CARTA SEXTA. SUMARIO. (continued 2)
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Os Romanos, que sabiam quanto importava, reprezentar bem o seu papel, desorte se-exercitavam nisto, que tomavam lisoens dos-Comediantes; como o mesmo Cicero de si confesa. E com efeito, nam podiam tomar melhores mestres: porque os Comicos eram tam insignes nisto, que falavam somente, com as asoens. Nos-ultimos tempos da-Republica, se-introduzîram nos teatros, os Pantomimos: que era uma especie de Comediantes, que com as asoens somente explicavam, o que outro, que estava imovel no-fim do-teatro, dizia. Desorteque um falava; e o Pantomimo animava com a asám, a expresam do-outro. Tal era a diligencia, com que sabiam com a asám, acompanhar os movimentos do-animo! Isto faziam aqueles que sabiam, que coiza era Retorica: e isto deve fazer qualquer omem, que á-de orar em publico.
Os nosos Italianos sam os unicos, entre todas as Nasoens, que melhor exprimam com a asám, o que dizem: e nam só quando oram, mas tambem quando recîtam versos. Os Inglezes nam se-movem, quando recîtam: os Francezes esfogueteiam, e cantam: os Espanhoes choram: outros tem outros defeitos. Mas pola maior parte convem todos, que os Italianos, sam os mais expresivos: e um grande ingenho Francez, do-seculo pasado, chegou a dizer, que os nosos Italianos naturalmente eram, Comediantes. Porem em Portugal, á muita falta disto. Dos-Pregadores é notorio, que nam só lhe-falta a asám, mas até o tom da-voz, que nam acompanha com a asám. Confeso a V.P. que nunca pude sofrer a afetasam, com que muitos pregam a Paixam, ou as Lagrimas. Estudam uma voz flebile, mas com modo tal, que em lugar de fazer chorar, provoca o rizo: muito mais se consideramos o que dizem, com a dita voz flebile. Eles circunscrevem o estilo patetico, na dita voz: e asentam que ela basta, para mover. Loucuras! O mesmo digo, quando fazem a exclamasam para o Sepulcro, nos-sermoens de Quaresma. todo o ponto está, em gritar muito: pedir mil mizericordias: e com isto se-contentam. Mas a falar a verdade, estes nam sabem o seu oficio. O estilo patetico, é a coiza mais dificultoza, da-Retorica, como confesa Cicero[70]: e nele é que consiste o triumfo, e aplauzo da-eloquencia. Nam é pequena dificuldade, ou para melhor dizer, é coiza admiravel, que as palavras que profere um omem, ajam de mover em mil ouvintes, os mesmos sentimentos, que quer o Orador: amor da-Virtude: odio do-Vicio: aborrecimento de si mesmo! Que cuida V.P. que será necesario, para conseguir isto? É necesaria doutrina admiravel: particular conhecimento das-paixoens umanas; como se-excitam, e adormecem: asoens proprias: e em uma palavra, saber uzar das-Figuras, na ultima perfeisam: e isto nam se-faz com voz flebile, nem com gritarias, mas com outras virtudes oratorias. Nam digo, que quem prega estes sermoens, esteja rindo: digo sim, que deixe aquelas afetasoens, e reconhesa em que consiste, o mover os animos: qual é a asám, qual a voz proporcionada.
Mas pior que tudo é, quando recîtam versos: rarisimo vi, que pronunciáse verso bem. Comumente vam detraz do-consoante, e fazem pauza, nam no-fim do-sentido, mas no-fim do-verso: o que é erro manifesto. Parece isto pior, quando recîtam versos Latinos, nos-quais nam á consoante: de que vem, que um carmen pronunciado por-um deles, e por-outro que o-saiba animar com a voz, e asám, parece diferente. Este defeito deve emendar o omem, que quér ser perfeito. deve exercitar-se em caza, diante de algum amigo bem informado; para ver, se expremio bem, a asám que quer. Só asim conseguirá, ser ouvido com gosto.
Mas eu quero parar, neste ponto: porque se deixo correr a pena, em lugar de reflexoens, escreverei um tratado de Retorica. Reconheso que já caî, no-mesmo defeito que condeno: mas a materia é tam fecunda, e as reflexoens ocorrèram-me, com tanta promtidam, que nam pude deixar, de as-admetir. Direi porem a V. P., que lendo o que tenho escrito, acho que é suficiente, para introduzir um moso no-estudo, da-verdadeira Eloquencia. e quem se-capacitar bem destas reflexoens; e comesar a ler os bons autores, tanto Latinos, como Vulgares; e observar neles, o artificio das-orasoens; sem ler mais outra Retorica, pode sair gravisimo Orador. Esta prezunsam nam nace de mim, mas damesma qualidade dos-preceitos: os quais sam tam antigos, como os Oradores: que é o mesmo que dizer, sam os mesmos que executou Demostenes, e Eschines, e Isocrates: que nos-deixou escritos Aristoteles, Demetrio, e Longino: que praticou e ensinou com tanto louvor Cicero, M. Seneca, e Quintiliano, e outros autores antigos. As Retoricas comuas nam apontam, senam alguns nomes, que eu aqui nam quiz apontar: sem saber os quais, pode um omem ser, muito bom Retorico, se souber imitar estes treslados. Como tambem pode um omem, com exata lisam de bons livros, discorrer bem, sem saber as especies de silogismos, que apontam os Logicos.
