← Table of contents
Silva Porto e Livingstone

E LIVINGSTONE (continued 2)

Reading edition

futuro

. Disse mais que desejava viver retirado, e, se, com este intuito não haveria para o occidente uma terra para n'ella residir; respondi negativamente, visto que o illustre viajante havia delineado um segundo paraiso. E, interrogado mais sobre se em Loanda haviam hospedarias, e inglezes, respondi affirmativamente, accrescentando elle que, pretendia dirigir-se a Ribonda fazer algumas observações, e que no seu regresso aproveitaria o ensejo para me visitar; a que retorqui achar-me ás suas ordens.

No dia 7 alevantei com direcção ao nordeste a encontrar-me com os pombeiros de Miqueselumbue nas margens do Loengue, unicos que faltavam no estabelecimento de entre o grande numero que tinha despachado para diversas paragens, como acabei de dizer, e prompto para despachar pela segunda vez a comitiva para Moçambique, isto depois de ter recommendado o bom agasalhado do illustre viajante, como á minha propria pessoa.

Nos mattos, a dois dias de distancia, da terra de Miqueselumbue, isto é, depois de dezaseis dias de marcha, e no dia 22 de agosto, encontramo-nos, passando acto continuo a tomar contas aos diversos negociadores sobre a permutação que haviam feito. No entretanto, a minha missão não estava terminada; tinha vindo ao encontro d'esta gente, é certo; mas no seu numero faltava a arabe Ben-Habibe, a quem eu queria confiar a minha gente para a viagem de Moçambique, pelo julgar mais habil que seu tio Ben-Chombo, que já se tinha recolhido ao estabelecimento, e ambos haviam recebido fazendas minhas. Mas havendo ficado ainda á retaguarda, e não me sendo possivel ter mais demora, no dia seguinte 23 de agosto retrocedendo para o Lui,

cheguei

ao estabelecimento a 6 de setembro, tendo a noticia de que o soba Hiquereto, bem assim o illustre viajante, tinham partido para Rinhande cinco dias antes da minha chegada. Acto continuo mandei chamar Ben-Chombo ao qual propuz a commissão de Moçambique em companhia da minha gente, mediante o perdão da quantia em que tinha ficado alcançado, e a gratificação de cem pezos, no caso de bom exito, acceitando promptamente e ficando por consequencia á minha disposição; (ainda não satisfiz esta divida em virtude de se não ter apresentado o arabe depois que desempenhou a commissão) tratando-se unicamente n'este meio tempo dos preparativos das duas viagens: a de Moçambique realisada a 22, e a minha para o Bihé levada a effeito a 30 d'esse mesmo mez.

Posto isto, direi que, em referencia á terra não ser visitada por branco algum, antes, e mesmo no tempo de Sanduro, se o illustre viajante se désse ao incommodo de visitar o local onde jaz sepultado este mesmo soba, (todos os sobas depois de acclamados têem por habito construir a sua respectiva povoação, ahi residem, e ahi são enterrados, e sempre no valle de Lui) alli encontraria vestigios do contrario n'umas campainhas que foram do dito Sanduro: eis o que digo relativamente:

«

15 de setembro de 1867.

Hoje fui ao local de romagem dos sobas primitivos d'este povo, e, tambem dos senhores intrusos durante o seu dominio no paiz, que nada teem a admirar, exceptuando as Eçandeiras e Palmeiras que contam para mais de seculo de existencia, seguindo a posição das mesmas a fórma oval, como são todas as povoações dos selvagens; hoje, apenas apresenta a fórma semi-circular, visto que o tempo destruindo algumas da parte de sueste, damnificou de alguma maneira o todo pittoresco do local, em consequencia da situação que occupa no meio d'este descampado immenso, e despovoado de arvoredo, que, tem uma elevação de dez pés acima do nivel terreo, onde nunca chegou a agua, mesmo em annos de grande inundação; e que segundo informações dos velhos que me assistiram, foi mandado entulhar pelo soba Sanduro.

«Proximo do mesmo, sobranceiro ao Riambeje pequeno, do lado do norte, e junto, do lado de leste, existem duas povoações a cargo de cujos habitadores está confiada a sua limpeza; no centro, e junto de uma corpulenta Eçandeira, está a sepultura do fundador que com facilidade se distingue em virtude de oito grossas forquilhas de pau ferro com as hastes bastante compridas e agudas, e nas quaes o soba manda depositar uma peça de fazenda fina, (é primeiramente rasgada aos pedaços) logo que na terra faz entrada qualquer comitiva de sertanejos, e que ahi é consumida pelo tempo. Tambem ahi encontrei quatro campainhas antigas.

«Como fosse prevenido para o effeito, depositei egualmente quatro jardas de algodão e quatro campainhas pelos ditos paus, presenteando egualmente o chefe do local, velho de oitenta janeiros, com duas jardas de baeta, e missanga aos seus companheiros e para a turba que me rodeava; após o que me retirei, deixando todos satisfeitos da minha visita, quiçá, que anhelando outras identicas pelo proveito que d'ellas lhes resulta. Spleen de Londres, e vento vario de dia e de noite.»

De que parte sahiram essas campainhas antigas de que acabo de fazer menção: do Oriente ou do Occidente?

Quem é tambem o auctor do mappa de pequeno formato, antigo e portuguez, cujo auctor tanto tinha attrahido a colera do illustre viajante, pelo erro relativo ao rio Loanja?

O povo Lui segue o costume de beijar as palmas das mãos, e tambem o de se oscular, costume que ainda não vi reproduzido entre as mais tribus d'estas paragens; isto quando por qualquer circumstancia se avistam parentes e amigos, ou mesmo por caso fortuito se encontram; se o soba segue para a guerra, e dada a circumstancia de regressar victorioso, o povo de ambos os sexos acode pressuroso ao seu encontro para o victoriar. Como emblema da victoria, cada individuo previne-se de dois ramos verdes de arvore especial, que leva em cada uma das mãos, e chegado na margem de qualquer rio, lago ou lagôa, mettem-n'os como emersão na agua, tirando-os acto continuo, e espargindo-se á imitação de agua benta, e como que purificando-se.

Concluida esta primeira cerimonia, a um tempo, e seja qual fôr o numero de pessoas, todas em ala, com os ramos sempre nas mãos, canto monotono e candenciado, mas que tem um tanto de agradavel e harmonico, em louvor do soba e dos seus, pela victoria acabada de alcançar, a passo grave e candenciado, dirigem-se em ala para elle. A um tempo tudo se prosta de joelhos, dando principio de lhe beijar as palmas das mãos, alternadamente a direita e esquerda; primeiramente as pessoas de elevada jerarchia, seguindo-se após estas, as pessoas plebeias, isto por tres vezes successivas, tendo logar primeiramente a esparsão da agua, a fim de ter logar após a mesma, o beijar das palmas das mãos. Os osculos teem logar entre pessoas de egual jerarchia; o soba é tão sómente osculado por pessoas da sua familia, ás quaes tributa alguma consideração.

