A BRAZILEIRA DE PRAZINS (continued 3)
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Verissimo arrecadava uma gratificação, umas seis libras mensaes, mesquinha paga dos serviços que fazia á ordem, á tranquillidade civica da rua das Flores e das Congostas.
Na contra-revolução de 9 de outubro de 46, quando foi preso o duque, José Passos encontrou o Verissimo na Praça Nova, chamou-lhe patriota, pôz-lhe a mão no hombro, sacudiu-o pelas lapellas, e disse-lhe que movesse, que agitasse as massas, por que o duque estava a desembarcar. Os sinos tangiam a rebate, a plebe ondeava para Villar, n'um restrugir de tempestade, quando o Verissimo e o Nunes procuraram o conselheiro Fortunato que tiritava de mêdo com as suas enxundias espapadas entre as filhas, n'uma consternação. Disseram-lhe que se iam armar para se constituirem sentinellas da segurança do seu bemfeitor. O conselheiro abraçou-os muito commovido, n'uma excitação apopletica.
Depois formaram-se os batalhões nacionaes. Verissimo e Torquato foram promovidos a tenentes do batalhão da Vista Alegre. Quando foi da refrega de Valpassos tinham comprehendido intelligentemente que a retirada de Sá da Bandeira, da veiga de Chaves, era a fraqueza precursora de uma derrota. Conheciam o perfido espirito do 15 e do 3 de infanteria,—previram a traição. Tinham pensado maduramente os dois tenentes, sem enthusiasmo, com a prudencia dos quarenta annos apalpados pelos revezes de vinte batalhas. Resolveram desertar quando os batalhões de linha se passassem para as forças reaes. Travou-se o encontro de Valpassos. Com os dois regimentos que n'um turbilhão e a gritos de Viva a Rainha se abraçaram ás vanguardas do Casal, tambem elles, por debaixo do fogo do seu batalhão, se passaram, dando vivas á Carta Constitucional. Eram a obra da prudencia e do conselheiro Fortunato Leite.
Quando o barão de Casal foi espostejar os miguelistas a Braga, os dois tenentes apresentados pediram venia ao general para servirem na columna do visconde de Vinhaes;—que tinham repugnancia de pelejar cara a cara com os seus parentes bandeados nas guerrilhas do padre Casimiro José Vieira e do padre José da Lage. A vergonha impunha-lhes o dever de dourar a mentira. Não lhes pareceu decente irem acutilar nas ruas de Braga o Christovão Bezerra, de Bouro e o abbade de Calvos e o padre Manoel das Agras. Não poderiam vêr sem magua a soldadesca a dar saque aos dinheiros das snr.ªs Botelhas.
Ainda assim não puderam esquivar-se a perseguir os realistas da comitiva de Mac-Donald, desde Villa Real até Sabroso; mas não desembainharam as espadas, porque o visconde de Vinhaes os admittiu ao seu quartel-general, e os cadaveres que encontraram pela serra do Mezio até Sabroso, onde pereceu acutilado o caudilho escossez, eram façanhas das guardas avançadas. Os dois tenentes não deram nem tiraram gota de sangue n'esta lucta fratricida. Um triumpho a sêcco.
Concluida a guerra civil pelo convenio de Gramido, depositaram as armas e pediram empregos. O conselheiro Leite, o Casal, o Vinhaes, o Alpendurada, o Carneiro Geraldes, o Joaquim Torquato, o centro cabralista recommendou-os á consideração magnanima de sua magestade. O Nunes, como sabia do fôro, foi despachado escrivão de direito para a Estremadura. Verissimo Borges obteve uma fiscalisação rendosa dos tabacos e sabão em Traz-os-Montes: depois foi transferido, com vantagem, para a alfandega de Vianna do Minho; e por ultimo para uma direcção aduaneira do Ultramar. Ainda vivia ha poucos annos, porque um jornal da localidade, debaixo de um symbolo funebre—um anjo curvado e deplorativo sobre a sua urna, enlutada pelas madeixas de um chorão—publicava:
Verissimo Borges Camêlo da Mesquita dá parte aos seus numerosos e respeitaveis amigos que foi Deus servido chamar á sua divina presença, hoje pelas 5 horas da manhã, sua chorada esposa D. Libania de Covas Borges da Mesquita, a cujo cadaver, etc. Pelo seu profundo estado de consternação pede desculpa de cumprimentos.
O jornal, depois de uns adjectivos lugubres e velhos como a morte, accrescentava: A exc.ma snrª D. Libania, que todos choramos com seu exc.mo viuvo, era uma senhora de esmeradissima educação, pertencia á illustre familia dos Covas;—modêlo no tracto insinuante com que captivava o respeito e a amizade de todas as pessoas d'esta Ilha, que tiveram a fortuna de a conhecer. Receba s. exc.ª o snr. conselheiro-director os nossos mais sentidos pesames pela desgraça que acaba de o ferir implacavelmente.
Verissimo e Nunes podem ainda viver, porque eram robustos de corpo e d'alma.

XIII
O Zeferino deixou o Cerveira Lobo em Quadros, com os tres contos de réis, foi para as Lamellas, e entrou de noite para que o não vissem. Elle tinha-se gabado aos visinhos de que estava despachado sargento-mór e seu pai coronel reformado. Ao José Dias de Villalva e mais ao pai que era regedor, mandára-lhes dizer que elles brevemente haviam de topar com o seu homem. Da Martha de Prazins dizia trapos e farrapos. A sua paixão nao tinha outro respiradoiro. Além d'isso, nao podia esquecer-se da nadega exposta pelo cão ás descompostas gargalhadas da rapariga. Era uma vergonha chronica. E, para remate de desastres, voltava para as Lamellas, a ouvir as rabugices do pai que lhe chamava cavalgadura—que se deixasse de politica e fosse fazer paredes, que é o que elle sabia.
Constava-lhe de mais a mais que o José Dias, o estudante, estava sempre em Prazins, e tinha ido com Martha e mais o Simeão ao fogo preso da romaria de S. Thiago da cruz. Viram-os todos tres a tomar café de madrugada n'uma barraca, a cochicharem os dois muito aconchegados, em quanto o velho tosquenejava a dormitar.
O pai de José Dias, o Joaquim de Villalva, era um lavrador de primeira ordem. Lavrava quarenta carros de milho e centeio, uma pipa de azeite, dez de vinho, muita castanha, tinha tres juntas de bois chibantes e poldros de creação. O José, meeiro no casal, a não se ordenar, era um dos primeiros casamentos do concelho.
O rapaz amava castamente a Martha com a pudicicia do primeiro amor. Ella tinha uma formosura meiga, delicada e supplicante. Parecia pedir que a não immolassem a uma paixão sensual; mas, se o seu amado o exigisse, a victima coroar-se-ia de flores, e iria risonha e mansamente para o sacrificio. Tinha extasis a contemplar-lhe os cabellos loiros e a pallida face doentia; deixava-se beijar com a impassibilidade de uma santa de jaspe—um quadro paradisiaco sem fructas nem cobras.
O José não necessitava pedil-a ao pai na incerteza de uma recusa. Disse-lhe que ella havia de ser a sua esposa: a creança contou ao pai as palavras do amado e o Simeão:—Ora venha de lá esse abraço, amigo e sê Zé!—e apertou o futuro genro com a ternura de pai que arranja a sua filha como se quer.
Mas os paes do estudante já tinham dito ao rapaz que mudasse de rumo, que a môça de Prazins não era fôrma de seu pé. A mãe principalmente protestava que, emquanto ella fosse viva, a tal filha da Genoveva de Prazins não havia de ser sua nora, nem que a levasse o diabo, e Deus lhe perdoasse, se peccava. Justificava-se dizendo que a Martha era de ruim casta; que a mãe, a Genoveva, dera desgostos ao homem, pintava a manta nas romarias, andára muito fallada com um frade de Santo Thyrso, e um dia pegára a dar gritos na egreja; toda a gente disse que ella tinha o demonio no corpo, e afinal morrêra douda, atirando-se ao rio Ave.
E constava-lhe que o avô d'ella tambem não era escorreito, e quando já tinha sessenta annos mandára fazer uma sobrepeliz, abrira corda, e onde houvesse um defunto lá ia com um ripanso á egreja e punha-se a cantar como os padres. A tia Maria de Villalva tinha inconscientemente este horror moderno, scientifico da hereditariedade; mas o que mais a impulsionava na sua resistencia aos rogos do filho era ter sido má mulher a mãe de Martha. De má arvore mim fructo—era toda a sua philosophia que se encontra diluida modernamente nas explorações physio-psychologicas do Janet, do Maudsley e no determinismo.
O Joaquim de Villalva, muito instado pelo filho e pelo padre Osorio, o de Caldellas, promettia fazer o que a sua companheira fizesse: mas dizia-lhe a ella em particular:—Tu aguenta-te, Maria; nunca digas que sim, ouviste? E ella:—Deixa-me cá, homem! Vem barrados. Credo!
A tia Maria era muito rezadeira, erguia-se de noite para não perder a sua missinha no verão ao romper do dia, e garganteava com uma melopêa fanhosa a via-sacra na quaresma, á volta da egreja; presenteava os santos dos altares com os mimos da sua lavoira que se leiloavam ao domingo no adro, dava cama e mesa unctuosa aos missionarias, confessava-se todos os mezes, e sentia pelas suas visinhas menos beatas o ineffavel prazer de affirmar que haviam de cahir vestidas e calçadas no inferno. O filho penetrou-se d'uma idéa trivial a respeito de sua mãe:—Que os sentimentos religiosos a levariam a dar o consentimento, se Martha commettesse um d'esses peccados que se remedeiam com o matrimonio. O padre Osorio dizia-lhe que a intenção era honesta, mas o expediente mau. Não lhe citou theologos nem preceitos de origem divina. Argumentou-lhe com a hypothese da pertinaz resistencia da mãe. Que não esperava nada da sua religião,—um habito de tregeitos de mãos e de beiços, o automatismo idolatra dos selvagens da America que davam guinchos mechanicos, prostrando-se por terra, quando ouviram a primeira missa; que a religião das aldeias, sobre a dos indianos da catechese dos jesuitas, as vantagens que tinha era a hypocrisia em uns, e o fanatismo em outros, quando não se ajuntavam ambas as coisas nos mesmos fieis. O padre Osorio parochiava e conhecia o seu rebanho, joeirando-o pelos crivos do confessionario. Não conhecia menos a tia Maria de Villalva. Affirmava que a fragilidade de Martha seria para a velha mais um motivo de odio e desprezo; por que, na sua cartilha e nos dictames dos seus directores espirituaes, não se lia nem ouvia que a mãe devia encobrir a deshonra de uma rapariga casando-a com o seu filho, seductor d'ella.
As reflexões do vigario de Caldellas eram optimas mas extemporaneas.
Um official de pedreiro de Prazins, que trabalhava com o mestre Zeferino, contou-lhe que uma noite se enganara com o luar, e, cuidando que era dia nado, se levantára para ir para a obra; mas que ao passar por diante da casa do Simeão ouvira duas horas no relogio, e vira luz pelas frestas de uma janella. Que se puzera á coca debaixo de um carvalho, a desconfiar que a luz áquella hora não era coisa boa, e estivera, vai não vai, ó pernas p'ra que te quero, lembrando-se se seria bruxedo ou alma penada, por que se dizia que a Genoveva do Simeão, a que se deitara ao rio, não podia entrar no purgatorio, e morrera com o diabo no corpo, salvo seja. Estava n'isto quando a luz se sumiu, e se coou pelas frestas d'outra janella, e logo depois n'outra mais baixa, onde um homem podia chegar, com o cabo d'um machado. N'isto apagou-se a luz e abriu-se a janella de portadas sem vidros. Dava-lhe a chapada do luar;—era como se fosse dia. O pedreiro, muito no escuro da ramaria do carvalho, viu apontar uma cabeça e depois meio corpo de homem que se pôz ás cavalleiras do peitoril da janella, quedou-se a olhar e a escutar a um lado e outro; depois desmontou-se muito devagarinho, sem tugir nem mugir, pendurou-se no peitoril e deixou-se cahir, ficando em pé. A janella fechou-se, e o José Dias, que o operario conheceu como se o visse ao meio dia, metteu-se ao caminho de Villalva, por signal que levava sapatos de borracha que brilhavam ao luar como um espelho.
O oratoriano Manoel Bernardes, como é notorio, escreveu um livro edificante, muito piedoso, chamado Armas da Castidade. O mystico filho de S. Philippe Nery, com duas palavras sãs, d'um realismo seraphico, cabalmente explicou a situação d'outro José Dias a respeito d'outra Martha. Conhecia-lhe o leito, dizia elle. É o mais que se póde dizer sem escandalisar ninguem. Conhecia-lhe o leito.
