Julia Lopes de Almeida (continued 3)
Reading edition
—Ella ha de me pagar!
O que elle queria agora era saber bem da sua vida, penetrar no mysterio d'aquella existencia fluctuante, sem raizes conhecidas; assenhorear-se de um segredo que a tornasse escrava da sua vontade poderosa.
Como aos de Adolpho Caldas, ella tambem representava aos seus olhos o encardido papel de especuladora.
Não era outra coisa; mas a intrusa teria o seu castigo, zurzido com mão de ferro, na hora marcada pela sua justiça.
O arrependimento entraria então no coração de Argemiro.
O bond tardava e Alice não diminuia o rythmo dos passos. Antes assim; elle gostava de ir andando a pé, atrás d'aquella figurinha nervosa e fugidia.
Quem tanto se apressa, corre para a felicidade, que para o aborrecimento o passo é tardo. Pensava o negro: ella vai para alguma entrevista de amor...
Isso contrariava-o... e crescia-lhe com essa idéa a raiva pela usurpadora dos seus regalados descanços e da sua autoridade de chefe!
Ella matara o seu prestigio. Viesse quem viesse depois d'ella, encontraria lançada na casa a semente da desconfiança. Fôra um dia o Feliciano, que lia jornaes nas cadeiras do amo, com deliciosos charutos entalados entre os beiços!
Um bond! E o bond parou a um gesto de Alice, que subiu para um dos bancos da frente, conchegando com um arrepio o casaco côr de mel ao corpo friorento.
Feliciano, em pé na platafórma, não a perdia de vista.
No largo do Machado ella desceu e passando pela frente da igreja tomou a direcção da rua Bento Lisboa.
O negro, a pequena distancia, ia atrás d'ella, dando graças ao vento que fazia ulular o arvoredo da praça, abafando outros rumores. Na rua Bento Lisboa, Alice accelerou a marcha. Parecia levada por um grande desejo. Feliciano espiava-a afflicto, numa anciedade!
A sua admiração era não vêr apparecer um homem, a quem ella désse o braço, que a compromettesse e o ajudasse na intriga... De resto, elle não queria crêr, queria denunciar!
—De repente estacou; a moça sumira-se na portinha negra de uma casa antiga, meio arruinada.
Feliciano passou, tornou a voltar, sondou com olhar atrevido o corredor escuro, procurou vêr se estaria alguem a quem pudesse fazer qualquer pergunta na vizinhança, encostou-se a um humbral fronteiro e esperou, indignado, contra aquellas paredes, que um murro de homem deitaria abaixo e que lhe escondiam o mysterio desejado!
O vento e o pó obrigavam os moradores do lugar á reclusão. As janellas fechadas entristeciam a rua, ordinariamente animada. Que se passaria lá dentro?
Feliciano esteve uma ou duas horas á espera, como um vigia cuidadoso, firme no seu posto. Nem uma restea, um tenue fio de luz vinha cortar a treva d'aquella fachada muda!
O negro tinha impetos de ir encostar o ouvido ás janellas ou penetrar no corredor, cançado de esperar, numa impaciência que o adoecia.
Eram quasi dez horas quando ouviu rumor de vozes e reconheceu a de Alice. Depois a moça reappareceu, puxando a porta sobre si.
A casa, impenetravel, guardava o seu segredo. Alice deslisava na sombra com o mesmo passo apressado. Dir-se-ia que igual desejo a levava ao ponto de onde partira tres horas antes!
Desnorteado, Feliciano hesitava se deveria acompanhar Alice, cujo destino conhecia, se ficar mais alguns instantes esperando alguem que por ventura sahisse d'aquella casa. Alice nunca entrava nas suas quartas-feiras depois das dez horas; logo, ella marchava para o Cosme Velho. Interessava-o agora quem ficava alli. Começaram a cahir grossos pingos de chuva e a escuridão era apenas dissimulada pelos lampeões de gaz. Já sem receio de ser surprehendido, Feliciano verificou o numero da porta por onde Alice sahira, mas só se afastou quando ouviu que a ferrolhavam de dentro.
«Quem estava, fica... logo, vou-me embora». E elle voltou, intrigado, aborrecido, com maior odio ainda por aquella mulher que se lhe escapava de entre os dedos fracos quando julgava prendel-a para toda a vida!
Emfim já sabia alguma coisa: aprendera o caminho da tóca, onde ella vinha furtivamente todas as semanas, em horas e dias determinados...
Quem se fia em mulheres está bem servido!... pensava comsigo o negro, desandando no seu caminho. Esta inda é peor do que as outras, porque é fingida. Fingida como Judas!
—Ella ha de me pagar...
Alice deu volta á casa pelo jardim e entrou por uma porta do fundo, evitando um encontro provavel com Argemiro, que falava alto no escriptorio, junto á saleta da frente.
Cançada, sentou-se um momento na sala de jantar, antes de subir para o seu quarto, vigiando a porta do escriptorio, prompta a fugir num relance, caso elle apparecesse. Com as mãos abandonadas nos joelhos, sorria com amargura ás palavras de Argemiro, que lhe chegavam nitidamente aos ouvidos. Elle arengava contra as mulheres. Os outros davam-lhe razão, citavam exemplos destacados de escandalos, riam-se alto, declarando o casamento uma instituição prejudicada.
A uma phrase atrevida de Argemiro, respondeu Adolpho Caldas maliciosamente:
—Emquanto pelo annuncio do Jornal acudirem governantes moças para as casas de viuvos sós... Mas é que nem todos são viuvos, meu caro!
Telles riu alto; a voz de Assumpção disse qualquer coisa que a palestra dos outros suffocou.
Poderiam gritar. Alice tapara os ouvidos com os dedos e subiu correndo para o seu quarto, onde se fechou por dentro.
Quem falava agora na sala era o padre Assumpção:
—Ainda ha mulheres tão puras como as mais puras de todos os tempos. Tenho ouvido muitas Ruths no confessionario, e conhecido almas adoraveis de innocencia e de bondade. Vocês conhecem-nas pelas exterioridades, eu pelos sacrificios,—que são ordinariamente as sacrificadas que nos vêm pedir conselho e consolação. Tenho encontrado em meu caminho sublimes abnegações, sempre por parte das mulheres...
—Porque os homens não se confessam!...
—Confessam-se alguns, mas não dizem tudo, ou, quando o dizem, fazem tremer! Tenho muito respeito pela mulher e sobretudo pela mulher pobre, porque nunca a pobreza deixou de ser affrontada, nem a mulher deprimida...
—Meu evangelico Assumpção, parece-me que a tua psychologia está errada! Nós sacrificamo-nos muito mais...
—Nós sacrificamo-nos pelas idéas; ellas sacrificam-se por nós, que somos menos compensadores e mais ingratos...
—Bonitas coisas você deve ter ouvido, padre! A mim o que me espanta e revolta, é que ainda haja paes e maridos que consintam nessa abominação do confessionario. A religião não poderia ter inventado coisa mais vil nem mais repugnante. Vamo-nos embora.
—Vamo-nos embora, que a noite está negra que nem uma alma peccadora, disse Telles, ao mesmo tempo que Adolpho continuava:
—A minha confissão é que tu não ouves, padre! que me mandarias pelo telegrapho para o inferno. Basta que eu te confesse isto: amanhã darei um assalto á tua bibliotheca. Preciso de Rodrigues Lobo... D'aquelle—Pastor Peregrino.
Assumpção, procurando o chapeu, exclamou:
«Cabellos que na côr formosa e pura Estaes ao mesmo sol fazendo inveja, Que confiança em vós será segura...»
Mas o Telles interrompeu:
—Olhem que o Argemiro está com somno e eu morto por me ver na pensão!...
Desceram, e, já na rua, o padre relembrou ainda uma phrase do classico:
—Deixai-me enganosas alegrias, que eu não busco, na ventura senão, o que a meu desterro sem esperança e á minha vida desesperada convém.
—Sinto cheiro a bafio quando ouço classicos, commentou o deputado.
Adolpho accendia um charuto. Assumpção adiantou-se para mandar parar o bond.
XIV
A baroneza não recebera ainda a carta annunciada pela cartomante e andava inquieta, doente. Gloria voltava radiante todas as segundas-feiras das visitas paternas e não tinha na boca senão o nome de D. Alice.
Aquillo fazia recrudescer o desespero da pobre senhora.
—D. Alice! D. Alice! não falas senão da tal D. Alice! que personagem!
—Eu gosto d'ella...
Prendendo as mãos da neta, puxando-a para si, a avó perguntava entre supplicante e imperativa:
—Mas que te faz essa mulher para lhe quereres assim?
—Nada... passeia commigo... conversa...
—Tenho medo d'essas conversas... É a tal historia dos sapatinhos de ferro!
—Da vaquinha Victoria?
—Sim... Que te diz ella?
—Tantas coisas... Hontem fomos ao Jardim Zoologico. Vovó ha-de crer? Ella contou-me a vida d'aquelles bichos todos!
—Mentiras... Que póde ella saber!
—Eu contei a papae e elle affirmou que era verdade!
—Ah! tu contas a teu pae tudo que ella te diz? Bem disse eu! é a tal historia dos sapatinhos de ferro... Um dia ha-de enterrar-te coma a madrasta fez á outra.
—Mas se ella não é minha madrasta! Nem diz nada de mal... Vovó pergunte só ao padre Assumpção. Elle tambem gosta de conversar com ella. Hontem estavam muito tristes...
—Ambos?!
—Ambos.
A baroneza riu-se.
—De que se ri, vovó?
—De nada... achei graça! Ia bem vestida a tua D. Alice?
—Assim... assim... ella anda quasi sempre com o mesmo vestido, quando sae. É pobre...
—Ella usa anneis?... tem alguma joia?...
A neta admirou-se de ver a avó tão córada de repente; e, antes de responder á pergunta, exclamou:
—Nunca vi vovó tão vermelha! E depois, naturalmente:—Não usa anneis... tambem não usa joias.
—Nunca te falou da familia?...
—Nunca... Papae me recommendou que eu nunca lhe perguntasse por isso!
—Ah! teu pae recommendou!...
—Por que seria, vovó?
—Por que geralmente mulheres assim não têm familia.
—Coitadas! Mas assim como? D. Alice é como as outras!
—Talvez mais bonita...
—Não... Hontem então ella estava com os olhos tão pisados!
—Pobre infeliz!
—Eu queria que vovó gostasse d'ella!
—Para quê? Estamos muito bem assim... Cada um no seu lugar!
—Já tenho aprendido muita coisa com ella...
—Deus queira que não aprendas tudo!
—Papae gosta que ella me ensine!
—Ah...
—Padre Assumpção tambem... Elle hontem assistiu á minha primeira lição de desenho. Uma lição só por semana é pouco... Vovó deixa D. Alice vir cá de vez em quando dar-me outra lição?
—Nunca!
Gloria recuou espantada; a velha conteve-se, e depois:
—Os retratos de tua mãe ainda estão nos mesmos logares?
—Estão... um em cima do piano... outro no escriptorio... outro no quarto de papae...
—Já tiraram o do quarto de toilette?!
—Ah! é verdade! e outro no quarto de toilette! Como vovó se lembra!
—Minha pobre filha!
—O do quarto de papae está ficando branco...
—Até desapparecer! É que a imagem de Maria está-se sumindo ao mesmo tempo da memoria e do papel! disse a Baroneza abafando um suspiro.
—Da memoria de quem?
—Vai brincar, minha Gloria; corre, faze das tuas brutalidades antigas... quero ouvir os teus gritos, as tuas risadas .. Onde está a tua cabrinha? Já nem fazes caso d'ella!
—Como não?! D. Alice até me prometteu uma colleira para ella!
—Já me tardava...
As mãos da avó affrouxaram. Gloria fugiu para o quintal.
—Está tudo acabado! venceu e domina todos. Gloria, a filha da minha filha, talvez já ame a outra mais do que a mim!... Tem trabalhado, a maldita... e não ha quem defenda a minha pobre Maria! Nem o Assumpção... ninguem!...
A Baroneza revia a scena, que não lhe sahia deante dos olhos: Maria, recostada nos almofadões da cama, muito diaphana, com os cabellos loiros espalhados sobre os hombros magros e os olhos engrandecidos, circulados de violeta... Á sua cabeceira, em pé, o padre Assumpção, livido, com os olhos velados por uma expressão de agonia dominada. Argemiro, de joelhos ao lado da moribunda; ella aos pés da cama, de mãos postas, olhando, na insensata esperança do milagre!
Na sua alma echoava ainda a vózinha da filha:
—Jura, Argemiro, que não te tornarás a casar...
—Juro!
—Jura que viverei sempre no teu coração!
—Juro!
A voz d'ella era como um sopro; a d'elle, formidavel!
Maria morreu sorrindo, com os dedos embaraçados nos cabellos do esposo... Não falara na filha... não olhara para a mãe. Fôra toda d'elle... e elle repellia aquella imagem angelical, para substituil-a pela de uma mercenaria!
Aquella amaldiçoada.
Como expulsal-a d'alli?! Não estaria perdendo muito tempo?...
