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Scenas Contemporaneas

PATHOLOGIA DO CASAMENTO.

Reading edition

ACTO I.

DECORAÇÃO.

Uma saleta contigua a um salão de baile, separada por largas portadas de vidro, através das quaes se vêem perpassar, em passeio, damas e cavalheiros.

SCENA I.

Julia, e Leocadia, entrando, como fatigadas, sentam-se n'um sophá. Julia tira da cabeça uma grinalda de flôres brancas, que arremessa com desdem sobre o sophá.

Julia

.―Afflige-me tudo!... Tomára-me eu na minha liberdade, Leocadia! Não goso nada... Tanta luz parece um insulto á escuridão da minha alma... Queria-me sosinha...

Leocadia

.―Não tens paciencia nenhuma, Julia!... Que é o que te afflige assim?

Julia

.―Que é!... É aquelle homem... Sempre aquelle homem!... não ha nada que o desengane...

Leocadia

.―Nem as palavras?!

Julia

.―Eu sei!... nem as palavras, talvez...

Leocadia

.―Porque não és franca?! Eu, de mim, na tua posição, tinha-lhe dito: «não me persiga!» É o que eu já disse a Eduardo...

Julia

.―Eu não sei dizer isso... Acho que é aviltar demasiadamente um homem... Pois tão estupido é elle, que precisa uma franqueza tão impropria d'uma senhora? Tenho feito tudo que póde desenganar um homem... Teima, persegue-me, flagella-me... é insupportavel!... Ainda ha pouco, entre mim e Jorge...

Leocadia

(

sobresaltada

).―E Jorge!...

Julia

.―Que modo é esse!? Jorge interessa-te!?

Leocadia

.―E a ti?

Julia

.―A mim?... Pois não sabes...

Leocadia

.―O que?... não sabia... Elle ama-te?

Julia

.―Tem-m'o dito...

Leocadia

.―Elle!... tem t'o dito... Jorge!...

Julia

.―E tambem a ti?... Falla depressa...

Leocadia

(

contrafeita

).―Não... a mim... não... mas a ti... sim?

Julia

.―Penso que sim... mas esse descorar... Leocadia!...

Leocadia

.―Fui eu que me enganei... Pensava...

Julia

.―Talvez te não enganasses... Que te disse elle?

Leocadia

.―Nada... Vamos nós á sala?...

Julia

.―Já?!... Eu não vou já... Vai tu, se queres...

Leocadia

.―Que é o que me querias dizer?... Disseste que entre ti e Jorge...

Julia

.―Estava uma cadeira de vago... Alvaro vinha occupal-a, e eu ergui-me de repente, e occupei-a primeiro...

Leocadia

.―E Alvaro... nem assim...

Julia

.―Me comprehendeu... Sentou-se na immediata, e disse não sei que frioleira...

Leocadia

.―Se tu és tão amavel!...

Julia

.―Ai!... tu queres imital-o?! É o que elle me diz cem vezes em cada baile...

Leocadia

.―Uma verdade, por muito repetida, nunca perde o merecimento...

Julia

.―Que maneira de fallar!... Quem me dera adivinhar-te! Tu amas Jorge!...

Leocadia

.―Não, menina... Eu não amo ninguem...

Julia

.―Ninguem?! nem a tua Julia?

Leocadia

.―A minha Julia não póde repartir o seu coração... Não quero entrar em partilha com Jorge... O peor quinhão seria para mim, porque não ha nada superior a elle... Ficas?

Julia

.―Fico a scismar... Vem cá, Leocadia... sê franca, senão... não sou tua amiga... Jorge será um impostor?...

Leocadia

.―Perguntasm'o a mim!? Eu não sei...

Julia

.―Terá tido a mesma linguagem para ambas?

Leocadia

.―Disse que te amava?... A mim... não me disse nada...

Julia

.―Então és tu que o amas?

Leocadia

.―Não... Olha, minha amiga, faz de conta que eu ouvi com perfeita indifferença a tua revelação... Até logo... Ai!... diz-me cá... O teu namoro é antigo... ou começou aqui?

Julia

.―Com Jorge? É muito moderno... Tem um mez... É uma creança, mas já foi baptisado com lagrimas...

Leocadia

.―Já? Pois afaga-o muito na alma... Sê muito feliz.... que eu, se te não felicitei mais cedo, é porque o não sabia... Vou lá dentro... Minha mãi deve reparar n'esta ausencia...

Julia

.―Não me deixes agora que ahi vem Alvaro... É insupportavel!

Leocadia

.―Ora!... que mal te faz o homem?!... Eu volto já... Olha... diz-lhe que amas Jorge... é impossivel que elle queira sustentar a competencia... (

Sahe

).

SCENA II.

Julia e Alvaro.

Alvaro

.―Está incommodada, snr.

a

D. Julia?

Julia

.―Não, senhor.

Alvaro

.―Então está aborrecida...

Julia

.―De certo...

Alvaro

.―Menos, quando ao seu lado um certo cavalheiro de luneta...

Julia

.―Ah! o senhor vem pedir-me satisfações? É engraçada a liberdade!...

Alvaro

.―Não lhe peço satisfações... Se as minhas palavras foram indiscretas, seja generosa, perdoando-m'as.

Julia

.―Muitos perdões me tem pedido, snr. Alvaro!... A minha generosidade com v. s.

a

chega já a parecer-se...

Alvaro

.―Com a virtude d'uma santa?

Julia

.―Não queria dizer isso...

Alvaro

.―Queria dizer que chega a parecer-se...

Julia

.―Com um excesso de imbecil paciencia.

Alvaro

.―Isso é muito forte!... Eu não lhe mereço tanto! Nunca lhe disse affrontas...

Julia

.―Com que direito ha-de dizerm'as?

Alvaro

.―Não tenho nenhum? absolutamente nenhum?

Julia

.―De certo, nenhum...

Alvaro

.―A paixão cega o entendimento...

Julia

.―Não é minha a culpa...

Alvaro

.―É toda...

Julia

.―Toda?... pois eu authorisei-o? Disse-lhe alguma vez que o amava?

Alvaro

.―Nunca m'o disse... porque...

Julia

.―Porque o não sentia... Que mais lhe posso dizer agora?

Alvaro

.―Depois d'isso, mais nada. (

Retira-se

).

Julia

.―Foi preciso isto... Ainda bem!... (

Ouve-se a musica d'uma polka

.

Julia enfeita-se ao espelho com a grinalda, e sahe

).

SCENA III.

Jorge e Eduardo.

Jorge

.―Tu vaes ser verdadeiro, Eduardo?

Eduardo

.―Como Epaminondas Thebano, que nem zombando mentia. Não me lembra d'outro estafermo antigo que fallasse verdade...

Jorge

.―Tu tens algumas intelligencias com Leocadia?

Eduardo

.―Diz-me cá, Jorge, póde fumar-se aqui?

Jorge

.―Não... se queres vamos á sala debaixo...

Eduardo

.―Não posso, que tenho a sexta quadrilha com Leocadia... Diz lá o que queres...

Jorge

.―Perguntei-te se amavas Leocadia.

Eduardo

.―Gosto muito d'ella... Depois d'um bom charuto, é o meu sonho dourado.

Jorge

.―E ella...

Eduardo

.―Gosta de mim? não sei bem ainda... Perguntei-lh'o ainda agora pela vigesima vez... Disse-me que sim, e é a primeira vez que m'o diz... Se mente, lá se avenha com a sua consciencia...

Jorge

.―E é a primeira vez que te disse que sim?

Eduardo

.―A primeira, palavra d'honra, Jorge!

Jorge

.―E que conclues d'ahi?

Eduardo

.―Concluo que não gostou até hoje.

Jorge

.―E não conclues mais nada?

Eduardo

.―Nem quero.

Jorge

.―Não suppões que ella amasse, até este momento, outro homem?

Eduardo

.―Não só supponho; mas até acredito... Nada de emboscadas... Essa diplomacia parece-me uma velhacaria rançosa... Sei que amas Leocadia, ou, se a não amas, que a amaste já... Eu não tenho nada com o passado, nem com o futuro... A minha grande questão é a actualidade. São arrufos? Deixal-os ser: aqui estou eu para encher as lacunas, e tenho n'isso muita honra... Nunca me importou saber que tentos lavravas no coração da pequena. Vi-te fazer de Cesar, e eu fiz de Fabio. Agora, cada um de nós segue o seu systema... E até logo... Acho que não te queres bater...

Jorge

.―Eu não me bato por estimulos tão pouco despertadores do brio...

Eduardo

.―Fazes tu muito bem... Eu tambem zango de duellos, principalmente por causa de mulheres... que comem

sandwichs

, e bebem limonadas... Falla-me logo... (

Sahe

).

SCENA IV.

Jorge e depois Julia.

Jorge

.―Eu tinha previsto tudo... Era necessario renunciar uma das duas...

Julia

.―Procurava-o...

Jorge

.―Sim?... que é, Julia?

Julia

.―Diga-me: poderei confiar a Leocadia o segredo do nosso amor?... Vacilla?... responda!...

Jorge

.―Tem precisão de confidentes?

Julia

(

sorrindo

).―Tenho, porque me não cabe a felicidade no coração... Posso?...

Jorge

.―E é forçoso que seja Leocadia?!

Julia

.―É... preferi-a entre todas as minhas amigas... Que embaraços são esses?!

Jorge

.―Entendo que não deve revelar a ninguem o nosso amor.

Julia

.―Sim?... porque m'o não disse?... Já agora, perdeu-se a sua discrição... Eu disse tudo...

Jorge

.―A quem?

Julia

.―A Leocadia...

Jorge

(

á parte

).―Está explicado o enigma!...

Julia

.―Nada de monologos... falle comigo... Ora, snr. Jorge... que necessidade tinhamos nós de corarmos um na presença do outro!?

