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Tres capitaes

BUENOS-AIRES

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Situação e Aspecto Geral

Aos 34.° 36, 21´ 4 de latitude austral e 58.° 21´, 33´ 3 de longitude occidental de Greenvich, á margem direita do Rio da Prata e a 20 metros acima do nivel do mar, está situada a cidade de Buenos-Aires, capital da Republica Argentina e a metropole mais importante, commercial e populosa da America do Sul.

N’esse ponto, a 275 kilometros da foz e a 200 de Montevideu, tem o rio 45 kilometros de largura e uma profundidade sufficiente para fundeadouro de grandes transatlanticos.

O perimetro da cidade é de 200 kilometros as maiores extensões são—de Norte a Sul 18 kilometros e de Este a Oeste 25 kilometros, com uma superficie de 19:006 hectares, isto é, mais do que Paris, que tem 7:802 hectares, Berlim, 6:326, Vienna d’Austria, 5:540 e do que Hamburgo, que tem 6:346 hectares de superficie.

Manchester, Londres e Marselha teem, respectivamente, 38:486, 30:486 e 22:336 hectares de superficie.

Á excepção de algumas das grandes metropoles norte-americanas, nenhuma outra cidade do mundo apresenta mais rapido augmento de população. Os seus principaes periodos de crescimento, foram de 1869 a 1887 e d’este anno ao de 1895. Na primeira das citadas datas os habitantes eram em numero de 177:000 e na segunda de 433:000, tendo augmentado em 256:000 moradores no espaço de 18 annos.

Em 1895, a população da capital era de 663:000 habitantes, ou mais 230:000 do que oito annos antes!

Fundada, em 1580, com 16 quarteirões ou quadrados de casas, pelo recenseamento geral de 1895, verificou-se constar a cidade de 54:795 casas, das quaes 912 com mais de 3 pavimentos, 6:332 com dois andares e 30:083 de um só pavimento. Hoje, Buenos-Aires encerra cêrca de 83:000 edificações, que abrigam 1:200:000 habitantes.

O aspecto geral d’esta soberba metropole é o de uma immensa planicie edificada e corôada pelos campanarios das suas egrejas e pelos zimborios dos seus palacios. O horizonte é limitado pela superficie do rio da Prata, cuja margem oriental apenas se avista nos dias muito claros, e pela aridez e côr pardacenta das campinas, que se estendem e prolongam além dos limites do municipio.

O excessivo comprimento de muitas arterias publicas faz com que, para o observador, a sua já exigua largura desappareça na altura da casaria.

A rua de Rivadavia, que divide, por completo e de um a outro extremo, o municipio, tem a extensão total de 18:000 metros, ou sejam 18 kilometros.

Nos primeiros 2:080 metros de comprimento tem a largura de 9½ metros; de Callao á Praça das Flôres, essa largura attinge 26 metros, que conserva até final. A rua de Santa Fé, parallela á anterior, é comprida de 12:000 metros; a de Cordoba, de 10:500; a de Corrientes, de 9:000; as de Callao e de Entre Rios, de 8:500 metros cada uma; a rua Independencia de 8:000 metros e muitas outras têm extensões immediatamente inferiores ás já citadas.

A magnifica Avenida de Mayo, com 30 metros de largura e kilometro e meio de comprimento, corre na direcção Este-Oeste e é, pelo movimento civico, pela situação topographica e pelo esplendôr dos seus edificios, a principal arteria publica da capital argentina.

Termina na amplissima e magestosa praça do mesmo nome, ladeada de monumentos e palacios, como a Cathedral, o Banco da Nação Argentina, a Camara Municipal e o Palacio do Governo. Na extremidade opposta da Praça de Mayo, ergue-se o grandioso monumento do Congresso Nacional.

A praça do general Lavalle, com 25:000 metros quadrados, é decorada a lindissimos jardins e, ao centro, pela estatua do general Lavalle.

As avenidas de Corrientes, de San Juan, de Belgrano, de Santa Fé e de Callao, são as mais importantes, depois da de Mayo, e mais extensas do que esta, se bem que o seu aspecto geral não seja tão bello e imponente.

A praça do general San Martin, profusamente ajardinada e ostentando a estatua equestre do seu homonymo, é um dos mais bellos pontos do centro da capital, assim como o passeio Alvear, ou da Recoleta e os parques Lezama e 3 de Fevereiro, especialmente o ultimo, com uma superficie de 3:677:464 metros quadrados, e que é o Bosque de Bologna de Buenos-Aires, excepto na vegetação. É especialmente frequentado ás terças e quintas-feiras, os dias da moda, por numerosas e ricas equipagens, que imprimem a esta capital o cunho essencialmente europeu dos grandes centros da aristocracia, da riqueza e da elegancia.

Quem chega a Buenos-Aires em dia de semana e nas horas de maior movimento civico, tem a illusão de que está em Paris, por exemplo, tal é o feitio caracteristico e eminentemente parisiense da metropole buonarense. Os cafés installados nos amplos passeios lateraes; os kiosques de jornaes e de tabaco, espalhados em profusão; a assombrosa quantidade de carruagens e de vehiculos de toda a especie, e até os vendedores de jornaes e de bugigangas, que como o camelot dos boulevards, tanta animação imprimem ás já animadissimas arterias da colossal cidade, tudo nos faz sentir que estamos em um dos formidaveis laboratorios humanos, onde se desenvolve a vida universal. Pena é que as arterias largas de Buenos-Aires, ou avenidas, sejam poucas em relação aos arruados que dividem as suas 3:500 manzanas, ou quadrados de casas, e que são excessivamente estreitos, para o espantoso movimento que os anima.

É facillimo ao visitante orientar-se na famosa capital porteña, devido á originalidade da sua topographia.

Effectivamente, o plano de Buenos-Aires é formado por quadrados de metros 130×130, que se cortam em angulo recto, formando como que taboleiros de xadrez. A numeração começa na direcção do porto e segue até á rua Rivadavia, que divide o municipio e onde principia a nomenclatura e a numeração de outras ruas.

Os nomes d’estas estão escriptos, em todas as esquinas, em lettras brancas sobre fundo azul e em chapas ou placas de ferro esmaltado. Cada quadrado tem o maximo de cem unidades, com a numeração par á direita e a impar á esquerda.

Todas as ruas e avenidas centraes são calcetadas a madeira e a asphalto, e as mais afastadas a parallelipipedos. Só a abertura da Avenida de Mayo custou dez milhões de pesos argentinos, e sommas fabulosas gastam actualmente o governo e a municipalidade na expropriação para alargamento de novas ruas, praças e avenidas, bem como na construcção de magnificos edificios publicos, que são verdadeiros monumentos.

Trinta e quatro mercados publicos abastecem a maravilhosa cidade e mais de 25:000 candieiros de electricidade, gaz e petroleo a illuminam profusamente. Todas as praças, avenidas e ruas principaes são realçadas, durante a noite, por poderosos fócos electricos.

As condições climatericas são excellentes, graças á situação topographica e geographica da localidade e já pelo cuidado e esmero das repartições competentes, em tudo o que diz respeito á salubridade e hygiene publicas.

Até 1890, a mortalidade de Buenos-Aires era de 29 a 30 por 1:000 habitantes. Depois das obras de saneamento, terminadas n’esse anno e nas quaes foram gastos 33 milhões de pesos em ouro, as defuncções baixaram a 15 e 16 por 1:000.

Tambem contribúe para esse resultado satisfactorio a amenidade da temperatura, cuja média, no mez mais frio do anno, o de Junho, é de 7.° centigrados e em Dezembro, o mez mais quente, é de 26.°

Sob o ponto de vista artistico, e especialmente architectonico, a perspectiva geral da cidade é bizarra e variadissima. Da povoação colonial pouco resta e a nova capital foi edificada, até bem pouco tempo, ao capricho dos proprietarios e de architectos na maioria incompetentes.

N’estes ultimos vinte annos, todavia, verdadeiras obras de arte teem apparecido a engrandecer a cidade, tanto particulares como publicas, especialmente nas novas e centraes avenidas.

Buenos-Aires é não só metropole assombrosamente commercial, mas tambem centro importantissimo de gôso, de luxo e de prazer. Na estação invernosa, de Maio a Outubro, funccionam tres ou quatro companhias lyricas, com os melhores elementos de reputação universal, assim como numerosas emprezas e celebridades artisticas na zarzuella, na declamação e no genero variado. Os seus grandiosos theatros são o assombro e o encanto dos forasteiros, que tambem sentem a impressão do bello e do supremo gosto ao contemplarem defronte de esplendidas vitrinas, nos passeios e em ricas equipagens, formosas damas, elegantemente vestidas, e irradiando das suas gentilissimas pessôas, a graça que seduz o espirito e incendeia os corações.

Historia

O nome de Buenos-Aires tem duas versões, adoptadas ambas por historiadores da famosa capital argentina. Segundo uns, Sancho del Campo, official do adelantado, especie de vice-rei, D. Pedro de Mendoza, primeiro fundador da povoação, ao saltar em terra exclamára:—buenos-aires!—referindo-se aos ares agradaveis que circulavam na atmosphera. Outros escriptores sustentam que o nome provem do de Santa Maria de Buenos-Aires, muito da devoção dos mencionados expedicionarios. Effectivamente, o primeiro nome dado á localidade, foi o de cidade de Santa Maria.

D. Pedro de Mendoza partiu de Sevilha em 24 de Agosto de 1535, com quatorze navios e 220 homens de equipagem, entre officiaes e soldados. O almirante da armada era D. Diogo de Mendoza, irmão de D. Pedro.

A causa d’esta expedição foi a descoberta e exploração das minas de ouro e de prata, que o navegador Gaboto affirmára, em Hespanha, ter visto nas margens do Rio da Prata. Como o informador tambem se referisse á extraordinaria fertilidade e belleza das terras platinas, o espirito aventureiro d’aquellas épocas, acabou por decidir a organisação da frota, na qual o adelantado foi acompanhado por muitas pessôas gradas, umas que tinham de transportar-se ao Paraguay, e outras desejosas de riquezas e de aventuras.

Na altura das Ilhas Canarias, a expedição foi surprehendida por grande temporal, que a forçou a arribar ao Rio de Janeiro, onde, por vingança, Mendoza mandou matar o mestre de campo João de Osorio. Como a crueldade d’este acto provocasse a indignação da maioria da equipagem, o chefe mandou levantar ferro para impedir as deserções e nos primeiros dias do anno de 1536, ignorando-se a data exacta, fundeou a armada na embocadura do Rio da Prata. Seguiu-se o desembarque e a fundação da cidade, ao mesmo tempo que de um forte para defeza da nova povoação contra os ataques dos naturaes. Estes, os indios querandies, tentaram impedir o estabelecimento dos hespanhoes, conseguindo surprehender e matar dez d’entre elles, que haviam-se internado á procura de lenha. No intuito de vingar esta affronta, D. Diogo de Mendoza, á frente de uma expedição militar, partiu á procura da tribu, que o esperou nas margens de uma lagôa e em numero de alguns milhares de guerreiros.

Os invasores succumbiram ao numero, e o proprio D. Diogo foi morto, o que profundamente desanimou o fundador de Buenos-Aires. D. Pedro caiu gravemente enfermo e á derrota seguiu-se a falta de viveres, que degenerou em fome, a ponto dos vivos alimentarem-se com a carne dos companheiros mortos. O governador resolveu retirar-se para o Brasil, mas quando ia a partir, appareceu-lhe, com algumas provisões, o capitão Oyolas, que elle mandára ao interior, em busca de viveres. Este successo reanimou um pouco os hespanhoes, porém os indios, tendo-se reunido em numero superior a 20:000, atacaram a nova povoação, ao mesmo tempo que incendiavam os seus tectos de palha, arremessando-lhes flechas ardentes. Os habitantes foram obrigados a refugiar-se, com D. Pedro de Mendoza, nos navios que os indios não puderam queimar, e partiram, em numero de 400, na direcção do Paraguay, ficando no porto de Buenos-Aires e a bordo de 4 navios, 160 homens, ao mando de Juan Romero. Do meio da viagem, D. Pedro de Mendoza, voltou a Buenos-Aires, onde encontrou reinstallada a gente de Romero, pela retirada dos indios.

O adelantado nomeou capitão do porto e da povoação a Francisco Ruiz Galán, e partiu para Hespanha, morrendo em viagem e a bordo do navio «Magdalena», em 23 do Junho de 1537. Privações de toda a especie continuaram a flagellar a pequena população de Buenos-Aires, até que em Abril de 1538, chegou de Hespanha uma caravella de soccorro, carregada de provisões. Em Outubro d’esse anno appareceu uma expedição auxiliar composta de dois navios e 200 tripulantes, com viveres para dois annos, sob o commando de Alonso Cabrera.

Com estes reforços começou-se a reconstrucção das casas incendiadas, pelos indios, e da egreja.

A Ayolas, capitão de Mendoza, que foi assassinado pelos indios do Chaco, succedeu no commando Domingo Martinez de Irala. Este reuniu, em Assumpção, os homens que Mendoza tinha deixado nas margens do Paraná, e dirigindo-se a Buenos-Aires, ahi fez proclamar a despovoação, levada a effeito em 10 de Maio de 1541, queimando-se os navios emprestaveis para navegar; e partindo Irala com toda a população para o Paraguay.