Dado o caso de ser em occasião do seu regresso, e depois de transpor os limites da capital, que a turba venha ao seu encontro, o soba pára, e egualmente o povo da guerra, a fim de ter logar a cerimonia que acabo de descrever: continuando da mesma fórma na libata grande, até que o povo em geral, da capital, tenha cumprido tal dever, acompanhado de tributo segundo o custume do paiz, mas tributo que se não torna oneroso, visto que cada pessoa deposita aos pés do soba aquillo de que pode dispor, e em virtude do habito de que ninguem se lhe apresenta sem que leve alguma cousa.

D'onde, pois, veiu tal habito ao povo Lui: dos missionarios catholicos ou protestantes? creio que d'aquelles e não d'estes, em presença de não haver exemplos em contrario.

Finalizo dizendo que na digressão por mim feita a encontrar-me com os pombeiros de Miqueselumbue, gastei até ao logar do encontro, dois dias áquem do rio Loengue, 16 dias. Para Moçambique, da primeira vez em que a viagem abortou, sahindo a minha gente como já disse do estabelecimento a 25 de março de 1853 até á terra do soba Camgomba, além do rio Lohunje, em 7 de junho do citado anno, 75 dias, sendo 46 de viagem e 23 de demora nos differentes pontos por onde transitou; recorrendo, pois, o illustre viajante ao seu mappa, e no qual grandes modificações teem a fazer, virá no conhecimento da falta que commetteu em se deixar levar das informações menos bem cabidas de Ben-Habibe.

Em identico caso estamos na minha precedencia ao illustre viajante a Loanda, bem assim na minha ida a Portugal. As minhas viagens até o presente, a partir da epocha em que tivemos a honra de nos conhecer-mos, teem-se limitado unicamente: da terra do Bihé para a cidade de Benguella, e vice-versa, e da terra do Bihé para o Lui, e vice-versa. E que, á imitação do illustre viajante poderia eu egualmente desmentir as suas palavras sob a asserção de ter visitado o Riambeje em companhia de Mr. Oswell, em 21 de junho de 1851, mas sim haver realisado tal excursão na sua segunda viagem em 1853, da qual data a sua visita á catarata Chungo ou Mosioatunia, visto que assim me foi affirmado por Hipopa, dizendo que na occasião em que o illustre viajante e Mr. Oswell, se dirigiam para Quiceque, tivera logar o seu encontro com a comitiva de Pepe e Hiquereto, que se dirigiam para Rinhande, em consequencia da morte do soba Hebitane, e que regressando, se retirára poucos dias depois para o Cabo, fazendo tal excursão na segunda viagem como acabo de dizer.

Faço simplesmente a narração, tal como me foi affirmada; mas não respondo por ella.

A paginas 120, o seguinte.

«Por occasião de encarecer a affeição dos Bechuanas aos filhos, quando estes ainda em tenra edade, diz o dr. Livingstone: «Tive conhecimento de varios casos de avós que amamentaram os netos. Masina de Kuruman não tinha tornado a ter filhos desde o nascimento de sua filha Sina, e não tinha leite depois que Sina fora desmamada, o que costuma ter logar quando a creança tem dois ou tres annos de edade. Sina casou quando contava dezesete ou dezoito annos, e teve dois gemeos. Masina, decorrido o intervallo pelo menos de quinze annos desde que amamentara o ultimo filho, pegou de uma das creanças e a poz ao peito, e o leite correu em tal abundancia, que ella poude só por si alimental-a. Masina contava então pelo menos quarenta annos.»

Vou egualmente corroborar o facto apresentado pelo illustre viajante. No Bihé havia uma familia oriunda de paes europeus, fallecidos muito tempo antes da minha chegada ao paiz; o chefe era homem que sustentava a mãe, velha sexagenaria, e duas filhas que vinham a ser netas da velha; das quaes, tendo-se amancebado a mais velha, que foi habitar para a companhia d'aquelle que a tinha escolhido para sua companhia, veiu a constar a familia unicamente de tres pessoas. Acontecendo porém este mesmo homem ter a desgraça de ser arguido de feiticeiro por um europeu, que levou a barbaridade a ponto de o mandar assassinar, segundo o estylo do paiz, ficou por consequencia a familia sem chefe, seguindo a avó, e a neta por tomar estado, para a companhia d'aquelle que, ainda não havia decorrido um anno tinha elegido para sua companheira a filha do homem barbaramente assassinado, e o qual cumprindo os deveres d'este, veiu a ser o arrimo da familia, succedendo por essa occasião dar a sua companheira á luz um infante, mas fallecendo poucas horas depois do parto.

A pobre creatura ferida no amago d'alma por dois golpes, se pode dizer repetidos, a perda do filho que era o seu arrimo, e após ella a perda da neta, sabendo ser delicto entre a tribu Quimbumda que reduz á escravidão a familia que em virtude de um tal acontecimento entregasse a creança a peitos estranhos para amamentar: toma o bisneto recemnascido em seus braços, e trata de cumprir o dever do amor maternal, alimentando-o a seus resequidos peitos, a que acorde copiozo alimento, o qual serve de conservar a existencia ao innocente por espaço de um mez, no fim do qual expirou, mas em virtude de doença que lhe sobreveiu.

Por egual extraordinario, talvez, em tal acontecimento, é a natureza ter produzido um ente em paiz culto, que em Africa, pela falta absoluta de conhecimentos, de mistura com a sua fraqueza veiu a adquirir os habitos dos selvagens, tornando-se uma fera como aquellas que habitam as selvas, por suggestões d'aquelles que o rodeavam. E para honra da humanidade taes actos apontam-se.

A paginas 158 o seguinte.

«As aldéas dos Barotse são construidas sobre defezas, algumas das quaes dizem que foram elevadas artificialmente por Santuru, antigo chefe dos Barotse, e, durante a inundação, todo o valle toma a apparencia de um grande lago, com as aldêas sobre as defezas como ilhas, do mesmo modo que succede no Egypto com as aldêas dos egypcios.»

Já tive occasião de falar d'este local onde jaz sepultado o pae do actual soba do paiz, unico que foi mandado aterrar por elle, e tambem de que ha exemplo; os mais logares ficam pelo descampado ou valle, onde residiram e foram enterrados os antecessores do actual soba, (a sua povoação corre de noroeste para sueste, é a maior que tem existido, e approximadamente contém duas mil pessoas; por occasião da inundação d'este anno não fizeram mudança, visto que a agua se conservou a vinte passos de distancia do local) e do povo Lui propriamente dito que em parte habita os lados marginaes ou encosta dos mattos, e em parte o descampado, sobre monticulos de maior ou menor ambito e elevação, nos quaes pela maior parte tambem cultivam o grão, que fica sempre de vez em antes de se realisar o periodo da inundação, á excepção dos logares proximos aos mattos, e mesmo por estes em ambas as margens do descampado, bem assim as dos monticulos de que acabei de falar; este povo não tem por habito cultivar a terra nos logares baixos do valle; emquanto a inundação vae tomando incremento, não lhe dão importancia, mas no momento em que principia a chegar ás povoações, e só n'este caso, então dão immediatamente logar á sua mudança para ambas as margens do descampado, porque é indicio da inundação tomar maior incremento, o que de ordinario tem logar nos mezes de janeiro e fevereiro, tendo logar o regresso nos mezes de abril e maio, nos quaes a agua vae diminuindo progressivamente. Para este effeito estão de ordinario prevenidos com as canoas, porque então se pode dizer um mar ou grande lago o geral do descampado, formando ilhas de maior ou menor ambito os monticulos como que espalhados por elle, e como seja o seu elemento favorito, e pelo qual de ordinario almejam; a caçada ao hipopotamo, e a de toda a especie de aves, em que então abunda, torna-se o seu divertimento de todos os dias: ao passo que a gente do sexo feminino passeia de uma para as outras povoações. Porém não havendo indicios de que a inundação vá em progressivo augmento, conservam-se nas suas localidades, sendo n'este caso o gado o unico objecto que não admitte de longar, porque effectuam de ordinario a sua transferencia no mez de dezembro, para ambas as margens do descampado; reservando unicamente aquelle de tirar leite, do seu uso diario, o qual, é mudado no caso de se verificar a mudança do proprietario, visto haver logares conhecidos dos indigenas por onde pode passar sem perigo.»