Jorge

.―Eu não córo... A côr d'este rosto só póde alteral-a uma infamia.

Julia

.―Dê o nome que lhe aprouver ao seu acto, que eu não lhe conheço outro... V. s.

a

feriu-me, e cicatrizou-me a ferida... São boas todas as affrontas que nos despertam a sensibilidade da honra... A lembrança do ultraje ha-de fazer que eu esqueça a causa depressa... Fez bem... Deixou cahir a mascara muito a tempo... (

Retira-se

).

Jorge

.―Escute-me, Julia... (

Vai sentar-se no sophá

).

SCENA V.

Jorge, e Eduardo, dando o braço a Leocadia.

Eduardo

.―Será isto um sonho?... Se o é, deixe-me sonhar uma hora, sim?

Leocadia

(

sorrindo

).―Tambem ha sonhos de que se acorda com a face cheia de lagrimas...

Eduardo

(

para Jorge

).―Ainda aqui!... (

Leocadia estremece

).

Jorge

.―Ainda aqui... não estou mal... Tem dançado muito, minha senhora?

Leocadia

.―Principiei agora...

Jorge

.―Pois ainda tem muito tempo de gosar... São tres horas... Nunca lhe esqueça que foi ás tres horas...

Leocadia

.―Não o comprehendo, snr. Jorge... Que tenho eu com as tres horas do seu relogio?

Jorge

.―Não se finja simples como donzellinha que sahiu hontem do collegio...

Leocadia

.―Antes uma fingida innocencia que uma descarada impostura.

Jorge

.―Não entendo.

Eduardo

.―Os senhores dizem que não se entendem, e eu de certo não os entendo melhor. Não façam ceremonia de mim. Queiram explicar-se de modo que eu possa reconcilial-os.

Jorge

.―Reconciliar-nos!... Não estamos divorciados... O que me prende a esta senhora são os respeitos e considerações que se lhe devem. Em quanto ella se não desviar da carreira d'um nobre procedimento, as nossas relações não soffrem quebra...

Eduardo

.―Pois n'esse caso, meu caro Jorge, serás sempre o respeitador d'esta senhora, porque os anjos não se precipitam desde que um, ha muitos annos, teve o mau gosto de se precipitar do céo.

Jorge

(

sorrindo

).―snr.

a

D. Leocadia...... snr.

a

D. Leocadia!... (

Retira-se

).

SCENA VI.

Eduardo e Leocadia.

Eduardo

.―Fallemos seriamente, minha senhora. V. exc.

a

n'um momento de ciume, dignou-se empregar-me no seu serviço como instrumento de barro, que se quebra, feito o serviço, não é verdade?

Ora ande lá... não perca o animo, supposto que o escarlate do pejo não lhe fica mal... acho-a muito mais bella... Parece-me que adivinho o segredo... V. exc.

a

encontrou em flagrante delicto de ternura o sensivel Jorge com a sensivel Julia... Ferida na sua vaidade, quer vingar-se, e eu represento n'este negocio o

tertius

sem o

gaudet

. Perdoará o latim... quiz dizer que represento n'este negocio uma triste figura... Já não é a primeira vez... Não se inquiete, que eu tambem me não incommodo... Tire de mim o partido que quizer...

Leocadia

.―Snr. Eduardo... não devia fallar-me assim... Essas palavras são tão repassadas de ironia...

Eduardo

.―É o meu genio... Sou um Democrito pequenino, porque tambem são ridiculamente pequenas as cousas que me fazem rir... Ahi vem uma que me arranca do profundo da consciencia uma legitima gargalhada.

Leocadia

.―Que é?

Eduardo

.―É a sua amiga Julia pelo braço de Alvaro, em intima conversação... Não acha tudo isto tão comico?

SCENA VII.

Leocadia, Eduardo, Julia e Alvaro.

Eduardo

(

para Alvaro, sorrindo

).―Os reis da noite somos nós, snr. Alvaro... Logo despimos a purpura de reis de comedia, e fumamos um pessimo cigarro do contracto...

Alvaro

.―Não entendo a finura do epigramma.

Eduardo

.―Então, é mais feliz do que eu suppunha... Póde contar com o reino do céo... Deveras não entende?

Alvaro

.―Não, e dispenso as explicações officiosas do meu amigo...

Eduardo

(

rindo

).―Espero que á solemnidade do estilo, se não siga um cartel de desafio...

Leocadia

.―Que linguagem!... É bem galhofeiro o seu caracter, snr. Eduardo!

Eduardo

.―Muito galhofeiro, minha rica senhora... E alli o do meu amigo é sombrio como o d'um encapotado de drama em cinco actos.

Alvaro

.―A verdade é que nos não parecemos...

Eduardo

.―Felizmente para o senhor ou para mim... Mas na singelesa do coração, na temperatura do amor, ha-de permittir que sejamos parecidos como Pylades com Orestes...

Alvaro

.―Não temos semelhança nenhuma... Eu não posso brincar com as paixões...

Eduardo

(

áparte, a Leocadia

).―É da força de trinta Paulos; mas a Virginia que o escuta, só com os olhos, d'aqui a pouco remette-o ao catalogo dos Othellos em quarta mão. (

Alvaro e Julia retiram-se

). Espero que não se baterá comigo, snr. Alvaro... Não respondeu!... Aquelle silencio não quer dizer nada; mas, quem não conhecer o homem, ha-de suppor que a cratera vai rebentar... Quer sentar-se, minha senhora?...

Leocadia

.―Sim... um momento... Ahi vem Jorge.

Eduardo

.―Ah!... V. exc.

a

estremece!... Muito me ama! (

rindo

). É d'uma ingenuidade mythologica!

SCENA VIII.

Leocadia, Eduardo e Jorge.

Jorge

.―Eduardo, preciso roubar-te um instante a essa senhora... tens a bondade!

Eduardo

.―Ah! sim... esta senhora não vai de certo queixar-se á policia pelo roubo...

Jorge

(

a sós

).―Fazes um sacrificio deixando-me cinco minutos com ella?

Eduardo

.―Sacrificio... nenhum; mas a decencia pede que eu não esteja aqui servindo de sentinella á vista a um teu namoro... Ai!... espera... eu dirijo-me a estas duas almas penadas, que ahi vem... Vou comprimental-as, e tu, como penetrante abutre, desce o vôo sobre a presa... (

Comprimenta duas damas, vestidas de branco, em quanto Jorge vai sentar-se ao lado de Leocadia

). Parecem-me dous anjos, minhas senhoras. São duas virgens de Taurida, que fazem lembrar as alvissimas virtudes de Ephigenia... (

As damas, que elle acompanha, com gaifonas cortezãs, retiram-se sorrindo

).

SCENA IX.

Jorge e Leocadia.

Jorge

.―Que caprichos são estes, Leocadia?

Leocadia

.―Caprichos!... O sentimento d'uma offensa é um capricho?!

Jorge

.―Qual é a offensa? Uma leviandade de Julia?

Leocadia

.―A leviandade foi minha, que não quiz imital-a a ella e a muitas, que sabem pisar os homens aos pés antes de lhes darem a mão para que se levantem. Eu dei-lhe a minha alma sem reserva... Fiz do meu amor um sagrado mysterio com medo que m'o profanassem. Violentei-me a olhal-o, em publico, com indifferença, para que ninguem me invejasse. Eram estes os seus conselhos, Jorge... Hoje é que eu comprehendo a horrivel significação d'este plano. O senhor precisava do segredo para agradar a muitas victimas illudidas com um só lance de olhos... Creia que tenho tanta pena de mim como de Julia...

Jorge

.―Olha, Leocadia... se o meu crime foi grande, a tua vingança excede-o... Não me pareces o anjo resignado que eu imaginei... O que eu acabo de fazer foi uma experiencia na tua alma... O resultado foi infeliz! Nunca previ que consentirias ao teu coração um arrojo vingativo, indigno de ti...

Leocadia

.―Que fiz eu?

Jorge

.―Que fizestes tu?... É boa a pergunta!... Procuraste n'esse salão o homem mais desacreditado, o espirito mais corrompido, o cynico mais orgulhoso de o ser, e disseste-lhe que o amavas, sorriste angelicamente ás suas phrases ironicas, e nivelaste-me com elle, apresentando-m'o como rival!... Eu... rival de Eduardo!...

Leocadia

(

com vivacidade

).―Como rival... nunca! Elle não podia ser seu rival... porque eu não tenho dous corações.... Fui imprudente... confesso que fui; mas não pude mais... a punhalada feriu-me de repente, não me deu tempo de pensar... disse-lhe não sei quê dos labios, mas o coração aborrece-o, porque eu não posso amar alguem com mais virtudes do que tu... pouco me importa que tu sejas tão cynico, tão desmoralisado como Eduardo... Oh! Deus queira que me não ouvissem... Ahi vem Julia... Eu retiro-me... A mãi está com os olhos fixos em mim... (

Menção de sahir

).

SCENA X.

Alvaro , Julia e Jorge.

Julia

(

passando por Leocadia

).―Muitos parabens, minha amiga...

Leocadia

.―De que?

Julia

.―Transigiste amigavelmente?...

Leocadia

.―Não sei que dizes...

Julia

(

ironica

).―Innocentinha... (

Leocadia sahe

.

Passam alguns grupos de homens e senhoras

).

Alvaro

(

que não vê Jorge

).―Jorge não é homem talhado para o seu coração...

Julia

.―Falle baixo, que elle está muito perto... Mas não se cale... diga alguma cousa.

Alvaro

.―É necessario ter o coração puro de amores viciosos para conceber a sublime candura do seu...

Julia

.―Hei-de morrer sem ser comprehendida...

Alvaro

.―Não nasceria eu para comprehendêl-a?