Neste pouco que tenho proposto, cuido que cheguei, ao verdadeiro principio da-Eloquencia. Nam apontei o artificio, dos-diversos estados de controversias oratorias; porque nam era ese o meu argumento; nem tambem se-acha, nas Retoricas ordinarias: e somente se-pode aprender, nos-mesmos autores originais. O meu Religiozo que asima aponto, explica muito bem estes artificios, dando os exemplos originais: mas tambem se-demora com minucias: e como escreve em lingua estrangeira, nam é para o cazo. Outros, de que eu me-aproveitei mui bem, tambem escrevem em linguas estrangeiras, ou sam difuzisimos. Neste cazo para dizer a V. P. o meu parecer, aconselho ao estudante Portuguez, que nam tem alguma boa Retorica Portugueza; que, despois de intender bem, o que aqui lhe-aponto, tome alguma ideia, da-distribuisam da-orasam; a saber, exordio, narrasam, provas, epilogo: que leia brevemente, o nome das-figuras das-palavras, e do-animo: o que o mestre facilmente podia explicar. Posto isto, segue-se ler um autor Portuguez, no-qual posa fazer, as reflexoens necesarias. Mas aqui esta a dificuldade: e eu que nam costumo inganar ninguém, devendo dizer-lhe sinceramente o que intendo; digo, que nam acho algum, que posa ser modelo.
Dos-sermoens nam tenho que dizer, sendoque ja expliquei, o que eram. As orasoens Academicas, que se-lem nos-Anonimos &c. nam merecem que se-leiam. Algum elogio da-Academia Real, que é mais toleravel, peca por-outro principio: porque é mera istoria, sem artificio algum retorico. * * * E aos que respondem, que tambem os Francezes praticam o mesmo, nos-elogios dos-seus Academicos; respondo o mesmo: que os ditos elogios sam istorias, e nam panegiricos: e asim o-julgam todos, os que tem voto na materia. Li nam á muitos dias o do-Cardial de Polignac, que teve ultimamente seus aplauzos: e achei que o autor, se ouvèse de escrever a istoria do-dito, nam se-serviria, nem de outras palavras, nem pensamentos, nem frazes. Com efeito eu julgo, que aqueles omens nam querem fazer outra coiza, que explicar em breve, a vida, e merecimentos dos-seus Academicos. Onde como eles nos-dispensem, de lhe-chamar orasam, ou panegirico; concedemos-lhe tudo o mais: mas devemos porem reconhecer, que nam sam obras no-genero Oratorio: e que nam sam para se-imitarem. Onde neste cazo deve o mestre, tomar sobre si o trabalho, de explicar tudo em Cicero: servindo-se para isto do-P. Cigne Jezuita: o qual, seguindo o metodo de um certo Inglez, faz a analize das-orasoens de Cicero. E asim nelas deve o mestre, mostrar o artificio da-Oratoria, fazendo as seguintes reflexoens. Notar primeiro a forsa das-razoens, dispostas com boa ordem, unidas naturalmente, e amplificadas com artificio. Notar a verosimilidade das-ideias: a pureza e elegancia das-palavras: a moderasam e propriedade dos-epitetos: o numero oratorio, que consiste em certa colocasam armonioza de palavras, mas que nam degenere em verso: a introdusam das-figuras, quando é necesario excitar as paixoens: as precausoens que observa, para nam dezagradar. Observando bem isto, na lisam dos-autores, bastava para conseguir, o bom gosto da-Eloquencia.