Foi pois Sanduro que mandou aterrar o local em que habitou, o qual não tem mais de uma milha em toda a sua circumferencia, isto provavelmente por ter escolhido para sua residencia, justamente uma ilha formada por um braço do Riambeje, a partir do lado de noroeste, a desembocar no de nordeste, e que tem a designação de Riambeje pequeno; paragem mais baixa que o geral do descampado. Na mesma ilha, em egual direcção, e na distancia de uma legoa, existe o local denominado Nariere, antiga côrte do povo Macorrollo, hoje inteiramente deshabitada como já disse. Fóra da dita ilha, em egual direcção, e na distancia de uma legoa egualmente, existe a povoação de Hipopa, da qual tambem acabei de falar.

A paginas 162 e 163 o seguinte:

«Terça feira 17 de janeiro (1854) fomos honrados (narra Livingstone) com uma grande recepção por Shinto. Sambanza reclamou a honra de nos apresentar, porque Manenko se achou um tanto doente. Os portuguezes nativos e os Mambari iam armados de espingardas a fim de darem uma salva a Shinto, fazendo o tambor e o trombeteiro todo o ruido que lhes era possivel com instrumentos muito velhos. O Kotta, ou logar da audiencia era uma praça de perto de cem jardas, e viam-se em uma das extremidades dois agradaveis specimens de uma especie de Baniána, (arvore, cujos ramos pendem para a terra, e, tomando n'ella raiz, engrossam e formam novos troncos, etc., «Eçandeira, ou ulemba dos Quimbundos; existem seis especies.») Debaixo de uma d'ellas estava assentado Shinto, sobre uma especie de throno, coberto com uma pelle de leopardo; trajava com véstia variegada, saiote de baeta vermelha agaloada de verde, pendiam-lhe do pescoço muitos fios de contas grossas, e os braços e as pernas enfeitadas de braceletes e varios ornamentos de ferro e de cobre, na cabeça tinha posto uma sorte de capacete feito de contas de vidro entretecidas com primor, e coroado de grande penacho de pennas de pato. Proximo a elle estavam assentados tres mancebos com grandes feixes de settas sobre os hombros, etc.»

Admiramos unicamente a belleza do estylo empregado pelo illustre viajante no trecho que acabamos de reproduzir, e seguintes, descrevendo a recepção que lhe fez o soba de Catema, que a falar a verdade nem merece as honras do titulo, não porque o queira humilhar, mas pelo papel que representa, elle e todos os mais do dominio da Lunda perante o seu Suzerano, ou dado o caso de virem enviados d'este a exigir-lhes tributo, como adeante terei occasião de falar.

Entre as tribus Ganguellas ou Quimbundas constituidas pela maior parte sob a fórma republicana, poderiam gozar das prerogativas de estados de segunda ordem, porque então poderiam taes sobas dizer-se,

senhores

do

quero, posso e mando

; mas debaixo do jugo ferreo do Matiamvo, tornam-se simples automatos da sua vontade.

O illustre viajante deve de estar ao facto do tratamento dado por Hiquereto áquelles potentados que se lhes apresentavam com tributo, ou mesmo teria ouvido falar das extorsões feitas pelos seus emissarios, quando, enviados em qualquer commissão aos ditos sobas, que, por via de regra, vinha a ser pela tardança de tributo, faziam e fazem ainda presentemente (e quando deixarão de o fazer!) pelas suas localidades: pois n'uma e n'outra terra é identico o tratamento; com a differença porém de que, no Lui não fazem ostentação dos assassinatos prepetrados e mandados perpetrar; ao passo que na Lunda é um acto de glorificação do Matiamvo. Posto isto, passaremos a narrar os factos taes como se passam, e cujos significam o reverso da medalha.

Os sobas Chinde, Catema e Catende, que são precisamente aquelles por onde transitou o illustre viajante, em antes da extincção do trafico e quando os elephantes percorriam os seus respectivos dominios, vendiam escravos, e tributavam com elles o Matiamvo, correndo-lhes tudo por esse motivo ás mil maravilhas, monteando-se aquelles animaes á imitação dos outros, para seu alimento, ficando, por consequencia, os dentes no mesmo local em que era morto o elephante, expostos á deterioração e sem que ninguem os procurasse, (presentemente ainda se dá esta celebre anomalia para o sul além do rio Cubango, nas paragens percorridas pelos Cassaqueres); mas findo o trafico as coisas tornaram-se outras; o marfim teve principio de ser procurado, os indigenas deram principio egualmente de o pôrem debaixo de guarda; e tendo finalmente logar d'essa epocha por deante o tributo de escravos e marfim para o Matiamvo, em virtude das suas ordens.

Os caçadores Quibocos como fossem conhecendo o valor d'este genero em presença dos concorrentes, principiaram no seu paiz de mover guerra de exterminio aos mesmos animaes, que afugentados por esse motivo, se foram internando pelo interior, onde da mesma fórma se lhes continuou tal guerra, pela ambição a que o marfim tinha dado origem, ficando o caçador com o dente esquerdo e dando o direito ao senhorio em cujo dominio era morto o elephante. A perseguição não diminuiu; pelo contrario, foi em progressivo augmento, visto que já se não falava em escravos pelas mesmas terras, mas sim a ordem do dia era marfim, porque ao passo que affluia ao mercado do littoral, ia tendo alta de preço; dando-se por consequencia a mesma circumstancia pelos differentes pontos do interior. A isto se deve a descoberta de novos mercados, de outras terras, e finalmente de outras tribus, até então desconhecidas. Os elephantes foram escaceando no dominio dos tres sobas que acabei de designar, e outros, até o seu total desapparecimento; e como era forçoso de apresentar tributo annualmente ao Matiamvo, faziam-no com escravos, fazenda, missangas, pelles e alguns dentes de marfim, quando os podiam obter dos caçadores; em presença de que, se tornava excessivamente oneroso tal encargo, visto que para arranjar fazendas e missangas sufficientes, se lhe tornava necessario dispôr de dez escravos, termo medio, além d'aquelles com que tributavam o seu suzerano. Por este motivo a decapitação de taes sobas principiou a ter logar mais amiudadamente, já na occasião em que se apresentavam com o tributo na côrte, já mandando o Matiamvo saber porque motivo se demorava o tributo além do tempo marcado; se por um lado quando se apresentam, ficavam por via de regra desempedidos, pelo outro ficavam detidos de permeio com o povo de que eram acompanhados, empregando-os em todo o serviço que lhes era destinado, até que ao cabo de um ou dois mezes, e ás vezes mais tempo, lhes era permittido regressar aos logares de suas naturalidades. Se, pelo contrario na occasião em que se

apresentavam

com o tributo, o Matiamvo não ficava satisfeito com qualquer dos apresentantes, em acto continuo o mandava decapitar, depois de lhe tiraram do pulso a insignia do poder, que vem a ser uma manilha ou bracellete de metal, envolvida em certos e determinados preservativos do seu conhecimento e superstição, que acto continuo vão depositar aos pés do Matiamvo. Este, pegando n'ella e depois de ter mandado vir á sua presença o successor immediato da victima, porque necessariamente deve acompanhal-a, depois de lhe recommendar o bom regimen do seu dominio, e o que deve fazer em relação ao tributo, entrega-lhe a insignia do poder, que o investe no mandato do seu decapitado parente, ficando por consequencia habilitado para o exercer, se por acaso não vier a ter egual sorte.

