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A fallencia

JULIA LOPES DE ALMEIDA (continued 3)

Reading edition

Habilidosamente, Noca aproveitou-a para entreter Ruth, que dava então os seus primeiros passos. E nesse mister, a menina revelou a doçura do seu caracter e o engenho do seu espirito. Ruth em poucos dias preferia-a aos outros, atirando-lhe ao pescoço magrinho e pallido os seus dois bracinhos redondos. Aquella conquista foi uma gloria para Nina. O amor de alguem nascia para ella, como a luz para um cégo, e sentia nos beijos côr de rosa da creança gorda e bem tratada o aroma da vida, que até então ella só parecia ter espreitado de longe.

Mario era nesse tempo um rapazinho de cinco annos, alto e forte para a edade, muito lindo, arrojado e pouco amavel para ella. Abusando da sua força e da sua posição de preferido, trazia-a fascinada, prompta a ceder ás suas vontades absurdas.

De todas as pessoas, uma das mais indignadas contra a adopção da Nina em casa de Theodoro fora D. Joanna, para quem a menina cheirava a peccado e era uma blasphemia viva aos preceitos da moral religiosa. Para essa classe ha os asylos, affirmava ella; as plantas damninhas não são para os canteiros de violetas. A caridade faz hospicios, orphanatos, rodas, onde se apuram e aperfeiçoam os filhos da impureza e da vergonha; mas agazalhar no seio honesto um animal desconhecido, era exporem-se a um veneno de effeitos imprevistos.

Milla não repellia a ideia, cheia de indignação pela origem da sobrinha; entretanto, a coitada ia pouco a pouco conquistando as boas graças de todos, de vagar, pela sua docilidade e o seu prestimo.

Apezar de miuda e de pallida, ninguem a via doente; tinha os musculos flexiveis, como o genio. Aos doze annos conservava o seu ar estupido e humilde; não conhecia uma lettra; mas ensinava as criadas novas a varrerem a casa e a pôrem a mesa com perfeição. Como o Mario lhe batesse um dia com os arreios do seu cavallo de páo, Francisco Theodoro resolveu pôl-a em um collegio, de pensionista, recommendando uma instrucção pratica, nada ornamental. Bem orientado andou.

O collegio fôra o seu melhor tempo. Do pae não sabia senão de longe em longe, quando elle participava á irmã o nascimento de mais um filho, com umas lembranças murchas, para ella, no fim da carta.

Ao principio, a idéia d'aquelle irmão, que não veria talvez nunca, sensibilisava-a; depois deixou de pensar nisso... Para que?

Foi só depois de mulher que Nina começou a amar a mãe; amor ignorado por todos e que ella cultivava como um segredo caro. Sondae bem o coração mais puro, que lá no fundo achareis um mysterio, alguma coisa que existe e que se nega, ou porque faça corar ou porque faça soffrer.

Nina tinha vexame de perguntar pela mãe e ardia em desejos de saber d'ella. Onde estaria essa mulher repudiada?

Ninguem lh'o dizia; assim, ora a imaginava na sepultura, e era a idéia mais consoladora, ora regenerada, mas sozinha ... ora em um d'esses recantos negros da cidade, já velha e ainda atolada no vicio, batida, escarnecida, miseravel.

No meio da treva, que ella interrogava com ancia, pareceu-lhe sentir a alma impenetravel da mãe solicitando-a no agoniado suspiro do vento; então extendeu os braços, soluçando, no desejo da Morte, para o encontro definitivo das duas almas e a fusão de um beijo eterno, que redimisse uma e désse á outra a sua primeira alegria.

Reboaram os primeiros trovões, com enorme estampido; um zig-zag de ouro cortou o espaço negro, e á luz branca de um relampago a casaria muda bailou macabramente com o arvoredo escuro.

A convulsão passou, para voltar depressa; na phosphorescencia mobil e offuscante da luz, todas as coisas tomavam proporções extraordinarias, mas logo, nos intervallos, a treva da noite mais se condensava.

Applacou-se o vento, e então, só de um jacto, a chuva cahiu, pesada, brutal, ensurdecedora.

A agua borrifava a janella. Nina procurou um chale, envolveu-se e voltou. Era tempo: através das torrentes da chuva, viu tremeluzir indistincta no véo fosco das aguas, a lanterninha de um tilbury.

Debruçada, alongando a cabeça, a moça gritou:

—Mario! Mario!

Mas a sua voz fraca perdia-se no diluvio.

O primo abria o portão; ella tentou ainda dizer-lhe que voltasse, que o pae lhe trancara a porta; mas a lanterninha do carro movia-se já na sombra, ia-se embora.

Nina voltou para dentro, accendeu a vela e esgueirou-se para o corredor.

Com o coração aos saltos, foi resvalando pela alcatifa do passadiço, com a precaução de quem vae para o crime.

Quando chegou a baixo já o Mario sacudia a fechadura com impaciencia, praguejando raivoso.

Ella tacteou os ferrolhos e recommendou:

—Espere um bocadinho, Mario!

—Que estupidez!

—Não faça barulho ... já vae! sussurrava ella sem que elle a ouvisse de fóra.

Emfim, a porta abriu-se. Mario esperava cosido ao humbral.

—Que idéia foi esta de deixarem a chave...

E elle interrompeu a phrase e a cólera, ao ver a prima alli. Por que seria ella e não qualquer criado, quem lhe ia abrir a porta?

—Foi ordem do tio Francisco. Boa noite.

Nina quiz subir logo, mas uma lufada de vento obrigou-a a proteger a chamma da vela com a mão, e com o gesto desprendeu-se-lhe uma ponta do chale que a envolvia. Na meia escuridade do vestibulo, Mario percebeu-lhe a doçura do hombro nú, pequeno, redondo, um pouco de carne virginal guardada até ahi em um recato que nem o baile afugentara nunca. E já elle não viu senão a pureza d'aquelle hombro assetinado, sahindo do meio das lãs, como um desafio aos seus sentidos, num assalto impudico e voluptuoso.

Acudiu-lhe então a ideia perversa de haver um proposito malicioso naquella historia. Não lhe affirmara Noca tantas e tantas vezes que a prima o amava?

A filha da mulher de má vida ahi estava agora, como devia ser: livre de hypocrisias. Mario extendeu-lhe os braços.

Nina comprehendeu.

Uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto; segurou o chale com força e subiu correndo.

A vela apagou-se, os degráos da escada pareciam multiplicar-se debaixo de seus pés. No alvoroço, pisava sem cautela ora no assoalho, ora no passadiço, sentindo as faces abrasadas de vergonha, feliz no seu desespero, suppondo-se ainda perseguida pelos braços do Mario, que se quedara estupefacto no mesmo ponto.

Um trovão estalou, como se uma bomba tivesse rebentado em casa. Nina sentiu os joelhos vergarem-se-lhe, mas continuou no seu galope tonto até ao patamar. No corredor, em cima, receou ainda errar de porta.

Com as mãos extendidas apalpava a escuridão, ouvindo só o estrondo da chuva, compacta, sempre egual. Temia que o primo a perseguisse e não se atrevia a voltar a cabeça, para não esbarrar com elle, alli mesmo, juncto aos seus calcanhares.

Os pés, habituados ao caminho, levaram-na direita ao fim; uma rajada assobiando pelas frinchas de uma porta, fêl-a reconhecer o quarto, de que deixara aberta a janella, e ella entrou arrebatada, forçando a porta, que resistia. Fechou-se logo á chave, collou o ouvido á fechadura. Ninguem; suspirou de allivio, estava só. Um relampago conduziu-a á janella, de que fechou os vidros, alagando-se toda. Despiu-se á pressa, ás escuras, deixando cahir toda a roupa molhada no chão.

E foi á luz branca de um outro relampago que ella se viu toda núa, muito pallida, no grande espelho do guarda-vestidos. Escondeu o rosto de repente, como se vira um phantasma, e saltou para a cama, enfiando a camisa de dormir, num movimento de louca, com medo da noite, com medo da sua propria imagem, que se lhe afigurava impressa para todo o sempre no vidro...

Envergonhada, prevendo grandes males, em uma angustia em que se fundia um prazer, adivinhando os pensamentos do primo, maldizendo-o e adorando-o, sentindo-se d'elle para a vida e para a morte, quasi que se arrependia de se não ter abandonado, soluçando por aquelles braços de que fugira...

Era tal a sua confusão e a vibração dos seus nervos, que não sentiu alguem andar pelo corredor de vela accesa e passos compassados.

Mario adormecia feliz, na melhor paz da vida; Francisco Theodoro voltava para o somno interrompido, tendo intimamente perdoado a quem abrira a porta ao seu rapaz, por tão feia noite de trovoada,—e ainda Nina, na estreiteza da sua cama, com os olhos pasmados para o tecto negro, soffria, soffria, soffria...

No outro dia, ás oito horas da manhã, quando Francisco Theodoro entrou na sala de jantar para o almoço, comido sempre cedo e á parte da familia, já lá encontrou a sobrinha, retocando os arranjos do copeiro para a sua mesa.

—Bons dias, Nina; você passou bem a noite? perguntou-lhe elle, fixando-lhe os olhos pisados.

—Eu passo sempre bem ... respondeu ella corando.

Elle teve pena; e mais baixo, para que o criado não o ouvisse:

—Você fez mal em abrir a porta a meu filho; elle não lhe merece esses sacrificios ... e ... e mesmo isso não lhe fica bem; a sua intenção foi boa; realmente a noite estava pavorosa ... comtudo espero ser esta a ultima vez que sou desobedecido.

Nina estava hirta, encostada ao espaldar de uma das cadeiras arrumadas junto á mesa. Um vento de desespero sacudiu-lhe as idéias, sem que ella atinasse com que palavra responder. Francisco Theodoro reclamou então d'ella, mesmo para a tirar do embaraço em que a via, que lhe partisse uma fatia do roast-beef frio e que lhe fosse depois buscar o Jornal, esquecido em cima, no quarto de toilette.

Aquella maneira polida e reservada não era a usada pelo negociante nos seus momentos de censura. Ao contrario, elle abusava dos termos violentos e atroava a casa com as suas mais altas vozes. E era uma d'essas crises que a Nina esperava e que viu mudada num tom em que a admoestação era misericordiosa, e por isso mesmo mais commovedora.

Ella não respondeu, e apressou-se em servir o tio.

X

Raras vezes as tias do Castello appareciam em Botafogo. D. Itelvina não se arredava de casa, espicaçando o serviço da Sancha, arreliada com os desperdicios e a beatice da irmã; esta é que, de longe em longe, ia sentar-se á mesa de Milla para uma palestra curta, no intervallo das suas devoções.

Nina, ainda atarantada pela advertencia do tio, punha no terraço a gaiola do cacatuá, quando viu D. Joanna atravessar o jardim com os seus passos vagarosos, de mulher gorda e cançada.

—Que milagre! a senhora por aqui!

A velha sorriu-lhe e só depois de sentada num banco do terraço é que fallou, com a blandicia costumada, desamarrando com as mãos papudinhas o nó da mantilha preta.

—Mal imagina você por onde tenho andado!

Olhe: ás cinco horas já eu estava em São Bento, ouvindo a missa de N. S. da Conceição; depois dei muitas voltas pela cidade, angariando esmolas.

—Tão cedo?

—Nos bairros pobres a vida começa de madrugada. Por fallar em esmolas, hontem estive em casa das Bragas, da rua dos Ourives. Conhece-as?

—Não, senhora.

—É pena; são umas almas muito tementes a Deus. Achei-as atrapalhadissimas, preparando doces para offerecerem ao vigario Alves, que faz annos hoje. Não imagina como ellas são...

—Desculpe, tia Joanna, interrompeu Nina; e voltando-se para dentro:

—Ó Dionysio, leve o café ao Sr. Mario, ouviu?

—Ainda estão dormindo?!

—Tio Francisco já sahiu.

—Triste peccado é a preguiça ... emfim, cá estou eu rezando por todos... Pois as Bragas entregaram-me dez cartões para um grande concerto que vae haver no Cassino, em beneficio da egreja do Monte Serrate... Para o fim que é, ninguem se póde negar; Camilla deve levar a Ruth a essas festas de musicos... Eu pago a minha cadeira, mas lá não vou, e as outras nove espero deixal-as aqui. Vocês vão a tantos espectaculos indecentes, que não fazem nada de mais indo a este, que é para bom fim. Canta uma tal ... Marcondes, ou ... não sei quê...

—A senhora falle com tia Milla. Seu João! chamou ella interrompendo outra vez a conversa, voltada para o jardineiro que passava: olhe! é preciso fazer um ramo novo para a sala de jantar; como não ha rosas, faça de folhagens... Já reparou para as palmeirinhas da entrada?

—A chuva escangalhou-as; desfolhou as flores, e abriu covas nos canteiros, que Deus nos acuda!

—Veja se remedeia isso hoje mesmo...

