SEGUNDA PARTE (continued 2)
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--Mas, minha boa irmã, V. Exc.a bem sabe que devemos ao primo e snr. Sebastião da Mesquita, toda e qualquer satisfação que elle peça; não só pela qualidade da pessoa que é, como por ser nosso parente, e meu hospede... Talvez que essa creatura o offendesse, e...
--Um homem, como nosso primo, nunca póde dar-se por offendido pelo que lhe faça, ou diga, uma infeliz mulher... É a primeira vez, que ouço fazer distincção ao meu excellente irmão das qualidades dos seus convidados... V. Exc.a não se considerou, para assim fallar, o dono d'esta casa...
--De certo que não, nem podia, estando V. Exc.a aqui.
--N'esse caso, eu já dei as minhas ordens.
--V. Exc.a minha respeitavel thia e senhora, concede-me a honra de ser, no resto da noite, o cavalheiro d'essa dama?
--Agradeço-te a boa e fidalga intenção, meu presado sobrinho e snr. de Pindella. Has de vir a ser competentissimo para todas as nobres acções, assim o espero em Deus; mas és ainda muito novo para um protector.
--E para mim, prima condessa, não serão estas cans fiança sufficiente para receber a honra, que lhe pediu seu illustre sobrinho?
--A V. Exc.a, meu presado primo e snr. de Villa Pouca, que reconheço habil para tudo que seja nobremente arrojado e distincto, peço até a especial graça de conduzir, quando ella quizer, esta minha protegida á sua habitação...
--Nobres senhoras, e amaveis cavalheiros!... Penhorada em extremo pelos favores e attenções, que me dispensam, não posso deixar, comtudo, de pedir-lhes, que reformem completamente qualquer juizo menos favoravel, concebido pelo procedimento do snr. Sebastião da Mesquita... Só quem o não conheça, o poderá considerar capaz de uma acção menos nobre... Aquelle respeitavel ancião, que nem talvez ouvisse do que VV. Exc.as o accusaram, está soffrendo intimas dores, como paga da sua generosa bondade para comigo... Adoptou-me, e tratou-me como sua filha, e eu fugi repentinamente da sua vigilancia e carinho!... Procurei vir aqui, a este baile, só para vêr aquelle venerando velho, e beijar-lhe a bemfeitora mão... Queria fazel-o sem me dar a conhecer, e foi a minha teimosia em conservar o incognito, que o fez alvo de injustiças, que não merece!... De joelhos, e com a cara descoberta, lhe pede perdão de tudo esta infeliz, snr. Sebastião da Mesquita!...
--Rosa!!... Como póde conservar os sentimentos que acaba de manifestar, a mulher que... que eu não conheço!...
E Sebastião da Mesquita, assim fallando, virou as costas á donzella, retirando-se vagarosamente.
O baile continuou ainda por muito tempo, um pouco frio após estas scenas, e, para o fim, com a mesma animação do comêço.
As dôres alheias, não tolhem as festas dos felizes.
Quando a snr.
a
D. Maria II visitou o Minho, o sr. duque de Saldanha, que fazia parte do séquito da rainha, foi hospedar-se em casa do fallecido snr. do
Arco
. Constou ao povo, que o palacete estava custosamente adornado, e agglomerou-se á porta, para o vêr: os criados, não deixavam entrar; mas o illustre, e sempre chorado, titular, deu-lhe entrada franca, não consentindo que se despojasse dos seus
tamancos
, embora lhe inutilizasse riquissimos tapetes.
VII TORMENTOS INTIMOS
«Correu-me a vida outr'ora delirante, Tive faceis amores, ledas glorias, Julguei-me um dia amado e outro amante, Sonhei promptas victorias, E vi, em limpo céu formoso e puro, Brilhante erguer-se o vulto do futuro. Tumulto, agitação, rumor, bulicio Compoz o meu viver.--Mas eis que um dia Paro e vejo o tremendo precipicio-- A vida, que vivia, Era vida ficticia e descorada... Um pouco de sussurro--e ao cabo... o nada!»
(Silva Leal Junior.--Primavera.)