Uma tarde, o Feliciano procurou-a; e ao relatar-lhe a sua espionagem ella mandou-o calar-se. Não queria saber de nada por esse modo. Que se fosse embora!
O negro não pôde reprimir um movimento de espanto. Não fôra ella que o impellira áquillo?
Fôra, mas em um momento de desanimo e de fraqueza. Envergonhara-se. Readquiria a calma; estava feito o seu plano. O negro foi despedido sem explicações e com a prohibição de acompanhar a moça.
Feliciano sahiu murcho, maldizendo as mulheres.
A baroneza dirigiu os seus passos pesados de mulher gorda para o escriptorio do marido, que se entretinha na collecção do seu herbario.
—325... murmurava o barão, olhando para as suas listas; e depois:
—Que temos? perguntou elle, sem levantar a cabeça, mas percebendo no ar qualquer novidade.
—Que tomei uma deliberação.
—Qual?...
—Ir morar com Argemiro.
—Hein?
—Ir morar com Argemiro.
—Ora essa!
O barão tirou os oculos e olhava agora de face para a mulher.
—Que idéa!
—Como outra qualquer... meu velho...
—Qual! nós lá podemos viver na cidade!
—Por que não?
—Por que?... por tudo! Tu gostas d'esta liberdade... ha trinta annos que te enterraste aqui e que d'aqui não tens querido sahir para nada... Eu, ao principio, confesso, fazia sacrificio; hoje não. Olha para esta mesa: Vês? estou catalogando as minhas plantas... plantadas aqui na minha chacara e tratadas só por mim!...
—Virás á chacara de vez em quando.
—Estás doida!
—Nunca o estive menos!
—No tempo em que Maria era viva nunca pensaste nisso, e então agora.... Ora adeus!
—No tempo de Maria eu não era lá precisa para nada; e agora sou.
—Precisa? Em casa do Argemiro?! Para que? Estás sonhando...
—Bem acordada. Vocês é que estão dormindo...
—Hum... já sei... deixa lá a rapariga em paz, minha velha ciumenta; exclamou o barão, rindo e cavalgando de novo a luneta no nariz.
—Tambem tu!...
—Tambem eu...
Que diabo! tu imaginas um mundo ao teu feitio e queres governal-o a teu bel-prazer? Guerrear a moça? por que? Porque é limpa, economica, dirige bem a casa do teu genro e ainda por cima dá lições uteis á tua neta? mas isso é uma insensatez!
—Para que te servem os olhos? para que te serve o entendimento e a moral? Já te esqueceste das ultimas palavras da nossa Maria? Não as ouviste tão de perto e tão bem como eu?
—A nossa Maria... morreu...
—Para ti e para os ingratos; não para mim, sua mãe, que a adoro e a vejo sempre deante dos meus olhos! Como é triste a morte, que até faz esquecidas as filhas aos proprios paes!
O barão retirou de novo os oculos, collocou um peso sobre os papeis em que catalogava as suas plantas e contemplou a mulher demoradamente, com tristeza. Ella estava abatida, com os olhos empapuçados, as faces emaciadas, o pescoço mais molle e pellancoso.
—Minha pobre velha! tem paciencia e resigna-te. Comprehendo a tua magoa, mas é preciso esforçares-te por comprehender tambem o mundo tal como elle é. Imagina que a tua neta é ella, a nossa Maria, e concentra nella todo o teu carinho e todo o teu amor... já não peço nada para mim... bem vês! Gloria é a filha da tua filha, vive para ella aqui, no meio das tuas arvores e não penses no que vae lá por baixo, pela casa dos outros.
—Casa de minha filha.
—De teu genro. Tua filha já não existe.
—Para mim existe! E depois, tu não vês que já me vão tambem roubando a neta? D'aqui a pouco estaremos sós!
—Não... não é tanto assim!
—Desde que o Argemiro tem aquella peste em casa...
—Que está satisfeito e tem o seu lar em ordem. Se em vez de ser sogra fosses mãe d'elle, tu bemdirias essa pobre rapariga... Tem juizo, minha filha, não vivas com os olhos fixos num fantasma e pensa na realidade das coisas.
—Seria bom... se o Argemiro não violasse o juramento que fez... ao fantasma... como tu lhe chamas!
—Escuta; quando elle jurou fez bem em jurar. Acreditava então poder cumprir tal juramento, e caso mesmo não acreditasse juraria do mesmo modo, porque essa era a vontade de uma moribunda. Nossa filha morreu sorrindo, graças a essa promessa. Não me interrompas! O Argemiro foi um marido raro, amoroso, serio e deu á mulher a mais ampla e perfeita felicidade. Ella acabou. Elle foi (se ainda o não é) fiel á sua memoria por muitos annos. Se agora tivesse alguma paixão, nada terias que dizer. Elle ainda é moço, e essa circumstancia basta para explicar tudo. Somos-lhe muito obrigados.
—Achas então muito natural e muito bonito que elle ponha a filha em contacto com a...
—Não acabes!
—Tambem tu a defendes!
—Tambem eu!
—Mas não a conheces!
—Conheço o Argemiro. Basta-me. Elle já nos expoz mais de uma vez em que condições tinha essa moça em casa. Se elle lhe entrega a filha é porque a julga digna de a receber—e não pódes negar a influencia moral que ella tem exercido sobre tua neta! Gloria repete palavras e pratica acções que reflectem um grande senso moral. É ou não é verdade isso?
—Quem nos diz que não seja essa uma obra de hypocrisia?
—Ora, adeus!
—Vocês estão cegos!
—Só tu vês!
—Só eu.
—Pois antes fosses cega, que a tua clarividencia só te faz mal. De que te serve perceber ao longe tanta coisa que ninguem mais vê?
—Serve-me para defender quem não tem mais ninguem por si!
—Se tua filha do ceu te escutasse, choraria!
—Fazes bem em dizer: tua filha. Ella é só minha, agora!
—Bom... acalma-te...
—Estou calma.
—Nesse caso dir-te-ei ainda que o Argemiro é senhor do seu nariz e que nós não temos autoridade, absolutamente, para mettermos o bedelho na sua vida. Fará o que muito bem quizer. De mais, que jurou elle a Maria? Não se tornar a casar. Casou? Não. Logo...
—Mas vive como tal...
—Sabes que mais?! Deixa-me trabalhar... lamento-te muito, mas não posso argumentar comtigo. 325... parece-me que era este o numero...
—Como és frio...
—Sou velho; e tenho juizo.
—Tambem eu sou velha...
—Mas és mulher, e vives mais do sentimento que da razão... Alimentas a idéa de que tua filha sente, soffre, existe, e exiges que ella occupe um lugar que infelizmente está bem vasio... Deleitas-te em revolver saudades; fixas-te em pensamentos de que devêras fugir; a morte assusta-te; a idéa do nada apavora-te e crêas então um mundo á parte para tua filha, que, se continúa a viver, é só no teu cerebro, mais ainda do que no teu coração! Reage contra essa tortura...
—É a minha consolação...
—É o teu desespero!
—Não é... talvez deva ser como dizes... mas eu agarro-me a esta illusão, para poder supportar a saudade...
—Não chores...
—Sinto-me tão sózinha!
—E eu?
—Fugiste-me...
—Não, minha velha, estou e estarei comtigo até á morte. O que te fiz soffrer na mocidade, quero redimir na velhice... Tua mãe, sim, teria razão de queixa contra mim; tu não a tens contra o Argemiro! Nossa filha, repara o que eu digo—nossa filha—gosou emquanto viveu; já foi uma felicidade! Tu esperaste por mim algumas vezes até alta noite... lembra-te! Ella nunca esperou... Fiz-te chorar, do que me arrependo; o Argemiro só a fez sorrir.. Foi por causa do teu ciume de esposa, muito justificado, que escolheste este ermo para viver... Sujeitei-me. Venceste. Hoje, arrependido, vivo cosido ao agasalho das tuas saias e acredita que, se morreres antes de mim... creio que me fecharei vivo no teu caixão...
O Barão dizia estas coisas rindo, mas com os olhos afogados em pranto; a mulher, chorando francamente, approximou-se e uniu os seus labios tremulos aos labios murchos do marido.
—Vai descançar! disse-lhe elle, afagando-a.
Ella sahiu; elle limpou os olhos, esteve algum tempo a pensar em coisas distantes; depois, com um suspiro, voltou ao seu catalogo:
—325...
Os dias passavam lentamente para os dois velhos.
A baroneza não dormia; tinha ao levantar-se o rosto pallido e os olhos vermelhos.
O barão entristecia-se por não lhe saber dar remedio. Que fazer? Deixal-a finar-se... e penar com ella. Á proporção que as visitas da filha se prolongavam nas Laranjeiras, Argemiro, occupadissimo em novas causas, deixava de apparecer na chacara.
Esse afastamento era tambem motivo de censura e tristeza.
O tempo leva tudo comsigo, menos a saudade das mães pelos filhos mortos; pensava a baroneza em silencio, junto á janella, olhando vagamente para o campo pallido, cortado pelas linhas negras das altas e ramalhudas mangueiras, sob cuja sombra Maria correra em menina, entre a polvilhação d'oiro da cabelleira desatada, ou scismara, em mulher, aquellas doces scismas que a idealisavam tanto.
Parecia-lhe que, se procurasse bem, encontraria na terra as pegadas mimosas da filha e que seria ingratidão abandonar aquelle lugar em que ella vivera a doce vida da criança e da moça... Em vão o materialismo do marido lhe affirmava que o corpo branco da pobrezinha apodrecêra como um lirio cortado, no fundo negro da cova, e que já d'elle não existia senão um feixe de ossos, tão pequeno, que caberiam todos no seu cofre de lembranças!
Em vão o padre Assumpção lhe dizia que a alma bondosa da sua santa estava no ceu, longe de tudo e de todos, voltada como uma açucena para os pés do Senhor! O que ella sentia é que sob a roupagem fluidica, a sua Maria estava a seu lado, ora sentada sobre os seus joelhos, como quando tinha dez annos, ora seguindo com o olhar ciumento o Argemiro, como nos tempos de casada; e que existia, que tinha o seu lugar na terra!
O sol desmaiava; as mangueiras com a tarde faziam-se mais negras. Um sabiá cantava, outro mais longe respondia, e a baroneza, dorida, persuadia-se de que a melancolia mais amarga é a dos velhos, porque não tem a suavisal-a nem o mais tenue raio de esperança!
Ás vezes Gloria, entrando bruscamente na sala, quebrava-lhe o devaneio. Morena, forte, com os cabellos pretos cobrindo-lhe as orelhas em ondas accentuadas, ella afastava a imagem loira e fidalga da mãe para o fundo esfumado do sonho; e, palpitante de vida e de força, vinha lembrar á velha que só se devia consumir por ella.
—De onde vens? Como te sujaste... trazes palhas no cabello... Olha o vestido rasgado!
—Quando pulei a cerca...
—Pulaste a cerca! muito bonito! Então uma menina pula cercas?!
—Foi para entrar na horta...
—Vem cá... deixa-me abotoar-te... ora... ora ..
Os dedos da baroneza prolongavam de proposito a operação, só pelo prazer de estarem em contacto com o corpo adorado da neta.
A menina debatia-se por fim, morta por correr para o pomar ou para o jardim.
—Fica quieta...
—Vovó! ande depressa...
—Para que?
—Ainda não dei couve aos coelhos e quero engordal-os para levar um a D. Alice. Ella disse que...
—Bom. Vae-te embora!
A neta, percebendo tudo, cahia-lhe aos beijos nas faces e nos cabellos, rindo, apertando-a nos braços vigorosos.
—Vovósinha do meu coração! Como eu amo esta avó! Como eu adoro esta avó!
Então sentava-se e contava as historias lá de fóra:
O vovô ainda não percebera que as formigas estavam-lhe dando no pé de absintho... A mangueira grande do pasto estava com herva de passarinho. Ella já avisára o João... A gallinha pedrez apparecêra com dez pintinhos nascidos no matto e havia um ninho de pintasilgos na limeira da horta...
A avó sorria, ella incitava-a a sahir com ella pela avenida das mangueiras, até lá abaixo ao portão, para ver uma paineira da estrada toda coberta de flôres! Completamente rosada!
A avó, puxada pela neta, arrastava os passos pesados pela aléa deserta e só nesses curtos momentos o seu pensamento tinha repouso.
Segurando na mãozinha da neta, dizia comsigo:
—Deixa-me aproveitar bem a companhia d'ella, antes que ma levem!
Mas lá chegava o sabbado, em que a levavam, ou o avô, ou o padre Assumpção, que ia ás vezes cedo almoçar com os amigos e buscar a pequena. Sem ser annunciado, elle, bom andarilho, vinha a pé desde a estação, uns bons dois kilometros, até á chacara.
Quando ás vezes o percebiam, elle já estava dando os bons dias na sala da entrada; outras occasiões os olhos anciosos de Gloria descortinavam-lhe ao longe a batina negra, destacando-se no fundo luminoso do portão aberto.