Julia

.―Ai! não... a minha alma é um abysmo, onde se esconde o anjo do bem, e a serpente do mal... Tenho na mesma intensidade transportes d'amor e odio...

Alvaro

.―Qual lhe mereço?...

Julia

.―Quer-me sincera? uma verdadeira estima de irmã...

Alvaro

.―Só?

Jorge

(

sem erguer-se do sophá

).―Ó snr. Alvaro!... Que tal acha a eloquencia d'esta senhora?

Alvaro

.―A pergunta é celebre; todavia, responderei: a eloquencia d'esta senhora é excellente...

Jorge

.―E v. exc.

a

, snr.

a

D. Julia, que tal acha a eloquencia d'aquelle senhor?

Julia

.―Eu sou menos generosa que este cavalheiro: não lhe respondo.

Jorge

.―Responda, responda, que v. exc.

a

não é responsavel pelo que diz...

Alvaro

.―Eu não posso consentir que se affronte assim uma senhora!...

SCENA XI.

Os mesmos e Eduardo, que vem passando com uma dama pelo braço, e pára.

Jorge

.―Pois senão póde, resigne-se...

Alvaro

.―Tenho a optar por outro expediente antes da resignação...

Eduardo

.―Naturalmente quer bater-se... Eu sou de opinião que os meus amigos devem cortar-se reciprocamente os pescoços ás 4 horas da tarde...

Jorge

(

sorrindo

).―Fecha lá as torneiras ao espirito, Eduardo. Aqui falla-se seriamente... Não vês que aquelle senhor está formalisado?

Eduardo

.―Pois o senhor está formalisado? e v. exc.

a

(

para Julia

) tambem está formalisada? e a menina (

para a que tem no braço

) tambem se formalisa?... Eu de mim, declaro-me formalisado sem saber porque. Formalisem-se todos, desde o dono da casa até ao creado da campainha. Isto deve acabar por hir cada um para sua casa, porque são quasi quatro horas... não acha?

Alvaro

.―Se me dá licença...

Eduardo

.―A respeito de licenças, isso não é comigo: é com o dono da casa... Que queria o meu amigo? quer duvidar de que a snr.

a

D. Julia é a rainha das mais formosas? (

Com escarneo

).

Alvaro

.―Snr. Eduardo, as suas zombarias são intempestivas!... Entre cavalheiros é d'uso adoptar-se a linguagem seria e digna d'um salão...

Eduardo

.―O meu caro senhor está funebre como um mestre de cantochão... Fallou muito bem; mas eu é que não me sinto disposto a manter a reputação de eloquente ás quatro horas da manhã... Se me querem vêr dormir, fallem-me em cousas serias... Diga-me cá... já tomou chocolate?

Julia

(

desprendendo-se do braço

).―Dê-me licença... Minha mana chama-me...

Alvaro

.―Eu acompanho-a, minha senhora... (

Vão sahir

).

Jorge

.―Minha bella menina, estamos quites... D'hoje em diante cada um de nós caminha para o seu polo diverso...

Julia

.―São indifferentes os seus passos... Caminhe para onde lhe aprouver, snr. Jorge... (

Sahe

).

Eduardo

.―Disse que caminhasses para onde te approuvesse... Eu de mim vou para casa... Queres vir?... É verdade... que é da transparente creatura, que eu tinha no braço? Evaporou-se?... Deixal-a... (

Atira-se ao sophá

). Ai que somno!... Em que pensas tu?... (

Entra um creado com chavenas de chocolate

). Isso que é? Venha cá... É chocolate... vm.

ce

não terá a habilidade de converter isto em vinho do Porto?...

Creado

.―Não, senhor...

Eduardo

.―Então vm.

ce

, pelo que diz na sua, é um grande idiota. (

Toma duas chavenas da bandeja

). Póde retirar-se... Aquelle senhor está fazendo versos... (

O creado sahe

). Ó Jorge, não tens no coração um reservatorio onde caiba uma chavena de excellente chocolate?

Jorge

.―Adeus... retiro-me...

Eduardo

.―Alto lá!... Eu preciso saber em que lei devo viver... Reconsideraste a respeito de Leocadia? Quem é que a ama, sou eu, ou és tu?

Jorge

.―Fallas d'ella com tão pouco respeito!...

Eduardo

.―De quem? de s. exc.

a

!?... Pois eu disse alguma cousa que possa chamar-se grosseira?

Jorge

.―Leocadia não é uma apolice que se passe com o mesmo valor de mão em mão...

Eduardo.

―Justamente o peor que ella tem é não ser apolice, nem ao menos acção da empreza do caminho de ferro de leste...

Jorge

.―Estás estragado!...

Eduardo

.―Do estomago? Palavra d'honra que sim! As taes sandwichs são indigestas como um artigo de fundo... Mas do espirito estou optimo... Ella ahi vem... Queres ficar só com ella?... Eu vou entreter Julia... Que mais queres da minha docilidade? Um homem que faz isto não está de todo estragado...

SCENA XII.

Jorge e Leocadia.

Leocadia

.―Vou sahir, Jorge... Dê-me uma só palavra, que me salve...

Jorge

.―Que queres que eu te diga, Leocadia?... Ámanhã vou consultar a vontade de teu pai... Queres assim tão breve o desenlace das tuas affeições?

Leocadia

.―É muita felicidade, meu Deus. Eu não merecia tanto... E Julia!... Coitadinha!... quanto não soffrerá ella!...

Jorge

.―Que tenho eu com Julia!... Poderia amal-a com a paixão violenta d'uma febre... mas estimal-a com a serena amisade que te dedico, Leocadia, isso nunca...

Leocadia

(

reparando

).―Ai!... minha mãi... não me deixa um instante... Adeus...

SCENA XIII.

Os mesmos e Julia, e depois, Eduardo e Alvaro.

Julia

.―Espera, menina (

para Leocadia que se retira

)... São só duas palavras... Snr Jorge... V. s.

a

, não é digno d'ella, nem de mim, que valho menos que ella... Não te felicito pela reconciliação, minha querida amiga... D'este a Eduardo, que a sociedade chama cynico, não vai distancia que tu não vejas desapparecer vinte e quatro horas depois de casada... São tudo Eduardos...

Eduardo

.―Que é isso de Eduardos? Ainda falta este... Trata-se de levar ao capitolio os Eduardos, minha senhora? N'esse caso peço que não sejam exceptuados os Alvaros. (

Para Alvaro que entra

).

Venha cá, meu amigo... Á vista d'este quadro, confesse que fizemos tristissimas figuras... Aquelle senhor (

apontando Jorge

) fez monopolio de dous corações, que nós tivemos o imbecil heroismo de conquistar ás tres horas da noite... Sabe que mais? Olhemos para ellas, e digamos como a raposa: «Estão verdes!» Pois não convém n'isto?

Vozes dentro

.―Vamos meninas! São quatro horas.

Eduardo

.―Nenhum dos senhores se quer bater pelo que vejo!... Boas noites... Minhas senhoras...

Vozes

.―O ultimo

cotillon

, o ultimo.

Eduardo

(

para a viscondessa de Valbom que entra

).―O ultimo

cotillon

, minha senhora, se não tem par... (

Retiram-se todos os outros

).

Viscondessa

.―Eu não danço senão quadrilhas.

Eduardo

.―Faz v. exc.

a

muito bem... Tem dançado muitas?

Viscondessa

.―

Un peu

...

un peu

.

Eduardo

.―Ah! V. exc.

a

falla francez! Ha quantos annos aprendeu, minha amavel senhora? Antigamente ensinava-se um francez muito solido... Hoje é tudo pela superficie...

Viscondessa

.―É verdade; mas as bases d'uma verdadeira instrucção são os solidos rudimentos.

Eduardo

.―Muito bem, minha senhora... O seu coração deve ser tão sensivel como a sua cabeça é illustrada.

Viscondessa

.―O meu coração está morto.

Eduardo

.―Deveras!... Quem fará o milagre de o chamar á vida?... Eu de certo não ousaria tão difficil empresa...

Viscondessa

.―V. s.

a

zomba?...

Eduardo

.―Não zombo, porque não sei zombar com o amor...

Viscondessa

.―Falle baixo que ahi vem meu marido...

Eduardo

(

para o marido que entra

).―Snr. visconde!... estavamos fallando na guerra da Crimea.

Visconde

.―Vai por lá o diabo... Eu acho que os alliados não mettem o nariz em Sebastopol.

Viscondessa

.―Pelo menos em quanto a Austria e Prussia não expedirem forças que suppram a mortandade dos inglezes...

Visconde

.―E que me diz o senhor á exportação dos bois? Cessa ou não cessa?

Eduardo

.―A respeito de bois, não sei nada... (

reparando para fóra

) Ahi vem tudo... Que é isto!... uma senhora desmaiada?

SCENA XIV.

Os mesmos, e Julia desmaiada nos braços de algumas damas.

Vozes

.―Que seria?

Coitadinha...

Tragam agua...

Eduardo

.―Fumo de charuto não é mau...

Visconde

.―Faz favor de lhe botar um pouco de fumo pelas ventas?...

Eduardo

(

accendendo o charuto

).―Lá vou... lá vou, snr. visconde.

Vozes

.―Não é preciso...

Julia

.―É Jorge!... Jorge é o responsavel da minha vida...

Vozes

.―Ah!...

Eduardo

.―É uma maneira bonita de terminar um acto! Está tudo com a bocca aberta... e eu tambem! (

Abrindo a bocca

).

CORRE O PANO.

ACTO II.

A scena é na Foz, justamente na praia dos Inglezes. Senhoras e homens tomando banhos; outros, entrando nas barracas, horrivelmente desfigurados, ou, antes, taes quaes a natureza os fez. Sobre os penedos, pinhas de povo que pasmam diante dos ensaios do salva-vidas. Estes podem dizer o que quizerem a tal respeito. O author dá carta branca ao actor para que diga centenares de parvoices: póde até discorrer sobre o dropp se lhe aprouver; mas o melhor é calar-se.