Da expedição e tentativa de D. Pedro de Mendoza ficou, como recordação indelével, o rebanho de 75 cavallos e eguas que elle trouxera de Hespanha e que solto nas immensas planicies regadas pelas aguas dos rios Riachuelo e da Prata, foi a origem da actual riqueza animal das regiões platenses.

D. Juan de Garay, nascido em 1528, em Villalba de Lora, provincia de Burgos, aos 16 annos de edade embarcou para Lima, no Perú, em companhia de seu tio, o licenciado Pedro Ortiz de Zárate, ouvidor n’aquella cidade sul-americana. Em 1549 acompanhou o general Juan Nuñez del Prado ás provincias de Tucuman.

Tendo estado em Charcas e tomado parte em varias expedições contra os indios, em 1561 foi nomeado alguazil-mór do governo do Rio da Prata, pelo que estabeleceu-se na cidade de Santa Cruz da Serra, fundada por Nuflo de Chaves. Commissionado pelo governo do Paraguay para fundar uma povoação nas margens do Paraná, para alli partiu em uma caravella, a 14 de Abril de 1573, fundando a cidade de Santa Fé, em 15 de Novembro do mesmo anno.

Depois de voltar ao Perú, para tratar um assumpto de familia e de derrotar, no Paraguay, o cacique Oberá, Juan de Garay, um dos maiores e mais celebres aventureiros do seculo XVI, organisou uma expedição e dirigiu-se ao Rio da Prata, em cuja foz lançou ferro. Desembarcando, com os seus companheiros, em 11 de Junho de 1580, depois de meia hora de marcha, fez alto em uma planura que lhe pareceu apropriada, e ahi traçou o local da praça principal de uma nova povoação, a que pomposamente deu o titulo de Ciudad de la Trinidad de Buenos-Aires. O fundador estava a pequena distancia do povoado fundado, 44 annos antes, por D. Pedro de Mendoza, e o espaço traçado pela sua espada é a actual praça 25 de Mayo.

Quatro mezes mais tarde, procedeu-se á repartição das terras fóra do perimetro da cidade. Esta occupava um espaço de 16 quadras de frente por 9 de fundo, limitado pelas actuaes ruas 25 de Mayo, Balcarce, Viamonte, Libertad, Salta e Estados Unidos.

Em 1762 já Buenos-Aires tinha 24 quadras de frente por doze de fundo. Cada quadra comprehende 140 varas de comprimento. As casas que, em 1650, não passavam de 400, eram algumas cobertas de telha, porém a maior parte tinha os tectos de palha, e eram muito baixas, de madeira e pedra. N’essa época e mesmo até ao fim do seculo XVII, nenhuma habitação attingia a altura de cinco metros.

Assegurada a fundação e garantido o sustento da cidade, aquella por uma derrota inflingida aos indios querandies, e este pelas numerosas tropas de gado que povoavam as campinas circumvisinhas, partiu o fundador Juan de Geray para Assumpção, no Paraguay, com escala pelas colonias do rio Paraná, algumas tambem de sua fundação. Em uma d’estas excursões, tendo pernoitado em terras dos indios miunanes, ainda selvagens, foi traiçoeiramente morto por estes, bem como os da sua comitiva. Sabida, em Buenos-Aires, a noticia do desastre, assumiu o mando um sobrinho do adelantado Vera, até á chegada d’este, em 1587.

Já em 1585, a cidade tinha sido atacada pelo corsario inglez Eduardo Fontano, que foi repellido, renovando a tentativa dois annos mais tarde e com egual resultado, o famoso pirata, da mesma nacionalidade, Thomaz Cavendish.

Os heroicos habitantes da povoação, todos soldados, tambem repelliram, victoriosamente, um ataque dos hollandezes, então estabelecidos no Brasil, em 1618.

Um seculo depois da fundação, Buenos-Aires passou por longo periodo de decadencia, em consequencia do abandono da metropole, das hostilidades dos indigenas e da falta de navegação e de commercio, o que provocou a carestia dos generos de primeira necessidade. A primeira Audiencia, estabelecida por decreto de 6 de Abril de 1661, representou a situação da colonia ao rei de Hespanha, Filippe IV, recebendo resposta, sete annos mais tarde, firmada por D. Marianna d’Austria, viuva d’aquelle monarcha e regente do reino, durante a menoridade de Carlos II. Esse documento apenas recommendava ao mestre de campo, D. José Martinez de Salazar, que empregasse todos os esforços para debellar a crise que affligia a colonia. N’essa época a população de Buenos-Aires era de 4:000 pessôas, das quaes apenas uns 250 europeus.

Já então a cidade começava a reanimar-se, devido á expansão commercial, maritima e do interior, a ponto que, em 1730, o jesuita Cattaneo, que a visitou, calculou os seus habitantes em 16:000.

D. Juan José de Vertiz, governador que succedera a Zeballos, iniciou, em 1778, una série de melhoramentos que deram novo aspecto á cidade. Deve-se-lhe a illuminação publica, o empedramento das ruas, a introducção do primeiro prélo e a fundação da Casa dos Expostos e do Collegio de S. Carlos. Em fins do seculo XVIII, fôram construidos o primeiro theatro e a primeira praça de touros.

Em 24 de Junho de 1806 e quando assistia a um espectaculo, com a sua familia, o vice-rei marquez de Sobremonte, recebeu a noticia de que acabára de ancorar, no porto, uma esquadra ingleza em attitude hostil. Immediatamente aquelle funccionario fugiu para Cordova, sem, ao menos, dar as providencias que requeriam a urgencia e a gravidade do caso. A 26 desembarcaram os inglezes e no dia seguinte, ao mando do general Beresford, entraram na cidade, quasi sem combate.

No interior e na visinha Montevideu, principiou a organisar-se a resistencia contra os invasores, e depois de um fracasso, em Perdriel, os naturaes tendo-se reforçado pela juncção dos generaes Pueyrredon e Liniers, marcharam sobre Buenos-Aires, que retomaram em 12 de Agosto, depois de sangrentos combates que custaram, aos dois exercitos, mais de quinhentas vidas.

Os inglezes retiraram-se para voltar, no anno seguinte, 1807, no mez de Junho, commandados, o exercito, pelo general Whiteloeke, e a esquadra pelo almirante Murray. O inimigo desembarcou em numero de 11:000 homens, das tres armas, principiando a assaltar a cidade em 2 de Julho.

Defendiam-n’a Liniers e 8:500 soldados regulares, conseguindo no dia 5, em uma batalha geral, derrotar completamente os inglezes, que, a 7, assignaram uma convenção, compromettendo-se a abandonar as cidades de Buenos-Aires e Montevideu e todas as regiões banhadas pelo Rio da Prata, assim como as proprias aguas platenses.

O governo da metropole galardoou a cidade com o titulo de Excellencia, e os seus vereadores com o de Senhoria. Em signal de regosijo, a Municipalidade, ou Cabido, libertou trinta escravos.

Em 25 de Maio de 1810, rebentou a revolução pela independencia, que é não só o principal acontecimento historico de Buenos-Aires como de toda a nacionalidade argentina.

Aos vivos desejos de autonomia politica e administrativa, manifestados pela população creoula e mestiça, principalmente, juntaram-se as noticias da invasão napoleonica da metropole e da independencia dos Estados Unidos da America do Norte. Além d’isso, o espirito bellico e auctoritario dos naturaes tinha sido animado pelas recentissimas luctas e victorias contra os inglezes.

Quando o vice-rei Cisneros, em 18 de Maio de 1810, publicou, em nome de Fernando VII, uma proclamação dando conta dos successos passados na peninsula iberica e exhortando a população a unir-se em volta da auctoridade e do throno, o povo de Buenos-Aires começou a agitar-se e foi para a praça da Victoria manifestar-se, em altos brados, pela reunião de um Congresso Geral, ou Cabido Pleno, no qual o povo tivesse directa representação e resolvêsse sobre a proclamação do vice-rei. Em face d’essa attitude dos habitantes, reuniu-se o Cabido ordinario, no dia 21 e resolveu, de accôrdo com os desejos do povo, convocar um congresso geral dos habitantes para o dia seguinte, ás 9 horas da manhã. Foram convocadas 450 pessôas gradas, que nada resolveram no mesmo dia, que foi passado em calorosas discussões, combinando-se voltar a reunir a 23, ás 3 horas da tarde. A pluralidade de votos decidiu que o vice-rei Cisneros deveria depositar o seu mandato nas mãos do Cabido, até que fôsse eleita uma junta governativa. O vice-rei acatou e cumpriu as resoluções do povo, mas no dia seguinte o proprio Cabido convidou-o a reassumir o governo, auxiliado por 4 das pessôas mais gradas da cidade, formando uma especie de Junta, presidida por Cisneros.

Finalmente, no dia seguinte, 25 de Maio, o povo da cidade, descontente com a solução da crise, sublevou-se de novo, e invadindo a praça Victoria, delegou uma deputação ao Cabido e á Junta, intimando-os a depôrem o mando nas seguintes mãos:

D. Cornelio Saavedra, commandante geral das armas, presidente, e vogaes Juan José Castelli, Manuel Belgrano, Miguel Azcuénaga, Manuel Alberti, Domingo Matheu, Juan Larrea, Juan José Paso e Mariano Moreno, os dois ultimos como secretarios.

Este triumpho popular e nacional deu em resultado o Congresso de Tucuman, reunido na cidade d’este nome, que em 9 de Julho de 1816 proclamou a independencia da Republica Argentina. No anno seguinte fôram as reuniões do Congresso Nacional transferidas para Buenos-Aires.

Em 24 de Setembro de 1812, o general Belgrano derrotou as tropas hespanholas do commando do general Pio Tristán, no campo de Carreras, suburbios de Tucuman.

Nos annos de 1817 e 1818, o mesmo general Belgrano e o seu collega San Martin, ganharam as batalhas de Chacabuco e de Maipú, que não só confirmaram e consolidaram a independencia nacional-argentina, como deram em resultado a proclamação da Republica do Chile.

Depois do da revolução de Maio, o facto historico mais importante da capital e da Republica, foi a dictadura tyrannica de Juan Manuel Rozas, a quem o Congresso Nacional concedêra o poder supremo. Em 1851, o general Urquiza, governador da provincia de Entre Rios, collocou-se á frente dos patriotas, que propunham-se derrubar o tyranno, e auxiliado por brasileiros e orientaes, deu a Rozas, em 3 de Fevereiro de 1852, a batalha de Caseros, derrotando-o com 24:000 homens contra 30:000, e obrigando-o a fugir para a Europa. Rozas governára por espaço de vinte annos.

Com a quéda da tyrannia foi promulgada nova constituição e Buenos-Aires entrou em phase de decidido desenvolvimento material.

Ao cair Rozas, em 1852, contava a cidade 76:000 habitantes, em 1864, 140:000, 404:000 em 1867, 800:000 em 1900 e 1:150:000 em 1908.

N’estes ultimos cincoenta annos, de muitos acontecimentos historicos teem sido theatro as ruas de Buenos-Aires, e ainda não ha muito tempo que ellas foram regadas com o sangue de irmãos, em feroz disputa do supremo poder. E por isso que ainda vivem muitos dos protagonistas d’esses infaustos successos, é de justiça lançar, sobre homens e factos, o véo do esquecimento e deixar á geração vindoura a tarefa de, serenamente, apreciar uns e outros e preparar o julgamento severo e perenne da Historia.

O primeiro escudo de armas da cidade de Buenos-Aires, foi fixado em reunião do Cabido, presidido por D. Juan de Garay, quatro mezes depois da fundação da cidade, em 20 de Outubro de 1580. A dita assembleia, depois de eleger patrono da cidade a San Martin de Tours deliberou que as armas e brazões de Buenos-Aires seriam formados por un águila preta pintada al natural, con su corona en la cabeza, con cuatro hijos debajo demostrando que los cria, con una cruz colorada sangrienta que salga de la mano derecha y suba más alta que la corona, que semeje la cruz á la de Calatrava y la qual esté sobre campo blanco.

A aguia e seus filhos representavam as fundações effectuadas em nome dos adelantados Juan Ortiz de Zárate y Torres de Vera y Aragon, que ostentavam nos seus respectivos escudos uma aguia corôada. Quanto á cruz de Calatrava e á corôa, explica o auto de Garay:

—La razón es haber venido á este puerto con fin y propósito firme de ensalzar la Santa Fé Catholica y servir á la corona real de Castilla y de Leon.

Um dos casos mais extraordinarios da historia de Buenos-Aires, é que 69 annos depois da decretação d’este escudo, o Cabido da cidade reuniu-se para crear um escudo «atento á no haberse hallado en el Archivo de este Cabildo y sus libros que haya tenido ni tenga hasta ahora armas ningunas».

Pelo que, foi creado um escudo com uma grande aguia, ao centro e no alto, a esvoaçar sobre uma ancora, e em volta uma legenda.—Em 1744 adoptou-se outro escudo, e em 1905 o que actualmente vigóra e que consta de dois navios entre duas aves.

Monumentos

Cathedral—Entre os novos e monumentaes palacios da praça de Mayo, eleva-se a pesada e triste frontaria d’este templo, edificado na segunda metade do seculo XVIII. É em estylo grego, com 12 columnas jonicas, de granito, a sustentarem o frontão, em alto relevo.

O interior, em tres naves, é amplissimo, porém sombrio. Os pilares, demasiadamente grossos, tiram toda a elegancia ao edificio.