A menina corria para elle; e a avó, encostada á janella, via-o approximar-se, com tristeza...
O padre parecia-lhe então um carrasco, connivente com os projectos criminosos da outra e os actos hypocritas do genro. Não o via sempre prompto a defender a outra e a elogiar a moral severa de Argemiro?
Tambem elle esquecia essa pobre Maria, tambem elle trahia o cumprimento da sua ultima vontade! É bem verdade que os mortos vão depressa!...
Num sabbado, depois de ter visto Gloria entrar no carro com o avô, a caminho da cidade, a baroneza dirigiu-se para a sua saleta de costura, e tentou acabar um avental da neta; mas os dedos preguiçosos paravam no ar e o aventalzinho escarlate cahiu-lhe sobre os joelhos tão incompleto, depois de meia hora de manuseado, como estava antes.
Arguia em mente a sua fraqueza e indolencia.
Via irem as coisas por agua abaixo e não fazia nem sequer um aceno para prendel-as! Não era tempo de tomar uma resolução?
A culpabilidade dos outros atemorizava-a?
O dever das mães não é defender os filhos até á morte?
A sua passividade não era, portanto, um crime, e não seria tempo de pôr em acção o seu desejo, até agora suffocado pelas mãos dos outros, de rehaver para a sua Maria o coração de Argemiro e guardal-a lá dentro, como santa unica em devoto oratorio?!
Á força de pensar nisso, materializava as imagens, dava corpo e sangue ás suas idéas, prompta a bater-se por ellas até ao ultimo alento.
Recriminava-se agora da sua altivez, mandando calar-se o negro quando este lhe ia relatar o resultado da sua espionagem... Que tola generosidade fôra a sua, e de que desencontrados sentimentos são victimas as criaturas humanas... Repellira tambem o alvitre da cartomante, cançada de esperar pela carta annunciada...
Vinham-lhe agora tentações de voltar lá, a vêr se ao menos encontrava alguem a seu favor! Que falta lhe fazia um braço em que se apoiar!... Certamente que a cartomante não lhe devia merecer absoluta fé... mas não acertara ella em muitos pontos com a verdade? A Inimiga e as suas machinações não lhe tinham saltado aos olhos logo no principio da consulta?
Dever-lhe-ia negar o poder da adivinhação? E em vez de negar, não seria prudente recomeçar?
Uma elucidação...
O aventalzinho escarlate cahira para o assoalho, e nos resedás da janella um beija-flôr destemido batia as azas delirantemente.
Eram tres horas da tarde quando a baroneza, muito afogueada, subiu a escadinha ingreme da D. Alexandrina. Como na primeira vez, teve de esperal-a longamente na sala de jantar, entre chromos pregados a gomma na parede e aniagens sujas de cortinas. Um cãozinho rateiro rosnava a um canto, de focinho desconfiado erguido para as sedas pretas da velha bem tratada. Depois de uns minutos que se afiguraram longuissimos á consultante, a portinha do quarto abriu-se e D. Alexandrina appareceu, com o queixinho sumido em um riso largo de boas-vindas.
A baroneza, em tom queixoso:
—Não recebi a tal carta annunciada pela senhora...
—Ha-de recebel-a .. as cartas não mentem! Ainda não é tarde... Entre...
Nessa segunda-feira o passeio fôra ao Instituto dos Cegos.
Gloria voltava cora a alma cheia de espanto. Divizando no banco do jardim o padre Assumpção, pontual na espera, correu para elle com enthusiasmo. Alice acompanhava-a a distancia, com ura sorriso placido.
—Adivinhe onde eu fui, padre Assumpção!
—A algum lugar muito bonito, porque os teus olhos reflectem maravilhas!
—Acertou. Fui ao Instituto dos Cegos!...
—Ah! mas... pareceste-me tão alegre!
—Pois então! eu imaginava que todos os ceguinhos vivessem amargurados... zangados... que no escuro em que vivem não se entretivessem com coisa nenhuma, nem pudessem lêr, nem tocar, nem nada... Quando D. Alice me disse: vamos ao Instituto dos Cegos... eu não respondi nada, por vergonha, mas fiquei com medo...
—Os cegos nunca fizeram mal a ninguem...
—Não sei... mas eu tive medo de ficar com pena!
Alice chegava nesse momento; o padre cuprimentou-a e recebendo a menina, despediu-se d'ella.
Gloria abraçou a moça com frenesi e partiu, em companhia do padre, para o escriptorio do pae.
No bond recomeçou a conversa:
—Então hoje gostaste do passeio...
—Muito! Quando chegamos eu estava aborrecida; mas logo que passei pela primeira sala fiquei interessada. D. Alice ia-me mostrando todas as coisas com tanta paciencia... tudo muito limpo e as cegas tão risonhas! Havia lá uma menina chamada Rosinha, da minha edade... e mais adeantada do que eu!
—Porque é estudiosa.
—Mas eu vejo!
—É que não basta vêr...
—D. Alice levou uns biscoitos para as crianças... Se o senhor visse a algazarra que ellas fizeram! São conhecidas de D. Alice... Uma tocou piano e um mocinho, violino... Fiquei admirada... nunca imaginei que os cegos pudessem ser felizes.
—São, alli, porque não tem tempo de pensar na sua desgraça, tão occupadas têm todas as horas. Assististe ás aulas?
—Assisti... leram... deram geographia...
—Foste ás officinas?
—Fui. Vi empalhar cadeiras, fazer escovas...
—Ahi está: lendo, tocando, enramando vassouras ou fazendo outro qualquer trabalho, elles estão sempre entretidos. É uma casa santa, aquella em que puzeste hoje os teus pés. Guarda na memoria a lembrança d'esse passeio, que te servirá de conforto quando ouvires mais tarde falar mal dos homens... Se não houvesse bondade, ninguem iria ao encontro da miseria, nem protegeria os fracos...
—Foram as palavras de D. Alice, quando sahimos de lá...
—Ah, ella disse isto mesmo?
—Tal e qual...
—É extraordinario!... que mais te disse?
—Que todos nós devemos conhecer as casas em que se pratica o bem na nossa terra, para as bemdizermos e conduzir até á sua porta os necessitados de seu soccorro... Disse que o Rio de Janeiro é uma cidade generosa e que nós todos devemos fortifical-a no empenho de agasalhar os infelizes.
—Ella tem razão!
—Quando eu lhe disse que os cegos já não me pareciam desgraçados, ella mostrou-me o mar... o ceu... os morros... os barquinhos de vela... e perguntou-me depois se eu não teria pena de não ver tudo aquillo.
É o exemplo vivo, a commoção aproveitada para o exemplo moral... pensou o padre. Quem teria inoculado naquella mulher esta delicadeza, este tacto de educadora, tão raro? Ella conhece as plantas dos jardins e ensina os nomes das nossas arvores; sabe de cór as casas de caridade e chama para ellas a sympathia das crianças, interessando-as ao mesmo tempo pela grande familia dos infelizes... sujeita-se a exercer um lugar suspeito, aceitando todas as condições que lhe impõem e revela uma sensibilidade rara em todos os actos em que a podemos apreciar...
Será ella na verdade a mulher perigosa, não pelo que calcula e inventa, mas pelo que merece? Não será prudente encobrir, tanto quanto possivel, essa feição singular do seu caracter ao Argemiro?... Gloria não repetirá ao pae as palavras que me disse, fica-lhe no coração o sentido, mas a memoria não as guardará com a mesma fidelidade... Eu serei mudo... Convém ser mudo. Elle quer guardar a sua independencia... e nem percebe que já está captivo! Diz que não. É sincero quando o diz... pensa que não. Nunca a vê... Mal lhe ouviu a voz um dia... Entretanto, só se alegra quando entra em casa... já não olha com o mesmo olhar saudoso para o retrato de Maria. Se a governante sae, estando elle em casa, logo se aborrece.
É exquisito. Não a ouve... não a vê, mas sente-a! Como acabará tudo, se ella não fôr o que parece?... Ha almas tão complicadas, tão indecifraveis! A d'esta mulher assusta-me... preciso defender o Argemiro... sou o unico amigo em contacto com ambos...
Ella é difficil... eu desageitado. Se eu fosse mais corajoso e ella mais franca... Mentirosa?... não me parece... mas é possivel. Minha mãe gostou d'ella. Mas o coração de minha mãe é propenso á sympathia. O melhor coração da Terra!... Argemiro mudou. Está illuminado... Ella envolve-o com um cuidado excessivo... é isso que me faz scismar... Emfim, seja como fôr, a verdade é que a minha Gloria tem aproveitado. Cá em baixo parece outra. Deixa a casca selvagem com a avó, e fica de setim! Teremos isso de lucro! Porque, afinal, para tudo o mais o remedio é a inercia.
Gloria era esperada pelo avô no escriptorio do pae e, como o velho tivesse pressa, as despedidas foram precipitadas. Só depois d'elles sahirem Assumpção reparou na expressão aborrecida do amigo.
—Que novidades temos? Estás com uma cara!
—Imagina: minha sogra vem morar commigo!
—Felicito-te. Terás assim tua filha sempre a teu lado. Parece-me que já lhe pediste isso mesmo ha tempos.
—Quando enviuvei. Então não quiz. E agora...
—Quer. É natural.
—Mentes; não achas natural. Tu percebes tudo tão bem como eu.
—Direi mais: acho que faz bem.
—Em espionar-me?!
—Defender-te.
—Quem me ameaça?
—A tua imaginação.
—Vocês são todos uns imbecis!
—Talvez...
—Metteu-se-lhes uma asneira em cabeça e é alli! Eu sempre quero saber que mal fez a pobre moça á minha sogra! E a vocês todos, que a guerream... mas guerream porque? porque traz a minha casa alegre, cheirosa, bonita, limpa; porque economisa o meu dinheiro, fazendo-me passar bem como nunca, e ainda corrige a minha filha de feios vicios de educação! A eterna malicia faz d'isto um enredo e mette-se-me no caminho para me perturbar. Tu sabes que eu quero muito á minha sogra; depois da morte de Maria redobrou por ella o meu affecto e a minha consideração... Sabes que tenho um grande prazer em vel-a, em estar a seu lado, em chamal-a mamãe... como uma criança... como minha mulher fazia... Sabes que sou fiel ao passado e ao juramento que fiz; sabes tudo isso e sabes tambem que sou profundamente egoista, que amo a ordem, o silencio, o socego, o conforto e a liberdade! A liberdade, sobretudo! Aquella creatura que tenho em casa não é uma mulher; é uma alma, que me não constrange absolutamente em nada. Levanto-me, deito-me, saio, entro, janto, converso, ralho ou rio, sem ter que dar por isso a minima satisfação a ninguem. Vaes vêr agora! Minha sogra e ella são incompativeis...
—Talvez não...
—Sim, com certeza! Abre-se a guerra. A moça sae. O Feliciano readquire o perdido prestigio. Começa o desbarato dos charutos, das camisas engommadas e das gravatas. A mobilia ficará com pó; a comida será atirada para os pratos como para os cães. Minha sogra, velha e pesada, não poderá subir e descer as escadas na fiscalização dos quartos. Os retratos de Maria apparecerão rodeados de perpetuas e sempre-vivas, flôres da minha especial embirração; aquelle perfume suave que me entrou em casa com esta rapariga, desapparecerá com ella; abrirão a porta do gallinheiro para o jardim e seccarão roupas no gradil do terraço do fundo... Verás! Á noite não poderei passear no meu quarto, como costumo fazer, com receio de incommodar a mamãe, que tem somno leve e soffre de enxaquecas; e terei mesmo, para socegal-a, de apagar a vela muito antes de adormecer, porque tem medo de incendios!...
Assumpção sorriu.
—Que pretexto dá para essa resolução?
—Doença. Está doente e precisa de vir morar ao pé dos medicos!...
—Effectivamente, achei-a abatida outro dia...
—A doença d'ella, sabes qual é? ciumes!
Vem vigiar-me... pôr obstaculos... fazer scenas... Como se eu me sujeitasse!
—Não...
—Não?! És innocente! Mas eu fujo, invento uma viagem. Parto!
—Para onde?
—Não sei... para o inferno.
—Pobre senhora...
—Eu adoro-a, Assumpção! adoro-a, lá, á sombra das suas mangueiras, afundada na sua cadeira de balanço, cheirando a alecrim e dizendo as coisas maternaes que sabe dizer. Mas em minha casa atrapalha-me... desarranja-me a vida... altera-me o socego. Pensa commigo: minha sogra pôde viver em companhia da Alice?
—Pôde...
—Como?!
—Pedindo-lhe para não se immiscuir em nada na direcção da casa...
—Seria bom se ella não viesse já com o proposito de supprimir a outra. Engole-a. Verás que a engole logo na primeira entrevista.
—Exaggeras...
—Estás convencido d'isto, tão bem como eu. Não a defendas, nem disfarces!
—Quem te deu essa noticia, o barão?
