VERDADES AMARGAS (continued 2)
Reading edition
Estatua de ouro, tendo por dupla base um governo de ferro e um exercito de bronze!
Mas de todo esse metal andava ausente um grande espirito.
O homem, que firmara o throno no perjurio, abatera o nivel moral do paiz até ás ultimas consequencias de um governo de familia e de facção.
A França entregou-se ao culto exclusivo da materia. Deixou roubar, ou vendeu, a representação parlamentar. Deliu em gozos physicos a antiga virilidade. Abdicou no chefe do estado o sceptro da opinião.
Passou ao lado da moralidade encolhendo os hombros n'um gesto de enorme fastio. Ganhar depressa e gozar rindo foram os dois limites de seu stadio social.
Na politica, Morny. Na arte, Offenbach.
Dois fructos de bastardia. Dois typos da época.
Rebentou a guerra. A França tinha o pão, mas faltava-lhe o circo.
A victoria, essa ex-divindade, que trocou o Olympo pela alcova, vendeu-se a quem lhe lançou no colo mais bayonetas e mais canhões.
Os soldados do rei Guilherme pisaram as terras e os brios da França, e ella, a dissoluta, atrophiada por vinte annos de materialismo e de corrupção, consentiu que as tropas do mystico e illuminado representante do absolutismo da espada chegassem aos muros de Paris, sem que os filhos dos heroes de cem batalhas, de um só jacto e com um só pensamento, se erguessem todos para deter o passo ao exercito allemão!
Memorando e triste exemplo do que póde a ausencia das forças moraes! Contam-se por centenas de milhares, por milhões talvez, os que recuando perante a invasão não pensaram que o nome da patria merecia o sacrificio de menos alguns annos de vida, ou de menos alguns francos de renda. A resistencia, que devia ser obra de todos, tem sido apenas tarefa de alguns. Quatro lanceiros tomam Nancy, e o espião francez, realisando o ideal da infamia, vende a thalers a vida de seus proprios irmãos!
E a Prussia caminha, caminha sempre, elaborando nas almas de seus seiscentos mil soldados um vago sentimento de hegemonia teutonica, entrevista desde longos annos nas brumas dos tempos, á luz de uma predestinação divina que lhe põe nas mãos a tutéla do mundo.
E que lucrou o capitalista, o proprietario, o industrial, o commerciante em se ter abstido de uma intervenção directa e moralisadora na politica da França? Os valores em ruina; os campos talados; as fabricas em cinza e os armazens desertos e fechados dão triste, mas sufficiente resposta.
Se o povo francez não tivesse reduzido a religião politica a um ritual dissolvente; se não se tivesse engolfado na subserviencia ao poder, deixando-o corromper ou esmagar as consciencias; se, por inevitavel reacção, não tivesse dado ouvidos ás theorias subversivas dos exploradores de popularidade; se tivesse obstado a que uma profunda devassidão lhe envenenasse as fontes da vida; se tivesse avocado a si, por meio de bons e leaes representantes, a gerencia dos negocios publicos, provavel seria que a guerra não tivesse rebentado para servir a ambição de uma dynastia periclitante e satisfazer os instinctos depravados das multidões, que, só á força de estimulos, sentiam ainda pulsar no peito o velho coração, em que tantas vezes tem batido a sorte da humanidade e a emancipação liberal de metade da Europa.
O olho do paiz, limpo de fumaradas de polvora e de orgulho, veria melhor e mais fundo. Repousaria com mais jubilo nos conselhos da prudencia e nas abundancias da paz do que nos lances da sorte e nas inclemencias da guerra.
Se esta, porém, fosse inevitavel; se tivesse de resolver-se pelo fogo e pelo ferro uma questão de equilibrio ou de preponderancia entre as duas nações rivaes, embora o exercito francez eventualmente succumbisse debaixo do peso dos batalhões prussianos, ter-se-hia poupado ao mundo o afflictivo espectaculo de ver-se uma grande nação fugir a custo de um somno profundo, para dar de rosto desde logo n'uma profunda anarchia.