Deve porem unir-se com isto, o exercicio. Onde o mestre comporá, uma breve orasam Portugueza, segundo as regras da-arte: e mostrará nela aos dicipulos, o artificio e galantaria dela. Fazendo-se isto em Portuguez, facilmente se-aprende: e só asim podem eles, intender bem os preceitos, e executálos. Isto nam fazem em Portugal os mestres, e quazi se-envergonham, de escrever em Portuguez: sem advertirem, que a Retorica nestes paîzes, mais se-exercita em Vulgar, que em Latim. Mas por-esta razam sucede, que saiem todos da-Retorica, sem saberem dela mais, que o nome. Porem, tornando ao estudante, tendo-lhe proposto um modelo, de fazer uma breve orasam; será necesario exercitálo. Isto facilmente se-faz, propondo-lhe na escola um asumto, e proguntando-lhe, o que eles diriam em tal cazo, para defender v.g. ou acuzar aquela pesoa. Certamente um rapaz com a logica natural, dirá algumas razoens, que lhe-ocorrem: pois vemos, que a nenhum rapaz faltam razoens, para se-desculpar dos-erros que faz, quando o-querem castigar. A um rapaz pode dar, a incumbencia de acuzar, e a outro de defender. Despois que ambos tem dito o seu parecer, deverá o mestre, suministrar alguma razam mais; e ordenar aos rapazes, que as-escrevam, e fasam as suas orasoens, do-melhor modo que puderem. Isto feito, deve o mestre emendar os erros, tanto de lingua, como de Retorica; dando-lhe razam, de tudo o que faz: e variando sucesivamente os asumtos. Desta sorte aprende-se mais Retorica, em uma semana; doque polo metodo vulgar, em dez anos.
Quando o estudante sabe bem, que coiza é Retorica, no-resto do-ano se-pode empregar, em compor Orasoens Latinas: ou traduzindo, as que compoz em Portuguez, o que é mais acertado ao principio: ou compondo outras novas. Para quem ja intende Latim, e sabe compor bem em Portuguez, isto é um divertimento, sem ter dificuldade alguma. Terá pois o mestre cuidado, de lhe-encomendar, que leia os trez livros de Oratore de Cicero, e Orator ad M. Brutum, como tambem o de Oratoriis Partitionibus: os quais dois ultimos sam a quinta esencia, de toda a Retorica. Encomende-lhe que se-familiarize, com as Orasoens de Cicero, para aprender os seus modos de explicar. As outras reflexoens sam iguais, em ambas as linguas, com sua proporsam: e tambem o modo de emendar os defeitos, que os estudantes cometem. Desta sorte é sem duvida que em um ano, podiam saber muito facilmente Retorica, e mui solidamente.
Quanto aos mestres, sou de parecer, que leiam atentamente, nam só os ditos livros, que apontamos de Cicero, e alguns outros, pertencentes também à Retorica; mas os de Quintiliano, em que faz belisimas reflexoens, sobre ela. Valla diz[71], que ninguem pode, intender bem Quintiliano, sem primeiro saber bem Cicero: nem menos seguir perfeitamente Cicero, sem obedecer aos preceitos, de Quintiliano. O certo é, que Quintiliano é um Retorico insigne, e um grande Critico, que toda a sua vida empregou em refletir, e ensinar: e tem maravilhoza eloquencia: e dele podem tirar os mestres, as necesarias reflexoens, para comunicar a seu tempo, aos rapazes. Se o mestre quizese, mais alguma noticia particular, e ver as fontes, de toda a Retorica; devia ler os livros Retoricos de Aristoteles, que é o mestre nesta materia, e os ditos sam a sua melhor obra: nela bebèram todos. Podia servir-se da-versam Latina, se nam intendèse o Grego. A este ajunto um famozo Critico, e Retorico, que é Dionizio Longino, no-seu tratadinho de Sublimi stilo: em que faz admiraveis reflexoens, servindo-se tambem da-Versam[72]. E quem quizese mais, podia ler o Demetrio Falereo: aindaque nos-outros acha-se tudo. A estes quatro, Aristoteles, Cicero, Quintiliano, e Longino, se-reduz tudo o que á melhor na Antiguidade, sobre a Retorica. Aconselharia tambem ao mestre, que lese os panegiricos Latinos, que temos dos-Antigos, comesando em Plinio, e pasando aos outros que se intitulam, Panegyrici Veteres; que cuido sam uns quinze, compostos no-quarto, e quinto seculo: nam para os-seguir em tudo: mas para os-conferir com os antigos, ver em que diferem, e aproveitar-se deles, em alguma coiza menos má. Advertindo nestes ultimos, que o que aconselhamos nam é a lingua, que tem seus defeitos; mas algum pensamento &c. Retoricas modernas nam aconselho nenhuma, nem a dicipulos, nem a mestres: tirando o Vossio, nas suas Instituisoens Oratorias, que é famozo: o qual podiam ler uns, e outros, quando quizesem particularizar, alguma noticia. Aindaque quem le, e intende bem, o livro Orator de Cicero, nam necesita mais: mas como é breve, pode-se permetir, ler alguma coiza mais.
