JULIA LOPES DE ALMEIDA (continued 4)
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E tudo d'ella repugnava a Ruth: a estupidez, a humildade, a côr, a fórma, o cheiro; mas percebera que tambem alli havia uma alma e soffrimento, e então, com lagrimas nos olhos, perguntava a Deus, ao grande Pae misericordioso, porque a criara, a ella, tão branca e tão bonita, e fizera com o mesmo sopro aquella carne de trevas, aquelle corpo feio da Sancha immunda? Que reparasse aquella injustiça tremenda e alegrasse em felicidade perfeita o coração da negra.
—Sim, o coração d'ella deve ser da mesma côr que o meu, scismava Ruth, confusa, com os olhos no altar.
Quando acabou a missa, tia Joanna quiz fazer a sua penitencia, umas corôas de rosario que ella disse a meia voz, de olhos cerrados.
Ao sahirem do convento, dois frades retiveram a velha juncto á pia de agua benta, interessados pela sua saude, cobrindo-a de bençams e de boas palavras. Fóra, já o sol irrompêra victorioso, estraçalhando os ultimos farrapos de neblina.
A velha lembrou a Ruth que ainda teriam tempo de ir morro abaixo até a egreja do Carmo.
Ruth não respondeu; deixou-se levar. Mais valia andar de egreja em egreja do que voltar para o triste casarão da tia Itelvina.
—Você conhece a egreja do Carmo?
—Não, senhora. Ouço sempre missa na capella do collegio. Não gósto das egrejas grandes.
—Porque?!
—Não sei...
—Ora essa!
—Tia Joanna, ha muita coisa que eu sinto e que não sei explicar. Á senhora não acontece o mesmo?
—A mim? não; nem a mim nem a ninguem. Quando a gente diz que gosta ou não gosta de uma coisa, sabe sempre o motivo por que o diz.
—A senhora reza da mesma maneira em uma egreja grande, sombria e fria, que em uma egrejinha clara e enfeitada de flores?
—Certamente. Deus tanto está nas grandes como nas pequenas egrejas. Elle está em toda a parte.
—Mas se Deus está em toda a parte, porque abandona certas pessoas?
D. Joanna estacou.
—Não diga heresias, menina! Deus não desampara ninguem.
—E a Sancha?
—Hein?
—A Sancha.
—Lá vem você com a negrinha!
—Negra ou branca, é creatura.
—Não digo que não. Mas que falta á Sancha?
—Oh, tia Joanna! pergunte antes o que lhe sobra...
—Você é muito impressionavel. Creia que a pequena não é infeliz. Que seria d'ella, se não estivesse lá em casa... Uma desgraçada, d'essas da rua. Talvez que bebesse, ou que já estivesse com um filho nos braços.
—Estar com um filho nos braços! mas isso seria uma fortuna, tia Joanna. Tomara eu.
—Menina, que é que você está dizendo!
—Gosto tanto de creanças! Olhe, tia Joanna, o meu desejo é ter vinte filhos, vinte!
A velha corou.
—Perdôo essas palavras, porque você é innocente; mas não torne a repetil-as, ouviu?
Ruth scismava em que constituiria peccado o ter vinte filhos, quando D. Joanna exclamou, apontando para duas creanças, carregadas uma com uma harpa, outra com uma rabeca:
—Olha, Ruth; aquellas, sim, é que são infelizes: andam ao sol e á chuva, e se não levam dinheiro para casa, ainda apanham por cima.
—Não as compare á outra, tia Joanna. Eu preferiria andar sempre ao ar livre, apanhando soes e chuvas, tocando no meu violino, dormindo em qualquer soleira de pedra, do que viver no borralho como a Sancha. Ao menos estes teem a musica.
D. Joanna riu-se.
—É verdade; quando você toca esquece tudo.
Chegaram á egreja; a missa tinha começado. Ruth deixou-se ficar sentada no banco, sem attender aos puxões que a velha lhe dava, para que se ajoelhasse. Para que, se tinha exgottado o ardor da sua alma na primeira missa do convento? Sentia-se agora cançada, apertavam-lhe as saudades da mãe e da alegria da sua casa. Como lhe pareceu interminavel aquella missa, que a velha ouvia toda de joelhos, num extase!
Findo o sacrificio, D. Joanna quiz levar esmolas a todas as caixas da egreja.
Ruth apressava-a, morta por se ver na rua, mas a tia nem parecia ouvil-a. No adro lembrou ainda:
—Já que estamos cá embaixo, vamos a Santa Rita saber noticias do padre Euclydes, que está doente.
Ruth objectou:
—Mas titia, eu estou com fome...
—Tem razão, filhinha; mas é um momento só. O sacristão nos dará informações e seguiremos logo para casa.
Em Santa Rita, rezava-se uma missa de setimo dia. Gente de preto cobria as naves como um bando de urubus. O sacristão procurado ajudava á missa, e não havia ninguem na sacristia que soubesse do padre Euclydes. D. Joanna deliberou esperar e empurrou a sobrinha para o corpo da egreja, dizendo:
—Rezemos por alma d'este morto, filha.
—Mas nós nem o conhecemos, titia!
—Não faz mal; foi um peccador, precisamos salval-o.
Tia Joanna ajoelhou-se e ergueu o rosto gordo e pallido para o altar. Era tal a fé, a doce piedade que a sua expressão diffundia, que Ruth deixou-se cahir de joelhos e pediu a Deus perdão para a alma d'aquelle desconhecido, por quem tantas mulheres choravam...
Que Deus lhe desse abrigo e eternos gosos!
Emfim, o sacristão affirmou á senhora do Castello, como muita gente a chamava, que o padre Euclydes entrara em convalescença, e diria no domingo a sua missa.
—Bem, titia, chegou a minha vez de lhe pedir tambem uma coisa; disse Ruth.
—Peça, filhinha.
—Já que estamos tão perto, deixe-me ir tomar a bençam a papae. A estas horas elle está farto de estar no armazem.
D. Joanna hesitou:
—Olhe que não é tão perto assim...
—Parece-me que já estou ha tanto tempo fóra de casa...
—Vamos lá... Que pieguice!
Tinham andado meia duzia de metros quando esbarraram com Francisco Theodoro, que vinha reçumando saúde e alegria pelas faces coradas, empertigado nos seus linhos e brins brancos, bem engommados, de que um paletot preto fazia resaltar a alvura.
Nos seus olhinhos pardos, muito claros, faiscavam lampejos; elle extendeu as mãos á filha, com uma exclamação de alegria:
—Senhora fujona, que faz por aqui?!
—Já enguli tres missas, papae; mas ainda estou com fome! Iamos agora procural-o ao armazem; eu queria tomar-lhe a bençam, para depois irmos almoçar...
Se papae nos levasse a um hotel?...
—Não posso. Tenho muito que fazer. Vou agora mesmo procurar o Innocencio Braga, que já deve estar á minha espera... Adeus.
E, abreviando, elle metteu na mão da filha uma nota de vinte mil réis, aconselhando ás duas que comessem qualquer coisa em um restaurante. E despediu-se á pressa, mal ouvindo os innumeros recados que a Ruth mandava á mãe.
D. Joanna lembrou-se que estavam perto da casa do Dr. Maia, e que mais valeria irem lá papar-lhe o almoço do que entrarem sozinhas em um restaurante. Ruth sorriu-se do escrupulo da velha, já contagiada pelas economias sordidas da irmã.
—Tanto me faz, tia Joanna; leve-me onde haja bifes, e eu ficarei contente; respondeu-lhe a menina.
Ardiam-lhe os pés; uma fadiga enorme amollecia-lhe o corpo; e entregava-se, inerte, á vontade da velha. Por fortuna, a casa do Dr. Maia era perto do largo, na rua dos Ourives, um sobrado antigo, de rasgados salões arejados, onde velhas mobilias bem espanadas attestavam o escrupulo dos moradores.
O Dr. Maia foi o primeiro a recebel-as, no corredor; muito velhinho, arrastando os chinellos bordados pela neta, com a gorra de velludo cobrindo-lhe a calva, e um bom sorriso hospitaleiro illuminando-lhe o rostinho claro e murcho, onde os olhos azues se iam velando da neblina da velhice.
D. Joanna era intima da casa, recebida sem cerimonia; e como a Ruth tivesse ar de menina, elle foi empurrando a ambas para a sala de jantar.
Só estava em casa a velha, a D. Elisa; a filharada debandara depois do almoço, uns para o emprego, outras para o dentista e as compras. Mas no fundo das cassarolas ainda havia restos de arroz e de ensopado; D. Elisa recommendou que estralassem uns ovos, e em poucos minutos D. Joanna e Ruth almoçavam, ao som de um discurso do Dr. Maia, que ia descrevendo com surprehendente enthusiasmo o seu invento de um balão dirigivel.
Elle não pensava em outra coisa; vivia em perpetuo vôo, entre altas camadas de atmosphera. Desde alguns annos se fixara nesses estudos e para elles fazia convergir todos os seus cuidados.
A mulher sorria-se com resignação imposta pelos mil desvarios que se acostumara a conhecer no esposo. Desde rapaz que elle fôra assim, mettido a emprezas oppostas á sua competencia. Tinha estudado para medico, e abandonara a clinica para defender réos desamparados, escrever para jornaes e desperdiçar forças e tempo na elaboração de grandes emprehendimentos que não levava a termo. Agora era o balão.
Aquelle velho de quasi oitenta annos, achacado de asthma, perdia horas de somno, curvado sobre a mesa, a desenhar, a escrever, a dar forma á sua ideia, em uma palpitação assombrosa de vida.
Havia em casa uma certa piedade pelas suas manias, um respeito pela innocencia d'aquelles ideaes. D. Elisa dizia ás vezes que se a alma, no seu ultimo vôo, tomasse fórma visivel, veriam, os que assistissem á morte do marido, que a d'elle lhe voaria do peito como uma borboleta. E toda azul! accrescentava ella, com o seu sorriso sympathico.
D. Joanna mal entendia as descripções do Dr. Maia, mastigando com difficuldade a carne um pouco dura, batida á pressa. Ruth abria os ouvidos e via esgarçar-se a neblina que a edade punha nos olhos do medico e ir-lhe apparecendo nas pupillas azues um brando fulgor de primavera. Ella percebia alguma coisa, via já o balão scindindo as nuvens, leve, airoso, vestido de côres luminosas. Como seria bom subir tão alto, tão alto!
—O meu balão será de aluminium, um metal levissimo, explicava elle, e todo redondo, gyrará em grandes circulos, como se dansasse uma valsa; percebem?
D. Joanna fez que sim com a cabeça, e espetou uma batata. Ruth murmurou:
—Assim branco e redondo, será como a lua ... que bonito!
Felizmente, uma nova visita veio interromper a exposição do velho, que se despediu das senhoras e lá se foi para a sala pigarreando pelo corredor.
D. Elisa desabafou depois com a amiga as suas queixas domesticas. O marido exgottava os minguados recursos em livros e revistas. O que lhe valia era o filho mais velho, o José... A neta andava na Escola Normal e ganhava para os seus alfinetes; as duas filhas solteiras, já trintonas, coitadas, cosiam para fóra... Ahi estava a vida. E é assim, por ahi; toda a gente trabalha; accrescentou ella com um suspiro.
Quando D. Joanna e a sobrinha voltaram para o Castello, quem lhes abriu a porta de casa foi a Sancha. Ruth recuou espantada. Que! pois a idiota da negrinha não ouvira o seu conselho?
Ao jantar, uma tristeza. D. Itelvina alludia com escarneo mal contido ás grandezas do palacete Theodoro, e lamentava-se de só poder abastecer-se de generos baratos, espremendo-se em lamurias. D. Joanna benzeu o pão, rezou de mãos postas, e sentou-se á mesa com a sua consciencia feliz, e uma doce expressão de conforto. Para ella tudo era bom, estava tudo sempre muito bem.
Foi nessa noite que Ruth subiu com ella as escadas do Observatorio, para vêr as estrellas; e quando as viu, a sua commoção foi tamanha e tantas as suas exclamações, que a tia observou:
—Você é muito exaggerada, Ruth!
Ruth nem a ouviu; olhava embevecida. No céo, de um azul fechado, aquelles pontos de ouro tomavam formas e dimensões excepcionaes. Esta estrella era verde, aquella azul, aquella outra violeta, e uma como um bouquet de variados matizes, e outra pallida, e outra affogueada, e outra diamantina, e todas immensas e luminosissimas. Oh! as estrellas, que belleza de céo! Sobretudo as do Cruzeiro eram formosas, limpidas como o clarão da fé. Depois, aquelles chuveiros de ouro e prata, aquelle fervilhamento multicor da via-lactea, raios de fogo dançando, cruzando-se, chispando em fagulhas de uma pyrotechnia phantastica... Depois a lua...
—Nossa Senhora, que immensidade!... Como é bonito! Oh! tia Joanna, como é bonito!
—Bom, bom; divirta-se...
Ruth não respondia; com o olho collado á lente, esmagada pela poesia d'aquelles esplendores, ficava embevecida, como se dos astros chovessem sobre ella aromas que a embriagassem.
—Filhinha, vamo-nos embora...
—Mais um bocadinho só ... oh! tia Joanna!
Nessa noite, deitada ao lado da tia na alcova mal allumiada e que tresandava a azeite de lamparina, Ruth via na imaginação impressionada as estrellas, globos enormes de crystal cheios de luz e cheios de flores, fulgurando e espargindo aromas. Já ella adormecia e ainda a tia lhe ouviu em um murmurio entrecortado:
—Como é bonito!
No dia seguinte, quando acordou, era tarde. Tia Joanna sahira sozinha para as devoções; nem a presentira. Tia Itelvina andava aos berros pela casa.
Ruth saltou da cama assustada e foi entreabrir a porta:
—Que é?
A tia respondeu-lhe com mau modo, em uma rebentina:
—A Sancha fugiu!
Um tremor de febre percorreu o corpo de Ruth.
Atirou-se para a cama, puxou os lençóes até a cabeça. Para onde teria ido a pobre, sózinha, sem conhecer ninguem? De quem seria a culpa se lhe acontecesse uma desgraça?... De quem, senão d'ella?... Ora! sempre seria mais feliz lá fora...
Quando nesse dia Noca appareceu no Castello, Ruth lançou-lhe os braços ao pescoço. Era a sua libertação.
D. Itelvina rabeava pelas salas e corredores, culpando a irmã, que se levantava fora de horas para a carolice e deixava a casa escancarada, provocando a negrinha para o assanhamento da rua.
Foi ao fragor d'essas invectivas que Ruth se despediu da velha, deixando-a sozinha no seu casarão, onde as catingas do rato e do mofo vagavam conjunctamente.
XV
Creanças, venham lanchar! gritava Nina para o jardim, ás gemeas, quando viu entrar a Therezinha Braga.
—Você chegou a boa hora, Therezinha, nós vamos tomar café. Entre.
—Estou com muita pressa; quero ver se vocês me emprestam o ultimo figurino.
—Mas nós não temos d'isso. Tia Milla manda fazer tudo fora...
—Manda a Noca pedir alli á casa do Dr. Nuno!
Nina vacillava, com vontade de servir a amiga; mas a mulata, que ouvira tudo da janella da copa, interveio com ar peremptorio:
—Seu Theodoro não quer que se peça nada á visinhança.
—Elle não precisa saber ... insistiu a Therezinha, ainda no jardim.
—Oh, xente! Porque é que a senhora não manda pedir os figurinos em seu nome?
—Porque estamos mal com o Dr. Nuno ... ora, você bem sabe!
—Eu não. Eu só sei que temos ordem de não incommodar a visinhança. Seu Theodoro não é para brincadeiras; quando põe a bocca no mundo vae tudo raso! Creanças! olhe só onde ellas estão!
—Vae buscal-as, Noca, que o café arrefece. Entra, Therezinha, talvez se possa arranjar alguma coisa...
—Esta D. Nina, não tem emenda! murmurou por entre dentes a mulata.
Servindo o café, Nina explicou á Therezinha:
—A baroneza da Lage está lá dentro; eu vou pedir-lhe que me mande logo os seus figurinos.
—É para o meu vestido de baile.
—Você mesma é que o vae fazer?
—Que remedio! Sabe de que côr são os das Gomes?
—Não...
—Amarellos! A Carlotinha pediu á modista que lhe decotasse bem o vestido atraz, para mostrar o signal preto da espadua ... é levada, a Carlotinha! Ninguem dirá, ás vezes, que é uma moça de familia: parece outra coisa...
—Está muito bonita, agora, depois que engordou.
—Mas cada vez mais maliciosa...
Nina não respondeu; mandava o copeiro servir o café á sala. Lia e Rachel entraram arrastadas pela Noca, tentando morder-lhe as mãos, muito pirracentas.
—Já viram só estas meninas como estão! Bem, D. Nina! dê todos os sonhos a Ruth.
Nina elevou, sorrindo, o prato de sonhos em direcção a Ruth, que se balançava em silencio numa cadeira, e então as creanças avançaram para a mesa, á espera do café.
—Ora graças!
Engulido o café, Therezinha declarou:
—Tenho muito que fazer; adeus, vou-me embora!
As gemeas fugiram tambem, com as mãos cheias de sonhos, para o jardim; Nina e Ruth ficaram sós, muito caladas, ouvindo as moscas voejar sobre os restos assucarados dos pratos.
De repente, Nina:
—Em que é que você está pensando, Ruth?
—Na Sancha.
—Que ideia!
—É que ninguem sabe! fui eu que disse á Sancha que fugisse. Tive tanta pena d'ella! Tia Etelvina é má: batia na negrinha com vara. Eu vi. A Sancha nem parecia gente; suja, desconfiada ... que estupida! Não sei como ella podia aguentar aquella vida. Fui eu que lhe disse que fugisse; e depois que ella fugiu, tenho medo que morra por ahi átoa, que não ache emprego, que se embebede ou fique embaixo de um bond... Até sonho com a Sancha. Que coisa horrivel!
Nina consolou-a. A Noca já lhe contara que a pretinha quizera envenenar-se; era menos burra do que parecia.
—Você é muito nervosa; deixe lá a Sancha, pense em outra coisa. Tia Milla ainda está no terraço com a baroneza da Lage ... vamos lá?
—Para que?
—Para fallar nos figurinos... Eu ando um pouco desconfiada com tantas visitas d'aquella senhora ... você tem reparado como ella cochicha com Mario?
—Não...
—Pois repare... A lesma da Paquita tem bom advogado!
—Mario não gosta d'ella.
—Quem disse?
—Elle mesmo, bem alto, outro dia na mesa. Você não ouviu?
—Ouvi...
—Então?
—Então? Quem sabe o que estará para acontecer!
Nessa tarde Camilla participava em segredo ao marido que a baroneza da Lage viera declarar-lhe o amor da irmã por Mario, e lembrar-lhe que o baile seria uma bella occasião para a apresentação dos noivos.
O negociante olhou boquiaberto para a mulher.
Ella disse:
—Elles desejam abreviar essa historia, porque o velho quer ir para a Europa.
—Mas é incrivel!
—Porque?
—Porque! porque o Meirelles é um homem pratico; não ha de querer entregar a filha a um rapaz sem profissão! Isso não pode ser. A Lage está doida.
—Você é injusto... Mario não tem profissão, mas pode vir a tel-a.
—Lá vêm cantigas! Pois sim! Aqui para nós: o rapaz não vale nada. Quem não trabalha, que garantia pode dar á familia?
—Elle é rico, e a Paquita ainda o é mais...
—Por esse lado approvo. O dote d'ella é bom, e a familia excellente. Se o Mario soubesse ser o que sempre desejei, pouco me importaria que se casase com mulher pobre. São as melhores; trazem a experiencia da vida. A experiencia da vida é um grande dote.
—Você falla com Mario?
—Eu?! eu não. Não concorrerei com o meu conselho para semelhante asneira. Arranjem-se; Que diabo! elle ainda não tem vinte annos. Falla-lhe tu ... se quizeres.
Francisco Theodoro passeava pelo quarto, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar as chaves.
—A Lage disse-me tambem que você entrou em uma grande negociata com o Innocencio...
—Como soube ella d'isso?!
—Não sei... Diz que a sua casa vae ser uma das mais fortes ahi...
—Tenho medo...
—Hein?
—Não é nada; está feito. Pois senhores, parece incrivel, elles querem mesmo o casamento?
—Então? Logo que Mario queira, será coisa para uns quinze dias. O Meirelles deseja levar os noivos comsigo. Bem pensado, Paquita teve bom gosto.
—Muito fresco! Olha: eu lavo d'ahi as minhas mãos.
—Logo vi... Mario já deve ter chegado; eu vou fallar com elle. Por emquanto é bom não dizer nada a ninguem.
—A quem o dizes...
Theodoro ficou só no quarto, mudando de casaco e de calçado, vagarosamente, com sentido no negocio que o preoccupava.
Como diabo teria a Lage sabido d'aquelle negocio com o Braga?
Abriu a janella e encostou-se.
De baixo, da sala de jantar e da cozinha subiam o cheiro de gorduras e a musica da crystallaria e da prata movidas pelo copeiro.
No grande lago do parque, de aguas renovadas, patos gordos desprezavam as migalhas de pão que a Rachel e a Lia, deitadas de bruços na relva sobre os bordados bem engommados dos vestidos, lhes atiravam ás mancheias. Sob a jaqueira enorme, carregada de fructas grandes como ubres tumidos, o cão de guarda preso á corrente, devorava uma enorme posta de carne em um alguidar. Todas as plantas, bem tratadas, rebentavam em grellos viçosos ou se expandiam em flores, e pela rua de palmeiras, que ia ter á horta, o jardineiro vinha carregado com uma cesta de fructas e frescos pés de alface.
A terra suava de farta; não lhe faltava nem o adubo que lhe dá força, nem o ornamento que lhe dá graça. Afigurou-se então a Theodoro, com clareza, que a vida é uma coisa bem boa para quem vence e faz cahir sobre o terreno que o circumda a chuva de ouro fecundante.
No seu orgulho de homem sahido do nada, aquelle goso material da riqueza enchia-lhe a alma de uma especie de heroismo.
Era como se elle tivesse feito tudo, desde as pedras dos fundos alicerces do seu palacio até as mais exquisitas fructas do seu pomar e as mais divinas flores das suas roseiras. Semente germinada á custa do seu dinheiro, era obra sua, envaidecia-o, como se a suprema perfeição da planta lhe tivesse sahido de entre os dedos poderosos.
Em todo esse sentimento de conquista havia, a bondosa ingenuidade de ter sabido crear para os seus uma felicidade perfeita.
Nunca os filhos saberiam o que era uma infancia como fôra a sua, desagasalhada, errante; nunca a mulher saberia o que era ter um desejo sem esperança de satisfação, e a todos envolveria sempre o luxo, a abundancia e a alegria.
As copas das palmeiras desenhavam-se em fila na atmosphera limpida.
Uns passos rangendo na areia chamaram-lhe a attenção para baixo da janella: Camilla e Mario sahiam de casa para o jardim. Ella; alta, bem desenhada no seu vestido claro, andava de vagar; elle, com o peito florido por um fresco bouquet de myosotis, as mãos nos bolsos, parecia ouvir a mãe com attenção a que não era afeito.
Seguiram ambos para o jardim da frente e deram volta á casa; quando os perdeu de vista, Francisco Theodoro desceu á sala de jantar; A mesa estava prompta; Nina, com o seu aventalzinho bordado sobre um vestido escuro, dava uns retoques á fructeira.
—O Dr. Gervasio almoçou cá? perguntou-lhe o tio.
—Como sempre.
—Virá jantar?
—Creio que não...
—É o diacho ... eu precisava fallar-lhe!
—O seu empregado está peior?
—Parece-me que sim ... coitado...
Nina suspirou, e da fructeira passou ás flores da jarra, pensando no velho Motta, que mal conhecia, entretanto. Depois de uma pausa:
—Quer que eu mande tocar a sineta?
—É bom esperar um pouco; tua tia está em conferencia com o Mario. De maneira que o Gervasio não voltará hoje por aqui?
Nina não respondeu, o coração batia-lhe com força. A ideia da Lage deu-lhe o presentimento da verdade. Seria certo, Deus do céo, que Mario se casaria com a outra? Conferencia com elle... para que?
Francisco Theodoro recostara-se em uma cadeira do terraço, lendo um jornal da tarde a que pouca attenção prestava. O que estaria a mulher a dizer ao filho? Julgava do seu dever não intervir naquella creançada; se o fizesse, seria para despersuadir a moça de tal casamento: conhecia a frivolidade do filho; o que o espantava era o consentimento do intransigente Meirelles: só explicava aquillo por caduquice; miolo molle.—O homem ensandeceu! Ora, ora! dar a filha ao Mario!—resmungava elle de vez em quando, com estupefacção, como se fizesse um commentario ao artigo acabado de ler.
Nina, que se agitava de um lado para o outro, indo de armario a armario, de janella a janella, veio para o terraço e encostou-se á balaustrada, muito abatida. De seus olhos pardos sahia uma luz branca, onde relampejavam fulgores frios.
Vira de relance a tia e o primo embaixo dos tamarineiros, e fugira depressa da janella da copa para o terraço, com medo de perceber-lhes nos gestos a expressão exacta das palavras que diziam. Adivinhava a verdade, mas temia ouvil-a, porque essa verdade não a magoaria só, offendel-a-ia tambem. Era como que um ultrage á sua mocidade outomniça, á sua pobreza e á sua fé no amor. Sentia-se predestinada a ser na vida uma espectadora da ventura alheia, e uma revolta de sentimentos dava-lhe desejos máos.
A tia, contra o dever, não amava, não era amada, não sacrificava tudo pelo perfume de uma palavra amorosa, pela loucura divina de um beijo? Aquelle livro de paixão, tão imprudentemente aberto deante dos seus olhos, não a fizera por tantas vezes estremecer de inveja e sonhar com as delicias do amor?
Até ahi respeitara aquella paixão, sentia-a sincera, fazia-se céga, apiedada d'aquellas almas felizes. Agora tinha impetos de se vingar, de arrancar das mãos do tio o jornal, de gritar-lhe com toda a força a historia d'aquelles amores que a humilhavam, porque entre ella e a tia, não era a outra, casada e mãe, mas sim ella, orphã e virgem, quem tinha direito áquella felicidade de amar e de ser amada...
Duas borboletas brancas passaram rente a ella, perseguindo-se.
Nina fechou os olhos, mas a visão da felicidade alheia lá estava dentro. Qual seria o interesse da tia em casar o Mario?
Lia e Rachel interromperam-n'a; vinham nas bicycletas a toda a força, reclamando o jantar aos brados. O pae sorriu, achando-as lindas, assim rosadas, com os cabellos ao vento.
Ellas, já combinadas, atiraram-se para elle, turbulentamente, pedindo-lhe ao mesmo tempo as mesmas coisas. Queriam um carrinho de verdade, puxado a poneys, com o cocheiro vestido de azul.
Nina aproveitou para mandar servir o jantar, morta por interromper a conferencia da tia.
E. quando Camilla e Mario entraram na sala ninguem lhes soube lêr nas physionomias uma sombra sequer da verdade; fallavam ambos do baile, como se de outra coisa não tivessem tractado.
Foi só á noite que Milla disse no quarto ao marido:
—O Mario acceita o casamento. Assim como assim, elle não tem mesmo gosto para o commercio...
XVI
Na sua salinha da rua Fundo, extendido no velho canapé empoeirado, seu Motta, emmagrecido, com a barba crescida, as faces chupadas, olhava para as moscas que zumbiam, negrejando na cal da parede encardida.
Lá dentro, a filha cortava o silencio de vez em quando com as suas passadas vagarosas, em que se sentia o cançaço.
Tinha razão: era só para tudo. O pae, apezar da impertinencia da molestia e das suas exigencias de homem amigo da limpeza, resignava-se quasi sem protestos áquella immundicie em que se ia encharcando. Certo, que isto de se dizer que uma mulher pode fazer todo o serviço sem se enxovalhar, é coisa de romance. A Emilia andava com as mangas e o avental sujos de carvão, tinha as unhas impregnadas do cheiro da cebola e do alho; e as mãos, avermelhadas pelo uso do sabão da terra com que esfregava a roupa, tinham perdido o geito para a caricia doce, macia, tão querida das creanças e dos doentes. A pobre andava escada abaixo e escada acima, do sótam para a cozinha e da cozinha para o sótam, com os hombros vergados ao peso da bacia cheia de roupas ensaboadas ou torcidas, para extender lá em cima no telhado, a um calor de rachar.
A paciencia exgottara-se-lhe, ella andava aos suspiros, cada vez mais côr de cidra.
Quando se mirava no espelhinho do seu quarto, ella mesma se achava feia. O seu rosto alongava-se, tomava uma expressão de animal.
O pae chamou-a:
—Emilia, olhe, veja se pode dar uns pontos nestas meias ... estão-me incommodando. O paletot está sem botões.
Ella não respondeu, foi dentro e voltou:
—Estão aqui outras meias.
—Tenha paciencia, minha filha, eu não posso dobrar a perna...
Emilia agachou-se e mudou as meias ao pae. Elle continuou:
—As minhas calças de brim estão muito encardidas, será bom alvejal-as emquanto eu estou em casa. Vão ser muito precisas. O meu terno de casimira está escovado?
Ella mal respondeu com um signal de cabeça. O pae, querendo poupal-a, com remorsos de lhe dar semelhante existencia, atrapalhava-a com exigencias; eram os lenços rotos, as ceroulas sem nastros, ou por que as cadeiras tinham um dedo de pó, ou por que as plantas das latinhas morriam nas janellas á mingua d'agua, torradas de sol.
Enfadada, Emilia fazia os reparos exigidos, em silencio, com ar rebarbativo. Então o velho voltava o rosto para a parede e fechava os olhos para reter as lagrimas.
Vinham-lhe á mente os seus bons tempos de Pernambuco e a alegria da sua defuncta, tão activa, tão pagodista e festeira.
Quem diria que de tal mãe...
Á hora do jantar, a filha ajudou-o a ir para a mesa, em um canto da cozinha, ao pé de uma janella com vista para telhados.
De enfastiado, elle ás vezes não se continha e suspirava:
—Que jantarzinho cangueiro...
Emilia não respondia; punha-lhe no prato o feijão e a carne secca, que elle engulia com esforço.
Nesse dia a tarde estava quente.
O papagaio da visinha arremedava as vozes e as gargalhadas das moradoras de baixo, reunidas no quintal.
Motta sentiu vontade de palrar um pouco tambem; mas a companheira voltou-lhe as costas para ir lavar as panellas e o cheiro das banhas frias tornou-se insuportavel.
Elle voltou resignado para o canapé da saleta, martellando com a bengala o chão roido pelo caruncho e pelos ratos.
O seu sonho era sahir, voltar ao escriptorio, tactear as folhas dos livros, pensar em negocios, deixar de vêr o rosto comprido da filha e de sentir a morrinha da casa suja.
Quem de vez em quando cortava aquella pasmaceira com um pouco de alegria, era a bahiana Bertholina que lhes levava um resto de quitanda recambiada, fatias de Mané-taiado, ou cocadas com abobora, sujeitas ao azedume. E então era só:
—Yoyô! Yayá! e gargalhadas frescas e: É preciso paciencia, atraz dos dias maus vêm os dias bons, não é meu Yoyô? Tenham fé em Deus... E adeus, minha Yayá, e adeus meu Yoyô!
Seu Motta sorria lambiscando as cocadas, feliz por vêr alguem rir.
Nessa tarde a Bertholina iria a proposito; mas quem appareceu foi o Ribas.
Seu Motta contava as moscas da parede, sem querer dar confiança ao rapaz, mas abria os ouvidos.
Elle estava mortinho por dizer o que sabia, e logo depois de uma meia duzia de palavras:
—Hontem houve um baile em casa de seu Theodoro. Diz que a rua estava cheia de carros. Só o vestido da D. Camilla custou dez contos...
—Quem acredita nisso...
—O Mario vae casar-se com uma moça que tem para cima de mil contos. Foi ao baile coberta de joias. Seu Guimarães, seu Castro, todos estes turunas do café foram lá.
—Como sabe você de tanta coisa?
—Foi o Isidoro quem me contou.
O Ribas, com os hombros descahidos e um sorriso nos labios molles, fallava em sumptuosidades, com a voz empapada em saliva.
O velho tossiu, fingiu querer dormir, negando confiança ao rapaz, sentindo-o abusivo. Vendo que o outro o não entendia, exclamou:
—Você não tem que fazer?
—Eu ainda não achei emprego...
—Veja lá, eu não quero que seu cunhado pense que o retenho em minha casa.
—Meu cunhado não me governa.
Seu Motta despediu o Ribas, mas logo que o viu descer a escada sentiu-lhe a falta. Ao menos aquillo era alguem, sempre trazia um echo de vida, um zum-zum de fóra.
O Ribas desceu, enfarado d'aquelle velho cainha, que não escorrera nem um tostãozinho para o café; se pensava que elle ia levar as novidades só pelo amor dos seus olhos! Burro! Elle ainda haveria de ensinar toda aquella canalha a temel-o e a chover-lhe dinheiro no bolsinho; era só fallar com o Pirueta da Pedra do Sal, que lhe ensinasse a capoeiragem...
Na rua da Saúde parou á porta do armarinho da irmã, a Deolinda, que esmiuçava a grenha hirsuta de um filho de tres annos, recostado sobre o seu ventre enorme.
Ribas fez-lhe signal da porta, perguntando se podia entrar e observando ao mesmo tempo se o cunhado estaria alli; ella disse-lhe que não entrasse e, sacudindo-se a custo, foi á porta e fallou-lhe em segredo.
—Você não tem vergonha? vá-se embora! Ubaldino tá hi...
—Queria que você me emprestasse quinhentos réis...
—Onde é que eu vou buscar dinheiro, gente!
—Na gaveta do balcão.
—Na gaveta! por você ter mexido na gaveta do balcão é que aconteceu o que aconteceu; vá-se embora!
—Não seja má, Deolinda.
—E o seu ordenado? Olhe: nós não fazemos negocio nenhum... Minha creança está para nascer e eu não tenho nem uma camizinha arranjada. Mal dá p'ra comer, sabe Deus como!
—Não seja sovina; depois eu pago.
—Ubaldino ahi vem ... vá-se embora.
—Ora...
E com arremesso o Ribas seguiu pela calçada até ás Docas; á porta encheu-se de batata roxa, cozida, que a Bertholina bahiana vendia, tagarellando com uns marinheiros do Lloyd. Depois das batatas o Ribas ainda teve uns tostões para tangerinas. Só bem repleto foi que bateu as solas rotas pelas calçadas, a caminho da rua de S. Bento.
Ahi chegado, quiz desafiar a paciencia de seu Joaquim, postando-se como um basbaque á porta do armazem, vendo os trabalhadores na sua faina entrarem e sahirem sem interrupção.
Em cima, no escriptorio, Francisco Theodoro, amollecido pela sua noitada de festa, narrava lealmente ao Meirelles, pae da Paquita, a inaptidão do filho para o trabalho.
O Meirelles sorria; que descançasse, elle encaminharia tudo,—e accrescentava:
—Paquita, com aquelle ar de songa-monga, é de uma energia de homem. Não é de brinquedos. Tem um juizo notavel. Eu agora levo-os para a Europa, faço o Mario observar o movimento das principaes praças e na volta você verá, Theodoro, como o seu filho ha de trabalhar! Será então tempo de você ceder-lhe o campo...
—E eu estou morto por isso...
—Então? Urge andar depressa, que eu não quero perder a viagem do Equateur.
Francisco Theodoro começava a comprehender que a Paquita, se era assim, seria a unica mulher capaz de modificar o caracter do filho. Mario seria um instrumento nas suas mãos energicas. Não a suppozera nem a cria ainda tal, tão fragil, tão esbranquiçada e inexpressiva a vira sempre na moldura dos seus cabellos louros.
Estava bem; Mario precisava de uma vontade firme, que o dominasse e dirigisse; nem com uma lanterna accesa encontraria coisa tão boa.
Paquita seria a salvação do seu filho, a garantia da sua casa commercial, que já não acabaria com elle.
Pensando assim, uma ternura desabrochava na sua alma para aquelle filho perdido, que tamanhas desillusões lhe semeara na vida. Começava a sentir que lhe não perdera o amor.
Elle continuaria aquella casa, com tanto trabalho nascida, que teria com elle a mesma firma, a mesma tradição... Seria sempre a Casa Theodoro, feita pela sua ambição, perpetuada na sua descendencia...
XVII
Nina tinha voltado do casamento de Mario e despia-se devagar no seu quarto, com os olhos fixos na luz branca do espelho.
Era o fim, e nem por estar tudo consummado se resignava. Para bem d'ella, os noivos iam nesse mesmo dia para Petropolis, e de lá só voltariam para bordo de um transatlantico. Como seria doce á Paquita cruzar os mares nos braços do seu amor...
Nina desprendeu do corpete as flores de laranjeira que a noiva lhe dera para casar depressa, e contemplou-as com ironia ... ia atiral-as ao chão, quando alguem bateu á porta. Abriu.
Era a Noca, que vinha toda alterada.
—Nossa Senhora! quebrou-se o espelho grande do salão!
—Quem foi que o quebrou? perguntou Nina, para dizer alguma coisa.
—Ninguem sabe. Veja só, que desgraça estará para acontecer! Espelho quebrado: morte ou ruina.
—Morte! se fosse a minha...
—Cala a bocca, menina, não diga asneiras. Quem é que ama uma vez só na vida?
—Muita gente ... eu.
—Não acredite, deixe fallar. A senhora é moça, verá. Mas venha ver o espelho; não presta a gente ficar calada quando está afflicta. Parece arte do diabo, cruzes! logo hoje!
—Vá andando, eu já vou.
Nina mudou de vestido á pressa e desceu.
Encontrou dois criados boquiabertos em frente ao espelho, prevendo desgraças, suggestionados pela influencia da Noca.
—Que pena! um espelho tão rico ... murmurou Nina machinalmente, pensando na Paquita.
—O caso não é o dinheiro. Eu cá não tenho pena, tenho medo.
—Agora que se ha de fazer? ter paciencia e esperar, disse Nina com um sorriso pallido.
—Esperar! Diz você muito bem. Foi uma vontade mais forte que fez aquillo, temos que esperar grandes coisas. Noca não falla á toa. Vocês verão. É melhor não dizer nada a nhá Milla.
—É melhor...
No dia seguinte, quando o Dr. Gervasio entrou no jardim de Camilla, encontrou-a no terraço, rescendente e fresca no seu peignoir marfim pontilhado de ouro.
—Como estás linda! murmurou elle pegando-lhe na mão, que ella deixou beijar á grande luz, como se a ausencia de Mario cegasse todos de casa.
E o casamento de Mario fôra um allivio para ambos. Estavam livres d'aquella testemunha importuna, que tinham de respeitar. Milla bemdizia aquelle casamento, que a libertava de uma humilhação constante, levando-lhe o filho para as terras do luxo e do prazer. Separando-se, elle ia ser feliz. Que mais poderia desejar um coração de mãe?
Foi nesse mesmo dia, á tarde, que Francisco Theodoro chegou sombrio a casa e, em vez de subir, como de costume, encerrou-se no escriptorio, em baixo. Camilla entrou da rua mais tarde, sacudindo-se á pressa pela escada acima.
Durante o jantar só ella fallava, muito risonha, rescendendo á essencia com que Gervasio a pulverisara pouco antes no chalésinho dá Lagoa, onde escondiam o seu amor. Aquelle perfume era como que a alma d'elle que ella trouxesse comsigo.
—Que linda tarde! olhem para o jardim, exclamou ella, apontando para fóra com a mão fulgurante de anneis.
Era um pôr-de-sol maravilhoso.
—Tudo côr de rosa! Parece-me que o jardim nunca teve tantas flores. Como isto é bonito! E ha quem falle mal da vida; e ha idiotas que se matam!
Francisco Theodoro cruzou o talher sem ter comido.
—O senhor está doente? perguntou-lhe Nina.
—Não tenho vontade de comer, mandem-me o café ao jardim.
Camilla contemplou-o com magua e explicou aos outros:
—Elle está impressionado com o casamento de Mario. Meninas, vocês procurem entreter e distrahir seu pae. Mande guardar um copo de leite para elle, Nina; seu tio não pode ficar assim. Deus queira que elle não me fique doente...
E um véu de tristeza passou pelos olhos, ha pouco risonhos, de Milla.
Mas nada houve nessa tarde que entretivesse Francisco Theodoro; elle repellia a companhia de toda a gente para ir passear sózinho lá para o fundo da chacara. Ruth tocou em vão as suas melhores musicas: o pae nem parecia ouvil-as...
Na sala de engommar, a Noca commentava a tristeza do patrão, como um facto annunciado pelo desastre do espelho... «A coisa está começando... Eu não dizia?»
Á noite, emquanto Francisco Theodoro folheava embaixo a papelada do Innocencio Braga, Milla despia-se em frente do seu psyché, namorando a propria imagem, milagre da juventude, sentindo em um fremito a delicia de bem merecer um grande amor.
Como a Sulamita, toda ella era formosa. O peito farto, o pescoço alvo e redondo, as mãos pequenas, os pulsos delicados, e uns olhos negros e pestanudos, de onde jorrava uma luz velludosa e doce que toda a vestia de graça.
Ao prender o cabello, lembrou-se de uma comparação de Gervasio; elle dissera uma vez, ao vêl-a pentear-se, que as suas mãos eram como duas aves luminosas esvoaçando na treva. Milla sorriu.
Foi só depois das orações, ao espreguiçar-se no seu largo leito, que se lembrou ter de levantar-se cedo no dia seguinte para ir a bordo despedir-se do filho.
Tudo era como um sonho. O Mario já casado! Parecia-lhe que ainda o estava a vêr pequenino e gorducho, engatinhando pela casa, aquelle sobrado da rua da Candelaria, onde a sua vida fôra tão differente. E foi com a visão d'aquelle filho em creança, d'aquella carne de rosas, d'aquella bocca innocente que a babava de beijos, que ella adormeceu, sentindo-lhe o peso amado do corpo nos braços saudosos.
Quando sôou meia-noite, em toda a casa só havia de pé Francisco Theodoro, que folheava ainda no escriptorio a papelada do Innocencio Braga.
Nessa manhã elle tivera o primeiro toque de alarma, num telegramma do Havre para o Jornal, que affirmava ter descido o preço do café nos principaes mercados.
Afflicto, com a percepção de um desastre imminente e enorme, abalou logo do armazem para o escriptorio do Braga, que o recebeu entre duas risadinhas fanhosas, repimpado na sua cadeira de couro.
—Que é isso! o senhor é assustadiço ... pois não percebe que isto tudo é jogo?
—Não comprehendo ... balbuciou Francisco Theodoro com um enleio, em que entrava com um amargo desapontamento a doçura de uma vaga esperança.
—Não comprehende, porque é um nervoso; não tem a calma dos grandes espiritos emprehendedores. Eu desejaria convencel-o da certeza dos seus lucros; mas na disposição de espirito em que está, vejo que isso é coisa difficil. Verá que amanhã não teremos noticia alguma.
Aquillo é feito aqui, homem, garanto-lhe que é feito aqui!...
—É impossivel!
—Acredite.
—Não póde ser. O Jornal, tão serio...
—Ora, não póde ser!... que ingenuidade! Se eu lhe affirmo, é porque sei. E se não fosse assim eu estaria calmo? Diga, seria posssivel que eu estivesse calmo?
—Penso de outro modo; tenho lá grande parte do meu capital!
—Ninguem diz o contrario ... sei ... é natural o seu cuidado; sómente, affirmo-lhe que é infundado. Amanhã, ou haverá silencio, ou ha desmentido. Tudo isto é geito. Olhe, o Gama Torres está satisfeitissimo; sahiu ha pouco d'aqui. Está contente; aquelle é um homem do tempo, ha de ir longe...
—Pois, eu, confesso-me arrependido.
—Ora, não diga tal! que barbaridade! O nosso triumpho é certo. E, já que se mostra assim apprehensivo, façamos uma coisa: telegraphemos ao Lacerda. Eu por mim não telegrapharia, conheço a alma d'estas machinações. Tudo é chimica. Digo-lhe mais: eu estou contente... Olhe, amanhã poderei provar-lhe com documentos irrefutaveis a veracidade das minhas affirmações. Venha cá ás duas horas.
Francisco Theodoro sahiu menos torturado; mas, á proporção que as horas avançavam, voltava-lhe a inquietação, a ponto de não poder trabalhar. Fugiu para casa e alli encontrou o mesmo desasocego.
Atirou-se aos papeis; leu-os, releu-os, tirou notas e cada vez sentia maior confusão naquelle embrulho de problemas, em que todo o seu bom senso naufragava.
Inquietava-se com presentimentos. Era muito d'isso. Afinal, um telegramma isolado, discordando de tudo o que se dizia, podia não ser verdadeiro. Affligiam-n'o certos zums-zums da cidade. Os boatos são como os corvos, apparecem no ar attrahidos pela podridão occulta.
Todavia, forcejava por acreditar nas boas previsões do Braga. O homem era honesto e tinha nas mãos habeis o fio da trama; logo, melhor seria esperar pelas taes provas irrefutaveis...
Eram seis horas da manhã quando Camilla o chamou para irem ao Equateur.
Foi um alvoroço em casa.
Noca era a mais curiosa; queria ir tambem despedir-se do Mario e vêr por dentro uma d'aquellas casas fluctuantes, onde não viajaria nem á mão de Deus Padre!
Apressou-se em vestir as gemeas, que se faziam de tolas, exigindo os vestidos novos e os chapéos côr de rosa.
—Não; ponderava ella, deixem os chapéos côr de rosa para passear na cidade ... levem os brancos.
—Eu quero levar o chapéo côr de rosa, gritou Lia; e logo Rachel:
—Eu tambem quero levar o chapéo côr de rosa.
—Que tolice, gente! um chapéo d'aquelles para o mar!
As meninas berraram, e Milla interveio:
—Pois que levem os chapéos côr de rosa; tambem vocês gostam de aborrecer as creanças.
Ás dez horas embarcaram numa lancha. Ruth lembrou-se do passeio ao Neptuno, e voltando-se para a mãe, perguntou:
—É verdade! nunca mais a gente soube do capitão Rino.
Camilla levantou os hombros.
—Quando elle voltar, hei de pedir-lhe que nos arranje outro passeio pela bahia.
—Por uma noite de luar ... disse Camilla. Ruth accrescentou, para bulir com a Noca, que se agarrava ás bordas da lancha:
—Ou mesmo por uma noite de tempestade, com muitos relampagos e trovões. Ainda ha de ser mais bonito.
—Uê, que maluquice! exclamou Noca; Nossa Senhora da Penha! eu com este sol todo estou com medo, quanto mais...
—É pena que Nina não tivesse vindo...
—Para quê? para vêr a outra?
Francisco Theodoro não ouvia nada; percorria com a vista anciosa todos os telegrammas dos jornaes. Nada; não vinha nada; e com isso elle não sabia se havia de achar motivo de allivio ou de maiores apprehensões.
Quando subiram ao tombadilho, já lá encontraram o Meirelles, mais o Mario e a Paquita. Ella, sempre com o seu arzinho enjoado, contando as palavras que dizia, tractando a familia do marido com cerimonias afastadoras. Mario ia e vinha, solicito, obedecendo com sorrisos ás ordens que ella lhe dava em phrases curtas:
—Que fosse ao camarote guardar-lhe a bolsa das joias... Que lhe fosse buscar a capa... Que verificasse quaes as malas que iam para o porão e que mandasse a vermelha para o beliche.
Mal elle se lhe approximava, logo ella o incumbia de qualquer coisa que o afastava:—Que contasse os volumes... Que entregasse a cesta das fructas ao maître d'hotel, recommendando-lhe que as mettesse na geleira... Que puzesse os seus cartões de visita nas costas das cadeiras, para evitar confusões... Mario girava sobre as solas de borracha dos sapatos claros e lá ia lépido cumprir as ordens. Camilla pasmava. Quem lhe diria que aquelle era o mesmo Mario indomavel, secco, tão imprestavel sempre aos favores pedidos pela mãe e as irmãs? Vendo aquillo, subia-lhe do coração aos olhos uma tristeza ciumenta, magua de alma ferida a que nenhuma razão abafa a queixa.
Paquita percebeu tudo e redobrou de frieza, mal respondendo ás perguntas da sogra.
Entretanto, Theodoro e o Meirelles passeavam a largas passadas da proa á ré.
O velho Meirelles era de opinião que o telegramma do Jornal inserido na vespera era coisa séria, de alarme. Francisco Theodoro engoliu em secco; não teve coragem para lhe dizer que grande parte do seu capital fôra atirado á voragem de uma especulação. Relatou, porém, as palavras do Braga e as suas affirmações.
—Não me falle nesse homem, interrompeu o outro com violencia; é um especulador sem escrupulos ... quer mais claro?—é um ladrão!
Veio de Portugal, ha coisa de seis annos, sem vintem, e sabe quanto já passou para Inglaterra em bom metal? mais de mil contos!
Vi a prova. O patife!
Aquillo é lá da minha freguezia ... conheci-lhe o pae, era outro marreco que tal! Homem—não se deixe levar pelas cantigas novas, nós antigos, verdadeiros pés de chumbo, caminhamos devagar e escolhendo terreno. Essas basofias e esses atrevimentos são bons para quem não tem nada a perder... Olhe, lá toca á retirada; avise sua senhora, para descerem sem precipitação...
Ao abraçarem Mario, Francisco Theodoro, com a voz estrangulada, recommendou-lhe:
—Juizo, meu rapaz!
Camilla, branca como marmore, apertou o filho com força ao coração; depois, sentindo-o frio no seu abraço, beijou-o no pescoço e na face e fixou nelle em uma queixa muda os seus grandes olhos maguados. Foi só na lancha, escondendo-se dos olhares da Paquita, que ella desatou em soluços que ninguem tentou reprimir.
Havia em todos egual resentimento. Noca chamava mentalmente a Paquita de lambisgoia, percebendo que ella roubava o Mario a toda a familia, absolutamente. Ruth reconhecia que as separações são as reveladoras do amor. Cuidára ella nunca por ventura que um abraço de despedida custasse tanta pena? Lia e Rachel abriam olhares curiosos para tantos rostos preoccupados, e só Francisco Theodoro acenou para o filho com um lenço, pondo naquelle adeus toda a sua ternura.
Quem lhe diria? Agora, na possibilidade de um desastre, a unica pessoa da familia que elle via salva era o Mario!
Chegando á terra, Camilla e as filhas foram de carro para casa, e Francisco Theodoro, depois de almoçar á pressa num restaurante, seguiu impaciente para o armazem.
Á porta d'elle a pretinha Terencia guinchava contra um italianinho que se lhe associara sem licença ao negocio, atirando-se á pilhagem do café da calçada.
—Ha alguma novidade? perguntou Theodoro ao gerente.
—Não, senhor. Ah! é verdade, o Motta parece que está moribundo.
—Pobre homem...
—A filha veio hoje procurar o senhor; vinha chorando.
—Ha de ser preciso mandar recursos a essa gente...
—Arreda d'alli aquelle sacco, João!
—Coitado do Motta...
O gerente já não o ouvia: determinava serviços.
Chegado ao escriptorio, Francisco Theodoro tractou de remetter dinheiro ao Motta e informar-se do seu estado. O portador voltou depressa. O velho tivéra uma syncope mas estava melhor.
—Coitado do Motta, murmurou Theodoro, consultando o relogio, morto pelas duas horas. E ás duas horas correu ao escriptorio do Innocencio.
