fosca, que Argemiro reconheceu com difficuldade, tal era o tempo em que esse objecto vivêra segregado no fundo escuro de um armario. Na verdade, Alice caprichára em adornar a mesa! Seria uma homenagem a esse jantar de festa, só de dois talheres, para um homem quasi velho, e uma menina quasi moça?

Quando o Feliciano offerecia a Gloria uma fatia de coelho assado, ella exclamou, batendo com o cabo do garfo na mesa:

—D. Fuas morreu, papae!

Argemiro contemplou-a com espanto; mas desatou logo a rir deante da expressão de seriedade quasi comica da filha.

—O teu gato?

—O meu coelho branco... Todas as manhãs, quando me levantava, a primeira coisa que eu fazia era correr para o páteo da criação... D. Fuas conhecia-me e vinha para mim... eu levava sempre muita couve para elle, e gostava de ver aquelle focinhinho, toca que toca, mastigando a verdura... Hontem desci, e nada de D. Fuas! Procura para aqui, procura para alli, e fomos achar o coitado embaixo da paineira, todo esticadinho, e ainda mais branco porque estava cobertinho de paina... Então eu e a Emilia fizemos uma cova, forramos a terra com a paina limpinha, deitámos alli D. Fuas, tornámos a cobril-o com paina, depois com terra, e acabou-se!

—Choraste?

—...Chorei... mas vovô prometteu-me outro!

—Á saude do outro que ha de vir e que te consolará!

Argemiro bebeu convictamente á saude do coelho, como se o fizera á de uma illustre personagem. Como elle adorava e era grato a tudo o que alegrasse a vida da sua Gloriazinha!

Ouvia-a com tal interesse, que a chamma infantil dos olhos d'ella ateava-lhe n'alma curiosidades de criança, tambem. Eram dois meninos á mesa, áquella mesa que Alice enfeitara como para um noivado.

Passaram então a discutir as qualidades dos animaes predilectos.

Argemiro elogiou os gatos. Gloria repellia-os; preferia os cães e cães de fila, que mordessem os outros e a adorassem a ella! Confessou ter muito desejo de ver leões e elephantes. Contou que uma onça, fugida do Jardim Zoologico, andára rondando a chacara: mas que, visse o pae que exquisitice! ella só se lembrava de temer a féra á hora de ir para a cama, quando estava toda a casa fechada... De dia não; corria pela horta, pelo pomar... Mas á noite!...

—És medrosa?

Ella fez notar ao pae, com um olhar, o Feliciano.

—Que mulherzinha! pensou Argemiro; e riu-se. Embora quizesse, elle não pôde prolongar a demora na mesa; Gloria ardia de impaciencia; comêra muito depressa, com a idéa de andar pela casa toda, a sua casa, que ella dentro de poucos annos governaria... E relanceou um olhar de dominio em redor de si.

—Bem, meu amor, gira um pouco pela casa e vai depois fazer companhia á D. Alice...

Feliciano informou:

—Ella está jantando.

—Ella janta na cozinha? perguntou Gloria no tom mais natural do mundo.

—Não, filha; ella tem a sua mesa.

—Então cada criado aqui tem a sua mesa? Lá em casa...

Feliciano riu-se. Argemiro atalhou:

—Não digas mais. D. Alice não é uma criada; representa aqui a dona da casa.

—Tal qual como se fosse mamãe?

Feliciano olhou de esguelha para o patrão.

—Tal qual, não; basta dizer que á D. Alice eu não a vejo nunca, e que estava sempre ao pé de tua mãe; mas para manter a ordem da casa e dirigil-a, é como se fosse.

O ciume da avó relampejava agora nos olhos da neta. Gloria olhava para o pae numa attitude de desafio.

Toda ella crescera em um instante, como se a raiva a insuflára; e no momento mesmo em que ia formular um protesto, que lhe custava a articular, o padre Assumpção entrou na sala, dando risonhamente as bôas noites.

Argemiro despegou vagarosamente os olhos da filha e ficou por um bocado alheio a tudo o mais, sem responder aos cumprimentos do amigo.

—Que tens tu?! perguntou-lhe o padre, que lhe pousou no hombro a mão espalmada depois de ter abraçado a menina.