Verificando-se porém o caso de que o Matiamvo envie emissarios ao dominio de taes sobas, estes tornam-se martyres das extorsões que lhes são feitas, e emquanto não são despedidos, a sua auctoridade torna-se nulla na povoação; havendo alguns, como tem acontecido, que fazendo observações contra tão insolito procedimento, o enviado puxando do

Mucuale

(facão de dois gumes) decepa-lhe a cabeça sem mais ceremonia que a sua vontade, e sem opposição da parte do povo da povoação, tira-lhe do pulso a insignia do poder, que entrega ao successor immediatamente, dizendo-lhe simplesmente que seja mais pontual que o seu antecessor no desempenho das ordens do Matiamvo; depois de mandar preparar o craneo, isto é, raspar por dentro e por fóra a fim de lhe serem extrahidas todas as particulas admissiveis de putrefacção, para ser guardado cuidadosamente com outros que teem egual sorte, e que na sua retirada para a côrte, apresenta como tropheus na presença do senhor, que lhe diz simplesmente ter cumprido o seu dever, dando-lhe a maior importancia proporcionalmente á maior porção de objectos de valor, lhe fosse possivel conduzir á sua presença.

Algumas vezes subornados pelos ambiciosos do poder, estes mesmos enviados do Matiamvo, a que dão o nome de

Cacoattas

, ao entrar na libata grande do dominio a que se dirigem, intimam o soba existente a fim de abandonar o logar para que o seu successor o possa occupar, o que executa acto continuo sem mais observações, não lhe sendo permittido levar coisa alguma, além das pelles ou pannos que tinha no corpo, e com os quaes o encontraram na occasião; porque lhe advertem immediatamente, que, tudo quanto existe na povoação pertence ao Matiamvo. As pessoas que lhe são affeiçoadas só depois da retirada do enviado é que se lhe vão aggregar, e, se na occasião da expulsão se não lembrou de entregar a insignia do poder, seguem logo emissarios em seu alcance para que a restitua, e no que tambem não faz a menor objecção, visto que por felizes se reputam aquelles a quem a sua boa estrella concedeu semelhante graça.

Finalmente, taes atrocidades são frequentes, e os Cacoattas tornam-se os flagellos dos sobas secundarios; taes oppressões teem dado logar a que alguns se tenham rebellado, mas não obstam ellas, os pretendentes ao poder são muitos, e não são exemplo a causar-lhes a menor impressão, visto que do acontecimento de hoje já ninguem fala ámanhã; advertindo, que, não é só entre os Mulluas que ellas se dão e repetem, os mesmos episodios são identices no Batebere, no Cazembe, no Lui e entre o povo Macorrollo, potentados poderosos para estas paragens.

Para além, isto é para o Oeste, entre a raça Quimbunda que se pode reputar excepcional, temos as seguintes terras de potentados poderosos: Bailundo, Bihé, Gallangue e Quiaca; mas n'ellas as unicas barbaridades que se dão, vem a ser o assassinato de quatro pessoas, o maximo, no governo de cada potentado para differentes preservativos, em virtude da arreigada crença de seus antepassados, bem assim a de feiticeiria, que, leva a perpetrar o assassinato por differentes fórmas, na pessoa do desgraçado que fôr arguido de tal epitheto.

A paginas 175 e 176 o seguinte:

O dr. Livingstone censura Manuel Caetano Pereira de ter exagerado egualmente o seu poder. «Indagando eu, escreve Livingstone, se ainda se faziam sacrificios humanos no reino de Cazembe, como no tempo de Pereira, informaram-me que taes sacrificios nunca tinham sido tão communs como Pereira os representara, e que só tinham logar occasionalmente, quando o chefe carecia de certos encantamentos, porque então era morto um homem por serem para aquelle precizas algumas partes do seu corpo.» N'outro logar accrescenta: «O Cazembe além de ser visitado por Lacerda, tambem o foi por Pereira, que deu do poder d'aquelle chefe grandiosa informação, a qual não foi confirmada pelas minhas investigações».

Se bem que tenha acabado de tratar da materia, e, se bem que sob differente assumpto, o volver a ella nunca se torna demasiado. Assassinar sob que pretexto fôr, sempre é commetter o homicidio; o illustre viajante esquece aquelles que continuamente commettia Hiquereto, não obstante a sua assidua assistencia entre os Macorrollos, a quem, se não diariamente, ao menos uns dias por outros, fazia ouvir a palavra da Biblia, como descida do ceu, para se dar ao incommodo de investigar o que outros escriptores, muito tempo antes, relatavam sobre o assumpto, no qual pecca como em todos os outros, por menos veridico nas asserções.

Como pode ser que taes assassinatos tenham logar occasionalmente, dada a circumstancia de se tornarem necessarios para os preservativos d'esses mesmos poderosos potentados?! Se o seu instincto é a sede de sangue, com elle são ammamentados, e n'elle iniciados, até que assumindo o poder se fartam á semelhança do tigre que habita as selvas! E, porventura, se taes crueldades não fossem continuas, o seu poder não seria ephemero? Decerto que o seria, visto que para se sustentarem n'elle, ellas são perpetradas com assiduidade, até que uma conspiração urdida nas trevas, em presença de uma indisposição qualquer que elles sintam, lhes põem termo á existencia, já propinando-se-lhes veneno, já torcendo-se-lhes o pescoço, e já finalmente a decapitação, se um chefe audacioso preside á conspiração. O herdeiro assumindo as redeas do governo, não modifica estas disposições tradicionaes do seu codigo, cumpril-as-ha á risca, se porventura se não tornar mais sanguinario.

Enviando uma expedição qualquer contra um estado rebellado, o chefe e seus adjuntos devem apresentar no regresso o sacco dos craneos do soba e mais pessoas de subida jerarchia do mesmo estado, que despejam com grande ceremonial aos pés d'esses grandes potentados (Matiamvo e Cazembe), e que acto continuo vão designando a quem pertenceram, porque é n'isto que se cifra a sua maior vaidade; após este acto segue-se a entrega do despojo, que, por via de regra é o que reservam para o fim do ceremonial. Se, pelo contrario, em logar d'estes signaes de victoria, foram derrotados, apresentando-se dando conta do successo, sejam quaes forem as razões que possam allegar, ellas tornar-se-hão baldadas perante o suzerano, porque a um signal seu particular, são mandados retirar da sua presença, a fim de serem decapitados, um a um, sem o menor queixume da sua parte por lhes ter chegado a sua ultima hora.