Mas o Zeferino é que sentiu em cheio no peito amante a facada do escandalo. O official viu-o sentar-se sobre uma padieira que estava esquadriando, e, com o rosto entre as mãos, desfazer-se em pranto. Elle tinha amado aquella rapariga desde que a vira aos treze annos. Trabalhára e roubára como gallego para a poder comprar ao pai por um conto e quinhentos e pico. Metteu-se na politica; fez-se sargento-mór a vêr se se levantava a uma altura em que a Martha o achasse digno d'ella e superior ao estudante. Desabadas as esperanças com a prisão do patife de Calvos, scismava ainda em voltar de novo ao campo quando viesse o D. Miguel authentico, porque o tenente-coronel de Quadros lhe dizia que el-rei chegava a Portugal na primavera do anno seguinte—affirmava-lh'o o padre Rocha para o consolar juntamente com as bebedeiras quotidianas. Tudo acabado, perdido, como se lhe morresse a Eva do seu paraizo! E por isso o pedreiro chorava como os grandes poetas trahidos, como Camões, como Tasso, como Alfred de Musset. As lagrimas na cara tostada d'aquelle operario tinham o travo das que a poesia crystallisou no pantheon dos martyres do amor.
Depois, levantou-se, limpou as faces á manga da camisa, pegou da esquadria e continuou a trabalhar, assobiando a musica triste d'uma cantiga d'esse tempo:
Ó mar, se queres, Tem dó de mim.
Estes assobios eram o silvo da serpente da vingança; mas o seu rancor não punha a pontaria em Martha. Se deixava de cinzelar a pedra, e fitava os olhos extaticos n'um immenso vacuo, via passar lucilante a imagem da pequena, pura, angelical como a vira aos treze annos. Um grande romantico—uma explosão de ideaes que florejavam d'aquelle pedreiro como um canteiro de boninas nos musgos de um penhascal. Havia d'estas transigencias com os anjos despenhados. Dir-se-ia que elle tinha lido as Confissões de um filho do seculo, aquella torrente de lagrimas ignobeis que lava os pés de uma dissoluta illustrada.
Elle, desde essa hora funesta, pensou em matar o José Dias; mas, nas ricas protuberancias osseas do seu grande craneo, a bossa do homicidio era muito rudimentar. Tinha tido varias occasiões de poder-se gabar d'essa perfeição. Haviam-lhe batido dois estudantes a um pinhal, por causa das denuncias ao padre mestre Roque; e, quando o cão do Dias lhe rasgou a calça n'um sitio melindroso, o Zeferino desconfiou que, se fosse capaz de matar um homem, deveria ter atirado com o machado á cabeça do caçador. Elle queria espesinhar o cadaver de José Dias, espostejal-o, trincal-o, mascal-o, esmoêl-o, devoral-o, mas á maneira dos devoristas incolumes que compram um porco já morto na Ribeira Velha, e o esquartejam com um grande regosijo anthropophago, com as mãos ensopadas nas banhas da victima.
O pedreiro denunciante ia contando em segredo a toda a gente a descoberta que fizera n'aquella noite em que se enganára com o luar. A Martha estava desacreditada na freguezia; as mulheres que sachavam os milharaes faziam commentarios perpetuos ao texto do pedreiro, recordavam as façanhas da Genoveva, contadas pelas velhas, e as mais antigas diziam que a Brigida Gallinheira, avó da Martha, já tinha dado o exemplo á filha.—Uma geração de maratonas do alto, dizia a tia Rosa de Carude, cuspindo no chão, e pondo a soca em cima. Riam-se do Zeferino que andava como a cobra que perdeu a peçonha, muito escamado; que lhe tinham sahido dois casamentos com boas lavradeiras, e elle diz que havia de ir morrer solteiro ás Pedras Negras, depois de matar um homem; e houve quem affirmasse que o vira com um bacamarte debaixo dos carvalhos, por essa noite fóra, defronte da casa do Simeão. Uma calumnia.
Avisaram a mãe do José Dias da espera do pedreiro, e ella fez dormir o filho era uma trapeira que não tinha janella por onde saltasse, e fechava-o de noite por fóra, rogando pragas á serêsma de Prazins:—Que um raio a partisse e o diabo a levasse para as profundas do abysmo! Depois ia rezar a corôa com os creados, e rogava a Deus pelos que andavam sobre as aguas do mar e pelas almas de todos os seus parentes e visinhos, com uma intonação chorada que fazia devoção.
O José Dias vivia amargurado. Tinha sido creado n'um grande respeito aos paes, e sentia-se inhabil para lhes reagir. A doença de peito que principiava a desvigorisar-lhe o corpo, implicava-lhe com a atonia da alma. Sentia o egoismo indolente dos enfermos minados pela consumpção lenta. Invejava a robustez do irmão, um trabalhador forte que dormia dez horas, e ao romper da aurora ia lavar a cara ao tanque e pensar o gado com uma grande alegria, de assobios remedando as requintas das chulas. Passava muitas horas com o seu confidente, o padre Osorio. Pedia-lhe conselhos—que arranjasse modo de elle poder casar com a Martha.—Que eu, dizia com desalento, não vou longe; mas queria remediar o mal que fiz.
A Martha escrevia-lhe para Caldellas, porque a tia Maria de Villalva, uma vez que lá viu um garoto com carta para o filho, deu sobre elle com um engaço, que por pouco o não apanha pela cabeça com os dentes do instrumento. As cartas eram desconfianças, receio do abandono, lagrimas. O pai não a mortificava. Pelo contrario, dizia-lhe a miudo:—Se o Zé de Villalva não casar comtigo, talvez seja a tua fortuna, por que póde ser que teu tio adregue de gostar de ti, e mais mez menos mez elle rebenta por essa porta dentro rico como um porco. O brazileiro da Rita Chasca que chegou agora diz que elle tem quatrocentos contos fortes, p'ra riba, que não p'ra baixo.—A Martha escondia-se a chorar; e, ás vezes, lembrava-se do fim da mãe—o suicidio; e punha-se a olhar para o Ave e a escutar o rugido cavo de uma levada que parecia trazer-lhe os gemidos agonisantes de muitos afogados.
O Dias fallava-lhe na sua doença, no desfallecimento de forças que já o não deixavam caçar, da tristeza que o consumia, do desamor com que a familia o via padecer, do odio que começava a ter á mãe, e das saudades dilacerantes que sentia pela sua querida Martha.—Que o seu amigo padre Osorio trabalhava para obter o consentimento do pai; mas que, se o não obtivesse, estava resolvido a fugir com ella, mesmo sem recursos, ou com os poucos que o seu amigo lhe podia emprestar.
De tempo a tempo ia vêl-a de dia; mas a mãe trazia-o muito espreitado, e ralava-o:—que a tal croia havia de dar cabo d'elle. O cirurgião tinha-lhe dito delicadamente que o José abusava do 6.°. Ella, como sabia os mandamentos de cór e salteados, entendeu logo, e dizia a toda a gente que o seu Zé andava assim um pilharengo por causa do 6.°. Era o resultado de saber a doutrina christã esta decencia no explicar-se por numeros. As visinhas entendiam-na e diziam-lhe que o José andava forgado, que lhe mettesse uma enxada nas unhas e o puzesse a roçar matto oito dias, que elle perdia o cio.
Decorreram alguns mezes. Com a primavera a saude de José Dias pareceu restaurar-se. Elle attribuiu as suas melhoras ao contentamento. O pai, que era regedor, a pedido do governador civil que o mandou chamar a Braga, por intervenção do padre Osorio, dava o consentimento; mas a mãe recalcitrava. Esperava-se, porém, a vinda dos missionarios a Requião, para a reduzirem ao dever de catholica. O vigario de Caldellas já tinha prevenido um egresso do Varatojo, fr. João de Borba da Montanha, das terras de Celorico de Basto, d'uma força prodigiosa em emprezas mais difficeis.
Martha recobrava alegres esperanças, e o Zeferino das Lamellas digeria a sua dôr, assobiando a musica da melancolica bailada:
Ó mar, se queres. Tem dó de mim.
Para seu desafôgo, ia a miudo a Quadros saber quando chegaria o snr. D. Miguel. O Cerveira estava relacionado com os setembristas. Formára-se a juncção dos dois partidos hostis aos Cabraes, aproximados pelas eleições sanguinarias de 1845. O tenente-coronel reunia espingardas em Quadros e dava dinheiro para o fabrico de cartuchame no concelho da Povoa de Lanhoso e nos arrabaldes de Guimarães. O padre Rocha communicava-lhe as noticias enviadas de Londres pelo Saraiva, e conseguiu que elle fosse ao Porto receber o gráo de commendador da ordem de S. Miguel da Ala a casa do João d'Albuquerque, da Insua, que representava nas provincias do norte o Grão-Mestrado. O Zeferino sentia momentos de jubilo de tigre que se agacha a medir o salto á presa. Tinha um riso que era um ringir de dentes. Parecia-lhe que estava a mastigar os ligados do José Dias.

XIV
Em março d'aquelle anno, 1846, os setembristas de Braga fomentaram os motins populares do concelho de Lanhoso. Na Inglaterra, na camara dos communs, lord Bentinck explicou tragicamente, em phrases pomposas, a origem d'essa revolução, que um desdem indigena chamou «rebellião da canalha». Elle disse que os Cabraes mandaram construir cemiterios; mas não os muraram; de modo que entravam n'elles cães, gatos e porcos bravos em tamanha quantidade que chegaram a desenterrar os cadaveres.[8] As nações e os naturalistas deviam formar uma idéa assaz agigantada do tamanho dos gatos portuguezes que desenterravam cadaveres, e das boas avenças dos nossos cães com os referidos gatos na obra da exhumação dos mortos, e não menos se espantariam da familiaridade dos javalis que vinham do Gerez collaborar com os cães e gatos n'aquella mineração das carnes podres das terras de Lanhoso. A origem pois da insurreição nacional de 1846 está definida nos fastos da Europa revolucionaria. Foi uma reacção, uma batalha social á canzoada e gataria confederadas com o focinho profanador de porco montez. E d'ahi procedeu escreverem os jornalistas da Allemanha, um paiz sério, que a revolução do Minho era o «typo da legalidade». Os cadaveres servidos nos banquetes illegaes e nocturnos dos javalis, com a convivencia de gatarrões a rosnarem com o lombo erriçado, e molossos de colmilhos ensanguentados foi caso que impressionou grandemente as raças tudescas, por ser um acto prohibido pela Carta Constitucional. Quer fossem os setembristas de Braga, quer a alcateia das feras colligadas, o certo é que a insurreição do Alto Minho talou esta provincia e a transmontana, devastando as papeletas impressas e os vinhos das tascas sertanejas. A guerra motivada pelos gatos e seus cumplices fez soffrer ao capital do paiz uma diminuição de 77 milhões e meio de cruzados, segundo o calculo do ministro da fazenda Franzini, muito retrógrado, mas um genio no algarismo.
O Zeferino das Lamellas, ás primeiras commoções do vulcão popular, nos arredores de Guimarães, preparou-se; e assim que ouviu repicar a rebate em Ronfe, cheio de ciumes como o sineiro de Notre-Dame, agarrou-se á corda do sino, reuniu no adro os jornaleiros e vadios de tres freguezias, e pegou a dar morras aos Cabraes com applauso universal. Depois, explicou o que era o cadastro, confundindo este expediente estatistico com canastro:—que os Cabraes e os seus empregados andavam a tomar as terras a rol para empenharem Portugal á Inglaterra; que esses roes estavam nos cartorios das administrações e em casa dos regedores; que era preciso queimar-as papelêtas e matar os cabralistas.
Em seguida, invadiram a administração de Santo Thyrso, quebraram as vidraças dos cartistas fugitivos e queimaram os impressos e quantos papeis acharam, no Campo da Feira. Depois, abalaram para Famalicão. Zeferino nomeára-se chefre da gentalha embriagada nas adegas arrombadas dos cabralistas, e alvitrou que se prendessem os regedores que topassem. Dizia que o Joaquim de Villalva, nas eleições do anno anterior, muito socadas, cascára no povo e mais os cabos, na assembleia de Landim, cacetada brava. A bebedeira dos ouvintes dera á perfida aleivosia do pedreiro vingativo o valor de facto historico. O plano de Zeferino era abrir opportunidade a que José Dias fosse assassinado ou, pelo menos, preso e degredado como cabralista.
Villalva ficava-lhes a geito, no caminho de Famalicão. O amante de Martha ouvira grande alarido e vira ao longe a multidão que galgava um outeiro turbulentamente. Via-se desfraldado no ar, em oscillações largas, o panno escarlate de uma bandeira: era um pedaço do Velho estandarte que servia nas procissões de Santa Maria d'Abbade. José pediu ao pai que fugisse. O regedor disse que não—que nunca tinha feito mal a ninguem, nem sequer prendêra um refractario: que o mais que podiam fazer era tirar-lhe o governo.
José Dias tinha mêdo ás covardes ameaças do Zeferino; diziam-lhe que o pedreiro jurára matal-o, e já constava que era elle o chefe da guerrilha, em que se alistaram todos os ladrões e assassinos conhecidos na comarca. A mãe empurrava-o pela porta fóra—que fugisse para Caldellas; que não fosse o diabo armar-lhe alguma trempe por causa da Martha, da tal bebedinha que não dera cavaco ao pedreiro. Elle deitou o sellote á egua e fugiu a galope; mas o regedor, com a sua consciencia illibada, esperou os revoltosos com o Zeferino á frente, brandindo a espada do pai, que não se desembainhára desde o ataque a Santo Thyrso.
—Está você preso por cabralista!—intimou o pedreiro, deitando-lhe a mão á lapella da véstia; e voltado para a turba:—Rapazes, cercaide a casa; tudo que estiver, preso!
—Os meus filhos sahiram; mas entrem, busquem á vontade disse o regedor; e, olhando para o pedreiro, ironicamente:—Ah seu Zeferino, seu Zeferino, você não veio aqui p'ra me prender a mim... É outra historia que você lá sabe. Isto de mulheres são os nossos peccados, mestre Zeferino...
—Não me cante!—bradou o das Lamellas com furiosos arremêssos.—Está preso, e mexa-se já para a cadeia.
—Você não pôde prender-me, mestre Zeferino—contrariou a auctoridade dentro da lei—Vá buscar primeiro uma ordem do meu administrador ou do governador civil.
—Já não ha governador civil!—explicou o caudilho—Agora são outros governos, seu asno! Quem reina é o snr. D. Miguel l.° E você não me esteja ahi a fanfar, que eu já o não enxergo. Ande lá p'ra cadeia com dez milhões de diabos!
O regedor entrou em Villa Nova de Famalicão na onda de alguns milhares de homens e rapazes que davam vivas a D. Miguel, ás leis novas, á santa religião e morras aos cabralistas. Quando queimavam os papeis, um brazileiro setembrista, o Sá Miranda, disse ao commandante que não convinha por emquanto aclamar D. Miguel; que dessem morras ao governo e vivas á religião. N'esta barafunda, o regedor preso entre meia duzia de jornaleiros que discutiam as leis velhas e as novas na taverna do Folipo, comprehendera um acêno do taverneiro e fugira pelos quintaes. Metteu-se ao caminho de Braga, onde estava o general conde das Antas. O José Dias, receando que o perseguissem em Caldellas, refugiara-se também em Braga e alistou-se no batalhão dos serezinos commandado pelo conego Mont'Alverne.
N'este meio tempo, chegou da America o Feliciano Rodrigues Prazins, tio de Martha. Demorou-se poucos dias. Ganhára medo que o roubassem as guerrilhas. Foi para o Porto pôr em segurança as suas lettras e voltou quando a queda dos Cabraes garantia o socego dos capitalistas. Na volta a Prazins, olhou mais attentamente para a sobrinha, deu-lhe alguns cordões, e disse ao irmão que não se lhe dava de casar com ella. O Simeão affirmou logo com um descaramento perdoavel:—que não se fosse sem resposta o mano que a moça dava o cavaco por elle.
Feliciano tinha quarenta e sete annos. Não se parecia com a maioria dos nossos patricios que regressam do Brazil com uma opulencia de fórmas almofadadas de carnes sucadas. Era magro esqueleticamente, um organismo de poeta sugado pelos vampiros do spleen. Dizia, porém, que tinha febras de aço e nunca tomára remedios de botica. Muito myope, usava de monoculo redondo n'um aro de bufalo barato. Como era economico até á miseria, dizia-se em Pernambuco que o Feliciano usava um vidro só para não comprar dous; e que, se pudésse, venderia um olho como coisa inutil. Com a economia e o trabalho bem propiciado em trinta annos arredondára trezentos contos. Chegára aos quarenta e sete, ao outono da vida, sem ter amado. Nunca se conspurcára nos latibulos da Venus vagabunda. A sua virgindade era admirada e notoria; depunham a favor d'ella os seus caixeiros, os feitores e—o que mais é—as suas escravas. Os seus patricios devassos chamavam-lhe o Feliciano Pudicicio. Elle não se envergonhava de confessar a sua castidade ao parocho de Caldellas. Tinha vivido como um dessexuado;—que trabalhava muito nos seus armazens, que dormia poucas horas, e não dava folga ao corpo nem péga aos vicios. Originalissimo. Que lhe sahiram casamentos ricos; mas que elle para ser rico não tinha precisão de mulher; que vira algumas meninas pobres a namoral-o; mas que desconfiára que lhe namorassem o seu dinheiro. Não tinha queda para o sexo que elle dizia seixo. N'uma palavra, estava virgem. Elle podia dizer como Hamlet: Não me deleitam os homem não tão pouco as mulheres.
A sobrinha reformára aquella natureza aleijada. Talvez o desdem com que Martha o tratava na crise da sua paixão, fosse grande parte no amor do brazileiro. Além d'isto, a môça, muito parecida com elle na delgadeza das fórmas, tinha encantos que dispensavam a esquivança para se fazer amar de um homem de quarenta e sete annos—intacto de mais a mais. O presente que lhe fez de uma meada de cordões de ouro significava uma desordem, pelo menos interina, na sua condição sovina. Martha acceitou a dadiva sem enthusiasmo nem alegria. Lembrava-se que o pai a prevenira da possibilidade de ser mulher de seu tio, se adregasse gostar d'ella. Quando o tio lhe deu os cordões, teve-lhe uma nausea, um quasi odio, suspeitando-lhe os projectos; e quando elle fugiu para o Porto, com medo ás guerrilhas, sentiu ella uma satisfação incomparavel. Entretanto, apezar das más informações do brazileiro da Rita Chasca, o Feliciano sentia filtrar-se-lhe nas cellulas impollutas do coração o veneno dôce de uma paixão cheia de condescendencias, pouco superciliosa em pontos de honra, como quem pensa que no thalamo conjugal não se faz mister a virgindade em duplicado. Mas não era assim que elle pensava. Ninguem lhe desdourára a honra da sobrinha, nem o derriço com o José Dias fazia implicancia á sua honestidade. Elle não tinha os rudimentos de malicia necessaria para desconfiar que uma menina de dezeseis annos, creada nos seios da Natureza immaculada de uma aldeia do Minho, pudesse abrir de noite uma janella, debruçar-se no peitoril e ajudar a subir um homem. O official do pedreiro é que sabia casos, anomalias, desde aquella noite em que o luar o enganou.
Martha ouvira aterrada a noticia que o pai lhe deu da vontade do tio. Irritou-se. Tinha sido creada com muito mimo, sem mãe, voluntariosa, e com uns ares senhoris que desauctorisavam o respeito que o pai, rustico lavrador, não sabia incutir. Em vez de chorar como as filhas desgraçadas e humildes, respondeu desabridamente que não casava com o tio; que o desenganasse, se quizesse; e, se não quizesse, ella o desenganaria. A terrivel nota golpeára-lhe o coração cheio de saudades de José Dias que lhe escrevêra de Braga, por intervenção do padre Osorio, dando-lhe coragem e esperança no casamento logo que cessasse a guerra. Foi esse alento que a revoltou contra o pai quando elle instava com ella a casar com o tio, que era talvez, dizia, o homem mais rico de Portugal, abaixo do rei. Martha replicava com tregeitos de tedio desdenhoso; e, exaltada pela boçal insistencia do pai, protestava, se a apoquentassem, atirar-se ao rio como sua mãe.
O Simeão perdeu a vontade de comer; andava atordoado n'uma tristeza estupida a dar uns ais pela casa que pareciam mugidos de bezerro perdido na serra. A pequena já não queria ir á mesa, mettia-se na cama e fingia-se doente para não encontrar o tio Feliciano.
José Dias e o pai permaneciam em Braga, por que em differentes pontos da provincia continuavam as agitações miguelistas; o novo ministerio não tinha força, e o Zeferino das Lamellas nunca depozera as armas. Os seresinos faziam excursões e batiam os realistas ou prendiam os agitadores. José Dias, em uma d'essas sortidas a Villa-Verde, a pé e com pouca saude, ganhára uma bronchite que o teve de cama largo tempo. Quando se levantou, n'uma apparente convalescença, a tisica tuberculosa recrudescia pessimamente caracterisada. O padre Osorio fôra visital-o, ouvira o medico e sabia que o seu amigo estava perdido. Fallou ao pai, em particular, no estado do filho. Lembrou-lhe a sua promessa de consentir no casamento com a pobre Martha, que se perdêra confiada nos compromissos do José. O lavrador mostrou não perceber a conveniencia de Martha em casar, se o seu filho tinha de morrer cêdo.—Que a viuva, dizia, nada ganhava com isso, porque os herdeiros de José eram seus pais. Não comprehendeu a questão por outra face. Mas, apertado pela palavra que déra, repetiu que elle pela sua parte concedia a licença, se a mãe a désse; e justificava-se d'este respeito á mulher, allegando que a casa de Villalva era toda da sua companheira, e o que elle levára para o casal não valia dois caracoes.—Emfim, concluia, se o rapaz arrijar, casa querendo a mãe; mas, emquanto elle assim estiver, faça favor de lhe não fallar na rapariga... Bem lhe basta o seu mal... E um homem que está doente devéras não deve pensar em mulheres, é na salvação da sua alma. Eu penso assim, amigo padre Osorio.
—O vigario aprende o padre-nosso, dizia o de Caldellas.
Entretanto, o doente, muito animado, não sentia aquelles desalentos e presagios de morte que mezes antes o affligiam. Habituára-se ao soffrimento; já não tinha memoria das perfeitas delicias da saude. Quando espectorava sem violencia, e a dyspnea cedia aos xaropes e ao pez de Borgonha julgava-se em uma quasi completa restauração. Escrevia ao Osorio e a Martha com muita alegria e devotos agradecimentos a Deus e a Maria Santissima com quem se apegára fervorosamente desde que padecia, e tambem com o oleo de figado de bacalháo.
A repugnancia de Martha, face a face do tio Feliciano, seria um affrontoso desengano para o millionario, se não interviesse o implacavel e engenhoso ciume do Zeferino. Este chefe de guerrilha em armisticio soube que o brazileiro queria casar com a sobrinha e que o José Dias estava em Braga muito acabado, a dar á casca. O pedreiro chamou os bravos da sua jolda e fez-lhes saber que o brazileiro de Prazins pedira para Famalicão um regimento da divisão do Antas para deitar cêrco ás casas dos realistas, e sujeitára-se a sustentar o regimento á sua custa. Resolveram atacar o Feliciano, prendel-o como cabralista, e fazel-o pôr á má cara o dinheiro que havia de dar á tropa. Um dos da malta, visinho do brazileiro, o Metro, tinha-o convidado para padrinho de um filho. Procurou-o ás escondidas e avisou-o que se escondesse. Feliciano fugiu para o Porto a toda a pressa. Queria que a sobrinha tambem fosse. Escrevia-lhe que, se quizesse ir, compraria casa no Porto. Martha respondia que estava muito doente, que não podia sahir da cama. O pai chegava a descompôl-a:—Que não tinha molestia nenhuma, que era por causa do Zé Dias; mas que perdesse d'ahi a idéa por que estivera com o doutor Pedrosa, de Santo Thyrso, que o vira em Braga, e lhe dissera que o Dias estava ethego e mais mez menos mez esticava a canella.
Martha respondia com serenidade de alma forte, e escorada n'uma resolução suicida:—Se não casar com elle n'este mundo, casarei no outro.
—Que te leve o diabo!—resmungava o Simeão, riçando phreneticamente as suissas. Depois voltava manso e velhaco á beira do leito:—Olha, menina, teu tio está velho e esmagriçado. Aquillo não póde ir longe. Tu ficas p'r'ahi podre de rica, e podes casar depois com um fidalgo, se quizeres...
—Valha-me nossa Senhora!—murmurava Martha, pondo os olhos na litographia da Mãe de Jesus traspassada das sete espadas.—Quem me dera morrer.
A tisica do José Dias com as frialdades humidas de novembro entrou no segundo periodo. Recrudesceram as dôres de peito e a dyspnea, com accessos febris nocturnos. Expectoração esverdeada com istrias amarellas, e extrema magreza com repugnancia a todo o alimento. Pela auscultação ouvia-se-lhe o som gargarejado do fervor cavernoso. Os medicos disseram ao pai que o tirasse de Braga, das incommodidades da estalagem, e o levasse para casa onde lhe seria mais suave a morte na sua cama com a assistencia da familia. Foi para Villalva transportado n'uma liteira, e dizia ao pai que se sentia melhor, que respirava mais desafogado; e que, se ha mais tempo tivessem sahido de Braga, já elle estaria rijo.
A mãe, quando o viu entrar tão acabado, tão desfigurado, fez um berreiro descommunal, e não teve mão em si que não rogasse pragas á Martha, que lhe matára o seu querido filhinho. As visinhas concordavam:—que diabos levasse a mulher que o tolhêra!
O doente affligia-se, chorava como creança, e pedia ao pai que o deixasse ir para Caldellas, para casa do seu amigo; que não podia vêr a mãe; que lh'a tirasse de diante dos olhos; e que, se elle tivesse de morrer, que lh'a não deixassem ir á beira da sua cama. E fazia tregeitos furiosos, com os olhos a estalar das orbitas escavadas, incendido pela febre.
Chegou o padre Osorio, e o doente applacou-se sob as consolações calmantes do seu santo amigo. Deitou-se, com promessa de ir no dia seguinte para Caldellas; mas nunca mais se levantou, nem fez inuteis esforços.
Osorio não o desamparou. Ia á sua egreja dizer a missa dominical e voltava para Villalva com as respostas de Martha aos bilhetes que José lhe escrevia—poucas linhas em que ainda por vezes lampejavam alegres esperanças.
Toda a influencia de Osorio não conseguiu que o enfermo recebesse a mãe no seu quarto. Não lhe podia perdoar o odio que ella tinha a Martha; e bradava que a fazia responsavel perante Deus da deshonra da desgraçada menina. A velha escutava estes tremendos emprazamentos para a eternidade, e dizia de si comsigo, a beata:—bem me fio eu n'isso.
Por fim já não podia escrever, nem levantar a cabeça no travesseiro; mas perguntava ao Osorio se tinha noticias de Martha; que pedisse ao irmão que fosse lá, e lhe dissesse que elle estava mais doente, e não podia escrever.
Um d'esses recados motivou o bilhete que se copiou na Introducção d'este livro, e que o moribundo já não pôde lêr. Desde que a mãe lhe metteu á força dentro do quarto o vigario com a extrema-uncção, um homem de opa com a campainha, outro com a agua-benta na caldeirinha, mais dous com tochas, e outros com a sua devota curiosidade, o moribundo cahiu na modorra comatosa, e apenas, com longos espaços, tinha uns accessos sibilantes de ligeira tosse sêcca. Abria então os olhos que fitava no rosto de Osorio, e ás vezes circumvagava-os espavoridos como em busca da visão espectral da mãe que o vigario de Caldellas cuidadosamente e com doloroso constrangimento defendia de entrar á alcôva.
Em Prazins ouvia-se dobrar a defunto em Villalva. Martha perguntou ao pai quem tinha morrido.
Elle respondeu serenamente:—Dizem que foi o Dias que está com Deus. Reza-lhe por alma que é o que elle precisa agora.—Martha deu um grande grito, e com as mãos na cabeça, a correr, deitou a fugir pelos campos. Ella sabia onde era o remanso fundo do rio Ave em que a mãe se suicidára. O pai correu atraz d'ella, a gritar, que lhe acudissem. Fóra d'aldeia, andava uma roça de matto, com muitos jornaleiros que correram todos atraz de Martha, e a levavam quasi apanhada quando ella cahiu, a estrebuchar, em convulsões. Conduziram-na para casa com os sentidos perdidos, e puzeram mulheres a vigial-a na cama. Esta nova chegou a Caldellas. D. Thereza, a irmã do padre Osorio, foi com o irmão a Prazins, e convenceram o Simeão a deixar ir a filha para a companhia d'elles algum tempo.
Martha chorava muito, abraçando-se no amigo de José Dias; e elle, quando o lavrador com impertinencia dizia á filha «está bom, está bom», observava-lhe com azedumes:—Deixe-a chorar, deixe-a chorar!—E voltando-se para a irmã:—A estupidez é cruel!

XV
O Simeão de Prazins tinha sido antigamente regedor um anno; depois, cahido o ministerio e o governador civil que o nomeara, voltou ao poder o Joaquim de Villalva, cartista puritano, com a restauração da Carta. Duas restaurações boas. O Simeão lembrava-se com saudades da sua importancia no anno em que governára a freguezia—o respeito dos rapazes recrutados, as considerações dos taverneiros, que davam jôgo em casa, das raparigas solteiras que andavam gravidas, a auctoridade do seu funccionalismo na junta de parochia, etc. Ora, como o Joaquim de Villalva, desgostoso e doente com a morte do filho, pedira a demissão, o administrador nomeou a regedoria no de Prazins. O brasileiro achou que era bom ter de casa a auctoridade para maior segurança dos seus cabedaes e pessoa. Foi uma desgraça.
Depois do convenio de Gramido, Zeferino recolhêra ás Lamellas com alguns dos seus primitivos legionarios. Elle tinha passado trances amargos. Ajuntára-se ao aventureiro Reinaldo Mac-Donell, em Guimarães, quando o escossez descia do Marco de Canavezes para Braga; esteve nas barricadas da Cruz da Pedra quando o barão do Casal espatifou a resistencia d'aquelles desgraçados illudidos pelo caudilho estrangeiro; foi dos primeiros a fugir por Carvalho d'Este, a comprehender a inutilidade da defeza, e por montes e valles deu comsigo em Porto d'Ave, e d'aqui foi para Guimarães onde se aquartellaram o Mac-Donell com o seu estado-maior. Logo que chegou foi procurar o tenente-coronel Cerveira Lobo, que fazia parte do cortejo do general. Mandaram-o ao palacete do visconde da Azenha, onde o escossez se tinha aquartellado com o seu estado-maior. O Cerveira Lobo estava a beberricar cognac velho copiosamente sobre uma ceia farta, comida sem sobresaltos. Á mesa, onde faiscavam os crystaes dos licores, avultavam, scintillando os metaes das suas fardas, o quartel-mestre general Victorino Tavares, de Fagilde, José Maria de Abreu, ajudante de ordens, o morgado de Pé de Moura, o Cerveira Lobo e o Sebastião de Castro, do Covo, commandante do batalhão de voluntarios realistas de Oliveira de Azemeis, que arredondava 42 praças, e seu irmão Antonio Carlos de Castro, ajudante de ordens do general,—dois homens gentilmente valorosos;—o coronel Abreu Freire, morgado d'Avança, e o Bandeira de Estarreja que é hoje padre.
A noite era de 27 de dezembro de 1846, muito fria. Bebia-se forte. A garrafeira da casa do Arco era um calorifico. O Mac-Donell, muito rubro, n'aquella bebedeira chronica que lhe assistiu na vida e na morte, esmoía a ceia passeando n'um vasto salão, de braço dado com uma formosa senhora da casa, D. Emilia Correia Leite d'Almada. Dir-se-ia que o bravo septuagenario tinha vencido uma batalha decisiva, e procurava matizar com flores de Cupido os seus louros de Mavorte. E o Cerveira Lobo bebia e relatava proezas dos seus saudosos dragões de Chaves com gestos bellicos e as pernas desviadas como se apertasse nas côxas a sella de um cavallo empinado no fragor da peleja. N'isto entrou um camarada, ás 11 da noite, a chamar apressadamente o quartel-mestre general, que o procurava com muita urgencia um capitão de atiradores do batalhão do Populo.
O Victorino de Fagilde encontrou na sala de espera o capitão Pinho Leal,[9] um robusto e jovialissimo rapaz, de trinta annos, com uma fé politica, antipoda da sua forte intelligencia—uma especie de poeta medieval, com um grande amor romantico ás cathedraes e ás instituições obsoletas e extinctas. Elle tinha muitos d'estes camaradas visionarios e respeitaveis na sua phalange da Madre-Silva...
—Que ha?—perguntou o quartel-mestre general.
—Ha que estamos cercados pelos Cabraes. Os nossos piquetes de Santa Luzia e do Castello já foram atacados, e ouve-se fogo de fuzil em outros pontos. Veja lá o que quer que eu faça.
O Victorino ficou passado de terror, e levou o capitão á sala em que o Mac-Donell passeava pelo braço de D. Emilia Azenha, e o visconde, o hospedeiro fidalgo palestrava com numerosos hospedes, conegos, abbades, capitães-móres, antigos magistrados. Pinho Leal repetiu ao escossez o que dissera ao seu quartel-mestre. «O alma do diabo—escreve o snr. Pinho Leal ficou com a mesma cara imperturbavel, e disse-me: Isso não vale nada. Tenho tudo prevenido. Mande recolher a gente a quarteis.» Mas a dama assustada desprendeu-se do braço do general, e foi preparar os bahus para a fuga; e os do estado-maior compelliram o general a fugir tambem. Era uma hora da noite quando o exercito realista abandonou Guimarães e entrou na estrada de Amarante.
Pinho Leal inventára o ataque dos cabralistas para salvar-se a si e aos outros da carniçaria inevitavel; porque, ao romper a manhã do dia seguinte, entraram em Guimarães seiscentos soldados do Casal ainda embriagados da sangoeira de Braga. Reproduzem-se textualmente no seu estylo militarmente pittoresco os veracissimos esclarecimentos de Pinho Leal: ...«A bêsta do escossez continuava na sua panria sem se importar da guerra para nada, e o mesmo faziam os da sua «côrte». Eu, vendo que de um momento para outro, podiamos ser surpreendidos e trucidados pelos Cabraes, aproveitando a circumstancia de estar «superior do dia» e tendo na casa da camara um «supporte» de cem homens, commandados pelo alferes José Maria (o morgado do Triste) dei-lhe a ele somente parte do que ia pôr em execução. Escolhi da gente do «supporte» um sargento e quatro soldados da mesma companhia, de todo o segredo e confiança. Sahi com eles por um bêcco e fui com eles pela frente dar uma descarga no nosso piquete de Santa Luzia, e outra no piquete do Castello. Ao mesmo tempo, não sei quem é que estava num monte ao norte de Guimarães que deu uns poucos de tiros que muito ajudaram o meu plano. O «Triste» em vista da nossa previa combinação, mandou tocar a reunir e formou o supporte debaixo dos Arcos da Camara. Eu e os meus cinco homens viemos surrateiramente mettermo-nos na villa. Fui «passar revista ao supporte» a tempo em que já na Praça da Oliveira estava muita gente armada.»[10]
E d'ali, Pinho Leal foi á casa do Arco, afim de salvar aquelles homens que se ensopavam em bebidas de guerra numa pacificação de idiotas, e retardar alguns dias a benemerita morte do general escossez assalariado por Guizot com credenciais de Costa Cabral.
O Cerveira Lobo, quando soube que a força marchava á uma hora d'aquella noite frigidissima, encarregou o Zeferino de lhe comprar uma botija de genebra da fina, Fockink legitima. Tinha um frasco empalhado que punha a tiracollo nas marchas nocturnas. Encheu-o com ajuda do pedreiro. O tenente-coronel, n'um grande desequilibrio, não acertava a despejar a botija no frasco. O Zeferino dizia depois que o vira tão borracho que logo desconfiou que malhava abaixo do cavallo. O Cerveira affirmava que se sentia com os seus trinta annos; que andara a trote largo do seu cavallo treze leguas e não estava cançado. O Zeferino perguntou-lhe se o Casal os apanharia ainda de noite; se estaria tudo acabado com outra mastigada como a de Braga. Cerveira respondeu iracundo que o general era um asno, e que elle estava resolvido e mais o Victorino a matal-o como traidor ao snr. D. Miguel I.
Moveu-se o exercito em direitura á Lixa. O Cerveira ia no grupo do quartel-general. Mac-Donell, de vez em quando, regougava monossilabos em hespanhol ao quartel-mestre. O Cerveira retardava-se ás vezes um pouco e emborcava o candil, grogolejando e despegando pigarros teimosos. O Victorino notava-lhe que elle bebia de mais—que o calor da genebra não se espalhava pelo corpo, mas sim concentrava-se na cabeça—que era um perigo. O Cerveira dizia que estava affeito; mas queixava-se de dôres nas fontes e zunidos nas orelhas; que não se podia lamber com somno, e que dava cinco mil cruzados por estar na sua cama. E abaixando a voz tartamuda:—Este ladrão d'este inglez metto-lhe a espada até aos copos! Palavra d'honra que o mato ámanhã!
O Victorino deu tento de que o tenente-coronel gaguejava; mas attribuiu á embriaguez o embaraço na falla. Entrou a queixar-se o Cerveira de que estava tonto da cabeça, que se queria apear, por que não podia agarrar as redeas; e chamava com anciedade o Zeferino que vinha muito á retaguarda. O quartel-mestre general chamou um ajudante de ordens, e pediu-lhe que o ajudasse a apear o tenente-coronel. Cerveira Lobo dobrava o tronco ao longo do pescoço do cavallo que estranhava o peso e o sacudia, sentindo-se livre da pressão do freio.
