A BRAZILEIRA DE PRAZINS (continued 4)
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O padre Cosme de Tagilde, robusto, de meia idade, auctor da Escada do céo pelas escarpas do Golgotha e da Via seraphica para o reino dos Cherubins, era pregador de sentimento. Tinha sido furriel no exercito realista, e ordenára-se para herdar uns bens de uma parenta beata que tinha horror á tropa. Lêra as novellas do Prévost e Madame de Genlis, quando era furriel. Ficou-lhe d'essas leituras uma linguagem amellaçada, com interjeições tragicas, e um geito especial de tocar as mães com imagens ternas tiradas das coisas infantis. Por exemplo: E o teu filhinho, mulher, o filhinho que Deus te levou para a companhia dos anjos, quando lá do céo te vê peccar, estende para ti os seus bracinhos, e diz: Mãe, ó mãe! não peques; mãe, não peques! pelas lagrimas que por mim choraste, não caias na tentação, porque, se te perdes, se te afundas no abysmo eterno não tornarás a vêr o teu filhinho que te chama do céo, mãe, ó mãe! E infantilisava o timbre da voz, inclinava a um lado a cabeça n'um langor menineiro, estendia os braços do pulpito abaixo com as mãos abertas, alongava os beiços no geito da boquinha de criança, e muito mavioso, n'um tremulo de voz e braços: Mãe, ó mãe! E todas as que tinham perdido filhinhos desatavam n'um berreiro.
O padre Silvestre da Azenha, homem antigo, d'uma porcaria de sotaina digna dos agiologios, boa pessoa, incapaz de mentir voluntariamente, era forte na topographia do inferno e nas genealogias, usos e costumes dos diversos diabos. Affirmava que a legião d'elles se dividia em esquadras, capitaneadas por Lucifer, principe da Luxuria, por Asmodeu, Satanaz, Belzebut e outros, cada um com a pasta ministerial dos seus competentes vicios. Dava noticia de um caudilho de esquadra, chamado Behemoth, cujo empenho era bestializar os fieis—verdadeira superfluidade.—Leviathan capitaneava o esquadrão da Soberba; e o ministro e secretario de estado encarregado da pasta da Avareza chamava-se Mamona. A sciencia moderna matou este diabo, extrahiu-lhe o oleo, e pôl-o ao serviço dos intestinos dos peccadores—oleo de Mamona. Explicava o padre ás mulheres o que era a corja dos demonios incubos. Contava casos de algumas que ficaram gravidas d'esses devassos, e dizia em latim que taes demonios fecundos podiam, mesmo contra a vontade da mulher, rem habere cum ilta. E as mulheres, sem pôr mais na carta, farejavam o latim e murmuravam indignadas:—Tarrenego! Catixa! cruzes, canhoto!—e benziam-se, cuspinhando nos calcanhares umas das outras.
Fr. João de Borba da Montanha, com quanto não frequentasse o pulpito, era o vulto mais proeminente da missão. Sahira já velho do Varatojo, peito fraco, um pigarro chronico de catarrho pituitoso, com poucos dentes, por onde as palavras lhe sahiam assobiadas que nem melro nos sinceiraes de julho. Por isso o confissionario era a sua faina de prosperrimas colheitas para o céo, e os exorcismos a sua famosa gloria cheia de triumphos sobre todas as esquadras dos demonios conhecidos do seu companheiro padre Azenha. Eram ambos, de mãos dadas, o terror do inferno; um a explorar diabos no planeta, o outro a enxotal-os. Á omnipotencia d'este varatojano é que o vigario de Caldellas confiara a reducção da mãe de José Dias.
Este egresso tinha feito á sua custa a terceira edição do Peccador convertido ao caminho da verdade, obra do seu conventual varatojano frei Manuel de Deus. Vendia o livro por 720, meia-encadernação. Chamava-lhe elle o seu balde de tirar almas do profundo poço do enxofre infernal Todas as beatas se consideravam mais ou menos empoçadas, e por 720 mettiam-se no balde de frei João. Barato.
Foi este o missionario escolhido por Simeão, de harmonia com o genro. Martha lembrava-se que o seu José Dias lhe fallára n'elle com muita esperança em que desfizesse os obstaculos do casamento. Quiz confessar-se ao varatojano, e revelou para esse acto uma espectativa seraphica, grande deliberação anciosa, um sobresalto jubiloso em que parecia influir a cooperação sobrenatural do querido morto. O padre Osorio entrevia preludios de loucura nas alegres disposições com que Martha, n'um recolhimento contemplativo, desde o apontar da aurora, esperava á porta da egreja que chegassem os missionarios com o cortejo das mulheres encapuchadas, muito ramellosas, estralejando os seus tamancos ferrados na grade do adro que vedava a passagem aos porcos.
Em quanto na egreja, depois da missão, se depunha a hostia nas linguas saburrentas e gretadas das beatas—que enguliam aquella farinha triga como quem devora sevamente um Deus—cá fóra armavam-se no adro dois taboleiros, assentes em tripêças de engonços, com seus pavilhões de guarda-soes de panninho azul. Algumas mulheres de aspectos repellentes, sujas da pójeira das jornadas, com os canêllos callosos e encodeados, expunham nos taboleiros as suas mercadorias, e ao mesmo tempo injuriavam-se reciprocamente por velhas rixas invejosas á conta de subornarem freguezas com caramunhas e palavreados. No silencio do templo, ouvia-se cá de fóra:—Arre, bebeda!—Cala-te ahi, calhamaço!
A exposição bibliographica, feita nos taboleiros, além das obras em brochura e encadernadas dos missionarios, constava da Regra de S. Bento, da Missão augmentada, da Missão abreviada, das Piedosas meditações, das Horas do christão, do Mez de Maria, do Mez de Jesus e do Livro de Santa Barbara. Havia tambem Novenas, Via-sacras com estampas d'um horror sacrilego, uns Christos que pareciam manipansos do Bihé. Seguia-se a camada dos Escapularios; uns eram de N. S. do Carmo, de N. S. das Dôres, da Conceição; outros do Preciosissimo sangue de Jesus, do Coração do mesmo, da Santissima Trindade e de S. Francisco. Tinham grande sahida os Cordões do mesmo santo, e as Correias de S. Agostinho, com um botão de ôsso, a apertar na cintura,—arnez impenetravel ao diabo, por causa do botão, que, posto na correia, tem virtudes para ôsso muito admiraveis, quasi como as da carne, mas no sentido inverso—ella attrahindo o cão tinhoso, e elle repulsando-o. De Santo Agostinho e do Anjo da Guarda também havia Rezas enfiadas em metal, ou em cordão, simplesmente, mais baratinhas. Na especie medalheiro, grande profusão: as medalhas mais procuradas eram as do Coração de Maria, do Coração de Jesus, do Anjo da Guarda e de Santa Thereza, a 10 réis.