Este ceremonial de caveiras, tem logar unicamente no Cazembe, e na Lunda, na terra do Luvar, entre a raça Ganguella, se o soba segue para qualquer excursão, bem assim por occasião da sua morte; agora, entre o povo Batebere, Lui, Macorrollo, não se dão ao incommodo de decepar cabeças, o assassinato sendo perpetrado á azagaia, e na presença do soba; o cadáver é arrastado para fóra da povoação, onde é consumido pelos animaes; e sendo commetido fóra, ahi mesmo o deixam ficar para ter egual destino; que seja proximo ou distante é coisa que pouco importa.

Finalmente, em relação ao poder do Cazembe, direi que é elle muito fraco para affrontar o poder do Matiamvo, mas muito forte para o repellir em caso aggressivo. O illustre viajante sabe perfeitamente o proverbio: Duas aves de rapina não se fazem companhia; no mesmo caso temos ambos os chefes indigenas e consanguineos.

A folhas 203 o seguinte:

A situação do Bihé não é bem conhecida. Estando nós em Sanza, asseveraram-nos, que demora ao sul d'aquelle ponto, a oito dias de distancia. Esta noticia pareceu confirmar-se pelo facto de encontrar-nos muita gente, que vinha do Bihé para o Matianvo (Sobre este ponto consulte o Diario de Joaquim Rodrigues á sahida do Bihé) e para Loanda. Toda esta gente veiu reunida até Sanza, e alli se separou, tomando uns para o nascente, e outros para oeste. A nascente do Coanza por conseguinte não fica provavelmente longe do Bihé.»

«A 10 de dezembro de 1853 digo o seguinte―«Continuámos a viagem, passamos o rio Quanza em ponte e a vau; n'esta paragem de quatro braças de largo, e d'ella á sua nascente dois dias de viagem. Proseguimos a marcha, e fomos fazer quilombo nos mattos, margem direita do dito rio. Caminho plano, mattos fechados, abundancia de riachos, terreno fertil, legoas andadas 3, rumo de leste.»

Mais tarde pude colher a seguinte informação: Que o rio Quanza procede de um lago sito no local denominado Gunda-angongo, povo de raça Ganguella da tribu Nhemba. Em relação ao Riambeje disse já o seguinte: «Concedendo, pois, que assim não seja como acabo de transcrever, é fóra de toda a duvida que, qualquer rio caudaloso aqui em Africa, vadiavel que seja com agua pela curva da perna, d'ahi á sua cabeceira não pode distar mais de quatro dias de jornada, a experiencia assim m'o tem ensinado.»

Posto isto, direi ser applicavel o que fica dito ao rio de que nos estamos occupando, e que concordamos inteiramente com a opinião do illustre viajante, pelos exemplos que passamos a apresentar.

Rio Nhengo

,

Ninda

na sua cabeceira: Direcção de Oeste para Leste, leito de areia e pedra, e de margens apauladas; da sua nascente á sua desembocadura no Riambeje, nove dias de marcha; vadiavel nos quatro primeiros dias a partir da mesma, d'ahi por deante a partir para a sua foz, percorre-se em canoas.

Rio Cutti

: Direcção do Norte para o Sul, leito de areia e argilla, e de margens apauladas no espaço de duas milhas, isto é da margem direita para a esquerda do matto; da sua nascente á sua desembocadura no rio Quando, oito dias de marcha; vadiavel nos quatro primeiros dias, a partir da mesma, e d'ahi por deante a partir para a sua foz, é percorrido em canoas.

Rio Cubangui

: Direcção do Norte para o Sudoeste, leito de argilla, pedra e areia, e de margens apauladas; da sua cabeceira ávante quatro dias; já não dá vau, tornando-se necessario construir ponte para se passar para a sua margem esquerda; dirige o seu curso para o rio Quando.

Rio Quando

: Direcção do Norte para Sueste, leito de argilla e areia, e de margens apauladas; da sua nascente ávante quatro dias, offerece passagem em ponte e a vau; d'ahi para a sua foz no Riambeje proximo a Quiceque, é percorrido em canoas.

Rio Caimbo

: Direcção de Nordeste para Sueste, leito de argilla, pedra e areia, e de margens apauladas; a sua nascente procede de um lago, e d'ella ávante dois dias, offerece unicamente passassem em ponte e a vau, com difficuldade, pelo motivo da sua corrente veloz; d'esta passagem á sua foz, no rio Quando, é percorrido em canoas.

Rio Cuttau

: Direcção de Sudoeste para Noroeste, leito de areia, e de margens apauladas; espraia muito, e por este motivo se pode dizer vadiavel até á sua foz no rio Lunguébungo; este dirige o seu curso Para o Riambeje.

Cuito da Zambueira

: Direcção do Norte para o Sul, leito de argilla e areia, e de margens apauladas; da sua nascente ávante cinco dias offerece passagem a vau, e em ponte, e d'ahi para a sua foz no Cubango, é percorrido em canoas.

Rio Varia

: Direcção do Sul para o Norte, leito de argilla; da sua nascente ávante cinco dias, offerece unicamente passagem em ponte, e ávante tres dias na sua desembocadura no rio Cuime, (este tem a sua foz no Quanza) é percorrido em canoas.

Rio Quanza

: Direcção do Sul para o Norte, leito de argilla e pedra, e margens de argilla; oito dias da sua nascente ávante, no porto do Cuio, onde se passa em canoas.

Rio Cuquema

: Direcção de Nordeste para Sudoeste, leito de argilla e pedra, e margens de argilla; cinco dias ávante da sua nascente, no porto do Bissongue, onde se passa em canoas, dando-se a mesma circumstancia d'ahi para a sua foz no Quanza, nos dois dias a percorrer. Finalizo dizendo que os rios que ficam notados, existem a partir do Lui para o Bihé, e vice-versa, e aquelles unicamente cujas cabeceiras se passam, ou existem distantes do caminho do transito os dias que ficam marcados; o que julgo sufficiente a provar o que fica dito em relação aos rios Quanza e Riambeje.

A ps. 256 o seguinte:

«Chegado ao rio Loembua, no proseguimento da marcha começada, refere o dr. Livingstone, que a presença de um homem branco infundio terror nas mulheres, e que, n'estes casos, pareciam muito contentes quando elle dr. Livingstone acabava de passar sem se ter apoderado d'ellas; que o espreitavam das fendas das portas, atê que elle se approximava, e então se recolhiam fugindo para o interior da casa.»

O illustre viajante quiz mostrar mais uma vez, a degradação a que chegou por estas paragens o immoral e escandaloso commercio de escravos, dando logar a que o bello sexo horrorisado nem se atreva de apparecer aos olhos dos desmoralisadores traficantes de entes humanos, verdadeiro flagello da humanidade n'esta parte do mundo chamado Africa. Mas isto em relação á situação reciproca de duas partes mutuantes na acção de contrahir um negocio qualquer; jámais no caso de aprisionamento de pessoas, que se torna muito mais melindroso como aconteceria com a

aldeia inteira de Bakalakau

; tal procedimento daria causa a graves represalias, como então tive occasião de fazer ver, e ao facto de correrem muito risco todos os sertanejos do Bihé, Caconda, Cassange, Pungoandongo, de Quilengues, que não obstante partirem de pontos oppostos, muitas vezes se encontram pelo interior d'este vasto continente; mas quando se não desse essa mesma circumstancia, quem deixará de ignorar que piratas não necessitam de negociar?