SCENA I.

Afóra estes entes nullos, Jorge e Leocadia sentados em cadeiras.

Leocadia

(

fazendo SS com o guarda-sol na areia

).―Estás tão sombrio, Jorge!

Jorge

(

fazendo TT na areia com a chibata

).―Estou optimamente. (

Ouvem-se guinchos muito sympathicos das senhoras, que patinham no banho

.

Alguns homens urram

).

Leocadia

.―Parece que te aborrece a Foz!...

Jorge

.―Nada me aborrece... Estou bem em toda a parte...

Leocadia

.―Niguem o ha-de dizer... Todas as minhas amigas me perguntam o que tens...

Jorge

.―Diz-lhes que se não incommodem...

Leocadia

.―Hão-de suppor que a tua amisade para comigo foi uma illusão desvanecida pelo casamento...

Jorge

.―A opinião é livre... Supponham o que quizerem.

Leocadia

.―Mas não consideras que eu soffro muito se ellas imaginam tal?

Jorge

.―Não me lembrava essa especie... Isso é amor proprio...

Leocadia

.―Não é amor proprio... é

dôr

do coração...

Jorge

.―Será algum aneurisma?

Leocadia

.―É uma zombaria bem cruel!... Estranho-te, Jorge.

Jorge

.―Tambem eu me estranho... Não achas que é melhor estarmos calados?

Leocadia

.―Calar-me-hei...

Jorge

.―E fazes bem... Estes dialogos terminam sempre mal... A necessidade da variar a conversação é a tisica das grandes paixões... Uma phrase repetida aborrece, por mais bonita que seja... Nós podiamos ter sempre cousas novas a dizer, se não tivessemos gastado a inspiração em quatro mezes de casados. Dissemos tudo... definimos tudo que nos rodeava, e agora sentimos a dura necessidade de nos definirmos a nós... É onde está o mal.... Tu queres que eu te repita o que te disse ha cinco mezes, e eu zango de repetições... Não sei fazer phrases como tu fazes punhos de camizas... Exhauri-me... Agora é necessario esperar uma nova colheita do terreno que já deu fructo. Essas lagrimas vem muito a proposito... (

Erguendo-se e espreguiçando-se

). Ai! que vida!... (

Reparando

). Olá, Eduardo!... por cá?

SCENA II.

Os mesmos, e Eduardo.

Eduardo

.―É verdade... Como passou, minha senhora?

Leocadia

(

disfarçando as lagrimas

).―Muito bem... agradecida... Está bom?

Eduardo

.―Como sempre... Tenho uma saude insupportavel!... Não sou capaz de arranjar uma dôr de cabeça, para me dar certos ares romanticos. Vejo por ahi muitos mancebos, alquebrados no frescor da vida, e, em quanto a mim, são infelizes creaturas que soffrem dos callos... Já tomou banho, minha senhora?

Leocadia

.―Não tomo banho hoje. Constipei-me hontem.

Eduardo

(

para Jorge

).―E tu?

Jorge

.―Vou tractar d'isso... Ficas por aqui?

Eduardo

.―Vamos nós conversar, minha senhora... Eu hoje sinto-me com disposição para dizer cousas muito philosophicas... (

Jorge sahe

).

SCENA III.

Leocadia e Eduardo.

Leocadia

.―V. s.

a

tem sempre um humor tão alegre...

Eduardo

.―Será isto idiotismo? Já me lembrou se eu seria tão doudo como por ahi me julgam!

Leocadia

.―Quem o julga doudo?!

Eduardo

.―É toda essa sociedade...

Leocadia

.―Doudo... não!... Dizem que v. s.

a

não tem persistencia em cousa nenhuma; e escarnece tudo...

Eduardo

.―Em quanto á persistencia, é falso o que dizem, minha senhora, e sinto que v. exc.

a

, tão distincta do commum, queira ser o ecco das opiniões vulgares da rançosa sociedade... Não sou inconstante...

Leocadia

.―A quem diz isso? Pois não sei eu a sua vida!... Só namoros, tenho-lhe conhecido cincoenta.

Eduardo

.―Serão mais, talvez; mas... que namoros!... V. exc.

a

não se recorda de que foi meu namoro vinte minutos no baile do barão de Valbom? (

Leocadia abaixa os olhos

). Pois os taes cincoenta namoros foram todos assim... Não sou constante, porque não encontrei ainda uma mulher, que possa adorar-se seriamente. Não ha paixão que o ridiculo não mate. As minhas tem todas soffrido morte de gargalhada.

Leocadia

.―Pois não amou nunca seriamente?

Eduardo

.―Eu lhe digo, minha senhora... amei... Vou contar-lhe a minha vida; mas só lhe digo os argumentos dos capitulos que são tres.

Capitulo

1.º Conta-se que Eduardo Leite amou diabolicamente uma mulher, aos dezeseis annos, e fez tantas loucuras por ella, que, não tendo mais que fazer, quiz suicidar-se com pós dos ratos, e foi uma tia que lhe valeu com um copo de azeite... Pois v. exc.

a

ri-se das minhas desgraças!... E eu suppunha que a fazia chorar!... Estou como certo dramaturgo que endoudeceu porque a platéa se riu justamente no pedaço mais triste da tragedia!...

Leocadia

.―É que v. s.

a

dá um colorido comico ás scenas mais tristes...

Eduardo

.―

Capitulo

2.º No qual se diz que o dito Eduardo Leite fez tristissima figura, vociferando injurias contra as mulheres, emmagrecendo na razão inversa da hydropesia do scepticismo, e passeando de noite nas Fontainhas, perguntando ás estrellas pela mulher dos seus sonhos, e bebendo agua no chafariz para refrigerar o vulcão, que lhe queimava as entranhas. Dizem-se outras muitas cousas tristes a este respeito, como por exemplo um duello que elle teve com o seu rival, de que lhe resultou estar quinze dias de cama, com uma bala mettida n'um hombro. Que lhe parece o segundo capitulo?

Leocadia

(

sorrindo

).―É funebre; mas faz-lhe muita honra...

Eduardo

.―Estou por isso... É uma honra muito grande...

Leocadia

.―Pois não é? ser ferido em duello por causa d'uma senhora!... Quem seria a ditosa?

Eduardo

.―Era a filha do meu sapateiro, minha senhora...

Leocadia

(

com seriedade

).―Não diga tal... V. s.

a

não se fascinava por tal mulher!...

Eduardo

.―Pois fascinei-me... Era linda como a edição mais nitida, que sahiu da typographia celeste. Nos seus olhos espelhava-se a candura, e dos labios fugiam-lhe espiritos d'azas scintillantes, como não vi em nenhuns, excepto nos de v. exc.

a

...

Leocadia

.―Dispenso a comparação...

Eduardo

.―E faz bem, minha senhora!... Ella por fim, cahiu do ministerio a que eu a levantei, e tornou-se uma gorda matrona casada com um gordo bate-folha, que é a minha vergonha porque teve a petulancia de luctar comigo, e vencer-me...

Leocadia

.―E foi esse que teve o duello com v. s.

a

?

Eduardo

.―Nada... foi uma segunda victima, que ainda hoje faz quadras a uma certa visão que lhe appareceu no amanhecer da vida... E esta visão é a sobredita filha do meu sapateiro...

Leocadia

.―A sua vida é um poema epico... E o terceiro capitulo?

Eduardo

.―É verdade, o terceiro capitulo... O terceiro capitulo... é isto... É este riso, esta zombaria, esta conscienciosa abnegação de mim mesmo... é a resignada docilidade com que me prestei a ser o instrumento de v. exc.

a

para ferir a vaidade de seu marido... Queira desculpar-me... Entristeci-a? O passado, passado... Quer v. exc.

a

que eu lhe escolha duas conchinhas? (

Procurando na areia

). Aqui está uma bem bonita... (

Reparando

). Ahi vem a sua amiga Julia...

Leocadia

(

sobresaltada

).―Ai!... vem?...

Eduardo

.―Como se dá ella com o marido, sabe dizer-me?

Leocadia

.―Não sei.. penso que não é feliz...

SCENA IV.

Leocadia, Julia, e Eduardo.

Julia

.―Snr. Eduardo, se me concedesse alguns instantes com a minha amiga...

Eduardo

.―Pois não, minha senhora... (

Sahe

).

Julia

.―São só duas palavras... Vi entrar teu marido para a barraca, e não nos vê... Leocadia... Eu não sou mais feliz que tu... Jorge fez-nos desgraçadas a ambas... Tu sabes que o meu casamento com Alvaro foi um capricho que tenho sustentado com lagrimas... Mas tu não tens culpa... Sei que não és amada... Eu tambem o não seria... Sou ainda tua amiga... Não poderei prestar-me nunca a ser o cutello na mão do teu algoz... ahi tens essas cartas.

Leocadia

.―Que cartas são estas?!

Julia

.―São cartas, que teu marido me escreve...

Leocadia

.―Meu marido!...

Julia

.―Sim... mais nada... adeus... (

Sahe

).

SCENA V.

Leocadia, e depois Eduardo.

Leocadia

.―Vou sondando toda a profundidade do meu abysmo... Eu bem sabia que era infeliz; mas tanto... não!...

Eduardo

.―Parece-me que a sua amiga não veio dar-lhe prazer... Tão descorada, minha senhora! Que tem?

Leocadia

.―Nada, snr. Eduardo... É uma nuvem passageira... Queira dizer a Jorge que me retirei...

Eduardo

.―Eu acompanho-a...

Leocadia

.―Não consinto... a minha casa é alli...