—Sim. Quando vocês entraram elle acabava justamente de pedir-me que lhe dispensasse um quarto em minha casa. Outra coisa: o meu quarto eu não o dou; e a não ser o meu, o unico quarto nas condições de servir-lhes é o que dei á governante... terei de a desalojar... é desagradavel isso não te parece? Será necessaria a tua intervenção. Agora levo em capricho, não quero vêr nem falar com aquella moça. Uma sacrificada á brutalidade dos outros.
—De que me incumbes?
—De ir communicar isso mesmo á coitada e combinar com ella os arranjos do quarto...
—Tua sogra descerá?...
—Amanhã. Ella entra por uma porta e a Alice sahirá pela outra; é o que vae acontecer.
—Talvez não...
—Vê se com o teu prestigio de padre e a tua diplomacia consegues conciliar as coisas...
—A baroneza desconfia de mim...
—Ah, já notaste!
—Todavia, procurarei ellucidal-a. Ninguem acredita, a não serem os amigos intimos, que mantenhas no segredo da casa a situação que fazes transparecer cá fóra... Não censures tua sogra, pela mesma persuasão, que...
—Persuada-se do que quizer; mas não lhe assiste o direito de impedir a minha vontade e a minha liberdade de homem, de fazer o que eu muito bem entender. Nem minha mãe seria capaz d'isso, nesta situação...
—Não te exaltes...
—Meu sogro notou com certeza o meu sorriso amarello...
—Pobres velhos!
—Só os lamentas a elles! E a mim?...
Assumpção. não quiz dizer a quem mais lamentava, mas a figura pallida de Alice atravessou-lhe o espirito numa aureola de piedade. A sua commissão era muito delicada, e nem sabia por onde começar.
Argemiro passeava agitado pelo escriptorio, falando entrecortadamente:
—Exactamente agora, que tenho tanto trabalho... aquelle doce socego... ainda hontem escrevi até ás duas horas...
Qual!... E aquella mania da comida sem sal?!... E eu que aprecio os salgados... Outra coisa que eu abomino... o cheiro do tal matte queimado! E o senhor meu sogro não dispensa o matte!... Logo de manhã cedo é cada chicara!
O Feliciano vae rejubilar-se! Se me apparecer com a cara alegre, mato-o!... Se não fossem certas considerações... Ah! os meus livros, tão bem arrumadinhos... Has de crêr? Depois que ella está lá em casa nunca achei uma falta e nem uma traça na minha bibliotheca! Antes, era um desespero! O Feliciano tinha aquillo em uma desordem... Eu estava agora tão bem... tão bem!... Que castigo!
—Tranquillisa-te... tudo se ha de arranjar.
Por quanto tempo vêm os teus velhos?
—Tempo indeterminado. Quer dizer: toda a vida!
—Se elles soubessem d'este acolhimento...
—Sabem. Presumem! Minha sogra com que fim vem cá para baixo? Com o fim de escangalhar a minha felicidade. Pensa que eu amo, que sou correspondido e vem pôr-se entre os meus beijos e os da pobre rapariga... O que conseguem com isso tudo? Despertar-me a curiosidade e obrigarem-me talvez a apaixonar-me de verdade. E ainda se hão de queixar... de mim, quando eu confessar isso! Verás.
Assumpção sorriu, dando razão ao amigo, sem se entretanto manifestar.
—Envergonho-me antecipadamente do que se vae passar lá em casa...
—Tua sogra é delicadissima...
—É ciumenta! e os ciumentos chegam a praticar desatinos! Lembras-te de Maria? Um anjo; mas quando lhe dava para ter zelos... perdia a cabeça!
—Tal qual a mãe... Decididamente, eu vou-me embora!...
—Parece-me prudente conversares hoje com D. Alice.
—Nunca... já agora, não quero! Tem paciencia, meu velho, fala-lhe tu... és tão bom, tens-te interessado tanto pela minha vida, que não sei já dar um passo sem ti... e quando o dou não sou feliz.
Estou a falar-te e a reparar numa coisa: vocês nunca alludem ao nome da minha governante sem o acompanharem do dom... vejo que ella inspira respeito a toda a gente... deve effectivamente ser uma mulher fina e educada... D. Alice!... pois a D. Alice vae soffrer vexames.
—Não sejas tolo.
—Verás.
—Espera-me hoje para o jantar. Conversarei depois com a... D. Alice. Ella é cordata e conhece o seu logar. Dás-lhe demasiada importancia. Afinal, ella é uma empregada... uma subalterna. Não exaggeres os melindres e tranquillisa-te. Que mais ordena meu principe ao seu mordomo?
—Que me abrace e me perdôe.
Assumpção sentiu no abraço do amigo uma ternura intensa.
Ama-a... pensou elle comsigo tristemente. Elle ainda o não sabe... mas a verdade é que ella já lá está dentro...
XV
Intoleravel, o Feliciano, ao servir nessa tarde á mesa. Sem pronunciar uma unica palavra e mais impertigado ainda que de costume nuns collarinhos que lhe roçavam as orelhas, percebia-se que no seu mutismo e seriedade elle suffocava de contentamento. Quando o olhar de Argemiro o lobrigava espigado aos cantos, esperando ordens, desviava-se com uma impressão exquisita e que não podia definir. Durante todo o jantar desgostou-o a figura limpa e correcta do negro, approximando-so e afastando-se maciamente, conforme as exigencias do serviço.
Em frente de Argemiro o padre Assumpção, encostando os hombros quadrados no alto espaldar da cadeira de couro, dilatava as narinas ao aroma das frescas rosas que alegravam a mesa.
Para tornar uma hora agradavel basta ás vezes bem pouca coisa... pensava elle comsigo.
Uma toalha bem limpa... umas flôres orvalhadas... esmaltes de loiças reluzindo... e já os olhos e o olfacto tem um repasto regalador... Ámanhã, as coisas estarão de outra maneira, que é vezo de inimigos contradizerem-se em tudo. E então Argemiro confessará o que ainda pensa ignorar...
—Acredita, meu velho, estás hoje com a fisionomia differente! Salvaste com certeza alguma alma do purgatorio...
—Talvez... mas talvez sejam tambem effeitos de um sonho que tive esta madrugada.
Imagina: eu estava sentado a um orgam de uma cathedral enorme, e de tão peregrina belleza, que nenhuma haverá assim sobre a terra... Por toda a vastidão do templo estendia-se uma luz pallida, de alvorecer ou de luar, desenhando nas naves os rendilhados das rosaceas e as figuras dos vitraes... Eu tocava musicas solemnes e de tão concentrado, tão profundo sentimento, que as lagrimas me cahiam dos olhos aos pares, quando acordei, e tenho andado todo o dia com a alma cheia de harmonias. Se eu fosse moço, teria corrido ao Instituto de Musica a vêr se tornaria um dia possivel tal ventura...
Por que hão de vir tão tarde semelhantes sonhos?!
—Para que se não realizem.
—É isso. Minha mãe, lembras-te? adorava a musica, e o piano poucos segredos teria para ella. Foi pena que não me tivesse transmittido essa prenda... A arte da musica é perfeitamente compativel com o sacerdócio e eu teria uma valvula para as minhas febres...
—Escreve...
—A palavra é indiscreta e arrastaria o meu temperamento, que eu trago fechado á chave...
—Nunca pensei que elle se submettesse a isso! És um forte, Assumpção!
—Nunca pensaste, porque?!
—Por que te conheço desde pequeno.
No collegio ou em casa, foste sempre um rebelde. Não posso esquecer-me do dia em que minha mulher, nesta mesma sala, alli, naquelle canto, me disse que tu ias tomar ordens.
—Effectivamente, foi ella a primeira pessoa a quem confiei essa resolução!
—Como eu protestasse, indignado contra a idéa (que sempre me foi muito desagradavel), ella observou: Tu te zangas! pois eu estimo... Elle será o meu confessor!—Tudo isso vae longe...
—Para mim não. Parece-me que tudo se passou hontem... No meu sonho, esta madrugada, reviveram essas commoções... As imagens da cathedral, todas de marmore branco, tinham, na opacidade da pedra, a expressão humana das creaturas que amei na minha adolescencia e na minha mocidade... As melodias gloriosas que eu derramava pela vastidão do templo eram formadas pelas vozes d'ellas, resuscitadas miraculosamente naquellas endeixas sacras... Não eram só vozes humanas que eu reconhecia nas sonoridades da minha musica, eram tambem outros sons que tenho sempre guardados no ouvido: o ranger da porta do seminario... o badalar do sino para a minha primeira missa... e o rugido das sedas de tua mulher no dia em que me foi fazer a sua primeira confissão... Nunca me esqueci... foi como um ruflar de azas... Pois a minha alma transportava essas impressões em largos canticos, vendo as imagens extaticas todas voltadas para a chuva do meu pranto e sentindo a minha alma encher o mundo! Um sonho de artista genial, e em que eu gosei as alegrias fecundas da creação. Não te parece que sejam os artistas os homens mais felizes da terra?
—Tenho convivido pouco com elles, e como não me basta imaginar... Quem sabe? Olha, toma vinho. Creio que não te basta o da missa...
—Pouco mais. Que é isso?!
—Nada...
Argemiro tivera um pequeno sobresalto involuntario, vendo a mão negra do Feliciano pegar na porcellana côr de leite do seu prato.
—Nunca te aconteceu, ao ter qualquer impressão, sentir mau ou bom gosto na boca?
—Nunca, respondeu o padre.
—Pois agora foi como se eu tivesse tomado uma colher de sumo de limão!
O olhar de Argemiro acompanhou o vulto do negro, que se dirigia para a copa. Assumpção argumentou:
—Está nas tuas mãos o remedio.
—Despedil-o?
—Pois então?
—Acabo por fazer isso mesmo. Realmente não ha nada como a ignorancia para certa gente. Meu sogro fez de um moleque humilde, um homem ruim... Se em vez de o mandar para a escola, com bolsa a tiracolo e sapatinhos de botões, o deixassem na modestia da cozinha ou da estrebaria, elle não teria agora nem a revolta da sua côr nem a da sua posição... O que o torna mau é a inveja e a sua ignorancia mal desbastada.
—Elle não é tão mau assim!
—Defende-o agora!
O Feliciano voltou com a sobremesa, um doce novo, desconhecido de ambos e que o copeiro não teve remedio senão confessar ter sido preparado por D. Alice, receoso de que ella o ouvisse por detrás das portas.
—Depois do café, ao entrarem os dois sózinhos para a bibliotheca, Argemiro notou:
—Foi o meu ultimo dia de bem-estar. Reparaste? nada faltou. É uma alegria, uma casa assim! E rara, eu sei, nas minhas condições, rarissima! Perfeita, a minha governante! se tem defeitos, nunca os deixa transparecer... nem é possivel que os tenha...
—Estás doido! Ella é uma mulher como muitas; sómente cuidadosa de não perder um emprego bem remunerado; mais nada.
—A esta accusas!
—Não. Esclareço-te. Jogaste uma cartada, foste feliz, dá-te por bem pago por estes largos mezes de tranquillidade. Suppondo que tua sogra se incompatibilise com a D. Alice, acharás depois outra governante nas mesmas condições. Esta é tão perfeita como será a outra, desde que tenhas com ella as mesmas exigencias que tiveste com esta...
—Pensas então que seja só movida pelo interesse pecuniario que ella tão bem se desempenha de tudo?
—Penso... que isso concorrerá!
—Pensas que só o interesse de agradar e de conservar um emprego mesquinho dicte as lições de moral e de desenho que ella dá a Gloria?!
—Concorrerá...
—És mau; ou não és sincero! Eu falo com imparcialidade, porque, como sabes, ella para mim não é uma mulher, mas uma alma. Não a vejo, não lhe toco, a sua imagem material é-me tão indifferente como um pedaço de pau ou uma pedra. Para mim basta-me a sua representação, neste aroma, peculiar d'ella e que erra subtilmente por toda a minha casa; nesta ordem, que me facilita a vida, e no gosto com que ella embelleza tudo em que toca e em que pousa a vista. É uma educada.
Afigura-se-me que ella deve ter estudado á sombra de castanheiros inglezes, entre campos de tulipas e de jacinthos, tão diversa ella me parece dever ser das outras mulheres. Não me digas que é feia. Já sei que o é; mas deixa-me com esta phantasia, que me sabe bem... Ahi vem o Adolpho. São os passos d'elle. É bom que venha cortar este idylio. Os idylios são como os sonhos: tambem ás vezes vêm tarde!... Foi um lindo sonho, o teu!
—Bom! elle já tem consciencia do perigo... pensou comsigo Assumpção.
Adolpho Caldas appareceu entre os humbraes da porta, com as largas faces rubicundas crestadas de sol. Fôra a Paquetá por causa de uma mulher. Não valera o sacrificio...
E o serão passaram-n-o a falar de amor, de politica e de negocios.
No outro dia, ás onze horas da manhã, um carro conduzia os barões e Gloria, da Central para as Laranjeiras. Estava um dia, como dizia Eça, arrepiado. Pequeninas nuvens cinzentas em fórma de escamas sobrepunham-se no azul do ceu. Nas ruas andava gente agazalhada. Um ventinho humido filtrava-se por entre as ramas empoeiradas do arvoredo das praças.