É possivel que a França tivesse baqueado, mas cortejar-lhe-hia a queda o respeito universal, factor immenso nas contas futuras da paz. A pressão moral de sympathias, que não proviessem unicamente de uma utilidade politica friamente calculada, teria de pesar no animo do vencedor, levada até alli não só pelo concerto das chancellarias, como tambem pelo impulso unanime de todos os povos cultos.
Mas a gangrena moral tombou no pó o chefe da vaca latina. Como que receiosa do contagio, a Europa tem assistido impassivel a essa dolorosa agonia, que oxalá possa terminar em brilhante resurreição á voz do patriotismo e da liberdade, reagindo contra a podridão do imperio.
E se isto acontece com a França, com o gigante que, baqueando moribundo, póde esmagar ainda com o peso do corpo o imprudente que lhe esteja ao alcance da queda, o que seria com um paiz como o nosso, nesga de terra perdida n'um canto da peninsula?
Transportae o exemplo a Portugal. Imaginae um conflicto que tenha de resolver-se ámanhã pelas armas. Sonhae que um exercito hespanhol nos arromba a fronteira e que uma frota couraçada mette a prôa ás aguas do Tejo.
Não urje que a hypothese seja provavel; basta que seja possivel.
E depois?
Não levanteis a tempo as forças moraes do paiz; não lhe insuffleis nos pulmões o ar puro e vivificador dos grandes e generosos sentimentos; não o moraliseis com o exemplo e o conselho; não lhe ensineis que, acima do que se toca, existe o que se sente, e admirae-vos depois de que não haja quem possa suster a bandeira da patria, ou vencer na defensão de vossa liberdade e de vossas fortunas, que seriam o primeiro pasto do dente de guerra.
Mas (hypothese absurda, por impossivel) não ha resistencia. Um passeio militar conduz o inimigo ao coração do paiz. Os quatro uhlanos de Nancy resuscitam entre Elvas e Lisboa. E julgaes, vós capitalistas, vós proprietarios, vós industriaes, vós commerciantes, que os vossos fundos, os vossos campos, as vossas fabricas e os vossos armazens ficariam livres de mil deploraveis contingencias? Enganaes-vos. Para começar, pagarieis as despezas da invasão. Depois, a fibra popular, passado o primeiro estonteamento, reagiria contra o hespanhol, que se póde ser excellente para amigo e quasi irmão, deve ser detestavel para amo e senhor.
Não se desfaz n'um dia o que fizeram oito seculos de odios e luctas.
Uma Polonia portugueza morderia sempre o flanco de uma Russia castelhana.
E que farieis vós então, apertados entre o interesse e o patriotismo?
Collaborarieis na empreza da restauração, trabalho tanto mais difficil quanto mais o invasor se houvesse internado no reino, e a reacção tivesse de tomar corpo na presença de quem andasse já na posse militar do paiz? Mas então o vosso dinheiro continuaria a custear as despezas da guerra; o vosso trabalho pertenceria á communidade em perigo, e de vossos predios, bombardeados e destruidos, se faria o parapeito do reducto inimigo ou o baluarte dos defensores da nação.
Mas (nova e absurdissima hypothese) aguilhoados pelo instincto da conservação, e pisando as tradicções da nacionalidade portugueza, acceitaveis o facto consummado e formaveis ao lado do invasor hespanhol.
Quid inde?
Trocarieis então uma guerra politica por uma guerra social; guerra de pobres contra ricos; guerra das massas contra as classes favorecidas; guerra do proletariado patriota contra a burguezia satisfeita; guerra do passado e do futuro contra o presente; guerra que semearia odios eternos entre os que recalcitrassem e os que consentissem; entre os portuguezes por fé e os ibericos por transacção.
E ai d'estes, se um inesperado successo, dos que por ahi desconcertam as mais bem combinadas presumpções, viesse no espaço de um sol a outro sol restituir a Portugal a roubada independencia.
Quem os salvaria então do furor das turbas amotinadas?
Quem lhes poria as propriedades ao abrigo do archote?
Quem lhes daria a mão no sorvedouro que se lhes abriria debaixo dos pés?
Então, ninguem. Antes, o paiz.