Eduardo

.―Não insto, minha senhora, para não ser importuno... (

Ella sahe, cortejando-o

).

SCENA VI.

Eduardo, e depois a viscondessa de Valbom, com um creado de farda, que conduz em sacco de damasco vermelho a roupa de banho.

Eduardo

(

accendendo um charuto

).―Ora aqui está o que são os môços honestos, honrados, e bem comportados!... São estes dous maridos. Jorge passa por um mancebo exemplar; Alvaro dizem que é o typo da bondade; e, comtudo, vou descobrindo que as respectivas mulheres, se escrevessem jornaes, estavam em opposição com os maridos. Os honrados são elles... Eu é que sou o cynico!... Esta sociedade é uma grande patacuada!... Ahi vem a viscondessa de Valbom. Não me larga desde aquelle baile... (

Olhando sobre o hombro

). Ella cá está comigo... (

Erguendo-se

). Minha querida senhora viscondessa, como passou v. exc.

a

desde hontem?

Viscondessa

.―

Passablement

. Esperei-o á noite para a partidinha, e o maganão não nos quiz honrar com a sua visita...

Eduardo

.―Urgentes negocios obrigaram-me a hir ao Porto.

Viscondessa

.―Namôro... diga a verdade... namôro...

Eduardo

.―Não, minha senhora. O meu coração está desde muito na terceira secção... Não ha poder que o faça entrar na effectividade...

Viscondessa

.―Ora deixe-se d'isso... Eu sei que ama... e ama uma senhora... que... digo?

Eduardo

.―Se lhe apraz...

Viscondessa

.―Não direi; mas... lembre-se de que

la proprieté n'est pas un vol

como diz Proudhon...

Eduardo

.―Eu acredito que a propriedade não seja um roubo, e por isso mesmo não tento contra ella.

Viscondessa

.―Tenta, tenta... Isso não é bonito... Se quer merecer a minha estima, não tente partir os vinculos matrimoniaes de... eu bem sei...

Eduardo

.―E v. exc.

a

acha que sou indigno da sua estima, se tentar...

Viscondessa

.―Pois não? Ha cousa mais sagrada sobre a terra?! A reputação d'uma senhora!... (

Mudando de tom

). É verdade que muitas vezes toda a philosophia é pouca para conter os impetos do coração... (

Mudando para o tom da honestidade

). Ainda assim, a mulher digna reprime-se, e faz-se superior a si propria... (

Mudando de tom

). Apesar d'isso, eu absolvo alguns erros, que muitas infelizes commettem, porque tem a imprudencia de tentar com a ponta do pé o desfiladeiro, e por fim...

Eduardo

.―Escorregam...

Viscondessa

.―Justamente...

Eduardo

.―E n'esse caso...

Viscondessa

.―Está a pessoa de quem fallamos...

Eduardo

.―Nós não fallamos de pessoa nenhuma... Queria eu dizer que n'esse caso não está de certo v. exc.

a

Viscondessa

.―Quem sabe!... (

Á parte

). Ai! o que eu fui dizer!...

Eduardo

.―Sei-o eu porque a conheço desde menino, sempre esposa exemplar...

Viscondessa

.―Desde menino, não!... pois que annos tem v. s.

a

?...

Eduardo

.―Trinta, minha senhora.

Viscondessa

.―Trinta?!... Ha-de ser isso... Não levamos grande differença...

Eduardo

.―Queira perdoar-me, minha senhora, mas eu andava na escóla, quando v. exc.

a

deu um baile para celebrar os annos de seu filho, que era meu condiscipulo... Ha quantos annos isto vai!

Viscondessa

(

enfronhada

).―Dê-me licença que vá ao meu banho... São horas, e a maré principia a vasar...

Eduardo

.―Vasa, vasa, minha senhora... Será bom aproveitar a vasante...

Viscondessa

(

á parte

).―É muito grosseiro!...

Eduardo

.―Vai a resfolegar polvora pelos narizes...

D'esta vez, creio que aboli este vinculo de nova especie!... Ahi está um dos taes cincoenta namoros de que falla Leocadia... E é por causa d'estas... que me chamam inconstante!... Que pessimo charuto!... Gilbert se vivesse n'este tempo suicidava-se com um d'estes canudos de acido prussico...

SCENA VII.

Eduardo e Jorge.

Jorge

.―Leocadia?

Eduardo

.―Já lá vai... Disse que hia para casa.

Jorge

.―Dá-me lume... (

accende o charuto

). Quero dar-te um conselho, Eduardo...

Eduardo

.―Sim?!

Jorge

.―Não te cases.

Eduardo

(

Alvaro, sem ser visto, entra n'uma das proximas barracas

).―Deus me livre... Sendo eu, como realmente sou um cynico, pobre da mulher que tivesse de luctar com o meu cynismo!... O casamento é bom para ti que és um anjo de virtude, e para Alvaro que é o typo da sisudez... Diz-me cá, és muito feliz, não és?

Jorge

.―Não. Estou cançado... Minha mulher... é uma mulher...

Eduardo

.―É

uma

mulher? Pois louva a Deus por não serem duas... Quantas querias tu? Aposto que estás desmoralisado como um turco?!

Jorge

.―Sempre galhofeiro... Agora serio... Tu que és homem de expedientes, não me dizes como eu possa ser feliz com Leocadia?

Eduardo

(

ironicamente

).―Estás a zombar! Pois o anjo de virtude vem consultar o cynico!? Não abuses da tua superioridade, Jorge...

Jorge

.―Se tu soubesses que tormentos aqui vão n'esta alma!... A paixão allucinada que me abriu o inferno no coração!... Tenho necessidade de respirar... Quero que tu me ouças, porque não és d'esses tartufos que torcem o nariz á menor expansão d'um espirito atormentado!... Sabes que amo até ao delirio uma mulher?

Eduardo

.―É a tua naturalmente... Isso é muito justo...

Jorge

.―Não é a minha...

Eduardo

.―Pois a minha tambem não...

Jorge

.―Não motejes a minha dôr... Se me não queres ouvir com seriedade, calemo-nos...

Eduardo

.―Ora diz...

Jorge

.―Eu amo... Julia...

Eduardo

.―A mulher de... Oh escandalo!... Falla baixo que te não ouçam os caranguejos...

Jorge

.―Não soffro o escarneo... És incapaz de comprehender um sentimento nobre...

Eduardo

(

rindo

).―Sim... esse sentimento é muito nobre... Eu é que sou o cynico... Tens razão... estou estragado a ponto de não comprehender a nobreza d'esse sentimento... Prega essa moral, verás o galardão que recebes...

Jorge

.―Não me importa a sociedade... Perco-me por aquella mulher... Era ella quem eu amava... Casei com Leocadia por um capricho... mas a mulher do meu coração era Julia...

Eduardo

.―E ella... concorda?

Jorge

.―Não... despresa-me... recebe as minhas cartas, e não me responde...

Eduardo

.―Mas sempre vai lendo as cartas?... Então continúa, visto que esse sentimento é nobre... Eu é que sou o cynico...

Jorge

.―E quem sabe o fim para que ella recebe as cartas?

Eduardo

.―Talvez para papelotes, quando se frisa...

Jorge

.―Adeus!... estás insoffrivel... Isso offende!...

Eduardo

.―Pois eu sei cá para que ella recebe as cartas?

Jorge

.―Talvez para mostral-as a minha mulher... e vingar-se assim...

Eduardo

.―Isso póde ser... A historia antiga conta tres factos semelhantes. O primeiro aconteceu com Dido, a respeito de Eneas; o segundo com Fredegonda...

Jorge

.―Deixa lá isso... que me importa a mim a historia?... Fazes-me um favor?... Se fallas com ella, pódes sondal-a a meu respeito...

Eduardo

.―Sondal-a?... não sei de que modo!... Tu não sabes que o marido é meu figadal inimigo? Só se a vir por aqui destacada do osso do seu osso... Ella ainda agora aqui esteve com D. Leocadia...

Jorge

.―Com minha mulher!

Eduardo

.―Sim...

Jorge

.―Estou perdido!... Deu-lhe as cartas!...

Eduardo

.―Daria?! Que grande immoralidade!

Jorge

.―E por isso Leocadia se retirou...

Eduardo

.―E olha que não hia boa... Parece-me que a estas horas já ella admirou o estilo das tuas preciosas cartas!... Olha... queres vêr Julia?... Ella vem para aqui... Esconde-te atraz d'essa barraca, em quanto ella te não vê... e quando passar, falla-lhe...

Jorge

(

cumpre

).―Que hei-de eu dizer-lhe?!...

Eduardo

(

sorrindo

).―Vê se ella comprehende o

o teu nobre sentimento

...

Jorge

.―Ella não pára a ouvir-me... tu verás...

Eduardo

.―Se não parar, anda tu com ella... (

Retira-se

).

SCENA VIII.

Jorge e Julia.

Jorge

.―Não tenho animo... Sou um imbecil...

Julia

(

sem o vêr, sentando-se em cadeira

).―A minha querida vingança!... Não vim só para soffrer... Alguem ha-de soffrer comigo...

Jorge

(

dirigindo-se com irresolução

).―Animo!

Julia

(

voltando-se de repente, e erguendo-se

).―O senhor!... (

Quer retirar-se

).

Jorge

(

sustendo-a

).―Não me fuja...

Julia

.―Retire essa mão, senhor!

Jorge

.―Esse enfado é muito pouco senhoril... Esta mão não mancha a sua pureza...

Julia

.―Para mim tem o horror de mão que me feriu com um punhal... O senhor não tem dignidade nenhuma... Retire-se, que meu marido póde vêl-o.

Jorge

.―Que veja... Eu não temo seu marido...

Julia

.―Pois não o tema a elle, mas respeite-me a mim, para que a sua posição de marido seja respeitada... (

Eduardo tem vindo por entre as barracas esconder-se atraz da mais proxima do dialogo

).