O barão sumia-se no assento do fundo, entre as dobras fartas da saia castanha da mulher, que uma expressão de firmeza e resolução animava. No assento da frente, Gloria, com um largo chapeu de fitas amarrotadas, observava tudo o que via de relance pelas calçadas. Commentavam a falta de Argemiro. Por que não teria vindo Argemiro á estação? Feliciano, esse viera, e lá ficara despachando malas e embrulhos para casa. Bem bom rapaz, o Feliciano.
A baroneza preparava o animo para conflictos! Bem suspeitava de que o genro não estaria contente, elle que tanto a estimava havia poucos mezes! Ia emfim ver o focinhosinho d'essa D. Alice, que se metia em tudo, estragando a felicidade da familia. Era o fermento mau; era a colher de veneno, a gota de azeite rançozo no leite doce e fresco! Como a receberia ella? Como uma creada grave?... como uma dona de casa? A baroneza preparava-se mentalmente: para tal caso, tal attitude...
O carro ia depressa, abalando o figado doente do barão, que se submettia a tudo contrariado, e fazendo tremer a papada flacida da baroneza.
A sombra das suas lindas mangueiras, o socego das suas salas amplas, abertas para o silencio dos campos ramificados por grossas veias de aguas fugitivas, o recorte azul das montanhas afastadas, que lhe era doce contemplar da sua varanda ao pôr do sol, affiguravam-se-lhe bens perdidos para sempre, como se não de bairro, mas para outro paiz estivesse de mudança!
—Arre! exclamou o barão, sem poder soffrear uma praga, a um arranco do carro que lhe abalou todas as visceras.
—Tem paciencia, meu velho! aconselhou a baroneza, voltando-se para elle, não menos abalada.
—O Feliciano escolheu o carro peor que encontrou! Decididamente...
Outro balanço cortou-lhe a phrase e o barão suspirou, lamentando de si para si a sua perdida liberdade da chacara, vigiando as suas plantas, os viveiros de passaros, os seus estudos de botanica, praticos, gostosamente feitos pelas orvalhadas madrugadas de Maio! Desacostumara-se de olhar para as paredes, odiava a cal.
—O mar! gritou Gloria com alegria.
O carro entrára no cáes da Lapa.
A baroneza demorou o olhar sobre a neta. Estava certa de que ella a atrapalharia... era um obstaculo á execução dos seus planos. Depois cerrou as palpebras, sem querer ver a rua por onde a sua Maria passára rigida, fechada á chave, entre galões d'ouro, caminho do Cajú...
Desde esse dia que não tornára áquelle bairro, em que a sua imaginação teimosa insistia em fazer de Maria o mesmo ser animado e doce que fôra em tempos perdidos. Fugira da realidade amarga para o sonho consolador, onde resistia ás solicitações da verdade...
Porque não afagar uma illusão, quando ella suavisa um soffrimento?
—Vovó está doente?!
—Não.... Vae-me custar...
—A culpa não é minha! observou o barão.
—Ninguem te accusa; descança.
—Que é que vae custar, vovó?
—Nada... filha...
Gloria voltara a olhar para a rua, rindo de umas coisas, admirando-se de outras.
Quando o carro parou á porta de Argemiro, a baroneza, dominando a dôr em que o seu coração se dissolvia, estendeu a mão ao genro, que descera á rua para ajudal-a a sahir da carruagem.
A baroneza atravessou o vestibulo com passo firme e vagoroso. Argemiro sentia no braço o peso da sua mão gorda alvejando entre as malhas negras da luva de retroz...
—Fez boa viagem? perguntou-lhe elle carinhosamente.
Mas era pedir muito, pedir-lhe que falasse. Ella não respondeu. Os seus olhos, de um azul turvo, interrogavam a porta do interior da casa, onde Maria vinha recebel-a outr'ora...
Penetrou na saleta com o mesmo silencio prudente. As lagrimas estavam-lhe na garganta. Gloria embarafustou pela casa, á procura de D. Alice. O barão sentou-se em frente da mulher e do genro, enxugando a calva humida, com movimentos nervosos.
Argemiro esperava...
Cançou-se. O constrangimento dos velhos fez-lhe pena. Começou:
—Esta casa é a mesma de ha oito annos, menos, muito menos alegre, mas egualmente sua. O que lhes peço é que se dirijam á governante, D. Alice, que tem plenos poderes para qualquer determinação, e com ella se entendam sobre tudo o que desejarem.
É uma moça distincta e a sua convivencia espero que lhes seja tão agradavel quanto a sua gerencia nesta casa me é util...
Estas ultimas palavras disse-as todo voltado para a sogra, que o ouvia sem pestanejar e muito séria. Elle continuou:
—Como sabem, esta senhora vive nesta casa sem que eu a conheça; e já agora manterei até ao fim esta situação, que parecerá exquisita a toda a gente, menos aos senhores... É um ponto sobre o qual não desejo insistir e por isso limito-me a pedir-lhes que a tenham na conta mais de uma amiga da familia, proveitosa principalmente á minha filha, do que de simples despenseira...
O barão espiava o effeito das palavras do genro no rosto da baroneza. Pallido, mais descahido sobre as pelles molles do pescoço, elle alongara-se, emmurchecido. As rugas faciaes, das narinas ao queixo, cavavam-se fundas, denegrindo a brancura enluarada da pelle. A boca fina esquecera a habitual expressão, arqueando-se muda sob o nariz pequenino e afilado. Só os seus olhos aguados, ensombrados por sobrancelhas inda negras, reflectiam contornos movediços de pensamentos dolorosos.
Argemiro articulava as palavras com propositada clareza; dizia ainda:
—A minha vida é passada na rua. Não esperem nunca por mim. As suas horas serão distribuidas aqui como eram lá em cima. O hospede sou eu.
O barão esboçou um protesto. A baroneza agradeceu, e a porta escancarou-se para dar passagem ao Feliciano sobraçando embrulhos. Atraz d'elle o carregador, as malas, a confusão!
Argemiro allegou necessidade de uma entrevista cuja hora se approximava, e fugiu.
Chegara a hora de vêr a outra, a tal D. Alice, que deveriam tratar como pessoa da familia!... Se valera a pena vir de tão longe para isso! Pessôa da familia... que heresia e que escarneo! A facilidade com que se dizem certas coisas! Como se uma creatura qualquer, pudesse entrar por uma familia a dentro, como por um hotel, sem cerimonia! Para que tinha vindo? para verificar um facto já conhecido?... não estariam ainda a tempo de voltar para traz, para a felicidade silenciosa das suas velhas mangueiras, e das suas aguas fugitivas?
Isso seria razoavel, se não houvesse a vingar a doce Maria, tão abandonada... Pobre filha, ter o seu lar, o seu logar, invadido por uma intrusa de má morte... O Rio de Janeiro era decididamente a capital da perdição. Quem lhe dera ter nascido e vivido numa villa inculta, sem outros rumores que os dos ribeiros, do vento ou do sino da ermidinha branca e socegada! Aquella saleta... sim... a mobilia era a mesma... mas tinha outra disposição... e haviam accrescentado alguns objectos novos... tapetes... quadros... idéas de mulher voluptuosa!
Argemiro, sempre que sahia, tocava a campainha electrica da porta de um modo especial, como um aviso á Alice para que ella pudesse circular á vontade por toda a casa.
Era a unica communicação que lhe fazia directamente, sem perceber que sentia certo contentamento ao executal-a. E a campainha tilintou na casa silenciosa.
Os velhos contemplavam-se interrogativamente, ainda na saleta, ambos tristes e constrangidos, quando Gloria entrou na sala pela mão da governante. O barão levantou-se, a baroneza olhou para a moça com dura frieza.
Ella alli estava em frente, nem submissa nem altiva, um pouco pallida, pela intuição talvez de vir ao encontro de inimigos.
—Vovó! É D. Alice!
Mas a avó de Gloria, reprehendendo o enthusiasmo da neta com um olhar, cumprimentou a moça de um modo quasi imperceptivel. O barão precipitou-se, para um aperto de mão e para apanhar a bolsinha e o lenço da mulher, pousados no sofá.
—Meu quarto está prompto? Perguntou a baroneza, como se falasse a uma criada.
—Está... sim, minha senhora... queira seguir-me...
—Não é preciso: eu sei o caminho; Gloria! vem tu commigo!
A baroneza abriu a porta do corredor e arrastando a neta sahiu, acompanhada pelo marido, que levava as mãos cheias de embrulhos, fingindo-se muito atrapalhado com elles.
Alice sorriu. Certamente a vida é ás vezes bem amarga e dura de ganhar!... Que deveria ella esperar?.. fosse o que fosse, esperaria até ao fim!
XVI
Padre Assumpção morava para os lados da Lapa, numa casa encravada no morro de Santa Thereza, velha e esguia como uma torre, com frente de dois andares para uma rua tranquilla e fundos rentes a um jardimzinho bem cultivado.
Entre o habitante e a habitação havia certas analogias de fórma e de caracter. Tinham ambos a silhueta fina e o aspecto melancolico e fatigado. E se as paredes grossas, da velha construcção, davam a idéa da firmeza que o vulto ossudo do padre suggeria, as rosas brancas entrelaçadas junto ao telhado, no jardim do morro, fariam lembrar a doçura dos seus sentimentos impregnados de idealidade...
As janellas de guilhotina, dos compartimentos superiores, viviam escancaradas para o azul da bahia, taes como os olhos do Assumpção para um sonho infinito...
Todo o edificio, da base ao cimo, parecia socegado; a loja era habitada por um casal de surdos-mudos, cujos gosos e soffrimentos não varavam paredes nem vãos; o primeiro andar pela mãe de Assumpção, e o andar superior, mais resumido, por elle só, que o enchia com os seus livros e as mobilias antigas do seu quarto.
A paz, se o silencio é paz, seria só apparente. O casal de mudos era pobre, e viviam ambos sob a canga do trabalho, cosendo botinas para as fabricas de calçado.
D. Sophia, a mãe de Assumpção, confessava desgostosa não ter criado o filho para Deus, mas para si. Aquella batina preta era o espantalho dá sua alegria. Para ella, o mysticismo do filho fôra uma fórma de doença a que não soubera dar remedio, e as maiores queixas voltava-as contra si propria, que o deixara afinal enveredar por aquelle caminho de sacrificio.
Ella educara-o para o mundo, para a familia, para o amor! Sonhara com outra filha, a mulher d'elle, que a ajudaria a amimal-o, e lhe daria meia duzia de netos fortes e bonitos! O sacerdocio reduzira a cinzas as suas esperanças luminosas. Tudo acabava, tudo morria nelle, que se abatera de repente, como uma vela rota no meio do temporal.
De que lhe servira ter-lhe insuflado o amor pela natureza, pela gloria, pela patria; ter-se sacrificado tanto para o tornar physica e moralmente um forte, se elle lhe escapara, por entre as mãos frageis, para o vacuo? Pobres mães, como os seus designios sahem errados! A quantos sacrificios ella se sujeitara, quando elle era pequeno, com o pensamento de que mais tarde ella teria de tudo a compensação, vendo o seu filho gosar a vida larga e amplamente!
E eil-o um concentrado... um padre! Fôra o collegio dos padres que lhe inspirara aquillo, ou alguma paixão? Elle nunca o dissera. E que importava a causa, se o effeito alli estava e irremediavel!
Amorosa e amiga de crianças, ella lamentara em moça não ter podido dar irmãos ao seu filho, que o alegrassem, arrastando-o em correrias; companheiros de infancia, confidentes amigos da mocidade! E era d'ahi tambem que lhe nascêra a visão d'aquelle futuro ruidoso, quando ella já velha visse a sua casa invadida pelo riso e a jovialidade dos netos!
E o filho, desegual no humor, ora timido, ora arrebatado, cresceu sob a suggestão d'esse sonho. O que lhe valia a ella era a amizade do Argemiro, que mais velho um anno que o amigo, lá o entretinha com as alegrias do seu temperamento robusto. Eram vizinhos, estudavam no mesmo collegio, amavam os mesmos poetas, completavam-se pelas suas semelhanças e dessemelhanças.
A amizade do Argemiro foi um allivio para D. Sophia. Bem percebia ella não bastar á felicidade do filho!
Os dois rapazes viviam como irmãos!
Passaram-se annos assim, até que um dia entraram ambos em casa, um radiante, outro constrangido. Que se passara? Não o soube nunca; mas por mal d'ella o constrangido era o filho, que entrou a empallidecer... a não dormir... emquanto o outro prosperava!
—Meu filho! que tens?
—Nada...
—Escondes-me alguma coisa!
—Nada...
—Quero-te alegre!
—Mas eu estou alegre... acredite que estou alegre e que sou feliz.
Era sempre o que elle affirmava.
—Elle mente-me! pensava a mãe amargurada. E a sua obra, a alegria, a ambição de glorias que, durante tantos annos se esforçara por implantar no filho, sumia-se, derrocava-se, sem que lhe fosse possivel, a ella, amparal-a para a reconstruir!
—Elle mente-me...