Aconselharia tambem, que aprendesem bem a lingua Italiana, para lerem as famozas tradusoens que se-acham, dos-Antigos Oradores Gregos, e Romanos, feitas por-omens insignes: como tambem para lerem as belisimas obras, em materia de Eloquencia; que os nosos Italianos tem produzido, e produzem todos os dias. Ninguem nos-disputa a prerogativa, de que a Eloquencia sempre se-conservou, em Italia. Os Francezes, que nam cedem facilmente, no-particular de literatura, fazem-nos este elogio. E aindaque eles abundem de omens doutos, nesta faculdade; vemos que na Italia se-conservou sempre, com mais extensam, e pureza. Quem le o P. Paulo Segneri Jezuita, o Cardial Cassini Capucinho, e ainda o mesmo Monsenhor Barberini, tambem Capuchinho, e mil outros de diversas Religioens, e Seculares sem numero; parece-lhe que conversa, com o mesmo Cicero: porque formados sobre estes antigos modelos, em nada se-distinguem, dos-originais. Acrecenta-se a isto a lingua, que, despois da-Latina, é a mais bela, e armonica, para a Eloquencia. Tem mais os Modernos, outra circunstancia; vem aser, que tendo-se aplicado a diversas materias, nam só profanas, mas sagradas, de que nam á vestigio, nos-antigos Retoricos; fizeram aos nosos olhos mais familiar esta faculdade, e mais facil de se-imitar: porque dam belisimos exemplos, em tudo. Desta sorte familiarizando-se muito, com os Antigos, e Modernos; observando em que diferem, e em que sam louvados; se-pode conseguir, a verdadeira Eloquencia.
Conheso, que se eu faláse com outra pesoa, que nam fose V. P. se-escandalizaria muito, que eu nam aconselháse aqui, a leitura do-P. Vieira, do-Baram Conego Regular, do-Bispo de Martiria, do-Arcebispo de Cranganor, e de alguns outros, que nam aponto; persuadindo-se, que estes omens sam originais, de toda a estimasam. E nam sei se V.P., aindaque superior no-criterio aos outros, intende, que algum deles podia ter lugar, entre outros que louvo. Mas eu, meu amigo e senhor, nam tenho nisto parcialidade alguma; e julgo, segundo o que intendo, na minha conciencia. Verdadeiramente é coiza indigna, de todo o omem ingenuo, quanto mais de um Religiozo; desprezar autores, que o-nam-meresam, e sejam em simesmos dignos, de todo o louvor: mas nam é menos indigno, aprovar um escritor, contra aquilo que intendo. Eu ja fiz a minha solene protesta, na primeira carta, e nesta da-Retorica tambem; que nam pertendia defraudar ninguem, da-sua justa estimasam: e novamente aqui repito, que estimo infinitamente qualquer destes Religiozos: mas eu os-distingo muito das-suas obras, que nada estimo.
E comesando polo mais famozo, o P. Vieira teve mui bom talento; grande facilidade para se-explicar; falou mui bem a sua lingua; e nas suas cartas é autor, que se-pode ler com gosto, e utilidade. Quanto aos sermoens, e orasoens, deixou-se arrebatar, do-estilo do-seu tempo; e talvez foi aquele que com o seu exemplo, deu materia a tanta sutileza, que sam as que destruem a Eloquencia. Nos-seus sermoens, nam achará V. P. artificio algum retorico, nem uma Eloquencia que persuada. Muitos, que gostam daquelas galantarias, lendo-o sairám divertidos: mas nenhum omem de juizo exato, sairá persuadido delas. Sam daquelas teias de aranha, bonitas para se-observarem, mas que nam prendem ninguem. Eu comparo esta sorte de sermoens, aos equivocos: que parecem bonitos, quando se-ouvem a primeira vez; mas quando se-examinam de perto, nam concluem nada. Porque finalmente se V. P. le os tais sermoens, e examina as provas e artificio delas; verá muitas coizas, que cheiram a Metafizica das-escolas: mas nam achará alguma, das-que asima aponto, como necesarias. Os exemplos que asima apontei, sam comumente tirados, dos-seus sermoens: e com eles à vista, poderá V. P. conhecer, quantas coizas eu deixei, que podia apontar. Se pois isto se-chama pregar, e pregar bem, eu o-deixo considerar, aos dezapaixonados.