O apopletico ia resvalar, quando os dois officiaes o ampararam nos braços, n'uma syncope. Um d'elles accende um palito phosphorico no lume do charuto, e disse que o tenente-coronel tinha o rosto inchado e muito vermelho. Chamavam-o, sacudiam-no; não dava signal de vida; nem um ronquido estertoroso. Inclinaram-o sobre um combro de matto molhado; não lhe acharam pulso; a bôca entortára-se, e os olhos muito abertos com umas istrias sanguineas. Estava morto, fulminado pela apoplexia alcoolica.
A respeito d'este desastroso remate do ebrio illustre, escrevo Pinho Leal: N'esta retirada pelas duas ou tres horas da noite, morreu em marcha com uma apoplexia fulminante o P...[11] Coitado! quando me lembra isto ainda tenho cá meus remorsos de consciencia. Quem sabe se seria eu a causa da morte d'aquelle pobre diabo? Consola-me porém a certeza de que—mesma que eu fosse a causa indirecta da morte do fidalgote, poupei muitas vidas de gente moça (e a minha que era o principal para mim); e o morto já poucos annos podia durar, pois estava no calçado velho.[12]
Zeferino e alguns homens da comitiva do Cerveira passaram o restante da noite á beira do cadaver do fidalgo de Quadros. Á claridade fusca da manhã invernosa viram-lhe o semblante que mettia pavor. Quizeram cerrar-lhe as palpebras que resistiam á distensão, coriaceas, n'um retezamento orgastico. A maxilla inferior parecia deslocada e torta, repuxando a commissura direita dos labios n'um esgar de escarneo ou de angustia dilacerante. A côr do rosto era agora d'uma amarellidão de barro, molhado pelo orvalho que se filtrára atravez do lenço com que lh'o cobriram. Tinha os dedos aduncos, inflexiveis e uma das mãos afincada como garra nas correias da pasta.
O Zeferino disse que o seu tenente-coronel devia trazer um cinturão com dinheiro em ouro; mas ninguem ousou desabotoar a farda do morto defendido pelo sagrado terror da morte. Apenas uma das sentinellas, intanguidas de frio, votou que se bebesse o resto da genebra. Assim que foi dia claro, o Zeferino desceu á egreja proxima, a Margaride, avisar o parocho que tinha morrido na estrada um fidalgo do exercito do snr. D. Miguel. O padre, estremunhado e liberal, respondeu que não era coveiro; que se dirigisse ao regedor. A auctoridade, sem as delongas dos processos legaes, depositou o cinturão com as peças na mão do administrador, e mandou abrir uma cova no adro da egreja, onde o baldearam com um responso economico. Passavam jornaleiros para as roças. Punham as enxadas no chão e encostavam ás mãos callosas as caras contemplativas. O regedor contava que lhe acharam mais de um conto de réis em ouro.
—Toma!—disse um dos jornaleiros—um conto de réis! E inclinando-se á orelha d'outro jornaleiro:—Ó Tonio, se temos ido mais cedo para o monte ... e topamos o morto...
—Que pechincha!...
Restos de virtudes antigas. Estavam a fazer um idyllio em prosa.
O Zeferino acompanhou a guerrilha até que mataram o general em Traz-os-Montes os soldados do Vinhaes; depois passou com alguns chefes realistas para a Junta do Porto; e, acabada a lucta, foi para casa e entregou a espada ao pai, que o recebeu com estas caricias:—Eu sempre te disse que eras uma cavalgadura! Que te não fiasses no bebado de Quadros; que não sahisses a campo sem lá vêr o morgado de Barrimáo. Agora, pedaço d'asno, torna a começar com as paredes, e tem cuidado que te não deitem a unha. Lembra-te que prendeste o regedor de Villalva, e quizeste agarrar o brazileiro de Prazins que tem agora de mais a mais o irmão regedor. Olha se te lembras... A mãe do José Dias anda por ahi a berrar que a Martha e mais tu lhe mataste o filho. Lume no olho, homem, lume no olho!
—Se alguem embarrar por mim, dou-lhe cabo da casta!—protestava o pedreiro cortando com o braço e punho fechado punhadas aereas.—Se me matarem ... até lh'o agradeço!—E com desalento: Sou o maior infeliz e desgraçado que cobre a rosa do sol! Veja você: ha tres annos que não tenho uma migalha de estifação, c'um raio de diabos! Isto acaba mal, digo-lh'o eu! Você verá, sôr pai, que ou me matam ou eu acabo n'uma forca pr'ámor d'aquella rapariga que foi o diabo que m'appareceu, e não me passa d'aqui!—e apertava o gorgomilo nodoso entre dois dedos como quem apanha uma pulga.
Os administradores de concelho receberam ordem de recolherem as espingardas reiunas que se encontrassem nas aldeias, em poder do povo. Para as cabeças dos districtos ramificaram-se destacamentos afim de coadjuvarem a auctoridade. Simeão de Prazins, como regedor, foi chamado a Famalicão e incumbido de dirigir a diligencia militar que devia dar um assalto a Lamellas, a casa do Zeferino, onde se haviam denunciado as espingardas com que alguns miguelistas se tinham recolhido, contra as condições estipuladas no protocolo de Gramido. O regedor comprehendeu o perigo da empreza; pediu que o demittissem; mas a auctoridade impoz-lhe com azedume o cumprimento dos seus deveres, e negou-lhe a demissão.
Quando o Zeferino, succumbido á carga dos revezes, indifferente á vida e á morte, se chamava infeliz e desgraçado, o destino implacavel preparava-lhe novo desastre. Elle, ao romper da manhã, depois de uma insomnia febril, sonhava que era sargento-mór das Lamellas e assistia á formatura do regimento de milicias de Barcellos debaixo do solar de D. Maria Pinheiro. Na janella gothica do velho edificio da época de D. Affonso IV estava D. Miguel I assistindo ao desfilar do seu exercito vencedor, em que havia muitas musicas marciaes, de fulgurantes trompas, tocando o Rei-chegou: e o abbade de Calvos, dentro de um carroção e vestido de pontifical, borrifava o povo com hyssopadas de agua-benta, cantando o Bemdito. As tropas estendiam-se até Barcellinhos, e pelo Cavado abaixo velejavam muitos barquinhos embandeirados de galhardetes com as bandas musicaes de S. Thiago d'Antas e de Ruivães tocando a Cana-verde e Agua leva o regadinho. Em um d'esses bergantins com pavilhão de colchas vermelhas vinha sentada a irmã do padre Roque, mestre de latim, com os seus oculos, a fazer meia; e ao lado d'ella, vestida de setim branco e borzeguins vermelhos dourados, com os cabellos soltos, vestida como os anjos da procissão da Senhora da Burrinha em Braga, a Martha de Prazins. Elle estava na ponte, absorto na visão da noiva que chegava pelo Cavado para se casar quando um visinho lhe bateu com o cabo da sachola na janella tres pancadas. Saltou da cama atordoado.
—Que fugisse pelo quintal que já estavam soldados a entrar nas Lamellas com o regedor.
Zeferino ganhou de prompto os desvios d'um pinhal, e por detraz d'um socalco enxergou o Simeão ao lado do sargento da escolta parar em frente da sua casa e apontar para as janellas. Ouviu bater estrondosas cronhadas no portal, e viu alguns soldados invadirem depois o quintal, e entrarem pela porta da cozinha que ficara aberta. Depois avistou a escolta a retirar-se com dous homens carregados de armas.
O velho alferes, entrevado, estava muito afflicto quando o filho entrou. O sargento quizera levar-lhe a sua espada; e compadecera-se d'elle quando o vira a chorar e a dizer-lhe que era um alferes do antigo exercito, e que o deixasse morrer ao lado da sua espada, já que elle não podia defendel-a porque estava tolhido.
O Zeferino perguntou pacificamente:
—E o Simeão que dizia?
—Não dizia nada. Eu é que lhe disse... Arrieiros somos, na estrada andamos, visinho Simeão.
O pedreiro quedou-se longo tempo sentado com as mãos afincadas na cabeça: olhava para o canto em que tivera duas duzias de espingardas compradas pelo Cerveira Leite, e dizia com resignação contrafeita:
—Ellas assim com'ássim já não serviam de nada... A guerra acabou ... Que leve o diabo tudo...—E, passados alguns segundos de recolhida angustia:—Veja você, sôr pai! O Simeão dá-me a filha, depois diz que m'a não dá; isto não se fazia a um homem que põe navalha na cara... Eu levava a minha vida muito direita, estava muito bem, você bem sabe; deitei-me a trabalhar quanto podia; e vai depois, por causa da minha paixão, fiquei areado do juizo, deixei a arte, andei por esse mundo a gastar á minha custa, ao frio e ao calor, em términos de me levar o diabo com uma bala; e vai agora o Simeão entra-me pela porta dentro, leva-me as armas, e, se me pilha, mettia-me uma baioneta no corpo...
—Homem—atalhou o pai com juizo—não fosses tu lá a Prazins embirrar com o brazileiro...
—Eu tenho a minha paixão—objectou o filho com transporte—tinha cá dentro do peito esta navalha de ponta espetada; e elle ... que mal lhe fiz eu p'ra me querer mal?... Sabe você que mais?... Assim com'ássim, estou perdido...
Sahiu arrebatadamente e foi para o Monte Cordova conversar com o Patarro, um velho scelerado que se batêra em Braga com a cavallaria do Casal e pudéra salvar-se com o sacrificio de tres dedos e do nariz acutilados.
Na semana seguinte, quarta-feira, era o mercado de Famalicão. O regedor tinha comprado duas juntas de bois para o caseiro da Retorta, uma quinta solarenga, torreada, com o brazão dos Brandões, que o brazileiro comprára a um fidalgo de Afife. O negocio deitára a tarde. Simeão sahira ao desfazer da feira com o caseiro da Retorta e mais dous lavradores d'outra freguezia que montavam eguas andadeiras de muitos brios. O Simeão cavalgava a sua velha russa, d'uma pachorra mansa, invulneravel á espora. Recebia as chibatadas encolhendo os quadris e andando para traz. Ella não podia manifestar de um modo mais sensivel a sua repugnancia pelas pressas. O dono gabava-se de só ter cahido juntamente com ella poucas vezes. Sahiram da feira conversando a respeito de Martha. Constava aos outros que ella se quizera matar á conta do José Dias. O Simeão achava que sim, que ella quizera atirar-se ao rio; mas que estava quasi boa em Caldellas; que o vigario e mais a irmã lhe tinham dado um geito ao miôlo; e logo que ella estivesse fina, casava com o tio.
—E elle quél-a? — perguntou o Bento de Penso.
—Pois então!... Tomára-a elle já.
—Emfim—tornou o Bento—você ha-de perdoar que eu lhe diga o que tenho cá no sentido. O povo diz que o Dias entrava lá de noute. Eu não vi, mas é o que diz o povo. Ora um home sempre se atriga de casar com mulher de maus cretos. O seu brazileiro pelos modos é de bô comer...
—Tem bô estomago, é o que é—confirmou o Belchior da Rechousa.
O Simeão não estranhava estas franquezas muito triviaes nas aldeias ainda immaculadas do resguardo das conveniencias; mas defendia a honra da filha, attribuindo ao Zeferino as calumnias que espalhava para se vingar.
—Emfim—disse o Belchior—você tinha-lh'a dado por quinze centos. É o que diz o povo, e palavra d'home não torna a traz.
—Isso cá da minha parte foi chalaça...—defendia-se o Simeão, quando tres homens, mascarados com lenços, fincando as argolas dos paus no caminho, saltaram de uma ribanceira, á frente das tres eguas que caminhavam a passo. Um dos tres jogou uma paulada á cabeça do Simeão e derrubou-o.
Os dois lavradores das eguas travadas deram de calcanhares e pareciam dois duendes de comedia magica vistos á luz crepuscular. O caseiro abandonou as sôgas dos bois, galgou paredes e searas em desapoderada fuga até Famalicão, e á entrada da villa gritou—aqui d'el-rei ladrões! Contou o successo ao povo alvorotado, acudiu a auctoridade, encheu-se a estrada de gente em cata de Simeão e da malta dos ladrões. Acharam-o prostrado, de costas, arquejando, com a cara empastada de sangue que borbotava empoçando-se dos dois lados da cabeça. A egua rilhava entre os dentes e o freio umas vergonteas tenras de tojo, e de vez em quando tossia a sua pulmoeira com os ilhaes enfolipados. O Futrica, um ferrador da Terra Negra, examinou a cabeça do ferido, e disse que tinha o miôlo á vista; não podia durar muito, que lhe dessem a santa uncção. Pediu-se uma padiola ao lavrador mais proximo e levaram-o para Prazins promettendo duas de doze a dous jornaleiros. O caseiro montou a egua para ir a Santo Thyrso chamar o Baptista, o cirurgião da casa; mas a burra estranhando as esporas dos tamancos, levantou-se com o cavalleiro, deixou-se cahir sobre os jarretes trazeiros, voltou-se de lado como quem se ageita para dormir: foi necessario levantal-a. O povo dava risadas estridentes quando o caseiro puxava debaixo do ventre da egua a perna entalada, muito cabelluda; e alli perto estava a padiola com um velho gemente, agonisante, a pedir a confissão.
Assim que a padiola entrou em Prazins, foi aviso á Martha que o pai estava a morrer com pancadas que lhe deram os ladrões de estrada. D. Thereza e o prior acompanharam-a. Quando chegaram, sahia o parocho de o confessar e tocava o sino ao viatico. Havia uma agitação de angustiosa curiosidade no povo que confluia á egreja chamado pelo signal. Dizia-se que eram ladrões que sahiram ao lavrador em S. Thiago d'Antas; havia opiniões mais individualistas: segredava-se o nome do pedreiro; um pastor de cabras dizia que vira passar de madrugada para as Lamellas o Patarro de Monte Cordova e mais outro mal encarado; mas todos é uma diziam que não tinham visto nada, nem queriam saber de desgraças, com medo á malta do Zeferino.
O Simeão estava ainda com a face arregoada de sangue, vestido sobre a cama, resfolegando com muita anciedade, gemendo com dôres, e a cabeça um pouco elevada sobre um magro travesseiro muito comprido dobrado em tres pelo vigario. Esperava-se o cirurgião. A filha teve um desmaio quando viu a cara ensanguentada do pai, á luz mortiça de uma vela de cebo n'uma placa de lata. D. Thereza com a Martha nos braços, disse ao irmão:—Que miseria de casa! Pede luzes e agua para se lavar aquelle sangue.—E, assim que Martha voltou a si, levou-a para o seu quarto,—que a viria chamar quando o pai a pudésse vêr. Queria retiral-a do espectaculo dos paroxismos.
Quando chegou a extrema-uncção com o prestito clamoroso do Bemdito e o tilintar espacejado da campainha, Martha carpia-se em altos gritos, e pedia que a deixassem despedir-se de seu pai.
Ella tinha ouvido dizer a uma das visinhas que lhe invadiram a alcôva:—quem lhe bateu, ó mulheres, não foi outro senão o Zeferino das Lamellas. Juro que não foi outro.—Esta affirmativa cravou-lhe no coração o remorso de ser ella a causa da morte do pai. Queria ir pedir-lhe perdão; rogava á sua amiga que pelas chagas de Christo a deixasse ir ajoelhar-se á beira de seu desgraçado pai. D. Thereza conteve-a, receando novo ataque de loucura; que esperasse que se fizesse o curativo; que o cirurgião não queria no quarto senão o barbeiro que lhe estava a rapar a cabeça.
Pouco depois chegava o tio Feliciano da quinta da Retorta, onde residia assistindo ás obras. Vinha aterrado. Disse ao Osorio que já estava arrependido de comprar a quinta; que Portugal era uma ladroeira e um bando de faccinoras; que se ia embora muito breve. E, entrando no quarto onde a sobrinha chorava, disse-lhe consternadamente que, se morresse o pai, fizesse de conta que tinha em seu tio um segundo pai.
O cirurgião sahiu desconfiado do ferimento. Uma das pauladas despegara um pedaço de tegumento, deixando descoberto o craneo que o ferrador da Terra Negra chamára o miôlo. A hemorrhagia era grande, e havia receio de commoção cerebral. O facultativo, depois de o sangrar, mandou-lhe pôr pannos molhados na cabeça, de quarto em quarto de hora. Martha e Thereza não abandonaram um momento o catre do enfermo; o padre Osorio passou a noite na saleta attendendo o brazileiro que lhe fallava muito na sobrinha, na paixão que ella tivera pelo José Dias, e não lh'o levava a mal, pelo contrario.
Ahi pela madrugada o ferido sentiu-se muito angustiado, tinha estremecimentos, dizia disparates; queria arrancar os pachos da cabeça, bracejava, e puxava para o peito a face da filha lavada em lagrimas. O padre acudiu e mais o Feliciano; receavam que elle estivesse agonisando. Depois aquella agitação esmoreceu n'um dormitar sobresaltado, com a cabeça no regaço de Martha que brandamente lhe compunha o pacho na ferida. Quando espertou da modorra conheceu a filha, e repelliu-a. Fallou no pedreiro que o matára, e recahiu no estado comatoso. O padre Osorio attribuia aquella somnolencia a derramamento de sangue no craneo, um symptoma de morte provavel. O cirurgião veio de madrugada, mandou-lhe deitar sanguesugas atraz das orelhas, e disse ao vigario do Caldellas que estava mal encarado o negocio; que aquelle diabo de somno lhe parecia de máo agouro. Que ia vêr uns doentes e voltava logo.
Martha fazia muitas promessas á Senhora da Saude; dez voltas de joelhos ao redor da sua capella, um resplendor de prata, jejuar a pão e agua seis mezes a fio, não comer carne durante um anno, ir descalça á romaria da milagrosa Senhora. Com estas promessas sentia-se menos opprimida do seu remorso; o pai estava ali a morrer por causa d'ella, e a Maria de Villalva já dizia tambem que fôra ella a causa da morte do seu filho. Uma desgraçada, que vinha assim a causar a morte do noivo e do pai.
O ferido teve uma intermittencia de repousada vigilia. Olhou para a filha, e disse-lhe que morria, que a deixava sem pai nem mãe. O Feliciano acudiu:
—Isso não lhe dê cuidado, mano Simeão. Nada lhe ha-de faltar. É minha sobrinha; não tenho mais ninguem n'este mundo.
—Eu morria contente—balbuciou o Simeão lacrimoso—se ella fosse sua mulher...
Fez-se um silencio exquisito. Martha abaixou os olhos; a D. Thereza olhou para o irmão a vêr o que elle dizia; o padre Osorio olhava para o brazileiro a vêr como se expressavam as suas idéas; o Feliciano esperava que os outros dissessem alguma coisa. E então o pai de Martha, aconchegando-a de si, com muita ternura:
—Casas com o teu tio, minha filha? É o ultimo pedido que te faço...
Martha fez um gesto affirmativo, e cahiu de joelhos, curvada sobre o leito, a soluçar; depois, deu um grito e escorregou para o chão, em convulsões, com o rosto muito escarlate e a bocca a espumar. D. Thereza e o irmão conduziram-a ao seu quarto. Deitaram-a já socegada, mas n'uma rigidez insensivel, com a bocca ligeiramente torta.
O cirurgião chegava n'esta conjunctura e disse que a rapariga herdára a molestia da mãe, que eram ataques epilepticos; e ao tio Feliciano disse-lhe particularmente que o peior da herança não era a epilepsia; era a demencia que levou a mãe ao suicidio. Que a rapariga era fraca, e tinha sido creada com umas mimalhices de menina da cidade, que estragam o corpo e a alma; que era preciso ter muito cuidado com ella, não a affligir, distrahil-a, casal-a, emfim, que seria bom casal-a, e dar-lhe vinagre a cheirar, quando viesse outro ataque, e ter cuidado que ella não apanhasse a lingua entre os dentes; que lhe mettessem um panno entre os dois queixos, quando lhe désse outro ataque.
—Elle disse que o melhor era casar-se—lembrou o Feliciano ao padre Osorio.

XVI
Relatava o vigario de Caldellas:
—O cerebro do Simeão, se era refractario aos golpes da dignidade, não era mais sensivel ás commoções das pauladas. Duas vezes feliz quanto á cabeça: nem honra nem predisposições inflammatorias. Cicatrisou a ferida; começou a comer gallinhas com a fome de um cannibal e com o prazer carnivoro d'uma raposa. Dera tacitamente Martha o consentimento de casar com o tio; esperava em soturno abatimento que a casassem; e, se minha irmã lhe tocava n'esse assumpto, dizia: «Façam de mim o que quizerem... Para o que eu hei-de viver ... tanto' me faz...» Quanto ao casamento, proseguiu o padre Osorio, eu scismava se a primeira noite nupcial seria a véspera de escandalosas desavenças, arrependimentos, choradeiras, divorcio, vergonhas, coisas; mas occorria-me que Feliciano me confessára repetidamente que sahira da sua aldeia aos doze annos e tornára casto e puro como sahira. E eu então, attendendo a que a castidade, além de ser em si e virtualmente uma coisa boa, tem umas ignorancias anatomicas, e umas inconscientes condescendencias com as impurezas alheias, descançava, tranquillisava o meu espirito escrupuloso. Uma falsa comprehensão da honra alheia ás vezes me aconselhava que mandasse o brazileiro conversar sobre o assumpto com o operario que o luar enganára em certa noite; mas a honra, como a consciencia, não são quantidades constantes no geral das pessoas; são condições da alma tão variaveis como a materia exposta ás mudanças climatericas. Ora as condições mentaes e moraes de Feliciano Prazins eram as melhores e as mais garantidas para a sua felicidade. Com que direito ia eu estragar aquelle excellente organismo?
Até aqui o padre Osorio com a sua grande pratica ethnologica dos usos e costumes dos maridos sertanejos do Minho.
O mano lavrador não era mais apontado em melindres de pundonor. Assim como curára em silencio o coração, golpeado pelas deslealdades da defunta Genoveva, do mesmo modo se acommodára com os estragos soffridos nos tegumentos da cabeça. Dizia-lhe o administrador que querelasse contra o Zeferino, porque havia testemunhas indicativas que faziam prova. Não quiz.—Depois é que me dão cabo do canastro;—dizia com um dom prophetico, e circumspecção admiravel em um homem sem instrucção primaria.
No entanto, Zeferino debatia-se n'um azedume de desesperado, muito má lingua, insano de paixão, a degenerar para faccinora em theorias de escavacar meio mundo. Começou a superar-lhe nas entranhas o vicio do pai com sêdes ardentes de vinho do Porto e genebra. Sentia allivios, consolações ineffaveis, quando se embebedava; rejuvenescia; a vida encarava-se-lhe melhor. Arranchava com vadios nas noitadas das tavernas onde se jogava esquineta e monte. Trocava na mesa da tavolagem peças de duas caras que comprára no tempo em que amealhára dez mil cruzados com dez annos de trabalho. Os parceiros roubavam-no. Vinham de noite de Famalicão a Landim, perto das Lamellas, jogadores professos, armar a forquinha ao pedreiro com cartas marcadas e pêgo. Depois das perdas, quando se via atascado na esterqueira do jogo e da borracheira, embriagava-se de novo, e n'essas allucinações ia a Prazins, de clavina ao hombro, com o Tagarro de Monte Cordova, e fallava alto, com petulancia, para que Martha o ouvisse. O brazileiro e o Simeão tinham-lhe medo e não abriam as janellas depois do sol-posto.
Espalhou-se então a noticia de que o brazileiro ia effectivamente casar com a sobrinha.
O Zeferino escreveu ao Feliciano uma carta anonyma, que era um traslado augmentado do depoimento do pedreiro que vira o José Dias saltar da janella. E por fim ameaçava-o—que se casasse com a Martha, não a havia de gosar muito tempo. O Feliciano mostrou a carta ao irmão. Concordaram que era o pedreiro com a sua paixão, damnado de raiva. O brazileiro entrou a scismar que o scelerado era capaz de levar a vingança ao cabo—bater-lhe, matal-o. Os tiros desfechados á sua honra de marido de Martha resvalavam-lhe na coiraça da consciencia: «eu sei o que faço» dizia elle; mas a idéa de um tiro ao seu physico, inquietava-o devéras. «É preciso dar cabo d'este ladrão» dizia o brazileiro ao mano, n'um grande mysterio.
Lembrou-lhe o seu compadre, o Francisco Melro da Pena, um taverneiro de olhos estrabicos, d'alcunha o Alma-negra, um que o tinha avisado, quando a malta da patuleia tencionava agarral-o. O Melro rompera relações com o Zeferino, por causa da partilha de uns dinheiros apanhados na mala do correio de Guimarães, e dizia hyperbolicamente ao seu compadre que o Zeferino, quando andára na patuleia, era ladrão como rato.
O Melro era má bisca. Estivera tres annos na Relação como cumplice em um homicidio que se fizera na sua tasca. Vivia apertadamente com mulher e quatro filhos, e não cessava de pedir emprestimos ao compadre desde que o avisara. Quando o Simeão foi espancado, o Melro logo lhe disse em segredo que quem lhe batêra fôra o Zeferino, com as costas guardadas por dois pimpões do Monte Cordova. E accrescentou:—Elle bem sabe a quem as faz. Havia de ser commigo eu com pessoa que me doesse...