Jorge

.―Eu já me não respeito na minha posição... Seu marido que tire represalias, que eu sou indifferente a todos os ultrajes d'essa ordem.

Eduardo

(

á parte

).―Eu é que sou o cynico...

Julia

.―Então devo acreditar que o senhor requintou em immoralidade...

Jorge

.―Acredite o que quizer... Saiba que foi uma paixão que me perverteu... Hei-de cuspir na sociedade, visto que a não posso calcar aos pés... Despreso todas as formalidades... Para a desesperação não ha conveniencias a guardar...

Eduardo

(

á parte

).―Eu é que sou o cynico!...

Julia

.―Pois, senhor, eu entendo que as devo guardar todas... Snr. Jorge, tenha vergonha diante da sua propria consciencia. (

Vai retirar-se

).

Jorge

(

segurando-a

).―Ha-de ouvir-me... Que destino deu ás minhas cartas?

Julia

.―Entreguei-as a sua senhora.

Jorge

.―Isso foi um vil procedimento...

Julia

.―Deveria antes entregal-as a meu marido?

Jorge

.―Não tenho nada com seu marido, Julia... Não me cite tantas vezes o nome de seu marido, que é de nenhuma importancia n'este objecto...

SCENA IX.

Os mesmos e Alvaro sahindo da barraca, vestido de banho.

Julia

.―Ah! meu marido...

Eduardo

(

escondido

).―Isto ha-de ser bonito...

Alvaro

.―Pois, snr. Jorge, eu pensei que importava alguma cousa n'este negocio... Isto que é? Cahiram miseravelmente n'um silencio estupido!... Julia, tu não fallas? Snr. Jorge! não fique embuchado!... O senhor está-me dando uma importancia, que não era a do seu programma...

Jorge

.―Esta situação é melhor que a não prolonguemos. V. s.

a

vai pedir-me uma satisfação... (

Julia retira-se

).

Alvaro

.―Está enganado... Não tenho de que lhe pedir satisfação... Faz v. s.

a

muito bem... Não lhe desagradam os olhos d'aquella senhora, e põe os seus meios... Tudo isto é natural... Que satisfação lhe hei-de eu pedir!...

Eduardo

(

á parte

).―Eu é que sou o cynico!

Jorge

.―Acabemos, snr. Alvaro...

Alvaro

.―Tranquille-se, cavalheiro... Eu ainda não disse senão metade. Visto que o senhor gosta dos olhos de minha mulher, eu aproveito a occasião para lhe dizer que não desgosto dos olhos da sua. Com a differença, porém, que eu, declarando-me a v. s.

a

, dou-lhe a importancia que v. s.

a

me não deu... Visto que nos encontramos no mercado, permutaremos os olhos de nossas mulheres. O senhor fica com os olhos da minha, e eu com os olhos da sua... Parece-me que me vai pedir uma satisfação...

Jorge

.―Não sei com que intenção me faz semelhante proposta...

Alvaro

.―Com a melhor intenção do mundo... É um contracto bilateral... sem testemunhas... Eu concedo-lhe a frequencia de minha casa para v. s.

a

estudar bem os olhos de minha mulher, e o cavalheiro franqueia-me occasiões de estudar os olhos da sua.

Eduardo

(

á parte

).―Eu é que sou o cynico!...

Jorge

.―E se na sociedade se desconfia esta convenção?

Alvaro

.―Deixe-se d'isso... A sociedade, deu-nos diplomas de excellentes pessoas... Eu creio que ambos temos a finura necessaria para desempenharmos, sem pateada, os nossos papeis... Aqui o grande plano é que afastemos do nosso commercio Eduardo, porque esse tem a alma sufficientemente estragada para nos adivinhar...

Eduardo

(

á parte

).―Muito, obrigado!... Até este me dá diploma de cynico!

Alvaro

.―Agora, meu amigo, vou tomar banho... Hoje á noite espero-o com sua senhora em minha casa para tomarem uma chavena de chá... (

Apertando-lhe a mão

).

Au revoir

, meu caro senhor... (

Sahem

). Ó banheiro!... Vamos lá, que nos foge o mar...

SCENA X.

Eduardo

.―Visto que eu sou o cynico, e os virtuosos são estes, passo a ser um pouco mais virtuoso que elles, para que elles sejam cynicos como eu... Alguma vez hei-de atinar com a virtude... A verdadeira acho que é a d'elles... O genero não é caro... Veremos...

CORRE O PANO.

ACTO III.

Passa-se em casa do visconde de Valbom. Sala faustuosa: luxo sem gosto: muita cadeira de estôfos amarellos: muito relogio: muita bugiaria de vidro, de mistura com porcellanas de Sevres, e adornos d'ouro, sem significação nem serventia. É noite.

SCENA I.

Viscondessa de Valbom, D. Julia, Jorge, visconde de Valbom.

Um creado com uma bandeja, recebe as chavenas do chá; e retira-se.

Viscondessa

(

a Jorge

).―A snr.

a

D. Leocadia não virá?

Jorge

.―É natural que venha.

Viscondessa

.―Com o capellão?

Jorge

.―Sim... com o capellão...

Viscondessa

(

a Julia

).―O snr. Alvaro que andará a fazer?

Julia

.―Naturalmente... das suas...

Visconde

.―Das suas... isso que quer dizer?! Alvaro é o exemplo da honradez personalisada...

Julia

.―Agradecida a v. exc.

a

, snr. visconde.

Viscondessa

.―Não tem de que, menina. Seu marido é um anjo, e a sociedade faz-lhe justiça. A reputação que elle tem grangeado é a prova infallivel das suas virtudes. Elle, e aqui o snr. Jorge são os dous cavalheiros mais queridos da nossa roda. Foram rapazes, sem rapaziadas. São maridos, sem mancha, e hão-de ser sempre modêlos de probidade a todos os respeitos.

Jorge

.―Muito grato, minha senhora. Tenho empregado todos os esforços por merecer á sociedade um bom conceito, e creio que o tenho conseguido...

Viscondessa

.―Porque o merece. Se o não merecesse, creia que o não teria, porque a opinião publica é justiceira, e nunca se engana com os bons, ou com os maus... Não se lembra da opinião que teve Eduardo?

Jorge

.―Uma pessima opinião.

Visconde

.―Oh! de certo, aquillo era um homem com uma lingua depravada, e costumes horriveis...

Viscondessa

.―Mas vejam que lhe chegou a sua hora de reflexão. Retirou-se completamente da sociedade; viveu tres mezes encerrado comsigo mesmo na solidão, e voltou para o mundo completamente desfigurado. É outro homem...

Julia

.―Totalmente outro.

Visconde

.―Faz mesmo espantar a differença que o homem fez!...

Jorge

.―É pasmosa!

Viscondessa

.―As suas palavras são todas serias, medidas, e reflectidas. Os seus modos são circumspectos, civis, e insinuantes. O seu vestir é muito grave, muito decente, e muito sisudo... Dizem-me que dá esmolas... tenho lido nos jornaes alguns actos de philantropia que o honram muito... em fim, está um cavalheiro, que não deixa nada a desejar! Vejam o que são as cousas!... Aqui ha quatro mezes, se elle me olhasse para uma das minhas creadas, despedil-a-hia immediatamente; e hoje, se eu tivesse uma filha, dava-lh'a com immensa satisfação...

Jorge

.―Muito se lucra, quando se é honrado!...

Visconde

.―Pois não! Não ha nada como a honra!

Jorge

.―Oh! a honra é a salvaguarda de todas as inquietações!

Viscondessa

.―Que precipicios não encontrou Eduardo em quanto se deixou hir á mercê dos seus extravagantes desejos!...

Visconde

.―Oh!... era insoffrivel!... Nunca se viu assim uma libertinagem!...

Julia

.―Ouvi fallar tão mal d'esse homem, e nunca me disseram distinctamente os seus crimes.

Visconde

.―Immensos, immensos...

Viscondessa

.―Immensissimos, immensissimos...

Julia

.―Mas posso eu saber algum d'elles?

Visconde

.―Eu não sei de nenhum; mas dizem por ahi que são muitos... muitos...

Julia

.―E a snr.

a

viscondessa sabe quaes são?

Viscondessa

.―Tambem não sei; mas, na boa roda, diziam que elle era um prodigio de immoralidade...

Julia

.―E o snr. Jorge? Esse ha-de saber muitas cousas...

Jorge

.―Creio que ha muitas scenas horriveis na vida d'esse homem, todavia, eu não sei nenhuma...

Julia

.―Mas vive com elle ha mais de sete annos...

Jorge

.―É verdade... mas, como elle me não chamava a testemunhar os seus desvarios, nada sei...

Julia

.―O que se segue é que nenhum de nós sabe dizer em que consistiu a depravação de Eduardo!...

Viscondessa

.―A sociedade não se engana, menina. Ella que o condemnou lá sabe os motivos porque o fez. A virtude não é nunca infamada. Veja lá se seu marido, e aqui o snr. Jorge foram victimas da calumnia!...

Julia

.―Mas eu queria que me citassem um crime de Eduardo...

Um creado

―O snr. Eduardo...

SCENA II.

Os mesmos e Eduardo.

(Eduardo veste todo de preto. Maneiras muito acanhadas, dando-se uns ares de virtude idiota. Uma cortezia a cada palavra. Recolhido sempre em si, affectando uma imbecilidade moral, de fazer piedade).

Viscondessa

e

visconde

.―Muito bem vindo.

Eduardo

.―Como passaram vv. exc.

as

?

Viscondessa

.―Maravilhosamente... queira sentar-se.

Eduardo

.―E a snr.

a

D. Julia?

Julia

.―Um pouco affectada dos nervos.