O dezejo que o P. Antonio Vieira, em quazi todos os sermoens mostra, de agradar ao Publico, ainda quando às vezes o-critica; deixa bem compreender, que se-conformava muito, com o estilo corruto do-seu seculo. Tinha ingenho, imaginasam fecunda, e deixando-se conduzir, do-impeto do-seu fogo, ou talvez procurando de excitar em si, uma especie de entuziasmo; rompia nas primeiras ideias, que lhe-ocorriam; que sempre eram sutis, polo costume que tinha, de ideiar asim. Eu falo com V.P. que tem grande noticia dos-ditos sermoens, em virtude da-qual conhece, com que razam eu-digo isto: que se-faláse com outro, serîa mui facil, provar tudo quanto escrevo. Mas nam poso deixar de insinuar, que a maior prova do-que proponho, é a sua decantada obra, Clavis Prophetarum: de que nos-dá uma ideia, no-livro que intitula, Istoria do-Futuro. Neste livro acha V.P., uma chimera mui bem ideiada, e que a ninguem mais ocorreo. Promete provar primeiro, que á-de aver no-mundo, um novo Imperio: mostrar, que Imperio á-de ser: determinar, as suas grandezas e felicidades: explicar, por-que meios se-á-de introduzir: individuar, em que terra, em que tempo, e em que pesoa á-de comesar este Imperio[73]: o qual á-de ser tam grande como todo o mundo, sem iperbole, nem sinedoche[74]. Prova isto, segundo diz, com uma profecia de S. Frei Gil: com o juramento d’El-Rei D. Afonso: e com outras provas deste calibre. Diz tambem, que a maior parte, á-de sair da-Escritura; na qual estam reveladas, todas estas coizas. Quanto ao Imperador, aindaque claramente o-nam-explica, dá muito bem a intender, que sairá de Portugal; porque aos Portuguezes é que propoem, estas felicidades. Alem disto em outra parte[75] declara mui bem, que este Imperador será o filho primogenito, do-Serenisimo Rei D. Pedro II. e pretende proválo com os mesmos fundamentos, com que prova o Imperio, na Istoria do-Futuro. E nas cartas que escreve, a algumas pesoas, lhe-explica, que as felicidades de Portugal, estam muito vizinhas.
Eu nam entro aqui a disputar, se estes fundamentos, (nam falo das-Escrituras, pois é loucura persuadir-se, que falam em tal materia) sejam bastantes, para afirmar tal paradoxo: é bem claro, que isto tem aparencias de comedia; e bem parece obra feita, para divertir o tempo. Mas aindaque fose verdade, que as conquistas feitas, estivesem tam distintamente profetizadas, na Sagrada escritura; e despois do-suceso se-intendesem; fica em pé a dificuldade, de tirar da-Escritura, as conquistas futuras, deste novo Imperador. E quanto aos expozitores que ele aponta, e às profecias destes modernos, em que se-funda; creio nam faremos injuria ao P. Vieira, se nos-rirmos de todas estas provas, esperando, que as-procure mais fundadas. Mas o que digo a V.P. é, que na dispozisam deste livro preambulo, se-ve o estilo do-P. Antonio Vieira: porque tudo prova com a Escritura. Ainda as coizas mais triviais, as profanas, e a mesma justisima exaltasam de D. Joam IV. ele as-quer provar aos Espanhoes, com as Escrituras. O pior é, que pola major parte, funda-se em palavrinhas da-Vulgata. E este é mui mao modo de interpretar: porque nam tendo Deus falado em Latim, mas em Ebraico, Caldaico, e alguma coiza em Grego; é necesario saber estas linguas, para alcansar, a verdadeira inteligencia do-original. Sem estas preparasoens, nenhum interprete se-mete a dizer, coizas novas: mostrando a experiencia, que comumente se-inganam, e só podem dizer, sutilezas pouco sofriveis.
E eu creio que nam sam mui toleraveis, as que ele aqui escreve: observando-se suma contrariedade, na interpretasam que dá, aos seus mesmos fundamentos. Umas vezes, a decimasexta gerasam, é o Cardial Rei D. Enrique:[76] e ainda lhe-faz a merce, de nam contar a vida d’El-Rei D.Alfonso I. que cuido devia ser o primeiro, no-catalogo. Outras vezes, a decimasexta gerasam é D. Joam IV.; e D. Pedro II. é a prole atenuada[77]: e como ao dito Rei nam se-pode aplicar, a palavra atenuada; procura aplicála a seu filho, o Principe entam nacido. Eisque morre o tal Principe ainda menino: Neste cazo o noso interprete excogita a saida, de lhe-ir dar no-Ceo, a investidura do-Imperio[78]: e comesa com outra metafizica pior, que a primeira. Finalmente despois de muitas observasoens, fica desmentida a verdade, do-juramento d’El-Rei D. Alfonso: e o Imperio do-mundo, que tam claramente estava profetizado, e prometido ao tal Principe, lá vai polos ares: e nem menos á aparencia, que se-torne outra vez a restablecer: pois do-tempo em que ele escrevia até este, vam bons 80. anos; e ainda nam vemos aparencias diso. Eisaqui tem V. P. o que sam todas estas chimeras, da-Istoria do-Futuro; e das-coizas que tem parentesco, com ela.
Ora estas sutilezas do-P. Vieira, cuido que tem arruinado, muita gente: porque formando grande conceito, do-seu talento; o-imitáram tanto à letra, que nada agradou, que nam cheiráse ao mesmo estilo. Ja é coiza muito antiga, que em materia de literatura, um omem seja o treslado, para que olhem os outros do-seu tempo. Quando em uma Cidade um sugeito consegue, fama de eloquente, os outros o-imitam; e às vezes por-seculos inteiros, se-conserva o mesmo estilo[79]. Aquele Seneca a quem chamam o Filozofo, nam se-duvida, que tinha grande ingenho, e doutrina: mas querendo-se singularizar; entre os antecedentes, comesou a fazer um estilo tam florido; que foi a primeira cauza, de se-perder o bom gosto da-Eloquencia, que reinára no-tempo de Augusto. Multæ in eo claræque sententiæ: (diz um Orador grande) multa etiam morum gratia legenda: sed in eloquendo corrupta pleraque: atque eo perniciosissima, quod abundant dulcibus vitiis. Vettes eum suo igenio dixisse, alieno judicio. nam si aliqua contempsisset, si parum concupisset, si non omnia sua amasset, si rerum pondera minutissimis sententiis non fregisset; consensu potius eruditorum, quam puerorum amore comprobaretur[80]. Palavras que me-parecem cortadas, para o P. Antonio Vieira: do-qual creio que se-pode dizer, que se, servindo-se do-seu ingenho, seguise outro estilo; serîa um grande omem: quando porem nam se-ocupáse com o argumento, da-Istoria do-Futuro.
E daqui compreenderá V.P. que conceito se-deve formar, daqueles muitos epitetos, com que os apaixonados o-louvam. Chamam-lhe, Mestre do-pulpito: Principe dos-Oradores: Mestre universal de todos os declamadores Evangelicos: Aguia Evangelica: e mil coizas destas. Outros lem as suas obras de joelhos, em sinal de respeito: e á omens de tam pouca considerasam, que imprimem estas noticias[81]; e nam se-envergonham de dizer, Que o mundo sem contradisam, lhe-deo a coroa, de Principe dos-Oradores. Mas este censor, que nam fez maior jornada, que de Lisboa a Madrid; nam era juiz competente, nesta matéria: nam só, porque tinha visto pouco mundo; mas porque tendo somente conversado, com os que liam o Vieira de joelhos; e nam sendo a Eloquencia, e belas Letras profisam sua, segundo mostra; tinha impedimento dirimente, para votar com acerto. Isto pois que digo destes, aplico a todos os outros. Criados com o prejuizo, de que o Vieira foi, um grande Orador; e ouvindo sempre repetir isto aos velhos, que bebèram aquela doutrina; nam é maravilha, que digam tantas coizas dele, e que o-imitem tam cegamente.
V.P. pode fazer uma experiencia, que eu ja fiz, e vem aser: quando ouvir a um destes, gabar muito o Vieira, e louválo com alguns dos-ditos epitetos; fasa-me a merce de lhe-proguntar primeiramente, emque consiste ser grande Orador: despois, que lhe-explique, que qualidades oratorias sam, as que excedem no-P. Vieira. Se lhe-responder bem ao primeiro ponto, estou certo, que nam responderá ao segundo: mas a experiencia mostrará, que o primeiro nam terá resposta. Eu aindaque nam costumo ofender ninguem, e muito menos na sua cara; achando-me porem com certa pesoa, que me-dise maravilhas do-tal autor, rezolvi-me a fazer-lhe esta progunta. Leu V.M. bem as obras de Lysias, Isocrates, Iseus, Demostenes, Eschines, Teofrasto, e Cicero, e tudo o que á de bom na Antiguidade? observou miudamente as delicadezas, e singularidades daqueles; e a diferensa que se-acha entre eles, e Plinio, e alguns outros mais inferiores, como Nazario, Auzonio, Pacato &c.? leu os antigos Retoricos, Aristoteles, Cicero, Quintiliano &c. ou algum destes modernos, que deram belisimos preceitos, como Vossio, Cavalcanti, e Platina: e outros que nas suas orasoens os-executáram, como Policiano, Mureto, Vavaflor, Cuneo, Gravina, Paolino, Politi &c.? Diz, nam senhor. Pois sem tais preparasoens, conclui eu, nam entro em discurso com V. M. sobre estas materias, porque nos-nam-intenderemos. Onde vem V. P. a conhecer, que as aprovasoens destes omens, nam devem fazer forsa a ninguem, para reconhecer por-grande Orador, o P. Vieira.
Eu que tenho visto mais algum mundo: e falado com bastante gente douta: e conhecido em Roma omens, que tinham tratado, com os que ouviram o P. Vieira: nam achei nada doque ouso dizer dele. Bem sim, que foi um Religiozo estimavel, polas suas prendas, e virtudes: o que tudo pode estar, sem ser mestre dos-Oradores. Falei com muitos Religiozos da-Companhia, que tinham dele perfeita noticia; e me-faláram como de um omem, que era estimado em Portugal, mas nam em Roma. Acrecente V.P. a isto, que muitos opusculos do-Vieira, foram compostos em Italiano: e até os mesmos sermoens se-acham traduzidos nele, por-um seu apaixonado, ao menos um tomo que vi á anos: e asim pode-se julgar, com todo o conhecimento da-materia. Vejo sim, que os mesmos Jezuitas, e todos os omens doutos, reconhecem o merecimento, do-P.Paulo Segneri Jezuita, e de varios outros Oradores damesma, e de diferente Religiam; que sam reconhecidos e venerados, como Oradores da-primeira esfera: e que tanto se-distinguem dos-sermoens do-Vieira, como o dia da-noite. De que venho a concluir, que quatro Portuguezes, ou Espanhoes, que dizem o contrario, nam podem fazer mudar de conceito, ao mundo inteligente.
Ainda nas suas mesmas cartas, que louvo, acho coizas que reprovar. Deste numero é a afetasam, de repetir em cada regra, o tratamento da-pesoa, com quem fala. Pois aindaque nos-discursos familiares, posa ter às vezes lugar iso; nas cartas, é enfadonho: e as pesoas, e Nasoens cultas, fogem todas dese vicio. Nem vale o-dizer, que em Latim se-costuma: porque na tal lingua, nam ofende os ouvidos; vistoque o tratamento comumente nam se-distingue, das-diversas inflexoens do-Verbo. Os nosos Italianos, que participam mais do-Latim, uzam da-palavra Ella, para evitarem aquela repetisam: e ainda esta com moderasam. E oje os que escrevem melhor, despois de darem o tratamento, uma ou duas vezes, ou em carta particular, ou prologo de livro; servem-se da-palavra Vostra, que se-refere a Alteza, Eminencia, Santidade, Excelencia &c. nam só porque esta Elipsi, nam prejudica, ao respeito que se-deve, aos Senhores grandes; mas porque sendo mais simplez e natural, é tambem mais nobre; e se-evita a ridicula afetasam de alguns modernos, chegando-se mais ao estilo, da-Antiguidade. E, valha a verdade, este periodo: Excelentisimo senhor, a excelentisima pesoa de Vosa Excelencia guarde Deus, como Portugal, e os criados de Vosa Excelencia avemos mister: com que o Vieira fecha muitas cartas, ao Marquez de Gouveia, e outras pesoas; nam se-pode ler sem nauzea: achando-se muitas vezes, em quatro regras das-suas cartas, cinco vezes Vosa Senhoria &c.
O segundo reparo caie, sobre a fetasam de muitos periodos, e cartas inteiras. O que o mesmo coletor delas nam oculta, quando diz, que muitas nam publicára, por-nam serem tanto naturais. De que eu cuido, nam se-pode produzir melhor prova, que a carta que o P. Argote publicou, nas suas Regras Portuguezas; e que é escrita ao Cardial Lancastro: a qual é composta naquele estilo, que chamamos dos-Seicentos. Basta ler o primeiro periodo: Com melhor saude que o ano pasado; e com menos vida, porque ele pasou: a segunda parte do-qual, é noticia mui digna, de se-mandar a um Cardial, porque é coiza mui recondita. O que se-segue no-segundo paragrafo, sam, Sepulturas do-segredo: resurreisoens da-confiansa: exequias no-templo do-dezingano: estatuas da-ingratidam, e coizas semelhantes, que oje tem ranso. E nam sei se se-pode perdoar, a um omem douto como o P. Argote, o trazer a tal carta, para exemplo de construsam facil, e boa locusam. Conheso, que muitas vezes as cartas damesma pesoa, nam sam iguais: ou porque algumas escreveo, quando era moso, e sabia pouco; ou porque as-fez muito em presa. Conheso isto, e o-perdoo: o que reprovo é, que o coletor nam soubèse separar umas, das-outras, impremindo as melhores.
E aqui noto incidentemente, que o que fez o prologo da-colesam, que eu ignoro quem fose, dise uma falsidade, quando afirmou; Que nas linguas vulgares, tem todas as Nasoens escritores, mas nam em grande numero, deste estilo. Eu lhe-poso nomiar, somente na Italiana, nam digo duzias, mas centos: publicadas muitos e muitos anos antes, que saisem à luz, as do-Vieira: e entre estes escritores, muitos de purisima locusam, e estilo inimitavel. E o que mais é de admirar, omens que tratáram as Ciencias, mas principalmente todas as partes da-melhor Filozofia; com tal clareza, propriedade, e metodo, que envergonham os Filozofos da-Escola: os quais, empregados toda a sua vida nela, explicam-se muito mal. Na lingua Franceza, á infinitos tomos de cartas, em todas as materias; e alguns famozos. Deixo a Ingleza, e Olandeza, nas quais sei que se-tem seguido, este estilo. Onde, nam avendo coiza mais uzual, que estes escritores; mostra-se o tal coletor, mui pouco informado do-mundo.