Ella queria-o franco, risonho, amigo da vida. Elle retrahia-se, tomava ares abstratos, entregava-se a leituras philosophicas e a estudos incompativeis com a sua edade. Ella não entendia bem d'aquillo, mas presentia um perigo, sem forças para o combater...
—Elle mente-me...
Era a sua amargura. O filho tornára-se de uma sensibilidade doentia; fugia da sociedade, evitava a propria mãe, que se encolhia chorosa, para o não aborrecer.
Aos vinte e tres annos vio-o morto com uma febre. E aos vinte e cinco—padre!
Não o quiz contrariar, não se podia oppôr. Elle lá teria uma razão, differente d'aquella que allegava e que ella espiára em vão!
Não fôra chamado por Deus ao sacerdocio, fôra levado por uma causa extranha, mas inabalavel.
Sonhar! de que vale o sonho que não fructifica, flôr que se esfolha e de que nem o aroma sequer permanece como suave consolação!
Ella sacrificára-se para tornar aquelle filho um vencedor, um homem! e eil-o mystico, retrahido, isolado do mundo para que o destinára!
Ella pedira-lhe uma nora, elle trouxera-lhe uma batina, e á sua indagação angustiosa:
—Meu filho, que tens?!
Respondia ainda:
—Nada. Eu estou contente... Eu sou feliz!
—Mente-me! Pensava ella comsigo, disfarçando as lagrimas.
O que lhe valia era a amizade de Argemiro. Esse sim, era um rapaz solido, pratico, como ella desejara o seu...
Ah, não se podia esquecer nunca! No dia em que Assumpção, pallido e tremulo, lhe confiara a resolução de ser padre, ella levantara para elle a mão, como no tempo de criança, em que se via forçada a corrigil-o... Elle estendera-lhe a face, como Christo; ella retrahira-se, desatando num pranto soluçado.
Negava o seu consentimento; não queria! O homem não nasce para o celibato, mas para a familia; a missão ensinada por Deus é a de creador! affirmava.
E toda afflicta:
—Mas, que determinou semelhante idéa, meu filho?
—A vocação...
—Não... não! Tens algum desgosto comtigo!
—Não tenho nada. Eu sou feliz...
—Elle mente-me! gemia sempre a mãe, por dentro, com os olhos extaticos no semblante impassivel do filho.
Elle tornava-se de pedra e era em vão que ella se debatia á espera de um milagre que nunca se realizou.
Teve que ceder, mas sem resignação.
O que lhe valia agora era a pobreza. Começou a repartir as suas migalhas com os vizinhos necessitados. Toda a sua actividade empregava-a a bem dos outros. Chamou para casa duas crianças orphãs e entretinha-se a ensinal-as e a vestil-as.
—Quando eu morrer, dizia ella ao padre, tu olharás por elles como se fossem teus filhos!
Forçava-o assim á paternidade; obrigando-o a amal-as, empurrando-as para os seus joelhos, contando-lhe as suas gracinhas, fazendo-o adorado por ellas.
Até já achava nas crianças traços da familia!
Assumpção deixava-se assaltar e abria os braços aos pequenos; mas a sua predilecção não estava alli. A proposito de tudo falava em Gloria. Era a sua preoccupação. Uma selvagem!
A mãe não tinha ciumes. Sorria. Se elle tivesse tres filhos amaria os tres, mas em verdade se preoccuparia mais com a menina! Os de casa eram rapazes, ambos de origem extrangeira, orphãos de italianos desconhecidos. Gloria, essa era uma continuação dos entes que mais se prendiam ao seu passado, do Argemiro e d'aquella suave Maria, que o estimara como irmã.
D. Sophia encontrara a salvação nos pequenos a que se dedicava. O seu espirito carecia do sonho. O filho cortara pela raiz todos os que floresciam nella até ao dia em que se fez padre...
Com o correr dos tempos, fôra-se habituando á batina do filho, mas continuava a frequentar pouco a egreja, certa de que Deus a ouviria egualmente do seu humilde canto.
Assumpção mudara tambem; perdera a taciturnidade, interessava-se pouco a pouco pela vida.
Mas a salvação de D. Sophia eram os pequerruchos, muito clarinhos e loiros, taes quaes ella sonhara os netos. Um começava a falar, o outro já dizia tudo numa meia lingua que era uma musica deliciosa. Ella, que tinha o espirito creador e era, sobre todas as coisas, amiga da humanidade, toda se desvelava em aperfeiçoar aquelles dois seres, cahidos como mercê divina nos seus braços saudosos.
Já decretara: um seria medico, o outro seria engenheiro; e ambos produziriam obras beneficas e se casariam com bondosas mulheres!
Assumpção sorria, animando a phantasia da sua querida velha. A experiencia de nada serve aos teimosos: e ella era uma obstinada.
Não fôra elle acalentado com as mesmas esperanças enganosas, certezas que ficaram em esboço nos dias da mocidade?
Ás vezes ainda, interrompendo o silencio do serão, D. Sophia suspirava:
—Quando me lembro, meu filho...
—Não se lembre; apague da lembrança o que lhe não fôr agradavel! Assim, sou mais seu...
—És de Deus. Eu sou humana e amo a humanidade acima de tudo o mais! Não sei a que fonte foste buscar esse mysticismo, que te isolou do mundo para que te criei. A tua profissão obriga-me a respeitar-te, a temer-te quasi... ha occasiões em que deixo de ver em ti o meu filho, sujeito á minha auctoridade, para só considerar o sacerdote, o julgador que me ha de punir ou absolver...
Ás vezes, tambem, era elle que falava, consolando-a:
—A sua vida conjugal foi curta. Meu pae não lhe deixou senão a impressão da felicidade estonteadora. Periodos longos de casamento desvanecem quasi sempre encantos que julgariamos eternos. Assim, vivo para um ideal que não me póde trazer desillusões... Depois, acredite: se eu não fosse padre, seria egualmente celibatario...
A voz d'elle era morna, abafada por um desgosto calado, amigo do segredo.
A mãe fingia acreditar naquella inspiração do ceu, descida a contentar a alma silenciosa do filho. O facto estava consummado, toda a reacção seria loucura; procurava resignar-se. Em vão. A egreja era a sua rival, tirara-lhe o filho dos braços, impuzera-lhe o sacrificio por norma e a solidão por dever!
Ainda se elle tivesse um organismo de combatente, de luctador! Se o visse no parlamento... se o lesse nos livros... mas Assumpção talhara-se na fórma rustica e accommodada do capellão de aldeia, alma simples em corpo simples, servo humilde dos homens e de Deus!
Por fortuna, elle era muito tolerante; parecia-lhe a ella, ás vezes, que elle se vestira de batina por commodidade egoista, como um meio de fugir ás assiduidades dos outros homens e á solicitação das mulheres... Era um meio de viver no mundo fóra do mundo, conforme as exigencias da sua neurasthenia...
Passado um longo periodo de abatimento e de taciturnidade, Assumpção readquiria a calma de outros dias, e foi então que principiou a interessar-se pelas leituras portuguezas, a enriquecer a sua modesta bibliotheca de livros classicos e a jardinar no terreno do morro, para onde abria a porta do seu quarto.
Argemiro enviuvara, e era á influencia da sua companhia, muito mais assidua, que D. Sophia attribuia esse milagre.
Agora elle revelava uma preoccupação: Gloria! A menina era o seu cuidado melhor. Lamentava-se de a ver muito solta, creada sem disciplina, como uma selvagemzinha! A avó era uma santa, dizia elle, mas incompetente para a dirigir.
Depois, a invocação constante que ella fazia da filha morta, chegara a criar em todos de casa como que a illusão de que de facto ella existia, invisivel, vigiando com saudade a sua orphã...
D. Sophia commentava:
—É uma especie de loucura, a que algumas mulheres são sujeitas; mas não me consta que nenhuma a tivesse levado a esse grau! Os filhos unicos acarretam grandes desequilibrios aos paes. É mais uma razão para te interessares pela pobre menina. Realmente, os mortos vão depressa... quando não deixam as mães no mundo! Faze por esclarecer a baroneza. Que se resigne á idéa de que, da linda Maria só existem os ossos...
—Tal affirmação não ficaria bem na minha bocca...
—Não estará na tua consciencia?
Sorris?! pois então, filho, alimenta a fogueira em que a pobre senhora se consome. Levas-lhe! achas e phosphoros, não te espantes de a veres arder! Se a alma existe, a de Maria trocaria o ceu para estar ao pé da filha... Era extremosa!
E nesse caso a baroneza tem razão...
Assumpção jardinava. De joelhos na terra, podava uma—Principe negro—quando a mãe subiu acompanhada de visitas: Alice e Gloria.
—É quando eu gosto de o ver de joelhos!—exclamou rindo D. Sophia, apontando para o filho, que levantou os olhos surprendido.
—Aqui!
—Viemos visitar D. Sophia!—exclamou Gloria. O senhor não merece!... Ha dois dias que não vae lá! Vovó está zangada! De mais a mais, papae foi para S. Paulo!
—Han?!
—Foi, sim. No mesmo dia em que viemos da chacara elle foi chamado por um telegramma! Não sabia?
—Não!
Houve uma troca de olhares involuntaria entre Alice e Assumpção. Que! pois ella desconfiaria?!...
A moça voltara-se para o terracinho, olhando agora para o mar, muito azul.
Assumpção pedia desculpas, tinha as mãos sujas de terra. Correu a laval-as, emquanto D. Sophia mandava vir cadeiras para o jardim.
—Isto sempre é mais bonito que lá dentro. Casa de uma velha e de um padre não tem alegria. Sentem-se aqui, olhando para o mar... assim. A vista é bonitinha, hein? Com que então, Sr.a D. Maria da Gloria, está muito adeantada?
—Qual!
—Não?! pois é pena: está ficando uma moça! E voltando-se para Alice:
—Como esta menina cresce! Acho-lhe uma differença!! É o pae!
—Sim... parece-se, confirmou Alice.
Gloria não se sujeitou á cadeira, levantou-se para revistar os canteiros e uns caixotinhos que via pregados ao muro. As duas senhoras conversavam e tão entretidas pareciam uma com a outra, que Assumpção ao voltar do lavatorio, preferiu ir avisar Gloria de que não mexesse nos caixotinhos, que eram casas de abelhas e iria perturbal-as.
—Eu já tinha pensado nisso, respondeu a menina. Ainda hontem D. Alice me explicou, no jardim lá de casa, a vida d'esses bichinhos. Tudo no mundo tem interesse, não é verdade? Eu tinha raiva das abelhas desde aquelle dia, lembra-se, em que fui picada no pescoço por uma d'este tamanho! Tive uma dôr! Pois agora já até quero bem ás abelhas... O caso é haver quem nos explique as coisas!
—Que te explicou D. Alice a respeito?
—Que as abelhas frequentam as flôres para chupar-lhes o mel, transportando o pollen de umas para as outras e...
—E explicou-te tambem o que era pollen?
—Certamente! com uma flôr na mão. Uma açucena!
—Conta tudo!
—Numa lição só não se póde aprender muito! Assim mesmo eu percebo bem D. Alice, exactamente porque ella não ensina,—conversa. Falou das abelhas... falou das mariposas, disse historias que eu não sabia e de que gostei... Prometteu levar-me á Tijuca para vêr borboletas azues muito grandes, que ha lá... Mas vovó... creio que não me deixará ir só com ella... Se o senhor fosse!
—Irei.
Gloria bateu as palmas com alegria, mas de repente tornou-se séria, olhando para uma roseira completamente coberta de flôres.
—Queres um ramo?
—Não. A ultima vez que fomos ao cemiterio encontrámos uma porção d'aquellas rosas no tumulo da mamãe... Foi o senhor! E vovó pensou que tivesse sido papae!...
—Foi teu pae... levou-as d'aqui,... mas não lhe digas nada, que elle não gosta que se fale nisso! Olha para o mar!
—O seu jardim é muito pequenino!
—Basta para mim... olha este rainunculo...
Emquanto Assumpção fazia Gloria vêr as suas flôres, D. Sophia conversava com Alice. Mandara subir os pequenitos. A moça puzera um nos joelhos e annelava os cabellos do outro carinhosamente.
Que se dizia? Menos do que se adivinhava. A sympathia nascera logo entre ambas. Assumpção pousou por um instante os olhos nellas e desviou-os para além, para o infinito... Tinha sido aquelle o sonho da mãe: uma mulher moça a seu lado, cercada de crianças lindas...
A tarde morria afogada em azul. Já no ceu brilhava a meia lua, e uma neblina prateada vinha da barra, cobrindo o mar.
—É tarde, Gloria...
—Adeus!
Nessa noite, ao chá, D. Sophia disse ao filho:
—Aconselha Argemiro a casar-se com aquella moça. Ella fará a sua felicidade.
E depois, baixo e num suspiro:
—Já que não póde fazer a tua.