—Nada... Chegas a proposito; vem ao meu escriptorio. Gloria, vai tocar um pouco; experimenta o teu piano, emquanto D. Alice acaba de jantar.

—Eu não preciso d'ella!... resmungou a menina, dirigindo-se para a sala.

—Ouviste? Eu não preciso d'ella! A prevenção da minha sogra imbuiu no espirito de minha filha uma antipathia medonha por esta pobre moça que tenho em casa e que ainda verdadeiramente nenhum de nós conhece! Ora, eu preciso de uma mulher em casa, exactamente para poder chamar minha filha a mim, e gosar, embora fortuitamente, a sua companhia; e vêm-me a criança cheia de azedumes e idéas preconcebidas contra a unica pessoa a quem posso confial-a! Como ha de ser?

—Fazer com que se estimem.

—Mas como?! Sem convivencia, e com más insinuações... não ha amisade possivel. A minha filha tem ciumes! Herdou o tormento da mãe, que tão bem conheceste, e o unico defeito da avó... isto é, herdaram ambas, d'ella, o mesmo sentimento, porque só são ciumentas de mim! Minha sogra confessa nunca ter tido ciumes do marido, e, entretanto, não dou um passo em que não sinta a sua vigilancia!

A alma da filha parece ter-se incarnado nella, e é essa talvez a attracção poderosa que me chama a si... mas esse excesso de zelos vae estragar-me á pequena... Não imaginas o gesto de revolta que ella fazia no momento em que entraste, só porque eu prestigiava a governante! E agora?!

—Agora vaes sahir por umas duas horas, e eu ficarei seroando com a nossa Maria e a tal senhora.

Quero vel-as a ambas reunidas; não fazes obra acertada atirando tua filha, muito selvagem mas muito innocente, para os braços de uma creatura que tu não conheces... Convem estudal-a...

—Mas, homem de Deus! não me trouxeste, tu mesmo, as melhores informações d'essa tal senhora?

—Sim... disseram-me que é uma moça honesta... de boa familia... pobre... saude de ferro... Foi o que me disseram; mas isso bastará? Para governar teus criados, sim; para captar Maria e conviver, mesmo que por poucas horas, com ella... não!

—Neste caso voltamos á mesma. Despeço a mulherzinha e nunca mais tornarei a ter a minha filha aqui, commigo, só commigo, livre um bocadinho d'aquella atmosphera da chacara, que a faz tão malcriada... tão aborrecida e até antipathica. Acabou-se.

—Nada acabou; tudo começa agora. Foste sempre prejudicado pela tua impaciencia, homem! é tempo de te corrigires. Vai passear. Dizem que ha bonitas coisas ahi pelos theatros... resigna-te a perder um pouco do teu tempo indo ver qualquer d'ellas... Ahi tens o jornal, escolhe.

—Não tenho pachorra...

—Eu iria a uma magica. Contam maravilhas d'esta—Fada Azul...

—És um homem innocente!

—Sou padre... mas se te não diverte a magica, vae a outra parte, mas vae! Que diabo! lembro-te tão bom alvitre e ainda vacillas!

—Vaes aborrecer-te...

—Menos do que tu...

—É possivel...

—É certo. O teu chapeu está alli... queres que te procure a bengala?!

—Parece-te que estou á espera que me dês com ella no lombo para então sahir?

—Já me lembrei d'isso...

—Se não fosses padre...

—Não proporia zelar por tua filha com tamanho interesse...

—Por que?!

—Porque seria provavel que estivesse velando pela minha...

Argemiro levantou os olhos para o padre Assumpção, com uma pontinha de espanto, e mal lhe percebeu nos labios finos um fio subtil de ironica amargura.

—Está bem; cedo-te por instantes o meu logar e dir-me-ás depois se elle vale a solidão a que te condemnaste!...

O padre Assumpção desceu á sala onde Maria arranhava o teclado com uma furia de gata brava. Encostou-se ao piano, ouvindo as desharmonias d'aquella criança, em que elle sentia um vago perfume da saudade materna. Quão differente fôra a mãe, toda delicadeza e graça, do que era agora a filha! Na penumbra da sala reconstruia-lhe o vulto airoso e fino, que os bandós loiros illuminavam de uma luz branda, de sol de primavera.

Que linda a vira naquella mesma sala, áquella mesma hora...

Maria levantou-se com impeto. O padre Assumpção attrahiu-a a si e beijou-a na testa, com infinita ternura.

—O senhor está tremulo... Onde está papae?

—Teu pae sahiu. Manda accender o gaz da saleta e convida D. Alice para vir passar o serão comnosco.

—Não gosto d'ella...

—Por que?

—Não sei... e o senhor?

—Eu gosto de toda a gente, minha filha... de uns mais... de outros menos, mas não quero mal a ninguem. Vae pedir á D. Alice, com muito bom modo, que nos faça o favor da sua companhia por umas duas horas...

—Papae foi ao theatro?

—Não.

—Onde foi?

—Não sei... d'ahi, talvez tivesse ido ao theatro...

—Sem mim?!

—Sem ti.

—Que desaforo!

—Hein?! Ah! Maria, precisamos mudar de genio... Não te quero assim... faze o que te disse, anda.

—Vamos antes para a janella.

—Não. Vae chamar D. Alice.

—Ella é muito enjoada! muito feia!

—Seja como fôr; quero conhecel-a.

—Ah! se é só para isso! Que bicha!

Maria percebeu de relance que havia uma intenção occulta naquella insistencia e movida pela curiosidade acabou por ceder á ordem do padre.

E o serão correu tranquillamente. Alice trouxera a sua cestinha de trabalho e um livro de historias, confiando pouco nos seus meritos de conversadora.

Vendo que Maria se impacientava, propoz-lhe ensinar-lhe um ponto facil de crochet, com a lã do seu agrado, Maria repelliu o offerecimento; mas, aconselhada pelo padre, acceitou-o por fim. Ella detestava os trabalhos de agulha, que achava difficeis de comprehender. Alice tinha o condão de explicar tudo com tamanha simplicidade e clareza que a intelligencia mais rebelde se esclarecia ás suas palavras limpidas e teimosas. Maria interessou-se, por fim, tentada por uma meada de lã vermelha; e, ora vendo ora tentando fazer, guiada pelas mãos pacientes e ageis da moça, conseguiu aprender não só esse ponto como outro mais complicado.

—A senhora é paciente... Gosta de crianças?

—Muito!

—Tem irmãs pequenas?

Alice olhou para o padre Assumpção com ar de queixa. Para que interrogal-a, naquella hora distrahida, acordando-lhe a saudade da familia ausente ou perdida?

Foi isso que o padre pareceu sentir na expressão da moça.

Entretanto, ella disse:

—Tive... uma...

Como Gloria se atrapalhasse, tirou-lhe o trabalho das mãos, adiantando-o um pouco, para influir a menina.

—Repare bem; olhe... uma volta... outra volta... vou bem devagar... comprehende?

Maria arrancou-lhe a agulha e o novello das mãos com impaciencia, morta por fazer ella mesma o trabalho. O padre reprehendeu-a; Alice sorriu.

—Deixe... são todas assim!

Decididamente, esta rapariga não é uma rapariga vulgar, pensava de si para si Assumpção, olhando para a moça. Havia no seu vestido pobre, de lã barata, uma elegancia reservada e distincta. O cabello, sem frizados, de um castanho escuro, desnudava-lhe a testa clara, enrolando-se num penteado de uma graça discreta. As mãos bem tratadas, longas e pallidas, traçavam os gestos com firmeza de quem conhece o seu valor; e a sua voz, um pouco grave, tinha a doçura de uma queixa disfarçada. As feições vulgares não lhe offereciam nenhum traço caracteristico, e o padre Assumpção impoz-se penitencias, para castigar a sua vaidade, presumindo que na curta convivencia de duas horas, pudesse conhecer bem uma mulher! Começava a ter medo de sympathisar com esta, e que esse sentimento lhe tolhesse mais tarde acções imprescindiveis para a salvação do amigo e de Maria...

Conversaram os tres durante todo o serão. E afinal, qual foi o resultado de tantas palavras ditas e ouvidas? Nenhum... no serão o lucro correra todo para Gloria, que aprendera a fazer crochet e ainda ficara de uma assentada dona da agulha e da meada de lã.

V

Argemiro ouvia um constituinte no seu escriptorio da rua da Quitanda. A causa era chôcha; o homem expressava-se mal, perdendo palavras sobre palavras. O advogado deixava-o fallar, olhando silencioso para os raminhos azues do papel reles, como se pedisse ás paredes encardidas a paciencia de que deviam estar impregnadas.

Effectivamente, toda aquella casa, onde o cupim voraz trabalhava de parceria com os medicos especialistas, advogados e solicitadores, parecia derrear-se ao peso da sabedoria e da malicia.

Á noite, fechados os escriptorios e cubiculos, os ratos, passeando por aquelles corredores e alcovas desertas, commentariam as chicanas, as mentiras e os segredos, com que a sciencia transfigura a verdade e uns homens enganam os outros... E não seriam poucos os ratos, porque ás vezes, mesmo á plena luz do meio-dia, surgia de qualquer canto obscuro o focinhito agudo de um d'esses roedores mais curioso, como a querer tomar contas do que se passasse; e a sua murrinha vagava na casa, de frente a fundo, enchendo-a como uma alma.

O constituinte de Argemiro voltava ao principio da sua exposição; temia ter esquecido algum detalhe precioso, e a consulta era cara... foi num desses pontos de repetição que o criado apresentou ao advogado um cartão da Pedrosa.

—A mulher do Ministro!

Argemiro abotoou o collete de fustão e prometteu ao homenzinho que faria tudo por elle, mas que se fosse embora!...

O outro atropellou as ultimas perguntas e marcou nova entrevista.

Atravez a meia parede de tabique ouvia-se na sala proxima o frou-frou das sedas abafadas em lãs e um sussurro de vozes femininas. Logo, a Pedrosa não viera só... Argemiro não a via desde a noite em que fôra cumprimentar o marido pela sua nomeação. Que a traria alli?

O aroma do Bouton d'or introduzia-se pelas frinchas das portas, invadindo tudo, soberanamente.

Argemiro considerou aquelle aroma como muito indiscreto, mas gostou.

A Pedrosa afinal... Ora, com que então estava no seu escriptorio a mulher do Ministro!... elle ageitou o nó da gravata e foi recebel-a á porta. Ella entrou logo, com o olhar reprehensivo, o busto impertigado e um sorriso amigo na bocca descorada. Atrás d'ella vinha a filha, muito espigada, mais alta do que a mãe, com um arzinho petulante no rosto claro, de feições miudas.

—Seu mau! então é preciso que a gente o venha ver aqui?!

—Oh, minha senhora...

—Não se desculpe, nem me agradeça a visita.

D'ahi rompeu a fallar, queixando-se de não ter o marido um minuto de descanço que lhe permittisse tratar dos seus negocios particulares, vendo-se ella na contingencia de intervir, como fazia agora, a contragosto... Ia consultar o advogado e o amigo...

Argemiro agradeceu.

Emquanto a Pedrosa remexia na sua bolsinha de camurça, procurando um documento qualquer, o advogado olhou para a Sinhá, que não desviava o olhar de cima d'elle, numa expressão perturbadora, de mulher amorosa.

—Diabo! pensou elle comsigo.

A consulta representava um pretexto. O negocio dispensaria a intervenção do advogado; todavia, a Pedrosa parecia não se importar de passar por estupida: repetia as perguntas com uma difficuldade de comprehensão que dava tempo á filha de espichar a alma pelos olhos fóra.

Mas o coração do viuvo parecia fechado a sete chaves e duro como uma pedra. Sinhá levantou-se, deu um giro pelo escriptorio, riu, fallou, interrompeu a mãe e sentou-se depois mais perto do Argemiro, deixando-lhe cahir de encontro a um joelho, por descuido, a sua linda sombrinha de seda e rendas brancas.

Como o assumpto da consulta já não désse de si, a Pedrosa embarafustou por outras portas: as ultimas récitas do Lyrico, o jantar do Presidente, o casamento do Angelo Barros... aquelle Angelo que dizia ter feito tambem o juramento de ficar solteirão!

E a proposito a Pedrosa perguntou ao Argemiro quando teria de assistir ao seu...

—Eu já me casei, minha senhora...

—Sabemos; mas ser viuvo é como ser solteiro...

—Estou velho...