Eduardo

.―Muito sinto, minha senhora, Deus a poupe a soffrimentos de todo o genero... E o meu amigo Jorge... como passa?

Jorge

.―Assim, assim...

Viscondessa

.―Então! senta-se? (

Eduardo senta-se

).

Eduardo

.―Como está tua senhora, Jorge?

Viscondessa

.―Estamos á espera d'ella.

Eduardo

.―E seu marido, snr.

a

D. Julia?

Visconde

.―Não deve tardar... (

Eduardo em ar de pensativo, esfregando as costas das mãos

).

Viscondessa

.―Elle ahi vai recahir nas suas melancolias! Não o queremos assim! Que tem?

Eduardo

.―Pesares... que vem de longe, minha senhora...

Visconde

.―O passado já lá vai... Agora v. s.

a

é outro homem... Toda a gente diz que quem o viu e quem o vê...

Viscondessa

.―Nada de tristezas. A virtude é sempre alegre... Ó menina, vá tocar um bocadinho... Tenho notado que o snr. Eduardo está melhor quando ouve tocar... Que quer que ella toque?

Eduardo

.―O que s. exc.

a

quizer...

Julia

.―Cousas tristes?

Viscondessa

.―Não, menina! Bem triste está elle!... Toque alguma cousa do Barbeiro de Sevilha...

Julia

.―Pois, sim... (

Vai tocar na sala immediata

).

Viscondessa

(

a Eduardo

).―Quer que vamos á sala do piano, ou quer gosar de longe?

Eduardo

.―De longe, se v. exc.

a

não manda o contrario. (

Jorge, logo depois, segue Julia

).

Visconde

.―Muito folgamos de o vêr rehabilitado na opinião publica.

Eduardo

.―E estarei-o eu por ventura?

Viscondessa

.―Está... Veja... n'um só mez recuperou os creditos perdidos em tantos annos...

Eduardo

.―Muito devo a Deus, porque é o contrario que costuma acontecer... Então a snr.

a

D. Julia não nós dá o prazer de a ouvirmos? Vai-nos demorando o goso...

Visconde

.―Eu vou lá... (

Sahe

).

SCENA III.

Eduardo e a viscondessa.

Viscondessa

(

com vivacidade

).―Vês como sahiu certo tudo o que eu te disse? A sociedade é uma excellente pessoa.

Eduardo

(

mudança de tom. Ouve-se o piano

).―Tenho notado isso... Achas que vou bem assim?

Viscondessa

.―O melhor possivel... Ponto é que te conserves...

Eduardo

.―N'este pé de virtude? Já me não desmancho... E, com effeito, dizem que sou beato, virtuoso, martyr, contricto...

Viscondessa

.―Até o visconde está espantado da tua mudança...

Um creado

.―A snr.

a

D. Leocadia, e o snr. Alvaro. (

Sahe

).

Viscondessa

.―Não sei o que me parece este grupo, a estas horas!... Sabes que eu suspeito...

Eduardo

.―Suspeitas?!... Oh!... eu não... Facilidades da innocencia!...

SCENA IV.

Os mesmos, D. Leocadia, e Alvaro.

Viscondessa

.―Tão tarde!...

Leocadia

.―Foi impossivel aquietar o pequeno até agora...

Eduardo

(

tornando ao tom beatifico

).―Passou bem, minha senhora?

Leocadia

.―Bem...

Alvaro

(

dá uma gargalhada

).

Viscondessa

.―Que riso é esse?

Alvaro

.―Não é nada, minha senhora... Quem toca, é minha mulher?

Viscondessa

.―É sim... se quer vá á sala...

Alvaro

.―Não, minha senhora. (

Senta-se trombudo a um canto da sala

).

Viscondessa

(

a Leocadia

).―Que terá elle? Estranho-o!...

Leocadia

.―Eu não sei... Chegou a minha casa quando eu estava para sahir... Disse-me que me acompanhava... veio comigo sem dizer palavra... e não sei mais nada, nem me importa...

Eduardo

(

pesaroso

).―Terá dôr de dentes? São dôres dos nossos peccados... Deus nos acuda...

Viscondessa

.―Venha cá, snr. Alvaro!... O nosso bom amigo Eduardo, que é o S. Paulo dos nossos tempos, pergunta se lhe doem os dentes... (

Alvaro dá outra gargalhada

).

Leocadia

.―Ora entendam lá aquillo!...

SCENA V.

Os mesmos, e Julia, Jorge, e o visconde.

Jorge

(

apertando a mão de Leocadia

).―Até que finalmente...

Julia

(

apertando a mão de Alvaro

).―Com effeito... demoraste-te.

Alvaro

.―Negocios...

Leocadia

.―O pequeno não queria adormecer... (

Alvaro dá terceira gargalhada

).

Jorge

.―Que riso é esse?

Julia

.―A que vem o destempero d'essa gargalhada?...

Viscondessa

.―Lá está outra vez mergulhado na sua melancolia o snr. Eduardo!... Quer, talvez, mais musica...

Eduardo

.―Se não receasse ser indiscreto, pedia a v. exc.

a

aquella aria da Norma... no acto final...

Viscondessa

.―Executada por quem?

Eduardo

.―Por v. exc.

a

... dá-lhe uma graça particular... Não quero offender as duas senhoras que a desempenham habilmente; mas não sei que toque melancolico...

Viscondessa

.―Pois sim... hirei... Vamos todos...

Eduardo

.―Se me concedesse...

Viscondessa

.―Ficar sósinho aqui?... Pois sim... fique.

Visconde

.―Eu cá fico com elle...

Viscondessa

.―Não, não... deixa-o... são necessidades organicas... Eu tambem tenho d'estas tempestades moraes...

Vozes

.―Pois sim... pois sim... (

Sahem

).

SCENA VI.

Eduardo, e depois Julia.

Eduardo

.―A gargalhada de Alvaro quer dizer muito... (

Ouve-se a aria da Norma

).

O maldito veria alguma cousa? Se viu, lá vai a terra todo o meu edificio de virtude... Dizem que ella é facil, eu vejo-me illaqueado n'uma rede tal, que se me descobrem não sei por onde hei-de evadir-me... Que pena se me não deixam ser honrado!... Tenho, só n'um mez, colhido tantas palmas de virtude, que, passados tres, n'este andar, eu todo seria um palmito...

Julia

(

agitada

).―Eduardo...

Eduardo

.―Julia...

Julia

.―Pelo amor de Deus, desvanece-me d'uma suspeita que me despedaça...

Eduardo

.―Que é?!

Julia

.―Tu amas Leocadia.

Eduardo

.―É falso...

Julia

.―Mas ella adora-te com delirio...

Eduardo

.―Que culpa tenho eu?

Julia

(

tomando-lhe a mão com frenesi

...)―Não me sacrifiques a ella... a nenhuma... porque nenhuma te amará tanto...

Jorge

(

ao fundo

).―Isto é espantoso!...

Eduardo

.―Não vês que represento um papel hypocrita, tão contra o meu caracter, para te não perder?

Jorge

(

o mesmo

).―É incrivel!...

Julia

.―Conheço tudo... meu anjo... Vou á sala... póde notar-se a minha falta...

SCENA VII.

Eduardo , e depois Leocadia, e depois o visconde na porta do fundo sem ser visto. (Ouve-se ainda a musica da Norma).

Eduardo

.―Tornemos á posição do benemerito Tartufo. Oh meu querido Moliere, onde quer que estás recebe os meus agradecimentos pelo excellente molde que me cá deixaste!

Leocadia

(

impetuosamente

).―Eduardo... só duas palavras... Olha que Alvaro viu-te sahir de minha casa...

Eduardo

.―Viu?! estão explicadas as gargalhadas...

Leocadia

.―Receio maus resultados... Elle é capaz de tirar qualquer vingança... Oh meu Deus!... estou sobre um vulcão...

Eduardo

.―E eu dentro d'uma tina... Deixa correr os successos... Vai, que podem descobrir-nos...

Visconde

(

á parte

).―Como se explica isto?

Leocadia

.―Que has-de tu dizer se elle nos denuncia?

Eduardo

.―Provo que não sou mais immoral que elle... As pretenções são as mesmas...

Visconde

.―Isto é bonito!... (

Retira-se

).

Leocadia

.―Que situação a minha!...

Eduardo

.―Retira-te, que podem surprehender-nos... (

Leocadia sahe

).

SCENA VIII.

Eduardo, e depois a viscondessa, e Alvaro ao fundo.

Eduardo

.―Atropellam-se os acontecimentos!... Tudo isto faz persuadir que eu tenho sido um homem verdadeiramente virtuoso! No tempo em que eu era cynico, antes que a sociedade me chamasse regenerado, as mulheres não andavam assim n'uma dobadoura em redor de mim! Ó benevola opinião publica, quanto te devo!... Ahi vem outra que me não faz muita honra!...

Viscondessa

.―Aproveitei um instante para estar só comtigo antes que elles venham...

Eduardo

.―Como és carinhosa!

Viscondessa

.―Desconfiei que Leocadia tivesse vindo para aqui... Sabes que tenho ciumes de todas as mulheres!...

Alvaro

(

á parte

).―Que ouço!...

Eduardo

.―Continuo a representar bem? A platea applaude?...

Viscondessa

.―O visconde disse-me n'este momento que tinha muito que contar-me... perguntei-lhe a que respeito... e elle de fugida pronunciou o teu nome e de Leocadia...

Alvaro

(

aparte

).―E Leocadia!...

Eduardo

.―E Leocadia!... Como se entende isso?...

Viscondessa

.―Não sei... Mudemos de tom que elles ahi vem...

SCENA IX.

Os mesmos, e Julia, Alvaro, Jorge e Leocadia.