O jardineiro passou; D. Joanna disse:

—É pena que não haja rosas; eu gostaria de levar algumas ao vigario Alves. Hontem a mulher e as filhas do Dr. Mendes passaram lá o dia, pregando cortinas, tapetes, ajudando D. Maria a enfeitar o quarto do filho... Aquellas são tambem muito boas pessoas...

—Quer café, tia Joanna?

—Acceito... Você é das taes que nunca vão á missa ... ha de se arrepender...

—Não tenho tempo... Quer mais assucar?

—Quero... Qual não tem tempo!... pois olhe, você tem peccados atraz de si, que deve purgar, se quer merecer o nome de boa filha...

Nina franziu as sobrancelhas e, desviando a vista do rosto branco da tia, olhou para o jardim, ainda empapado d'agua, muito verde, juncado de folhas arremessadas pela ventania.

D. Joanna saboreava o café, sem reparar na moça, que continuava em pé, com o rosto contrahido por uma expressão de raiva e de melancholia.

Ruth encontrou-as assim. Ella vinha toda fresca do banho, com o seu cabello negro e ondeado solto sobre os hombros estreitos, e o vestido branco, de cinto largo, que lhe tornava a cintura grossa e lhe dava ao corpo um ar de anjo de cathedral.

—Como está crescida! exclamou D. Joanna ao vel-a.

Ruth mostrou os dentes alvos num sorriso alegre.

—Bons dias! Sabe, tia Joanna? ainda hontem pensei na senhora!

—Porque?...

—Porque ando com muita vontade de ir ao observatorio do Castello ver a lua e as estrellas.

—Que lembrança! pensei que fosse para a levar a alguma festa de egreja...

—Não; isso cança-me, e, depois, já tenho visto tantas! Naquella da Sé, outro dia, os musicos desafinaram que foi um horror! Se ao menos cantassem bem... Quem me lembrou a ida ao observatorio foi o capitão Rino. Ver bem a luz e a côr das estrellas é o que me preoccupa agora. Leve-me lá, titia, sim?

—É melhor que você pense em conhecer o céu por dentro.

—Seria querer demais. Você já leu hoje a Flor de Neve, Nina?

Nina meneou com a cabeça, que não.

—Que historia é essa de flor de neve? indagou D. Joanna.

—É um romance do Jornal, muito bonito. Estou morta por saber se a Magdalena morreu ... tambem se tiver morrido não tornarei a pegar no Jornal!

D. Joanna ia reprovar a leitura, quando Camilla appareceu no terraço, bonita, de peignoir côr de rosa, toda rescendente, dando as mãos ás duas filhas pequenas.

Nina tomou a bençam á tia e, para fugir á presença da velha, que naquelle momento se lhe tornara odiosa, entrou logo para a sala de jantar.

—Isto aqui está muito humido; porque não foi lá para dentro, tia Joanna?

—Este banco está enxuto. A Nina estava aqui...

Camilla, depois de cumprimentar a tia, tirou da gaiola o cacatuá e beijou-o no pennacho.

Depois, para a velha:

—O que a trouxe tão cedo?

D. Joanna voltou á historia das Bragas, da missa em S. Bento, e apresentou á sobrinha as dez cadeiras para o concerto em beneficio da capella do Monte Serrate.

—Como é para um motivo de religião, eu fico, do contrario não; porque exactamente no domingo tenho convite para uma festa.

—Hoje faz annos o vigario Alves; você não lhe manda um bilhete?

—Posso mandar.

—Acho bom. Elle reza muito por sua intenção. É um santo padre e um perfeito homem.

—Elle é bonito, e trata-se bem. Já tomou café, titia?

—Já... Porque é que você deixa Ruth ler jornaes? Ella fallou ahi num folhetim; isso são obras impuras; é preciso zelar pela alma de sua filha.

—O pae não se importa, que hei de fazer?

—Ainda não fez a primeira communhão?

—É cedo.

—Não é tal. Ella não quererá?

—Se quer! ainda que não fosse senão para pôr corôa e véu... Todas as meninas sonham com a primeira communhão. É um ensaio para o casamento.

—Heresias... E o Mario ... como vae o Mario?

—Está um moço bonito.

—E ... mais ajuizado?

Camilla corou levemente, roçou em um disfarce as faces pelas azas brancas do cacatuá, e respondeu com um sorriso:

—Como todos os rapazes de vinte annos...

Lia e Rachel tinham-se engalfinhado a um canto por causa de um pecego verde, derrubado pela chuva e que ambas disputavam. Milla chamou a Noca, que interviesse e levasse as contendoras para dentro. D. Joanna levantou-se com um gemido e foi sentar-se a um canto da sala de jantar.

Estava alquebrada, pezavam-lhe as pernas; soube-lhe bem a flacidez da poltrona, que a envolveu logo numa caricia de somno. Cochilou gostosamente, mal ouvindo as correrias e as gargalhadas das creanças, o tinir das louças que punham na mesa, e os passos da criadagem em movimento. Atravéz do somno tudo aquillo era subtil e bom como uma musica a distancia. Quando despertou, iam servir o almoço. Perto, em um vão de janella, o Dr. Gervasio, com roupa clara e flores na lapella, conversava baixo com a Camilla.

D. Joanna tossiu para prevenil-os da sua presença; não se queria aproveitar do momento para indiscreções. Por fortuna, Nina entrou na sala, vinda da cópa, carregando uma cestinha de uvas brancas.

Lá em cima Ruth atacava os graves e agudos do violino, com frenesi.

«Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo, parece o zurrar de um burro!» pensou comsigo a velha, espreguiçando-se disfarçadamente.

Á hora do almoço, o Dionysio trouxe uma bandeija para servir Mario no quarto, visto que este só comparecia á mesa da familia quando o Dr. Gervasio não estava.

Camilla mal encobria o seu desespero, velando aquella offensa com desculpas frouxas, só para que o medico não reparasse. E elle nem viu tal coisa; acceitou os pretextos sem desconfiança. Mario merecia-lhe pouca attenção.

Entretanto, Nina apartava para o primo o melhor bife, o pedacinho de pão mais fofo e os ovos mais perfeitos. D. Joanna notou aquillo muito calada, com medo de mexer em casa de maribondos, arrancando do peito suspiros curtos, que afogava em bordeaux...

Dr. Gervasio observava a Ruth, que os exercicios, que lhe ouvira não estavam no andamento justo. Deveria repassal-os, antes da lição; depois aconselhou a Camilla que chamasse uma aia ingleza ou allemã para as gemeas, que perdiam o tempo, pervertendo-se com a linguagem de criadas boçaes. Elle opinava pelas allemãs; são disciplinadoras, risonhas e mais accessiveis que as outras. Depois de dirigir uns dois gracejos a Nina, o medico fixou com attenção o rosto pallido e humilde da D. Joanna, muito calada ao lado de Ruth. Lembrou-se de relance do encontro que tivera com ella no alto da ladeira de João Homem, sobre as pedras gordurosas da calçada, entre magotes de moleques curiosos e paredes sujas de predios velhos.

Ficara-lhe no ouvido toda a censura d'ella, e houve então nelle um impeto de agarrar Milla e de beijal-a mesmo alli, deante dos olhos castos e pudibundos da velha.

Foi só depois do café, ao accender o charuto, que elle ouviu D. Joanna, com o seu tom assucarado, queixar-se á sobrinha:

—Porque é que você não ensina ao menos as suas filhas a se persignarem quando se sentam e se levantam da mesa? Dar graças a Deus pelos bens que recebem não é vergonha nenhuma... A sua consciencia, Milla, está muito perturbada por máus conselhos e exemplos de atheus sem caridade... Eu não queria fallar, mas tenho-lhes muita amisade para ficar impassivel; não lhe parece que está em tempo de ensinar estas meninas a respeitarem a nossa religião?

Dr. Gervasio sorriu; comprehendera o remoque; Milla protestou:

—Todos em casa eram religiosos, ninguem deixava de ouvir a sua missa ao domingo, excepto a Nina, que nunca tinha horas para coisa nenhuma, e uma ou outra criada mais sobrecarregada de serviço; á noite tambem ninguem adormecia sem ter rezado pelo menos um Padre Nosso. Ella não se esquecia dos seus deveres.

Isto foi dito em tom secco, que encrespou um tanto o genio manso da tia; para vingar-se do medico, de quem suppunha emanar toda a alteração d'essa familia tão sua, ella exclamou com ironia, voltando-se para elle:

—Aposto em como o doutor tambem reza todas as noites?

—Aos meus deuses, respondeu elle com toda a calma, porque não?

—Como se chamam os seus deuses?

—Camões, Dante, Shakespeare... Nunca adormeço sem ter lido algum poeta, e de alguns recito mentalmente versos divinos. É a razão por que me explico ter tão bellos sonhos, visto que este feio homem que aqui está, excellentissima, tem sonhos que perfumariam a existencia da mais formosa das mulheres. Hontem li Dante. Estive no inferno, D. Joanna, e que inferno bellissimo!

—Vá trazendo para cá essas ideias...

—Descance; esta religião não se ensina; é para os iniciados. A senhora já ouviu fallar em Byron?

—Algum inimigo da nossa Egreja, como o senhor?

—Mas eu não quero mal á sua Egreja! acho-a só muito triste, toda voltada para a morte... Não lhe quero mal, porque para sua glorificação ella tem creado cathedraes que são verdadeiras apotheoses da arte.

—Só por isso?

—É uma das razões, e a unica facil de explicar-lhe.

—Julga-me muito bronca.

—Ao contrario, estou-lhe fallando como a um litterato! Agora, se quer, discutamos religião e philosophia. Conhece Comte?

—Algum damnado.

—É o termo.

—Eu sei, adoram-no numa Capellinha da rua Benjamin Constant. Que peccado!

—Ah! já tem noticias... Estamos bem adeantados.

—O senhor é um dos taes que não perdem essas sessões?

—Eu nunca lá vou. Já lhe disse, detesto a philosophia. Para enfadar-me basta-me a medicina e para distrahir-me as minhas roseiras. A senhora conhece algum bom remedio para matar pulgões de roseira? Tenho uma Yellow Persian quasi perdida!

—A sua medicina nem para as plantas serve?

—Nem para as plantas, a miseravel!

—Tia Milla! disse Nina apressada, entre as portas do corredor.

—Que é?

—Estão ahi a baroneza da Lage e a irmã...

—Meu Deus! e eu de peignoir!

Dr. Gervasio voltou-se e disse:

—Pois está muito bem; quem procura uma senhora a estas horas, sujeita-se a ser recebido assim. Digo-lhe mais; para mim não ha vestido tão bonito.

—Então vou assim mesmo...

D. Joanna sorriu com magua; até nisso a opinião do diabo do homem era seguida!

—Bem, Milla, ficamos despedidas, disse ella, eu vou-me embora. O dinheiro dos bilhetes?

—É verdade! Nina! dá cem mil réis a tia Joanna pelas dez cadeiras. Até outra vez, tia Joanna. Lembranças.

—Adeus.

A moça sahiu.

—Jesus! exclamou logo a velha, já passa de uma hora e Milla esqueceu-se de dar-me o cartão para o vigario Alves!

O medico voltou-se rapidamente, com uma curiosidade transparecendo-lhe no rosto. Que desejaria Milla dizer por escripto ao padre Alves? A velha percebeu-lhe a extranheza do gesto e voltou-lhe as costas antes que elle lhe pedisse alguma explicação, afogando o rosto flacido na juba negra de Ruth, com muitos abraços, ternuras e lembranças ao Mario.

Quando Camilla entrou no seu salão, a baroneza da Lage, toda de setim preto, estava de pé, contemplando um quadro insignificante, ricamente emmoldurado.

A irmã, sentada perto do sofá, com um arzinho enfadado de loira anemica, distrahia-se brincando com os dedos enluvados nos berloques do seu cordão de ouro.

A dona da casa desculpou-se logo por se apresentar d'aquelle modo...

—Mas está em sua casa, está muito bem. Olha, Paquita, este peignoir é quasi egual áquelle que eu comprei hontem no Raunier, não é?

A Paquita meneou languidamente a cabeça, que sim.

—Adivinhe agora o motivo da minha visita! disse a baroneza atravéz de um bello sorriso.

—É facil. Vem participar-me o seu casamento!

—Casar-me, eu? qual!

—Porque não? É a viuvinha mais cobiçada d'este Rio de Janeiro.

—Infelizmente. Imagine: tenho agora em casa uma senhora, especie de dama de companhia, sabe? só encarregada de receber e despedir os meus pretendentes... Não se ria, saiba que é verdade. Não é verdade, Paquita?

Paquita meneou a cabeça, que sim.

—Bem vê. Mas onde ouviu dizer que eu estava noiva?

—Em um bond.