Aqui tem o illustre viajante o reverso da medalha. Depois de se transpor os rios Cuquema e Quanza, as comitivas do Bihé são honradas na pessoa do seu chefe, pelas pessoas de ambos os sexos em massa, das povoações dos Ganguellas das tribus Luchiajé, Bunda, e Zambueira, nas terras por onde passa, da maneira que segue:

O nosso senhor veiu! O nosso branco veiu! O nosso amigo veiu!

Isto á apparição do chefe da comitiva, batendo palmas continuamente, e fazendo-lhe um cerco entre o qual com difficuldade caminham os conductores da tipoia. E no momento em que elle tenha transposto a povoação, o povo, da mesma sorte corre precipitadamente para a frente, a fim de repetir a mesma ceremonia que finda depois de terem acompanhado o negociante na distancia de uma a duas milhas, retrocedendo então depois de cançados ás povoações d'onde sahiram.

Entre a tribu dos Quibocos, estas demonstrações de jubilo excedem muito além do que acabo de referir, porque aturam pelo espaço de dois a tres dias, acompanhando a comitiva com seus generos, que permutam logo que se acha concluido o trabalho de construir o quilombo, retrocedendo ás suas povoações ao cabo do dito espaço; agora, se o illustre viajante não recebeu applausos semelhantes, muito principalmente tendo effectuado a sua passagem pela terra d'esta tribu, é isso devido ao pequeno numero de pessoas de que se compunha a sua comitiva, limitando-se por consequencia a vel-o pelas frestas das portas, como diz; mas não com receio de que aprisionasse pessoa alguma, ou mesmo de que fosse anthropophago, como as mães persuadem ás creanças indicando-lhes a approximação de qualquer europeu, á maneira de papão, a fim de as adormecer.

Finalmente, não tendo o condão de adevinho, não obstante achar-me no paiz onde em larga escalla se exercita essa arte, quer-me parecer que foi a obra do illustre viajante que em 1866 ou 1867 deu logar a tanto alardo na camara alta em Portugal para a total suppressão da escravatura em todas as possessões portuguezas, não reflectindo jámais os nossos legisladores que é um negocio assás melindroso de um traço de penna acabar com ella, e que além d'isso temos uma lei que fixa para 1867 a mesma suppressão.

Quaes são as medidas já adoptadas depois do celebre decreto de 22 de abril de de 1858, para que aquelles que podem mandar, tenham aquelles que sabem obedecer?

Responderão: o trabalho livre! Esperemos e veremos.

A ps. 261 o seguinte:

«Como d'este ponto (do Zambeze interior) deviamos separar-nos para o nordeste, resolvi-me a visitar na seguinte manhã a catarata Victoria, chamada pelos indigenas Mosioatunia, e mais antigamente Shonguê (Chungo?) Tinha-mos ouvido fallar d'ella desde que entramos n'estas terras, e uma das perguntas que me fez Sebituane foi «Tendes na vossa terra fumo que faça estampido? Elles (os indigenas) não se atrevem a approximar-se tão perto que possam examinal-a; porém, referindo-se ao vapor e ao estrondo «Mosi-va-tunia» o fumo alli estrondea. Outr'ora a catarata chamava-se Shonguê, mas nunca pude saber a razão de lhe darem este nome. A palavra que entre elles designa a vasilha de cozer a comida tem similhança com aquella, e acaso quereriam significar uma caldeira a ferver, comtudo não tenho certeza d'isto. Persuadido de que Mr. Oswell e eu fomos os primeiros europeus, que visitámos o Zambeze no interior do paiz, e de ser esta catarata o annel que prende as duas porções, conhecidas e desconhecidas, d'aquelle rio, decedi-me a usar da mesma liberdade com que se auctorisaram os Makololo, e lhe dei aquelle nome inglez, sendo esta a só occasião em que appliquei um nome da minha nação a alguma parte das terras que investiguei...»

Chungo

,

namatittima

,

imbôto ea mahenza

: «D'aquelles local (o abysmo) sae fumo, que molha a gente, e que atemoriza como o fragor do trovão,» dizem os indigenas do local, tribu Baleia ou Guete (nome generico pelo qual é denominada esta numerosa familia composta de diversas tribus) d'estas paragens. «

Mosi-oa-tunia

:―«O fumo alli estrondea», diziam outr'ora os Macorrollos, ao approximarem-se do local d'onde sahem as columnas de fumo da catarata, e que por assim a terem chrismado, assim se ficou denominando.―

Victoria falls

, repete o illustre viajante á imitação dos intrusos senhores, querendo coroar a obra da sua gloria na parte conhecida e desconhecida, do grande manancial.

Eu penso, e creio não me enganar, que se os Macorrollos a um tempo se fossem precipitar no abysmo da catarata que chrismaram como acabei de dizer de Mosioatunia, o illustre viajante não os seguia, visto que a sua prudencia assim lh'o aconselhava, mas já o amor proprio lhe não permitte recusa na denominação em paiz estranho, a objectos, applicando-lhes nomes do seu paiz natal, porque ao passo que o quer engrandecer, tambem engrandece a sua pessoa! Vaidade das vaidades, e tudo vaidade.

Eis os nomes que lhe são applicados pelos indigenas aos differentes pontos do seu curso a partir do Lui para Quiceque, e vice-versa.

Sioma.

Povoação proxima da catarata;

Gonhe.

Principio da catarata, e no qual as canoas são conduzidas por terra em virtude dos escolhos.

Cale.

Local mais ávante por onde passam as canoas com praticos.

Luço.

Local mais ávante por onde passam as canoas com praticos.

Gambue.

Local mais ávante, no qual as canoas são conduzidas por terra em virtude dos escolhos.

Lucibe.

Local mais ávante por onde passam as canoas com praticos.

Molele.

Local mais ávante por onde passam as canoas com praticos.

Acicuti.

Local mais ávante por onde passam as canoas com praticos, bem assim onde habitou o fundador de que ha tradicção, do mesmo nome, e chefe da tribu Baleia.

Chungo.

Mosioatunia, synonymo do primeiro nome; fim da catarata e local do abysmo, e no qual as canoas são conduzidas por terra em virtude dos escolhos.

E, eis o que digo egualmente em 23 de julho de 1858 sobre o assumpto:

«23. Continuámos a viagem por mattos fechados, e chegamos na cachoeira do Riambeje, sitio Catongo, onde se fez quilombo. Paragem de transito sem inconveniente algum, terreno fertil, horas de marcha 9

1

⁄

2

, rumo de sul.

