XXIII Regresso
Cândido de Figueiredo translation
Pelas gargantas das ilhotas e à sombra de árvores, por extensos e alumiados canais, a barca ia singrando contra a corrente, que as chuvadas entumeciam. E, enquanto Élem e o saguim brincavam ou dormiam na barca, Vamiré remava sempre.
Firmara-se a paz com os orientais. Os cães tinham regressado às áridas savanas da beira das florestas; e o misero tardígrado terminara o seu êxodo para o Grande Lago.
Os asiáticos abriram as veias dos braços, e o seu sangue mesclou-se com o de Vamiré. Em nome das sagradas tribos, o velho enjeitou todas as ideias de guerra, e Vamiré falou de paz, em nome dos grandes nómadas ocidentais.{174}
Na primavera do ano seguinte, na terceira lua depois do equinócio, os Pzanns enviarão trinta caçadores, escolhidos entre os mais intrépidos, tendo a Vamiré por chefe, e aqueles homens virão buscar outros tantos aliados, dirigidos pelo prudente velho.
Quer o vento encrespasse as águas, quer as crivasse a chuva, cobrindo-as de pequenas bolhas saltitantes, a canoa vogava sempre para o Norte, desde a alvorada ao lusco-fusco. O bramir dos cervos, o barrir do mamute, o rugir dos leões, saudavam a passagem da frágil barca e o homem adversário. E ela vogava, vogava, pelas gargantas das ilhotas, à sombra das árvores, e pelos grandes canais alumiados.
E Vamiré pensava nos comedores de vermes, na profunda tristeza deles à hora da separação, nos seus broncos semblantes, no vago latir das suas risadas, e dos seus queixumes, na gratidão infinita dos seus olhares e na dificuldade com que eles, demorando-se junto de Vamiré, se resolveram a partir.
Do alto de um pequeno outeiro, despediu-se deles com um grito de amizade, a que corresponderam com a humilde melopeia da marcha. Firmes na união fraternal, que era o que os mantinha de pé em face do antropóide e das grandes feras, transportavam consigo os seus feridos.
Pelas gargantas das ilhotas, pelos vastos canais alumiados, as semanas sucederam a semanas, algumas vezes o sol dardejava os seus ardentes afagos, ou soprava o nordeste, açoite invernal, ou caíam lufadas impiedosas. Era mester então procurar abrigo nas calhetas, em cavernas{175} propicias, e perder dias inteiros, até melhorar o tempo.
Mas Vamiré tinha o peito cheio de grande orgulho, porque vencera as ciladas da natureza, a agressão dos animais ferozes, e o ardiloso ataque dos homens. Parecia-lhe tornar a ouvir, nos lararios nocturnos, o velho Tá, de cento e vinte Invernos, narrando o esboroar das montanhas, o escancarar do solo, a absorção dos grandes lagos em fauces de abismos.
Sentia-se maior que Harme. A história da sua viagem, referida pelos anciãos, faria palpitar o coração dos moços: surpresas do rio, perversidade dos répteis, ferocidade das feras, homens das árvores, regiões novas, homens tardígrados, comedores de vermes, Élem... E os velhos acrescentariam que devia ter sido necessária uma vontade invencível, para dominar a nostalgia, o horror das imensas solidões!
Ainda os sorrisos do céu, e os rudes aguaceiros, o rio verde ou lodoso, a corrente mais impetuosa, rápidos e catadupas, e sempre a barca, empenhada no regresso, com Élem folgando ou dormindo e Vamiré manejando o remo...
Sentiam-se próximas as chuvas, as infinitas chuvas. A tribo, refugiada nas cavernas da alta região, não deixaria as savanas do Oriente meridional, antes de meado outono, e Vamiré tornaria a ver seus pais Zom e Namir, seus valentes irmãos, e sua irmãzinha, que saltava como cabra montesa. E apresentaria aos velhos, humildemente, a esposa que ele levava de longe.{176}
Pelas gargantas das ilhotas, à sombra de árvores, e pelos extensos canais desensombrados, no declinar do período madalenico, quando o pólo do Setentrião gravitava para o luzeiro do Cisne...{177}