—Pois sim, a verdade é que eu conheço mais de uma moça bonita que se daria por feliz se o senhor a escolhesse... Olhe, na festa da apresentação de Sinhá, houve uma que ficou enfeitiçada pelo senhor.

Mãe e filha trocaram um olhar e riram alto. Depois, a Pedrosa continuou:

—É raro o homem que enviuva que se não torne a casar; o que é a melhor prova a favor das mulheres... Ora, o seu coração por que ha de ser mais insensivel que os dos outros? Um segundo casamento é ainda uma homenagem ao primeiro... Só procuramos repetir os actos que nos trazem felicidade...

—Será assim, mas o meu coração é pequeno para as saudades que tenho. Está todo occupado pela minha morta...

Sinhá levou o lenço ao rosto e uma nuvem de Bouton d'or adejou pela feia sala do escriptorio. Argemiro percebeu o movimento e deliciou-se com o aroma. Que significaria aquelle gesto? Colheria o lenço uma lagrima ou disfarçaria um sorriso? Seria elle realmente amado por aquella criança, ou simplesmente preferido por aquellas mulheres como um marido de posição? Deveria ter pena, ou deveria ter nojo?

Ah! a pobre Sinhá talvez não tivesse culpa; quem era odiosa era a mãe, que assim o vinha provocar no logar do seu trabalho arrastando pelos degraus carunchosos d'aquella casa de homens, a sua filha solteira, apenas sahida do collegio! Mas a verdade era que o olhar da pequena perturbava-o, mais pela sua expressão, que pela sua fixidez. Obedeceria ella á suggestão da mãe, ou agiria a mãe em obediencia a uma supplica da filha? Argemiro, apesar de lisonjeado na sua vaidade de homem, começou a desejar a sahida das duas senhoras; mas a Pedrosa não parecia apressada e entrou pela seara da politica, como entrára pela do amor.

Acertou no ponto de fascinação. Ella estava bem informada; Argemiro abriu ouvidos curiosos e dobrou-se na cadeira para escutal-a de mais perto. Ella era indiscreta, por ser com elle... pedia segredo de algumas affirmações, mostrando-se de vez em quando em opposição a actos do marido...

—Pedrosa morre por servil-o em qualquer coisa... veja se inventa um pedido, para contental-o... concluiu ella, levantando-se com um arzinho malicioso nos olhos espertos.

Sinhá imitou-a, quebrada de languidez, como desanimada...

Argemiro observou-a de face; ella baixou os olhos, corando. Estava galante.

—Recebemos ás sextas-feiras e Sinhá tem umas amigas novas que desejam conhecel-o... o senhor anda muito arredio, mas nem só de saudades vive o homem... é preciso distrahir-se e ser amigo dos seus amigos! Até sexta-feira?

—Até sexta-feira.

Sahiram, e ainda por alguns minutos vagou na atmosphera o aroma d'ellas. Argemiro poz-se a remexer nos seus papeis, pensando:

—E haver quem se case assim, pescado, pescado como um peixe! Não seria mais digno que a Pedrosa viesse a mim e dissesse: minha filha ama-o desde a primeira vez que o viu; o senhor convem-me para genro; quer casar com ella?

Elle mesmo se riu da idéa. Essa innocencia de costumes só passaria pela cabeça de um doido; e de mais pol-o-ia em embaraços. Que responderia elle á coitadinha?

D'ahi, talvez que tudo fosse velleidade sua. Os seus cabellos começavam a estriar-se de branco e Sinhá deveria ter ideaes moços... Fôra com certeza illusão... Não lhe faltariam a ella, bonitinha e moça, bons partidos. Todavia...

Apoderou-se d'elle uma doce tristeza. Não poderia amar nunca mais! Nunca mais? Fôra tamanho o encanto da sua Maria, que nenhuma outra mulher tivesse jámais o poder do o emocionar?

Nenhuma! Ella perdurava no seu espirito como o conjunto de todas as perfeições. A sua figura esguia e branca, que a cabelleira aureolava de ouro pallido, plantara-se no seu coração como uma sentinella prompta a repellir á invasão de um sentimento amoroso, por mais leve e subtil que elle fosse.

O continuo voltou, annunciando novo constituinte.