«Estamos nas margens do magestoso rio sem rival n'estas paragens, que banha com suas aguas os contornos de Senne, Tete e Quilimane; o seu curso é apenas interrompido por tres cachoeiras, prestando no mais do seu transito, livre e seguro apoio áquelles que com as suas canoas, sulcam as suas aguas. N'esta paragem que terá de extensão seis legoas, as canoas em partes são carregadas por pretos, e em outras proseguem na sua carreira pelos differentes braços que sahem do rio; formando este aqui e alli, ilhas de maiores ou menores dimensões, cheias de arvoredo secular, e em outros logares de cannaviaes impenetraveis; bem assim, os contornos cheios de arvoredo gigante. O rio comprimido aqui pelas suas margens alcantiladas, em partes cobertas de areia mui fina e clara, que as enchentes vão accumulando segundo a direcção do seu curso, formam um contraste inteiramente sublime; o terreno contiguo n'esta estação todo gretado, bem assim algumas lagoas cheias de pedras, acham-se cobertas de espessas camadas de sal, que os naturaes preparam com alguma perfeição. Finalmente, o dr. David Livingstone, penna intelligente a toda a prova, e que bastantes serviços tem prestado á causa das sciencias, e a prol da humanidade, por vezes tem percorrido estas paragens em investigações scientificas, ninguem, pois, melhor que elle, poderá apresentar o quadro completo da topographia do paiz, cousa muito fóra da esphera dos meus conhecimentos, como o meu amigo leitor facilmente deverá comprehender, e que me não envergonho confessar.»

A ps. 286 o seguinte:

«N'outro logar conta Livingstone que, achando-se na tribu de Mpende, cujo chefe lhe difficultára o passo, dous velhos vieram, de ordem d'este, perguntar-lhe quem era. E que lhes respondera. «Sou inglez.» A isto replicaram os velhos que não conheciam aquella tribu, e que suppunham que elle e os seus eram Muzungos (portuguezes) com os quaes n'outro tempo haviam combatido. «Então (accrescenta Livingstone) como eu ainda não sabia que a palavra Muzungo era applicada aos portuguezes, e pensei que queriam com ella designar os mulatos, mostrei-lhes o meu cabello e a pelle do meu peito, e perguntei se os Muzungos tinham o cabello e a pelle como eu? Como os portuguezes costumam cortar o cabello rente, e são além d'isso menos claros de que nós, os velhos responderam. «Não, nós nunca vimos pelle como essa tão branca.» E continuaram «Ah! vós decerto pertenceis á tribu que tem coração para os homens pretos.» Eu com satisfação lhe respondi que sim, etc.»

Diz inconsideradamente o illustre viajante: «Sou inglez»! Julgaria por ventura que a Inglaterra enviasse a sua esquadra e desaggravar o seu assassinato, dado o caso de que os selvagens o tentassem?! Felizmente que taes arrogancias áquem Bihé, não se podem contar e apontar, ao passo que além, a partir da mesma terra para o litoral, não só se apontam, como infelizmente se contam repetidas! E, ai quando tal se realizasse na pessoa do illustre viajante, em presença do seu caracter um tanto irrascivel, não teria por certo direito a melhores honras, que aquellas que tiveram tantos outros portuguezes, cujas ossadas insepultas por essas mesmas paragens, reclamam incessantemente dos transeuntes a oração funebre pelo eterno descanço de suas almas, já que outra cousa não podem obter em desaggravo do seu desastrado fim.

O sr. Gamitto diz-nos no seu

Muata Cazembe

que, os chefes designam os portuguezes por Muzungos. Segundo o mesmo sr. a raça de Cazembe dá-lhes egual denominação. A raça da Lunda chama-lhes

Hinder oe comema

; a raça dos Ganguellas,

Sungo

, e a antecedente, bem assim,

Hinder ea numba

; a raça do Luvar dá-lhes aquellas denominações, a raça dos Quimbundos,

Sungo

; a raça Bunda, de Angola e suas dependencias:

Sungo

, e

Cangundo

; a raça Lui e Macorrollo:

Macua do Oriente

, e

Macua do occidente

, indicando as ditas partes do globo. Pela mesma maneira designarão o Allemão, o Belga, o Hespanhol, o Francez, o Inglez, e finalmente o Russo, em virtude da sua côr, de natos da mesma parte do globo, de filhos de além mar; mas não que sirva a distinguir uma raça qualquer, como o illustre viajante quer fazer acreditar. Que nos venha dizer que, este ou aquelle regulo se não chame Hiquereto, sua segunda Providencia, e que em virtude da sua indole, fizesse menos preço da sua pessoa, levando a audacia ao ponto de o querer impedir na jornada, é cousa que se entende, mas não a insinuação opprobriosa sob o nome portuguez, simplesmente pela circumstancia de alguns membros da mesma familia empregarem-se, no odioso trafico de escravos; o que não está em harmonia com a posição que occupa na sociedade, e muito menos com o caracter de que se acha revestido. A não ser essa sua segunda Providencia, torno a repetir, o illustre viajante teria effectuado a sua viagem a Loanda auxiliado por esses mesmos a quem amiudadamente pretende expor no pelourinho da irrisão publica, como empregando-se n'um genero de vida que já de ha muito deixou de ser. Teria egualmente effectuado a sua viagem a Moçambique auxiliado pelo bom governo portuguez, a cuja fraqueza deve o bom exito da sua viagem de Costa a Costa, para mais tarde o escarnecer, como effectivamente o fez;... a retribuição seria sempre a mesma!

Oh! se esta bella joia engastada como está na corôa de Portugal, pertencesse á de França ou da Inglaterra, o commercio da escravatura far-se-hia sempre, então, não direi que para possessões estranhas, mas sim nas proprias; havendo a certeza de que uma potencia não tomaria contas á outra por semelhante procedimento. O illustre viajante percorrendo Africa como acaba de realisar, diria então: Acabo de fazer a minha digressão na terra por excellencia denominada a oitava maravilha do mundo, visto que está ainda por vir á luz. Mas se bem que lhe pese, ella pertence a Portugal, e isso é sufficiente para a desacreditar, não obstante os obsequios com que por toda a parte foi honrado.

As vicissitudes do acaso são assim, um tanto inconstantes para os individuos como tambem para as nações, e para fortuna sua e dos seus, um Pombal é como um meteoro; apparece de tempos a tempos, para desaggravar e elevar a sua patria.

Qual será o potentado poderoso ou secundario em Africa, que abomine o trafico da escravatura? Se d'ahi lhe provém a sua grandeza, que se pode dizer ephemera, porque para se sustentar no poder, tem necessariamente de ser prodigo!... E a prodigalidade é exercida em virtude dos pleitos que quotidianamente decidem, e dos quaes são provenientes os escravos, o gado, a fazenda, as enchadas, a cera, alguma ponta de marfim, e finalmente toda a especie de creação miuda, fonte principal do seu rendimento; visto que nem todos se podem chamar senhores da Lunda, Lui, Cazembe, Batebere, Risucatebe e Macorrollos, onde abunda o marfim; os Ganguellas, onde apparece o marfim e abunda a cera; o Humbe, onde apparece o marfim e abunda o gado, mas que tambem permutam os escravos em maior ou menor escala, attendendo a ser a força principal da sua população.

Embora a total suppressão se approxime do termo, o illustre auctor do

Exame

pode ter a certeza de que o trafico não cessará jámais além do dominio das Quinas, visto que ahi se dão egualmente lucros para especuladores; compram escravos para o serviço, para a troca do marfim, da cera, do sal, do gado e finalmente para satisfazer Milongas (crimes), como já tive occasião de falar.