—Já me tardava. O bond é o eterno mexeriqueiro d'esta terra. Tambem vocês quando não querem comprometter os seus informantes, attribuem ao pobre bond todas as indiscreções... Por isso o abomino. Só saio de carro... Não! Eu não venho participar coisa nenhuma; venho pedir a sua Ruth para abrilhantar um concerto que nós, protectoras do Sagrado Coração, pretendemos dar no dia quinze. Se não fosse coisa de religião, eu não me metteria nisto. Já me têm pedido para organizar festas em beneficio de escolas e de hospitaes para pobres, como se na nossa America houvesse pobreza... Creia, minha amiga, no Brasil não ha miseraveis, ha atheus. Precisamos de regenerar o povo com exemplos de fé christã.

Camilla concordou; Paquita atreveu-se a dar uma sentença.

Houve uma pausa.

—Paquita deu-me um dia d'estes noticias de seu filho; diz que está muito bonito moço.

Paquita atirou á irmã um olhar de reprovação; mas as palavras já tinham sahido, e nenhum poder as faria voltar ao ponto de partida.

—Está ... mas um pouco vadio; não gosta de trabalhar...

—Oh! nem precisa d'isso! É muito distincto. Eu, no caso d'elle, faria o mesmo.

—Sim, mas o pae é que não se resigna a isso.

Paquita esboçou um sorriso que não foi notado. A baroneza continuou:

—Já recebeu convite para o nosso baile?

—Já...

—Esperamos que seja Mario quem nos marque o cotillon. Papae gosta muito do Mario.

O pae da baroneza e da Paquita era um velho portuguez, antigo cavouqueiro, que boas auras de fortuna tinham tornado capitalista. Toda a cidade conhecia as suas anecdotas e simplicidades. Demais, elle gabava-se dos seus principios rudes e pesados.

—Nós tambem preparamos um baile; somente a data é ainda incerta, disse Camilla.

—Já se falla nisso.

A baroneza conversava com volubilidade, mal tocando nos assumptos. Fallou muito e fallaria ainda mais se a Paquita não a interrompesse de repente com uma phrase secca:

—Vamo-nos embora.

—Sim, vamo-nos embora.

Quando ellas se despediram, com a promessa de que Ruth tocaria no concerto, Camilla ficou com as mãos cheias de bilhetes para a matinée.

A baroneza, no meio da vidrilhada do seu vestido de setim preto, caminhava como se levasse musica comsigo; tinha os passos cadenciados, o busto bem erguido, um calor doce nos seus formosos olhos acastanhados de morena.

Paquita seguia-a, com o seu modo vago, em que tudo parecia escapar á observação. Camilla notou, ao apertar-lhe a mão, a magreza do pulso, um pulso alvo, fino, de creança doente, entrevisto entre a luva e a manga.

Em baixo, no vestibulo, as moças esbarraram com o Dr. Gervasio, que sahia tambem, cançado de esperar por Camilla.

Houve então uma troca de olhares significativos entre a baroneza e a silenciosa Paquita, que fez ao medico um quasi imperceptivel signal de cabeça. A irmã, muito expansiva, reteve-o, fallou-lhe com alegria, achando geito de lhe encher os bolsos com os bilhetes do seu concerto de religião.

Nessa tarde o capitão appareceu em Botafogo. Começavam a notar-lhe a ausencia; Lia e Rachel, quando o viram, saltaram-lhe para os joelhos.

Ruth veio em alvoroço, chamando-o de ingrato, pedindo noticias do Neptuno. Nina acolhia-o sempre com sympathia, achando nelle um ar de bom amigo, a quem num lance de perigo ou de angustia o coração de uma mulher póde vasar uma confidencia e pedir um conforto; Francisco Theodoro abriu-lhe os braços: Porque não apparecia, havia tanto? Só Camilla sorriu com esforço e reserva, extendendo-lhe a ponta dos dedos frios.

E era por isso que elle fugia agora d'aquella casa, onde o seu pensamento vivia encurralado, como um animal teimoso. O seu amor por Camilla crescia á proporção que elle se abstinha de a procurar, ou que se via maltratado por ella. Não achava explicação para aquella mudança; não a recebera elle no seu navio como a uma princeza?

As creanças abraçavam-n'o com enthusiasmo.

—Meninas! que é isso? então! exclamava Francisco Theodoro, rindo, muito fraco pelas denguices das gemeas.

Camilla olhou e teve pena. O capitão Rino estava mais magro; toda a sua roupa, escura e desageitada, parecia dançar-lhe no corpo; havia uma tristeza resignada nos seus olhos garços. Ella levantou-se, pretextando dôr de cabeça e subiu para o seu quarto.

Rino pensou: «Ella foge-me ... talvez seja melhor assim.»

Ouvia-lhe desesperado o rumor dos passos pela escada acima e ninguem percebeu que elle estava com o ouvido á escuta e os labios franzidos por um sorriso amargo.

Lia e Rachel balançavam-lhe os braços rindo muito, comparando as suas grandes mãos ás d'ellas, tão mimosas...

—Capitão Rino, porque não nos traz nunca sua irmã? perguntou-lhe Ruth.

Com toda a calma, como se nenhum desgosto o abalasse, elle respondeu:

—Catharina é uma exquisita; ella sae todos os dias, mas para andar lá pelo morro colhendo plantas... Raras vezes vae á cidade ou faz visitas. Somos uns insociaveis, nós dois. Meu pae era maritimo, minha madrasta foi sempre muito doente, e está nisso, julgo eu, a origem do nosso mal ... ou do nosso bem, quem nos dirá?

Fazendo uma carinha comica, e apontando para o céu, Ruth respondeu com ar solemne:—Só Deus!

XI

Era a hora do café no armazem de Francisco Theodoro. O escriptorio estava cheio; o Innocencio, miudo e trefego, retorcendo com mão nervosa o bigodinho aloirado, com os olhos pequenos fulgurando-lhe no rosto pallido, dilatava as narinas, cheirando dinheiro, que lhe parecia andar esparso no ambiente de todo aquelle enorme casarão de S. Bento.

Percebia as coisas de relance, e apanhava no ar as que lhe convinham.

A seu lado o velho João Ferreira, espadaúdo trigueirão, largo de faces e de gestos, commentava com benevolencia os actos do governo, berrando ás vezes contra a opinião dos outros, que o atacavam por todos os lados em vivas represalias.

O Lemos sorria calado, muito estupido para entrar em questões de tal ordem. Que lhe fallassem do preço da carne secca, que importava em grosso, e dos jacás de toicinho, e a sua opinião figuraria logo com todo o peso da autoridade. O Negreiros em pé, com o seu enorme nariz de cavallete, que a mão distrahida acariciava de vez em quando, era o unico republicano naquelle ninho de velhos portuguezes afferrados ás instituições tradicionaes da sua patria e d'esta que o seu amor e o seu bem-estar escolheram.

João Ferreira desculpava a fraqueza dos homens; palrador, como todo o minhoto, discursava por gosto, abafando com o seu vozeirão as ironias do Innocencio, um ou outro aparte medroso do Lemos, e os protestos de Francisco Theodoro, que não comprehendia como um tão fiel monarchista pudesse achar desculpas para os desatinos d'esta «Republica de ingratos.»

Negreiros sorria com a serenidade de um confiante. Elle fôra sempre um republicano e um extremado e era por isso olhado por alguns dos seus compatriotas com extranheza e susto. Como João Ferreira no maior ardor de seu discurso esbarrasse com a expressão alegre do rosto de Negreiros, e lhe comprehendesse o contentamento de o ter de seu lado, tergiversou e, com maldade alegre, achou logo tambem motivos de aspera censura ao mesmo governo que tinha gabado havia pouco. Não, que elle já estava maduro para dar o seu braço a torcer!

Os outros triumpharam, era assim que o queriam; e chegou a vez de Negreiros entrar na discussão.

Foi nesse instante, no meio da balburdia de vozes, que o capitão Rino appareceu no limiar da porta, com o chapéu na mão, e uma expressão interrogativa no rosto.

A chegada subita d'aquelle extranho, para quem Francisco Theodoro fez logo um logar ao pé da sua secretária, abaixou o calor da conversa.

Dividiram-se os grupos; houve risos baixos, pancadinhas nos hombros, de reconciliação e amisade. Só os olhinhos do Innocencio Braga ardiam na mesma febre, e os seus dedos magros torciam com maior nervosismo as pontas do bigode delgado.

—Que novidade é esta, o senhor por aqui?!

—Não lhe roubarei o tempo; é por curtos instantes.

—Ora essa! tenho muito prazer com a sua visita ... dê-me licença de o apresentar aos meus amigos.

Feitas as apresentações, o Isidoro entrou com o café em uma grande bandeija e houve uns segundos de silencio. Depois, Francisco Theodoro perguntou baixo ao capitão se lhe quereria fallar reservadamente.

—Não, senhor; venho apenas despedir-me e rogar-lhe que apresente os meus cumprimentos á sua familia. Parto para o Pará.

—Porque não vae jantar comnosco? o senhor não imagina como é querido lá em casa. A minha gente não lhe perdoaria isso! Bem sabe que não fazemos cerimonias.

—Obrigado, mas a minha viagem d'esta vez é mais longa, obriga-me a preparativos que não me deixam tempo para nada. Na volta levarei os meus respeitos a todos.

O capitão corava dizendo estas coisas. Todo o seu sangue, agitadissimo, lhe bailava sob a pelle de loiro.

—Bem, bem! as obrigações não se deixam por coisa nenhuma ... dou-lhe razão; sou homem de negocios. Darei os seus recados á minha gente. Camilla vae ficar triste ... paciencia... Pois quando quizer lá estamos ás ordens como bons amigos; e Francisco Theodoro extendeu a mão larga ao capitão Rino, que a apertou confuso e alvoroçado.

Seu Joaquim appareceu no escriptorio e pousou um maço de papeis na secretária, pedindo a Theodoro que lhe désse prompto expediente.

Aquillo equivalia a uma despedida; havia urgencia de recomeçar-se a lida. Levantaram-se todos.

Innocencio Braga deixou-se para ultimo e e ao despedir-se do negociante pediu-lhe uma entrevista em sua casa, para negocio urgente, de alta importancia.

No olhar de Theodoro houve uma interrogação pasmada. O do Innocencio tinha lampejos de ouro. Seu Joaquim observava em silencio.

O capitão Rino, que desceu na frente, topou com o caixeiro Ribas no corredor, junto ás grades do armazem, de orelhas molles e hombros descahidos, ruminando odios em silencio contra o Joaquim, que o deprimia á vista de todos. O capitão levava os olhos cheios de outras imagens, para attentar nelle. O bafo quente da rua, cheia de povo e de sol, acordou-o do sonho. Na calçada, mesmo á porta do armazem, a velha Terentia varria á pressa as pedras com a vassourinha de piassava, e a cabecinha amarrada no lenço branco, pendente para o seu trabalho. Os carregadores iam e vinham, cruzando-se, serpeando entre os vehiculos repletos de café, numa gritaria medonha. O trabalho trombeteava a todos os ventos a sua força poderosissima.

O capitão Rino seguiu, abrindo passagem atravéz de grupos compactos e movediços.

Aquella multidão aturdia-o.

O mar limpo e vasto obrigara-o sempre a viver das suas proprias commoções, a ser um isolado e um melancholico, affeito a amar na natureza o que ella tem de maior e de mais simples.

A onda do povo rude com que esbarrava, era bem mais complexa do que a do oceano que elle cortava com a prôa firme do seu Neptuno.

Talvez tivesse escolhido mal a sua profissão. A vida do homem era aquillo que alli estava: a agitação perenne, o trabalho violento, o amor sem idealisações, o espectaculo renovado de tudo que a terra produz, mata e faz renascer para a fulguração do tempo, que é instantaneo e é eterno.

O proprio mar, que escolhera e a que se lançara na phantasia da adolescencia, não era á orla branca da Terra que vinha atirar a sua grande queixa, a sua furia formidavel ou a sua voluptuosidade infinita?

A terra pallida dos areaes, a terra côr de sangue das mattas, a terra negra do ouro, a terra rôxa dos cafeeiros, mãe da abundancia, ou a terra clara dos laranjaes, fonte de perfume, não é por ventura a parte do mundo consagrada ao homem, onde o seu suor, em cahindo, se transmuda em orvalho fecundo?

O capitão Rino olhava para toda aquella gente, marinheiros, soldados, vadios e trabalhadores braçaes, negros ou portuguezes, uma população de homens apressados, sem lhe fixar o desalinho do gesto ou a preoccupação das vistas abrasadas. Eram homens, passavam em repellões, pensando no ponto da chegada. Elle ouvia-lhes a respiração, a offegancia dos peitos cançados e a cadencia dos passos batendo dominadoramente as pedras duras do chão.

Aquelle ruido era sempre para elle uma musica de sonoridade nova.