Nas suas tócas os ratos faziam provisão de assumptos para os commentarios da noite, nos livres passeios das salas e corredores... e o novo consultor fornecer-lhe-ia materia para ironicas conclusões: era um velho que procurava salvaguardar os direitos da sua casa de jogo encapado em disfarces, com que espoliava incautos e viciosos. Argemiro indicou um collega mais habil no assumpto. O outro sahiu, elle poz-se a ler, á espera do Caldas para um negocio de valor.

Razão tinham aquellas paredes para parecerem desgostosas e estarem enxovalhadas. Só a torpeza que rolava entre ellas!

VI

Desde que fôra entregue aos avós, era a primeira vez que Maria da Gloria dormia fóra de casa. A baroneza morria de impaciencia por vêl-a voltar; á tristeza da ausencia juntava-se um cuidado que a punha doente. Que teria succedido á sua netinha, longe do seu carinho e da sua vigilancia? Se ella chegasse com febre! Que idéa maldita a de tirarem a criança d'alli, para a metterem na cidade, por uma noite inteira!

Mas a Maria chegou alegre. Saltou do carro sobraçando um grande embrulho de pasteis.

A baroneza estendeu-lhe os braços, com os olhos luzindo de alegria.

—Vem, meu amor! Eu estava com tantas saudades!! Coitadinha...

—Coitadinha por que, vovó?! Eu estou boa. Gostei muito!

—Ah, gostaste muito... Então não tiveste saudades minhas...

—Tive, mas gostei. Tome estes pasteis, são muito bons.

—Eu tambem tenho um doce guardado para ti.

—Onde está?

—Depois... escuta, conta-me o que fizeste.

—Passeei com papae, toquei, brinquei... Já disse: gostei muito!

—E...

—E... e o que?!

—A tal... a tal mulher, como a achaste?

—D. Alice? É tão boa! sabe? hontem ella me ensinou a fazer crochet, e deu-me depois a agulha e o novello de lã!

—Ora que prenda, crochet! Eu não aprecio isso. Ella é bonita ou feia?

—É bonita!

—Ah...

Maria percebia bem que a avó não estava contente; mas continuava a açular o seu ciume, com maldade.

—Tomaste banho hoje?...

—Tomei. Foi D. Alice quem me penteou. Sabbado voltarei para lá, sim, vovó?

—Já?! mal chegaste já pensas em voltar!

—D. Alice pediu...

—Ora, D. Alice!

A baroneza retinha a neta a custo entre os braços. Maria tinha pressa de ir ver os coelhos e verificar se lhe tinham apanhado uma bella manga-rosa que ella trazia de olho havia dias...

—Socega, menina! Olha para mim!

—Estou com pressa...

—Deixa-me tirar a faixa... como este laço vem mal dado... não has de ir com este vestido para o quintal!

Que penteado! logo se vê que a tal mulher não tem geito para tratar de crianças!

—Como não tem?! É tão delicada...

—Dize-me cá: em que quarto está dormindo?

—No quarto azul...

—Da sala de jantar?!

—Não. Em cima, aquelle do terracinho.

—O gabinete de trabalho de Maria! Será possivel? Para uma empregada, um quarto tão bonito...

E tu, onde dormiste?

—Ao pé d'ella.

—Na mesma cama?!

—Não; mas no mesmo quarto...

A baroneza suspirou. Ella não pudera conciliar o somno, em frente á cama vasia da neta! e a criança ingrata, ao lado da inimiga, nem pensara nella!

O trabalho da baroneza seria agora afastar Maria quanto possivel da idéa de voltar á cidade. Disputal-a-ia á outra, a ferro e a fogo. A verdade é que Maria exagerava a sua sympathia por Alice, por perceber o desgosto da avó, assim como se comprazia em torturar Alice na ausencia da baroneza...

No meio d'essa semana o Feliciano foi, a mandado de Argemiro, levar uma carta á chacara dos velhos.

Gloria corria pela checara; o barão lia sob alpendre e a baroneza, a seu lado, serzia meias, socegadamente. O negro, todo emproado e bem vestido, entregou a carta á velha, que foi a mais prompta em estender a mão.

—Então, Feliciano, como vae tudo por lá?

O negro sorriu, meneou a cabeça e calou-se.

—Que temos? indagou o barão.