As corôas, penduradas em barbantes ou estendidas em meadas, eram diversas no tamanho e na nomenclatura: as seraphicas com sete mysterios, e cada mysterio com dez Ave-Marias; as da S. da Conceição com doze Aves e tres mysterios:—uma certa conta que os missionarios lá graduavam com a gafaria espiritual das confessadas. Havia algumas que se aguentavam com os Rosarios de quinze mysterios, e a Corôa dos nove coros dos Anjos, e a do Preciosissimo sangue e coração de Jesus. Mas o grande consumo era de contas de azeviche, refractarias aos máos olhados; de modo e maneira que, se o azeviche é legitimo, senhores, logo que um inimigo nos encara a conta racha de meio a meio.
Martha, a beata, a senhora brazileira de Prazins, como lhe chamavam as regateiras das drogas da salvação, fornecera-se de tudo em duplicado; mas sobre todos os devocionarios o da sua leitura dilecta era o Peccador convertido ao caminho da verdade, edição do seu confessor varatojano, fr. João de Borba da Montanha.
São impenetraveis os segredos revelados no tribunal da penitencia por Martha ao seu director espiritual. O padre Osorio, não obstante, suspeitava que a penitente revelasse, com escrupulosa consciencia, solicitada por miudas averiguações do missionario, saudades, reminiscencias sensualistas, carnalidades que se lhe formalisavam no espirito dementado, emfim, visões e sonhos com o José Dias. Inferia o padre a sua conjectura, sabendo que frei João lhe mandára lêr no Peccador convertido, tres vezes por dia, o capitulo 33, intitulado Resistencia ás tentações contra a castidade. Fortalecia esta hypothese ter dito Martha a D. Thereza que a alma de José Dias lhe apparecia em sonhos; e ás vezes, mesmo acordada, lhe parecia sentil-o na cama á sua beira; e então mordia o travesseiro para que o tio a não ouvisse chorar. Póde ser que estas revelações, communicadas ao confessor, um simplorio incapaz de destrinçar entre doença e peccado, fossem acompanhadas de particularidades sensitivas que Martha por vergonha não contava á sua amiga. É certo que a confessada do varatojano lia, declamando, deante do seu oratorio, tres vezes por dia, a Resistencia ás tentações contra a castidade.
A oração dizia assim:
Senhor amorosissimo, não vos escondais, não me deixeis sósinha, que me cerca o leão para me devorar; os seus rugidos me atormentam para que não goste as suavidades do vosso amor. Cercarei todo o mundo, subirei aos ceos, não descançarei emquanto não achar o meu amor. Conjuro-vos, filhas de Jerusalém, creaturas da terra que, se encontrares o meu amado, lhe digaes que morro d'amor. E, se quereis os signaes para conhecêl-o, ouvi. O meu amado é candido e rubicundo, escolhido entre milhares; candido por divino, e rubicundo por humano, candido porque innocente, e rubicundo por chagado. Ai! doce amor, onde vos escondestes? Tende compaixão de quem vos busca. Estes signaes que de vós tenho só servem de avivar-me a saudade, são settas que me ferem; morro, desfalleço, se vos não acho.
Os cabellos da sua cabeça são como o ouro mais puro e mais precioso, são como palmitos e pretos como o corvo. Se não entendeis, filhas de Jerusalém, nem eu vo'l'o saberei explicar; o que vos digo e que os seus cabellos são fortes laços que bastam para prender a todo o mundo, bastam para abrazar tudo de amor. Ai! amado do meu coração, se as admirações do que sois abrazam a alma, que vos vê por enigmas, que será quando vos vir claramente! Os seus olhos são como pombas sobre correntes de aguas, mansos, puros, suaves, benignos, amorosos. Que magestosos, que humildes, que graves, que serenos, que doces, que suaves! Oh dulcissimo amor, já que tanto fechais os olhos para não serem vistos, ao menos não os fecheis para me não verem! As suas faces são como canteiros de flores aromaticas, sempre bellas, sempre cheirosas; passam os dias, os mezes e os annos, e os seculos, e as faces do meu amor sempre são flores, nem o sol as murcha nem o frio as corta, nem a agua as corrompe, nem o vento as desfolha; são rosas, são assucenas, são brancas e encarnadas. Oh! quem me dera uma gota da agua que as rega, um grão do calor que as vivifica; quem me dera que o jardineiro que as compõe me quizera semear umas flores no meu jardim e tomar á sua conta compôl-as e regal-as, que o meu amado gosta muito de flores. Dizei-me, aves do ar, flores do campo, peixes do mar, viventes da terra, dizei-me se sabeis onde assiste este jardineiro. Mas que digo, se este mesmo é o amado a quem busco e não mereço achar! Ó saudade ardente, ó sede matadora, ó setta penetrante, ó amor escondido! Que fareis, Senhor, que fareis, se o vosso empenho é ser amado, por que a minha ventura está em vos ter amor, como escondeis o mesmo que me havia de enamorar? Os seus labios são lirios, que distillam myrra excellente, lirios de pureza d'onde sahem palavras que inflammam no amor da mortificação. Oh! se fôra tão ditosa minha alma que recebêra alguma parte da myrra que distillam teus lirios! Oh! se foram tão felizes meus olhos que viram a engraçada côr de taes labios! Aonde estaes escondido, amado do meu coração? Não sahem por esses labios as palavras com que andais chamando pelas ruas, fortalezas e muros da cidade: «Se algum é pequenino venha para mim?» Logo, como vos escondeis d'esta pequenina pobre e necessitada que com tanto empenho vos busca? Suas mãos são como de ouro feitas ao torno e cheias de jacintos, todas perfeitas, todas preciosas; mas reparai, filhas de Jerusalém, e por aqui vos será mais facil conhecêl-o, que, no meio do ouro e jacintos, tem em cada mão um precioso rubi que a passa de uma para a outra. O seu peito e entranhas são de marfim ornadas de safiras, dando a conhecer a côr celeste da safira, a branca do marfim e sua dureza, que os seus affectos são puros, candidos, castos, virginaes, fortes, celestiaes e divinos, sinceros, compostos, solidos e constantes. Ó peito de amor, entranhas de piedade, como assim vos fechaes para quem vos ama? Aqui deve de haver mysterio! Gostaes talvez de me vêr afflicta para provar se sou amante! Quereis que me custe muito o que muito vale, porque, se o lograr a pouco custo, farei talvez pouco caso do que não tem preço. Mas aí, amado meu, que, se me não dizeis aonde passaes a sesta ao meio dia, temo que, andando vagabunda, venha a cahir nas mãos dos vossos contrarios! A sua apparencia é como a do Libano, a sua composição como a do cedro; em Judéa o monte mais formoso é o Libano, no Libano a arvore mais excellente é o cedro: assim é o meu amado entre os filhos dos homens. A sua garganta é suavissima, porque sahem por ella as vozes, as respirações do peito, que é archivo de amores e suavidades; em fim todo é formoso, todo perfeito, todo amavel. Tal é o meu amado, este é o meu amigo, filhas de Jerusalém, creaturas da terra; se o achardes, dizei-lhe que morro d'amor...
Martha dizia a oração em voz alta, em modulações cantadas, n'um arrobamento de preghiera. Aquelles dizeres, alinhavados pelo varatojano, são extractos e imitações das escandecencias erothicas do poema dramatico da Sulamita no «Cantico dos Canticos»—os trêchos mais lyricamente sensuaes da antiguidade hebraica. Elles deram o tom de todas as exaltações nevroticas, desde os extasis hystericos de Thereza de Jesus até ás allucinações da beata Maria Alacoque e da portugueza madre Maria do Céo, a cantora dos passarinhos de Villar de Frades. D'esta peçonha doce, elanguecente, vibratil e enervante, cheia de meiguices epidermicas de um corpo nú em frouxeis de arminhos, é que se fizeram uns Manuaes modernos em França por onde as adolescentes principiam a conversar com Jesus e a comprehendêl-o em linhas correctas, sob plasticas macias, a esperal-o, a desejal-o, como lh'o figuram com todas as pulsações, redondezas e flexibilidades da carne.
Martha, entre o Deus incomprehensivel e o Christo-homem, via um ser tangivel, o seu unico termo de comparação—o José Dias, esposo da sua alma e dominador dos seus nervos reaccendidos e abraseados pela saudade. Nas apostrophes a Jesus, palpitavam-lhe nitidas as curvas do amante que a ouvia de entre as nuvens, n'uma clareira azul, com a sua lividez marmorea e os anneis dos cabellos louros esparsos como nas cabeças dos cherubins. Tinha aquelle namoro no céo quando abria a pagina do livro com que o confessor lhe dissera que havia de exorcisar as tentações voluptuosas da sua alma e do seu corpo.

XIX
Frei João não se entendia já com a sua confessada. Deviam ser grandemente disparatadas as revelações de Martha para que o varatojano desconfiasse que ella estava obsessa e que as suas visões deviam ser malfeitorias de demonio incubo. Feliciano discordava da opinião do inexoravel exorcista, quando elle o interrogava sobre miudezas de alcôva. O marido contava singelamente que sua mulher passava a maior parte do dia a rezar pelo livro no oratorio; que tinha dias de comer bem e outros dias de não comer nada; que não dava palavra ás creadas, nem se mettia no governo da casa; que com elle tambem fallava pouco, e não desatremava. Que dormia bem e sempre na mesma cama com elle. Verdade era que ás vezes elle acordava e a via sentada com os olhos postos no tecto.
—Pois é isso...—atalhava o varatojano.
—É isso quê, snr. frei João?—perguntava o marido.
O confessor não podia explicar-se. O seu praxiste Brognolio, ampliado pelo padre-mestre arrabido frei José de Jesus Maria, admoestava-o a occultar de terceiras pessoas os signaes evidentes da obsessão de uma alma, sem estar devidamente apparelhado para o combate e na presença do inimigo. O apparelho, n'este caso, era a estola, a agua-benta, o latim—uma lingua familiar ao diabo. Além dos preceitos da arte, havia a inviolabilidade do segredo da confissão; e uma caridade decente aconselhava que Feliciano ignorasse as tentativas adulteras do demonio incubo, figurado na pessoa espectral do José Dias. Com o vigario de Caldellas foi menos reservado o exorcista. Asseverou-lhe que a brazileira de Prazins estava possessa, muito gravemente energumena. O padre Osorio abriu um sorriso importuno, d'estes que vem de dentro em golfos involuntarios como a nausea d'um embarcadiço enjoado. O egresso reparou no tregeito heretico da bocca do padre, e perguntou-lhe se tinha alguma duvida a pôr.
—Uma pequena duvida, snr. frei João, respondeu intemeratamente o vigario.—Não posso acceitar que o diabo, sendo filho de Deus, seja o ente perverso que faz soffrer a pobre Martha...
—O diabo, filho de Deus!—interrompeu o varatojano, levando as mãos inclavinhadas á testa. Padre Osorio, o snr. disse uma blasfemia enorme... Santo nome de Jesus! O diabo filho de Deus! Anathema!
—Anathema á logica, ao raciocinio, por tanto!—contraveio sereno e risonho o outro.
—A logica? a logica de Calvino, de Voltaire.
—Não, senhor, a logica do professor que m'a ensinou no seminario bracharense. Creador não é pai?
—É sim, e d'ahi?
—Deus é pai de todas as suas creaturas; ora o diabo é creatura de Deus; logo: Deus é pai do diabo.
—Distinguo!—contrariou o varatojano.
E o vigario, sem attender á interrupção escolastica:
—Se Deus é bom, as suas creaturas não podem ser más; ora, o demonio é máo: logo, o demonio não póde ser creatura de Deus; mas, se o diabo não é creatura de Deus, pergunto eu o mesmo que um negro da Africa perguntava ao missionario: Quem é o pai do diabo?
—Distinguo!—insistiu o varatojano apoiado nas velhas formulas da dialectica esmagadora—Deus creou os anjos; d'estes houve alguns que se rebellaram contra o seu creador, e foram precipitados do céo: são os espiritos infernaes. Alguns d'esses anjos não desceram ás trevas inferiores, e permanecem para flagello do genero humano no ar caliginoso. Aer caliginosus est quasi carcer dœmonibus usque in diem judicii, diz S. Agostinho. Deus permitte que os demonios vexem as creaturas, pelo bem que póde resultar ás creaturas d'esse vexame. É o que se colhe do Evangelho de S. João: Omnia per ipsum facta sunt. Por tanto, Deus permitte o mal? logo: este mal é bom, por que Deus é o Summo Bem. Verdade é que os males não são bens...
—Ia eu dizer...—atalhou o padre Osorio; ao que o missionario acudiu prestes e victoriosamente:
—Mas Deus tira os bens d'esses mesmos males, como diz S. Thomaz: Bonum invenire potest sine malo, sed malum non potest invenire sine bono. Logo: Deus permitte o mal como causa do bem; id est, permitte o demonio como exercitação saudavel do genero humano. Melius judicavit Deus de malis bona facere, quam mala nulla esse permittere, diz D. Agostinho: e S. Thomaz ainda é mais claro e persuasivo: «A divina sabedoria permitte que os demonios façam mal pelo bem que d'ahi resulta.» Divina sapientia pennittit aliqua mala tieri per malos Angelos propler bona quæ ex eis elicit. São doze as causas por que Deus permitte que os demonios atormentem as creaturas humanas. Primeira: para que o homem obstinado na culpa seja n'este mundo e no outro atormentado; segunda...
—Estou convencido, snr. frei João—atalhou o vigario,—vossa reverencia já esclareceu a minha duvida. É o caso que Deus permitte demonios flagellantes para depurar com elles os peccadores,—uns e outros creaturas da sua divina justiça.
—É isso mesmo.
—O espirito do máo homem—do peccador que é em si um demonio interno, depura-se pela acção de outro demonio externo, ambos creaturas do seu divino amor... Percebi. Estou convencido... Deus é como um pai que azorraga o seu filho querido a vêr se elle recebe as mortificações como caricias. Rico pai!—E accrescentou com amargura:—Ah! meu frei João, receio muito que as superstições venham a desabar o catholicismo que deve a sua existencia á victoria que alcançou sobre as mentiras da idolatria com as armas da verdade. Ego sum veritas.
Frei João ia fulminar segunda vez a argumentação do padre Osorio, quando os outros missionarios chegavam, para assistirem ao jantar de despedida em casa da brazileira.
Fechára-se a missão; os padres iam d'ali para Barcellos; mas frei João, empenhado em desendemoninhar a pobre Martha, hospedou-se na quinta da Revolta, em cuja capella celebrava missa e confessava as suas filhas espirituaes insaciaveis do pão dos anjos, que digeriam n'uma vadiagem dorminhoca, amesendadas nos adros das egrejas e nos soalheiros, catando as proprias pulgas e as vidas alheias.
Frei João andava apercebido com todos os utensilios infestos ao diabo. Resolvido a dar-lhe batalha, armou a energumena das mais provadas armas nos seus triumphos sobre o inferno. Lançou-lhe ao pescoço um santo lenho, um breve da Marca, a veronica do S. Bento, o Symbolo de Santo Athanasio, cruzinhas de Jerusalém, veronica com a cabeça de Santo Anastacio, reliquias de varios santos, umas esquirolas de ossos grudadas em farrapinhos, orações manuscriptas da lavra do varatojano, mettidas em saquinhos surrados da transpiração d'outras obsessas.
Martha devia jejuar, como preparatorio. Parece que o demonio se compraz de habitar estomagos confortados na quentura do bôlo alimenticio. O exorcista jejuava tambem conforme o preceito dos praxistas, e aconselhava ao Feliciano que jejuasse, em harmonia com o texto de Jesus que dissera pela bocca de S. Matheus que «taes diabos, sem jejum nem oração, não sahiam do corpo:» Hoc genus demoniorum in nullo potest exire nisi oratione et jejuino. O Feliciano dizia que sim, que jejuava; mas, ás escondidas do frade, comia bifes de presunto com ovos; começava a revelar idéas egoistas, um cuidado da sua alimentação e do seu repouso, certo desprezo cynico pela parte que o diabo tomára na sua familia.
Frei João de Borba da Montanha expendeu ao vigario de Caldellas os fortes symptomas que Martha apresentava de estar possessa. Eram muitos, e bastava-lhe citar os seguintes:
Ouvir a voz de José Dias que a chamava, no sonho e na vigilia. E mostrava o texto: quando patiens audit quasdam voces se vocantes. Por que aborrecia a carne e o pão, e tinha grande fastio. O Osorio lembrava-lhe que seriam enôjos peculiares da gravidez; mas o varatojano confundia-o com o latim. Quando quis non potuit gustare panem aut carnem. Ella digeria com muita difficuldade os alimentos. Era obra do diabo, por que o livro dizia,—bem vê—mostrava frei João ao padre Osorio: Quando quis sanus cibum digerere non potest in stomacho. Chorava e não dizia por que chorava. Diabrura com toda a certeza:—Quando lacrymas plorat et nescit quid ploret. Havia um artigo que accentuava as mais fortes presumpções da obsessão incuba de Martha. Parece que ella no confissionario se accusava de repugnancias, de concessões violentadas, de resistencias ás caricias do esposo: e talvez revelasse que a imagem de José Dias intervinha n'essas luctas da alcova. É o que se deprehende do Signal decimo terceiro que frei João mostrava com o dêdo no seu Brognolo, e vai em latim, como lá está, para que poucas pessoas possam alegar intelligencia:—Quando vir uxori et uxor viro apropinquare non potest, quia videt aliud corpus intermedium, aut sibi videtur esse.—Aqui é onde bate o ponto!—dizia frei João martellando com o dedo indicador na pagina indecente.
—Mas não será essa visão o introito de uma alienação mental?—perguntava o de Caldellas.—Não vê, padre João, que esta rapariga está abatida por uma grande amargura que prende com actos da sua vida passada? Não a vê tão cahida, tão melancolica...
—Os melancolicos são os mais vexados pelo demonio—replicou o egresso. Veja Galeno e Avicena, que aqui vem citados.—E folheou o Brognolo, até encontrar o texto triumphal.
—Aqui tem; leia, verá que a demencia póde ser obra do demonio.
O padre Osorio leu com uma grande ignorancia curiosa: Os demonios acommettem mais os melancolicos. Primeiro, porque o humor melancolico com difficuldade se tira e é de sua natureza inobediente e rebelde. Segundo, porque o humor melancolico é mais apto para gerar diversas enfermidades incuraveis, porque, se é muito enxuto, offende as membranas do cerebro e faz ao homem doudo; se offende os ventriculos causa apoplexia, e gera raivas, frenesis e odios; e estes effeitos de melancolia muitas vezes os costuma causar o demonio, etc.
—O padre Osorio está-se a rir?!—invectivou fr. João abespinhado. Sabe o snr. que mais? Eu já tinha ouvido dizer ao abbade de S. Thiago d'Antas que o snr. padre vigario de Caldellas não era muito seguro em materia de fé; que tinha um bocado de fedor heretico nas suas predicas, e que dava mais importancia á quina do que aos santos milagrosos na cura das maleitas.
—Se isso fede a heresia, então, snr. frei João, estou de todo pôdre—obtemperou Osorio, e continuou deixando impar de espantada indignação o missionario.—A respeito da enfermidade de Martha, sou a dizer-lhe que em vez de exorcismos quereria eu que lhe ministrassem banhos de chuva, calmantes, distracções; e, baldados estes recursos, que a internassem n'um hospital de alienadas, porque esta mulher é filha de uma douda, é neta de outros doudos, e pouco ha-de viver quem a não vir de todo mentecapta. Além de herege sou propheta, meu caro senhor frei João. A sua energumena tem infelizmente o demonio que raras vezes a sciencia vence—o demonio da demencia hereditaria que a não se curar com a agua em chuveiro, também se não cura com a agua benta. Seria bom que vossa reverencia, antes de pôr á prova os exorcismos, ouvisse a opinião dos medicos.