E como poderá deixar de ser assim, se os escravos e o gado, são os unicos dois elementos que fórmam a riqueza principal e unica de todas as classes, aqui no interior d'este grande continente?

Estudem primeiro o caracter, a indole, as leis tradicionaes, usos e costumes dos seus habitantes, e depois falem-nos do odioso trafico da escravatura, visto, repito, que não ha nenhum potentado poderoso ou secundario que o abomine.

É certo egualmente que sem restricções o condemna a doutrina de Jesus Christo, mas tambem não é menos verdade que ella manda illuminar os pobres de espirito, a fim de que venham no conhecimento dos beneficios recebidos e por receber.

E, já que desgraçadamente em tudo imitamos o extrangeiro, imitemol-o egualmente na formação de companhias para o bem estar das nossas possessões, no tocante a religião, civilisação e progresso; a fim de não estar-mos unicamente com a mira no governo. Agora, prestar-se-lhes taes beneficios sem o previo conhecimento d'elles, é, creio-o, do intimo da minha alma, procurar a nossa ruina. Quem lá chegar o reconhecerá, como diz o rifão.

Acabo aqui o meu trabalho bastante desagradavel pelo motivo que lhe deu origem, e, logo que o illustre viajante traz para a arena o incidente de triste recordação para os portuguezes do

Charles e George

, responderei que, sou da opinião d'aquelles que preferem morrer na brecha, a ver a sua patria ludibriada, visto dizer-nos o sr. conselheiro Bastos que: «Antes inveja que piedade, vale mais ser invejado que lastimado». N'este ultimo caso existe a infeliz e desditosa Polonia! E, mal da Inglaterra se todos os seus filhos nutrissem sentimentos eguaes aos do illustre viajante, porque então seria a unica dominadora do mundo, ou riscada do mappa das nações.

Fim

Passo agora a transcrever o documento a que me referi, e que devo á bondade de João Francisco da Conceição e Mattos, filho do agraciado; por elle se virá no conhecimento, que a nomeação de capitães móres do paiz é muito anterior a 1791.

Manoel de Almeida e Vasconcellos, Cavalheiro da Sagrada Ordem de S. João de Jerusalem de Malta, do conselho de Sua Magestade Fidelissima; Governador e capitão general d'este Reino, e suas Conquistas, etc. etc. Faço saber aos que esta Minha Carta Patente virem, que por justas considerações do Real Serviço, e do bem dos povos, é absolutamente necessario prover-se o posto de Capitão mór, e Juiz da Provincia do Bihé, povoação do Amarante, freguezia de Nossa Senhora do Desterro, e S. Gonçallo, jurisdicção da Capitania de Benguella, que vagou por fallecimento de Joaquim José Rodrigues, que o exercia, em Pessoa de satisfação, e merecimentos, que bem o haja de exercer; e tendo consideração aos de Antonio Francisco da Conceição, ter servido a Sua Magestade no posto de Capitão Mór e Cabo da dita Provincia do Bihé, com aptidão, e prestimo; e me pertencer este provimento pelo cap. 9.º do Regimento d'este Governo: Hei por bem de o prover (como por esta o provo) no dito posto de Capitão-mór, e Luiz da Provincia do Bihé, povoação de Amarante, freguezia de Nossa Senhora do Desterro, e S. Gonçallo, jurisdicção da Capitania de Benguella, em quanto a Rainha Nossa Senhora não mandar o contrario, e eu entender he conveniente ao seu Real serviço; com

a declaração

de que será obrigado a residir na dita Provincia, e a guardar todos os Regimentos, Leis, e ordens, que se lhe communicarem, dilatando o commercio, a agricultura, e a industria, quanto permittirem as forças da mesma Provincia, e as Regras da Justiça, e de que não será reconhecido por tal Capitão-mór, fóra da dita Provincia, não fazendo guerra aos Negros, nem acto nenhum de hostilidade, sem expressa ordem Minha, e dos meus Successores, e que attrahirá e dilatará os Vassallos, e Dominios de Sua Magestade, pelos meios justos e suaves, da paz, da justiça, e do commercio, fazendo que a cada um se pague os serviços que fizer, ou os generos que vender, e que escuzando-se, não sahirá do Governo sem que primeiro seja rendido por aquelle que Eu nomear. Pelo que mando ao Governador da Capitania de Benguella conheça ao dito Antonio Francisco da Conceição por Capitão-mór, e Juiz da Provincia do Bihé, e como tal o honre, estime, deixe servir, e exercitar o dito posto, dando-lhe d'elle Posse, e juramento na fórma costumada, de que se fará assento nas costas d'esta Carta Patente; e as pessoas suas Subordinadas, que em tudo lhe obedeção, cumprão, e guardem suas ordens por escripto, e de palavra, no que pertencer ao Real serviço, como devem, e são obrigados. Na Thesouraria Geral das Tropas ordeno se lhe faça o seu Assento nos livros competentes, para delles tirar sua Fé de officios quando lhe convier. E por firmeza de tudo lhe mandei passar a presente por mim assignado, e sellada com o sello das Minhas Armas, a qual será registada nos livros da Secretaria do Estado deste Reino, e aonde mais tocar. Dada nesta cidade de São Paulo da Assumpção a onze de Maio. Hippolito Fernandes Pinto official menor da mesma Secretaria, a fez.

Anno

de mil setecentos noventa e um, Joaquim José da Silva, Capitão-mór encarregado do expediente da Secretaria do Estado a fez escrever.

Manuel de Almeida e Vasconcellos.

Carta Patente porque V. Ex.

cia

ha por bem prover Antonio Francisco da Conceição, no Posto de Capitão Mór, e Juiz da Provincia do Bihé, Povoação de Amarante, Freguezia de Nossa Senhora do desterro e São Gonçallo, Jurisdicção da Capitania de Benguella, como nella se declara.

Para V. Ex.cia ver.

Por Despacho de S. Ex.a de 11 de Maio de 1791.

Reg.da af. 39 do L.o 25 de Patentes e af. 41 do L.o 5.º dos Postos para fora fica assentada a sua Praça.

Thesouraria Geral das Tropas 12 de Maio de 1791

Manuel Pinto Delgado

Cumpra-se e registe-se. Q.el de Benguella 25 de maio de 1791.

Francisco Paym da Camara e Ornellas

Reg.da af do L.o 21 de Patentes que deve n'esta Secretaria do Estado d'este Reino. São Paulo da Assumpção a 11 de Maio de 1791.

Joaquim José da Silva

Reg.da af. 111 do Registo Geral d'esta Capitania. Benguella 26 de julho de 1791.

Francisco Bermesso

Principiei pelas nossa cousas, e por um acaso findei egualmente por ellas, visto ter-me vindo á mão o documento que acabo de transcrever, accrescentando, que, somos bastantes pigmeos para não seguir-mos a vereda de nossos antepassados. Então, procuravam, elles, estender e dilatar o nosso poder. Presentemente, não só se trata de o incurtar, como tambem abandonar! Assim se verificou com a Feira de Cassange, terra subjugada em 1850 pelo bravo Francisco de Salles Ferreira, e mandada abandonar pelo sr. João Baptista de Andrada em 1862...

Bihé 2 de março de 1869.

Antonio Francisco Ferreira da Silva Porto

Notas:

[1]

Veja-se o diploma no fim.

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings