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Saudades de D. Ignez de Castro

OITAVAS

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Que fes de despedida quando de Villa-Viçosa veyo para hum Mosteyro de Lisboa, nas quaes descreveo o triste estado, e o que poderia vir, segundo as pennas, que à acompanhava.

I.

Ficay esteriles campos, calvos montes, Incultas serras, tristes arvoredos, Ribeiras seccas, peçonhentas fontes, Medonhos valles, asperos rochedos; Ficai mal assombrados orizontes, Parados rios, desiguaes penedos, Que jà me naõ vereis como me vistes, Inda que o ser mudeis de serdes tristes.

II.

Meus sentidos trouxestes jà fechados, Que agora sem vos ver já trago abertos, De ouro, e de azul vestistes meus cuidados, Mas agora os vereis de dò cubertos; Se os vistes andar sempre acompanhados, Metidos os vereis pelos desertos, Porque naõ vendo, vejaõ o que naõ viaõ E sentindo, naõ sintaõ o que sentiaõ.

III.

Sempre senti pezar, nunca alegria, Nunca em vòs descançei, sempre cançava, O bem que achava em vòs, de mim fugia, Mas se me achava o mal, em mim parava: A treição me dava, e me feria Se delle por diante me escuzava, Notai deste meu mal este segredo, Que sendo matador, he falso, e tredo.

IV.

Em vós todos os bens vi contrafeitos, Cujas internas formas eraõ dores, Em vós topey pastores lobos feitos, Porém ainda em trajos de pastores; A estes procureis, e vãos respeitos, Dos bens alheyos vi destruidores, Gostando só do mal que entaõ causavaõ, E roubando os taes bens, que naõ gostavaõ.

V.

Mais feroces, que lobos, pois que querem Sustentar-se dos males, que causarem: Que os lobos mataõ gado por comerem, Mas estes só matavaõ por matarem; Sómente se recream em offenderem, Os que mais suas leys contrariarem, Porque a contradicçaõ faz inimigos Daquelles, que antes della foraõ amigos.

VI.

Nenhum seu proprio estado já respeita E trazem nas aldeas em que moraõ Rebuços de virtude contrafeita, E rostos naturaes do mal que adoraõ: Condẽnam a ley do Ceo por muito estreita, E em todas por seu mal sempre peòram, Taõ amigos do bem, que vivo o enterram, E taõ destros no mal, que nunca o erraõ.

VII.

De Astioge se diz que aborrecia A Cyro moço tenro, e delicado, A quem morte cruel traçava, e ordia; Porque era pretensor do seu Reynado; Porém o odio destes naõ se cria, Por enveja, ou temor demasiado, Sò com odio do bem, o bem perseguem, Por seguirem o mal, que todos seguem.

VIII.

Mas eu que escrevo, canto, falo, ou digo, Quem me importuna, turba, e desordena, Se a cegueira que tem he seu castigo, E sua mà vontade he sua pena; Quem tem o mundo, que naõ tenha amigo, Se Deos assim o traça, assim ordena Que tudo quanto ha, tenha adversario, E seja o homem de si cruel contrario.

IX.

Saõ estes desliaes adoradores Da propria vontade cega, e dura, Que fazem de seus vicios seus senhores, E só para seu mal mostraõ brandura, Das sempiternas leys contraditores, Trazendo destas leys a vestidura, Amadores do mal, e da mentira, Filhos da perdiçaõ, e vasos de ira.

X.

Vestem a perversaõ com sua nobreza, Querem fazer da noite claro dia, Sua maldade cobrem, com a riqueza, Rebução com poder a tyrannia: Disfarçaõ sua furia em fortaleza, A vontade cruel julgaõ por pia, Sò tem o mal por bem, que o naõ aborrecẽ, E o bem temno por mal, que o naõ conhecẽ.

XI.

Por peccados que Lucio, e Casso acharaõ A seus filhos mataraõ por peccarem, Mas estes mais crueis que os que passaraõ Querem-lhos inventar para os matarem; Os bens dignos de premio nunca olharaõ, Sò vem os males para os castigarem, E o que he furia cruel digna de espanto, Chamaõ-lhe sò rigor, e zelo Santo.

XII.

Falo com reprovados, que abterno Foraõ por culpa sua condemnados, Ao fogo abrazador do escuro inferno, Sepulchro dos que jà saõ reprovados; Juizo foy divino, e sempiterno, Que os juizos humanos traz cançados, Que vivaõ de mistura os escolhidos, Com os que se haõ de perder, e já perdidos.

XIII.

Mas ay que póde ser q̃ os que reprehendo Subaõ do mal ao bem que naõ conhecem, E póde vir a ser que os que defendo Deçaõ do bem ao mal, que hoje aborrecem, Que quaes saõ os de Deos, eu naõ no entẽdo Senaõ segundo as obras que aparecem: Porèm a graça de huns naõ he segura, E nem a culpa de outros sempre dura.

XIV.

O Principe das trevas naõ pretende Com todos seus vassalos preseguirnos? Naõ nos deseja mal, naõ nos offende? E naõ estuda sempre em destruirnos? Naõ temos nòs a Deos que nos defende, Se elle quer offendernos, e oprimirnos? Se nòs sem paixam nossa o desprezamos, Porque com seus ministros nos cançamos?

XV.

Que ter amigos taes he sorte boa, Pois saõ occasiões para a vitoria, Artifices sutis da altiva coroa, Que Deos costuma dar na eterna gloria; Naõ quero que me cause, ou que me doa, Trazelos como trago na memoria, Porque, ou sejaõ cilicio, ou disciplina, Saõ meyos de mayor graça divina.

XVI.

Quem nunca aborreceo o ferro agudo Com que o barbeyro destro dà a sangria, Se para o mal que vem serve de escudo, Lançando à força o mal que havia: Quem trata mal o instrumento tudo, Que dente lhe arrancou, que lhe dohia? Amem-se pois amigos que daõ pena, Pois Deos meyos os faz do bem que ordena.

XVII.

Chorẽse os dãnos seus que naõ conhecem, Pois que primeiro a si se offendem, e mataõ, Com os males com que os justos enriquecẽ, Que exercitaõ no bem quando maltrataõ, A si oprimem, damnaõ, a si empobrecem, A si destruem, cansaõ, e disbarataõ, A quem dos bens alheyos qualquer copia, Serve de afronta, penna, e magoa propria.

XVIII.

O profeta David Deos defendia, Do Rey perverso injusto que o buscava, Saul por huma parte o perseguia, E Deos por outra parte o sublimava, Levanta-o Deos por Rey, porque o sofria, Destroe Deos o Rey que o invejava, Quem sofre reyna, quem perdoa alcança, He o odio do mào a espada, e a lança.

XIX.

Assim que està por ley jà definido, A qual se tem no mundo publicado, Que em bẽ redunda o mal quãdo he sofrido, E empena fica o bem quando he passado; Hum passando deixou triste o sentido, Outro durando o traz desenganado; Porque hey de gastar bem que tanto damna, E temer mal que tanto desengana.

XX.

Assim Deos o permitte, assim o ordena, Que nesta vida triste, e transitoria, Com gloria vaã se ganhe eterna pena, Com pena temporal eterna gloria: O gosto sempre a alma dezordena, A penna faz a vida meritoria, Quando se gosta o bem entaõ escurece, Quando o trabalho cansa, entaõ enriquece.

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