—Eu sei o que dizem os medicos—e sorria com menospreço da pobre medicina. Eu, aqui onde me vê, com os exorcismos, com este remedio que não inventei, mas que a egreja de nosso Senhor Jesus Christo me deixou, e que elle mesmo, o divino Mestre usou, como o senhor padre Osorio deve ter lido nos seus Evangelhos ... ou nega a auctoridade dos Evangelhos? Nega que Jesus Christo expulsava demonios?
—Não senhor, eu sei a historia da legião que se metteu nos porcos...
—E outras; os livros sagrados estão cheios d'esses factos a que o padre Osorio chama historias; não são historias, são factos.
—Ah! snr. frei João! Jesus Christo, a sua vida e os seus milagres não são historia? não pertencem á historia? Máo é isso então!
A polemica prolongou-se um tanto azeda; Osorio escandalisava os pios ouvidos do egresso que, pondo as mãos no peito e os olhos no céo, exclamava com S. Paulo que era necessario que houvesse escandalos. Interrompera-os o brazileiro dizendo que a sua sobrinha estava com um ataque e que lhe dera no jardim. Frei João entrou na alcôva para onde a tinham levado em braços, e o padre Osorio ficou ouvindo a revelação da governanta, que lhe dizia:
—A desgraçadinha está de todo varrida! Eu estava no tanque a passar uns lenços por agua quando ella entrou no pomar sem fazer caso de mim, como se ali não estivesse viva alma. E vae depois poz-se a cortar rosas e a dizer que eram para o seu amado José Alves, para o seu esposo José Alves. V. S.ª não me dirá quem diacho, Deus me perdôe, é este José Alves?
—E depois?
—Depois, sentou-se debaixo da ramada, esteve a chorar com o ramo das rosas muito chegado á cara e d'ahi a pouco cahiu para o lado a dar aos braços e a espernear. Eu então chamei a cozinheira e levamol-a para o quarto com os sentidos perdidos! O José Alves, quanto a mim, acho que foi derriço que ella teve em solteira. Já ouvi dizer que a casaram com o arenque do tio contra vontade... É o que tem estes casamentos...
O padre Osorio não illucidou a governante. Assim que o Feliciano lhe disse que se iam lêr os exorcismos, retirou-se, pretextando deveres parochiaes, e observou-lhe:
—Não deixe mortificar muito sua sobrinha com os exorcismos, snr. Prazins. O demonio que ella tem é a doença. Faça o que lhe disse o padre mestre Roque que é um velho illustrado e virtuoso. Vá dar um giro com ella. Leve-a á capital; demore-se por lá; e, quando a vir distrahida, contente e com bom appetite, volte para sua casa.
O brazileiro disse que bem sabia que os exorcismos eram chérinolas; mas que o frade se lhe mettera em casa, e dizia que não se ia embora sem curar ella. Accrescentou que não podia agora sahir do Minho porque estava á espera que os filhos do Cerveira de Quadros perdessem na batota do Porto a sua parte de alguns contos de réis, que acharam por morte do pai;—que lhe convinha muito comprar a quinta da Ermida que partia com a d'elle, e havia outro brazileiro que a trazia d'olho. Que a respeito da sobrinha tencionava leval-a a banhos do mar, e havia de comprar o Manual do Raspail, a vêr o que elle dizia da molestia, porque em Pernambuco toda a casta de doença se curava pelo Raspail, e que levasse o diabo o frade e mais a caiporice dos exorcismos.
—Que sim, que comprasse o Manual do Raspail—concordou o padre Osorio, e sahiu muito cançado—dizia elle á irmã—de lidar com as duas cavalgaduras.

XX
Martha estava no quarto, onde tinha o seu oratorio de pau preto com frizos dourados, e dentro uma antiga esculptura em marfim d'um Christo dignamente representado na sua agonia humana. De cada lado da cruz ardia uma vela de cêra benzida. Frei João entrára de sobrepeliz e estola: seguiam-no o Feliciano com uma vela de arratel acceza, e o Simeão com a caldeirinha da agua-benta. Martha, com um pavor na vista, tremia, de pé, encostada á commoda. O exorcista sentou-se, e chamou a energumena com um gesto imperativo de cabeça. Ella aproximou-se hesitante e ajoelhou. Fr. João compoz o semblante e deu á voz uma toada lugubre em conformidade com a rubrica de Brognolo—com grave aspecto e voz horrivel, diz o demonómano. Começou por exercitar o Preceito provativo, a vêr se havia effectivamente demonio. E então bradou, fazendo estremecer Martha: In nomine Jesu Christi. Ego Joannes est minister Christi... Vinha a dizer, em vulgar, ao demonio ou aos espiritos immundos, vet vobis spiritis immundis, que, se estavam no corpo d'aquella creatura, dessem logo um signal evidente, ou vexando-a, ou movendo-lhe os humores, segundo o seu costume, pelo modo que por Deus lhe fosse permittido eo modo quod a Deo juerit permissum. Martha estava retranzida d'um sagrado horror, posto que não percebesse do latim do padre senão demonio e espiritos immundos. Nunca lhe tinham dito que ella estava endemoninhada, e á sua mentalidade faltava-lhe n'este alance a força convincente e a energia da palavra para combater o engano do seu confessor. Não tinha vigor de caracter nem rudimentos de intelligencia para reagir. Educada em melhores condições, succumbiria com a mesma vontade inerte sob a violencia do confessor. Ha condescendentes humildades mais vergonhosas sem o diagnostico da demencia que as desculpe. Ella estava de joelhos; mas, não podendo suster-se, sentou-se n'um arfar de suspiros, anciada, até que as lagrimas lhe explodiram n'uma torrente.
Frei João fez um tregeito de satisfação, um agouro de victoria, e poz-lhe o Preceito lenitivo: «Que a vexação cessasse immediatamente—impunha elle aos demonios malditos—e toda a afflicção causada por elles» et omnia afflictio a vobis causata. E atacou logo os demonios com o Preceito instructivo «que immediatamente a prostrassem na presença d'elle, se ella estava possessa» et statim coram me illam prosternatis. Martha, com effeito, estava prostrada, com a face no pavimento, estirando os braços no paroxismo epileptico, e o collo e o tronco hirtos n'uma inflexibilidade tetanica.
—Não ha que duvidar—disse o exorcista ao marido e ao pai da possessa.—Levem-na d'aqui e depois continuaremos.
Martha, passado o lethargo, disse ao tio que mal se lembrava do que passára no oratorio com o snr. frei João; mas que lhe tinha mêdo, que não queria mais confessar-se com elle.
—Cada vez mais provado que está obsessa. Já não é ella quem falla; é o demonio que me teme!—exclamou o exorcista com uma santa basofia, refutando as vacillações um pouco scepticas do brazileiro; ao passo que o Simeão asseverava que a filha tinha o demonio; porque a sua defunta mulher tambem o tinha, e se deitára ao rio porque nunca quizera que lhe fizessem as rezas.
Ao outro dia, vencidas as repugnancias de Martha, continuou o exorcista, carranqueando cada vez mais e pondo vibrações horrorosas na larynge. Deu-lhe a ella o seu Brognolo para que lêsse em voz alta os Preceitos que a creatura vexada pôde pôr ao demonio. Martha, de joelhos, diante do oratorio, leu: Demonio maldito, eu como racional creatura de Deus, redimida com o seu precioso sangue, depois que para me salvar se humanou, cheia de fé, te mando em virtude do santissimo nome de Jesus, que logo me obedeças e me atormentes levemente, ou fazendo tremer o meu corpo ou lançando-o em terra, deixando me em meu juizo.
O corpo de Martha visivelmente tremia; ella deu o livro ao exorcista com um arremesso impaciente, e murmurou soluçante:
—Deixem-me, deixem-me pelas chagas de Christo!
Frei João sorriu-se, e resmuneou á orelha do Feliciano—o maldito serve-se do nome de Christo para me afastar! Eu vou escangalhar-te, Satanaz!
E lançou mão do gladio das Objurgações. As objurgações são perguntas feitas ao diabo, á má cara, e latinamente. Dize, maldito demonio, serpente insidiosa, conheces que existe Deus? Conheces que foste creado anjo allumiado de muitas prendas, e que pela tua soberba te perdestes? Sabes que, repulso do paraiso, perdeste para sempre a graça de Deus? Pergunta-lha a final, depois de muitas injurias, se reconhece n'elle um ministro de Deus, e como ousará a não manifestar-se? Quomodo igitur poteris contra estimulum calcitrare?
O demonio não respondeu ainda; mas o frade ia apertal-o, mandando que se ajoelhassem todos. Elle então, n'uma postura seraphica, braços cruzados no peito e olhos no Christo, declamou:
Veni, sancte spiritus: reple tuorum corda fidelium, et tui amores in eis ignem accende. Pedia ao Espirito Santo que descesse a encher os corações dos seus fieis, e abrazal-os no fogo do seu amor. Depois: Dominus vobiscum.
—É de co espirituó—respondeu o Simeão, que sabia ajudar á missa.
Seguiram-se varios Oremos e deprecações, e a Ladainha de Nossa Senhora; mais outros Oremus, e a detestação da energumena, uma estirada que principiava: E tu, demonio maldito, com que auctoridade intentas possuir jamais meu corpo ou molestar-me por modo algum? Martha rejeitou o livro, e disse que não podia lêr nem estar de joelhos; que tinha vágados e que se queria ir deitar. Mas o exorcista, severo e formidavel no seu ministerio—que não, que não se ia deitar, que não lhe fugia, que se puzesse de joelhos a seus pés! Elle então, segundo a rubrica do livro director, sentou-se, cobriu-se, voz grave e horrivel, virado contra o demonio, como juiz para tal réo já convencido, aspergiu a possessa de agua-benta, ululando: Asperge me, Domine ... e recommendou aos circumstantes que apagassem duas velas, e não dessem palavra. Profundo silencio. Ouvia-se apenas o zumbido das moscas que se esvoaçavam do tecto attrahidas pelo calor da luz unica e pousavam na fronte chagada do Christo. O recinto era espaçoso e quasi em trevas. A vela, encoberta pelas curvas lateraes do oratorio, não alumiava senão o curto espaço da projecção em que Martha, retrahida n'um terror, tinha os dedos das mãos postas, chegadas aos labios, como se quizesse abafar os suspiros.
Passados minutos, o exorcista começou a conjurar e ligar o demonio em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo, tratando-o de immundo, affrontando-o bravamente com epithetos que deviam offender o mais desbragado patife. Martha fez um movimento de afflictivo desabrimento; parecia querer fugir; mas o padre prendeu-a com a estola, em harmonia com o Brognolo: Se não estiver quieta, póde-a prender com uma estola. Feitas novas e mais terriveis conjurações, o exorcista levantou-se com pavorosa solemnidade, e exclamou: Exurge, Christe! adjuva nos! Levanta-te, Christo, e auxilia-nos!
O egresso continuava as evocações ao Christo, quando Martha cahiu sem acôrdo.
—Victoria!—exclamou o exorcista—victoria!
E, mostrando ao brazileiro uma pagina do livro: ouça lá, snr. Feliciano: O signal mais certo de que o demonio obedeceu e se retirou de todo é o que a sagrada Escriptura nos expõe no capitulo IX de S. Marcos:—Deixar a creatura por terra algum tempo como morta. Isto se viu no endemoninhado surdo e mudo que Christo nosso bem curou, e do qual diz o texto: Et factus est sicut mortuus. Depois, com jubilo, limpando o suor:
—Podem leval-a, deitem-na, ponham-lhe as reliquias todas debaixo do travesseiro.
Os dois não podiam facilmente levantal-a; na rigidez, como empedernida do corpo, parecia collada ao pavimento. O brazileiro pedia ao exorcista que a amparasse por um dos braços; mas o frade, artista austero, respondeu que lhe era defêso pôr mãos nas possessas. E, de feito, Carlos Baucio, na Arte do exorcista, legisla: «que os exorcistas não ponham as mãos physicamente sobre a creatura, principalmente sendo mulher (propter periculum), pois que as mulheres nem com o signal da cruz se devem tocar—Mulieres nec signo crucis sunt tangendæ.
Martha passára a noite muito agitada, febril, com delirio; dava risadinhas muito argentinas, fallava no José Alves; sacudia a roupa com frenesi, e, quando emergia do torpôr, sentava-se no leito a olhar para o tio, com uma fixidez repellente. Feliciano não se deitára, e de madrugada disse ao irmão que fosse chamar o medico, que a Martha estava com um febrão; e que levasse o diabo o frade para as profundas do inferno e mais os exorcismos.
Já quando era dia, o brazileiro foi descançar um pouco na cama de D. Thereza, porque receava que se lhe pegasse a febre da mulher. Ás nove horas, a governante foi acordal-o, muito alvoroçada, para lhe dizer que a snr.ª D. Martha tinha sahido sósinha ao nascer do sol e que uma mulher a encontrára já perto da casa do vigario de Caldellas, a correr, que parecia uma doudinha. Fr. João recebeu tambem a nova da fuga, quando acabava de dizer missa em acção de graças pelo triumpho obtido sobre o demonio. O medico chegava ao mesmo tempo, e informado das scenas dos exorcismos, disse ao varatojano injurias que o frade não tinha dito ao diabo; chamou ao brazileiro e ao irmão corja de estupidos, e partiu para Caldellas com o Feliciano. O frade, insultado pelo medico, e pelos modos bruscos e desabridos do brazileiro, citou umas palavras de Jesus que manda sacudir o pó das sandalia no limiar da casa dos impios, e foi-se embora. Seguiram-o algumas beatas n'um alto chôro por longo espaço: e, quando elle desappareceu no cotovello da estrada, houve d'ellas que arrancavam cabellos, cheios de lendias; outras davam-se bofetadas, e as mais hystericas guinchavam uivos estridentes.
O Melro, o taverneiro, o compadre do Feliciano, quando ellas lhe passaram á porta a chorar, atraz do missionario, sahiu fóra, e disse-lhes com um racionalismo brutal:
—Ah grandes coiras!

CONCLUSÃO
Martha regressou com D. Thereza, alguns dias depois. O brazileiro conveio no tratamento hydropathico da esposa; e a compadecida irmã do vigario offereceu-se como enfermeira da pobre senhora que se abraçava n'ella com medo imbecil, a pedir-lhe que a não deixasse, que a defendesse do missionario.
D. Thereza assistiu ao nascimento da primeira filha de Martha. Imaginava a irmã do vigario que no espirito da mãe se havia de operar uma benigna mudança; que o amor á filha seria diversão á saudade de José Alves; mas a medicina não esperava alteração sensivel, porque era materia corrente nos tratados alienistas que um cerebro lesado não se restaura sob a impressão do amor maternal que só actua nas organisações normaes. Porém, D. Thereza não podia crer que Martha estivesse confirmadamente louca, posto que nas suas conversações em que, raras vezes, se interessava, disparatasse, affirmando que via a alma de José Alves, como quem conta um caso trivial.
Quando lhe mostraram a filha recem-nascida, contemplou-a alguns segundos; mas nem balbuciou uma palavra carinhosa, nem fez gesto algum de contentamento. A amiga dizia-lhe coisas muito meigas da filhinha, a vêr se lhe espertava o coração. Punha-lh'a nos braços, dava-lh'a a beijar. Martha cedia com tristeza e constrangimento, beijando a filha como se fôra uma creança alheia. A ama ia dizer ás creadas que a brazileira era uma cafra, que não podia vêr o anginho do céo.
Os paroxismos eram menos frequentes; mas, tres dias antes do ataque, a torvação de Martha manifestava-se com extravagancias, delirios. Fechava-se no quarto com muitos vasos de flores, que enfileirava no sobrado, como se ajardinasse um passeio. Uma vez disse a D. Thereza, á madrinha de sua filha, que arranjára aquelle caminho de rosas, porque o seu José Alves lhe dissera em Prazins que havia de fazer-lhe um jardim em Villalva quando casassem, e ella fizera aquelle jardim para passearem juntos quando elle viesse á noite. D. Thereza encarou-a com uma grande piedade, porque se convenceu então que estava perdida.
O Feliciano, quando ella se fechava no quarto, já sabia que estava a preparar-se o ataque; ia dormir n'outra cama: necessitava do seu repouso, dizia elle; tinha de erguer-se cedo para vêr o que faziam os jornaleiros, e não podia perder as noites. Como o arrependimento de se casar já o mortificava, evadia-se ás irremediaveis apoquentações, olhando egoistamente para o seu bem-estar, e lembrando-se ás vezes que, tendo uma mulher assim doente, não lhe seria muito desagradavel ficar viuvo. Não obstante, como, passado o ataque epileptico, a esposa recahia n'uma serena indolencia, n'uma impassibilidade mansa e tranquilla, o tio ia dormir com ella, tendo sempre em vista as condições do seu bem estar, as necessidades imperiosas da sua physiologia. Assim se explica a fecundidade de Martha, que deu em sete annos cinco filhos a seu marido. O medico já tinha explicado satisfatoriamente ao padre Osorio que a demencia de Martha era funccional, e as qualidades reproductoras não tinham que vêr com as anormalidades cerebraes. A Providencia não teve a bondade de fazer estereis as dementes.
Entretanto, nos tres dias precedentes ás crises epilepticas, parece que o marido lhe era repulsivo. Dava-se então a revivencia de José Alves, o seu amado sahia do sepulchro, e transportava-a nas suas azas de anjo ao paraizo de Prazins. D. Thereza, collando o ouvido á fechadura da porta, ouvia-a conversar como era dialogo, ficar silenciosa, depois d'uma interrogação, por largo espaço de tempo; vinha de mansinho á porta espreitar que a não escutassem. Dizia palavras confusas, abafadas, cariciosamente proferidas, como se tivesse os labios postos em contacto de um rosto amado. O nome de José realçava com uma nitidez jubilosa, com um timbre de meiguice infantil; e ás vezes, um grito em esforçado desespêro como se elle se lhe desatasse dos braços para lhe fugir. Um espiritista da escola de Kardec tiraria d'esta loucura um argumento a favor das Manifestações visiveis, em que o fluido, o perispirito se apresenta semi-material, com as fórmas vagas do corpo, quasi tangivel ao medium.
O Feliciano ignorava estas scenas extra-naturaes. Elle, ao sexto anno de casado, encouraçára-se n'um impenetravel egoismo de avarento, cortando fundamente por todas as despezas que em vista da sua grande fortuna se reputavam sovinarias. A medicina já o considerava lunatico, mais ou menos inficcionado da alienação da mulher. E a loucura que é se não a exaggeração do caracter? Porque o viam ás vezes atravessar os seus pinhaes, com o monoculo, gesticulando, e faltando sósinho, chamavam-lhe doudo. Errada hypothese do vulgo ignorante. Elle fazia operações arithmeticas em voz alta como os velhos poetas inspirados faziam madrigaes n'uma declamação rythmica ao ar livre e ao luar. O certo é que ninguem o apanhava em intervallo escuro para o defraudar n'um vintem. Comprou, umas após outras, todas as quintas que foram do Vasco Cerveira Lobo, de Quadros; umas á viuva, e outras aos filhos. A D. Honorata Guião, casada em segundas nupcias com o desembargador do Ultramar Adolpho da Silveira, veio á metropole assim que viuvou para se habilitar herdeira de metade do casal não vinculado do tenente-coronel. Os filhos Egas e Heitor, sabendo que sua mãe estava nos Pombaes, com o marido e filhos, tentaram escorraçal-a com ameaças e insultos, atirando-lhe tiros á janella. O magistrado fugiu com a sua familia e acompanhou com força armada os actos judiciaes. Afinal, Honorata, vendeu a sua parte, ao desbarato, ao brazileiro Prazins; e o morgado, vendido o seu patrimonio desvinculado, e mais o irmão, vergonhosamente casados, esfarrapam hoje o resto da torpe existencia na tavolagem das tavernas. As filhas salvaram-se do naufragio agarradas ás pranchas dos seus dotes. Arranjaram facilmente maridos que desempenharam os seus casaes e as sovavam de pontapés injustos e extemporaneos, quando se lembravam dos engenheiros do conde de Clarange Lucotte.
A brazileira de Prazins tem hoje cincoenta e tres annos. Os seus visinhos que contam trinta annos, nunca a viram, por que ella, desde que, em 1848, morreu D. Thereza, nunca mais sahiu do seu quarto. Já ninguem a vai escutar; mas repete as mesmas palavras do seu amor de ha quarenta annos, pede que lhe levem flores, tem as mesmas allucinações, e—o que mais é—ainda tem lagrimas, quando, nos intervallos dos delirios, entra na angustiosa convicção de que José Dias é morto. O padre Osorio ainda a procura n'esses periodos de razão bruxuleante e falla-lhe da irmã por sentir a ineffavel amargura doce de se vêr acompanhado nas lagrimas. Mas o padre diz que nunca pudéra vêr nitidamente a linha divisoria entre a razão e a insania de Martha. Depois do delirio, sobrevem a monomania hypocondriaca. A alma continua a dormir sem sonhar, sem as allucinações. N'essa segunda crise de torpor, elle e só elle é admittido ao seu quarto, depois de esperar que desça da cama ou se embrulhe n'um challe para encobrir a sordidez do corpête dos vestidos. Este challe é uma scintilla resistente de instincto feminil que raras vezes se apaga no commum das dementes, excepto no maior numero das hystericas com erothismo.
Martha tem duas filhas casadas e já mães. Ás temporadas, vestem serenamente os seus trajes domingueiros e vão para casa dos paes, onde continuam na sáfara dos campos a sua lida de solteiras. O pai educára-as na lavoira, de pé descalço; e sachola nas unhas. Trabalham nas lavras com uma grande alegria e garganteiam cantigas muito frescas. E os maridos, cheios de bom senso, já as não procuram. Quando regressam, recebem-as sem as interrogarem; porque, se as affligem, dão-lhes vágados e choram. Nos outros filhos intanguidos, escrofulosos, tristes e sem infancia predomina a diathese da imbecilidade e a falta de senso-moral que é uma especie pathologica menos estudada dos alienistas. Entre estes filhos ha um que estudou para clerigo. Passava por ser o mais escorreito. O pai achava-lhe talento. Estudou seis annos latim, em Braga, debaixo das mais rigorosas violencias á sua incapacidade; e quando Feliciano, prodigo de dinheiro para este filho, e desenganado pelo professor, o mandou buscar com tres reprovações, elle trazia em uma caixa de lata cinco mil e tantas hostias com que se prevenira para as suas consagrações de sacerdote. E o pai foi tão feliz que pôde vender as hostias com o pequeno prejuizo de dez por cento.
—Ahi tem o brazileiro de Prazins, se nunca o viu—dizia-me ha trez mezes o padre Osorio mostrando-me no mercado de Famalicão um velho escanifrado, muito escanhoado, direito, com o monoculo fixo, vestido de cotim, com um guarda-pó sujo, esfarpelado na abotoadura, e uma chibata de marmeleiro com que sacudia a poeira das calças arregaçadas.
—Tem 84 annos—continuou o vigario de Caldellas—veio a pé de sua casa, que dista d'aqui legua e meia, janta um vintem de arroz, bebe outro vintem de vinho, tem quinhentos contos, e volta para sua casa a pé, atravez ou pouco menos das suas quatorze quintas. Com a frugalidade, com o exercicio e com o seu egoismo sordido viverá ainda muito tempo, porque o velho Alexandre Dumas disse que os egoistas e os papagaios viviam cento e cincoenta annos.

P.S.
Com os subsidios ministrados pelo cura de Caldellas compuz esta narrativa, espraiando-me por accessorios de duvidoso bom senso, cuja responsabilidade declino dos hombros d'aquelle discreto sacerdote. Tudo que n'este livro tem bafio de velhas chalaças, ironias e satyras é meu; e, se alguem por isso me arguir de pouco respeitador do vicio e da tolice, retiro tudo.
Se o meu condescendente informador me permitte, ouso dizer-lhe—para nos esquivarmos ambos ás insidias da critica portugueza—que a demencia de Martha não é extremamente original nem o meu romance uma singularidade incontroversa. O que, sem disputa, é original, é duvidar eu de que o sou.
Em um Conto de Charles Nodier, auctor remoto que se perde no crepusculo da litteratura archeologica, ha uma LYDIA que endoudeceu quando o marido, um barqueiro de limpo nascimento e generosa indole, pereceu n'um incendio salvando tres creanças e sua mãe.
Lydia enlouquece e cuida que seu esposo está no céo de dia e a visita de noute. Ella, desde o repontar da aurora, sae ao jardim, e colhe flores para o brindar quando elle desce do azul com azas de pennas de ouro. Ao cabo de seis annos d'este sonhar delicioso, a ditosa douda, quando andava a recolher as flores dilectas para o bouquet das nupcias com o anjo de cada noute, sentou-se em dulcissima somnolencia e expirou.
As analogias de Lydia e Martha frizam pela visão dominante na demencia de ambas—uma especie de resurreição do amado. No que ellas diversificam essencialmente é que uma sonhou seis annos e a outra vai no trigesimo setimo da sua demencia; Lydia sonhou absorvida na sua ideal alliança com um celicola, um bem-aventurado com azas de ouro; Martha quando immerge allucinada no seu lethargo, é a paixão leal ao amado sempre vivo na terra e no seu coração. Lydia passa as noutes em amplexos do marido celestial: Martha, sem consciencia da sua vida organica, tem cinco filhos, como se arrancasse de si a porção ignobil de seu ser e a rejeitasse ao sêvo sensual do marido resalvando a alma d'essa inconsciente materialidade. Quer-me, portanto, parecer que não ha nodoa de plagiato no meu livrinho—uma coisa original como o peccado.
O leitor pergunta:
—Qual é o intuito scientifico, disciplinar, moderno, d'este romance? Que prova e conclue? Que ha ahi proveitoso como elemento que reorganise o individuo ou a especie?
Respondo: Nada, pela palavra, nada. O meu romance não pretende reorganisar coisa nenhuma. E o auctor d'esta obra esteril assevera, em nome do patriarcha Voltaire, que deixaremos este mundo tolo e máo, tal qual era quando cá entramos.
S. Miguel de Seide, dezembro de 1882.