Logo que João de Lencastre chegou á falla com Sebastião da Mesquita, depois de lhe dar a rasão por que Arthur e Leopoldo o acompanhavam, e de lhe dar conta da entrega do dinheiro e onde ficara D. Maria da Gloria, occultando-lhe a parte que dizia respeito a Arthur Soares, porque este muito lhe rogara que assim procedesse,--noticiou-lhe Sebastião da Mesquita, com intimo pesar e viva inquietação, a fuga precipitada da donzella Rosa, encarregando-o de descubrir a sua paragem, e de saber os motivos que a determinaram a deixar a casa paterna, lançando sobre si indelevel estigma.
Não ficou o antigo escudeiro menos perturbado com a noticia, do que se mostrava o velho fidalgo ao dar-lh'a: preparava-se para ir procurar a donzella por toda a parte, quando um dos constantes visitadores da casa do Arco, muito fallador, e do numero de sujeitos que facilmente se relacionam com toda a gente que os quer ouvir, lhe deu, como novidade importante, a da chegada á terra de uma rapariga de truz, que parecia ser de facil accesso, pela pousada que escolhera, descrêvendo-a com toda a minuciosidade.
Agradeceu João a Deus, a veia falladora d'aquelle homem, que lhe poupára muitas fadigas; e não o enganou a sua esperança, porque era effectivamente Rosa a inculcada mulher, que elle foi encontrar na casa, e na occasiâo, descripta no capitulo--«Babel de Sabios.»
Depois que João conseguira fazer retirar os petisqueiros adoradores de Rosa, e ficara só com a donzella, empregára, para a obrigar a fallar, persuasivos e sentimentaes discursos, orvalhados, por mais d'uma vez, com lagrimas de mal escondida affeição. Foi tão eloquentemente irresistivel, que a donzella confessou-lhe tudo: disse-lhe, que fugira do seu lar, e abandonára a protecção e carinho dos nobres fidalgos seus paes adoptivos, porque não podéra por mais tempo ter occulto no peito o seu affecto por Arthur Soares, affecto que d'ella se apoderára por tal arte, que só pela morte ou pela doudice podia terminar. Que sabia a existencia de um amor, igualmente invencivel, entre Arthur Soares e D. Maria da Gloria, senhora que ella amava como irmã; e que, para não prejudicar com algum irreflectido procedimento seu estes amores, resolvera fugir, e dar-se como perdida, embora tambem estivesse resoluta na sustentação da sua virtude, mesmo no meio dos mais arriscados perigos.
João Vidal, ou de Lencastre, que a escutára com a maior attenção, depois de um longo silencio, significativo de intimas dores, disse á donzella, que não podendo deixar de ser já um facto conhecido do publico, a sua fuga e paragem n'um local de descredito, inuteis se tornavam todas as reflexões tendentes á demonstração do êrro de um tal passo; mas que elle via um meio seguro, e menos arriscado, de tudo se fazer como a donzella queria. Que pelo casamento d'ella Rosa, ficavam igualmente livres os amores de sua irmã adoptiva, não se expondo a donzella á lucta terrivel que começara; lucta que, mesmo victoriosa que d'ella sahisse, lhe havia de trazer necessariamente a perca da sua boa reputação: que elle possuia um nome, e uma pequena fortuna, e que, se podéssem esquecer os 40 annos da sua idade, no seu coração havia logar para a entrada de um sentimento sério.
Rosa, respondeu-lhe commovida, que não era digna de semelhante honra; que apreciava devidamente o seu brioso e caritativo proceder, e que lhe devia por elle o nome de irmã, com a santa amisade de um tal titulo.
Foram baldados todos os esforços, que João empregára para demover a donzella do seu proposito, e combinaram o guardar-se absoluto segredo ácerca do que entre elles se déra.
No dia seguinte ao do baile, alugou João de Lencastre uma casa, situada defronte d'aquella a que a donzella regressara; e despediu-se de Sebastião da Mesquita, dizendo-lhe que acompanhava Arthur Soares ás linhas do Porto, onde eram precisos braços leaes para a sustentação da causa do povo; sendo-lhe facil o convencer Arthur de que partisse sem elle, com promessa de lá ir ter, logo que podésse fazel-o; e recolheu-se secretamente á morada que alugára, para de lá espiar as acções de Rosa.
Arthur Soares, caminho do Porto, levava enluctado o coração. Sabia que era amado por D. Maria da Gloria; já se havia acostumado áquelle affecto, o unico da sua existencia; mas não podia desterrar de si o convencimento de que a fidalga lhe não podia ser dada por esposa. Era certa, e bem manifesta, a estima que lhe dava seu padrinho; mas essa estima, considerava elle mais como uma protecção das que usam conceder os nobres senhores aos que d'ella carecem, do que amisade verdadeira, que iguala e estreita os homens por laços fraternaes: possuia muitas provas do desapparecimento de affeições iguaes á que lhe concedia o fidalgo, logo que, pelo considerado e protegido, fosse ferido o orgulho de raça do protector. Pedia, pois, a Deus, que a sorte da guerra lhe désse occasião de elevar-se até poder chegar a D. Maria da Gloria, ou de fazel-o descer ao esquecimento eterno, com a gloria dos bravos por mortalha.
Leopoldo, cuja presença, na illustre casa da hospedagem commum, fôra tolerada por Sebastião da Mesquita em deferencia ás conveniencias sociaes, regressava tambem ao exercito da rainha, o grosso do qual se achava então em Coimbra, commandado pela primeira espada portugueza do nosso tempo.
Podia chamar-se um cadaver ambulante, o fidalgo militar, tal era o sombrio e estragado aspecto da sua pessoa. O soffrimento d'este desgraçado, que amava sem esperança, e que odiava por ciumes, era um severo castigo da Providencia. Caminhava para onde o chamava o dever, movido mais por um resto de brios, do que por empenho, e vontade, de servir a causa a que se devotára, depois de ter renegado a popular: n'elle só havia bem fixo, o sentimento do seu tormento intimo.
Sebastião da Mesquita, chorava com lagrimas paternaes a má sorte a que se entregára a donzella Rosa. Arrependera-se do seu arrebatamento no baile, desejára poder remedial-o, receber nos braços a donzella, perdoar-lhe a primeira leviandade, acolhel-a de novo, talvez ainda innocente e pura, e estorvar assim a quéda infallivel, e horrenda, da que elle considerára sempre como sua filha. Mas era já tarde; e o seu natural orgulho não lhe consentia desmentir, com um procedimento contradictorio, o severo porte de que usara publicamente.
Este facto, a par da violenta dôr que lhe entorpecera as forças physicas, fizera pensar Sebastião da Mesquita, com muita gravidade, no futuro de sua filha Maria da Gloria.
Por maior que seja a confiança que se deposite no caracter e virtudes de uma filha, quando vemos no caminho da perdição outra mulher, que nos é cara, lembra-nos logo a possibilidade de um desvio, e queremos remedial-o com prevenções, algumas vezes, e não poucas, com bem peiores resultados do que haveria no imaginado mal, que tentáramos evitar.
O velho fidalgo, depois de ter conferenciado com varios cavalheiros do berço da monarchia, onde se deteve pelo prostramento em que estava, escreveu a D. Maria da Gloria uma carta d'este theor:
«Minha muito presada Maria:
«O meu paternal carinho, leva-me a pensar que seja tempo de escolher-te um esposo digno de ti, que possa, na minha falta, proteger-te socialmente contra as ciladas sempre preparadas para as donzellas do teu merecimento, e do teu dote. Aqui, n'esta antiga e gloriosa terra de Guimarães, presumo eu que existe o que nos convém. Convido-te, pois, a que venhas quanto antes ter comigo, para avaliares por ti a competencia da minha escolha.
«Ainda hoje recebi carta da tua santa e respeitavel mãe, que é sempre o bom anjo do nosso lar. De certo tambem sabes, que ella está de boa saude, por que não haverá dia em que te não escreva, como á pessoa que ella mais ama.
«Recebe a benção, e uma saudade, do teu extremoso pae,
Sebastião.»
D. Maria da Gloria, embebida nos fagueiros sonhos de um futuro risonho, a que aspirava pelo seu amor a Arthur Soares, e entretida a desvanecer, com expansivas provas da sua amisade e bom juiso, os dissabores da sua discipula Anna, que todos eram a quasi certeza de não ser já amada por Leopoldo, nem por sombras podia prever a fatalidade de que estava ameaçada, com aquella ordem paterna.
O padre Alvaro, continuava a sua vida de oração e penitencia. Pastor exemplar, possuia o acrisolado amor das suas ovelhas, porque sabia praticar, para com todos, a caridade que aprendêra de Christo. Ainda assim, soffria constantemente, e muito. Havia uma campa na sua parochial egreja, ao pé da qual elle esquecia o filho idolatrado, as suas penitencias, o seu evangelico proceder, para tão sómente se recordar de que fôra peccador.
Feliz, quanto se póde ser n'este patrimonio de Eva, de todos os personagens do nosso «Conto», só era a respeitavel e bondosa matrona, D. Isabel de Abendanho, que tinha fechada a sua existencia em aldeia pacifica, e resumidas as suas ambições na direcção do seu casal, no respeito e amisade ao esposo, e no elevado amor a sua filha.
VIII A MULHER CAHIDA
«A justiça de Deus lhe infundira no coração abundancia de remorsos, e a dos homens lhe entornava sobre a fronte amplo vaso farto de ignominia.»
(A. H.--Fragmento de um livro inedito.)
Por mais que os homens doutamente célebres de todos os seculos tenham querido collocar essa formosa e apreciavel parte do genero humano--a mulher--na altura que lhe é devida, nunca a fonte sublime do amor, a mãe e o apoio da meninice, o esteio da vida, deixou de ser conduzida por nós a todos os sacrificios: raro é o homem que se aproxima da mulher sem que a macule; e feita escrava de seus caprichos, é a deshonra e o villipendio, que lhe dá em premio!
A mulher, na sua juventude, só ambiciona o nosso amor; alinda-se para agradar-nos, e nós damos-lhe, em vez do que nos pede, a paixão material que a enlameia: consome-se, para conservar-nos, em sua idade adulta, porque nos alimenta a seus peitos, arruinando a sua belleza; e nós córamos de um pejo infame, se a maternidade não teve logar dentro de umas certas condições sociaes, que nos imprimem a legitimidade: levanta as mãos ao céu na velhice, porque a mulher é naturalmente religiosa, dedica os ultimos annos de sua vida a orar por seus paes, por seus filhos, por todos os desvalidos; e nós alcunhamol-a de impostôra e de bruxa!
Existiram sempre philosophos, escassos de comprehensão, e mal avindos com a mulher, que attribuem a esta preciosa parte da nossa existencia o vicio do sensualismo, que nos provoca. Covarde mentira!
A perversão da moral, e o desenfreamento das vis paixões, tem sido, em todos os tempos, o resultado forçoso de infinitas circumstancias, em que a mulher não toma parte.
A corrupção da Grecia, como a romana sua filha, teve origem na philosophia de Epicuro, nos mancebos que a seguiam, e não nas vilipendiadas matrônas d'aquellas nações.
Antes das torpezas de Messalina, já Cesar tinha manchado o seu thálamo imperial.
Seriam as mulheres culpadas nos crimes, que abrazaram as duas cidades nefandas, de que nos falla o Génesis?!
Corteja-se a formosura da mulher; empregam-se aleives para seduzir a incauta; fazem-se promessas mentirosas; servem todas as villezas ao nosso proposito: um, é o dilecto de seus carinhos, e consegue o seu amor; aconselha-lhe a fuga da casa paterna; cerca-a de algumas commodidades passageiras; sacia-se; desampara-a; precipita-a na profundeza da desventura; deixa-a na miseria, e no desabrigo de toda a consolação humana!
A nudez e a fome, tomam então logar juncto ao umbral solitario da infeliz!... Que lhe resta?!... Vender-se!... Pedir ao primeiro que passa, que lhe estampe na fronte o ferrete do aviltamento pelo óbulo da infamia!...
Depois, as dissoluções, a velhice prematura, a miseria e a doença!...
Depois, a enxerga da caridade!...
Depois, a valla commum do cemiterio!...
Depois, nem uma só lagrima que lhe aqueça as cinzas; nem uma só flôr no seu jazigo; ninguem que ore por ella a Deus!...
E o elegante seductor?...
Passou a fazer novas conquistas; gastou o melhor do seu vigor e da sua fortuna, em atirar com muitas irmãs na desgraça ao lado da sua primeira victima; pensou mais tarde em casar-se; escolheu convenientemente a esposa, fez-lhe a mercê do seu nome e, para vingar-se de uma affronta, que não podia ter o seu perdão, assassinou a mulher adultera!...............................................................
Rosa, luctava com animo viril contra as tentações de todo o genero de que se via rodeada no bordel a que voluntariamente se acolhêra. Eram-lhe, porém, já muito pesadas essas luctas desiguaes. Mais ainda que os atrevimentos e ciladas dos vadios frequentadores d'aquella casa, causavam asco á virtuosa donzella as suggestões das infelizes do seu mesmo sexo, pervertidas até ao extremo de tentarem chamar ao seu grémio as que não tinham mácula.
Principiava a entrar na alma de Rosa o arrependimento do passo precipitado a que se abalançara. Conhecêra, ainda que tarde, a borda do precipicio em que estava, receiava pelas suas forças, e tremia de não saber como fugir-lhe.
Uma noite, foi a donzella mais atacada pelo terror: pareceu-lhe, a deshoras, ouvir estranhos rumores, fóra do seu pequeno e pessimo quarto. A pouca segurança da porta, e da fragil fechadura, augmentava o receio da donzella: apromptou luz, e vestiu-se.
O rumor aproximou-se, a porta foi violentada, e Rosa agarrada fortemente pelos pulsos:
--Não esperava esta desfórra do seu militar, amavel vivandeira?!...
--Deixe-me... largue-me... acudam!...
--Não espante as pulgas, menina... Esta boa terra dorme toda ás nove horas, e já passa da meia noite... Só poderia esperar beneficio da minha generosidade, e eu, confesso, não tenho o fraco de generoso...
--Não realisará a malvadez que intenta, em quanto eu tiver um sôpro de vida...
--É o que vamos a vêr...
E o malvado homem empregava todas as suas forças, em dobrar a mulher, que não podéra seduzir.
Rosa, debatia-se com toda a furia e, mais que outra qualquer, resistira por muito tempo.
Quando estava proxima a matar-se ou a ser preza do infame, quebrou-se repentinamente um vidro da janella, e varanda, que dava para a rua, abriu-se a porta d'ella, e penetrou no quarto um homem, possesso da furia do leão, que descarregou sobre a cabeça do aggressor uma fortissima pancada, com o castão de um chicote de força, estendendo-o logo sem accordo de si.
--O snr. João de Lencastre!!... Oh, leve-me d'aqui!... Salve- me!... A mais forte das mulheres, cercada d'estas infamias, é impotente e fraca!... Agora o conheço!... Mas... como appareceu tanto a proposito?!...
--Habito aquella casa, alli defronte, e estava sempre de vigia, e preparado com uma taboa forte e larga, para lançar da minha janella á varanda d'esta casa, quando, como agora succedeu, lhe fosse necessaria a protecção de... seu irmão, senhora...
--Que nobre alma a sua, João!... Vamos... deixemos este inferno, e em sua casa combinaremos o que deva fazer-se...
IX O PERIGO DAS CARTAS
«......e bem se manifesta, Que são grandes as cousas, e excellentes, Que o mundo encobre aos homens imprudentes.
(Camões--Lusíadas.)
D. Anna e D. Maria da Gloria, passavam as horas em longos desafógos e amigaveis confidencias, suavisando assim as saudades e as mágoas que soffriam. Nas suas respectivas posições, não era aquella a epocha mais infeliz da vida das duas amigas. Quando podêmos depositar em peito amigo o que nos impressiona, quasi desapparece o pesar que sentimos, pelo allivio que nos dá a certeza da partilha na dôr.
Estava, porém, marcado pelo destino, que poucos deviam ser os momentos de quietação, para as heroinas do nosso «Conto».
A carta que Sebastião da Mesquita escrevera á filha, viera terminar o gôso das confidencias, e tornal-o em prantos amargos. Para D. Maria da Gloria, o ser forçada a casar-se com outro homem, que não fosse Arthur Soares, era peior do que a morte. Sabia-o D. Anna, que tomou uma deliberação arrojada, para salvar a sua amiga, sem lh'a communicar. Mandou um expresso a Arthur Soares, com uma carta d'este theor:
«Meu presado irmão adoptivo:
«Confiada no seu cavalheirismo, de que já possuo bastantes provas, ouso pedir-lhe que venha a esta sua casa, logo após a recepção d'esta minha carta. Leopoldo está ausente, como sabe, e nós esperamos o snr. Arthur com a maior anciedade.
Anna.»
Isto feito, tratou de convencer a sua mestra, e amiga, de que devia accusar ao pae a recepção da carta, e dizer-lhe que estava doente, e que cumpriria as suas ordens, logo que o seu estado de saude lhe permittisse fazel-o; porque assim ganhava tempo, que podia muito bem mudar a face dos acontecimentos. D. Maria da Gloria, inhabil para o raciocinio, sujeitou-se a tudo quanto lhe ensinuou a sua amiga.
Por este tempo, marchava sobre as linhas do Porto, o general em chefe das tropas da rainha, com o grosso do seu exercito.
As tropas da junta provisoria do governo supremo do reino, haviam soffrido desastres, sendo, o mais notavel, a
incomprehensivel desgraça
de Torres Vedras;
mas as activas e energicas providencias dos homens do governo, juntas á dedicação popular pela sua causa, tudo remediavam como por encanto. Em vez de diminuir, augmentava o numero de soldados, por cada batalha que se perdia!
E apesar dos desastres, do grande dispendio com as reorganisações do exercito, e de só pagarem tributos moderados os povos sujeitos ao poder da junta, poude esta exemplar quanto energica governação decretar, entre outras medidas de bom senso e muito alcance, e de algumas pensões avultadas,
que as mulheres dos officiaes prisioneiros na batalha de Torres Vedras recebessem uma prestação mensal de 12$000 reis, e as das praças de pret 60 reis diarios, em quanto seus maridos estivessem em poder do inimigo
.
O quartel general do real exercito estava em Oliveira de Azemeis: foi escolhido um official para commandar uma força, que fosse em conhecimento junto das linhas do Porto, e recahiu essa escolha em Leopoldo. Ao saber-se da aproximação de forças inimigas, tocou a rebate dentro dos muros da cidade invicta, e as linhas foram immediatamente guarnecidas em fórma.
Arthur Soares, commandava uma companhia de voluntarios da guarnição, que occupava, casualmente, o lado da estrada de Lisboa. Conhecida a pequenez da força inimiga, os insoffridos populares saltaram as linhas, e foram atacal-a. Arthur quiz, mas não o conseguiu, conter os do seu commando. Havia recebido ha poucos instantes a carta de D. Anna, e não podia, nem queria, arriscar temerariamente a vida n'aquella occasião. Anciava que terminasse aquelle passageiro incidente da guerra, para correr ao chamamento da sua companheira de infancia. Batia-lhe apressado o coração, porque um presentimento lhe segredava, que D. Maria da Gloria não era estranha no conteúdo da carta; mas como não podéra refrear o impeto dos voluntarios, forçoso lhe foi acompanhal-os.
Empenhado o tiroteio entre as pequenas forças inimigas, cahiu ferido Arthur Soares, que ficára por morto no campo. Um soldado, d'aquelles a que os proprios camaradas dão o epitheto infamante de pulhas, despojou logo o official inimigo de todos os objectos de algum valor, que elle tinha em si: entre os demais despojos, ficou tambem possuidor da carta de D. Anna, que teve a curiosidade de lêr; e como visse lá o nome de Leopoldo, e soubesse que assim se chamava o seu commandante, com a mira em qualquer recompensa, quando por ventura com elle se entendesse aquella carta, foi immediatamente entregal-a a Leopoldo, dizendo-lhe que a encontrára perdida no logar da refrega...
Aquella bala de papel, fôra mais fatal ao marido de D. Anna, do que a de chumbo ao amante de D. Maria da Gloria...
Leopoldo retirou precipitadamente com a força do seu commando; e o corpo de Arthur Soares foi recolhido pelos seus camaradas, que lamentavam com desespêro a sorte do bondoso e bravo official.
Em proclamação do primeiro general da junta do Porto, datada de Coimbra de 29 de Dezembro de 1846, lê-se: «Soldados!--Nem a desgraça da nossa valente segunda columna vencedora em Torres Vedras, e depois anniquilada por uma
incomprehensivel desgraça
; nem a conspiração dos elementos, que tornaram perigosa e terrivel a nossa marcha, na qual centenares de individuos ficaram em poucas horas descalços, e muitos em risco de morrerem, tem podido abater vossa coragem!»
Decreto da junta de 11 de Janeiro de 1847.
X O CRIME
«O espirito não lhe dava coisa que vislumbrasse senso-commum. A carta era o seu maximo supplicio.»
(Camillo Castello Branco. Mysterios de Fafe.)
D. Isabel de Abendanho recebera carta do marido, communicativa da sua resolução de casar a filha com um cavalheiro vimaranense; e dizia-lhe que fosse, acompanhada do padre Alvaro, á residencia de D. Anna, e de lá viessem todos ter com elle a Guimarães.
A chegada de sua mãe, e do padre Alvaro, foi para D. Maria da Gloria novo motivo de abundantes lagrimas. A velha e nobre senhora preadivinhara a rasão d'aquelle pranto, e desde logo protestou dar á filha o seu maternal apoio. O padre Alvaro, senhor da causa que assim amofinava as tristes mulheres, deu-lhes a consolação das suas evangelicas palavras, e prometteu empregar, com Sebastião da Mesquita, os brandos meios da persuasão para o dissuadir da effectividade de um enlace repulsivo á noiva. Todos de accôrdo em demorar quanto possivel a ida a Guimarães, confirmaram a Sebastião da Mesquita a noticia do incommodo de D. Maria da Gloria, que afinal não era mentirosa, porque a donzella estava doente, e de molestia que podia matal-a, se não tivesse força para resistir á vontade paterna.
Rosa, salva da vergonha e da deshonra por João de Lencastre, resolveu aproveitar-se da protecção do seu salvador, e assentaram de viver, em Portugal, ou no estrangeiro, debaixo de rigoroso incognito, mostrando a donzella desejos de vêr as suas queridas companheiras antes da sua completa desapparição, embora lhes não podésse fallar; e o antigo escudeiro, que não tinha vontade alheia á da sua protegida, cogitava no modo de fazer-lhe a vontade.
Nenhum dos mais fortes inimigos do homem, empenhado em fulminal-o, e dispondo de todas as convulsões do mundo, teria conseguido produzir em Leopoldo uma sensação semelhante á que sentira com a leitura da carta, que o soldado lhe entregara. Por momentos, julgou-se victima de um sonho, e o seu olhar desvairado era terrivel de vêr-se. Depois, de subito, sahiu-lhe do peito um como rugido feroz, e todas as suas acções foram impetuosas e allucinadas. Mandou tocar á retirada, entregou o commando ao seu immediato, e precedeu muitas horas, tal foi a sua vertiginosa carreira, a chegada da força ao quartel general. Alli, fez, como lhe cumpria, o relatorio dos successos militares, de tal sorte contradictorio e obscuro, que lhe não foi difficil obter a licença, que febrilmente implorava, porque os superiores o suspeitaram victima do começo d'uma alienação mental.
Era alta noite, e dormiam todos os habitadores do seu palacio, quando Leopoldo chegou alli, vindo do acampamento. Quem o tivesse visto jornadear de noite, ora esporeando o ginete de modo a fazel-o saltar por todos os obstaculos, que lhe estavam defronte, ora deixando o caminhar em direcção incerta, e com as rédeas soltas, dizia que era um sêr phantastico dos que algumas vezes nos agitam o somno. Gastára algumas horas a percorrer os arredores da sua principesca habitação, para conseguir introduzir-se lá, sem que fosse apercebido.
Estava a romper a manhã, quando podéra obter entrada por uma janella baixa, que ficara mal fechada, e caminhar, tateando, e com passos incertos, até ao seu quarto de cama, onde se apossou do punhal que pendia da cabeceira do seu leito, abrindo em seguida as janellas, e expondo ao ar a sua abrazada cabeça.
Ao voltar a vista para o interior do quarto, já um pouco alumiado pela frouxa luz do crepusculo, pareceu-lhe que a sua cama não estava deserta, e foi ajuntar-se-lhe ás violentas commoções que o infernavam mais um mixto de curiosidade e de terror, como teria o bandido que deparasse inopinadamente, na casa que julgara dezerta, com uma testimunha de seus crimes.
No leito de Leopoldo dormia tranquillamente o somno da innocencia, a suspeitada esposa. Tivera que sahir dos seus aposentos, occupados até então por ella e por D. Maria da Gloria, á chegada alli de D. Isabel, para que esta ficasse junto da filha.
Reconhecida pelo marido a mulher da qual julgava possuir um incontestavel documento de adulterio, as feições do dementado assumiram as repugnantes proporções da mais repelente das mumias; e monologou terrivelmente:
«Estás no teu sepulchro, maldita!... O mesmo leito que manchaste com a infidelidade, será manchado pelo teu sangue villão!... Não mais acordarás d'esse ultimo somno, em que os sonhos de megéra te hão de trazer ainda junto dos labios o halito do canalha, que eu hei-de devorar após de ti!... Far-te-hei abrir os olhos, apenas para vêres a tua carta, que o diabo me levou ás mãos, e nem uma palavra te deixarei pronunciar, porque antes terá este punhal atravessado o teu infame coração!....»
E, fazendo o que disséra, sacudiu violentamente a infeliz D. Anna, apresentou-lhe diante dos olhos, mal abertos, a carta homicida, e enterrou-lhe em seguida o punhal no peito!...
A desgraçada senhora, teve apenas tempo para dar um grito revelador da suprema agonia, e cerrar os olhos.
Ao ouvir aquelle brado de morte, fitou o vingador de imaginaria affronta um olhar tresvairado em redor de si, e ficou, como se estivera pregado ao chão, sem forças nem deliberação para fugir. Estava assim havia já muito tempo, quando se abriu uma porta, e entraram por ella duas pessoas em traje de romeiros que andam em peregrinação. Os recem-chegados, ao tomarem conhecimento da tragedia que tinham á vista, ficaram por um pouco, como assombrados de raio: um d'elles, o que primeiro conseguiu mover-se, foi cahir com a cabeça sobre a da assassinada, lavando-lh'a com as lagrimas que vertia. O outro, com um sangue frio ainda mais terrivel que o desespêro, aproximou-se de Leopoldo, encarou-o longo tempo, como olharia para o maior dos monstros, e exclamou por fim:
--Assassino!... Miseravel e cobarde assassino de mulheres!... Não posso eu ser o vingador d'aquella infeliz, porque--desgraça! disseram-me que era teu irmão!... Mas Deus a vingará, malvado!... O teu futuro hade ser de cruel expiação, crê!... O maior castigo que te espera, é o prolongamento da vida que tens a viver!...
E deixando-o, sem lhe tocar, foi apalpar o seio da assassinada:--«Ainda lhe pulsa o coração, e o padre Alvaro está aqui!...» E saiu rapidamente do quarto, voltando, minutos depois, acompanhado do pae de Arthur.
O ministro do altar, entrou no sagrado exercicio do seu alto e sublime ministerio: serviam-lhe os dous romeiros de ajudantes, e Leopoldo estava ainda, immovel, no mesmo logar, em que ficára de seguida ao crime.
O padre Alvaro foi tocar de manso no hombro do assassino, e disse-lhe com brandura:
--Irmão! Ajoelhe, que está na presença de um Deus misericordioso e vingador!
Ao contacto d'aquella mão, e ao sussurro d'aquellas palavras, fez Leopoldo um movimento de cabeça, assomou-lhe aos labios um riso idiota, e tartamudeou:
--Não acordem a minha segunda esposa... Com esta casei eu por amor... Não me hade trahir que é nobre... O punhal está guardado... Ella disse-me que era uma arma villã, e eu escondi-o no peito da Anna... Hade amar-me depois da batalha... Sou general, e hei de vencer... Terei um duello com o meu rival... Depois, a felicidade... E meu filho, que me não conhece!... Meu filho, que me chama assassino, que me cóspe injurias a todo o instante, que me espanca sem piedade!!... Perdão!... Perdão!...
--A loucura e os remorsos na propria hora do crime!... Aquella que ajudo a bem morrer, é menos desgraçada do que o seu assassino!...
Haverá quem não trema da vossa justiça, meu Deus?!...
FIM DA SEGUNDA PARTE