Mas um paiz que torne absolutamente impossiveis as hypotheses que ahi ficam phantasiadas, e que as torne impossiveis pela convergencia de todas as vontades, pelo emprego honesto e patriotico de todas as forças no grangeio intelligente e honrado do patrimonio commum.
É difficil hoje que quatro milhões de homens possam resistir a quatorze d'essas unidades.
Restabeleça-se o equilibrio, ganhando-se em ordem; em boa e liberal politica; em sabia e recta administração do paiz pelo paiz; em respeito de estranhos e nacionaes o que a natureza nos faz perder em extensão e em numero.
Portugal bem administrado póde arcar peito a peito com a Hespanha diluida em vinte parcialidades e estrebuxando nas convulsões de uma desorganisação, que ainda não disse a ultima palavra.
Porém se a esse estado responder-mos com um estado igual, a questão do peso physico obedecerá ás leis da materia.
Quaes ellas são, todos o sabem.
XII
Capitalistas e proprietarios, industriaes e commerciantes, ponde a intelligencia, já que felizmente ainda lhe não podeis pôr os olhos, no que seria a bancarota.
Se hoje vos queixaes de que os vossos fundos, os vossos predios, as vossas fabricas, os vossos armazens padecem com o estado do paiz, o que seria se desabasse tudo n'uma ruina geral?
E geral teria ella de ser.
Fallido o thesouro, é natural que essa fallencia arrastasse a grandes difficuldades a maioria dos estabelecimentos de credito. Dado isto, a ramificação do desastre chegaria á mais solitaria cabana e ao mais obscuro balcão.
Tanto no espelho dourado dos salões da opulencia, como no barro vidrado da baixella do pobre, se reflectiria algum gesto de tristeza ou de angustia.
O luxo retirar-se-hia diante da parcimonia. A parcimonia diante do constrangimento. O constrangimento diante da fome.
Porque, não vos illudaes, o paiz vive em grande parte á sombra do estado.
Morto este pela fome, a fome de uma parte do paiz sairia directamente d'essa ligação apertadissima.
De que vive geralmente o funccionario publico, quer elle se chame empregado, professor ou militar?
De que vivem os portadores de milhares e milhares de contos de réis em titulos de divida fundada espalhados no paiz?
A repercussão d'essa desgraça chegaria immediatamente a todos, porque é em grande parte o estado quem vos paga o juro de vossos capitaes, a renda de vossos predios, os artefactos de vossas officinas e os artigos de vosso commercio.
A incidencia da bancarota, o mais pesado de todos os impostos, porque arruina o capital, procurar-vos-hia em todas as transacções da vida social, percorrendo por vias mysteriosas todas as representações do trabalho e da riqueza.
* * * * *
Qual seria a depreciação de todos os valores actuaes pela raridade, e, portanto, pela carestia da moeda cunhada?
Que somma de moeda chegaria para as necessidades da circulação e da producção, se o credito a não a auxiliasse com a sua poderosa camaradagem?
Que soccorro vos daria o credito em frente d'esse cataclysmo, elle, a melindrosissima entre as mais melindrosas das molas sociaes, e que o mais ligeiro abalo contrae, como a folha da sensitiva se fecha ao contacto de um só dedo que a toque?
E comprehendeis vós sem o credito as sociedades modernas, em que uma actividade devoradora, que é muitas vezes uma ficção, necessita de outras ficções para mover os cem braços com que se agita o mundo contemporaneo?
* * * * *
Tendes-vos lembrado de quaes seriam as consequencias politicas da bancarota?
Os vinculos sociaes e politicos, infelizmente já de si tão frouxos, desatar-se-hiam n'uma dissolução completa.
As paixões ruins, explorando a miseria publica, recrutariam n'ella perigosos batalhões.
A especulação tomaria a soldo a revolta.
E não tumultuariam unicamente na praça publica os pretorianos do motim; os que, sem o estimulo de uma idéa, passeiam nas ruas apenas a ambição de quem os paga, formulada em gritos indifferentes aos que recebem o estipendio, e que ámanhã gritarão com identico enthusiasmo a favor de quem na vespera cubriram de vituperios.