O Feliciano deu um passeio para os lados da Pena, onde morava o compadre. Disse-lhe que ia vêr a quinta da Commenda que se vendia; que lh'a fosse mostrar. Conversaram; e, no regresso, pararam em frente de uma casa com tres janellas e um quintal espaçoso.
—É aqui, disse o Melro.
O brazileiro poz o monoculo e leu um bilhete pregado na porta com quatro tachas: Domingo, ás 10 da manhã, depois da missa, vai á praça a quem mais dér sobre a avaliação judicial de 500$000 réis esta casa, dizima a Deus, para partilhas. O Feliciano leu, retirou-se apressado para que o não vissem, murmurando quaesquer palavras a que o compadre Melro respondeu:
—Vossoria então está a lêr! Tão certo tivesse eu o céo como tenho a casa...
Feliciano seguiu para Prazins e o Melro disse aos freguezes da taverna que o seu compadre ia comprar a quinta da Commenda, e que estivera a lêr o escripto da casa do Cambado que se vendia, e dissera que talvez a comprasse para a dar a um afilhado ...
—Ao teu pequeno?!—perguntavam.
—Pois a quem ha-de ser! Aquillo é que é um homem ás direitas!
—Elle não sabe o que tem de seu. Tanto lhe monta dar-te a casa como a mim pagar-te um quarteirão d'aguardente—encareceu um pedreiro.—Anda agora a trabalhar no palacio da Retorta. Que riqueza! Parece um mosteiro. Pelos modos vai para lá viver logo que case com a Martha. Lá o mestre Zeferino rebenta que o leva os diabos! Isso diz que dá cada arranco...
—O Zeferino, a fallar a verdade, tem razão—disse o Melro.—O Simeão tinha-lh'a promettido. Gente sem palavra que a leve o diabo! Eu, se fosse commigo... Mas, emfim, é irmão do meu compadre ... não devo dizer nada. Que se governem.
O Melro, ás 8 da noite, quando os freguezes desalojaram, fechou a taverna; e, espreitando se os pequenos dormiam, disse á mulher:—A casa do Cambado é nossa, mas é preciso vindimar o Zeferino...
—Credo!—exclamou a mulher com as mãos na cabeça.—Nossa Senhora nos acuda!
—Leva rumor!—e punha o dedo no nariz.
—Ó Joaquim, ó marido da minha alma, alembra-te dos tres annos que penaste na cadeia! Olha para aquelles quatro filhos!...
—Já te disse que me não cantes—e relançava-lhe o seu formidavel olhar vêsgo incendido com os lampejos da candeia em que afogueava o cachimbo de páo. Depois, foi tirar d'entre a cama de bancos e a parede uma velha clavina. Sentou-se á lareira e disse á mulher que tivesse mão na candeia. Enroscou o sacatrapo na ponta da vareta de ferro e descarregou a arma, tirando primeiro a bucha de musgo, e depois, voltando o cano, vazou o chumbo na palma da mão.
—Ó Joaquim, vê lá o que vaes fazer!—insistia a mulher, limpando os olhos com a estopa da camisa. E elle, assobiando o hymno da Maria da Fonte, despejava a polvora da escorva, desaparafusava a culatra e tirava as duas braçadeiras. A mulher soluçava, e elle cantando n'uma surdina rouca:
Leva ávante, portuguezes, Leva ávante, e não temer...
—Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos.
E o Melro n'uma distracção lyrica:
Pela santa liberdade, Triumphar ou padecer...
Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido da culatra para sentir a pressão do sopro, que fazia um fremito aspero impedido pelas escorias nitrosas. Pediu á mulher umas febras d'algodão em rama, enroscou-as n'uma agulha de albarda e escarafunchou o ouvido do cano.—Está suja—disse elle—dá cá um todo—nada de aguardente.
—Joaquim, vamo-n'os deitar, pelas almas. Não te desgraces!
—Traz aguardente e cala-te, já t'o disse, mulher, com dez diabos!—E poz-se a assobiar a Luizinha. Enroscou algodão embebido em aguardente no sacatrapo e esfregou repetidas vezes o interior do cano até sahirem brancas e seccas as ultimas farripas da zaracotea. Soprou novamente e o ar sahia sem estorvo pelo ouvido com um sibillo egual. Parecia satisfeito, e cantarolava, mezza voce:
Agora, agora, agora, Luizinha, agora.
Armou a clavina, aparafusou as braçadeiras, a culatra e a fecharia, introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o cão repetidas vezes, acompanhando o movimento com o dedo pollegar, para certificar-se de que o desarmador, a caxêta e o fradête trabalhavam harmonicamente. Levantou o fusil de aço que fez um som rijo na mola e friccionou-o com polvora fina; e, com o bordo de um navalhão de cabo de chifre, lascou a aresta da pederneira que faiscava.
—Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem!—soluçava a mulher.
E elle, zangado com as lastimas da mulher, com expansão raivosa, n'um sfogato:
E viva a nossa rainha, Luizinha, Que é uma linda capitôa...
—Vai á loja atraz da ceira dos figos e traz o masso dos cartuchos e uma cabacinha de polvora de escorvar que está ao canto.
A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocações ao Bom Jesus de Braga, e ás almas santas bemditas. Elle encarou-a de esconso, e regougou:—Máo! ... máo!...
Carregou a clavina com a polvora de um cartucho; bateu com a cronha no sobrado, e deu algumas palmadas na recamara para fazer descer a polvora ao ouvido. Fez duas buxas do papel do cartucho, bateu-as com a vareta ligeiramente, uma sobre a polvora e a outra sobre a bala.
Agora, agora, agora, Luizinha, agora.
Depois, pegou da clavina pela guarda-matta, e poz-se a fazer pontarias vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao ponto.
A mulher fôra sentar-se no sobrado, á beira da enxerga de tres filhos a chorar; o mais novo esperneava, dava vagidos na cama a procural-a. O Alma negra fôra dentro beber uns tragos de aguardente, voltou enroupado n'um capote de militar, despojo das batalhas da Maria da Fonte.—Ora agora—disse elle—ouvistes? porta da cozinha e a cancella da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal.
—Vai com Nossa Senhora—disse a mulher—e poz-se de joelhos a uma estampa do Bom Jesus a rezar muitos Padre-nossos, a fio.
Era uma noite de fevereiro, de nevoa cerrada, um céo de carvão pulverisado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma estrella. Não se agitava um galho de arvore nua movido pelo ar nem ondulava uma erva. Era a serenidade negra e immota das catacumbas. Ás vezes rugia nas folhas ensopadas de nebrina no chão esponjoso das carvalheiras a fuga rapida das hardas, dos toirões e das raposas que se avisinhavam do povoado a fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro estremecia e punha o dedo no gatilho. O restolhar d'um gato bravo, o pio da coruja no campanario distante punham arrepios de medo na espinha d'aquelle homem que ia matar outro—chamal-o á janella e varal-o á traição com uma bala.—Era o traçado.
—Que raio de escuro!—dizia, esbarrando nos espinheiros perfurantes.
Em noites assim, o universo seria o immenso vacuo precedente ao Fiat genesiaco, se os viandantes não esbarrassem com as arvores e não escorregassem nos silvêdos das ribanceiras. O noctivago sente na sua individualidade, nos seus callos e no seu nariz, a doce impressão pantheista das arvores e dos calháos. Que este globo está muito bem feito. Os transgressores do descanço que Deus estatuiu nas horas tenebrosas, os scelerados das aldeias que larapeam o presunto do visinho, que fisgam a moça incauta ou empunham o trabuco homicida, se não temem encontrar as patrulhas civicas das grandes municipalidades, encontram os troncos hostilmente nodosos das arvores que são as patrulhas de Deus. Alguns, porém, protegidos pelo Mephisto a quem venderam a alma pelo preço da consciencia eleitoral, ou mais barata, chegam incolumes ao delicto, passando illesos como o lobo e o javali por entre os troncos das carvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a esbracejarem retorcidos n'uma agonia patibular.
O Melro, como o porco montez e o lobo cerval, embrenhára-se por pinhaes e carvalheiras; ás vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos gallos tresnoitados e latir dos cães. Ao fundo das bouças ladeirentas, rugia o rio Pelle nos açudes das azenhas e nas guardas dos pontilhões. Lamellas era da parte d'além. Mas o rio, de monte a monte, rugia intransitavel nas pequenas pontes. Foi á de Landim, uma aldeia engravatada, onde ainda se avistavam clarões de luz nas vidraças das familias distinctas que jogavam a bisca em ricos saráos do faubourg Saint-Honoré, com uns deboches sardanapalescos de sueca a feijões.
Havia também um rumorejo de vozes que altercavam na taverna do Chasco. Tinha dinheiro lá dentro. Jogava-se o monte.
O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, pé ante pé, do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro. Era elle quem reclamava um quartinho que puzéra de porta, e o banqueiro recolhêra com as paradas que estavam dentro, quando tirou a contraria de cara.
—Que não admittia ladroeiras!
E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaças a respeito de ladroeiras; que todos os que estavam d'aquella porta para dentro eram cavalheiros. O Zeferino replicava que não queria saber de cavalheiros; que queria o seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem queria roubar que fosse para a Terra Negra.
A allusão era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos cavalheiros alguns veteranos da antiga quadrilha do Faisca, na Terra Negra, muito desfalcada pelo degredo e pela forca. Travou-se a lucta a sôco e páo; havia lampejos de navalhas que davam estalos nas mollas; o Tagarro de Monte Cordova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois galhos do baralho com um murro herculeo, phenomenal. O taberneiro abriu a porta para escoar o turbilhão. Elles sahiram de roldão; e, quando entestaram com a treva exterior, quedaram-se cegos como n'um antro de caverna. Um, porém, dos que estavam, não sahiu; encostára-se ao mostrador com as mãos no baixo ventre, gritando que o mataram; e, vergando sobre os joelhos, n'um escabujar angustioso, cahiu de bruços, quando o taberneiro e o Tagarro o seguravam pelos sovacos. Era o Zeferino.
Quando, á meia noute, o Alma-negra entrava em casa pela porta do quintal, encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom Jesus do Monte. Ao lado d'ella estavam duas filhas a rezar tambem, a tiritar, embrulhadas em uma manta esburacada, aquecendo as mãos com o bafo.
O Melro mandou deitar as filhas, e foi á loja contar á mulher, livida e tremula, como o Zeferino morreu sem elle pôr para isso prego nem estopa. Ella poz as mãos com transporte e disse que fôra milagre do Bom Jesus; que estivera tres horas de joelhos diante da sua divina imagem. O marido objectava contra o milagre—que o compadre não lhe dava a casa, visto que não fôra elle quem vindimára o Zeferino; e a mulher—que levasse o demo a casa; que elles tinham vivido até então na choupana alugada e que o Bom Jesus os havia de ajudar.
Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o compadre, depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse:
—Emfim, você ganha a casa, compadre, porque mátava Zéférino, se os outros não matam elle, hein?

XVII
Celebrou-se o casamento na capella da quinta da Retorta. Foi o vigario de Caldellas o ministro do sacramento, D. Thereza madrinha, e o padrinho veio do Porto, o barão do Rabaçal, um gordo, casado com as brancas carnes velludosas da filha do Eusebio Macario. O padrinho, muito faceiro, dizia ao Feliciano:—Mi pérdoe, amigo Prázins, você si casa com minina mágrita, muito sêcca di encontros. A mi mi dá na tineta para gostar das redondinhas, hein? É a minha philosophia. A mulher si quer roliça, de manêras que a gente ache nos braços ella.
O devasso fazia córar o casto noivo. A Martha, á sobremesa, não lhe percebia umas graçolas obrigatorias em bodas canalhas, que faziam nauseas á aristocratica D. Thereza, muito pontilhosa em não admittir equivocos. O vigario achava no barão a salôbra brutalidade que faz nos intelligentes a cocega do riso que o Cervantes, o Rabelais, o Swift e o portuguez snr. Luiz d'Araujo nem sempre conseguem quando querem.
A Martha, n'uma tristeza inalteravel, desde que sahiu da egreja. Ao fim da tarde, fechou-se com D. Thereza no seu quarto, abriu o bahu, e tirou do fundo o pacotinho das cartas do José Dias, e disse-lhe:—A senhora ha-de guardal-as; e, quando eu morrer, queime-as, sim?
—E se eu morrer adiante de ti?—perguntou D. Thereza risonha.
—Diga então ao snr. padre Osorio que as queime: porque olhe—e abraçou-se n'ella a chorar, a soluçar—eu ... eu morro, ou endoudeço. Cheguei a esta desgraça; estou casada para fazer a vontade a meu pai, cuidando que elle morria; não sei como hei-de sahir d'isto senão acabando de vez ou perdendo o juizo como a minha mãe ... bem sabe como ella acabou.
D. Thereza Osorio banalmente a consolava com o vulgarismo das coisas que se dizem ao commum das meninas casadas com maridos repugnantes e ricos.—Que se havia de affazer, que tudo esquecia com o tempo. Ella, um pouco aristocrata por bastardia, não acreditava em melindres de sentimentalidade na filha do lavrador parrana e da Genoveva da vida airada. O apaixonar-se pelo Dias, um bonito rapaz d'aldeia, parecia-lhe trivial; tentar suicidar-se quando elle morreu, para uma senhora lida em novellas romanticas, era um caso ordinario e pouco significativo; porém, condescender com a vontade do pai, casando com o tio, pareceu-lhe um acto de condição plebea, a natureza reles da filha do Simeão que afinal dominava estupidamente as indecisas manifestações de uma indole artificialmente delicada.
O padre comprehendia mais humanamente Martha, dizendo á irmã:—Ella quando consentiu em casar com o tio já estava doente da molestia nervosa que a ha-de levar ao suicidio. D. Thereza, com o seu criterio um pouco adulterado pelas excentricas heroinas de Sue e Dumas, não podia entroncar aquella rapariga d'uma aldeia minhota na genealogia d'essas parisienses naufragadas em romanescas tempestades. E de mais, se Martha, como o irmão dizia, estava sob a influencia da loucura, a sua desgraça parecia-lhe uma doença e não uma tragedia, segundo as exigencias de uma senhora que tinha lido o mais selecto da bibliotheca romantica franceza desde 1835 a 1845—tudo o que ha de mais falso e tolo na litteratura da Europa. D. Thereza queria mais drama na desgraça de Martha; porque, se alguma poesia elegiaca lhe concedêra pela tentativa de matar-se, toda se resolvia em chilra prosa pelo facto de a imaginar no thalamo conjugal com o arganaz do tio.
Eram horas de deitar. O padre tinha ido para Caldellas a fim de dizer a missa de madrugada, e deixára a irmã a pedido de Martha; o barão do Rabaçal escancarava a bocca n'uns bocejos ruidosos e levantava uma perna espreguiçando-se; o noivo olhava para o mostrador do relogio collado aos olhos; e Martha, muito aconchegada de D. Thereza. queixava-se de caimbras; que lhe zuniam coisas nos ouvidos, que via faiscas no ar, e tinha muito calor na cabeça. D. Thereza dizia-lhe que se fosse deitar, que precisava de recolher-se. Martha pedia-lhe que a deixasse ir dormir ao pé d'ella, pedia-lh'o pela alma de sua mãe, pela vida de seu irmão.
A hospeda comprehendia, compadecia-se, receava o ataque epileptico, precedido sempre das faiscas e caimbras de que se queixava a noiva; mas não sabia como dirigir-se ao marido de Martha a pedir-lhe que se fosse deitar sósinho. Nos seus numerosos romances não achára um episodio d'esta especie. Interveio na critica conjunctura o Simeão, dizendo á filha:
—São horas de ir á deita. O teu marido está a cahir com somno.
Martha fixou o pai com os seus olhos esmeraldinos rutilantes de colera, n'um arremesso de cabeça erguida, e com os labios a crisparem. Era a nevrose epileptica. Seguiram-se as convulsões, o espumar da bocca, um paroxismo longo de vinte minutos. D. Thereza pediu que a ajudassem a leval-a para a sua cama, e disse com fidalga impertinencia ao Simeão que a deixassem com ella, e não lhe fallassem no marido. Simeão coçava-se com grande desgosto. O brasileiro contava ao barão que a sua sobrinha era atreita áquelles ataques; mas que o cirurgião lhe dissera que lhe haviam de passar em casando. O do Rabaçal notou que o remedio então bom era, e seria bom começal-o quanto antes. Disse mais chalaças a proposito e foi-se deitar. Feliciano ainda foi saber como estava a esposa; mas já não havia luz no quarto de D. Thereza. Reoolheu-se á cama, e continuou mais uma noite no seu leito solitario, virginalmente.
D. Thereza sentia-se mal, n'um embaraço quasi ridiculo, n'aquelle meio. Martha não a largava, parecia uma creança espavorida, agarrada ao vestido da mãe, assim que ouvia os passos do tio. Elle, muito carinhoso, com o monoculo no olho direito, a offerecer-lhe castanhas d'ovos, toicinho do céo, a pegar-lhe da mão e a fazer-lhe festas no rosto muito córado de pudor. D. Thereza discretamente deixou-os sósinhos. A Martha ficou a olhar para a porta por onde a amiga se evadira, e fazia uns gestos de quem meditava raspar-se; mas o marido tinha-a segura pelas mãos mimosas, beijando-lh'as ambas com uma sensualidade delicada, um pouco babada, mas muito commedida, estendendo os beijos quentes e humidos até aos pulsos lacteos e redondinhos. Martha, n'uma impassibilidade, não se recusava ás caricias, e pareceu mesmo inclinar um pouco o rosto quando o esposo com um bom sorriso do amor dos quinze annos lhe pediu um beijinho, que foi mais demorado do que era de esperar da sua candura e da inexperiencia de taes delicias. Estavam ambos rosados; mas o rubor de Martha era carminado de mais e nos seus olhos havia uma rutilação vaga pela extensão da grande sala. Ella via a sombra de José Dias: era o José Dias em pessoa, dizia ella depois a D. Thereza, quando recuperou os sentidos, e não sabia como a transportaram para a cama da sua amiga. Apenas se lembrava de que o tio, depois que a beijára no rosto, a levára pelo braço e entrára com ella no seu quarto, apertando-a muito ao peito, levantando-a nos braços com muita força, não a deixando fugir e suffocando-lhe os suspiros com os beijos. Não se lembrava de mais nada. E D. Thereza, quanto cabia na sua alçada, contava-lhe o resto imperfeitamente; isto é que o marido a fôra chamar ao laranjal, um pouco afflicto, dizendo que a sua esposa estava na cama sem sentidos; e pedia vinagre para lhe chegar ao nariz.
Padre Osorio veio jantar e buscar a irmã. Observou no aspecto do brazileiro uma irradiação de felicidade, o jubilo de um homem que se sentia impavidadamente completo, na integridade da sua missão phyloginia. Foi então que o padre assentou as suas theorias um pouco fluctuantes ácerca das vantagens da castidade em beneficio das impurezas alheias.
O Feliciano, quando o cirurgião chegou á tarde, contou-lhe com pouco recato de pudicicia conjugal as circumstancias, particularidades occasionadas no «fanico da sua esposa», dizia elle. O facultativo, um velho patausco, disse que não se admirava, porque a snr.ª D. Martha era muito nervosa, imperfeita ainda na sua organisação, e que as impressões desconhecidas e um pouco violentas nas constituições fracas produziam extraordinarias perturbações; mas que não se assustasse, que não era nada; que as segundas naturezas se faziam com o habito.—Banhos de mar, aconselhava, bife na grelha e vinho do Porto, quanto mais chôco melhor. O que se quer cá fóra é um rapaz; não ha como um filho para fortalecer a compleição d'uma mulher debil; um filho, quando sae do ventre da mãe, traz comsigo para fóra os máos nervos, e acabam os cheliques. Ande-me com um rapagão p'rá frente!
Na ausencia de D. Thereza, a melancolia de Martha cerrava-se de dia para dia. O governo da casa era-lhe de todo indifferente, como se fosse hospeda. O marido não a compellia a interessar-se n'esses arranjos de que, dizia o Simeão, ella nunca quizera saber em Prazins. O barão do Rabaçal mandára-lhe do Porto cozinheira e governante. Martha sahia raras vezes de uma saleta onde tinha um oratorio que trouxera de casa. Confessava-se mensalmente a frei Roque, o irmão da sua mestra, e professor do de Villalva, e demorava-se no confissionario com perguntas desvairadas a respeito da alma de José Dias, por que dizia ella ao padre-mestre que o via muitas vezes em corpo e alma, e até o ouvia fallar e lhe sentia as mãos no seu corpo. O frade, sem revelar o sigilo da confissão, dizia á irmã que a Martha dava em douda como a mãe.
O Feliciano ficou espavorido quando a mulher, n'um dos paroxismos epilepticos, se pôz a rir para elle com os olhos espasmodicos e a chamar-lhe José, seu Josésinho. Passada a nevrose, quando ela imergia num torpor physico e mental, o marido contou-lhe o caso de lhe chamar Josésinho. Ella parecia esforçar-se muito para recordar-se, e dizia que não se lembrava de nada. Vinha o cirurgião a miudo:—que era hysterismo, e consolava o marido com a esperança no tal rapagão, esperanças bem fundadas, segundo as confidencias do pai; mas, consultado pelo padre Osorio, o Pedrosa, um grande clinico, dizia que a brazileira não tinha simplesmente a gota coral; que havia ali epilepsia complicada com delirio, alienação mental intermittente, um estado de inconsciencia ou consciencia anormal, e que verdadeiramente se não podiam determinar bem quais eram os seus actos de lucidez intercorrente.
—Ella está gravida—observou o vigario de Caldellas.—Parece que este facto denota uma tal ou qual normalidade de consciencia, uma concepção racional dos deveres de esposa...
—Não denota nada—refutou o medico.—Faça de conta que é uma somnambula. E, como a sua demencia é funccional e não organica, não ha desorganisações physicas que a estorvem de ser mãe. O meu collega que lhe assistiu á ultima vertigem disse-me que, alguns minutos antes do ataque, ella, n'uma grande irritabilidade, lhe dissera que fugia para Villalva, que queria vêr o José Dias... O marido felizmente fôra n'essa occasião prover-se de vinagre á dispensa. Eu considero-a perdida, a menos que se lhe não dê uma prompta e completa diversão ao espirito, e nem assim se consegue senão temporariamente desherdar os desgraçados que tiveram mãe e avó como esta Martha. Eu assisti ao primeiro e ao ultimo periodo da Genoveva. Repetiram-se as vertigens, veio a decadencia gradual da razão, delirios, idéas confusas, concepção difficil, nevroses vesanicas, e por fim, suicidou-se já n'um estado de demencia epileptica, que os especialistas consideram a mais incuravel. Este me parece o itinerario da Martha, e o casal-a com o tio deixou de ser um acto immoral para ser um estupido arranjo de fortuna por lado do pai e de luxuria por parte do marido. Esta pequena tinha de vir a isto, e ha-de ir á demencia, mesmo sem drama nem paixão. Tem o cerebro defeituoso assim como podia ter a espinha vertebral rachitica. Como se faz a perda da vista? Pela paralysia dos nervos opticos; pois a perda da vista normal da alma é tambem a paralysia d'uma porção de massa encephalica. Bem sei que isto embaraça um pouco os senhores theologos-methaphysicos, mas lá se avenham: a verdade é esta.

XVIII
Chegaram por este tempo, vindos das terras de Basto a Requião, os tão almejados missionarios, interrompidos no seu esteril apostolado pela revolução da Maria da Fonte. Martha ouviu a noticia com alvoroço, e disse que queria seguir os sermões,—que precisava de salvar a sua alma. O Feliciano viera um pouco estragado de Pernambuco a respeito de religião; mas respeitava as crenças alheias, e não contrariava as devoções da sobrinha. O padre Roque era de parecer que se não deixasse Martha entrar muito pela mystica; aconselhava o marido que fosse viajar com a mulher, que a tirasse d'aquella terra, porque as suas enfermidades não podiam cural-as os sermões nem as hostias. O egresso conhecia a Pharmacia do varatojano de Borba da Montanha, e sabia que a primeira receita de frei João era exorcismal-a como demoniaca.
—Dão cabo d'ella, vocês verão, dão cabo d'ella—dizia o padre-mestre.
Eram quatro os missionarios que assentaram o vestibulo do paraizo em Requião.
O padre José da Fraga ainda novo, bem composto e limpo nas suas vestes sacerdotaes, grave e semblante intelligente. Tinha-se ordenado em Brancanes com o proposito de ir propagar o christianismo na China; depois, interesses e rogos de familia determinaram-o a ficar na patria, sem abrir mão da vocação apostolica. Lêra e percebêra Raulica, Lacordaire, e imitava o segundo com bastante engenho. O padre Osorio dizia-lhe que guardasse as suas perolas para outro auditorio menos suino. E, de feito, as mulheres, quando de madrugada o viam no pulpito, aconchegavam-se umas das outras para commodamente tosquenejarem o seu somno da manhã; e os homens diziam que não o chamava Deus por aquelle caminho—que não calhava p'r'á prédega.