Viscondessa

(

com emphase

).―Pois não queremos uma virtude assim melancolica... É necessario que resurja d'esse abatimento moral, snr. Eduardo... A verdadeira felicidade está na consciencia. O seu passado não tem a pedir contas ao seu presente... A sociedade abre-lhe o braços como ao filho prodigo... (

Alvaro solta uma risada

).

Que riso é esse, snr. Alvaro?

Alvaro

.―É um riso nervoso!...

Eduardo

(

á parte

).―Mau!...

Leocadia

.―Não tem razões para tanta melancolia!... É estimado geralmente pelas suas virtudes, e merece a confiança de todas as pessoas... (

O visconde solta uma risada

).

Que risada é essa, snr. visconde?

Visconde

.―É uma risada como a d'aquelle senhor (

apontando Alvaro

). É uma risada nervosa!

Eduardo

(

á parte

).―Peor!...

Julia

.―Parece que escarnecem a virtude!... Estas transfigurações moraes custam muitas amarguras... Eu comprehendo a melancolia do snr. Eduardo... Lembra-se do que foi, e, no prazer do que é, sente pesar de o não ter sido desde muito... (

Jorge solta uma risada

).

Tambem o senhor se ri?

Jorge

.―É uma risada como a d'aquelle senhor... (

apontando Alvaro

) é uma risada nervosa...

Eduardo

(

á parte

).―Está tudo por terra!... (

Alto

). Vejo que os meus amigos estão muito nervosos!... Banhos de mar podem ser-lhes proveitosos... Não acho bonito que me escarneçam... Fazem-me lembrar a fabula do leão e do... Em fim, seja tudo em desconto das minhas culpas!... (

Riem todos tres

).

Ora comprehendam isto!... É um abuso do riso!... Eu não lhes mereço isso, senhores! Dizem por ahi que eu sou um honrado homem, e não se cospe assim na honra...

Jorge

(

á parte

).―Vou-lhe arrancar a mascara!...

Visconde

(

á parte

).―Hypocrita!

Alvaro

(

á parte

).―O impostor não passará d'hoje...

Viscondessa

.―Que falsa posição é esta?

Leocadia

.―Não entendo isto!

Julia

.―Nem eu!

Eduardo

.―Nem eu!...

Viscondessa

.―Que modos são esses!... em que pensam os senhores?...

Alvaro

.―Eu pensava nos recursos do talento depravado!... Senhores!... é necessario que se acabe este comedia d'algum modo!... Aquelle senhor (

indicando Eduardo

) é um impostor!

Eduardo

.―Eu! Calumnia! infamia... quero as provas...

Alvaro

.―A snr.

a

D. Leocadia que as dê...

Visconde

.―Justamente: a snr.

a

D. Leocadia que as dê!...

Jorge

.―Minha mulher!...

Leocadia

.―Eu!

Eduardo

.―Ella!...

Alvaro

e

visconde

.―Sim! ella!...

Jorge

.―Pois bem... cáia a mascara... Esse senhor é um infame seductor!

Eduardo

.―Eu!

Viscondessa

.―Elle!

Jorge

,

visconde

,

e

Alvaro

.―Sim, sim, elle!

Eduardo

.―Provas, senhores calumniadores!

Jorge

.―Provas? a snr.

a

D. Julia que as dê!

Alvaro

.―Minha mulher!

Julia

.―Eu!

Eduardo

.―Ella!

Jorge

e

visconde

.―Sim, sim, ella!

Alvaro

.―N'esse caso... rasgue-se o véo do mysterio... Todos somos victimas da hypocrisia d'esse homem!

Visconde

.―Menos eu!

Viscondessa

.―Nem eu!

Eduardo

.―Provas, senhores!

Alvaro

.―Provas? a snr.

a

viscondessa que as dê.

Visconde

.―Minha mulher!

Viscondessa

.―Eu!

Eduardo

.―Ella!

Alvaro

e

Jorge

.―Sim, sim!

Eduardo

.―Todas tres!...

Alvaro

(

para Julia

).―Responde!

Jorge

(

para Leocadia

).―Que dizes a isto?

O visconde

(

para a viscondessa

).―Pois não te defendes?

Todas tres

.―É falso!...

Eduardo

(

mudando de tom

).―Eu vou defendêl-as, minhas senhoras!

Alvaro

.―A snr.

a

D. Leocadia não tem defeza nenhuma, porque...

Eduardo

.―Silencio!

Jorge

.―A snr.

a

D. Julia não tem defeza nenhuma, porque...

Eduardo

.―Esperem!...

Visconde

.―Concordo que nenhuma d'essas tem defeza!... mas é preciso que me provem que...

Eduardo

.―Alto lá... Queiram retirar-se, minhas senhoras... É defeza a presença das rés no tribunal que vai installar-se... Queiram retirar-se... (

Ellas sahem

).

SCENA X.

Eduardo, Jorge, Alvaro, e o visconde.

Eduardo

.―Venham cá... Os senhores não tem ouvido dizer que eu me regenerei? Respondam, sim ou não?

Alvaro

.―Qual

regenerou-se

! É um impostor!...

Eduardo

.―Concordemos em que sou um impostor. Mas digam-me: a opinião publica a meu respeito é essa?

Visconde

.―Não é... porque o senhor enganou-nos.

Eduardo

.―Pois, se não é, porque não respeitam os senhores a opinião publica á qual me mandaram obedecer?

Visconde

.―Já lhe disse que a opinião publica está illudida com o senhor!

Eduardo

.―E d'antes? ha quatro mezes era mais verdadeira que hoje?

Jorge

.―Não quero disputas... Não respondo ao seu interrogatorio... Quero uma satisfação immediata.

Alvaro

.―E eu tambem.

Eduardo

.―E o snr. visconde?

Visconde

.―Veremos, depois...

Eduardo

(

sorrindo

).―Acha que não vale a pena decidir já... Pois lá hiremos... Mas, antes d'isso, queiram attender-me: os senhores, com uma bala, em duello, podem matar-me, primeira loucura; e, se me não matam, arruinam a minha boa reputação, que eu aprecio mais que a vida; segunda asneira... Que lucram os senhores com isto?

Alvaro

.―Nada de philosophias!... É indispensavel para a minha honra um duello...

Jorge

.―Não prescindo.

Eduardo

.―Pois se não prescindem, lá vamos... Mas os primeiros que hão-de bater-se um com o outro, são os senhores! (

Indicando Alvaro e Jorge

).

Alvaro

e

Jorge

.―Nós?!...

Eduardo

.―Os senhores...

Alvaro

.―Porque?!

Eduardo

.―Porque teem trabalhado reciprocamente na sua deshonra.

Jorge

.―Isso é uma nova infamia!

Eduardo

.―Mãos na consciencia, meus amigos! O contracto feito ha quatro mezes na praia dos Inglezes não os exime de serem honrados!

Alvaro

e

Jorge

.―Na praia dos Inglezes!...

Eduardo

.―Querem explicações?... Vejam lá o que resolvem... Querem explicações?... Que dizem?!... Esse silencio annuncia bonança... Aproveitemos o vento que é favoravel... Concordam em que occultemos mutuamente as nossas miserias? Eu de mim... (

Comprime os labios com os dedos

...) Os senhores, se são honrados como a opinião publica os apregôa, calem-se tambem...

Visconde

.―Mas eu é que não entro n'esse contracto...

Eduardo

.―Nem lh'o propuz... mas, v. exc.

a

contando com o silencio d'estes cavalheiros, de certo não quererá uma ignobil publicidade a respeito de... Veja lá o que resolve...

Visconde

.―Mas v. s.

a

não ha-de entrar mais em minha casa...

Eduardo

.―D'accordo. Amanhã embarco para a exposição de Pariz, e tenciono viajar tres annos... Serve-lhe a condição?... O silencio approva... Muito bem... (

Ao fundo

). Minhas senhoras! queiram entrar!... (

As damas entram

). Vv. exc.

as

foram julgadas innocentissimas e absolvidas... Continuamos todos a ser excellentes pessoas a todos os respeitos. Estes senhores, de parte a parte, pedem perdão das calumnias sordidas com que quizeram reciprocamente manchar os seus nomes...

Viscondessa

.―Assim o suppuz!

Julia

.―Assim devia acontecer!

Leocadia

.―Mas eu não perdôo a quem me infamou!

Viscondessa

e

Julia

.―Nem nós!

Eduardo

.―Hão-de perdoar, que são muito boas senhoras, e o perdão das injurias é o sentimento mais nobre do coração humano... Eu retiro-me com os meus creditos, e vv. exc.

as

ficam com os seus... Muito boas noites... (

Sahe

).

Os outros, como é natural, ficam a olhar uns para os outros com aquellas caras proprias de taes conflictos. O author vem fóra dizer que não ha na comedia allusões nenhumas. A platéa retira satisfeita, e continúa a guardar-se dos cynicos.

No dia seguinte os jornaes dizem que a comedia é immoral, e attentatoria contra os bons costumes. Os Sganarellos mandam comprar o jornal, e mostram-no aos compadres. O author, conscio de que o mordem, vem no conhecimento de que os mordentes são os legitimos

Orgons

d'este seculo; mas, um pouco menos felizes que os d'uma grande comedia, que o leitor, se se não recorda, ou não leu nunca, póde encontrar com o titulo de

Tartuffe

. Se, todavia, detesta a letra redonda, estude a vida pratica, e chegará á mais difficil das formaturas, ao

ultimatum

da sabedoria: «o conhecimento dos homens.» É tão facil, ao primeiro intuito, estremar o cynico do hypocrita!... Dai-me o primeiro, que repellis, e não me relacioneis com o segundo, que abraçaes: que eu, profundamente grato, ficarei pedindo a Deus que vos augmente o dinheiro, e vos conserve uma saude bem vermelha, bem gorda, para que a virtude não seja sempre uma irrisão n'este planeta. Disse.

FIM.

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