Em cima um empregado informou-o de que o Sr. Innocencio partira nessa manhã para Petropolis, a negocio urgente. Deixara dito que na volta iria procural-o.
Francisco Theodoro não conteve um movimento de raiva, e sahiu tonto, sem cumprimentar ninguem.
O ruido, o trabalho, o movimento alegre da rua fizeram-n'o sentir mais o seu cançaço moral. Ia cabisbaixo, quando encontrou o Negreiros; deteve-lhe os passos e, quasi sem explicação, perguntou-lhe:
—Diga-me cá: que opinião faz você do Innocencio Braga?
O Negreiros sorriu, coçou o nariz enorme, e sibilou:
—Aquillo é um espertalhão; não é bom fiar, não é bom fiar.
—E que me diz você d'aquelle telegramma do Jornal de hontem, sobre a baixa do café?
—Que hei de dizer? que annuncia catastrophe para muita gente boa. Sabe o que me consola? É que os Estados Unidos ainda levarão um rombo maior do que nós. Não lhe parece?
Que importavam a Francisco Theodoro as fallencias dos americanos! elle só tremia pela d'elle, era na sua fortuna que estavam condensados todos os bens do universo.
Negreiros sentiu-lhe a mão fria, ao apertar-lh'a, e voltou-se de repente, fixando-o nos olhos:
—Homem, querem vêr que você...
O negociante não lhe respondeu; simulando pressa passou adeante.
Nessa tarde elle encontrou a casa cheia. D. Ignacia espalhava receitas de doces por todos os cantos onde encontrasse dois ouvidos pacientes. A Carlotinha, com o seu ar picante de morena desembaraçada, debicava as Bragas, que riam muito, alludindo aos namorados da Judith e da irmã, piscando para um estudante de medicina, o Oscar Pereira, que ellas apresentavam nesse dia á familia Theodoro, como um excellente recitador de monologos.
Mas na casa pouco se apreciavam os versos e ninguem lh'os pediu.
O Dr. Gervasio jogava com o Gomes e o Lelio, Camilla gyrava pela casa, esquecendo-se, no meio do ruido, da impressão de abandono d'essa manhã no Equateur.
Lá dentro, Nina mandava accrescentar mais uma taboa á mesa e descia á adega para determinar ao copeiro os vinhos a servir.
Assim, aquelle dia de semana parecia de festa.
Francisco Theodoro sentou-se ao pé do piano e olhou para todos como se olhasse para phantasmas. Que quereria dizer tanta alegria? Então toda aquella gente não teria mais que fazer, nem outras coisas em que pensar?
Não esteve muito tempo socegado. Lia e Rachel saltaram-lhe para os joelhos, e elle, cançado, deixou-as trepar, e fez de cavallinho durante alguns minutos...
XVIII
Todos os dias era aquillo: logo pela manhã Francisco Theodoro saltava da cama com sentido nos telegrammas do Jornal. D'esta vez, como das outras, soffreu o mesmo desapontamento. Lá vinha a noticia de que o café baixava de preço, pouco a pouco, invariavelmente.
Vestiu-se á pressa e desceu ao jardim, taciturno, como se os pezadellos da noite se prolongassem. E o sol estava lindo. As cigarras cantavam pelos tamarineiros.
Eram seis horas, e já Lia e Rachel andavam aos saltos, ainda de calções de dormir. Noca perseguia-as, chamando-as para o banho, com os enxugadores no braço e a saboneteira na mão.
—Então, creanças; que cacetes!
As pequenas, de queixinhos erguidos, sorriam para o pae, tomando-lhe o passo.
—Bons dias, papae!
—Bons dias, papae!
O pae nem sorriu, afastou-as com brandura e disse:
—Vão tomar o seu banho.
—Eu quero passear com o senhor.
—Eu tambem quero...
—Não façam esperar a Noca. Vão tomar o seu banho. Logo...
As creanças começaram então a desafiar a paciencia da mulata, em correrias e negaças. Francisco Theodoro seguiu sózinho para o fundo da chacara. E por alli andou calado, sem attender aos cumprimentos dos empregados que passavam por elle.
Sentia-se oppresso, como se carregasse nos hombros um fardo muito pesado. Era a primeira vez que attentava na pequena duração da mocidade: a falta da energia dos outros tempos doia-lhe na alma.
E as cigarras cantavam; felizes, as cigarras, que só teem vida para isso...
A Nina foi ter com elle.
—O senhor anda muito madrugador... Quer almoçar? Está tudo prompto.
Elle puxou pelo relogio.
—Sim, posso ir, são quasi nove horas...
Entraram. As pequenas puzeram-se aos lados do pae, que lhes mettia na bocca bocadinhos de pão com ovo.
—O senhor dá tudo ás meninas e não come nada! observou Nina.
—Não tenho fome.
—Depois fica doente ... porque não falla com o medico?
—Eu?! para quê?
—Aqui está o café.
Engulido o café, de um trago, Francisco Theodoro sahiu apressado.
Noca foi espial-o á janella e veio dizer á Nina que seu Theodoro parecia outro homem; até mudara de andar. Contemplaram-se as duas, e foi ainda a mulata quem murmurou:
—Quem sabe se alguem disse de nhá Milla, hein?
Ás onze horas, quando se sentaram á mesa do almoço, já a visão de Theodoro se desvanecera. Deveria ser um mal passageiro.
A mesa era farta, o sol brilhante punha na sala manchas vermelhas, através do toldo riscado das janellas; sobre a toalha havia os mesmos excellentes vinhos e o mesmo excellente aroma de manacá. Nas jardineiras, os tufos rendados das avencas davam, como em todos os dias, egual aspecto de frescura á sala; as creanças rebentavam de saude... Que mais seria preciso para que as horas voassem na vida como num sonho?
Entretanto, o Dr. Gervasio perguntou a Milla.
—Seu marido está melhor?
—Não sei; anda amofinado... Sentiu muito o casamento de Mario. Elle não quer que se diga que está doente. E effectivamente não está. Não sei o que é aquillo.
Gervasio calou-se, pensativo. As gemeas começaram a rir, uma da outra.
—Viu que bonito croton está no vaso da entrada, doutor? perguntou Ruth ao medico.
—Vi. O croton é bonito, o vaso é que é medonho. Tirem aquelle vaso de alabastro d'alli, ou eu não volto cá.
—Acha feio?
—Horrivel.
Nesse dia, Francisco Theodoro não achou um instante de allivio no trabalho.
Foi ao escriptorio do Innocencio e maçou-o com interrogações, percebendo que o achavam fastidioso, e que o evitavam disfarçadamente.
Já havia perto de tres mezes que os telegrammas annunciavam regularmente, numa proporção de acinte, a baixa do café no Havre.
E ainda o Innocencio conservava o seu risinho zombeteiro, de sentido esgarçado, fugitivo.
Francisco Theodoro, mais enfurecido nesse dia que nos outros, teve impetos de bater-lhe, tal foi a raiva de o ver sorrir; todavia, conteve-se, certo de que nada lucraria, e desceu a escada do outro com o protesto de ser a ultima vez.
Quando entrou no seu escriptorio, o guarda-livros extendeu-lhe um telegramma: A casa Mendes e Wilson, de Santos, declarava fallencia, arrastando na quéda grandes capitaes de Theodoro.
O negociante leu a communicação em silencio e em silencio se conservou por algum tempo, branco como a cal, suando em grossas camarinhas, de olhar parado e o papel aberto nas mãos tremulas.
Os empregados do escriptorio assistiam mudos e contrafeitos áquella scena. O Motta já lá estava, muito amarello, de olhos encovados, mal escovado, com a gravata torta num collarinho amarrotado, com o triste ar de pobreza relaxada; tambem elle percebeu que pairava alli uma grande desgraça, e sacudiu piedosamente a cabeça, fixando o rosto transtornado do patrão.
Ouviam-se as moscas no ar zumbir com força.
Quinze dias mais tarde annunciava-se o fim de tudo,—a grande casa Theodoro teve de declarar fallencia.
Na familia nada se sabia; o negociante readquirira nos ultimos tempos uma relativa serenidade. Tinha de se render á praça numa segunda-feira, e exactamente no domingo a sua mesa encheu-se.
A familia Gomes chegou cedo.
D. Ignacia mudara mais uma vez o feitio ao seu vestido de seda côr de pinhão; que seda aquella! parecia nova, com as rendas pretas do adorno.
—Então, como se passa por aqui? disse ella alegremente, repimpando-se na melhor cadeira da sala de jantar.
—Assim, assim ... tio Francisco não anda nada bom, está muito abatido, respondeu Nina.
—Isso é que é máo. E sua tia?
—Está lá em cima, já vem.
—Gostaram dos biscoitos que eu mandei?
—Muito, são muito bons.
—Eu trouxe a receita para Milla. Amanhã, se Deus quizer, hei de experimentar outros. Como a Ruth cresce! Aquelles são de polvilho. Perceberam?
—Percebemos.
—Com muitos ovos. Nas confeitarias não se fazem assim...
—Não...
Carlotinha tirava o chapéu em frente ao espelho da etagère, cantarolando:
«No Brasil é doce d'ovos, Chiquita! Um beijo dado em você.» «Um beijo...»
e chilreou um beijo no ar, cumprimentando Ruth, que sorria para ella.
Judith, com o seu andarzinho saltado de mulher baixa, rabeou pela sala, sacudiu os braços numa tilintação de pulseiras e roubou Nina á mãe, puxando-a para o terraço:
—Você sabe d'uma coisa? Fui pedida em casamento. Ah, como é bom! como eu estou contente!
—Foi o Samuel?
—Então, quem havia de ser?
—Seu pae não queria...
—Que remedio teve elle... Custou, hein? Elle ha de passar por aqui... Você vem commigo para o jardim?
Pouco depois chegaram as Bragas com o estudante dos monologos O Dr. Gervasio mesmo, que não costumava apparecer aos domingos, lá foi para o joguinno com o Lelio e o Gomes.
Francisco Theodoro mandou abrir cerveja. A creançada da visinhança tagarelava pelos corredores. Fazia um sol!
—Gostou dos biscoitinhos que eu lhe mandei, Sr. Theodoro?
—Muito bons ... a Sra. D. Ignacia é emerita. Sabemos.
—São de polvilho... Eu trouxe...
Camilla appareceu na sala. Vinha bonita, toda de azul. D. Ignacia remexeu-se nas sedas e levantou-se interrompendo a phrase. Disse outra:
—Como ella vem! É um céo!
De vez em quando Noca apparecia na porta do corredor, percorria com a vista toda a sala e voltava risonha para dentro, contando aos outros criados, em arremedos alambicados, as pieguices enjoadas da Therezinha Braga com o estudante dos monologos, pelos vãos das janellas.
—Credo, um mocinho tão aquelle...
Ás dez horas da noite começou a debandada. As primeiras a sahir foram as Bragas, com muitos adeuzinhos e risadas. O Dr. Gervasio carregou com o Lelio, dando-lhe hospedagem com a condição de lhe ouvir Chopin. As Gomes foram as vitimas. As moças sahiram carregadas de flores e mudas de plantas, e D. Ignacia com o braço vergado ao peso da bolsa cheia de pecegos inchados, bons para doce.
Com o pretexto da doçaria, ella passava sempre revista ao pomar de Camilla. O marido dava-lhe o braço, com a cabeça erguida, para que não lhe cahisse do nariz o pesado de tartaruga.
—Foi um dia bem passado! disse depois Milla á sua gente.
Os outros concordaram.
Recolheram-se. Quando viu toda a casa silenciosa e fechada, Francisco Theodoro entrou no quarto das creanças.
Do gaz em lamparina descia uma luz doce, attenuada por um globo de porcellana.
Em duas caminhas eguaes, de ferro branco com varaes dourados, e separadas apenas por um intervallo de um metro, as duas meninas dormiam profundamente, com os lençóes revoltos, as pernas nuas, os cabellos espalhados sobre as almofadas. Por acaso estavam ambas de papinho para o ar e labios entreabertos.
Era a primeira vez que as achava semelhantes. Lia, batida de luz, parecia mais clara, tinha um joelho erguido, amparado pela aba da cama; a outra velava-se em uma meia sombra, com as mãos espalmadas no peitinho gordo.
Que dormir tão bonito. Quasi que lhes lia os sonhos, atravéz das palpebras mimosas...
Francisco Theodoro esteve longo tempo a olhar, ora para uma filha, ora para outra. Como eram bons aquelles leitos, como era espaçoso aquelle quarto, como eram finos aquelles sapatinhos que descançavam vazios sobre o tapete, e como cheiravam bem aquellas saiinhas bordadas e aquelles vestidos brancos que estavam alli atirados para as costas de uma cadeira! E não poderiam crescer assim as suas filhas, com aquelle conforto de luxo! Dias depois sahiriam do seu palacete, e iriam ... para onde? que os esperaria a todos?
Francisco Theodoro curvava-se para beijar Rachel, quando sentiu passos; voltou-se assustado. Era Noca que entrava com um copo de leite. A mulata, que vinha deitar-se, recuou espantada. O negociante explicou:
—Pareceu-me ouvir gemer: vim ver o que era.
—Tão sonhando ... ás vezes basta mudar de posição e ficam logo quietas...
—Sim, estarão sonhando ... queira Deus que os sonhos sejam bons...
—Ellas não teem nada! Tão frescas ... apalpe só, p'ra vê...
—Sim, deixe-as dormir ... olhe por ellas ... olhe por ellas!
Francisco Theodoro sahiu do quarto com um nó na garganta. Como seriam educadas aquellas creanças? As pobres ainda não sabiam nada, nem uma lettra ... nem uma! Em vez de subir para o seu quarto, onde Camilla adormecia, elle accendeu uma vela, apagou o gaz da saleta e desceu para o seu escriptorio, no rez do chão.
Á uma hora da madrugada, Theodoro escrevia ainda. Do lampeão de bronze descia uma luz calma, fixa, propicia á escripta. A mobilia de canella e de couro lavrado, núa, bem arrumada, tomava uma feição de espanto naquella claridade muda.
Sobre o contador, o cavalheiro de capa e espada desenhava na parede côr de avelã a sombra da sua attitude arrogante e viva...
Na mesa, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata tinha reflexos brancos; e só das quatro molduras douradas dos quadros saltavam lampejos luminosos que animavam a sala.
Francisco Theodoro escrevia cartas: acabada uma, começava outra. Dir-se-ia que as palavras eram em todas eguaes. A penna corria dando as mesmas voltas e rangendo com força, como se fosse calcada por uns dedos de ferro. Terminada a ultima, collocou-as em um maço sobre a pasta e encostou-se na larga cadeira, offegante, com os olhos no vacuo. Esteve largo tempo assim, immovel. Depois, sem que um unico musculo do rosto se lhe contrahisse, abriu uma gaveta da secretária, tirou d'ella um revólver e examinou-o com attenção. Era uma arma nova, reluzindo ainda ás ultimas fricções da camurça; o negociante revirou-a entre os dedos, moveu o gatilho, carregou-a e tornou a guardal-a na mesma gaveta, que fechou á chave.
Estava alli dentro o descanço, a eterna paz.
Tinha ao alcance da mão o esquecimento de tudo...
No dia seguinte, depois de uma terrivel noite de insomnia, Theodoro desceu á hora do costume para a sala de jantar, reluzente de crystaes e prataria, e sentou-se á mesa, em frente ao terraço que todo se via pelas largas portas abertas. Ao centro, uns degráos amplos desciam para o parque de relvas bem tratadas; junto ao ponto terminal dos balaustres irrompiam, de entre tufos de avenca, dous esplendidos pés de manacá em flor. Francisco Theodoro olhava para elles sem os vêr, absorvido no seu desgosto, quando a afilhada o interrompeu:
—Bons dias, titio!
—Adeus, Nina.
—Estava gostando de vêr os manacás?
—Sim ... estão bonitos...
—Lindos! Sabe? tia Milla vae ter hoje um desgosto!
—Hein?! perguntou Francisco Theodoro sobresaltado.
—Amanheceu hoje morto o cacatuá, e ninguem sabe porque. Noca já está dizendo que é signal de desastre em uma casa...
—Ah! ella disse isso?
—Disse. Nós não nos importamos; mas o senhor sabe como tia Milla é impressionavel!
—Não lhe digam nada. Quem foi que deu o cacatuá?
—O capitão Rino... Quer que eu lhe sirva um pouco de fiambre?
—Não... Dê-me uma chicara de chá...
—Mas o bife e os ovos ahi vêm...
—Não quero nada. Só chá.
—Coma então d'estas bolachinhas. Estão muito bem feitas.
Nina foi ao armario, de onde retirou a biscoiteira de crystal. Emquanto o tio comia, ella sentou-se a seu lado e pediu-lhe lapis para escrever uma nota, nas costas de um cartão de visita. Ao mesmo tempo ia dizendo:
—Deus queira que eu não me esqueça de nada do que tia Milla recommendou...
Depois leu alto:
—Para o senhor fazer o favor de dizer a Mme. Guimarães que mande trazer hoje os dois vestidos de seda e amostras de velludo turqueza.
Dizer ao Bastos que faça, pela medida que tem lá, mais um par de sapatos de setim preto... Ha mais: um kilo de bonbons e...
—Não diga mais; hoje não posso fazer nada d'isso.
—Então tia Milla irá á cidade... É melhor.
—Não! que não vá, atalhou elle nervosamente. Dize-lhe que voltarei cedo. Eu farei tudo ... mandarei vir os vestidos de seda, os sapatos de setim, os doces... Ah! a Noca tinha razão! Sabes tu, Nina?
—Eu? murmurou a moça espantada: Eu? repetia ella, com assombro, eu não sei nada!
—Tens razão ... cala-te e espera. Expliquem a minha mulher o significado da morte do cacatuá. Não faz mal. Adeus, tenho pressa...
Nina ficou pensando:
—Tio Francisco estará doido?
Um lindo dia, quente e luminoso. Nas copas floridas dos flamboyants, as cigarras cantavam estridulamente. Os bonds vinham cheios, e bandos de creanças passavam nas calçadas a caminho do collegio.
Francisco Theodoro é que não caminhava bem: tinha um grande peso derrubando-lhe os hombros, e sentia as pernas amollecidas. Tomou o bond já na praia. Adeante d'elle, no banco da frente, ia um portuguezinho recem-chegado, de jaqueta, chapéo de feltro de abas encebadas e grossos sapatos enlameados. O pequeno volvia para tudo um olhar pasmado, entreabrindo os labios seccos e gretados numa expressão admirativa. Francisco Theodoro não podia desprender a vista d'aquella creança rustica. Veio-lhe á memoria o seu desembarque, a sua pobreza, a crosta da terra patria que trazia presa ás solas brutas dos seus sapatos, e o espanto com que elle, tambem, nos seus primeiros dias, olhava para este céo, e estas arvores, e estas montanhas, em uma interrogação de esperança e de medo; e da saudade que tivera da brôa, da aldeia, das aguas claras d'aquelle rio em que se banhava nas tardes de verão, d'aquellas charnecas onde ia á caça dos grilos, d'aquelles campos de trigos doirados: ao sol, das cerejeiras onde trepava, dos ralhos da mãe, das caminhadas pelas brancas estradas atráz dos burricos do moleiro...
E, em um assomo, teve vontade de dizer ao ouvido do rapazinho: «Volta para a tua aldeia, contenta-te com o pão duro, com a sardinha assada, e a agua do bom Deus!
«Onde ha uma arvore ha sombra onde um homem se deite. Não queiras a riqueza, que ella engana e mente. Mais vale ser pobre toda a vida! Volve; acostuma tua mulher ao trabalho e os teus filhos a rolarem nús pela terra que um dia os ha de comer... Se bem os vestires a todos ... verás: pesarão ouro e valerão pó...»
Eram dez horas quando o negociante entrou no armazem. Seu Joaquim andava azedo e mal humorado, e até mesmo para o patrão tinha um modo rebarbativo e secco. Depois, o trabalho estacionara; não havia nenhum caminhão á porta e os caixeiros pasmavam-se para as rumas de saccos é para as aranhas do tecto.
Francisco Theodoro chegou-se á mesa que estava á esquerda da porta de entrada, apanhou ahi a sua correspondencia e girando sobre os calcanhares entrou no corredor ao lado e subiu ao escriptorio.
Em cima estavam só o guarda-livros, que escrevia de pé, e o velho Motta, todo embebido no trabalho. Trocaram-se os bons dias.
—O Leite Mendes mandou cá?
—Não senhor...
—Está tudo direito, não?
—Tudo.
—Escrevi eu mesmo as cartas ... veja se estão em ordem...
O guarda-livros fez um gesto de recusa.
—Não; já estou desacostumado d'essas coisas ... veja. Depois será bom mandal-as entregar, insistiu Theodoro.
—Julgo melhor esperarmos pela resposta do Sidney, de Santos.
—Para que?
—Adiaremos ao menos a ... a catastrophe.
—Ora! o Sidney! ha de dizer o mesmo que os outros! Olhe, tenho aqui justamente uma carta d'elle, que ainda não abri. Vou lel-a agora.
Francisco Theodoro sentou-se, muito pallido, e rasgou o sobrescripto com mão tremula. O guarda-livros desviou a vista. Houve depois da leitura uma grande pausa, em que o silencio pesava; ao fim de alguns minutos o negociante ergueu-se e começou a passear nervosamente de um lado para o outro. De vez em quando lançava uma pergunta pueril ou distrahida:
—Que dia é mesmo hoje?
—29...
—Ah!... sim ... 29 ... é isso ... 29 ... 29 ... repetia elle baixo.
Os outros calavam-se.
O sol entrava com força pela sacada aberta; Francisco Theodoro poz as folhas da janella em fresta e voltando-se atravessou vagarosamente e em diagonal o escriptorio até o canto da talha, cujo barro começou a raspar com a unha.
Da rua vinha uma bulha ensurdecedora: rolavam conjunctamente carroças e vozes praguejantes; os chicotes estalavam no ar e, em grossas nuvens de pó, o cheiro do café crú subia na atmosphera quente.
Subito, Francisco Theodoro voltou-se para o guarda-livros e disse com voz segura:
—Mande as cartas. E entrou para o seu gabinete.
O empregado releu os sobrescriptos e chegando-se á janella do fundo, que deitava para o interior do armazem, gritou para baixo:
—Seu Augusto!
Ninguem lhe respondeu, e como elle repetisse o chamado com mais força, o gerente voltou-se para cima com ar ameaçador e um outro caixeiro gritou:
—Seu Augusto ainda não voltou da rua!
Fechado o gabinete, Francisco Theodoro escreveu longamente ao Meirelles e ao Mario, relatando-lhes o desastre, sem lamentações.
Fechada a carta, lembrou-se que poderia talvez ter recorrido á Lage, mas levantou logo os hombros; era uma mulher, que podia entender de negocios? De mais, as coisas iriam em declive rapido, e um novo emprestimo seria um compromisso irremissivel ... melhor fôra não se ter lembrado d'ella. E as tias do Castello? a essas pediria apoio para a familia; elle já nada queria para si; poucos dias teria de vida: o golpe era muito forte para deixal-o de pé. Mas a mulher?... e as filhas? E, afinal, acreditava elle na fortuna das velhas? onde a escondiam ellas que ninguem a via? Riquezas, riquezas, vá a gente desencantal-as em cofres avaros!
As cartas expedidas tinham marcado para o dia seguinte ao meio-dia a reunião dos credores no armazem, para verificação do estado da casa. Francisco Theodoro tinha algumas horas deante de si para avisar a familia, mas faltava-lhe a coragem.
Sahiu do escriptorio mais tarde, fugindo do encontro habitual de um ou outro amigo. Logo no primeiro quarteirão teve um sobresalto; á porta da casa Torres estava um dos seus credores, o Serra; mal lhe adivinhou o corpanzil mettido em alvejantes brins, com um frak preto fugindo para trás e grossa corrente de ouro do Porto arqueando-se-lhe sobre o abdomen arredondado. Francisco Theodoro corou, teve desejos de ser engulido pela terra; e tocando com os dedos tremulos na aba do chapéo, esboçou um sorriso e foi andando.
Já mal podia caminhar: um peso horrivel nas pernas fazia-o retardar os passos, exactamente quando os queria accelerar; arrimava-se com força ao seu chapéo de chuva e remexia os beiços como se fosse a fallar sózinho; era a seccura, tinha um aperto na garganta, parecia-lhe ter engolido todo o pó das ruas.
Já não via ninguem, pouco se importava que o cumprimentassem; ia pensando em tomar o bond na esquina; mas como não o visse alli em toda a extensão da rua, subiu pela calçada, rente aos trilhos. Tinha andado alguns metros quando esbarrou com o Negreiros.
—Então? Todos bons? perguntou-lhe o outro com o ar constrangido de quem já fôra informado do desastre e não quizesse alludir a elle.
—Todos bons ... estou á espera do bond.
—Isso ás vezes demora... Eu não tenho paciencia!
—Han ... é aborrecido.
Pararam ambos, e chegando-se para a parede olharam para um coupé particular que roçou na calçada; dentro ia o Innocencio, que os viu e os cumprimentou com um adeuzinho de mão.
Francisco Theodoro nem tocou no chapéo, e murmurou com odio:
—Cão!
—Vae para a Europa ... segue directamente para Londres, num paquete da Nova Zelandia, amanhã.
—Com o meu dinheiro...
Negreiros enguliu uma palavra qualquer, afagou o nariz e depois, corando um pouco, approximou-se mais de Theodoro e murmurou:
—Se precisar de mim ... os amigos são para as occasiões...
Francisco Theodoro estremeceu e apertou-lhe a mão com força; houve nos olhos de ambos como que o brilho passageiro e eloquente de uma lagrima. Vinha um bond; o negociante tornou a sacudir em silencio a mão de Negreiros e partiu.
No largo da Carioca, ao esperar outro bond que o levasse á casa, Francisco Theodoro topou com a baroneza da Lage, farfalhante nas suas sedas e vidrilhos; quiz evital-a, não pôde; a moça extendia-lhe a mão enluvada, sorrindo-lhe através do véosinho.
—Sabe? Papae escreveu-me. Paquita parece outra, tem engordado muito. Mario está deslumbrado; comprou bellos cavallos de raça em Londres; se não fosse a mulher, diz papae que elle poria em poucos dias todo o dinheiro fóra...
—Ah...
—Eu tenciono tambem partir em breve; vou ter com elles a Paris... Irei abraçar a nossa Camilla qualquer dia d'estes. Mario escreveu-lhes?
—Não...
—É noivo ... tem desculpa ... lá está o seu bond.
—E a senhora?
—Eu vou de carro. Saudades a todos.
Ella afastou-se ligeira, no frou-frou das saias de seda, e o negociante tomou logar no bond, repetindo mentalmente a phrase da Lage, acerca de Mario: «Se não fosse mulher, elle poria em poucos dias todo o dinheiro fóra.»
Nunca a viagem da cidade á rua dos Voluntarios lhe parecera tão curta.
Francisco Theodoro tinha medo de chegar a casa, medo dos beijos das suas gemeas, á espera d'elle no jardim, ambas de branco, risonhas e saltitantes, e de Ruth, no patamar, com os seus olhos de esmeralda, que lhe faziam lembrar os olhos da mãe em uma vaga reminiscencia saudosa; e, em cima, de Camilla, em frente ao espelho, nos ultimos retoques da toilette da tarde, com os braços arqueados e os dedos carregados de anneis, unidos nas ondas negras do penteado...
Que lhes diria elle? que lhes diria?!
Lembrou-se então do Dr. Gervasio: seria esse amigo quem se encarregasse de dizer tudo a Milla, no dia seguinte, á hora em que elle estivesse com os credores no armazem ... no fim, absolutamente no fim!
Essa ideia animou-o.
Iria á noite procurar o medico á sua residencia e confessar-lhe-ia tudo. Ao abrir o portão da chacara, viu as suas gemeas voando nas bicycletas pelas ruas do jardim e ouviu os sons do violino de Ruth em uma sonatina fresca.
Nina fazia um ramo e Camilla, já prompta, formosa no seu vestido cor de milho maduro, lia no terraço, com o cotovello pousado no jarrão das gardenias.
XIX
Com um avental atado sobre as rendas do peignoir, Camilla executava, com a Noca, uma receita de doce dada por D. Ignacia.
Era um pudim, um famoso pudim de nozes, muito apreciado e indefectivel nos jantares de anniversario das Gomes.
A mulata pisava as nozes no almofariz. Milla acabava de observar a calda e voltava a consultar o papel, em que a calligraphia desleixada da Judith confundia os a a com os o o, quando a Nina appareceu dizendo:
—Dr. Gervasio está ahi. Entrou para a saleta. Quer fallar com a senhora.
—A estas horas!... Elle não disse porque não veio almoçar?... perguntou ella alvoroçada; e continuou logo: Bem! Desamarrem-me o avental. Escuta, Noca, quando a calda estiver em ponto de espelho, despeja-lhe dentro as nozes ... depois d'estas bem cosidas retira o tacho do fogo e mistura ao doce doze gemmas de ovo ... torna a pôr tudo ao lume... Anda, Nina! desamarra este avental, de uma vez!
—Deu nó; tia Milla! Tenha paciencia...
—Depois? inquiriu, Noca, emquanto Milla, para não perder tempo, lavava os dedos melosos mesmo na bica da pia da cozinha.
—Depois? Espera, deixa-me ver a receita... Ah, depois da massa estar bem cozida, põe-se no forno, em uma fôrma untada com manteiga. Manteiga fresca, ouviu? lembre-se que o Dr. Gervasio não gosta de manteiga salgada... Prompto este avental? Até que emfim! Fica em meu logar, Nina.
Nina ficou, e Camilla, tendo enxugado as mãos ao avental, que atirou ao chão, dirigiu-se para a saleta, pondo em ordem as rendas da golla, que as mãos ageis ageitavam mesmo sem espelho.
Sentindo-lhe os passos, Gervasio foi-lhe ao encontro, mas com ar tão grave e desusado que ella logo o extranhou.
—Está doente?!
—Eu, não ... porque?
—Você está differente. Que modo!
—É que eu tenho uma coisa muito grave para te dizer.
—A mim?!
—Sim.
—Que é?
Elle não respondeu immediatamente; contemplava-a em silencio, segurando-lhe nas mãos como se a estudasse, a ver se lhe podia despedir o golpe em cheio. Milla impacientou-se.
—Que será, meu Deus! E logo lhe occorreu a ideia de que succedera algum desastre ao filho, um naufragio. Atterrorisada por aquelle pensamento, balbuciou apenas:—Mario?
—Não se trata do Mario. É isto: vocês estão pobres... Theodoro falliu.
Camilla tornou-se livida. Houve um longo silencio cortado só pelo zumbir de uma vespa no rezedá da janella. Ella não ouvia a vespa, não ouvia nada.
O seu rosto, que havia pouco reflectia o fulgor das brasas, estava tão desbotado agora, que o medico, inquieto, com receio de uma syncope, amparou-a, dizendo:
—Comprehendo a estupefacção, mas agora, que a verdade está sabida, é preciso coragem... Camilla!
Como ella continuasse immovel, elle abalou-a brandamente, repetindo-lhe o nome: Camilla ... Camilla!... julgava-te mais forte, muito mais forte! Olha para mim. Percebe o sentido das minhas palavras—fallir não é morrer. Teu marido não morreu,—falliu.
—É impossivel! murmurou ella por fim, com uma voz de somnambula.
—Impossivel porque? a quanta gente tem acontecido o mesmo? Vocês mulheres não entendem d'estas coisas. Só conhecem a vida pela superficie, por isso é que teem surprezas com factos naturalissimos. Hoje a fallencia é de Theodoro, amanhã será de outro e depois de outro... A série ha de ser longa.
—Que me importam os outros!
—Importa como explicação: é uma consequencia do tempo. Mas senta-te, estás muito fria ... queres uma capa?
—Não quero nada. E, como elle quizesse retel-a, ella desprendeu-se-lhe bruscamente dos braços.
—Descança...
—Não posso.
Gervasio calou-se, á espera; ella começou a andar com passadas irregulares, como se buscasse uma coisa, uma palavra, uma ideia. A vida, ha pouco suspensa, voltava agora com impeto. A reacção escaldava-lhe o corpo. Ella ia fallando, estraçalhando phrases:
—Que horror! como havemos de apparecer deante de toda esta gente... Que insensatez, naquella edade! deixar-se fallir! não comprehendo! Que vergonha, que vergonha! E as creanças?!... Não póde ser! não póde ser.
Subitamente parou, com um relampago de esperança.
—Se fosse mentira?!
—Eu seria um miseravel.
—Podiam ter-te enganado. Quem te disse?
—Elle.
—Burro!
Camilla deu um puxão á golla, como se o vestido a suffocasse e recomeçou logo no seu gyro tonto.
O medico tentou acalmal-a:
—Escuta, Milla, tenho hoje, como direi ... pudor em alludir á nossa felicidade; comtudo é em nome d'ella que te peço que não faças a teu marido recriminações insensatas. Lembra-te que elle é o mais desgraçado.
Camilla sentiu as pernas vergarem-se-lhe e murmurou ainda:
—A culpa é d'elle...
—A culpa é de todos.
—Isto não podia ter acontecido de repente, e elle não me disse nada! Os homens pensam que nós não nos interessamos pela sua vida. Teem-nos só para o seu prazer! Só, só, só!
—Theodoro está muito acabrunhado...
—Quando foi que elle te disse?
—Hontem á noite, em minha casa. Chorou.
—Chorou? Foi a primeira vez; eu nunca o vi chorar!
—A dôr é forte.
—Já perdeu uma filha...
—Uma creança apenas nascida... Agora perde a sua honra de negociante, que elle préza acima de tudo.
—A sua honra! mas Theodoro não roubou nada!
—Não, mas empregou capitaes em emprezas de azar. A lei tem severidades. É preciso estar preparada para tudo.
—Quer dizer que elle póde ser preso?
—Quem sabe, não é provavel, mas...
Os olhos de Camilla, até então enxutos, encheram-se de lagrimas e ella disse, com os beiços tremulos:
—Não! elle não sahirá de ao pé de mim. Vá buscal-o.
—Tu o amas, Camilla!
Ella fez que sim com a cabeça e foi sentar-se juncto ao medico, olhando-o de face.
Por algum tempo foi só o zumbir da abelha no rezedá o unico rumor que se ouviu na sala. Gervasio desviou os olhos.
Camilla vergava-se agora toda para os joelhos e chorava, com o rosto escondido nas mãos.
A crise foi longa. Através da porta fechada sentiam-se passinhos indiscretos pelo corredor.
Gervasio consultou o relogio. Eram quatro horas. Que se teria passado em S. Bento? Desejava apressar a situação, acabar com aquillo; sentia-se oppresso, levantou-se, foi á janella olhar para o azul macio do céo chamalotado de nuvenzinhas brancas.
Um bello dia perdido!
Camilla soluçava. Elle voltou-se sem saber como cortar aquella agonia. Nunca o coração d'aquella mulher lhe parecera tão impenetravel, nunca a sua psychologia tão obscura. Esperava vel-a raivosa, assustada pela perspectiva da ruina, reagindo com furia contra aquella decepção tremenda. Era evidente que ella se tinha casado por interesse não seria extraordinario que se julgasse agora roubada... Entretanto, só nos primeiros instantes Camilla tinha pensado em si, no egoismo a que a vida a acostumara; mas a dôr da compaixão viera depressa e manifestava-se mais abundante.
Um pouco irritado, sem poder esconder um movimento de ciume, Dr. Gervasio perguntou baixo a Camilla, fixando-lhe o rosto inundado:
—Mas sempre o amaste assim?!
—Não ... eu comecei a amal-o depois que o enganei... É amisade, é uma amisade muito grande!
O medico não respondeu; olhava para ella pensativo, e depois de um largo silencio:
—Enxuga os olhos. É tempo de chamar o resto da familia.
Ruth e as creanças entraram acompanhadas por Nina e pela Noca, que o Dr. Gervasio quiz associar á familia. E sobre todos elles a porta foi fechada com precauções, para que os creados não percebessem do que se tractava.
Dr. Gervasio expoz o facto em poucas palavras, ferindo o assumpto sem rodeios. Lia e Rachel não o entendiam, embasbacadas para a mãe. As palavras para ellas só tinham som, mas não sentido.
Ruth ouviu tudo sem pestanejar, depois beijou a mãe, e disse:
—Não chore, que isso augmentará a afflicção de papae.
O medico olhou para a menina com assombro; e depois voltando-se para Nina:
—E você, que diz?
—Nada; espero.
—E sei que ha de esperar com firmeza. Muito bem.
Eram cinco horas da tarde, e ainda Francisco Theodoro expunha com voz tremula os negocios da casa aos credores, reunidos no seu escriptorio.
Ouviam-no todos silenciosos, mal se atrevendo, de longe em longe, a uma ou outra pergunta, que a delicada compaixão do momento tornava timida. O proprio Serra, afamado pela sua gordura e pela sua bruteza, fazia-se de leve quando andava, para que o assoalho não gemesse e tinha artes de transformar, para um brando sussurro, o seu vozeirão de trovoada.
Em baixo, o armazem parecia outro. Seu Joaquim permanecia sentado ao pé da mesa, emquanto os caixeiros pasmavam, inactivos, para as rumas das saccas e para as aranhas negras do tecto, que se suspendiam de viga para viga em grandes bambinellas de fumo luctuoso. No chão nem um grão de café; tudo varrido como se fôra um dia santificado. Só na rua havia ainda a bulha das ultimas carroças e o ronco de alguns armazens que fechavam cedo e que parecia arrotarem de fartos.
Do seu ponto, seu Joaquim não perdia de vista a casa do Gama Torres, agora a mais afortunada da rua.
Logo que recebeu o ultimo aperto de mão dos seus credores, Francisco Theodoro refugiou-se no seu gabinete, para que o não vissem chorar; mas as lagrimas que o enchiam não chegaram aos olhos, o coração absorvia-lh'as todas. Envelhecido, exhausto, encostou-se á sua velha secretária, companheira de tantos annos de trabalho, e alli ficou, como um viuvo ao pé da eça em que a amada dorme o ultimo somno.
Já os credores estavam longe quando elle, tomando vagarosamente o chapéo, entrou outra vez no escriptorio.
O Motta chorava, com os cotovellos fincados na escrivaninha. O guarda-livros levantou-se e disse:
—Eu esperava-o para despedir-me. Tenciono partir em breve para o Norte. Vou tentar outra vida...
—Faz mal, não devia cortar a sua carreira ... seja feliz! abraçaram-se.
Motta approximou-se.
—E o senhor? perguntou-lhe Theodoro.
O velho fez um gesto de ignorancia; depois suspirou.
—Fico p'ra ahi, atôa...
—Recommendal-o-ei ao Negreiros.
—Será favor...
Os outros empregados não estavam; Francisco Theodoro agradeceu áquelles o seu concurso e desceu, olhando para os degráos carcomidos com saudade infinita de todas as vezes que por elles pisara, num longo periodo de trinta annos...
No armazem, apertou a mão dos caixeiros, desde o mais infimo, e deteve-se a fallar com o Joaquim.
—O senhor que tenciona fazer agora?
—Sr. Theodoro, eu fui já ha dias convidado para a casa Gama Torres... Devo entrar para lá amanhã...
—Muito bem ... muito bem!... balbuciou em tom frouxo o negociante. E, relanceando o olhar triste pelo armazem, em um ultimo adeus saudosissimo, sahiu para a rua.
Na porta visinha a velha Terencia, com a carapinha occulta no lenço branco, e os bracinhos delgados extendidos para deante, sacudia os ultimos grãos de café, peneirando-os na bacia de folha furada a prego. Já a sombra se extendia pelas calçadas, e só lá em cima o sol encarapuçava de ouro as platibandas dos predios.
XX
Á hora em que Francisco Theodoro entrou em casa, já havia estrellas no céo. O Dr. Gervasio e as meninas esperavam-n'o no portão. Logo no jardim elle sentiu-se abraçado pelas filhas e a Nina com demorada ternura. Desprendendo-se de todos, olhou á roda, procurando alguem.
—D. Camilla adormeceu ha pouco, acudiu o medico—Noca está ao pé d'ella.
Francisco Theodoro não respondeu; sentou-se em um banco, com ar de extenuado, com a cabeça pendida para o peito; e, depois de uma longa pausa:
—Está desesperada, muito contra mim?
—Não; respondeu o medico, está resignada. São todos fortes, acredite.
—Coitadas...
—Não diga assim, papae! exclamou Ruth, não se afflija! Neste mundo então só ha logar para os ricos?
—Bom, só...
—Qual! havemos de ser muito felizes, descance.
—Como recebeu ella a noticia? tornou o negociante, voltando-se para o medico.
—Naturalmente, teve um abalo ... não esperava semelhante coisa, mas venceu-se com admiravel coragem. Em todo caso, dei-lhe um calmante para obrigal-a a dormir e repousar os nervos...
—Fez bem; obrigado.
—Tio Francisco, o senhor deve estar muito fraco; venha tomar sopa, ao menos...
—Estou cançado...
—Por isso mesmo, tome um caldo e vá-se deitar.
Entraram. Na grande sala de jantar havia um certo ar de abandono. Nina esquecera-se de enfeitar a mesa com as flores do costume, e a gaiola vazia do cacatuá punha a um canto uma nota de tristeza e de morte. Francisco Theodoro acceitou a sopa, tomou-a em silencio, e logo depois, deixando todos á mesa, pediu licença para subir. O medico, receioso, acompanhou-o com a vista. Que se iria passar lá em cima? como receberia Camilla o marido?
Parecera-lhe ter sentido passos; deveriam ser d'ella, que já estivesse acordada e andasse nervosamente pela casa...
Lia e Rachel, tão turbulentas, encolhiam-se uma na outra, observando tudo pasmadamente.
Imperturbavel, Nina servia a todos.
—Que edade teem mesmo estas meninas? perguntou o medico de repente, apontando para as gemeas.
—Seis annos, respondeu Ruth.
—É cedo para entrarem para o collegio, balbuciou elle, completando alto um pensamento qualquer.
Tinham acabado de jantar, quando Francisco Theodoro desceu.
—D. Camilla?
—Quando eu subi dormia ainda; mas soluçava de vez em quando. Depois acordou e fez-se de forte para tranquillisar-me. Talvez que ella não tivesse comprehendido todo o alcance da desgraça...
—Comprehendeu, mas resignou-se.
—Obrigado por todos os seus cuidados, doutor; tenho ainda um favor a pedir-lhe: venha cá amanhã, cedo, ás sete horas da manhã. Será possivel?
—Virei.
—Obrigado.
O medico sahiu, recommendando á Noca mil cuidados com Milla. Duas horas depois, a casa estava em silencio; as creanças dormiam, e Nina, não vendo Ruth nas salas, julgou-a recolhida e desceu devagar ao escriptorio do tio, que achou escrevendo na sua larga secretária.
—Dá licença, tio Francisco?
O negociante encobriu depressa com o braço o papel em que escrevia, e respondeu:
—Póde entrar.
E Nina entrou, embaraçada, percebendo o movimento do tio.
—Que quer você?
—Quero pedir-lhe um favor...
—Eu ainda os poderei prestar?!
—Oh! tio Francisco!
—Diga lá.
—Tenho vergonha ... eu...
—Diga, diga.
Nina sentiu impaciencia na voz do tio, e resolveu-se:
—Quero pôr em nome de suas filhas a casa que o senhor me deu. Ella é pequena, mas caberemos todos lá, se...
Nina corou; o tio contemplou-a em silencio, depois, sentindo que as lagrimas lhe corriam em fio pelo rosto, disse:
—Fez você muito bem em dizer-me isso; eu precisava de chorar. Bem vejo que não ha só ingratos no mundo; você é um anjo. Acceito o seu agasalho; olhe por minhas filhas.
As gemeas são muito pequenas, não teem educação ... é o que mais me pesa! Ruth, essa tem talento e um recurso. Tenha tambem paciencia com sua tia, é quem vae soffrer mais...
—O senhor ha de lhe dar o exemplo de resignação.
—Sim. Você que entende d'isso? Vá dormir.
—Mas...
—Vá dormir.
Nina murmurou, muito embaraçada:
—Boa noite.
—Adeus, minha filha. Que Deus a faça feliz.
Ella sahiu sem comprehender bem os gestos desencontrados nem o sentido das palavras do tio.
Elle queria estar só. A dôr fazia-o desconfiado, temia que o amor da familia não subsistisse á catastrophe.
Em que fizera elle até então consistir a felicidade e o seu merecimento aos olhos d'ella? No dinheiro, só no dinheiro. Elle era bom porque sabia cavar a fortuna, encher a casa de joias, de fartura e de conforto. Elle era bom, porque, tendo partido de coisa nenhuma, chegara a tudo, visto que o dinheiro é o dominador do mundo e elle tinha dinheiro.
Ainda não comprehendia como tendo trabalhado tanto, junctado com tão tremendo esforço em tão largo periodo de sacrificios, deixara agora ir tudo por agua abaixo, em tão curtos dias. Desfazer é facil!
Revoltado contra si, Francisco Theodoro cravou as unhas na calva, chamando-se de leviano e de miseravel. Como toda a gente se riria da sua falta de senso. A culpa era d'elle. Deixar-se levar por cantigas com a sua edade e a sua experiencia! Sentia ferver-lhe o odio por todos os amigos que o tinham inebriado com palavras perigosas e futeis. Então todos chamavam o Innocencio Braga de honrado, perspicaz e arguto. Agora, depois de tudo feito e perdido, é que o diziam um especulador sem consciencia. Mas agora era tarde; estava tudo perdido.
Recomeçar a vida? como? Já nem o proprio exemplo da coragem antiga lhe valia de nada.
A energia gastara-se-lhe. Nem o corpo nem o espirito resistiriam á lucta tremenda de recomeçar.
Pela primeira vez Francisco Theodoro percebeu que ha na vida uma coisa melhor do que o dinheiro—a mocidade. Com o corpo vergado, o espirito amortecido, elle era o homem extincto, o phantasma do outro, que ficava boiando no passado, desconhecido por todos, só amado pela sua lembrança.
«Velho ... estou velho! pensava elle, já não sirvo para nada. E agora? Para onde ha de ir esta gente, que eu mesmo habituei a grandezas? Para o sobradinho da rua da Candelaria? Nem isso... Camilla naquelle tempo contentava-se ... agora já se afez a outra coisa. Camilla! Camilla sem sedas? não, não se pode comprehender Camilla sem sedas. Onde tinha eu a cabeça? Miseravel! Eu sou um ladrão, roubei a meus filhos. Eu sou um ladrão!»
Como se quizesse fugir das proprias ideias, começou a andar pelo escriptorio, com ar desvairado. Vingava-o a sensação de que tudo agonisava com elle.
A especulação, a fraude, a ganancia, a traição e a mentira, iriam roendo e corrompendo fortunas e caracteres. Enganados e enganadores seriam todos engulidos conjunctamente pela outra fallencia, de que a sua era uma das precursoras.
No fim, havia de apparecer a justiça punindo as ambições e as vaidades d'estes tempos e d'estes homens doidos, quando, depois de tudo consummado não houvesse nada a refazer, mas tudo a crear.
A pulsação do seu sangue alvoroçado dava-lhe a percepção phantastica de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela maldade de uns, a ignorancia de outros e a ambição de todos, em voragens abertas pela politica amaldiçoada.
Já não culpava o patricio, o Innocencio Braga, como causa directa da sua ruina. A responsabilidade da sua perda cahia em cheio sobre a Republica, que elle invectivava de criminosa, na allucinação do desespero.
Toda a sua vida de trabalho rotineiro, material, sem ideaes, mas cançativa na sua brutalidade mesmo, parecia-lhe agora como um rio caudaloso que tivesse vencido a nado e de que, só depois de transposto, percebesse o volume e os perigos.
Entretanto, talvez não tivesse sido difficil percorrer aquillo de outra maneira e melhor... Não fosse elle um ignorante e não se teria deixado enfeitiçar por palavras!
Era pois tambem certo que a intelligencia e a instrucção valiam alguma coisa...
Resumindo os seus pensamentos de vencido, Francisco Theodoro disse alto, num suspiro:
—Trabalhei, trabalhei, trabalhei, e aqui estou como Job!
Mas o som da sua propria voz assustou-o. Espreitou a vêr se o viam. Foi á porta; não havia ninguem. Lembrou-se depois dos seus projectos de viagem: idas á Europa, regalados descanços.
Era de justiça, diziam todos, e a justiça fizera-a elle por suas mãos; o homem nasceu para o trabalho, elle devia voltar para o trabalho.
E as forças? Onde estavam ellas, que as não sentia? Ah! corpo miseravel! corpo miseravel.
Affogueado, como se tivesse brasas na cabeça, Theodoro procurou a frescura do ar livre e foi encostar-se ao humbral da janella.
Fôra numa noite assim, de lua clara, que o avô se enforcara numa amendoeira, fugindo, no seu delirio de perseguição, a um inimigo que lhe ia no encalço. Era um camponez rude, o avô; havia muitos mezes antes d'esse acto que elle andava taciturno, agitado; depois, que tranquillidade!
Francisco Theodoro olhou para a noite:
O luar estava lindo, boiava no ar morno o aroma das esponjas e dos manacás, que a luz cobria de uma brancura sedosa e doce.
O aroma das plantas avivou-lhe tambem a sensação dos seus triumphos de outr'ora. Aquella essencia divina nascia da fertilidade das suas terras, trabalhadas por homens pagos por elle.
A criadagem! Como os seus creados, menos feliz do que elles, precisava tambem agora do salario de um patrão, com que matasse a fome á mulher e aos filhos...
—Como Job! repetiu elle furioso, arrancando as barbas e unhando as faces. Não lhe bastava o arrependimento, a dor moral, queria o castigo physico, a maceração da carne, para completa punição da sua inepcia.
Não saber guardar a felicidade, depois de ter sabido adquiril-a, é signal de loucura. Elle era um doido? Sim, elle era um doido. Tal qual o avô! Riu alto; elle era um doido!
Foi então que do fundo do jardim vieram os sons de um violino tocado em surdina.
Francisco Theodoro estremeceu, as pernas vergaram-se-lhe, olhou pasmado para o grande céo tranquillo, onde as estrellas palpitavam, Comprehendeu; Ruth não quizera perturbar a tristeza da familia e fugira com a sua musica para fóra! Aquella era uma forte, amava o seu idéal mais do que tudo, mais do que a vida! Que reservaria Deus áquella alma de extase e de sonho?
Os gemidos da musica vagavam na noite clara como queixas de anjos invisiveis. Não pareciam vibradas por mãos humanas aquellas notas suavissimas e repassadas de doçura. Tremulo, vencido pela commoção, Francisco Theodoro ajoelhou-se e chorou copiosamente. O ultimo beneficio era-lhe ministrado pela filha, como um sacramento. Nem elle soube quanto tempo durou aquella crise de pranto que o suffocava. Quando Ruth acabou a sua musica e elle lhe sentiu os passos leves e apressados na areia, teve impetos de chamal-a e cobril-a de beijos.
Mais forte, porém, do que o seu amor e a sua ternura, foi o medo de enfraquecer. Elle fugiu para dentro; tinha tomado a sua resolução.
Cada homem é creado para um fim. O d'elle tinha sido o de ganhar dinheiro; ganhara-o, cumprira o seu destino. Não podendo recomeçar, inutilisado para a acção, devia acabar de uma vez. Toda a energia da sua vida se concentraria num movimento unico e decisivo.