Entrou na rua da Prainha, tomou depois a da Saude, sem notar o aspecto desegual da casaria, os negros trapiches tresandando a cebos de carnes e meladuras de assucar esparramadas no solo, onde moscas zumbiam desde a porta da rua até lá ao fundo do armazem, aberto para um quadro lampejante de mar.

Os trapiches succediam-se, repletos de barricas, de saccos, de fardos e de pranchões, enchendo o ar de um cheiro complexo, que a maresia levava de mistura, e de sons asperos dos guindastes, suspensos sobre balanças. Lanchas passavam perto em roncos e silvos entrecortados, e aquella confusão louca de vozes, que lhe era familiar, dava-lhe agora a impressão de que a terra se debatia num delirio de febre.

Elle ia ao morro da Conceição, dizer adeus a um antigo companheiro, agora padre. Para isso, enveredou por uma ladeira estreita, talhada sobre rocha branca. A rua serpeava em curvas contrafeitas, elevando-se aqui para se despenhar acolá, acotovellando-se em angulos de um lado para descer ao outro em escadarias toscas.

De casas velhas, abertas para a grande luz, sahiam mulheres para extender ao sol blusas de marinheiros, emquanto lá dentro vozes frescas de moças cantavam modinhas ternas.

Á beira dos precipicios, creanças, quasi núas, atiravam com os pés, d'entre montes de lixo, latas vazias, que rolavam, tinindo pelas ribanceiras, e velhas, sujas, agachadas em uma ou outra soleira, coziam trapos, entre gatos adormecidos e gallinhas soltas.

O dia estava azul, e o ar do mar vinha, em grandes lufadas, acariciar a face quente e robusta da terra.

Capitão Rino atravessava uma rua de marinheiros.

Ao ver alguns rostos tranquillos e braços grossos de mulheres, trabalhando ao ar livre, pareceu-lhe que o coração d'aquella gente era resignado e sabia esperar.

A grande virtude estava com ella, só os simples podem ser fortes.

Depois de varias voltas, por caminhos muito accidentados e sujos, elle viu-se na ladeira da Conceição, entre casas baixas, umas com as faces para as outras, mal abertas, de ar desconfiado.

Outra gente alli se movia nas ruas. Rolavam no cisco das calçadas velhos botões azinhavrados de fardas. Mulheres de soldados tagarellavam em lingua aspera, com visinhas de má compostura, e um fartum enchia a atmosphera da rua longa, até ás proximidades da velha fortaleza.

Em todo o comprimento do seu passeio, foi alli a primeira vez que o capitão Rino ouviu uma voz lamurienta, a pedir-lhe uma esmola.

Ahi estava uma coisa que elle não ouvia nunca sobre a onda inconstante...

Pouco depois bateu á porta do amigo, mas elle não estava em casa; só voltaria á noite. Rino continuou para cima até o pateo do forte e e ahi sentou-se um bocado na muralha, olhando para baixo.

Que via elle? a casaria desegual, feia, derramada, brilhando aqui na telhas novas de reconstrucções, mostrando acolá outras, negras ou esverdinhadas, sobre paredes encardidas? Reparava para o movimento continuo da rua embaixo, cortando com uma linha larga e branca os predios melancholicos? Não. Com os olhos fixos na agua crespa da bahia, coalhada de vapores negros, de navios brancos, de embarcações de todo o feitio, elle só pensava em Camilla, tão rigida para com elle quanto docil e amorosa para com o outro...

Fugia. Estava tudo acabado. Era o adeus á sua mocidade, áquelle sonho de amor, que elle dizia atravéz d'aquella infinidade de corações felizes, fortes, que esses telhados abrigavam por certo. Não haveria mais ninguem assim, tão desafortunado.

Como seria bom viver, mesmo naquelle immundo bairro de trabalho, com o coração tranquillo, com fé no amor!

Para elle, estava escripto: não tornaria a ver Camilla. A humilhação da ultima visita queimára-o como brasas. Ainda se ella o desprezasse, mas não amasse o outro!

E toda a causa da sua desventura estava naquella preferencia. Porque havia de ser o outro, e não elle?

O sino da Conceição badalou com força. Rino voltou-se; dois padres moços, de batina, atravessavam o largo, como dois pontos pretos de exclamação em um quadro vasto de sol. Nesse instante o moço maritimo teve a visão de que, ao encontro da sua, vinham duas almas eguaes, tristes na sua esterilidade. Ainda aquellas tinham o seu ideal, se guardavam intacto o oleo divino que todas as chagas suavisa e todas as miserias embelleza.

E elle? sem fé sem um fito qualquer que explicasse o motivo dos seus dias, com um amor renegado, cavalheiro sem dama e sem sonho, que valia neste mundo, onde o homem merece pelo que pensa, pelo que crêa, pelo que combate ou pelo que amplia?

Os padres passaram; elle quiz seguil-os, mas o corpo, cançado, amollecido, ficou ainda. E o pensamento recalcava: por que havia Milla de preferir o outro? parecia-lhe que todo o seu amor seria para sempre doce e platonico, se ella fosse para todos uma mulher austera, bem encerrada no circulo de seus deveres.

Esta idéia trouxe a lembrança da mãe, morta a facadas pelo pae, como adultera. A imagem d'ella encheu-lhe o coração; ergueu-se bruscamente e começou a descer a rua, apressado com a ideia de fugir para longe, salvar-se do perigo que o solicitava.

Era preciso não tornar a ver Milla; nunca mais! Para algo lhe serviria o seu orgulho de homem.

A vontade domaria o coração rebelde. Não tornaria a vel-a.

A idéa da mãe lembrou-lhe a irmã; tinha ainda tempo de ir jantar com ella naquella silenciosa casa das Laranjeiras. Só no dia seguinte iria para bordo aprestar o Neptuno.

Devia pensar noutras coisas; esforçava-se por isso. Desejar Milla, para que? não tornaria a vel-a...

Desceu o morro apressado, até á rua dos Ourives e seguiu por ella, sacudindo os hombros no movimento bamboleado do corpo, num andar de quem nada quer ver resoluto acalmado por um esforço em que entrara todo o poder da sua vontade.

Fugir de Camilla e para sempre, crear, talvez, lá longe, em terras do norte, uma familia honesta, era o que devia fazer, o que faria, inevitavelmente e bem depressa, como remedio para esquecer...

O capitão atravessou ruas, passou por amigos como se ninguem visse, e só ao desembocar na rua do Ouvidor parou de chôfre, com um batimento forte de coração. Deante d'elle, magestosa no seu vestido preto picado apenas no peito por uma rosa escarlate, Camilla sorriu-lhe, extendendo-lhe a mão enluvada. Era uma reconciliação e um appello; elle não atinou com que dissesse. Ao lado da mãe, Ruth fixava nelle aquelle brilhante par de esmeraldas que Deus lhe déra por olhos. Trocados os cumprimentos ellas não se detiveram, e o moço seguiu tambem o seu caminho, enfraquecido, todo embebido no aroma d'ella todo deslumbrado por aquelle ar de deusa inattingivel.

D'alli até á Carioca já os seus passos se collavam ás pedras, desejosos de parar para a seguirem depois, quando ella voltasse para o calor da sua casa; mas o capitão Rino obrigou-se a ter juizo e caminhou para um bond das Aguas Ferreas, que era justamente o assaltado nessa occasião.

Só depois de sentado reparou que estava juncto da D. Ignacia Gomes e das duas filhas, a Carlotinha e a Judith, ambas muito faceiras e risonhas nas suas toilettes claras.

D. Ignacia suspirava, cançada do esforço da tomada de logar, com as mãos carregadas de embrulhos, e o toucado já descahido sobre a orelha esquerda. Não a pilhariam tão cedo na cidade, affirmava.

Reconhecendo o capitão Rino, pediram-lhe logo noticias da familia Theodoro, como estava a boa Camilla?

Elle disse o que sabia, um pouco atrapalhado, corando.

A Carlotinha, sempre trefega, debruçava-se sobre o collo da mãe, dizendo-lhe com a sua voz maliciosa phrases em que entrava mais atrevimento do que espirito. Tinham-se mudado para as Larangeiras e offereciam-lhe a casa. D. Ignacia vinha espantada com os preços dos objectos adquiridos; se não fossem as moças, ella não viria á cidade; gostava do seu canto, da boa paz caseira.

—E o Sr. Gomes, como está? perguntou o capitão, menos por interesse do que para dizer alguma coisa.

—Coitado, como velho cheio de trabalho. O Sr. não imagina! meu marido sacrifica-se pelos outros e o resultado nós sabemos qual é. Este mundo é de ingratos...

—Sim, é de ingratos; confirmou o capitão.

Até as Larangeiras D. Ignacia teve tempo de despejar todas as lamentações da sua alma attribulada; fallou de tudo, até das cozinheiras e do máo serviço do açougue. O discurso, interminavel, numa lenga-lenga, ora lamurienta, ora resignada, tornava ao capitão insupportavel a longura da viagem.

Carlotinha perguntou pelo Dr. Gervasio. Que era feito d'elle, que ninguem o via, senão no palacete Theodoro?

Rino encolheu os hombros; não sabia. Judith debruçou-se por sua vez, e contemplou-o com curiosidade.

Tinham chegado ao termo da viagem e desceram com muitos offerecimentos, apontando o portão da sua residencia.

O capitão Rino correspondeu ás expansões com amabilidade discreta, admirado da exuberancia d'aquella gente. Que lhe importavam as denguices da Carlotinha, de olhar gaiato e tez de jambo, ou as da Judith, pallida e pequena, se todo o seu pensamento estava na outra, naquella Milla de formosura opulenta, de quem guardava ainda na palma a doçura da mão enluvada?

A fatalidade d'aquella paixão bem se revelava em tudo; elle furtava-se a vêl-a, saudoso e afflicto, mas forte na sua resolução, e eis que ella lhe apparecia em uma volta de rua, inesperadamente! O bond parara no ponto e o moço desceu, caminhando para deante até a chacara da madrasta; o portão estava aberto, entrou.

Nos largos canteiros touceiras de cannas da India erguiam os seus pennachos de flores vermelhas e amarellas; elle tomou á esquerda, por uma rua ladeada de gyrasóes e de magnolias côr de ouro velho. Era ao fundo d'essa rua que apparecia a casa, de feição antiga, solida e simples, com paredes brancas e largas janellas de guilhotina.

Sentindo gente, veio um cão enorme lá de dentro, aos saltos e latidos, e logo apóz appareceu Catharina no patamar de pedra, da escada em semicirculo.

Ella desceu ao encontro do irmão, muito risonha.

—Estás boa? perguntou-lhe elle, segurando-lhe no queixo forte e ligeiramente quadrado e fixando-lhe de perto os olhos claros.

—Estou, D. Mariquinhas é que está doente, com uma das lymphatites do costume.

—Chamaste medico?

—Chamei, e lá a deixei com a Hermengarda ao pé da cama.

—Que Hermengarda?

—Aquella enfermeira mulata, do nº 15, mãe do...

—Já sei.

—D. Mariquinhas gosta muito d'ella. Queres ir vel-a agora?

—Depois; fiquemos por aqui. Os teus gyrasóes estão muito lindos.

—Não parece um jardim japonez? Repara. Temos chrysanthemos que nem os dos biombos, cannas como as das ventarolas, lirios e gyrasóes... D. Mariquinhas acha detestaveis todas estas flores e falla em mandal-as arrancar... Esta nossa madrasta tem singularidades. Não comprehende o adorno e desconhece a graça das linhas. Só gosta das flores pelo cheiro.

—Que tens feito?

—Lido, cosido e jardinado; que mais hei de fazer? quem me acompanha se eu quizer sahir?

—Effectivamente estás muito só.

—Preciso casar-me.

—Casa-te.

—Tenho medo.

—Os homens assustam-te?

—Um pouco. São enganosos, e eu sou franca. Imagina o conflicto! Depois, a lembrança da nossa mãe faz-me odiar o casamento.

—Sê honesta.

—Quem pode saber hoje o que será amanhã?

—Tens razão. Fica solteira; serás mais feliz. Tens uma alma indomavel. Conserva-te aqui. Esta casa é tão propicia a uma vida de calma e de reflexão!

—Minha madrasta, bem sabes, vive em guerra aberta commigo. Chama-me com malicia—doutora. Todos os meus gostos são assumpto de mofa para ella, e todos os seus são para mim de aborrecimento. E ahi tens a calma d'esta casa. Fresca tranquillidade!

—Tem paciencia ou, então, dou o dito por não dito. Casa-te!

—Com quem?

—Commigo não pode ser.

—Nem tu quererias.

—Porque?

—Porque amas a Camilla Theodoro.

Tinham-se afastado de casa e seguido para as bandas do pomar. O jardineiro passou com o carro de mão cheio de folhas seccas, e cumprimentou o moço, que não lhe correspondeu á cortezia, tonto, pasmado para a irmã, que estacára tambem ao dizer as ultimas palavras.

—Nega, se és capaz; disse ella.

—Não nego.

Quedaram-se mudos, contemplando-se de face.

Pela mente de ambos passou, dolorosissimamente, a lembrança da mãe assassinada pelo marido. Comprehenderam-se atravéz do silencio. Catharina murmurou:

—Á proporção que envelheço, mais se vincula em mim a saudade d'ella e não consigo desvanecer o meu rancor por elle. Não lhe perdôo.

—Nem eu; mas a sociedade absolveu-o...

—Os homens. Ella era tão boa!

—Enganou-o.

—Que monstruoso castigo! E o resultado, lembras-te? O teu afastamento de casa e o meu odio. Em vão elle se fazia bom para agradar-me; era de uma humildade que commovia a todos, menos a mim. Não tornei a beijar-lhe a mão.

—Nem mesmo na hora da morte?!

—Nem mesmo na hora da morte. E eu quiz; curvei-me; mas quasi ao encostar a minha bocca á mão d'elle, ergui-me com terror. Elle percebeu tudo. Que morte!

—Foste cruel.

—Fui humana. Tu o amavas?

—Antes? muito!

—Depois?

—Não. Mas era nosso pae...

—E ella era nossa mãe!

—Tens razão. Para os filhos a mãe é sempre a melhor e a mais pura entre as mulheres.

Um sabiá cantou e elles ficaram a escutar, com os olhos rasos de agua.

—Foi no Neptuno que percebeste tudo, não foi? perguntou Rino mudando de tom.

—Onde havia de ser?

—E só aquella vez bastou?

—Só.

—Manda calar aquelle sabiá, Catharina!

—Deixa lá o passaro; chora.

—... Parto depois de amanhã. D'esta vez a viagem será longa... Entrego em Belém o commando do Neptuno a outro. Tenho substituto; está tudo combinado e resolvido. Bem resolvido. Devo fugir-lhe. Não era preciso que evocasses a lembrança do passado para me dissuadir...

—Não tive a intenção de te dissuadir; quer-me parecer que o amor não é figura de barro que se amolgue com os dedos. Sómente, como ella ama o Dr. Gervasio...

—Por quem soubeste isso?

—Por nossa madrasta, que sem sahir d'aqui sabe sempre de tudo, benza-a Deus!

—Mas quem lhe diria a ella semelhante coisa?!

—Talvez o medico ... talvez a cozinheira... talvez o vento. O vento traz-lhe aos ouvidos coisas que ninguem mais ouve. E é uma espada desembainhada para todas as faltas, aquella mulher!

—De mais a mais, é uma calumnia! Camilla é discreta; mesmo que isso assim fosse, quem poderia adivinhar?

—João, amores são como luzes atravéz de rendas: apparecem sempre.

—Não, não; é preciso convencel-a de que isso é falso. Milla não ama ninguem; não ama ninguem!

Catharina fechou os olhos por um segundo, depois recomeçaram a andar, um ao lado do outro, silenciosos, pisando o enorme tapete solferino que as flores dos jambeiros-rosa alastravam no chão. A tarde descia clara e calma, toda azul, com leves tons opalinos.

—Catharina?

—João?

—Precisava ter-te sempre a meu lado...

—Pois casa-te e chama-me para a tua companhia. Eu criarei os teus filhos. Procura amar outra mulher. Ha tantas no mundo, ha tantas!

—Ha uma só: a que amamos. Só quero aquella.

—Soffres muito?...

—Horrivelmente, horrivelmente! Este desabafo ha de fazer-me bem. Custa muito guardar um segredo d'estes! E eu guardo o meu ha tanto tempo!

—Parecia-te. Bem viste que eu já o tinha commigo.

Sorriram ambos, com tristeza.

Como tivessem dado volta ao pomar, passaram pelo recanto onde Catharina tinha o viveiro das rosas, mas não se detiveram. Tornaram a cruzar-se com o jardineiro e, tomando a larga rua dos gyrasóes, entraram em casa.

Antes de se sentarem á mesa, os dois irmãos foram ao quarto da madrasta, uma senhora muito gorda, que se alastrava pela cama, com um lenço amarrado na cabeça e o rosto polvilhado de amido. A Hermengarda tinha cerrado as janellas e vigiava a doente, na penumbra. Sobre a mesa muitos vidros de remedios, e um cheiro de camphora espalhado em tudo.

O leito rangeu, ao movimento do corpo enorme, que se voltava a custo, e a enferma, fazendo uma voz debil, queixou-se de muitas dores e de muito frio.

Os enteados disseram-lhe meia duzia de phrases animadoras, recommendaram-lhe paciencia e, sentindo que a importunavam, sahiram em bicos de pés.

Antes de se sentarem á mesa, Catharina confessou ao irmão sentir-se alliviada com a ausencia da madrasta. Teriam assim um jantar mais intimo.

Elle perguntou:

—Afinal, tu a aborreces só por ella ser tua madrasta?

—Só. Se a morte de minha mãe tivesse sido natural, eu acceitaria depois a madrasta, senão com ternura, ao menos com respeito. Assim, quero-lhe mal, porque, escolhendo meu pae, ella offendeu minha mãe. Mas o mal está feito e é irremediavel, não fallemos nelle. Suppõe que eu sou uma exquisita, que ella é outra, e não penses mais nisso.

Ao jantar fallaram-se baixo para não incommodar a doente, cujo quarto era na visinhança.

Quando á noite o capitão Rino se despediu da irmã no jardim, sentiu, ao abraçal-a, que ella chorava. Era a primeira vez, entre tantas de separação, que isso acontecia. Elle beijou-a consolado, certo de que em toda a terra havia um coração que o amava com firmeza, com sinceridade—o d'ella.

XII

Havia no palacete Theodoro um compartimento que raras vezes se abria: era uma sala, destinada naturalmente na sua origem a bibliotheca, e de que o negociante fizera o seu escriptorio.

Ficava embaixo, no rez do chão, ao fundo do vestibulo, toda voltada para o silencio do jardim, que formava perto das suas janellas grupos de plantas sem aroma, dentro de grandes relvados, onde a bulha dos pés morria.

Como o negociante não usasse de livros, o seu escriptorio não tinha estantes. A mobilia, de canella e de couro, guardava alli, na sua attitude impassivel, um cunho de austeridade que não desdizia do aposento, vasto e sobrio.

Aquellas cadeiras e aquelle sofá de braços extendidos, tinham o ar das coisas a que a intimidade dos seres não deu ainda uma alma.

A melhor parede para uma armação era occupada por dous quadros industriaes, de ricas molduras lampejantes, e por um contador veneziano. Sobre esse movel, erguia-se, com ar de desafio, a estatueta de um cavalheiro de capa e espada e grande pluma ao vento.

Do lampeão de bronze com abat-jour, cahia uma luz bem dirigida, espalhando-se sobre a secretária em um largo circulo tranquillo.

Foi para juncto d'essa mesa que Francisco Theodoro levou o amigo, o Innocencio Braga, offerecendo-lhe uma cadeira ao pé da sua.

A figura trefega d'aquelle homem miudo, que com os seus quarenta annos não parecia ter mais de vinte e cinco, o brilho movediço dos seus olhinhos, perspicazes e mergulhadores, a sua pallidez baça, os seus movimentos rápidos e incisivos, a febre dos seus gestos, a clareza da sua exposição, punham em evidencia a pacata attitude do dono da casa, a calma dos seus modos, de satisfeito, de burguez que já da vida alcançou tudo, e que se compraz em ver o mundo do alto do seu fastigio.

Com as mãos apoiadas na mesa, onde, a par de um vistoso tinteiro de prata massiça, só havia o Codigo Commercial de Orlando, Francisco Theodoro abria os ouvidos ás palavras do outro, em quem presentia o desejo arrojado de grandes vôos. Sabia-o tão intelligente quanto experto, de uma actividade febril e fecunda. Esperava que aquella entrevista fosse para lhe pedir o nome e o capital para qualquer empreza.

Tinha-se apparelhado já com algumas evasivas e preparado para uma certa condescendencia, que o valor do homem o obrigava a ter. O seu capital, avolumado, podia com lucro tomar diversas derivações, fertilisando zonas e expandindo a sua força; tudo estava no credito de quem lh'o pedisse, e nas vantagens que lhe offerecessem.

E era só em negocio que Francisco Theodoro fazia caso do dinheiro. No mesmo dia em que assignava vinte ou trinta contos para um hospital ou uma egreja, numa pennada rija e franca, recusava emprestar a qualquer pobre diabo cinco ou dez contos para um começo de vida.

O seu dinheiro, adquirido com esforço, gostava de mostrar-se em borbotões sonoros, que lampejassem aos olhos de toda a gente.

Queria tudo á larga. Era uma casa a sua em que as roupas, as comidas e as bebidas atafulhavam os armarios e a despensa até a brutalidade. Dizia-se que no palacete Theodoro os cozinheiros enriqueciam e que a vigilancia trabalhosa da Nina não conseguia attenuar a impetuosidade do desperdicio. As proprias dividas do Mario faziam vociferar o negociante, não pelo consumo do dinheiro, mas por a perdição d'aquelle filho, que elle não conseguia dirigir a seu modo.

Gastar comsigo, com a sua gente, era sempre um motivo de vaidade e de goso; mas gastar mal em negocio, arriscar em commercio problematico, é que lhe parecia uma ignominia.

Agora, com este Innocencio Braga, as coisas mudavam. A superioridade do homem obrigava-o a transigir um pouco...

Por isso elle fez entrar o Innocencio para o escriptorio, onde mal chegava o echo das correrias das pequenas.

Sem preambulos, o outro atacou o assumpto com a altivez de quem não pede, mas offerece favores.

Com o seu timbre de voz nazalada como se toda ella só lhe sahisse da cabeça, começou:

—Lembrei-me de organizarmos aqui no Rio um grande syndicato de café. O Gama Torres, que, aqui entre nós, deve aos meus conselhos a sua prosperidade, está prompto a entrar com grande parte do capital. Foi elle que me disse que o consultasse tambem.

Francisco Theodoro sentiu um arrepio, mas não pestanejou. Os olhos do Braga scintillavam na sombra.

Com elogios moderados, mas de infallivel alcance, á argucia e bom criterio do negociante, Innocencio expoz o seu plano, estudando-o, revirando-o por todos os lados, mostrando calculos, em cuja elaboração perdêra noites de somno, assoprando-o de vagar, com eloquencia, fortificando-o com argumentos persuasivos.

Tudo aquillo apparecia como a irrefragavel verdade, singelamente. Nenhum artificio de palavras. Termos limpidos como agua da fonte.

Francisco Theodoro, empolgado, reclamava repetições. Innocencio prestava-se.

Todos os pontos obscuros eram esclarecidos, repetidos, como os compassos difficeis de uma musica, até que se passasse por elles sem tropeço. O tino commercial do Innocencio Braga confirmava-se.

Entretanto, Francisco Theodoro hesitava. A sua escola fôra outra, mais rude.

O assalto assustava-o.

Sentindo-o escorregar medrosamente d'entre os seus dedos nervosos, Innocencio sorria e, com habilidade, sem querer constranger resoluções, retomava o fio d'ouro da sua proposta, e extendia-a seductoramente.

Não havia zona caféeira, em Africa, na America ou na Asia, de que elle não fallasse com a autoridade de bom conhecedor.

Dir-se-ia que podia contar os grãos de cada arvore. Em algumas colonias o sol mirrava o fructo; noutras, chuvaradas tinham levado colheitas; em certos paizes de café, o café faltava, e só no Brasil, terra da promissão, os cafesaes vergavam ao peso da cereja rubra. Tudo isto era documentado com trechos de jornaes extrangeiros, collados num caderno, annotado nas margens, com lettra miuda.

Em toda a exposição não havia calculo sem base, idéas sem argumentos. Tudo era saber aproveitar a occasião propicia, esta incomparavel epocha de negocios, para lançar a rêde...

Francisco Theodoro resistia ainda, ou antes, queria resistir, por instincto; mas a verdade é que abria os ouvidos ás palavras do outro, e não achava termos com que defendesse a sua reluctancia.

O prestigio de saber traduzir um artigo para jornal vale alguma coisa. Innocencio leu um artigo traduzido por elle do inglez, sobre a propaganda e o futuro do café, obra solida, que Francisco Theodoro approvou.

Reconhecia nos inglezes grande capacidade.

—Justamente, grande capacidade, atalhou o outro; e sabe o senhor porque?

—Superioridade de raça... Sim, é o que dizem.

—Não creia o senhor nessas balelas. Qual superioridade de raça! de educação, só de educação. Individualmente, o inglez não é mais forte do que nós, com toda a sua gymnastica, com todas as pipas de oleo de figado que tenha ingerido em pequeno.

A vantagem d'elles é outra: vêem melhor e fazem a tempo as suas especulações. Podem ter medo de phantasmas, mas não teem medo de negocios. Especular com intelligencia, ganhar boladas gordas, encher as mãos, que para isso as teem grandes, de libras esterlinas, eis para o que o inglez nasce e se desenvolve.