—Uma carta do Argemiro; pede-me que não me esqueça de mandar Maria no sabbado!...

—Pois lá a levarei.

—Não póde ser. Vou no domingo com ella á Tijuca; já está isso decidido.

—Tijuca! que idéa é essa?

—É uma idéa como outra qualquer! Estou sempre como os caracoes mettida em casa, e quando fallo em sahir lá vem tudo a baixo!

—Estimo que saias; mas que diabo! vae noutro dia á Tijuca e deixa a pequena ir vêr o pae no sabbado, como se combinou.

—Ha muitos sabbados; neste ella não poderá ir. Elle que venha jantar comnosco no domingo.

Eu vou almoçar á Tijuca com a minha neta e voltarei ás quatro horas para casa. É uma promessa.

—O Argemiro póde ficar sentido...

—Que fique. Eu preciso mais da neta que elle da filha. Lá tem outras consolações...

O Feliciano sorriu e approvou com a cabeça. O barão levantou-se e foi para o escriptorio responder ao genro. Antes mesmo que a baroneza perguntasse qualquer coisa, o Feliciano resmungou:

—Aquella casa já não parece a mesma... se a senhora visse! Até me dá saudades de quem está no céu!... Pobre de quem morre!

A baroneza suffocou o desejo de indagar do criado aquillo que mais queria, e recomeçou a trabalhar, limitando-se a offerecer:

—Entre, Feliciano; vá lá dentro tomar uma chicara de café.

—Obrigado; tomei lunch lá em casa antes de sahir... apesar de que agora anda tudo muito contadinho...

—Isso é bom. O tempo não está para estragos...

—Sim, mas poupa-se de um lado para se gastar do outro; afinal, para o patrão as despezas talvez sejam maiores... D. Alice tem uma récua de parentes pobres... Para a gente ás vezes o pão não chega, entretanto não bate bicho-careta na porta que ella não dê do bom e do melhor do armario. Até vinho.

—Até vinho! exclamou inconscientemente a baroneza; e logo, reprimindo se: a caridade é aconselhada por Deus...

—Mas deve começar por casa... A senhora não diga nada ao patrão, porque elle agora é só: D. Alice na terra e Deus no ceu!

—Ah...

—A senhora sabe que eu sempre fui um empregado de confiança, que punha e dispunha de tudo como entendia; pois hoje não posso mover uma palha, que não me tomem satisfações. Ella, com o seu modo de santinha, faz tudo quanto lhe dá na cachóla! Eu não gosto de fallar, mas... ha certas coisas... hontem não affirmo, mas pareceu-me que D. Alice trazia no peito um alfinete...

A baroneza pousou a costura nos joelhos e levantou os olhos para o negro.

—A senhora não se lembra de um alfinete que Yayá sua filha gostava de usar e que representava uma andorinha de pedras?

A velha corou até á raiz dos cabellos e abriu a bocca, como se lhe faltasse o ar.

—Não diga nada ao patrão, pelo amor de Deus! eu não affirmo... Póde ser outro alfinete... sómente...

—Cala-te!... É impossivel que as coisas chegassem até esse ponto!... Oh! minha filha!

—A senhora perdôe... mas acho do meu dever...

—Eu fallarei a Argemiro!

—Pelo amor de Deus! a senhora me perde! Deixe eu adquirir certeza e depois lhe direi toda a verdade... juro por quem está no céu! Lá vem seu barão... não diga nada a elle tambem!

—Por que não? estás doido! Se não mentes, não deves temer coisa nenhuma!

—É porque assim serei despedido e não poderei velar de perto pelo interesse de D. Gloria...

A baroneza já não ouviu as razões do preto e gritou para o marido, num desabafo:

—Sabes o que me disse o Feliciano?! Que a tal Alice se empavôa com as joias de nossa filha, joias que só podem ser usadas por Maria! Vê a que ponto chegou aquillo! E ainda querem levar a minha Gloria para lá! Nunca mais!

O barão voltou-se furioso para o negro, que repetia afflicto as suas palavras:—não affirmo... parece-me... não digam nada, pelo amor de Deus!

—Vá-se embora! E não me torne cá, seu patife! gritou-lhe o velho, fóra de si. Não queremos saber de nada, ouviu? De nada! Suma-se!

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