Ha 12 capellas lateraes e 2 ao lado do altar-mór.

Um arco-cruzeiro, precede a capella-mór, que encerra seis arcos lateraes, os dois ultimos com tribuna e um pequeno orgão. No altar principal ha 4 columnas douradas e á esquerda está o sólio archiepiscopal. As paredes são revestidas de marmore mesclado, com seis janellas, que transmittem escassa luz ao recinto.

No tecto da capella-mór ha tres pinturas e outras tantas no do corpo principal do santuario.

Precede o arco-cruzeiro um alto zimborio, com 4 janellas a vitraes coloridos.

Na terceira capella da nave direita está o tumulo, eminentemente artistico, do general San Martin, e na quinta capella o do arcebispo Aneiros, primeiro prelado de Buenos-Aires. O arcebispo está representado em estatua de marmore branco, ajoelhada. É trabalho do esculptor V. de Pol. A arcaria de todo o templo é ornamentada a meias columnas de marmore mesclado, com capiteis dourados.

O monumento sepulchral do general San Martin, obra do esculptor Carrier-Belleuse, é de imponente e bella perspectiva. Sobre duplo pedestal de marmore assenta o bronzeo feretro do general. Ladeiam-n’o quatro blócos de marmore branco, tres com as estatuas da Liberdade, do Trabalho e do Commercio, e o outro com laureis, palmas, um baixo-relevo commemorativo da batalha de Maipú, e os escudos das Republicas Argentina, do Chile e do Perú.

Congresso Nacional—É este um dos mais grandiosos edificios de todo o globo. Se bem que, exteriormente, por concluir, já se póde admirar e descrever não só as suas monumentaes proporções, mas tambem a magestatica belleza da sua architectura. O estylo é greco-romano, com quatro pavilhões nos angulos, dominados pelo corpo central, em fórma de hemicyclo, com galerias em columnas. Esta especie de cupula, ou zimborio, repousa em uma formidavel estructura de 300 metros de granito e pesa 30:000 toneladas. Só o alicerce d’esta móle gigantesca importou em 500:000 pesos, e tem 10 metros abaixo do nivel do sólo, no mesmo feitio da cupula superior.

Os planos e a execução do monumento são do engenheiro Victor Mano, e calcula-se que, terminado, custará 12 milhões de pesos argentinos.

A camara dos deputados e o senado funccionam n’este palacio desde 1906. A sala dos deputados, com 149 cadeiras, tem tres pavimentos, o 1.º para o corpo diplomatico e o 2.º e o 3.º para o publico. Ha uma galeria especial para a imprensa. O salão é em fórma de meia laranja, guarnecido a columnas caneladas e a vitraes coloridos, no tecto. Cada assento de deputado tem a sua carteira especial. Salas de espera e de leitura. Guarda-roupa luxuoso.

Secção do Senado.

Sala de espera. Salão das sessões, tambem do feitio de meia laranja, com dois pavimentos, um de tribunas para o corpo diplomatico e outro de galerias para o publico. Até meia altura, as paredes são revestidas de velludo vermelho. Refeitorio dos senadores.

Sala de recepção do Presidente do Senado e saleta de espera. Salão de recepção do corpo diplomatico.

Pateo com galeria circular, ornamentada a grupos de columnas.

Salão geral de refeitorio contendo o plano, em gêsso, do edificio, pelo architecto Dormel. Este salão é revestido de madeira do paiz, em talha.

Todo o edificio está, interiormente, alcatifado e luxuosamente mobilado.

O salão da camara dos deputados serve para as reuniões plenarias das duas camaras.

Palacio de Justiça—Ergue-se na praça Lavalle. As obras começaram em 1904 e devem estar concluidas em 1910. O projecto d’este monumento, em estylo neo-grego, é do architecto francez Norbert Meillart.

O primitivo orçamento foi de oito milhões de francos; porém, concluido, o palacio custará cêrca de vinte milhões e será um dos maiores e mais bellos do mundo. O edificio tem 38 metros de altura e rematal-o-ha uma cupula de 120 metros, projecto este provisoriamente posto de parte, por causa do seu enorme dispendio.

Uma galeria, a columnas doricas, ornamenta a frontaria principal á altura de dois pavimentos. O interior é dividido em um milhar de compartimentos, entre os quaes numerosos salões, cuja ornamentação corresponde á sumptuosidade, gosto artistico e riqueza da architectura.

Todo o monumento, em seis pavimentos, é de tijolo e revestido, interior e exteriormente, de preciosos marmores e mosaicos.

O vestibulo, grandioso e artistico, é guarnecido a estatuas.

Todos os andares são revestidos de ferro, isolados e incombustiveis.

Seis pateos interiores transmittem ar e luz aos compartimentos, que oito ascensores electricos communicam entre si.

No rez-do-chão installa-se, n’este momento, o archivo geral da Justiça.

No pavimento nobre admira-se a monumental sala dos Passos Perdidos, que communica com o salão geral das audiencias.

A este seguem-se a sala do Jury, a de recepção, e as salas e gabinetes do Presidente e dos secretarios do Tribunal Supremo. A Côrte Suprema, tem um soberbo salão de audiencias ornamentado a columnas corinthias; a sua altura occupa o espaço de tres pavimentos.

A sala da Côrte de Appellação, é alta de dois andares, e as simples salas de audiencia dos julgados, teem a altura de um pavimento. O estylo geral de todas estas dependencias é corinthio.

Ha tambem as grandes salas de audiencia das Camaras Civil e Criminal, perfeitamente eguaes. Depois das principaes peças, já mencionadas, visita-se ainda os salões de trabalho, da Bibliotheca e a sala do julgamento supremo de todas as appellações da Republica, cujo tecto é de vidro.

Os outros andares são alternados de salas e gabinetes de audiencia com os compartimentos dos escrivães, ou notarios, em numero de 115.

O sexto e ultimo pavimento é occupado pelo julgado civil, e ricamente decorado a marmores de Carrara, da Belgica, e a onyx do paiz. O madeiramento empregado no palacio é da Australia, da Argentina e da Terra do Fogo. Sobre os tectos, que são tambem amplos terraços para passeio, estão installados os compartimentos das machinas propulsoras da illuminação e dos ascensores. Do mirante, á altura de 38 metros, a vista geral da cidade é esplendida.

Estatuas—O monumento da Republica occupa o centro da antiga praça Victoria, hoje de Mayo, a principal de Buenos-Aires. Consta de uma alta columna granitica, encimada pela figura symbolica da Republica, com escudo e lança.

Na base da columna, estão quatro figuras femininas, e a data, em lettras douradas—25 de Mayo de 1810.

A estatua do general San Martin, ergue-se na praça do mesmo nome, é equestre e de bronze. Assenta sobre pedestal de marmore branco, sem decoração nem inscripção alguma. Com a mão esquerda, o general sustenta as redeas e com o dêdo indicador da mão direita aponta para o infinito.

O monumento a Adolfo Alsina, eleva-se na praça da Liberdade, defronte do bello e novo edificio granitico do Colyseu Argentino.

É de bronze, em tamanho natural, sobre pedestal de granito, com as datas—1829—1877.

Situada a pequena distancia do monumento ao general San Martin, ergue-se a estatua do soldado Falucho, de bronze, em tamanho natural, e empunhando a bandeira nacional. Assenta sobre um pedestal de granito, com inscripção.

Ao centro da praça Lavalle, eleva-se a marmorea estatua do general d’este nome, sobre uma alva columna canelada, que repousa em uma base granitica. O pedestal da columna tem, gravadas, as seguintes inscripções:—El Pueblo a Lavalle—Muerto por la Libertad, en 1841—Libertador y Martyr—Nascido per la Immortalidad en 1797.

Em uma pequena praça fronteira á egreja de S. Domingos, está o monumento do general Belgrano. Consta de uma urna de marmore branco sustentada por archanjos e rematada por um dragão de bronze. A base, de alvo marmore, descansa em um sopé de granito, e é ornamentada a baixos relevos, em bronze, e por duas estatuas allegoricas, do mesmo metal.

No parque Tres de Fevereiro, erguem-se as estatuas de Sarmiento, Burmeister e Eduardo Costa.

Theatro Colon—É um dos mais modernos monumentos de Buenos-Aires, recentemente inaugurado. Na sua architectura figuram varios estylos, avultando o jonico, o corinthio e o attico.

Tem 25 metros de altura, em 3 pavimentos. 16 estatuas ornamentam a monumental escadaria de marmore, que dá accésso á plateia. O vestibulo é amplo e bello, circumdado a tribunas e guarnecido a meias columnas de marmore côr de rosa, com capiteis dourados. A plateia tem 28 metros de comprimento por 22 e meio de largura, e o circulo da amplitude, em fórma de ferradura, tem 75 metros. Encerra 900 cadeiras e sete ordens de logares superiores, a saber, duas de frisas, duas de camarotes, duas de camarotes aos lados e de balcões ao centro, e a ultima ordem é de galeria geral, em columnata.

Toda a immensa e bellissima sala é profusamente dourada e illuminada por centenares de lampadas electricas. No tecto ha uma pintura phantastica, a circular um gigantesco lustre em fórma de esphera armillar.

A sala póde conter 3:570 pessôas. A abertura do palco tem 18,ᵐ25 de largura e 19,ᵐ25 de altura.

As dependencias do edificio são, egualmente, magestosas pelas dimensões e decorações, sobresaíndo o foyer, ainda por concluir.

O monumento custou quatro milhões de pesos argentinos. A inauguração do theatro teve logar por uma companhia lyrica italiana, sob a direcção de Luiz Mancinelli, em 25 de Maio de 1908.

Deposito de las Aguas Corrientes—O aspecto geral d’este edificio, exteriormente de tijolo, revestido de terra-cotta, é monumental e sumptuoso. 180 grupos, a 4 columnas de ferro fundido, sustentam, interiormente, 12 tanques, tambem de ferro, divididos, em partes eguaes, por 3 pavimentos, e com a capacidade, cada deposito, ou tanque, de 6:000 toneladas de agua, o que dá um total de 72:000 toneladas. O ferro empregado n’esta monumental fabrica, que é um arrojo de engenharia, pesa 16:000 toneladas. N’este deposito entram e d’elle partem os grandes canos geraes que fornecem toda a cidade, e cujo consumo annual attinge 40:000:000 metros cubicos. Ha numerosos apparelhos de nivelação das aguas, que são conduzidas do rio da Prata, á distancia de 20 kilometros, por gigantescos tubos de ferro.

Domina o monumento uma torre—observatorio, com a melhor vista geral da cidade.

Penitenciaria Nacional—Pelo seu conjuncto, isto é, pela immensidade da area que occupa, pelo numero e grandeza das edificações, como devido á instituição em si, á sua installação e aperfeiçoamento, a Penitenciaria é um monumento e dos mais grandiosos e interessantes da capital argentina.

A area total de terreno, occupado pelo edificio principal e dependencias, é de 120:000 metros quadrados. A construcção central consta de 5 pavilhões irradiantes de um centro commum encimado pela capella do estabelecimento, que tem uma porta para cada pavilhão, bancos aos lados do unico altar, pinturas no tecto, um pequeno orgão, organista, é em fórma octogona e frequentada pelos penitenciarios que quizerem fazêl-o, visto serem respeitadas todas as crenças. Cada pavilhão—galeria tem dois pavimentos com 120 cellas, que são caiadas, bem arejadas e illuminadas e teem uma tarimba, uma mesa tosca, um banco, uma prateleira, uma lampada electrica, um orificio de observações, um buraco para a passagem da comida, uma campainha de chamada, um colchão de lã e um travesseiro.

Além d’estes cinco pavilhões, ha outro, central, para transmissão de ordens e parlatorio. Nenhuma cella póde conter mais de um preso. Cada pavilhão-galeria tem duas cellas de castigo, sem luz e com tarimba lisa. Os presos são classificados por conducta, á entrada perdem o nome, o cabello e a barba; porém não é usado, n’este estabelecimento, o barbaro systema das mascaras.

Para cada penitenciario, que logo á entrada é photographado, ha um—promptuario—ou seja um folheto que contem a filiação, o retrato, as photographias radiographicas do encarcerado, a enumeração dos seus parentes; os seus processos e prisões, os antecedentes, o extracto da sentença condemnatoria, as notas da conducta interna, a data em que terminará o cumprimento da pena, a nota dos castigos applicados na prisão, as suas bôas acções e recompensas, a designação do seu trabalho penitenciario e as materias que estuda.

Entre cada um dos pavilhões principaes ha um pomar e uma praça, livre, para gymnastica dos presos. No 2.º pavimento do pavilhão n.º 4, está um salão de conferencias, com capacidade para 400 pessôas e com apparelho para projecções luminosas. É tambem ahi a bibliotheca da Penitenciaria, cujo numero de livros consultados foi de 2:811, no 1.º semestre de 1908. Seguem-se 14 salas de aulas, cujos bancos e mesas foram feitas na casa.

Cada sala tem uma pedra e varios mappas e espheras. São ensinadas as seguintes materias:

—Leitura, escripta, linguagem e calligraphia.

—Arithmetica e contabilidade.

—Geometria.

—Geographia e Historia.

—Historia Natural.

—Desenho.

—Moral.

A frequencia ás aulas, das 6 da tarde ás 8 da noite, é obrigatoria para todos os presos.

Durante o dia, o trabalho é effectuado nas officinas de sapataria, alfaiataria, marcenaria, lithographia, carpintaria, photogravura, typographia, encadernação, latoaria e ferraria. Todas teem instructores civis e funccionam oito horas por dia. A officina de sapataria prepara, diariamente, 300 pares de botinas, e as de lithographia e typographia, com machinas braçaes e outras movidas pela electricidade, fazem os trabalhos do Estado, assim como as restantes.

Na officina typographica imprime-se tambem e diariamente, o Boletim Official e Judiciario, e compõem-se todas as publicações officiaes. Ha um gabinete photographico e escólas de engenharia, jardinagem e de horticultura, com mestres especialistas e estufas adequadas. Na grande cêrca do estabelecimento ha varios pavilhões-enfermarias, para as diversas cathegorias de penitenciarios.

Tambem ha pavilhões especiaes de lavanderia, com estufas de desinfecção, installação hydrotherapica, e o grande pavilhão isolado, contendo as enormes caldeiras propulsoras da energia electrica para a illuminação e officinas, assim como a caldeira especial para o fornecimento da cosinha, que é modelar e movida a vapor.

Pharmacia, com laboratorio e gabinetes odontologico, radiographico, de psichiatria e de criminalogia.

Tambem ha um pavilhão para condemnados a prisão, até 3 annos, e outro para detidos pela policia e que não tenham logar nas esquadras.

A Penitenciaria de Buenos-Aires é verdadeira e perfeitamente modelar e facilmente accessivel para visitar-se, graças á extrema amabilidade do seu Director, a qual contrasta com a má vontade do seu collega da Penitenciaria de Lisbôa, que negou a permissão da visita a um escriptor, sob o pretexto, vocalmente formulado, de que um jornalista lisbonense escrevêra inverdades sobre o estabelecimento. E occupa este homem as mais elevadas posições sociaes e politicas, em Portugal, incluindo a de membro do Conselho de Estado! Em Julho de 1908, era de 1036 o numero total dos penitenciarios.

Para não alongar, demasiadamente, este capitulo, o auctor não trata aqui de outras instituições e estabelecimentos monumentaes da capital argentina, como, por exemplo, o Hospicio de las Mercedes, o Mercado Central de Fructos, o Palacio do Governo e a Municipalidade, que serão descriptos em outras secções.

Assistencia Publica

Hospicio de las Mercedes—Buenos-Aires possúe um manicomio para cada sexo, o feminino na rua Brandzen e o masculino na rua Vieytes, O primeiro, um dos melhores no genero, é superior ao segundo na qualidade das edificações, no aperfeiçoamento e grandeza das installações, no esmerado tratamento das enfermas e no aceio geral do estabelecimento.

A fundação de ambos data de 1863.

O manicomio de mulheres está installado em 12 pavilhões principaes, com outros tantos medicos effectivos, além de grande numero de substitutos, ajudantes e enfermeiras, cujo numero é variavel.

Ao findar o 1.º semestre de 1908, era de 2:000 o numero de alienadas recolhidas e tratadas n’esta grandiosa casa de caridade.

O pavilhão Esquirol, para enfermas agitadas, encerrava cêrca de duzentas. Ha gabinetes especiaes para furiosas, com uma varanda superior e circular, para observação e vigilancia. Ao lado, está o estabelecimento hydrotherapico.

O pavilhão Charcot é para pensionistas de alta cathegoria. Possúe banhos electricos e sala geral de electricidade, com os mais aperfeiçoados apparelhos para exame das doentes; salão de recreio, bibliotheca e gabinete com apparelho para banhos de luz.

Os quartos são divididos em 1.ª e 2.ª cathegoria, tendo os primeiros uma e os outros duas enfermarias.

As doentes melancholicas teem aposentos escuros e claros as que são alegres.

Cada pavilhão tem tres pavimentos e um sotão, communicando todos os pavilhões por galerias subterraneas.

Nos refeitorios toca uma grande caixa de musica, durante as refeições. Todos os dormitorios e enfermarias teem ventilação e aquecimento. Em todos os pavilhões ha filtradores do ar que se respira.

Uma rêde geral telephonica communica os pavilhões e as suas peças principaes.

Pharmacia com grande laboratorio. Gabinete de nitro-photographia, para photographar os preparos da secção histologica. Gabinete de desenho de curiosidades anatomicas e pathologicas.

No pavimento terreo ha uma sala, com tres frigorificos, para a conservação dos cadaveres que, depois de lavados em outra sala especial, são collocados na eça-ascensor, hydraulico, levados á capella ardente e descidos de novo aos frigorificos, quando ha necessidade de conserval-os até que venham as familias reclamal-os. Sala especial para autopsias. Todas as paredes são revestidas de ladrilho de ardosia para evitar sujidades. Secção bacteriologica, com estufas das mais aperfeiçoadas. Gabinete para analyse de urinas. Modelo especial de centrifugador electrico. Apparelhos microstomos, para córtes. Secção histologica. Idem de anatomia pathologica, constando de aula, museu, em duas salas, e grande laboratorio, o primeiro, no genero, em toda a America do Sul.

Pavilhão-lavanderia, movido a vapor e a electricidade, do custo de 180:000 pesos. Aos lados, dois poços, um que fornece 27:000 litros de agua, por hora, e o outro 40:000 litros, este com a profundidade de 65 metros. Toda a roupa de uso é feita e lavada no estabelecimento.

Pavilhões especiaes para cosinhas e machinas. Tres dynamos, dois com a força de 80 cavallos, cada, e um com a de 40. 250 ampéres. Baterias para 400 lampadas electricas e duas grandes caldeiras para fornecimento do vapor.

A cosinha e as suas dependencias são dignas de visita e observação pela perfeição do systema e attendendo á extrema limpeza em que tudo é mantido. Todos os generos fornecidos ás alienadas e ao pessoal são de primeira qualidade, notando-se, na despensa, machinas e outros apparelhos para a fabricação de gêlo, dôces, limonada, etc.

Na secção masculina, o edificio principal é em tres pavimentos, com dormitorios e enfermarias. Pavilhão de pensionistas, de 1.ª e 2.ª classe, com bilhares e pateo ajardinado.

Ha mais dois pateos, com jardim, e cercados pelas installações de serviço. Existencia total, em 1908, de 1:800 alienados.

Cêrca com officinas, em pavilhões de madeira, de carpintaria, ferraria, alfaiataria, padaria, sapataria e lavanderia, todas trabalhadas por enfermos. Pavilhão especial para observação de doentes. Estabelecimento hydrotherapico. Officina typographica, onde é impresso, por alienados, o jornal El Eco de las Mercedes—. Banda de musica, tambem de alienados.

Este estabelecimento, que era municipal, foi nacionalisado, isto é, passou a ser sustentado e administrado pelo Estado, desde 1903, attendendo aos inapreciaveis serviços que presta, recolhendo os alienados de toda a nação argentina. Sob a direcção d’este Hospicio, ha em Lujan, provincia de Buenos-Aires, uma Colonia Nacional de Alienados, com cêrca de 350 enfermos.

Hospital de San Roque—Hospital municipal de 1.ª categoria.

Consta de 16 pavilhões isolados por jardins e abundante arvoredo, com outras tantas enfermarias, laboratorios e salas de operações e curativos. É servido por 44 medicos, internos e externos, 22 irmãs de caridade e 65 enfermeiros dos dois sexos.

Pavilhão novo e especial de maternidade, com museu, salas de operações, laboratorio e incubadoras para creanças. Ainda outro pavilhão de genecologia, com 2 enfermarias e um pequeno museu da especialidade. Consultorio ophtalmologico, com enfermaria. Amphitheatro para aulas. Enfermaria de doentes presos, com guarda militar. Sala geral de esterelisação, com deposito de instrumentos cirurgicos. Estabelecimento hydrotherapico para cada sexo. Capella. Gabinete radiographico. Camara escura. Escóla de praticantes. Enfermaria ophtalmologica. Consultorio especial para molestias de vias urinarias, com instrumental apropriado. Duas enfermarias para molestias nervosas.

Sala de autopsia e necroterio.

Existencia média e regular de 700 pessôas, entre homens, mulheres e creanças. Para estas ha duas enfermarias geraes.

Grande pateo central, ajardinado, com passeio circular, entre columnas.

Este grandioso hospital, situado na rua do general Urquiza, foi inaugurado em 1872.

Hospital Rawson—Geral e municipal, como o anterior. Ergue-se fóra da cidade, no Camino Puente Alsina e é subdividido em 14 pavilhões, que communicam por corredores. Servem-n’o 40 medicos, 10 internos e 30 praticantes, que habitam no edificio. O serviço medico é gratuito.

Ha 16 irmãs de caridade. As enfermarias são 4 de clinica medica, 3 de clinica cirurgica, 2 de genecologia e 1 de creanças. Todas as enfermarias são aquecidas a vapor.

Pavilhão especial com sala de operações cirurgicas e outras dependencias. Pavilhão de molestias das vias urinarias, com sala de operações. Outro especial de desinfecção, com grande forno crematorio. Ha outro forno desinfectante, a vapor. Mais dois pavilhões com enfermarias de parturientes, sala de operações e gabinete de esterelisação.

Pavilhão-amphitheatro e outro de consultorio externo. Existencia média de 500 enfermos dos dois sexos, incluindo as creanças.

Hospital de Clinicas y Maternidad—É estabelecimento do Estado e funcciona, desde 1877, para os dois sexos e para creanças. Consta de 6 pavilhões com 11 enfermarias geraes. No jardim de entrada, pela rua de Cordova, 1149, vê-se a estatua, em bronze, sobre pedestal de granito, do dr. Pirováno. Sala de consultorio cirurgico, seguindo-se a de operações cirurgicas, com 4 dependencias.

Gabinete radiographico. As enfermarias são aquecidas por fogões de gaz. Quartos para pensionistas e de curativos. Ha uma irmã de caridade para cada dependencia occupada por enfermos. Pavilhão central com a modesta capella do estabelecimento. Consultorio especial para creanças. Os rapazes são admittidos até aos 14 annos e as meninas até aos 17. Ha jardim commum de recreio. Gabinete de radiographia, de massagem e sala de aula para os estudantes de medicina, cuja faculdade é annexa e que praticam especialmente n’este hospital. Ha outra aula especial de genecologia, bem como um consultorio externo, mas este geral, com sala de operações. Pavilhão especial de molestias de olhos, com camara escura e sala de operações. Entre este e o pavilhão das mulheres, está o monumento, em bronze, sobre pedestal de pedra, do dr. Alexandre Castro, que foi lente da Faculdade de Medicina. Secção para molestias das vias urinarias, com sala de operações e consultorio. Pavilhão com installação hydrotherapica e banhos electricos. Amphitheatro para estudos anatomicos e laboratorio de anatomia pathologica. A secção da Maternidade tem 53 camas, em pequenos pavilhões do systema Tarnier, com salas especiaes para partos, para descanso das parturientes e para operações. Este hospital, construido em 1879, e contendo a média de 600 enfermos dos dois sexos, está sob a immediata dependencia do decano da Faculdade de Medicina.

Casa de Aislamento—Tambem conhecida por Hospital F. J. Muñiz. Occupa uma area de 14 hectares, na Avenida Velez Sarsfield, e é o maior e o mais interessante de Buenos-Aires. Encerra 25 pavilhões com 32 enfermarias, divididos por jardins e arvoredo, formando uma larga e bella avenida. É geral para os dois sexos e creanças e só para molestias contagiosas. Contém 610 camas, quasi todas occupadas, de ordinario, servindo cada pavilhão para uma só molestia e encerrando tudo quanto seja preciso para o tratamento d’essa enfermidade, evitando assim o contagio de uns para outros pavilhões.

Foi fundado em 1883, e é um estabelecimento modelo.

No pavilhão de diphtericos, ha accommodações para as mães das creanças atacadas do terrivel mal. Esta medida tem dois fins, o da humanidade, não separando mãe e filho, e o de evitar que as mães occultem os seus filhos doentes, com receio da separação. Laboratorio, completo, de bacteriologia e de anatomia pathologica. A maior população infantil é a de tinhosos, que permanecem longo tempo no hospital, motivo porque foi creada uma aula de instrucção primaria de ambos os sexos. Foi recentemente acabado um novo pavilhão para tuberculosos, dadiva dos srs. Roverano e da snr.ª de Arroyo. Ha um serviço especial de autopsias, com laboratorio, para os alumnos da Faculdade de Medicina, a cargo do dr. José Penna, director d’este estabelecimento, que é um dos mais gloriosos monumentos da capital argentina.

Hospital Militar—Tambem está situado na avenida Velez Sarsfield e, como os outros hospitaes de Buenos-Aires, consta de pavilhões no meio de jardins. Foi inaugurado em 1888. Tem oito pavilhões, que communicam por uma galeria em columnata. Sobre esta ha uma varanda-terraço para passeio e recreio dos convalescentes.

Póde conter 268 enfermos, em oito enfermarias, e está quasi sempre cheio.

É servido por 8 medicos, 16 praticantes e 22 irmãs de caridade.

Enfermarias de officiaes e sala de operações. Pavilhão-amphitheatro e dito hydrotherapico. Sala de desinfecções, com estufa e machinismo electrico.

Enfermaria de presos. Consultorio externo para militares e suas familias. Officinas militares e capella.

Todo o estabelecimento é aquecido a vapor, para o que ha uma installação especial de machinas e caldeiras propulsoras. Laboratorio completo de bacteriologia e de anatomia pathologica, cujos resultados scientificos são publicados nos Anales de la Sanidad Militar.

Na situação topographica, este hospital é superior, porém em tudo o mais é inferior ao seu congenere do Rio de janeiro.

Nota-se, muito pronunciado, o cheiro habitual dos hospitaes de hygiene descurada.

Hospital Rivadavia—Situado na rua Bustamante, é só para o sexo feminino, e administrado pela Sociedade de Beneficencia da Capital, composta de senhoras.

É sustentado por subvenção do governo, pelo imposto das loterias nacionaes, por doações e festas de caridade. Está installado em seis pavilhões. Ha quartos particulares, a 1 e 2 leitos, para pensionistas, de tres classes, que pagam de 3 a 15 pesos diarios. As seis salas-enfermarias encerram 524 camas, incluindo as dos quartos particulares, quasi sempre occupados.

Todos os pavilhões, rodeados de jardins, teem salas de curativos, havendo uma sala de operações cirurgicas. O serviço é feito e dirigido por 25 irmãs de caridade. Os pavilhões estão ligados por corredores cobertos.

O pavilhão da Maternidade, com a média annual de 700 partos, tem 74 camas em duas enfermarias, salas de operações e de curativos. Ha uma sala de isolamento para as parturientes febris.

Estufas para os recem-nascidos. Aquecimento geral e a vapor, do edificio. Sala para aula pratica de medicos e de parteiras.

Pavilhão de tuberculosos, com 80 camas. Pavilhão, a inaugurar, para clinica geral, custeado pela familia Cobo, com excellentes salas de operações. Pavilhão-amphitheatro com deposito de cadaveres e sala de autopsias.

Pavilhão geral de operações externas e grande capella, com entrada para o publico.

Em junho de 1908, a existencia de enfermas, n’este hospital, era de 435.

Asylos—É a seguinte a nomenclatura dos asylos de Buenos-Aires, com o numero de asylados que continham em 31 de Dezembro de 1907:

—Das Creanças Abandonadas 1:604

—Dos Indigentes 874

—Dos Orfãos 451

—De Maternidade, Norte 385

—De Maternidade, Sul

—De Maternidade, Oeste 15

—Da Misericordia 310

—Dos Immigrantes 594

—Das Creanças Abandonadas (Flôres) 162

—Das Creanças Abandonadas (Belgrano) 23

—De N. D. de la Merced 148

—Dos Orfãos Irlandezes 86

—Dos Servos de Jesus 66

Orphelinato Francez 100

Casa de Órfãos 192

Succursal 125

—De Orfãos de Militares 94

Patronato da Infancia 463

Martin Rodrigues 338

—Do Bom Pastor 84

—Maritimo 80

—Nocturno, municipal

—Nocturno, do Exercito de Salvação

—Nocturno, da Sociedade Franceza de Beneficencia.

No 1.º, dos nocturnos, pernoitaram, n’aquelle anno, 38:435 pessôas; no 2.º, 50:417, e no 3.º, 3:191 individuos.

A municipalidade sustenta o Asylo de Mendigos, ou de Indigentes, e o Asylo Nocturno, municipal.

O primeiro funcciona em vasto edificio, na esplanada da Recoleta. Os seus pavilhões e as outras dependencias correspondem, perfeitamente, ás exigencias e necessidades d’este genero de estabelecimentos.

No Asylo Nocturno eram, outr’ora, admittidas todas as pessôas que se apresentassem depois do crepusculo; porém os abusos dos noctivagos e malfeitores que occupavam, ás vezes violentamente, as camas dos verdadeiros indigentes, forçaram a administração a exigir, para fornecer leitos, um cartão da Assistencia Publica. Em egual periodo, foram fornecidas, no Asylo Nocturno, mantido pela collectividade beneficente Exercito de Salvação, 110:880 refeições nocturnas.

A Sociedade Franceza de Beneficencia, forneceu aos seus asylados, no mesmo anno, 13:693 ceias, nas quaes foram consumidos 5:368 kilos de pão, 3:700 e meio kilos de carne e 2:563 litros de leite.

Os asylos de Expostos, de Orfãos, Maritimo e das Mercês são dirigidos e sustentados pela Sociedade de Beneficencia da Capital.

A Sociedade de Damas de Caridade, administra e mantem seis dos asylos citados no quadro anterior.

O Asylo de Maternidade e Escóla de Parteiras, é annexo ao Hospital das Clinicas, e consta de tres pavimentos. No 1.º estão os quartos, a 2 camas, para parturientes e no segundo tres enfermarias geraes.

N’este andar funcciona o laboratorio para estudos e analyses de urinas.

Sala-amphiteatro e escóla de parteiras.

A média mensal é de 80 parturientes, e de 90 alumnas, entre internas e externas. As dependencias de serviço estão installadas em um pavimento subterraneo.

Hospital S. Luiz Gonzaga—Mais conhecido pela denominação de Hospital de Niños, e é o unico especial para creanças.

Foi inaugurado em 29 de Novembro de 1896 e é dirigido e mantido pela Sociedade de Beneficencia da Capital. Consta de 5 pavilhões occupados e 1 em construcção, com 4 enfermarias cirurgicas, 4 de clinica medica e duas de infecciosos, em pavimento especial. O serviço clinico é feito, gratuitamente, por 20 medicos. Pavilhão-amphiteatro de autopsias e laboratorios geral e pharmaceutico, privativos do estabelecimento. A existencia média é de 500 creanças dos dois sexos, que são admittidas até aos 12 annos as do sexo masculino e até aos 14 as do feminino. Ha pensionistas de tres classes. Diariamente, são dadas mais de 300 consultas externas a creanças, ás quaes também é fornecido leite, gratuitamente, quando os parentes o pedem. Gabinete radiographico.

Á entrada está o busto, em bronze, do dr. Gutierrez, 1.º director do hospital. Durante o anno de 1907 houve 32:500 consultas externas.

Hospital Juan A. Fernandez—Antigo del Norte. Foi fundado em 1888, é municipal e administrado pela Assistencia Publica. A sua maior clientela é de meretrizes, que occupam tres enfermarias geraes, havendo tambem enfermarias e quartos para pensionistas. Ao todo, oito enfermarias em sete pavilhões, sendo só um para homens. Em junho de 1908 abrigava 184 doentes. É assistido por 3 medicos internos, 8 praticantes da Faculdade de Medicina, e 8 irmãs de caridade.

Sala de operações cirurgicas, com esterelisação, e salas de curativos.

N’este hospital ha sempre ambulancias, com cavallos atrelados, para acudir aos accidentes da rua. Pharmacia e laboratorio.

Sanatorio Enrique Tornú—É um hospital especialmente destinado á cura da tuberculose, situado nos suburbios da cidade, em plena campina da Villa Ortúzar, mas sobre uma collina batida dos ventos e abundantemente arborisada. Não são admittidos os tisicos incuraveis, que vão para a Casa de Aislamento, ou Hospital Muñiz. Póde abrigar, actualmente, 120 enfermos, mas estão a ser construidos novos pavilhões. Os doentes são submettidos a uma rigorosa disciplina de tratamento, sendo-lhes prohibido, entre outras coisas, o fumar, pelo que muitos renunciam ao curativo e abandonam o sanatorio. Foi fundado pela municipalidade, que o mantem, dando-lhe o nome de um dos facultativos que, na Republica Argentina, mais teem luctado contra a tuberculose. Sendo muitos dos enfermos paes de familia e indigentes, a direcção empenhou-se com varias associações beneficentes para soccorrer-lhes as familias, no intuito principal de que a preoccupação moral da miseria dos entes queridos, não difficulte o curativo dos seus chefes. É um estabelecimento-modêlo e em via de conclusão.

Além dos hospitaes, ligeiramente descriptos, e que são geraes, ha os estabelecimentos hospitalares e privativos de bairros populosos, taes como o Theodoro Alvarez, na parochia de Flôres, e o Pirovano, na de Belgrano. O primeiro é de construcção moderna e original, abrigando, na média, 250 enfermos.

Funccionam, actualmente, seis estações sanitarias, creadas pela municipalidade á medida que se povoavam os suburbios da capital. São designadas pelos nomes de Cosme Algerich, José Maria Bosch, San Carlos, Nueva Pompeya, Villa Devoto e Liniers. As duas primeiras são verdadeiros hospitaes. Em todas, dão-se consultas externas e fornecem-se medicamentos aos habitantes dos bairros afastados. Os seus directores fazem visitas a domicilio e passam attestado de obito, tudo gratuitamente. Cada estação tem um pessoal de praticantes, pharmacia e secção de vaccina.

Encerram, além d’isso, um consultorio externo, uma sala de curativos e outra com 10 camas para hospitalisar, temporariamente, os doentes e feridos de gravidade que não podem immediatamente ser conduzidos aos hospitaes geraes. Tambem possúem ambulancias e material para acudir, de prompto, a qualquer serviço de urgencia.

Por causa do excellente resultado que teem dado estas estações sanitarias, trata-se da installação de mais duas, em novos bairros, com os nomes de San Bernardo e Santa Lucia.

Serviços de Assistencia—Resumindo, os hospitaes que dependem, directamente, do governo nacional, são cinco, com um total superior a 2:500 camas. O Hospicio de las Mercedes, o mais importante, recebe alienados de qualquer ponto da Republica. O Hospital de Clinicas y Maternidad, selecciona os enfermos, recebendo só os exigidos pelos estudos das varias cathedras da Faculdade de Medicina. O Hospital Militar, é privativo da classe. O Hospital de Niños, ou de S. Luiz Gonzaga, é só para creanças e o Rivadavia, só para mulheres.

A municipalidade sustenta 13 estabelecimentos hospitalares, sendo de 1.ª categoria os hospitaes geraes San Roque e Rawson, de 2.ª os hospitaes Juan Fernandez, Theodoro Alvarez e Pirovano, e de 3.ª as seis Estações Sanitarias. Completam o numero a Casa de Aislamento, ou Hospital F. J. Muñiz e o Sanatorio Enrique Tornú.

Além dos nacionaes e municipaes ha os hospitaes coloniaes-estrangeiros, que são o Italiano, o Hespanhol, o Francez, o Britannico e o Allemão.

Foi o seguinte, o movimento geral de todos os hospitaes de Buenos-Aires, em 1907:

Hospitaes Doentes tratados Mortalidade

—S. Roque 6:624 633

—Rivadavia 4:041 247

—de Niños 2:280 293

—Militar 2:272 75

—Rawson 5:369 571

—F. J. Muñiz 5:409 1:226

—J. A. Fernandez 2:272 182

—Ophtalmologico 155

—Pirovano 1:607 173

—Theodoro Alvarez 2:478 270

—Cosme Argerich 525 46

—Sanatorio Tornú 328 74

—Italiano 3:957 198

—Hespanhol 2:394 153

—Francez 1:235 139

—Britannico 1:833 87

—Allemão 1:003 77

43:782 4:444

Quanto ao Manicomio, ou Hospital de las Mercedes, o movimento foi:

—Homens—1:157, entrados durante o anno, 235, curados, 445, melhorados, 98 sem melhoras, 25 evadidos e 321 mortos.

—Mulheres—887 entradas, 112 curadas, 220 melhoradas, 220 sem melhoras e 200 mortas.

Em 31 de Março de 1908 existiam, em todos os hospitaes de Buenos-Aires, 4:153 doentes, tendo fallecido n’esse 1.º trimestre e nos mesmos hospitaes, 133 enfermos argentinos e 246 estrangeiros.

Em todos os asylos da capital, ficaram na mesma data, 8:588 asylados, tendo fallecido no 1.º trimestre d’esse anno, 39 argentinos e 8 estrangeiros. Em egual trimestre foram prestados 2:962 primeiros auxilios publicos, dadas 26:946 consultas externas, applicados 46:429 banhos publicos, vaccinadas e revaccinadas 13:091 pessôas e feitos 2:915 exames bacteriologicos.

No mesmo periodo foram cremados 58 cadaveres, todos de hospitaes.

Ainda no mesmo trimestre dormiram, nos 3 Asylos Nocturnos, 8:733 individuos e fôram distribuidas 11:311 refeições e 778 rações de pão, leite e carne.

No Manicomio, o movimento, n’esse espaço de tempo, foi de 94 homens entrados, 16 curados, 20 melhorados, 7 sem melhoras, 3 fugidos, 27 mortos e 1:762 existentes em 31 de Março. Na secção feminina houve 64 entradas, 23 curas, 20 melhoras, 17 casos sem melhora, 1 fuga e 14 mortes. Existencia, em 31 de Março de 1908, 1:946 alienadas.

Os serviços de beneficencia e assistencia publica estão, principalmente, a cargo das seguintes entidades:

Assistencia Publica (municipal) e Sociedade Nacional de Beneficencia, incorporada ao ministerio das Relações Exteriores e dos Cultos. A Administração Sanitaria y Assistencia Publica, sua designação official, é uma repartição municipal com jurisdicção em toda a capital da Republica. Depende do Departamento Executivo, que resolve, em ultima instancia, todas as questões administrativas. Technicamente, a Assistencia é autonoma, governando-a uma Direcção Geral, composta de um Director, um sub-Director, um Secretario e dois empregados superiores, que dividem, entre si, a chefia dos serviços medicos e sanitarios.

Funcciona na Casa Central, antigo Hospital de Mulheres. Ahi estão os escriptorios de administração, estatistica, hygiene e prophylaxia; consultorios, pharmacia, salas de curativo, laboratorio, gabinete vaccinico, drogaria, aposentos do pessoal, depositos e dependencias.

O fim d’esta instituição municipal é soccorrer os necessitados que, transitoria ou definitivamente, vejam-se impedidos de occorrer ás proprias enfermidades e á extrema miseria.

Ha duas categorias de pobres a soccorrer, os de solemnidade, ou de 1.ª categoria, que teem direito á assistencia gratuita, e os de 2.ª categoria, que pagam 0,30 centavos por cada receita. As consultas são gratuitas para todos os indigentes, bem como os primeiros auxilios, isto é, os curativos e os soccorros na via publica. Á 2.ª categoria pertencem, geralmente, os operarios que, pelo seu exiguo salario, não podem custear assistencia particular.

O serviço é dividido em dois ramos principaes—medico e de hygiene e prophylaxia. A assistencia medica subdivide-se em serviço permanente na Casa Central, nas estações sanitarias, em dois consultorios seccionaes e na assistencia hospitalar em oito estabelecimentos.

Logo que o necessitado chega á Casa Central, dirige-se á repartição do Registro, onde é visado o seu certificado de pobreza, e segundo o seu gráu, recebe uma papeleta de 1.ª ou de 2.ª categoria. Se é para curar-se em casa, espera que lhe aviem a receita, na pharmacia; se está infeccionado, ou gravemente enfermo, é recolhido aos hospitaes geraes ou á Casa de Aislamento.

Além dos consultorios geraes, em numero de seis, ha os especiaes de ophtalmologia, odontologia, genecologia, das vias urinarias e venereo-syphlitico. Seis facultativos fazem visitas domiciliarias e gratuitas, durante a noite, nos seis districtos em que, para esse effeito, está dividida a cidade. Para as visitas urgentes ha medicos especiaes que se revézam, fazendo guarda na Casa Central.

Estas visitas, incluidas na secção de primeiros auxilios, podem ser pedidas por qualquer habitante, sem distincção de classe nem de posição social. Verificada a situação do soccorrido, se é abastado compete-lhe retribuir os serviços prestados, com uma quantia, a tarifa estipulada, em beneficio do patrimonio da Casa Central.

Ha tambem uma parteira permanente para acudir a qualquer chamada para os serviços da sua especialidade. Se houvér muitas requisições, ao mesmo tempo, os medicos internos auxiliam a referida parteira. Os mesmos facultativos prestam gratuitamente o serviço de reconhecimento e exame das amas de leite, bem como os attestados de obito dos individuos fallecidos sem assistencia medica.

Basta um simples aviso telephonico para que da Casa Central, ou das suas succursaes já mencionadas, parta uma ambulancia com todos os recursos para soccorro immediato na via publica e em domicilio. Este serviço é rapido, perfeito e pratico, constituindo o primeiro elemento, em todo o sentido, de assistencia publica em Buenos-Aires. Logo que o guarda recebe o aviso telegraphico ou telephonico, indicando-lhe o domicilio ou o local onde caiu a victima, faz funccionar o timbre de alarme, que avisa, ao mesmo tempo, o praticante e o encarregado das ambulancias. A Assistencia tambem manda buscar os cadaveres de indigentes victimados nas ruas ou nos domicilios, e transportal-os aos cemiterios.

A Sociedad de Beneficencia de la Capital, é a mais importante das entidades nacionaes de beneficencia publica. É administrada por uma commissão das mais distinctas senhoras da sociedade buonarense, e está sob a immediata direcção do Ministerio de Relaciones Exteriores y Culto. Foi creada em 2 de Janeiro de 1823, durante a administração do general Rodriguez, pelo eminente estadista D. Bernardino Rivadavia. As suas funcções abrangem desde a assistencia physica e a educação infantil, até ao estimulo moral e religioso, distribuindo premios á virtude.

Tem fundado hospitaes, asylos e escólas e dirige nove estabelecimentos de caridade, os hospitaes Rivadavia, dos Niños, de las Mercedes (mulheres), o Consultorio Ophtalmologico, a Casa de Expostos e os asylos de Orfãos, Maritimo e de las Mercedes.

Em 31 de Dezembro de 1907, era o seguinte o estado financeiro d’esta Sociedade:

Receita

Recebido da Loteria Nacional 2:272:020

» da Thesouraria Nacional 369:705

» de donativos e legados 431:583

» de festas de caridade 52:346

» de pensões cobradas 272:415

» de alugueis, multas de policia, lei do jogo, etc. 20:128

» do Banco da Nação (conta corrente) 3:542:132

» por garantia de contratos 21:828

» por operações de ordem interna 48:885

7:031:042

Despeza

Pago por gastos ordinarios nos estabelecimentos a cargo da Sociedade 1:532:289

Pago por gastos extraordinarios nos mesmos estabelecimentos 224:681

Obras do Asylo de Lomas 165:116

Construcção do pavilhão Pellegrini na Casa dos Expostos 142:163

Compras por licitação 821:564

Esmolas 28:268

Premios á virtude 16:120

Deposito feito no Banco da Nação (conta corrente) 4:020:473

Depositos devolvidos 21:234

Diversas operações de ordem interna 40:400

7:012:306

Saldo em caixa, em 31 de Dezembro de 1907 25:351,

pesos argentinos, valendo cada peso cêrca de 450 réis portuguezes.

Como se vê pelo desenvolvimento d’este longo capitulo, a beneficencia e assistencia publicas estão perfeitamente creadas na capital argentina. O que falta é ampliar os estabelecimentos já existentes, ou crear outros novos, attendendo a que frequentemente os hospitaes municipaes e nacionaes, e tambem os asylos, comportam mais enfermos e asylados do que a propria lotação, e isto devido não só ao assombroso e constante augmento da população da capital, mas tambem á falta de hospitaes e asylos nas provincias, o que faz convergir para Buenos-Aires a grande maioria dos necessitados de todo o paiz.

Beneficencia Particular

As associações beneficentes de Buenos-Aires, com caracter particular, podem ser divididas em duas categorias—as que prestam auxilio a qualquer habitante da capital e as que só o fazem aos seus associados, nacionaes e estrangeiros. As primeiras prestam serviços de caracter social, sustentando e protegendo asylos, escólas, institutos de surdos-mudos e de cegos, etc., ao passo que as segundas, geralmente, só auxiliam os seus contribuintes e os seus hospitaes, que apenas admittem os individuos da propria nacionalidade.

O Patronato da Infancia, que funcciona desde 1892, tem por especial missão proteger e assistir ás creanças pobres, enfermas e abandonadas.

Começou por abrir um consultorio medico e hoje, graças a donativos particulares e a festas de caridade, possúe dois asylos de engeitados, ou expostos, com capacidade, cada um, para 200 creanças, em edificios proprios; o internato Manuel Aguirre, onde recebem-se creanças, internas, de ambos os sexos, de tres mezes a seis annos; uma escóla de artes e officios; uma colonia agricola em Claypole, e consultorios gratuitos, para creanças, dirigidos por cinco medicos especialistas.

Além d’isso, o Patronato custeia e redige a Revista de Hygiene Infantil, com uma tiragem de 20:000 exemplares, destinada a instruir as mães e as amas sobre a maneira de alimentar e cuidar das creanças, desde os primeiros dias de nascidas.

A Sociedade de S. Vicente de Paula, fundada e dirigida por distinctas damas da capital, sustenta quatro asylos maternaes, onde são recebidas creanças pobres de ambos os sexos, de 3 a 10 annos, desde as 7 da manhã até ás 4 da tarde, fornecendo-lhes almoço e lições de primeiras lettras. Estas creanças pertencem, na quasi totalidade, a operarios que não teem a quem entregal-as durante as horas de trabalho nas officinas, e é esse o fim humanitario dos referidos asylos.

Ha, em Buenos-Aires, dois estabelecimentos, um para cada sexo, destinados á educação dos surdos-mudos. Annexa ao Asylo de Orfãos, da Sociedade de Beneficencia, funcciona uma secção para cegos, porém esta installação é insufficiente a um centro da importancia da metropole argentina, notando-se a falta de uma instituição para abrigar e tratar os indigentes faltos de vista.

Existem, actualmente, seis orfanatos—Asilo de Huérfanos Militares, Asilo Naval, Sociedad Hermanas de los Desamparados, Asilo del Pino, Asilo de Niños Desvalidos e Huerfanato Francés. São mantidos por egual numero de associações beneficentes e recolhem menores indigentes até aos 14 annos, educam-os e ensinam-lhes officios manuaes, segundo as aptidões dos asylados.

São cinco as sociedades estrangeiras de beneficencia que sustentam hospitaes para os seus nacionaes:

—Sociedad Española de Beneficencia, Societá del Ospedale Italiano, Societé Philantropique Française, e as que custeiam os hospitaes inglez e allemão.

O Hospital Italiano é o maior e o mais importante. Occupa um vasto e bello edificio, expressamente construido para o effeito e servido por escolhido pessoal technico.

A Liga Argentina Anti-Tuberculosa, tem o triplice caracter de associação particular, nacional e municipal. De iniciativa individual, a Liga é hoje patrocinada pelo Ministerio do Interior e pela Camara Municipal que, de accôrdo com ella, fundou o Sanatorio Enrique Tornú. Até 1902 os tuberculosos eram admittidos nas enfermarias geraes dos hospitaes communs; apenas os mais graves eram directamente mandados para a Casa de Aislamento. Foi n’esse anno que a Liga começou a desenvolver a sua benefica acção, fundando uma revista, destinada não só a combater os elementos sociaes alimentadores do terrivel mal, como a prescrever os meios de prevenir e de curar a tuberculose; e fazendo adoptar, nos estabelecimentos publicos e por toda a parte, medidas tendentes a evitar a propagação do maior inimigo da humanidade. A Liga, auxiliada pelo governo e pela municipalidade, fundou os dois dispensarios Enrique Tornú e G. Rawson, com o fim de prestar assistencia e protecção aos tuberculosos indigentes, proporcionando-lhes alimentos, roupas de cama e de corpo, escarradores de bolso e de quarto, alguns comestiveis e, diariamente, 750 grammas de carne, meio kilo de pão e um litro de leite. Como complemento a estes dispensarios, a Camara Municipal creou o Sanatorio Tornú, já descripto e que hospitalisando, magnificamente, os tuberculosos considerados curaveis, auxilia poderosamente a Liga na sua missão eminentemente philantropica.

O altruismo dos habitantes de Buenos-Aires exteriorisa-se, principalmente, nas festas publicas de caridade, que são, em geral, brilhantes e enormemente concorridas, e quasi sempre promovidas pelas damas da alta sociedade, que dirigem as duas principaes associações beneficentes da capital.

Salubridade e Hygiene

Duas poderosas instituições salvaguardam a salubridade e a hygiene da metropole argentina—a Inspeccion Técnica de Higiene, e o Departamento Nacional de Higiene. A primeira é municipal e a segunda é nacional. Como o seu titulo o indica, o Departamento cuida da salubridade e hygiene de toda a Republica, ao passo que a Inspeccion dedica-se, especialmente, ao municipio de Buenos-Aires, e por isso d’ella nos occuparemos minuciosamente, attendendo á indole d’este livro.

A Inspeccion Técnica de Higiene, funcciona desde 1892 e foi creada immediatamente depois da Administración Sanitaria e Asistencia Publica, dependendo o seu Director do d’esta Administración.

Os seus deveres são investigar tudo quanto seja prejudicial á saúde publica; inspeccionar o estado sanitario do municipio; evitar o desenvolvimento e a propagação das enfermidades; vigiar a installação e funccionamento dos estabelecimentos incommodos e insalubres, taes como os mercados, cavallariças, fabricas, prostibulos, etc.; e vigiar pelo cumprimento das posturas municipaes.

O serviço divide-se em tres secções;

—Inspecção, que comprehende a hygiene pessoal e a veterinaria.

—Desinfecção, praticada em domicilio ou nas estações officiaes.

—Prophylaxia, ou vaccinação, feita como a desinfecção.

Para este serviço, o da desinfecção, ha duas grandes estufas geraes, uma estabelecida ao Norte e a outra ao Sul da cidade.

Logo que o proprietario, o vizinho ou qualquer cidadão qualificado denuncie a existencia de um fóco infeccioso, o inspector sanitario da secção respectiva váe pessoalmente verifical-o e constatando-o, immediatamente faz remover o habitante ou os habitantes para a Casa de Isolamento e requisita o pessoal de desinfecção para o saneamento do domicilio, o qual é feito segundo a gravidade do caso. De ordinario, as roupas de uso, colchões, camas e outros objectos em contacto com o infeccionado são levados a uma das estufas geraes, desinfectando-se, nos domicilios, as mobilias, quadros, espelhos e tudo quanto seja menos susceptivel de contagio. Nas estufas adopta-se o systema de vapor a pressão, pelos modelos de Geneste, Dehaitre e Leblanc.

O chefe, ou director da Inspeccion Técnica de Higiene tem, sob as suas ordens, um corpo de veterinarios para a inspecção dos animaes e para a fiscalização das carnes. Os veterinarios são divididos em tres grupos, um que visita os matadouros e as fabricas, outro as cavallariças e as vaccarias, e o terceiro os mercados e os açougues. Todo o animal e toda a carne contaminada é logo inutilizada, tomando conta de um e de outra o veterinario, que manda abater os animaes em um deposito especial. Ha um corpo de inspectores para impedir a venda de carnes que não provenham de matadouros e de estabelecimentos auctorisados official e legalmente.

A administração municipal de vaccina depende tambem da Inspeccion Técnica de Higiene. A vaccina é obrigatoria para todos os habitantes, no primeiro anno do nascimento, ou da installação, e no periodo de dez em dez annos. O Registro Civil, repartição do Estado, remette á Inspeccion, a lista dos recemnascidos, cujos parentes são intimados a fazel-os vaccinar. Este serviço effectua-se na Casa Central, nos hospitaes e nos domicilios. Os vaccinadores são medicos e praticantes, sob a direcção de um chefe.

Ha um corpo de oito medicos para as visitas, bi-semanaes, aos prostibulos. As mulheres publicas, enfermas, são tratadas em domicilio, que nunca póde ser o prostibulo, ou nos hospitaes, quando indigentes e assim o requeiram. Quando se inscrevem, na repartição competente, entregam-lhes uma caderneta com o retrato, os signaes particulares, o numero da matricula e a nota de sã ou enferma, documento que são obrigadas a mostrar quando lhes seja exigido. Ha agentes-fiscaes encarregados de denunciar e comprovar a prostituição clandestina, e a existencia de casas onde se prostituem mulheres não inscriptas.

O Laboratorio Bacteriologico, municipal, foi creado em 1886 e está installado em edificio especial.

Além dos trabalhos de bacteriologia geral, entre elles um curso que já produziu 93 publicações da especialidade, o Laboratorio effectúa analyses chimicas dos productos organicos que lhe são remettidos dos consultorios dos medicos seccionaes; e diariamente, da qualidade das provisões destinadas aos hospitaes. Tambem effectúa as autopsias dos cadaveres de infecciosos e dos de pessôas fallecidas sem assistencia medica. O seu pessoal compõem-se de um chefe, um director de trabalhos, dois ajudantes e dos estudantes da Faculdade de Medicina, inscriptos para o curso geral de bacteriologia.

O Laboratorio Pasteur, de Buenos-Aires, foi fundado pelo doutor Davel, em Setembro de 1886. É o unico que existe em toda a Republica Argentina, e a elle recorrem muitos habitantes das vizinhas Republicas Oriental do Uruguay e do Paraguay. O seu pessoal technico reduz-se a um director e a dois auxiliares. Os resultados da applicação do sôro anti-rabico teem sido surprehendentes.

A cidade de Buenos-Aires é abastecida por tres systemas, independentes, de aguas correntes.

O primeiro é o da cidade, propriamente dita, e o mais importante, a cargo da Direccion General de Obras de Salubridad, com agua colhida no rio da Prata; o segundo e o terceiro são os de Flôres e de Belgrano, bairros abastecidos por aguas de poços, canalisadas. O precioso liquido é tirado do rio a 850 metros da costa, defronte do bairro de Belgrano.

Eleva-se alli uma Torre de Absorpção, na fórma de um tronco de pyramide quadrangular, á altura de 4,ᵐˢ88 sobre o nivel da agua. No centro está um poço com 9,ᵐˢ60 de profundidade abaixo do leito do rio. A agua entra n’esse poço por quatro aberturas com valvulas e vigas de ferro, para impedir a entrada dos grandes corpos fluctuantes. D’este poço parte um tunnel que conduz a agua ao estabelecimento da Recoleta. Este tunnel consta de duas secções:—a primeira, sob o leito do rio, tem 1:626 metros de longitude e 1,ᵐ524 de diametro; a segunda, entre o rio e o estabelecimento de bombas da Recoleta, tem 4:080 metros de comprimento, e é em fórma de uma ellipse, cujos eixos teem, respectivamente, 1,ᵐ524 e 1,ᵐ057.

A primeira secção pode dar passagem, nas aguas baixas ordinarias, a 222:000 metros cubicos de agua por dia, e a segunda a 120:000. Na margem está um poço onde termina o tunnel sub-fluvial e começa o terrestre. A differença de nivel entre um e outro tunnel, dentro do poço, é de 6,ᵐˢ70, o que faz com que o tunnel seja um sifão invertido. Sobre elle, tanto no rio como em terra, ha varios poços que serviram para a construcção e que hoje são aproveitados para ventilação e fiscalização.

O estabelecimento da Recoleta occupa uma area de 28:25 hectares.

A primeira casa de machinas, ou de bombas elevadoras, tem motores de um poder total de 496 cavallos, que levantam a agua que chega do rio e do nivel de 9,ᵐˢ70 abaixo do sólo, a uma camara geral de distribuição aos depositos.

Outras bombas, da força de 431 cavallos, e que estão collocadas em outra casa da margem do rio, no ponto em que termina a parte sub-fluvial do tunnel e começa a terrestre, levantam outra grande massa d’agua, que o tunnel transporta á mesma camara anterior de distribuição, aproveitando-se assim a differença de capacidade existente entre as duas secções do tunnel conductor.

Todas as bombas podem elevar a quantidade maxima de 322:617 metros cubicos de agua, em cada 24 horas. Os grandes depositos são dois, com a capacidade de 148:840 metros cubicos, cada um, e com a altura de 3,ᵐˢ46. Cada um d’estes depositos é dividido em tres secções. Quando é preciso proceder á limpeza de uma secção esvasia-se-a por meio de comportas. Estes depositos são enormes excavações, revestidas de paredes de ladrilho prensado. De egual material são as paredes que dividem as secções, e as que formam os canaes para a circulação da agua.

Sendo a agua do rio da Prata muito barrenta, não só passa por grandes filtros como é clarificada por uma substancia chamada alumino-ferrea, e que é composta de sulphatos de aluminio e de ferro, empregada na proporção, variavel, de 5 a 10 centigrammas por litro de agua, ou seja de 50 a 100 grammas por metro cubico de agua. A substancia clarificante é lançada no momento em que a agua é levantada do tunnel para a camara ou tanque geral de distribuição aos depositos. Canos de ferro conduzem a agua dos grandes depositos aos filtros, que teem uma superficie total de 48:000 metros quadrados.

São oito grandes, e um pequeno, systema Coghlan, e cada filtro está dividido em tres secções independentes, variando a superficie de cada secção de 1:556 a 2:189 metros quadrados. Os filtros estão construidos em grandes excavações, com o fundo de granito cimentado e as paredes de ladrilho prensado.

O material filtrante consta, na parte inferior, de um revestimento de pedra grossa, em troços de 15 centimetros e de 0,25 centimetros de espessura; sobreposto a este revestimento, está um outro de pedra fina, da espessura de 0,ᵐ15, em pedaços de 50 a 25 millimetros; um revestimento de areia grossa, de 0,ᵐ10 de espessura e outro de areia fina, com a espessura de 1ᵐ a 1,ᵐ20.

Os grãos de areia fina teem, na quasi totalidade, um tamanho comprehendido entre ¼ e 2 millimetros. Esta camada de areia é que filtra a agua; a pedra e a areia grossa servem-lhe de supporte. A agua filtrada cáe em pequenos depositos ladrilhados e quatro dos filtros teem, por baixo, grandes depositos de agua filtrada com a capacidade de 70:000 metros cubicos, e que servem de reservas. Estas reservas de agua filtrada vão ser elevadas a 200:000 metros cubicos. Dois tunneis perfurados a 8 metros abaixo do nivel do terreno conduzem a agua filtrada aos poços de pressão das machinas impulsoras, que occupam tres casas do estabelecimento da Recoleta, e que levantam 254:778 metros cubicos de agua em cada 24 horas.

Oito canos de pressão e de varios diametros conduzem a agua, prompta para o consumo, ao Grande Deposito Distribuidor, ou Palacio das Aguas Correntes, já descripto na secção—Monumentos—e situado entre as ruas de Cordoba, Rio Bamba, Viamonte e Ayacucho.

Os oito canos, ao chegarem ao Grande Deposito, juntam-se uns aos outros, até ficarem reduzidos a dois, que atravessam o Deposito de Norte a Sul, e ao saírem d’elle ramificam-se de novo nas rêdes dos canos geraes.

Estes canos, cujo diametro varia de 0,152 a 0,914, constituem uma rêde de grandes malhas, que alimenta os canos de distribuição pelos domicilios. Toda a canalização é de ferro fundido e está munida de valvulas para obstar a que a ruptura de um cano dê logar a inundações e á falta de agua. O comprimento da canalização geral é de 105:056 metros e de 840:929 metros o da canalização de distribuição.

Apesar d’isto, apenas 75% da actual população de Buenos-Aires é directamente abastecida de agua. Flôres já foi ultimamente ligada ao abastecimento geral; apenas o grande bairro de Belgrano continua a ser abastecido por agua dos poços, levantada e distribuida por bombas e canos de pressão a vapor. O consumo annual de agua, na metropole argentina, é de cêrca de 50 milhões de metros cubicos, gastando, na média, cada habitante, 270 litros de agua por dia.

Para o importantissimo serviço de cloacas e de aguas servidas, a cidade da Buenos-Aires está dividida em 30 districtos. Os limites de cada districto estão determinados pela configuração do terreno. Á excepção de alguns districtos, que teem um funccionamento especial, o desaguamento effectua-se da maneira seguinte:

As cloacas collectoras, construidas, geralmente, no centro das ruas, recebem as aguas servidas e as da chuva por intermedio das cloacas domiciliarias e dos sumidouros.

As cloacas domiciliarias recebem as aguas servidas e as da chuva, que cáe em cada propriedade. Os sumidouros recebem a agua da chuva que cáe nas ruas e estão construidos na proporção de quatro por cada quarteirão, ou quadra, dois a meio e dois nas extremidades mais baixas.

Por meio das cloacas collectoras, que vão unindo-se umas ás outras, as aguas attingem uma camara reguladora, construida no ponto mais baixo do districto. D’aqui as aguas passam á cloaca interceptora, uma por cada districto. A capacidade dos conductores é regulada para uma chuva até 6 millimetros por 24 horas. Em caso de grandes chuvas, os conductores transbordam e as aguas pluviaes misturadas com os detrictos e as aguas servidas, cáem em conductores de tormenta e por elles vão desaguar directamente no rio. Da cloaca interceptora, de cada districto, as aguas geraes passam á cloaca maxima, que atravessa a cidade de Norte a Sul, cruza o rio Riachuelo por meio de um siphão invertido, que é obra de grande importancia, e desemboca no rio da Prata, defronte de Berazategui. O seu comprimento é de 31:923 metros, dos quaes 27:331 são de alvenaria, 4:522 constam de tres canos de ferro fundido de 1,ᵐ067 de diametro, cada um, e 70 metros são correspondentes ao siphão.

Até ao estabelecimento de Puente Chico, o desaguamento é feito por simples gravitação, porém n’aquelle ponto é preciso levantar as aguas por meio de bombas, á altura de 14 metros.

A capacidade das bombas é de 296:755 metros cubicos de agua em cada 24 horas, e a dos motores é de 924 cavallos, indicados.

Em todas as ruas ha varias boccas de registro, para a inspecção e limpeza das cloacas collectoras. Entre estas e as cloacas domiciliarias estão as cloacas domiciliarias externas, formadas de ramaes de barro cosido, do diametro de 0,ᵐ152, e que conduzem as aguas d’estas para aquellas.

Cada uma das cloacas domiciliarias externas tem um cano de ventilação, com o diametro de 0,ᵐ102, collocado em frente das casas, e um siphão que as separa das cloacas domiciliarias internas.

Os conductores de tormenta, que recebem o excesso das aguas da canalisação geral das cloacas e a agua da chuva caída nos sumidouros das ruas e praças, são nove principaes, bifurcando-se alguns d’elles em varios ramaes. Teem 4,ᵐˢ27 de largura e 3,ᵐˢ66 de altura. Estes conductores desagúam em um conductor geral, formado por uma galeria, desde a rua Garay até á rua Mejico, por duas galerias, desde esta rua até á de Cangallo, e, finalmente, por tres galerias desde este ponto até ao desaguamento geral no rio, no molhe Norte do porto. Desde a juncção até ao rio, esta galeria tem 22,ᵐˢ50 de largura. O comprimento total d’este grande conductor é de 3:792 metros.

A area com o serviço de cloacas abrange uma superficie de 2:557 hectares. O serviço de aguas correntes acompanha não só a rêde geral de desaguamento de aguas servidas, como prolonga-se a bairros afastados que, como Flôres e Belgrano, ainda não possúem o serviço geral e completo de aguas servidas e de chuva.

É de cêrca de 600 kilometros a extensão da canalização geral relacionada com a rêde geral das cloacas.

O serviço de limpeza publica está a cargo de um Administrador Geral, que tem sob as suas ordens um pessoal composto de 1:630 individuos. O orçamento annual, para custeio d’este importantissimo ramo do serviço publico, ultrapassa, actualmente, a somma de tres milhões de pesos argentinos, ou sejam cêrca de 1:400 contos de réis, em moeda portugueza.

O processo de limpeza publica comprehende tres serviços, 1.º a rega, varredura, lavagem de ruas e papeleiros; 2.º apanha de lixo e 3.º a queima de lixo e de animaes. Para a realização d’estes serviços, está a cidade dividida em duas secções principaes, a do Norte e a do Sul, servidas, respectivamente, segundo o recenseamento municipal de 1907, por 813 e 754 empregados. Estas secções subdividem-se, cada uma, em tres outras que abrangem varios bairros, havendo uma secção especial para o Parque de Palermo e suas dependencias.

Ao Norte, ao Sul, e em Palermo, ha grandes curraes-depositos de material e de gado, cêrca de dois mil cavallos. Em 1907 havia um total de 535 vehiculos, assim descriminados:—281 carros de limpeza, 77 carros-varredores, 10 carros de forragem, 23 ditos papeleiros, 50 machinas varredoras, 31 ditas de rega diurna, 23 ditas de rega nocturna e 40 carros de transporte.

O serviço de limpeza publica é feito á noite, desde as 9 horas até terminar. O pessoal de cada uma das grandes secções, do Norte e do Sul, percorre, em cada noite, de 600 a 700 quadras, não sendo, ainda assim, possivel fazer-se, em uma só noite, a limpeza de toda a cidade.

Durante o dia a limpeza é feita por peões, em numero de cêrca de 800, chamados papeleiros, porque varrem e apanham os papeis e outras sujidades das ruas, que depositam em carrinhos de mão de 100 decimetros cubicos de volume. Quando cheios, estes pequenos vehiculos são empurrados para junto dos carros papeleiros, puxados a 1 e 2 mulas e divididos por secções, e ahi despejado o seu conteúdo. Tambem são usadas as regas nocturnas e diurnas por meio de mangueiras.

A queima do lixo e dos animaes é feita por contracto da Camara Municipal, com uma empreza particular e effectua-se em um vasto terreno fóra da cidade, e ainda pelo primitivo processo da labareda ao ar livre, não tendo sido até agora adoptados os fornos crematorios, não obstante varias experiencias já feitas n’esse sentido. Os cães vadios são apanhados na via publica, durante a noite, por individuos munidos de laços e acompanhados de carros-jaulas. Os cães não reclamados no prazo de 48 horas, são asphyxiados, aos grupos de 100, por uma corrente de acido carbonico, dentro de um recinto hermeticamente fechado. Passa de 12:000 o numero de cães apanhados annualmente.

Em 1906, dos 1:084:113 habitantes de Buenos-Aires, morreram 17:916, o que dá a proporção de 16.52 por 1:000 individuos.

D’esse numero, 1:662 nasceram mortos; eram 10:565 argentinos e 7:351 estrangeiros. D’estes, 3:379 eram italianos, 1:795 hespanhóes, 672 francezes, 158 inglezes, 134 allemães, 345 uruguayos e 868 de outras nacionalidades. Homens eram 10:462 e mulheres 7:454. Solteiros, 11:155, casados, 4:724, viuvos, 1:860. No mesmo anno nasceram 36:009 pessôas, sendo 18:362 do sexo masculino e 17:647 do feminino. Nascimentos legitimos, 31:062, illegitimos, 4:947.

No mez de Março de 1908 nasceram 1:478 varões legitimos e 213 illegitimos e 1:445 meninas legitimas e 208 illegitimas. Em egual mez realisaram-se 748 casamentos civis e 387 religiosos, e falleceram 1:528 pessôas, sendo 894 varões e 634 mulheres. No mesmo mez e para uma população de 1:150:000 habitantes, foram abatidas 50:992 cabeças de gado, nos matadouros de Liniers.

Instrucção Publica

Uma lei de 1884 declara obrigatoria a instrucção para todos os argentinos de 6 a 14 annos do edade, apenas com o pagamento da matricula, na importancia annual de um peso nacional, ou sejam 450 réis portuguezes. D’essa mesma despeza é dispensado todo aquelle que perante a auctoridade respectiva, provar a impossibilidade de satisfazêl-a. N’este caso tambem o Estado fornece, gratuitamente, os livros e o mais que fôr indispensavel á instrucção.

A mesma lei creou, para a direcção da instrucção primaria, o Conselho Nacional de Educação, que tem por auxiliares um corpo de inspectores technicos e os Conselhos Escolares de Districto, formados por paes de familia encarregados da inspecção administrativa das escólas.

O Conselho Nacional de Educação, funcciona na capital, sob a dependencia do Ministerio da Instrucção Publica, e ao mesmo tempo que tem a direcção facultativa e a administração geral das escólas, gosa de amplas attribuições, que permittem-lhe desenvolver, com inteira independencia, a sua esphera de acção.

A instrucção publica comprehende a instrucção primaria, a instrucção secundaria, a instrucção normal, commercial e industrial e a instrucção superior.

A instrucção primaria é, em Buenos-Aires, dada officialmente em escólas superiores de meninos, superiores de meninas, elementares de meninos, elementares de meninas, infantis, nocturnas e militares.

O seu numero era, em 1908 e respectivamente, de 19, 27, 38, 59, 55, 40 e 80. Ao todo 318 escólas primarias e officiaes. Em 31 de Março de 1908, estavam inscriptos, n’essas escólas, 83:171 alumnos, com a frequencia média de 68:183.

A instrucção secundaria é fornecida nos seguintes estabelecimentos officiaes, cuja frequencia é da mesma data acima:

Collegio Nacional Central 692 alumnos

» » de Oeste 388 »

» » do Sul 337 »

» » do Norte 385 »

» » de Noroeste 287 »

Instituto Livre de Ensino Secundario 186 »

2:275 »

A instrucção normal, commercial e industrial, consta das seguintes instituições officiaes:

—Instituto do Professorado Secundario 243 alumnos

—Escóla Normal de Professores 139 »

— » » » Professoras, n.º 1 440 »

—Escóla Normal de Professoras, n.º 2 565 »

—Escóla Nacional de Commercio, para Varões (Central) 714 »

—Escóla Nacional de Commercio, para Varões (Sul) 292 »

—Escóla Nacional de Commercio, para Mulheres 276 »

—Escóla Industrial da Nação 36 »

—Escóla Profissional de Artes e Officios, n.º 1 (mulheres) 316 »

—Escóla Profissional de Artes e Officios, n.º 2 (mulheres) 565 »

—Instituto Nacional de Surdas-Mudas 94 »

—Instituto Nacional de Surdos-Mudos 92 »

—Instituto Nacional de Meninas Cegas 22 »

3:794 »

Finalmente, a instrucção superior está a cargo da Universidade, com as seguintes Faculdades, e a matricula em 31 de Março de 1908:

—Faculdade de Mathematica 490 alumnos

—» de Medicina 2:467 »

—» de Direito 1:038 »

—» de Philosophia e Lettras 77 »

4:072 »

As escólas para a instrucção primaria e official estão divididas em 14 districtos e eram, segundo a ultima estatistica, regidas por 298 professores ordinarios e 67 especiaes, as do sexo masculino, e por 1:579 professoras ordinarias e 318 especiaes as do sexo feminino. Total 2:262 professores de ambos os sexos, para 318 escólas e 83:000 alumnos.

As escólas primarias fôram, ha poucos annos, dotadas com bellos e amplos edificios, verdadeiramente modelares, mas nem assim são sufficientes ás exigencias do ensino e á frequencia, sempre em augmento, de alumnos de ambos os sexos, pelo que o Conselho Nacional de Educação, adoptou o horario alternado, o que permitte ensinar nas mesmas escólas um numero duplicado de alumnos.

A Escóla Presidente Roca, modelar como são as escólas Sarmiento, Pellegrini, Rodrigues Peña, Rivadavia, Benjamin Zorilla, Saavedra, Irigoyen, etc., occupa um bellissimo edificio em estylo corinthio, na praça Lavalle. Era frequentada, em Junho de 1908, por 350 alumnos do sexo masculino. Encerra 10 salas de classe, onde funccionam 10 cursos, ou classes, diariamente. Ha, tambem, curso livre de francez, escóla official de primeiras lettras e escóla nocturna. Em volta de todas as aulas vê-se, na parede, um revestimento de lousa, de 3 metros de altura. Cada sala de aula tem o nome de um dos próceres da independencia nacional, assim como o seu retrato. O mobiliario consta de uma mesinha de graduar altura e o competente assento de madeira e ferro.

Funcciona n’esta, como nas outras escólas, o Copo de Leite, designação popular, officialmente—Amigos da Educação—instituição fundada, em 1906, pelo dr. Genaro Sixto. Cada creança tem, diariamente, um copo de leite, esterilizado, com 250 grammas. Constituem esta associação os proprios paes dos alumnos. A mesma collectividade organisa bibliothecas, nas escólas elementares, destinadas aos professores, alumnos, aos vizinhos das escólas e ao publico em geral. A bibliotheca da Escóla Presidente Roca, já conta cêrca de 2:500 volumes, patentes de dia e á noite. A mesma associação publíca uma revista mensal intitulada—La Escuela Moderna—orgão da sociedade e collaborada pelos professores, pelos paes dos alumnos e por estes, quando os seus escriptos sejam julgados dignos de admissão. Cada uma d’estas escólas tem um museu fundado pelos proprios alumnos. O da escóla que nos occupa consta de productos da historia natural, objectos de ensino e trabalhos das creanças, tudo colleccionado, classificado e arrumado em armarios envidraçados. N’estes museus são dadas lições com projecções luminosas. Cada escóla tem um jardim, cuidado pelos alumnos, que o dividem em secções. Cada alumno possúe um livro para inserir, diariamente, o seu relatorio com as observações metereologicas, o estado dos seus estudos, o desenvolvimento das plantas a seu cargo, e outras minudencias.

Em todas as materias, o ensino é pratico. O livro, nas escólas argentinas, é um simples auxiliar. Todas estas escólas teem officinas manuaes, para trabalho em madeira, vestindo os alumnos aventaes apropriados e aprendendo a manejar as varias ferramentas para trabalhar em madeira, escolhendo depois o modêlo que preferem.

O Conselho Nacional de Educação, funcciona no palacio da Educação Nacional, na praça Rodriguez Peña. Além da importante bibliotheca, que descreveremos em capitulo especial, encerra um Museu Escolar, interessantissimo, grande numero de escriptorios de serviço e um grandioso salão de conferencias.

O programma official de ensino, nos collegios nacionaes, abrange as seguintes materias:

1.º anno —Francez 3 horas semanaes

—Hespanhol 3 » »

—Historia Argentina 4 » »

—Arithmetica 4 » »

—Historia Natural (Zoologia e Botanica) 3 » »

—Geographia Argentina 3 » »

—Desenho 3 » »

—Trabalho Manual e Educação Physica 6 » »

2.º anno —Hespanhol 3 » »

—Francez 3 » »

—Historia Argentina 3 » »

—Arithmetica e contabilidade 3 » »

—Geometria 3 » »

—Historia Natural, Mineralogia e Geologia 3 » »

—Geographia Argentina 2 » »

—Desenho, trabalho manual e educação physica 6 » »

3.º anno —Hespanhol (idioma e litteratura) 2 » »

—Francez 3 » »

—Inglez 3 » »

—Historia da America 2 » »

—Algebra 2 » »

—Geometria 2 » »

—Historia Natural, Anatomia e Physiologia 2 » »

—Geographia da America 2 » »

—Desenho 3 » »

—Educação Physica 3 » »

4.º anno —Litteratura 3 » »

—Inglez 3 » »

—Historia Antiga 3 » »

—Algebra 2 » »

—Physica 3 » »

—Chimica Inorganica 3 » »

—Historia Natural, Physiologia e Hygiene 3 » »

—Geographia da Asia e Africa 2 » »

—Desenho e Educação Physica 6 » »

5.º anno —Litteratura 3 » »

—Inglez 3 » »

—Italiano 2 » »

—Historia da Grecia, Roma e Edade Media 3 » »

—Philosophia 3 » »

—Physica 3 » »

—Chimica Organica 3 » »

—Geographia da Europa e Oceania 2 » »

—Educação Physica 6 » »

6.º anno —Litteratura 3 » »

—Italiano 2 » »

—Historia Moderna e Contemporanea 3 » »

—Philosophia 3 » »

—Instrucção Civica 3 » »

—Cosmographia 2 » »

—Geographia Physica, Geral e Chimica Analytica 3 » »

—Educação Physica 6 » »

O programma official de estudos para as 4 Escólas Normaes de Professores, 2 para cada sexo, é como segue:

1.º anno:—Arithmetica, Historia Antiga, Grega e Romana, Geographia da Asia e da Africa, Hespanhol, Francez, Historia Natural (zoologia e botanica), Physica, Chimica, Pedagogia Theorica, Pedagogia Pratica e Educação Physica.

2.º anno—Arithmetica e Algebra, Historia Medieval e Moderna, Geographia da Europa e da Oceania, Hespanhol, Francez, Historia Natural (mineralogia e geologia), Physica e Chimica, Pedagogia Geral, 2, Pedagogia Pratica, 4 (aulas), Educação Physica.

3.º anno—Algebra e Geometria, Historia Contemporanea e Argentina, Geographia Argentina e Americana, Hespanhol, Francez, Historia Natural (anatomia e physiologia), Pedagogia, 2, Critica, 2, Pratica, 6, Educação Physica.

4.º anno—Cosmographia, Historia Argentina e Americana, Litteratura, Instrucção Moral e Civica, Historia Natural (physiologia e hygiene privada e escolar), Pedagogia e Psychologia, 4, Critica, 2, Pratica, 9.

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