XVII
A praia de Botafogo regorgitava: era dia de regatas. Por todo o cáes o povo apinhado olhava para o mar, coalhado de barcas, palpitante de luz. Nas archibancadas, á beira d'agua, as toilettes claras das moças despertavam a idéa de grandes flôres variegadas, desabrochadas ao sol, e, na rua, carros e bonds arrastavam-se cheios, vagarosos, por entre a multidão. Mas a belleza era o mar, cuja superficie apenas enrugada e de um azul violento, toda se paletava de escaminhas de ouro. Andavam pelo terceiro pareo. Baleeiras velozes, bem remadas, demandavam as balisas na ancia da victoria; outras, em repouso, deixavam-se balouçar pela agua, mollemente, emquanto lá no alto as gaivotas espalmavam as azas, tranquillamente.
—Bellos rapazes! observou Adolpho Caldas, olhando com enthusiasmo para a tripulação das baleeiras.
Arlindo Telles accenou com a cabeça que sim, e chupou com mais força e maior satisfação o seu havana.
Caldas continuava a meia voz:
—Contempla áquelles biceps e córa! Homem da cidade, da manhosa politica e das sobrecasacas bem feitas, não te envergonhas dos teus braços deante d'áquelles?...
—Se eu discutisse a murros...
—Quanto mais vigoroso é o braço, mais franca é a lingua!... Digo-te por mim, que as minhas banhas sentem-se humilhadas, offendidas, por áquelles musculos. A nossa raça salva-se. Ainda bem para os paes de familia... Vê o modo energico e bem rythmado por que os remos d'esta baleeira vêm golpeando a agua...
Telles soprou a baforada do seu charuto aromatico, e respondeu:
—Prefiro olhar para o pavilhão e as archibancadas... Se os rapazes são fortes, as mulheres são bonitas, e eu guardo para ellas, em todos os tempos e logares, a minha predilecção. Hum! isto hoje está chic... Se as galerias da Camara tivessem esta sociedade... eu falaria todos os dias!...
—Vês que as mulheres dão mais apreço ao musculo que ao verbo... Empresta-me o binoculo. Dança-se nas barcas...
—D. Maria Helena está no pavilhão... tambem lá estão as Tavares... a Chiquita Maia... A Pedrosa e a filha. Precisamos cumprimental-as.
—Depois... Deixa-me beber saude pelos olhos. Faze outro tanto, que precisamos ambos de lavar a alma...
—Chegou agora a Joanninha Mendes...
—E ella? indagou Adolpho sem desassestar o binoculo da barca, onde se dançava.
—Ainda a não vi... mas ha de vir!
—Lá passam os vermelhos a deanteira!
—Não... por emquanto ainda são os azues...
—Os demonios têm força... Agora!
—Bravo!
—Viva!
—Bravo! gritaram muitas vozes a um tempo, numa explosão de enthusiasmo. Ao lado d'elles um moço gordo berrava, agitando o chapeu. Telles sacudiu a cinza do charuto da lapella da sua sobrecasaca avelã, onde sorria a graça de uma orchidea lilaz, e voltou-se todo para o pavilhão.
Sinhá debruçava-se no pavilhão do jury, com as faces afogueadas e o olhar chamejante. A seu lado, a mãe lambiscava bonbons e as Moreiras, do Cattete, sacudiam os lenços com frenesi:
—É o Boqueirão!
—É o Flamengo!
—Não...
—É!
—Bravo!
—Bravo!
Os nomes dos clubs andavam no ar, como as gaivotas. Afinal, um d'elles ganhou o pareo. Rompeu a musica e a baleeira victoriosa veio receber as saudações, que rebentavam em palmas por todo o cáes, como uma onda. Ao passar pelo pavilhão, Sinhá, toda debruçada, vermelha como uma rosa, atirou-lhe o seu ramo de violetas. Aparou-o no ar um rapaz loiro, batido de sol, de rija musculatura e olhos brilhantes. Trocaram um sorriso luminoso.
—A mocidade!... a mocidade! É isto... um aroma que atravessa o espaço... um relampago que illumina a vida, para deixar saudades... Este sim! commentava Caldas comsigo, lembrando-se do Argemiro; e concluiu: Agora a Sinhá escolheu bem... isto é, não escolheu, achou. Aquillo é amor! E dirigindo-se ao Telles:—Vamos agora cumprimentar as senhoras, com escala pelo «buffet». Estou com sede.
O deputado acariciava o queixo nú com a mão gorducha, em que rutilava um rubi. Seus olhos vivos, de pestanas curtas, furavam por entre cabeças e hombros, á busca de alguem.
Á roda commentavam o pareo. Havia descontentes; moças indignadas, outras quasi chorosas, rapazes amuados. Tinham perdido. Mas outros e outras gesticulavam com alegria por aquelle triumpho, que dava mais uma medalha ao club da sua sympathia.
Falava-se alto nas archibancadas. Os sons da banda de marinheiros no Toureiro da Carmen, não permittiam segredos.
Em toda a linha do cáes os guarda-sóes de côres differentes, lembravam uma vegetação movediça de cogumelos fantasticos, desde os pequeninos, das crianças que assistiam á festa sentadas no paredão, com o olhar estúpido para o quadro polichromo, até aos grandes, protectores de velhos prudentes e amigos da sombra.
Corria uma aragem forte. Agitavam-se no ar os galhardetes vistosos e as bambinellas do pavilhão central, como a acenar a toda gente que fosse para alli, gosar aquelle quadro de luz!
O deputado impacientava-se. Adolpho parecia grudado ao «buffet», comendo sandwiches e bebericando cerveja, no meio de um grupo de remadores muito adulados pela admiração dos outros. Trocavam-se brindes apressados; e na alegria, até um velhote pallido e encartolado trauteava a Carmen, acompanhando as sonoridades da banda.
O intervallo acabava-se. Ouviu-se o estampido do signal de partida.
Voltaram-se para o mar.
—Lá vem ella! Exclamou Telles a meia voz, sobresaltado.
—Um ibisco! observou Adolpho, olhando para uma lancha que se approximava do cáes.
O ibisco era a madame Senra, toda de escarlate, com os bandós doirados rebrilhando sob as papoilas do chapeu. Ella agitava a sombrinha vermelha, rindo-se para o Telles, que se precipitou alvoroçado e inconveniente para a receber no desembarque, sem attenção aos bigodes retorcidos do Senra e á escolta de moças que a acompanhavam.
Caldas imaginou:
«O patife do Telles vae passar uma hora feliz, uma hora ligeira, d'essas que suspendem a vida! Porque será que as mulheres bonitas dão geralmente preferencia aos banaes? Esta é linda. Uma flôr!... Sempre que a vejo sinto os meus pensamentos transformarem-se em abelhas... ella mesma deve sentir-se como que nimbada por um adejo de azas... volupia dos olhos, tentados pela sua graça... Não se me dava!... Que lhe dirá o idiota do Telles? Sua Excellencia alcançará alli o que não alcança na Camara: chegar ao fim?... Pois é bem boa esta cerveja, e vou tomar mais um copo... Talvez chegue... sim... ella não é rigida... uma flôr»!
A Pedrosa vira-o agora. Cumprimentava-o de longe. Que maçada! era preciso ir dizer adeuzinho á Pedrosa!
«O amor faz falta, continuava a meditar Adolpho; desinteressa a gente de tudo... É um abandono, uma estupidez!»
Acotevelando o povo, elle sahiu do «buffet» e entrou no pavilhão central, ao mesmo tempo que uma cesta de flôres e uma bandeija de bonbons.
—Entrei num momento sympathico... concluiu elle para si. E foi cumprimentar as senhoras. Lá fóra renovava-se a scena:
—Bravo!
—Viva Icarahy!
—Viva... Vasco da Gama!
—Viva... a!
Voavam as flamulas e os galhardetes; outra baleeira veio passear o seu triumpho, beirando o cáes, onde a multidão estrondeava em palmas.
Na lindeza do ceu, de um azul carregado e limpido, resaltavam as côres maravilhosamente. Os perfis dos morros, rochosos uns, verdejantes outros, destacavam-se em todas as suas linhas, com surprehendentes minucias. Nas archibancadas as linhas das mulheres eram como orlas de flôres de matiz viçoso que as ondas tivessem deposto na terra maravilhada.
—O sport é a alma do Rio, affirmava a Pedrosa a uma amiga, no momento da approximação de Adolpho. Veja que enthusiasmo!
Decididamente, elle veio substituir os bailes... hoje dança-se pouco.
O remo e o foot-ball roubam os pares ás moças... não é verdade, dr. Caldas?
—Protestando contra o titulo, confirmo, como não podia deixar de confirmar...
—Protesta por modestia?...
—Por consciencia...
—Outros o usam com menos justiça... eu teimarei em chamal-o doutor... Porque não nos tem apparecido?
Elle desculpou-se, e, como se tivessem aconchegado mais as pessoas do grupo, deixou-se ficar, envolvido nos perfumes dos vestidos bonitos que o cercavam. Sinhá, sempre voltada para o mar, não perdia de vista uma baleeira onde um rapaz loiro se condecorára com um ramo de violetas... A mãe fallava, fallava sempre, semeando sentenças, no seu palavreado animado e imperativo.
O marido não a acompanhara. Lá tinha tempo para se divertir!
Os altos negocios do Estado suffocavam-n'o; vivia numa rêde de conferencias, projectos e estudos de responsabilidade. Se todos tivessem a sua sinceridade!
—Faziam-lhe justiça... observaram.
—Qual! os sacrificios eram de tal ordem, que não transpareciam completamente cá fóra... Um verdadeiro escravo das suas idéas, o marido! A politica é despotica... o que lhe valia era não ter ciumes... De resto, concluia ella, para dizer algo em ar de sentença: no amor, quando o ciume entra pela porta, a confiança salta pela janella! Em todo o sentido,—e sublinhava com o olhar a phrase—nunca deixára de confiar no marido.
Cultivava a illusão, se é que era illusão, como quem cultiva uma plantinha rara, de flôres miraculosas. E assegurava:—Está nisso o segredo da felicidade feminina!
As moças nem a ouviam, inclinadas sobre os peitoris, á espera!
Era agora o pareo do Campeonato. Crescia o enthusiasmo. Quem ganharia a taça de ouro?
Soou o tiro, signal da partida.
Arfavam as bambinellas de renda do pavilhão e as tiras garrulas das bandeirolas ao sopro salitrado da aragem. Um rosario de marrequinhas desfiou-se no ar com o susto. Nas archibancadas os leques e as fitas multicores agitavam-se numa palpitação violenta.
—Acceita este raminho de violetas, Sinhá? Disse Caldas com malicia.
O seu cahiu ao mar...
—Acceito, com a condição de poder dar a este o mesmo destino que dei ao outro...
Para tomar as flôres da mão de Adolpho, Sinhá voltou-se e relanceou depois o olhar em torno do pavilhão.
—Olhe quem está alli!... disse ella á mãe, baixinho, apontando com os olhos um certo ponto do cáes.
A mãe seguiu-lhe a direcção e tambem Adolpho, que lhe não perdera os movimentos.
Padre Assumpção estava de pé, e unida á sua murcha batina preta, Gloria esticava o pescoço para vêr bem o mar.
A Pedrosa trocou um olhar com a filha e voltou as costas ao padre. Sinhá demorou-se um pouco a contemplar com sympathia o perfil incorrecto de Gloria e o seu vestidinho de fustão branco sem laços. Depois, voltou-se para a bahia: calara-se a musica, e as baleeiras cortavam a agua céleres, vigiadas pelas barcas e por escaleres admiravelmente tripulados.
«A mãe não se esqueceu... mas a filha é já indifferente ao Argemiro... Amores novos...»
E já as lanchas guinchavam atordoadoramente, quando Adolpho metteu os hombros por entre a multidão.
XVIII
A pouco e pouco, autorizada pela ausencia do genro, a baroneza tomara posse da casa.
O marido intervinha ás vezes, aconselhando que deixasse á outra todas as determinações, ao que ella respondia—se valêra a pena ter sahido da chacara para se pôr á tutela da inimiga!
—Não, meu velho, tem paciencia, eu estou de sentinella á ultima vontade de minha filha. Elle jurou: terá de cumprir o juramento. Esta mulher é mais perigosa do que eu pensei, porque é tambem hypocrita e sabe conquistar pelo geito toda a gente. Menos a mim! Gloria pertence-lhe. Já me tem feito chorar, a filha da minha filha, por quem tanto me desvelei sempre! Até parece que já lhe vou perdendo o amor...
Não percebes o calculo?
—Não percebo nada. A rapariga trata como pode de ganhar a sua vida. O que tu fazes, filha, não é digno de ti. Inventaste uma paixão, onde talvez não exista nem sympathia, e vives a debater-te deante de fantasmas. A moça é fina; não é do estofo commum das governantes, isso é certo... Mas sabes lá, tu que tens vivido sem necessidades, a que sacrificios obriga a pobreza?
—Não faltam officios!
—Mas sobejam concorrentes... Eu sei o que vae por ahi! Olha: vou apontar-te um exemplo: o Dr. Theobaldo Ribas. Lembras-te? Um engenheiro distinto! Está com um emprego secundario numa companhia de empreitadas; a familia habita numa casinhola de porta e janella na Cidade Nova e póde-se adivinhar o que se passa lá dentro, entre oito crianças fracas e o casal sem recursos... Eu, francamente, não sei mesmo como esta pobre moça ainda te atura. Pelas desfeitas que lhe tens feito, se fosse outra...
—Ter-se-ia ido embora. É o que eu digo. Não tem brio. Mas o meu partido está tomado: custe o que custar e seja como fôr, hei de pol-a fóra d'aqui.
—Não faças isso!
—Ora essa! por que não?
—Não estás em tua casa!
—Estou na casa de minha filha.
—Para o que te deu! Tua filha só existe na tua imaginação. Capacita-te d'isso, pelo amor de Deus! É um caso de obstinação incomprehensivel, em ti, que foste sempre tão criteriosa. Acalma-te... e voltemos para a nossa chacara. Eu estou farto de cidade até aqui! E apontava para a calva.
—Voltaremos... deixa estar... eu tambem já não posso mais... A minha vida é um inferno... Todos esquecem, todos gosam, só eu vivo acorrentada ao passado, e revendo a todos os instantes a scena horrivel da morte de Maria! Está aqui tudo, tudo, estampado em meus olhos, enterrado no meu peito. A minha vida parou naquella hora! Não vejo, não ouço, não sei de mais nada. Os annos e os mezes têm corrido para mim ignorados. A minha existencia é a existencia da minha filha. O coração d'ella ficou dentro do meu. É o que eu sinto! Hei de defendel-o até ao ultimo extremo! Ás vezes, tambem eu acredito na loucura... Ao principio, emquanto Gloria era só minha, sentia até certa suavidade em conviver assim com a minha morta... Nota que já não digo: a nossa! mas agora, agora que a inimiga, a intrusa, me rouba tambem o amor da minha neta, sinto dentro de mim um clamor de choro que não posso suffocar, por mais que me esforce! Sou uma abandonada.
—Gloria adora-te, como sempre...
—Foge-me... esquiva-se... acha a minha companhia monotona... A outra conta-lhe historias, mostra-lhe gravuras, saracoteia-se com ella pelas ruas, até já a surprendi pulando na corda com a menina, como se fossem duas collegas, da mesma edade! As crianças gostam de alegria. É natural que a minha Gloria a prefira a mim! Tenho ciumes d'ella, sim, tenho muitos ciumes... E inda queres que a poupe e que me deixe roubar sem um protesto. Nunca!
—Consulta um medico... a tua excitação é doentia...
—Já me tardava! Um medico, e agua de flôr de laranjeira! A outra tambem te conquistou, a ti. Se te mandar dançar sobre a sepultura de Maria... tu dançarás?
—Talvez!
—Ainda o confessas!
—Mas, filha, que queres que eu faça?! Tenho pena de ti, mas não te posso dar razão. Quizeste vir, vim. Consumme-se o sacrificio. Faze o que entenderes, comtanto que voltemos depressa para a chacara. Consente, porém, que eu lamente a outra, como tu lhe chamas, e que a ache digna de maiores considerações. Agora deixa-me prevenir-te de que o Argemiro se cançou do desterro e volta ámanhã.
—Escreveu-te?
—Telegraphou a D. Alice, pedindo-lhe que mandasse o Feliciano esperal-o á Central.
—Ora, vê tu! telegraphou á outra, em vez de o fazer a ti, como era natural. Queres mais claro?!
—Eu sou hospede. É ella quem põe e dispõe aqui.
—É a dona da casa!
—Tal qual.
—E achas isso toleravel?
—Perfeitamente. É paga para isso.
—Elle deve chegar?...
—Ámanhã, ás oito da manhã.
—São?...
—Tres horas da tarde.
—Tão pouco tempo!
—Achas pouco?! repara que ha um mez e dois dias que elle partiu; e para quem conhece os hábitos do Argemiro, faz espantar tamanha demora...
—Fugiu de nós...
—Já pensei nisso...
—E eu que o amava como filho!
—E ainda lhe queres muito bem.
—Não...
—Lembras-te de ser sogra, quando já não o és...
—Sou.
—Em vida de Maria o teu genro era para ti um deus!
—Porque fazia a sua felicidade. Mas agora trahiu-a... Vamos lá para baixo. Onde estará Gloria mettida! Ámanhã... elle volta ámanhã... e eu tenho sido tão cobarde... não sei o que me dá, quando vejo aquella mulher! Delambida. E em baixo d'aquella pelle macia ella tem uma alma de ferro. É dura.
—O Argemiro não ha de gostar quando souber que nunca a admittimos á nossa mesa...
—Ella ia á d'elle, porventura?
—É differente.
—Ora...
—Tambem não lhe agradará a confiança exaggerada que dás ao Feliciano...
—É cria de casa...
—É um velhaco.
—Tambem te desagrada?
—Completamente.
—Pobre rapaz... Prouvera a Deus que a outra fosse tão sincera...
O barão limitou-se a sorrir, com escarneo e tristeza.
Desceram.
A baroneza gritou:
—Feliciano! onde está minha neta?
—No quarto de D. Alice...
—Vá chamal-a.
E depois, como para si: a casa não é tão pequenina assim; o diabinho da menina mette-se naquelle quarto maldito... para que?!
O barão desceu ao jardim, calado, sem disfarçar o seu aborrecimento e um certo pavor. Começava a scena...
Feliciano batia com os nós dos dedos na porta da governante.
—D. Gloria?
—Que é? respondeu ella de dentro.
—Sua avó está chamando a senhora...
—Diga a vovó que já vou. Estou desenhando!
A baroneza exasperava-se, passeando na sala de jantar. E como a menina não apparecesse logo, ella gritou:
—Feliciano!
—Senhora?...
—Então?
O negro sorriu malevolamente:
—Estão conversando...
—Bata outra vez! Diga que venha já! Desaforo!
Feliciano voltou a bater, maciamente, sem impaciencia.
—D. Gloria?
—Já vou! Diga a vovó que espere só um bocadinho...
Era demais! aquillo precisava ter um fim. Até a neta lhe desobedecia! Sim, senhores! A obra da outra estava completa! A não ser o negro, todos conspiravam contra ella. Até o marido... até a filha da sua filha!
Pela porta aberta da saleta ella via na parede fronteira o retrato da filha, muito desbotado, esvaindo-se, cercado por uma moldura de ébano.
«Emquanto eu viver, meu amor, será lembrada a tua ultima vontade... não me esqueci; eu vivo só para a tua memorial...» Pensou ella. E depois, por entre dentes:
—Parece que ella está fazendo de proposito... mas commigo não se brinca!
Feliciano rondava a scena, disfarçadamente, polindo com um trapo de camurça os trastes já polidos. Fôra por manha que entreabrira a porta da sala, quasi sempre fechada, bem em frente ao retrato da morta e, sem parecer olhar, elle vigiava todos os movimentos da baroneza. Ella tremia de raiva por não vêr chegar a menina.
—Ora já se viu uma coisa assim! Querem maior provocação! E apontando para o relogio: ha mais de cinco minutos! Isto não póde continuar... Está bonito!
E imperativamente, furiosamente:
—Feliciano?!
—Senhora?
Apezar da sua mascara de seriedade, percebia-se, que o negro estava por dentro contentissimo.
—Diga a D. Gloria, uma vez por todas, que venha já ou que eu vou buscal-a pelas orelhas!
Feliciano quiz prolongar aquelle desespero e arrastou os movimentos, calculando o tempo para maior accumulação de odio; mas a baroneza, impaciente, passou-lhe á dianteira e caminhou pelo corredor para o quarto da governante.
—É agora! pensou o negro, encostando-se a um humbral, para vêr.
Gloria, já de pé, punha em ordem a sua pasta de desenhos, e Alice cosia perto da janella, quando a baroneza, empurrando com força a porta do quarto, apenas encostada, entrou, livida de raiva, no aposento.
—Vovó!
Alice levantou-se, perplexa.
—Já, lá para dentro! não ouviu? Ha que tempos a mandei chamar e a senhora é assim que obedece ás minhas ordens?! Quem manda aqui? Sou eu, ou é aquella mulher? Diga!
—Vovó... eu...
—Nem uma desculpa! Não quero ouvir mais nada! Tudo é mentira! Já; lá para dentro! e não me torne a pôr os pés neste quarto.
—Vovó...
—Cale a bocca! ande!... ande!
E, pela primeira vez em sua vida, a baroneza empurrou com as mãos fechadas, brutalmente, o corpo da neta.
—Saia d'aqui! já disse! Rode depressa, antes que eu perca a cabeça! Fuja! que está-me ficando perdida pelas más companhias!
E, sem interromper o tom de furia, com os olhos vermelhos, a papada tremula, voltou-se para Alice:
—Quanto á senhora, não é precisa para nada aqui. Se fosse outra teria comprehendido que já é demais. Eu sou sufficiente para tomar conta da casa de minha filha. Veja quanto se lhe deve e retire-se hoje mesmo.
Alice, com os olhos engrandecidos pelo espanto e pela lividez nervosa das faces, respondeu, forçando a calma:
—Não conheço a senhora sua filha.
—É demais!
—Considero a casa como do seu genro e só elle poderá dispensar os meus serviços.
—Isso é um atrevimento!
—É uma resposta.
—Bem me diziam que a senhora não era apenas uma criada, mas tambem a amante de Argemiro!
—Enganaram-na. Nem uma, nem outra coisa.
—Se fosse outra, eu não precisaria dizer tanto, para que já estivesse lá fóra! Capacito-me de que realmente a sua companhia é prejudicial á minha neta e não hesito em pôl-a na rua. Saia!
Alice não respondeu, fixando os olhos no rosto transtornado da baroneza. E depois, com raiva subjugada:
—E se eu não quizer?...
—Sahirá á força. De mais a mais, é cynica!
—Sou honesta. Estou de guarda a um logar que me confiaram e que deffenderei até á morte. Seu genro chega ámanhã. Partirei depois d'elle ter entrado nesta casa. Antes, não! não, não e não!
—Ah, a amaldiçoada! Imagina talvez que Argemiro a prefira a mim! Exclamou a baroneza com uma gargalhada insultuosa.
Alice mordeu os beiços para não responder: todo o corpo lhe tremia, como num accesso de febre.
Gloria corrêra para o quintal. E era como se a casa se desmoronasse sobre a sua cabeça. Que razão teria a avó para querer tanto mal á D. Alice? Que iria succeder?! A quem gritar por socorro?
A voz da baroneza perseguia-a. Sentia nos hombros o peso das suas mãos irritadas. Quem lhe diria!... A loucura?! Seria a loucura?! Deveria chorar pela avó, pela sua razão perdida, ou salvar a moça, que ficara sózinha em sua frente? mas salvar como, se ella tinha medo? Gloria atirou-se chorando para o jardim, na ancia da liberdade e do silencio. O avô ao vêl-a comprehendeu tudo e correu a amparal-a.
—Que tens, meu amor?!
Animada pela presença do velho, a menina agarrou-o com força.
—Venha, vovô... corra... vovó é injusta... é má... está dizendo coisas terriveis á D. Alice... não sei o que é... Vovó me bateu!... pelo amor de Deus... ande depressa!
O avô resistia; mas, ao ouvir-lhe as palavras—vovó me bateu—endireitou-se num espanto e olhou de perto para os olhos da neta.
Não! ella não mentia. Os alegres olhos da sua Maria da Gloria estavam cheios de lagrimas, em que boiavam uma grande decepção e uma terrivel dôr.
—Ah, se papae estivesse aqui!
O barão apressou-se, agarrado á neta; mas ao approximar-se do quarto estacou. Não devia entrar. Não queria entrar. Em vão a neta o impellia, supplicando-lhe que interviesse.
Elle sabia. A mulher não cederia por nada d'esta vida. O mal estava feito; para que recomeçal-o?
Não conseguindo abalar o avô, Gloria avançava sózinha para o quarto, affrontando tudo, quando a baroneza sahiu, hirta, com os labios afinados e pallidos, os olhos circulados de rôxo. A menina recuou espantada. Nunca a avó lhe parecera tão alta.
—Que estás fazendo aqui? Eu não te disse que não tomasses a pôr os pés neste quarto?!—Rugiu ella ao topar com a menina.
—Vovó...
Mas a avó não quiz ouvil-a, e agarrando-a por um braço foi-a levando, numa furia.
O marido, mettido num vão de janella, não a interrompeu, temendo exacerbal-a com as suas ponderações. Passado o offêgo do desabafo ella se explicaria.
Apiedava-se de um rumorzinho de chôro que lhe parecia perceber agora no quarto da D. Alice. As mulheres são terriveis, pensava elle, devoram-se umas ás outras, como animaes de especie differente... Até a minha, que foi sempre incapaz de torcer o pescoço a uma gallinha, dá-se agora, depois de velha, ao prazer de torturar uma creatura sua semelhante... E, afinal, coitada, quem soffre mais é ella... que não encontra remedio para a sua doença. Aquillo já é doença... E ora aqui chegámos, ao desfecho que ella tanto ambicionava e eu tanto temia... E agora? Que se teriam dito?...