Por isso o commercio d'elles é tão forte.

Como os inglezes se ririam de nós, meu amigo, se quizessem perder tempo estudando as timidas especulações do nosso commercio de analphabetos!

Não percamos tambem nós o nosso tempo; estudemos este assumpto.

Curvaram-se outra vez para a secretária coberta de artigos, tabellas, estatisticas...

Francisco Theodoro não se atrevia a uma resposta. Innocencio disse, sem tirar os olhos dos papeis:

—Aqui só vejo um homem capaz de entrar nisto sem medo:—o Gama Torres.

—É rapaz novo...

—E atiladissimo.

—Os negocios precisam ser feitos com vagar...

—Á moda antiga.

—De todos os tempos.

—Não. Quando ha febre é preciso saber aproveital-a na subida do thermometro.

As occasiões fogem e não se repetem; o senhor reflectirá; esperaremos alguns dias, poucos, bem vê que não devemos adiar isso para outra épocha. Esta é a melhor.—É a unica.

Deixo-lhe aqui a minha papelada: consulte-a. Aqui estão coisas melhores e mais convincentes do que palavras:—cifras.

Francisco Theodoro, acavallou no nariz a sua luneta de vista cançada e seguiu com o olhar os caracteres cerrados que os dedos do outro apontavam e percorriam rapidamente.

Como o rumor da enchente que se approxima e vem até a inundação, assim aquelle amontoado de parcellas ia crescendo e ameaçando de desabar em blocos de ouro.

Quando via uma abertazinha, Francisco Theodoro aproveitava-a para uma objecção, que Innocencio repellia sem esforço, com mostras de quem já vinha prevenido para tudo.

Á meia-noite ergueu-se, dizendo:

—Amanhã é domingo; o senhor fique com estes papeis e leia-os outra vez, com o seu socego. Segunda-feira eu irei procural-os no armazem, das duas para as tres horas. Estude e resolva. Boa noite.

Francisco Theodoro acompanhou a visita até o portão do jardim. Em cima, a casa estava toda fechada; a familia dormia. O jardineiro, na soleira, esperava que a visita sahisse para soltar os cães.

—Que linda noite, Sr. Theodoro, e como o seu jardim cheira bem!

—Sim. Camilla gosta muito de flores. Deve ser das violetas.

—É dos jasmins do Cabo, asseverou o jardineiro.

—Ou dos jasmins do Cabo. Pois muito boas noites!

Nessa noite Francisco Theodoro mal pôde dormir. O seu pensamento gyrava, gyrava. Como os tempos eram outros! Percebia a razão do Innocencio: o commercio do Rio já não tolerava o cançaço das obras lentas. A finura e a astucia valiam mais do que os processos rudes e morosos do systema antigo. Ah! se elle tivesse tido instrucção...

Quando no dia seguinte abriu o Jornal, na frescura da varanda, percebeu que não supportaria a leitura. Os olhos teimaram, e ficaram-se presos ao papel; mas o pensamento, insubmisso, embarafustou por outros caminhos; foi preciso fazer a vontade ao pensamento. Francisco Theodoro desceu ao escriptorio e engolphou-se na papelada do Innocencio Braga.

E lia ainda, meio tonto, quando Ruth entrou, com ar amuado.

—Sabe uma coisa, papaezinho?

—Não ... não sei nada. Que temos?

—Uma desgraça.

Francisco Theodoro levantou os olhos, assustado.

—Que dizes?!

—Digo que a Nina faz annos hoje e que ninguem tem um presente para lhe dar. Demais a mais é domingo: está tudo fechado...

—Então a desgraça é essa?

—Sim, senhor. Ella não se esquece de ninguem, não é justo que os outros, que podem mais, se esqueçam d'ella...

—Ora, não lhe falta nada.

—A mim parece-me que lhe falta tudo. Quando qualquer de nós faz annos, o senhor dá uma festa e mamãe arranja surprezas... Ella é como se fosse outra filha. Quando Rachel esteve doente, eu ia dormir para a minha cama e era Nina que fazia de irmã, velando ao pé da doente... Entretanto...

Francisco Theodoro contemplou a filha com attenção.

—Acaba.

—Quando Rachel ficou boa, toda a gente se congratulava com papae, com mamãe, commigo, mesmo com a Noca, e ninguem se lembrou dos sacrificios de Nina. O senhor diz: não lhe falta nada. É o que parece. Basta dizer que se quizer fazer a esmola de um vintem precisa de pedil-o ao senhor ou a mamãe.

Foi uma maçada eu não ter-me lembrado hontem! Ella não tem chapéu...

—Quem te lembrou isso hoje?

—Lembrei-me eu mesma, quando tirei a folhinha...

—Bom; promette-lhe o chapéu.

—Só?

—Parece-te que temos sido ingratos para com ella?

—Parece-me que além do chapéu ella precisa de outra coisa...

—Que coisa?

—Outro dia, quando fomos á cidade, ella gostou muito de uma gravata que viu numa vitrine. Eu perguntei-lhe:—mas porque é que você não compra esta gravata? E ella sorriu. Depois, passámos numa confeitaria e ella manifestou vontade de tomar um sorvete. Eu estava com tosse, não podia tomar gelo, mas perguntei:—porque é que você não toma um sorvete? E ella foi andando. No bond, quando voltámos, o conductor vendo que ella era mais velha pediu-lhe as passagens. Nina ficou que nem uma pitanga e indicou-me com um gesto... Foi então que eu percebi que desde que uma pessoa põe vestido comprido, precisa de usar uma carteirinha no bolso...

—Queres então dar-lhe uma carteira?

—Não. Eu dou o chapéu; a carteira deve ser dada ou por papae ou por mamãe.

—Está dito. Vamos a ver agora se nos dão almoço.

Já toda a familia os esperava na sala de jantar. O Dr. Gervasio faltara, por isso o Mario se dignara de apparecer.

Foi logo no principio do almoço que Francisco Theodoro, voltando-se para a sobrinha, declarou:

—Nina, como eu não entendo de modas, o presente que escolhi hoje para você foi uma casa. Com os alugueis você poderá escolher todos os mezes um vestido a seu gosto.

A moça, que fazia nesse momento os pratos de Rachel e de Lia, estacou com os olhos esbugalhados. Riram-se do seu espanto e fizeram-lhe a saude. Ella começou a chorar.

—Homem, não foi para a ver chorar que eu disse o que disse. De maneiras que você...

Mas, Francisco Theodoro tinha tambem os olhos luminosos. Camilla applaudiu a ideia e tocaram os copos, commovidos.

Depois, o negociante disse que levaria a sobrinha no dia seguinte ao tabellião, para a transferencia da propriedade, e accrescentou:

—A casa não é grande, mas é nova e bonitinha.

—É verdade, Mario, interrompeu Camilla, a baroneza tornou a escrever, insistindo para que você não falte ao baile do pae.

Parece que a Paquita está apaixonada!

Mario teve um sorriso de desdem; Nina deixou cahir o talher com que recomeçara a partir o beef das primas.

—Então convidaram só o Mario?! inquiriu o negociante, espantado.

—Não, a todos; vamos todos. Eu já mandei fazer os vestidos, mas do Mario é que fazem questão ... uma insistencia exquisita! Eu só attribuo a querel-o o Meirelles para genro.

—Fresco genro, um frangote sem profissão ... deixa-te de asneiras! O Meirelles não é nenhum parvo.

Mario fixou o pae com ar atrevido, e disse:

—Pois fique o senhor sabendo que mamãe acertou. A Paquita gosta de mim, e já disse ao velho que não se casará com outro. Eu é que não quero.

Nina tremia.

Francisco Theodoro riu alto.

—Ora! a pequena, não duvido ... agora o pae! Ha de casal-a como casou a outra, com um homem de peso...

—Pois sim!...

—Verás. Bom casamento é ella, lá isso é... Quantas filhas são?

—Cinco, parece-me que cinco.

—Mesmo assim. O Meirelles está podre de rico. Podre de rico! Tambem nunca vi homem tão agarrado; tinha até a alcunha do Chora vintens... D'antes eram muito frequentes as alcunhas ... ahi, no commercio... Alcunhas e bofetões. Hoje está tudo mudado...

—Assim mesmo ainda ha muita brutalidade! disse Camilla com um arzinho de nojo.

—Que queres? Nem todos nascem para doutores.

Não havia allusão. Francisco Theodoro tinha na mulher a fé mais cega; todavia, ella corou e não se atreveu a voltar o rosto para o lado do filho.

Findo o almoço, a Noca cercou a Nina na copa para lhe perguntar:

—Que foi que eu lhe disse hoje?

A moça, aturdida, não se lembrava; a mulata explicou:

—Menina, pois eu não lhe disse que ver borboleta azul é signal de boa nova?

—Borboleta azul?...

—Gente! já se esqueceu que hoje de manhãzinha viu uma borboleta azul? Pois olhe: ella veio lhe avisar que você havia de receber este bonito dote... E ainda ha quem não acredite!

—Sim, é verdade, você me disse...

E a moça sorriu; mas havia no seu sorriso uma mescla de ironia e de doçura.

Na segunda-feira, ás duas horas da tarde o Innocencio Braga apresentou-se á Francisco Theodoro no seu escriptorio da rua de S. Bento para buscar a papelada; mas o negociante esquecera-se d'ella em casa, mostrando-se indeciso, e renovando com disfarce perguntas em que transparecia a mais viva curiosidade.

O outro, percebendo tudo, muito correcto, explicou com detalhes todos os pontos, sem insistir com Theodoro para que accedesse. O que tinha de dizer estava dito. Que passasse muito bem. Coube então a Theodoro prometter que iria elle pessoalmente levar os papeis á sua residencia, na rua do Riachuelo, e conversar de novo sobre o assumpto.

Nessa tarde o Ribas, balançando os braços molles, entregava ao patrão uma carta manchada pelos seus dedos suados. Era do velho Motta; a perna não o deixava ainda ir ao serviço; pedia desculpas com humildade, tresuando miseria. Era o dia do vencimento do ordenado.

Francisco Theodoro deixou cahir a carta na cesta dos papeis rasgados e, cofiando a barba, cogitou na melhor maneira de responder ao Innocencio...

XIII

O palacete Theodoro preparava-se para o baile.

Desde manhã até á tarde era uma invasão de operarios pelas salas e corredores, um continuo martellar nas paredes, bulhas abominaveis de escadas arrastadas, de utensilios atirados ao chão, de laminas raspando parquets e de moveis deslocados.

Arrancadas todas as cortinas e reposteiros e atirados em monte para o despreso do porão, o sol e o vento entravam pelas janellas escancaradas, com inteiro desassombro.

Varado de ar e de luz, repleto de gente extranha, o interior da casa perdera o aspecto de intimidade e de conforto, que torna o lar amoravel e discreto.

Ruth sentia a impressão de estar numa praça publica. O baile não a interessava, e aquelles preparativos irritavam-n'a. Tinha uma salvação: fugir para o fundo da chacara, com o seu violino ou um romance qualquer. A musica inebriava-a; o livro abria-lhe scismas, e não raro ella adormecia estirada no banco do caramanchão, numa das suas longas estiadas de preguiça, entre o violino e o livro abandonados.

Os outros da familia preoccupavam-se com a festa.

Camilla ideava o esplendor do baile pensando muito em si. Reclamara da modista um vestido com bordaduras luminosas, flores e azas espalmadas sobre tules, que dessem ao seu corpo o fulgor de um astro.

O bulicio produzia-lhe febre, anceio de chegar ao fim, de ver as suas salas repletas de vestidos de baile e de casacas voejando no redemoinho das dansas.

Outras preoccupações iam-se desvanecendo, substituindo, escorregando para o esquecimento. Que valia já a tal mulher de lucto? Gervasio não provava com a sua assiduidade ser só d'ella? Talvez tivesse visto mal, quem sabe? a gente illude-se tantas vezes!

E repellia da lembrança as palavras, a meia confissão do medico, que tornavam o facto positivo e doloroso. A visão esgarçava-se. Gervasio não a deixava tomar corpo.

Elle agora demorava-se no palacete dias inteiros. Fora elle quem determinara a transformação de duas alcovas inuteis em uma sala de musica, em que essa applicação fosse indicada por pinturas a fresco; foi elle quem contractou artistas, quem escolheu mobilias novas e harmonisou o conjuncto em todas as peças. Tudo que sahia das suas mãos parecia a Camilla perfeito.

Nem a Noca, nem a Nina sobrava tempo para descanço. Vigiavam tudo. As gemeas, atiçadas pela balburdia, contentes com a novidade, atiravam-se por entre os utensilios dos enceradores e dos estofadores, rindo-se da desordem que provocavam.

Mesmo Francisco Theodoro parecia mais satisfeito.

Depois de um exame meditado, elle tinha resolvido: acceitaria a proposta do Innocencio, d'aquelle trefego Innocencio, tão perspicaz.

Livre de uma preoccupação que o enervava, tornou-se mais leve e mais risonho. Já tinha determinado as coisas: um mez depois do baile a familia partiria para Petropolis, para o novo palacete que alli estava construindo, e que, como costumava dizer: engulia dinheiro que nem um avestruz.

Um bello dia, Ruth atravessava a sala de musica para a escada, afflicta por se ver ao ar livre, quando, relanceando o olhar pelas paredes, estacou surprehendida.

De um fundo nebuloso, de brancura opaca, surgiam roseos anjinhos nús, soprando em longos flautins de ouro.

A maneira por que nascia da tinta aquella carnação tenra e doce, porque a leveza do pincel chamava á tona aquelle bando de creanças, que vinham de longe, as primeiras ainda mal entrevistas nos vapores da atmosphera densa, as ultimas já batidas de sol, na irradiação limpida da luz, fizeram-na estremecer. Era uma arte que se revelava aos seus olhos, como que um mysterio que se esclarecia ao seu entendimento.

Nunca pensara nisso. Os quadros que havia em casa, vinham de fabricas. A machina não produz almas, e só a alma impressiona e acorda instinctos.

Em pé, com o violino mal seguro nas mãos, Ruth concebia agora como se podia pintar um quadro. Maravilhava-a, que de uma parede compacta e bruta, o artista fizesse o ether, onde nuvens se baloiçavam e azinhas de filó batiam tremulas.

Aquella surpresa dava-lhe a ideia de ter posto os pés em paiz novo, um paiz de sonho.

Já não pensava em se arredar d'alli. Cada vez mais curiosa, punha a vista sofrega nas mãos do pintor, tão grandes e tão leves, e nas tintas da paleta, que se desmanchavam noutras tintas mais suaves, ou em flechas de sol.

Tão embevecida ficou, que, meia hora depois, quando o Dr. Gervasio entrou e lhe bateu no hombro, ella respondeu, sem desviar a vista da parede:

—Estou gostando de vêr...

«A quem diabo teria sahido esta pequena?!» pensou comsigo o medico, ao mesmo tempo que examinava com vista curiosa o trabalho do pintor. E não lhe agradou completamente o trabalho; torceu os labios, descontente.

Mais tarde, quando Ruth lhe pediu a significação d'aquelle gesto, elle respondeu:

—Não tive talvez razão; a minha exigencia torna-me incontentavel e injusto. Eu já sabia que o artista não é genial; portanto, não podia esperar d'elle uma obra perfeita. Que importa que um dos anjos tenha uma perna mais comprida que a outra, e todos tenham o mesmo nariz? Não digamos isso aos outros, que os outros nada verão. A côr é bonita, o effeito é gracioso, basta. Já é uma felicidade haver alguma coisa...

—Eu, como não entendo, acho bonito. Estou até com vontade de pedir a mamãe que me mande ensinar pintura...

—Não se abstraia do seu violino; mesmo servindo a uma arte só, é raro haver quem a sirva dignamente. Estude só musica, só musica e não pense em mais nada...

Passados dias dava-se por finda a decoração da sala e Ruth voltou a não encontrar geito de estar dentro de casa, no meio da balburdia dos trabalhadores. Passava agora outra vez o dia no balanço, ou no caramanchão das rosas amarellas, fazendo do parque o seu salão de musica e de leitura. Ensinava as gemeas a trepar ás arvores ou coroava-as de flores e punha-lhes palmas nas costas, á guiza de azas.

Um dia, porém, a confusão chegou ao proprio parque. Abriam um novo lago e alteravam o desenho dos relvados para os effeitos da illuminação. Homens em mangas de camisa iam e vinham por entre os canteiros, fallando alto, gesticulando afanosos e zangados.

Não tendo já para onde fugir, Ruth pediu á mãe que a mandasse com a Noca para o Castello. Passaria dois dias com as tias velhas. A tia Joanna promettera-lhe historias de santos e leval-a ás egrejas e ao Observatorio para vêr a lua e as estrellas.

Era a occasião.

Quando Ruth entrou em casa das tias Rodrigues, D. Itelvina contava, no oratorio, os nickeis arrecadados pela irmã, em esmolas para uma missa rezada.

D. Joanna tinha ido á novena do Rosario, nos Capuchinhos, e entoava a essa hora o—ora pro nobis em côro com o povo e os frades.

Ruth sentiu frio naquelle casarão do Castello, de largas salas encebadas, sem cortinas, quasi sem mobilia, com papeis sujos nas paredes desguarnecidas; mas a ideia de ir ao observatorio tentava-a, e valia todos os sacrificios. Ficaria.

Quem lhe abriu a porta foi a Sancha, sempre de olhos inchados e a roupa em frangalhos. Mal deu com os olhos em Noca, a negrinha sorriu, perguntando pela sua encommenda.

—Que encommenda, gente?

—A senhora já se esqueceu, tornou a preta a meia voz, o arsenico que eu pedi...

—Uê! você está maluca! eu já nem me lembrava d'isso! Tome o seu dinheiro; não foi quinhentos réis que você me deu?

—Foi; mas eu não quero o dinheiro, quero a outra coisa...

—P'ra quê? ora veja só! olhe que eu conto a D. Itelvina, hein?

A negrinha poz as mãos, em um gesto supplice.

—Não diga nada...

—Você é tola!...

A negrinha suspirou baixo e murmurou uma phrase que não pôde ser ouvida, porque D. Itelvina apparecera, de olhar desconfiado e narinas dilatadas farejando mysterios.

D'ahi a instantes, no canapé da sala, Ruth respondia ao longo questionario da tia, que lhe apalpava a lã do vestido, achando desperdicio que fosse forrado de seda, censurando-lhe o luxo de um annel de perolas, e a consistencia das fitas de setim do seu chapéu de palha. Das presentes passou ás coisas ausentes, em perguntas miudinhas e torpes:

—O Dr. Gervasio ainda vae lá todos os dias?

—Vae, sim, senhora.

—Hum... Diga-me uma coisa: Mario continua a fazer dividas?

—Não sei...

—Camilla sae sozinha?

—Ás vezes sae.

—Porque é que você não vae sempre com ella, hein?

—Eu tenho que estudar.

—Não fica bem uma senhora sahir só...

Ruth contemplou-a, estupefacta.

—As más linguas fallam. O palacio de Petropolis está prompto?

—Está quasi prompto. Nós vamos para lá este anno.

—Em quantos contos está?

—Não sei, não, senhora...

—O Dr. Gervasio vae tambem?

—Acho que não.

—Hum... Quando se casa a Nina? ainda não haverá por lá alguem de olho?

—P'ra Nina? não, senhora.

—Seu pae não ha de gastar pouco, agora, para este baile, hein! Diz que estão reformando tudo! é verdade?

Innocentemente, Ruth contou o que se passava em casa; a intervenção do medico na escolha dos apparatos, as cores do toldo de setim do terraço, as pinturas da sala de musica, os lavores dos jarrões para o vestibulo...

D. Itelvina ouvia, sem interromper a narração de Ruth, que ella animava a proseguir com um gesto de interesse avido. No fim, concluiu com um sorriso torto:

—Teem dinheiro, fazem muito bem em gastar.

Nisto bateram á porta. Sancha moveu-se lá dentro e veio pelo corredor. Sentindo-a, D. Itelvina correu para a alcova proxima e accendeu a lamparina do Senhor Santo Christo, que assoprava sempre que a irmã voltava costas. Ruth seguia-lhe os movimentos e foi com espanto que a viu mergulhar os dedos magros no prato das esmolas e sumir, quasi que por encanto, uma meia duzia de moedas no bolso do avental. A velha julgou que a sobrinha nada tivesse percebido, tão rápido e adunco fôra o seu gesto, e voltou dizendo que o vento apagara a lamparina, e que embebida na prosa ella se esquecera de a reaccender...

Ruth baixou o rosto, muito corada, arrependida de ter ficado. Noca rodara sobre os calcanhares; se bem andara, onde estaria ella!

D. Joanna entrou, gemendo de cançaço.

—Olha, maninha, quem está aqui! disse-lhe a irmã.

—Que milagre! exclamou D. Joanna, abrindo os braços para Ruth, que se precipitou nelles, morta por se ver livre da seccura aspera da outra tia.

—Quem foi que trouxe você?

—Noca... ella vem-me buscar depois de amanhã bem cedo ... mamãe não queria dar licença, tinha medo que eu incommodasse; mas tanto pedi, tanto pedi...

—Esta casa é muito triste. A alegria passou por aqui ha mais de trinta annos, mas não deixou signal. Sancha! tira as minhas botinas. É muito triste esta casa ... filha... Estamos tão velhas...

Sancha ajoelhou-se. D. Joanna extendeu dois pés inchados, calçados a duraque, e quando a negrinha lhe puxou e tirou as botinas, ella gemeu: primeiro de dor, depois de allivio.

—Vae buscar as chinellas... Pois você fez muito bem em vir... Amanhã poderá ir commigo á missa, á tarde á novena e...

—E á noite ao Observatorio. Foi por causa do Observatorio que eu vim. Dr. Gervasio escreveu ao director, apresentando-nos... Estou com uma curiosidade!

—Mas...

—Não temos mas, nem pêra mas, titia; faça a vontade á sua sobrinha, sim?

Pouco depois, como estivesse escuro, Sancha trouxe um lampeão de kerozene com um fetido horrivel. D. Itelvina sahiu da alcova, atravessou a sala, e sumiu-se na guella negra do corredor.

Ruth sentia-se mal naquelle canapé alto, de assento afundado. Foi á janella, voltou; a tia rezava; quando a viu persignar-se, pediu-lhe historias de santos e sentou-se a seu lado. Tia Joanna não se fez de rogada.

As mesmas palavras que na alegria da sua casa risonha lhe enfeitiçavam a imaginação, arrepiavam agora Ruth, naquella meia sombra, num ambiente tão diverso do que lhe era habitual.

Os cilicios, as caldeiras fumegantes, as fragoas accesas do inferno, a nudez das virgens martyres, as cruzadas para a Terra Santa, lanças flechando o ar abrasado, exercitos comidos pela peste ou esmagando judeus, os grandes votos solemnes, os ritos crueis, as perseguições injustas, os gritos de misericordia, todas as agonias e todos os extasis, que a velha relatava, para a victoria da Fé christã, assombravam Ruth, que toda se cosia á tia, olhando desconfiada para a vastidão sombria do aposento mudo.

Na parede do fundo, o bruxolear da luz fraca parecia desenhar formas indecisas de animaes phantasticos; seriam talvez os porcos babosos das lendas satanicas, os dragões flammiferos, ou os magros cães de focinho erguido a uivar...

—Tia Joanna, tia Joanna!

—Que é isso, minha filha?!

—Eu estou com medo ... conte outra historia mais suave...

—Não se espante, menina! São as grandes dores, o sangue e a morte que ensinam a Fé. Quem não soffre não comprehende o céo, Ruth! Ainda hontem monsenhor Cordeiro disse estas palavras verdadeiras.

—Mas, o céo assim é feio, tia Joanna...

—Cale a bocca!... espere ... quero vêr se me lembro de uma lenda muito antiga, que já tem corrido mundo, mas que é bem verdadeira e bem simples.

—Em que não haja nem fogueiras nem sangue; sim?

—Nem sangue, nem fogueiras:—Foi um dia...

XIV

«Foi um dia uma freira pallida, muito moça, muito linda, temente a Deus e devotada á Virgem. Vivia na Normandia, em um convento velho, de rigidas penitencias, isolado em cima de um rochedo.

Da frecha gradeada da sua cella, a freira só via: em baixo, a pedraria negra, e além charnecas brancacentas a perder de vista.

Uma tristeza.

No claustro, para onde deitava a sua cella, mesmo no angulo perto da portaria, havia uma imagem de marmore representando Nossa Senhora, tão doce, tão humana, que mais parecia creatura viva. Sempre que soror Pallida deslisava pelo claustro, fazia á Virgem uma reverencia profunda e murmurava:

—Ave!

E a Virgem sorria-lhe, dentro do seu nicho azul.

Uma noite, soror Pallida, depois de rezar o Bemdicto, desabotoava o seu habito branco para dormir um somninho innocente, quando lhe pareceu ouvir o seu nome na janellinha. «Ha de ser o vento...» pensou ella, tirando a cruz e o véu.

Não era o vento; a mesma voz, mais distincta agora, repetiu-lhe o nome. Soror Pallida quiz resistir, com medo, mas nunca o seu nome lhe parecera tão doce, nem tão suspirado; assim, levada por curiosidade, ou não sei porquê, foi-se approximando, foi-se approximando...

Tão depressa chegou, Jesus! que havia de vêr?

Suspenso nos varões de ferro, o capellão do convento olhava para ella, com dois olhos que nem duas estrellas.

—Senhor capellão, porque estaes ahi? perguntou ella afflicta, pondo as mãos tremulas.

—Senhora freira, porque vos amo! respondeu-lhe elle.

E logo de mil modos começou a tental-a.

Taes coisas disse, taes coisas fez, que a pobre o escutava embevecida. Chamou-a linda, meiga, angelica, e por fim (vê a perfidia!) pediu-lhe que o beijasse, que o beijasse na bocca ou que elle se despenharia no abysmo...

A freira debatia-se: que não!... mas, para não o vêr morrer despedaçado no rochedo, vá lá, condescendeu em beijal-o. Louca! que fizeste? foi a tua perdição! Elle sumiu-se, e ella ficou de joelhos, muito tremula, muito alvoroçada.

Em vão coseu cilicios ás suas carnes, em vão se rojou pedindo a Deus que lhe apagasse da memoria aquelle peccado doce e horrendo; em vão! O beijo alli estava sempre nos seus labios, sentia-o quente, perfumado, embriagador.

Soror Pallida já não era a mesma; perdia o sentido das rezas, tinha deliquios, abstracções.

O moço capellão voltou, mais uma noite, mais outra, induzindo-a a que fugisse: iriam viver bem longe, numa casinha branca, entre pomares cheirosos e aguas crystallinas.

Ella recuava, com temor de tamanho crime; mas elle extendia-lhe os labios e convencia-a de que o amor vale mais que o céo, mais que a perpetua bemaventurança, mais que tudo!

E tornava a supplicar-lhe que fugisse: elle a esperaria juncto á portaria, com os cavallos promptos, mais rapidos que o vento.

Sabe-se como essas coisas são: máo é dar-se ouvidos a primeira vez. A freira já não pensava senão em varar aquellas charnecas longuissimas ao galope de um cavallo ardego, sentindo palpitar o coração do seu cavalleiro enamorado. Mas, sempre que, altas horas da noite, subtil e tremula, deslisava para a portaria com a tenção de fugir, esbarrava com a Virgem, fazia-lhe a sua reverencia profunda, murmurando contrictamente:—Ave!—e passava; mas, oh! surpreza! a grande porta do convento desapparecera, e na portaria, como em todo o claustro, só havia grossas paredes impenetraveis.

Soror Pallida voltava attonita, e a Virgem sorria-lhe do seu nicho azul.

Por serem sempre as flores presentes de namorados, o moço capellão levava todas as noites rosas á sua eleita. No outro dia toda a communidade entoava:

—Milagre! milagre! a Irmã da Virgem recebe rosas do céo. Os anjos trazem-lhe flores do Paraiso, como a Santa Dorothéa!

Assim acreditavam, visto que só cardos e espinheiros bravos nasciam em redor, por aquellas penedias.

E entoavam hymnos.

Cançado de esperar, por uma noite trevosa e triste, o moço capellão aconselhou a freira a que passasse de olhos fechados pela Virgem, rosto voltado para a outra banda.

Assim fez a louquinha, mas de coração apertado em muita agonia. D'essa vez achou a porta do convento mal fechada: dir-se-ia que ferrolhos e trancas, (e que taes eram ellas! ) se abriam de per si. Foi por isso que a freira fugiu para a noite negra, com o seu habito branco...

Depois...

Só no fim de um anno, quando elle se cançara de a amar, foi que a misera percebeu que o seu cavalleiro não era o capellão—mas o diabo em pessoa! Arripiada, transida de medo, fugiu por montes e valles, de cruz alçada, balbuciando preces, com o fito no convento e em redimir-se com arduas disciplinas. Andou assim, noites e dias, leguas e leguas, por mattaria espessa, mal se sustendo nas pernas fracas e nos pés ensanguentados, até que á luz frouxa de uma madrugada viu um dia os penhascos abruptos do convento, e cahiu de joelhos, persignando-se.

Finda a oração, ergueu-se. Passava então pela estrada um velho muito velho, de bordão e saccola, e ella perguntou-lhe se não ouvira fallar em uma religiosa fugida do convento um anno antes?

—Nenhuma freira fugiu nunca d'aquelle convento, respondeu elle; são todas umas santinhas, louvado seja o Senhor!

—Amen! Entretanto ... ouvi dizer que uma das irmãs, que recebia rosas...

—A do milagre!? ah! essa! É a mais pura... Ide vêl-a, Ide vêl-a se soffreis. Essa até dá vista aos cegos e faz andar os paralyticos.

Com vivo espanto, a freira galgou a encosta pedregosa e, toda a tremer, com o coração aos pulos, bateu á porta do convento.

—Quem é? perguntou de dentro uma voz dulcissima.

—Uma peccadora arrependida, para a penitencia—sussurrou soror Pallida, lavada em pranto. E confessou logo alli os seus desatinos...

A porta abriu-se sem fazer barulho: dir-se-ia que os grossos gonzos enferrujados estavam de velludo,—e a rodeira mostrou se com um sorriso á freira apoquentada.

Oh! aquelle sorriso, bem o conheceu a religiosa que, vergando os joelhos, na profunda reverencia antiga, murmurou com immensa compuncção e infinita doçura:

—Ave!

A Irmã rodeira era a Virgem Maria, que, desde a noite da fuga, tomara a fórma da freira e cumpria todos os deveres da regra que lhe competiam: badalando os sinos, varrendo os claustros, accendendo as velas dos altares e arrumando os gavetões da sacristia.

—Toma o teu habito, disse-lhe Nossa Senhora, e vae para a tua cella... Descança, que ninguem soube do teu opprobrio, ninguem!...

Soror Pallida prostrou-se e uniu humildemente a face á lage fria; depois, erguendo o rosto inundado de lagrimas, perguntou soluçando:

—E Vós, Mãe Santissima?!

—Eu? Perdoo, respondeu-lhe a Virgem sorrindo, já dentro do seu nicho azul...»

Eram nove horas; Sancha veio chamar para a ceia, e levou para a mesa o lampeão fumarento. D. Itelvina só usava mate, que sempre era de maior economia. Sentaram-se. Ruth mal enguliu a sua chicara. Pensava em soror Pallida.

Nessa noite teve de sujeitar-se a dormir com a tia Joanna. Lembrando-se das pernas inchadas da velha, teve um arrepio e saudades do seu leito branco coberto de filós delicados. A tia mexia-se, benzia todo o quarto, rezava a meia voz, sacudia a roupa que toda cheirava a incenso, e com a vigilia da velhice perturbava o somno da menina. Foi no meio do silencio da casa, que irromperam de repente, lá do fundo, uns gritos lancinantes.

Ruth sentou-se na cama, com os olhos arregalados.

—Que é isto, tia Joanna?!

—Não é nada ... ha de ser a maninha batendo na Sancha...

—Meu Deus!

—Não é nada, dorme, minha filha!

—Oh!... tia Joanna, vá lá dentro ... peça a titia p'ra não dar na coitada!

—Eu?! não ... a negrinha merece ... maninha não gosta de intervenções... Sancha faz espalhafato á tôa.

—Vou eu.

Ruth, em fraldas de camisa, de pernas núas, saltou para o chão, com um movimento de colera, e sahiu para a sala de jantar; já não havia luz; guiada por uma claridade frouxa, do fim do corredor, correu para a cozinha, onde a D. Itelvina surrava a pequena com uma vara de marmelleiro.

A negrinha mal se livrava com os braços, tapando o rosto e abaixando a cabeça. Ruth saltou para o meio do grupo e segurou a vara que ia descahindo sobre a carapinha da outra.

—Isso não se faz, tia Itelvina! isso não se faz! gritou ella com impeto, crescendo para a tia, que estacara boquiaberta.

—Você não tem nada com o que eu faço. Este diabo botou de proposito gordura na agua do meu banho ... eu sei porque dou. Ella merece. Ruth, vá dormir.

—Não vou; mande a Sancha deitar-se primeiro. A senhora não tem coração?!

—Ora vá-se ninar! Sancha, p'r'aqui!

A negrinha tinha-se refugiado a um canto, perto do fogão, e exaggerava as dôres, torcendo-se toda, amparada pela compaixão da Ruth.

D. Itelvina avançou os dedos magros, e, agarrando-a por um braço, puxou-a para si; a sobrinha então abraçou-se á negrinha, unindo a sua carne alva, quasi núa, ao corpo preto e abjecto da Sancha.

—Bata agora! tia Itelvina, bata agora! gritava ella, em um desafio nervoso, sacudindo a cabelleira sobre os hombros estreitos.

D. Itelvina atirou fóra a vara e disse para a negra:

—Vae-te deitar, diabo! foi o que te valeu... Mas nós havemos de ajustar contas...

Sancha esgueirou-se para um quarto escuro, onde os ratos faziam bulha, e Ruth, arrepiada, tremula, voltou silenciosa para o quarto da tia Joanna.

A velha amarrava um lenço na cabeça. A sobrinha interrogou-a:

—É sempre assim?

—Não ... uma vez ou outra.

—Mas como podem viver neste inferno?!

—Ora, você não sabe. A Sancha provoca. Maninha anda desconfiada que ella lhe deita vidro moido na agua, e na panella ... é uma coisa ruim. E ladra, ih! Você sabe o meu genio, não sei guardar chaves... Pois é raro o dia em que a Sancha não me fique com alguns tostões das missas... Maninha corrige-a para bem d'ella. É um sacrifício... Eu não teria paciencia para a aturar.

—A Sancha vae amanhã commigo para casa.

—Está doida, menina! e quem nos ha de fazer o serviço?

—Aluguem uma mulher.

—Ruth ... você é muito creança ... não pense na Sancha. Ella faz tudo quanto pode para excitar maninha... Eu se digo, é porque sei. Ainda hontem queimou-lhe de proposito os chinellos novos, com o pretexto de os ir seccar ao fogo. A minha roupa, lava ella; a da maninha deixa-a apodrecer na beirada do tanque. É uma coisa ruim!... não pense mais nella. Durma...

Mas Ruth não podia dormir; e quando de madrugada a tia Joanna se levantou para ir á missa das Almas, ella saltou da cama, para ir tambem.

Antes de sahirem, foram á cozinha procurar café, e lá encontraram a Sancha a accender o fogo, assoprando com força. Foi então que Ruth se chegou para ella e, pousando-lhe a mão no hombro, disse alto, sem medo que a tia Joanna a ouvisse:

—Sancha, porque é que você não foge?

A negrinha ergueu o busto e fixou a mocinha com pasmo.

—Nhá?!

—Fuja!

A tia Joanna, entretida a partir o pão da vespera, não percebera nada. Uma esperança vaga tremeluziu no rosto estupido da preta.

—E depois? perguntou ella, assustada.

—Vá lá para minha casa; eu fallarei a mamãe.

—De que serve! me mandarão outra vez para cá...

—Não. Titia póde alugar outra criada... papae fallará com ella...

A tia Joanna acabara de partir o pão e chamava á sobrinha para o café da vespera, requentado.

Quando sahiram era já dia, mas as nevoas da manhã poisavam ainda nos telhados, e nada se via da cidade, em baixo.

Pelo caminho do convento cabras saltavam, seguidas dos cabritos de pello espesso e novo, e na grama molhada faziam correrias uns cachorros vadios. Tocou a matinas e a tia Joanna benzeu-se. Ruth, pouco afeita a madrugadas, achava um prazer divino em ir assim rompendo as nevoas com a pelle refrescada pela humidade da atmosphera e os olhos cheios d'aquella luz branca, suave, que subia e se ia extendendo pelo céo todo.

Na egreja, a tia fez reverencia a todos os altares, com uma oraçãozinha na ponta da lingua para cada um; Ruth seguiu até o altar-mór e ao ajoelhar-se sentiu como nunca que havia na sua alma uma supplica, um appello para a misericordia de Deus. Entre o altar, onde um ramo de flores esquecidas se ia desfolhando, e os seus olhos sonhadores, foi-se esboçando pouco a pouco a figura angulosa e tosca da Sancha. De mãos postas, Ruth pediu á Virgem uma bençam para a negra, um pouco de piedade, um refugio, uma consolação. Até alli que sabia das miserias do mundo? nada. Aquella noite do Castello, tão simples, tão monotona, fora uma revelação! Era bem certo que a lagrima existia, que irrompiam soluços de peitos opprimidos, que para alguem os dias não tinham côr nem a noite tinha estrellas! Ella, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda, a saudade do céo, como dizia o Dr. Gervasio, e que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.

E aquella mesma magua parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se á outra, a Sancha, da sua edade, negra, feia, suja, levada a ponta-pés, dormindo sem lençóes em uma esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanço nem paga!

Porque? Que direito teriam uns a todas as primicias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?

Sabia a historia da Sancha: uma negrinha vinda aos sete annos da roça para a casa das tias, com sentido no pão e no ensino. Era dos ultimos rebentões d'essa raça que vae desapparecendo, como um bando de animaes perseguidos.

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