O terceiro reparo que faso é, sobre a Ortografia, que nada me-agrada. Nelas acho mui praticado aquele estilo, que se-deve desterrar, da-lingua Portugueza; e vem aser, a duplicasam escuzada, de muitas consoantes; e mil outras, que na minha primeira carta mostrei a V. P. que nam deviam seguir, os omens doutos. Onde persuado-me, que neste particular, tam longe está de ser omem insigne, que eu o-nam-porei por-exemplar, a um principiante.
Ora eisaqui tem V. P. que as mesmas cartas do-Vieira, que eu julgo serem a sua melhor obra; aindaque tenham muita coiza boa, sejam facis, e as palavras nam sejam más; contudo, nam merecem aqueles cegos, e encarecidos louvores, que lhe-dam estes apaixonados: os quais ou estam preocupados, polas mesmas opinioens; ou julgam por-cabesa alheia; e nunca tiveram a paciencia, de examinar bem a materia. Defeito mui antigo nestes censores: que aprovam os livros comumente, sem os-lerem: e nam se-contentam de aproválos, mas os-elogiam, e tam encarecidamente, que perdem toda a fé. Deixo aos omens de melhor juizo, fazer a analize das-tais obras, com mais tempo, que eu nam tenho.
Mas eu ja vejo, que me-tenho aberto muito com V.P. o que fiz, confiado na nosa amizade. Certamente nam disera tanto com outro: pois sei certamente, que quem nam tiver examinado isto, me-terá quazi por-louco. Eu sempre fugi, desta sorte de conversasoens, com pesoas que sabem pouco: porque me-ensina a experiencia, que se-perde o tempo, e o conceito. Mate-me Deus com gente, que me-intenda: e que me-nam condene, sem perceber as minhas razoens, e responder a elas. Porque aquilo de reprovar um escritor, somente porque impugna os defeitos, de que eu gosto; sem ter o sofrimento de examinar, as dificuldades que propoem; aindaque seja uzo mui comum, nam sei porem se é concludente. Emfim com V.P. nam á este perigo: porque eu sei muito bem, que ao seu talento, nada se-encobre: e que mais para exercitar o seu juizo, doque para aprender alguma coiza nova, é que tem a bondade, de me-consultar.
Mas sempre devo declarar-lhe, que o juizo que formo das-obras, do-P.Antonio Vieira; deve ser intendido, com todo o respeito devido, à sua memoria. Eu estimo muito este Religiozo, polas suas virtudes, e capacidade. Vejo nas suas cartas retratado, um animo grande: um dezinterese nobre: uma viva paixam polos aumentos do-seu Reino: e ardente dezejo de se-sacrificar por-ele: e, para nam ocultar coiza alguma, vejo a suma ingratidam dos-seus nacionais, que conrespondèram a tantas finezas, com asoens indignas: e nam só nam souberam estimar, tam grande omem, mas pozitivamente o-opremîram, e a sua familia. Estas circunstancias todas mo-pintam, mais estimavel: e se eu vivèse no seu tempo, serîa o seu maior amigo. Deve tambem o que digo intender-se, sem a minima ofeza da-Religiam da-Companhia: a qual tem produzido, tantos omens grandes neste genero; que sem dor alguma pode ouvir declarar, que um dos-seus Religiozos, nam iguala, nem chega, à gloria de muitos outros: o que provèm menos do-talento, que do-infeliz estilo daquele tempo, que nam conhecia, outro gosto de Eloquencia. Damesma sorte que Plinio Cecilio, aindaque tivese talento, e indole insigne; nam pode menos que participar, do-estilo do-seu seculo; que degenerava muito, da-magestade da-primeira Eloquencia. Unicamente devo advertir isto a V. P., para justificar o meu proceder, contra aquela acuzasam, que me-podiam fazer aqueles, que, ouvindo-me falar d’eloquencia Portugueza, visem que nam citava, o P. Vieira.
O conceito que formo, dos-sermoens e orasoens do-Vieira, com mais razam se-deve aplicar, a todos os outros sermonarios; que V. P. conhece, estarem muitos furos abaixo do-Vieira. Digo pois, que o Orador, que quer avultar no-mundo literario, deve deixar todos os sermonarios Portuguezes, ou Espanhoes; e seguir a estrada que asima lhe-abrimos: que parece ser, a verdadeira estrada da-Eloquencia: e isto parece-me que basta, para regular o metodo da-Oratoria. Deve a isto ajuntar, o continuo exercicio de compor: e exercitar-se juntamente em particular, para poder falar em publico: sendo certo que o exercicio de compor, e falar conduz muito, para beber os principios, e sabèlos uzar a seu tempo, com dezembaraso. Perdoe-me V. P. a extensam desta, que desde o principio eu prevî, que serîa comprida: e conserve-me muito na sua memoria. Deus guarde etc.
NOTAS DE RODAPÉ:

