Capitulo XVIII
Reading edition
Em que a ama dá razão á donzela da cantiga de Bimnarder
«Disse (se vos lembra) que uma só cantiga me lembrava, que dizia meu pae que lhe ouvira a ama,—e foi d'esta maneira.
«Começava a cair a calma, e havia pedaço que o pastor da flauta estava assentado á beira d'este ribeiro, sobre um torrão, olhando para a parte contraria, d'onde a ama acertou por acaso de vir. Estava tangendo de mansinho a flauta, para consigo.
«Estando êle n'isto, deixára-se vir um rebanho de vacas, correndo, apressadas da mosca. Passando por êle, se foram meter na ágoa até aos peitos; e, deixando êle então de tanger, ficou como pensativo um pouco, porém, sem tirar a flauta d'onde a d'antes tinha, como transportado.
«Olhou para isto a ama, e quisera-lhe dizer que tangesse, que bem lhe parecera d'antes. Mas, estando para lh'o dizer, começou êle então a tocar a flauta, docemente, de maneira que fez detença a ama.
«Parecendo-lhe cousa triste, e mais que de pastor, deu-se toda a ouvi-lo, senão quando êle, depois de um pedaço grande, soltou a flauta, e começou assim:
«P'ra todos houve 'hi remedio P'ra mim só não no houve ahi: Inda mal que o soube assi. «Fogem as vacas p'ra a ágoa, Quando a mosca as vae seguir; Eu só, triste em minha mágoa, Não tenho a d'onde fugir: D'aqui não me posso eu ir, Estar não me cumpre aqui, Que o que eu quero não o ha 'hi. «Entretanto a calma dura, Tem esta fadiga o gado, A manhan pasce em verdura, A tarde em o seco prado; Dorme a noite sem cuidado, Pois tudo achou para si. Descanso, eu só o perdi. «A mim, nem quando o Sol sae, Nem depois que se vae pôr, Nem quando a calma mór cae, Não me deixa a minha dôr. Dôr, e outra cousa maior, Convosco hoje amanheci, Convosco honte' anouteci. «Crendo que assim findaria, Dei-me todo ao que padeço: Um dia leva outro dia, Por um mal, outro conheço. Se o fim responde ao começo, Ai! quam mal que me provi, Que no começo o fim vi! «Se nasci p'ra meu mal vêr, E não p'ra vê-lo acabado, Melhor fôra não nascer, Que vêr-me desesperado. E, pois que n'este cuidado Me traz tam cego após si, Inda mal que o soube assi! Fim «Entre lagrimas e prantos, Nasceu o meu pensamento. Cresceu, em tam pouco, tanto, Que é mais alto que o tormento! Passa o que passo ao que sento. Mal faz quem me esquece assim Que após mim não ha outro mim.»