Tumultuaria tambem na rua a fome dos verdadeiros necessitados; dos que iriam esquecer na sedição as lagrimas da familia, ou que, movidos por um vislumbre de esperança, pediriam a uma transformação radical a cura de suas desgraças.
Não seria então um partido sério o que tomaria as redeas do poder. A logica das cousas, a mais inexoravel de todas, pol-as-hia nas mãos dos mais audaciosos, nos momentos em que a audacia é tudo, e arredaria para o lado os pacificos e illustrados cultivadores da idéa apparentamente victoriosa, mas que seria na realidade envilecida e conspurcada pela cooperação material de homens para quem servisse só de mentirosa bandeira.
E imagine-se o que seria se, livre das piozes de qualquer superioridade, que o contivesse, o açor podesse pairar á solta com a omnipotencia de sua vontade em toda a extensão do facto e da lei!
* * * * *
A moral soffreria igualmente graves affrontas.
Não é quando falta o pão que mais se escutam os conselhos d'ella.
A probidade recuaria diante da astucia e da violencia.
A reserva, abandonando a prudencia, rebentaria em explosões de colera, que mais activariam as chammas do incendio.
Aonde houvera a espontaneidade ficaria a coacção.
Ao pudor da familia segredaria o demonio do ouro suas infernaes tentações.
O proprio archanjo da caridade tentaria debalde chegar-se ás camas dos enfermos nas misericordias e hospitaes, porque só alli acharia leitos nus, aonde, á força de miseria nas arcas vazias, não haveria misearias que proteger e consolar.
* * * * *
A bancarota!
Já encarastes bem essa atroz eventualidade?
Não é a venda da herança por um prato de lentilhas; é a venda do patrimonio por um espectaculo de horrores.
A bancarota é o prejuizo material multiplicado pelo sobresalto do espirito; operação que, em virtude d'um phenonemo inevitavel, produz sempre um resultado superior á intervenção dos dois factores que n'ella collaboraram.
A bancarota ainda é mais do que tudo isso. Mais do que a pobreza; mais do que o perigo; mais do que o descredito; mais do que a barbaridade; mais do que a sedição.
É a deshonra do nome da patria!
E querereis, vós os que pensaes, que possuis e trabalhaes; vós todos os que andaes na vanguarda do movimento nacional, que o nome do vosso paiz fique deshonrado na historia do seculo?
Não é possivel.
E não basta que a bancarota não seja um facto inevitavel; é necessario que o não pareça.
Porque em pontos tão delicados parecer é quasi ser.
Intervinde, intervinde, pois, que ainda é tempo. Salvae o paiz pelo paiz. Saccudi o habitual torpor e trabalhae desde já n'esta empreza tão util para vós, como gloriosa para o nome portuguez.
Não se vos dá um grito de terror no meio da batalha.
É uma voz de—sentido!
XIII
Resumindo:
Fuja o paiz da ruina equilibrando, quanto possivel, o orçamento do estado.
Equilibre o orçamento augmentando as receitas.
Augmente as receitas desenvolvendo a riqueza.
Desenvolva a riqueza promovendo a confiança.
Promova a confiança tendo governos estaveis.
Tenha governos estaveis inaugurando boa politica.
Inaugure boa politica criando vontade propria.
Crie vontade propria adquirindo noções de seus direitos e de suas responsabilidades.
Adquira essas noções por meio do desenvolvimento do criterio moral, que anda tão descurado e empobrecido, devendo ser o motor de qualquer sociedade que não queira finar-se na impotencia, na ruina ou na desordem.
* * * * *
Assim como a egreja nega o chão bento ao corpo dos suicidas, a posteridade atira para a valla commum da historia os nomes dos povos que morrem ás suas proprias mãos.
Haja fé na salvação do paiz e o paiz salvar-se-ha. Porém se Portugal, no correr dos annos, tiver algum dia de baixar á cova, que possa ao menos uma cruz negra dizer ás gerações futuras, no cemiterio das nações: Aqui jaz um povo que viveu como honesto e morreu como bravo.