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SÁ DE MIRANDA
E A SUA OBRA
DECIO CARNEIRO
SÁ DE MIRANDA
E A SUA OBRA
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LISBOA Antiga Casa Bertrand—José Bastos 73, Rua Garrett, 75 1895
Tiragem especial de vinte e cinco exemplares em papel superior, numerados e rubricados pelo auctor.
LISBOA Barata & Sanches (antiga casa Adolpho, Modesto & C.ª) Rua Nova do Loureiro, 25 a 39
AO DISTINCTO ADVOGADO
Aureliano de Mattos
Como tributo de consideração e amizade
O ESPIRITO D'ESTE TRABALHO.
Para o completo, universal triumpho: Almeida Garrett. (O retrato de Venus—c. 3.º)
São tres os principaes trabalhos publicados ácerca de Sá de Miranda.
Em ordem chronologica, o primeiro e indiscutivelmente o mais valioso é a Vida, que acompanha a segunda edição das suas obras poeticas, datada de 1614. A Vida, em puro estylo quinhentista, de auctor anonymo, apresenta-se como collegida de pessoas fidedignas que o conhecerão—ao poeta—e tratarão e dos livros das gerações deste Reyno.
Barbosa Machado attribuiu essa biographia-critica de Sá de Miranda a Dom Gonçalo Coutinho mas não adduziu provas para fundamentar a sua affirmativa. Todos os escriptores, porém, lh'a acceitaram como demonstrada. Apenas o sr. Theophilo Braga, em sua Historia dos Quinhentistas, lhe pesou o valor e reforçou a allegação do illustre auctor da Bibliotheca Luzitana com as relações havidas entre D. Gonçalo Coutinho, poeta tambem da escola classico italiana, e os individuos a quem elle recorreu para a sua biographia.
Seja ou não de D. Gonçalo Coutinho, e não obstante a sua lamentavel pobreza de datas historicas, a Vida é um documento preciosissimo. Tem servido e servirá sempre de base a todos os trabalhos reconstruitivos da biographia da poderosa individualidade a quem se deve o movimento que tão alto levantou a litteratura portugueza e a fez attingir culminancias nunca alcançadas posteriormente. E tanto mais apreciavel é a Vida que a sua veracidade se comprova facilmente pelas Cartas, verdadeira autobiographia do poeta.
Foi a Vida o fio porque se guiou o sr. Theophilo Braga, em sua Historia dos Quinhentistas, em a parte particularmente referente á Vida de Sá de Miranda. Este o segundo trabalho de mór valia que temos sobre o grande poeta. Trabalho apreciavel e erudito, mas mais propriamente parte do estudo de uma escola litteraria, como é, que destinado a pôr em relevo, em toda a viveza de suas côres, a biographia de Sá de Miranda e o seu valor como philosopho e poeta.
Obra por egual notavel em erudição e em critica, a da ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos. Tambem a sua edição das Poesias de Francisco de Sá de Miranda, feita sobre cinco manuscriptos ineditos e todas as edições impressas, é a mais valiosa de todas, a mais importante.
Um dos manuscriptos de que a illustrada senhora, benemerita das lettras portuguezas, se serviu habilitou-a a conhecer quaes foram as poesias, ou melhor, quaes os grupos de poesias, os mss. separados, que Sá de Miranda enviou, por tres vezes, ao principe D. João. Esse ms. é, demais, preciosissimo porque representa uma redacção primitiva, original, feita com cuidado e com o intuito da offerta. D'ahi, indubitavelmente, uma coordenação subordinada a certos principios e que denuncia a mão do proprio poeta. As edições, até então feitas, haviam-o sido sobre manuscriptos distribuidos a amigos e discipulos.
A ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, corrigindo rigorosamente aquelle ms. fundamental da sua edição, deu-lhe não o caracter de diplomatica, sim de normal. Esse codice vem representado no texto pelas tres primeiras partes, reproducção integral, livre de restaurações e renovações arbitrarias, mas emendada onde havia erros visiveis e inilludiveis e systematicamente orthographada, em harmonia com os principios do escriba, com alguma, pouca, pontuação, pouquissimos accentos e resolução de todas as abreviaturas. Acompanha a edição um extenso corpo de variantes.
Esplendido trabalho de erudição, o da ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, é ainda enriquecido com uma vida e commentario notabilissimos. Como estudo de profundo saber ficará considerado monumento perduravel e guia indispensavel para obras futuras.
A ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos e o sr. Theophilo Braga, apoiando-se na Vida, investigaram e esgotaram, por assim dizer, quanto a respeito de Sá de Miranda se pode escrever. Não que hajam aclarado todos os pontos duvidosos da obscura biographia do nobilissimo auctor das Cartas. Isso, todavia, é assumpto para futuras e demoradas investigações.
Comprehende-se, pois, que o presente trabalho não é positivamente novo. Tomando por base a Vida, aproveita todos os resultados adquiridos por os anteriores, comparando opiniões desencontradas e procurando projectar a mais intensa luz sobre a biographia e a obra do grande Sá de Miranda. Tudo documentado, tanto quanto possa ser, por citações das cartas e eclogas do poeta, pois que, das suas producções, as mais d'ellas respeitam sobre casos particulares que succederam na côrte em seu tempo.
O intuito primordial do presente estudo é tornar conhecida a vida d'esse vulto sympathico da nossa historia litteraria, mostrar a estreita relação que ha entre ella e a sua obra, e restituir, ante a geração actual, o poeta ao logar a que tem direito pela independencia do seu caracter, pela auctoridade indiscutivel que lhe dava esse mesmo caracter, e pelo alto valor de sua poesia, toda conceituosa e philosophica. Isto apenas desejava conseguir o auctor para poder justificar a si proprio a audaz tentativa que emprehende.
Lisboa, agosto de 1895.
Escreveu o mallogrado Pinheiro Chagas, referindo-se ao director espiritual e mestre dos lyricos do seculo XVI, ou da escola chamada classico-italiana, que—se Camões, como os Jeronymos de Belem, significa a resistencia do estylo nacional e da tradição nacional á Renascença classica, Sá de Miranda representa o enxerto da litteratura classica em um vigoroso rebento nacional. Nenhum outro juizo, como o do nosso grande historiador contemporaneo, poderia assignalar melhor o logar de Sá de Miranda no movimento litterario nacional portuguez. Cultor fervoroso da tradição portugueza em seus primeiros tempos de poetisação, o illustre solitario da Tapada, ao dedicar-se ao estudo e á imitativa dos classicos da antiguidade grega e romana, não quebrou, talvez porque o não quizesse fazer, os laços que o prendiam ao espirito que lhe guiara os primeiros passos.
Sá de Miranda, como nota o sr. Theophilo Braga, fez uma revolução profunda na poesia portugueza, foi a alma da boa litteratura e o poeta que mais propagou a tradição classica entre nós, no seculo XVI. Comtudo, o classicismo n'elle não passa de um enxerto, mera tentativa não sem valor, mas destituida de vida. E a sua gloria está toda, exactamente, em o que a sua obra tem de genuinamente portuguez. As suas Cartas, satyras admiraveis, são em todos os sentidos verdadeiras perolas da nossa litteratura.
É certo que o classicismo, a brilhante Renascença, auroreava já no horisonte do Portugal litterario. Encontrára mesmo alguns adeptos apaixonados, mas que, faltos de talento, lhe não tinham dado impulso. Se algumas tentativas houve antes de Sá de Miranda, tão fracas foram que não tiveram seguidores. Elle seu principal e verdadeiro propulsor.
Em sua educação primeira, Sá de Miranda recebeu necessariamente uns laivos de classicismo pelo estudo das obras dos poetas gregos e latinos. Nem de outro modo se poderia explicar a sua inclinação manifesta em esse sentido. A Vida dá conhecimento de que, em 1584, um fidalgo de Lamego, Gonçalo da Fonseca de Crasto, possuia um Homero com notas á margem feitas em grego pelo douto Sá. Prova de que Sá de Miranda recebeu uma educação classica.
Esclarecerá tudo, talvez, o saber-se que Sá de Miranda nasceu em Coimbra, que vem sendo de seculos o mais importante centro intellectual do paiz. Centro que tem inspirado a poesia desde Sá de Miranda até Garrett e, posteriormente, até João de Deus, Guerra Junqueiro, Anthero e Eugenio de Castro. Coimbra, a cidade das melancolicas margens do Mondego, a que as lagrimas de Ignez tornaram lendario e querido dos poetas, a Coimbra dos estudantes... Antiga e nobre cidade, como Sá de Miranda lhe chamou em uma das suas Cartas, a dirigida a Pero de Carvalho.
Da antiga e nobre cidade Som natural, som amigo.
Cidade cuja belleza maravilhosa sempre amou e louvou com o carinho de filho amantissimo.
Cidade rica do santo Corpo do seu rei primeiro Que ainda vimos com espanto Ha tam pouco, todo inteiro, Dos annos que podem tanto.
A nobre e leal Coimbra.
Outro rei, tanto sem mal Que lhe empeceu a bondade, O quarto de Portugal, Qual teve ele outra cidade Tam constante e tam leal?
Do nascimento de Sá de Miranda affirma a Vida que o poeta viu a luz em o mesmo dia em que el Rey Dom Manoel tomou posse do governo destes Reynos. Sobre qual tenha sido esse dia levantou-se divergencia de opiniões. Uns pretenderam que fosse fixado a 24 de outubro de 1495, como o admittiu o sr. Theophilo Braga, em sua Historia dos Quinhentistas, livre da supposição de, pela logica dos factos, ser levado a crer que o poeta tivesse nascido muito antes d'esse anno. Outros escriptores attribuiram-lhe a data de 27 de outubro, para a qual se inclinaram a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos e Pinheiro Chagas.
A logica dos factos não mentiu ao sr. Theophilo Braga. Sá de Miranda viu a luz necessariamente muito antes do anno admittido geralmente. Demonstra-o, irrefutavelmente, um precioso documento recentemente encontrado, em a Torre do Tombo, pelo incansavel investigador e erudito escriptor, sr. dr. Sousa Viterbo:—nem mais nem menos do que a carta de legitimação do grande poeta, datada de 1490, em que apenas se faz referencia a Francisco, filho do conego Gonçalo Mendes, que, não resta duvida, é o nosso poeta. Ha pelo menos, portanto, a recuar uns cinco ou seis annos a data de seu nascimento, o que não deixa de ter importancia para a comprehensão da sua vida.
Da filiação de Sá de Miranda apenas se conhece o nome do pae, o conego Gonçalo Mendes de Sá, embora o sr. Theophilo Braga o diga filho de D. Filippa de Sá. Errada interpretação, como o apontou Camillo Castello Branco, da noticia-attribuida a D. Gonçalo Coutinho. A Vida é bem expressa dizendo que o poeta foy filho de Gonçalo Mendes de Sá e neto de João Gonçalves de Miranda, que viveo junto a Buarcos e de Dona Phelippa de Sá sua molher. Clarissimo, pois, que Sá de Miranda era neto, e não filho, de Dona Phelippa de Sá. Quem fosse a mãe, se plebea ou nobre, é mysterio que a alludida carta de legitimação vem desvendar.
Descendia, portanto, Sá de Miranda, da antiga geração dos Sás, geração que deu a Portugal muitos filhos illustres, cavalleiros, prelados e escriptores de renome e dos quaes um irmão do nosso poeta, Mem de Sá, é um nobilissimo exemplo. Mas, essa geração tambem legou ao mundo alguns scelerados de marca. Um dos proprios filhos de Sá de Miranda demonstrou exuberantemente quanta bilis corria entre o sangue generoso d'essa illustre familia.
A avó do nosso poeta. Dona Phelippa de Sá, era filha de Rodrigues de Sá, e neta de João Rodrigues de Sá, o primeiro que chamarão das Galés assas conhecido em tempo del Rey Dom João de boa memoria. Sá de Miranda estava assim aparentado com as mais nobres familias do paiz e mesmo com a illustre familia Colonna de Italia. Era-o, tambem, com a fidalguia de Hespanha. A origem hespanhola dos Mirandas explica, como quer o sr. Theophilo Braga, os versos em que o poeta se dá por parente do fidalgo asturiano Garcilaso de la Vega.
Os primeiros annos de sua vida, parece, Sá de Miranda passou-os nas poeticas margens do Mondego, em Buarcos, em casa de seu avô paterno João Gonçalves de Miranda. Deve ter estudado as primeiras letras de humanidades em Coimbra. São, porém, completamente desconhecidas as primeiras impressões de sua mocidade e nem se póde conjecturar ácerca dos seus primeiros professores e estudos.
Desconhecem-se, egualmente, quaes as relações em que estava a familia de Sá de Miranda para com o monarcha. Devem ter sido cordeaes, pois que a Vida affirma que o nosso poeta veiu para Lisboa estudar Leis em a Universidade, não que por inclinação que tivesse aquella maneira de vida mas obedecendo a seu pay que lha escolhera e, tambem, em obsequio ao gosto del Rey Dom João o Terceiro.
Em 1516 devia ter concluido a sua formatura. Isto se deprehende de, por essa epoca, já ser tratado por doutor. No Cancioneiro geral, colligido por Garcia de Resende, encontram-se varias glosas e cantigas de Sá de Miranda com a rubrica—Do Doutor Francisco de Saa, grosando esta cantigua de Jorge Manrrique.
Sá de Miranda seguiu os seus estudos com felices porgressos e sahio grande letrado. D'ahi, decerto, tendo um curso distincto, o ser escolhido para ficar em a Universidade, professando as disciplinas que frequentara. Pelo menos, a Vida affirma que o poeta tomou o grao de Doutor e leo varias cadeiras daquella faculdade.
Então, os poetas eram geralmente jurisconsultos, phenomeno este que hoje se dá como maravilha. Ferreira, que egualmente reunia as duas qualidades, á primeira vista incompativeis, de doutor e poeta, defendendo essa alliança, dizia:
Não fazem damno ás musas os doutores, Antes ajuda a suas letras dão.
A passagem de Sá de Miranda pelo professorado da Universidade foi rapida. A Vida diz que o poeta, conhecendo os perigos que o uso desta sciencia tras consigo em materia de julgar, tanto que lhe faltou seu pay não só deixou de todo as escollas, mas engeitou os lugares do Desembargo, que por muitas vezes lhe forão offerecidos.
O doutor Francisco de Sáa tinha, certamente, alguns bens que lhe permittiam custear a vida embora modestamente, e, d'ahi, o desprezar os empregos da côrte. Caracter altivo e independente não queria ceder da sua liberdade. Assim, poude dedicar-se completamente ao estudo da Philosophia Moral e Estoyca a que sua natureza o inclinava, e em que se tornou consummado.
Pela familia illustre a que pertencia, pelas estreitas relações em que ella estaria com o paço real e pelas recommendações especiaes que traria, Sá de Miranda, ou, como era conhecido, Francisco de Sáa, encontrou um cordealissimo acolhimento no palacio do faustoso monarcha D. Manoel. No intervallo das lições, nos ocios que lhe deixava a sua applicação ao estudo, frequentava os serões da côrte portugueza, em pleno esplendor então que Portugal attingia as culminancias do poderio moral e material. Era a bandeira portugueza desfraldada por todo o mundo, os reinos caindo ao embate das armas do pequeno povo das costas atlanticas da peninsula hispanica, o nome de Portugal acatado com respeito, tanto que o Rei Venturoso sentiu os primeiros assomos da idêa avassalladora da monarchia universal.
A realeza procurava reunir em seu torno, em o palacio real, os espiritos mais cultos do paiz. Entoava-se como que um côro de louvôres, de canticos de alegria, em volta do feliz monarcha de um povo que tão extraordinarios paizes desvendára e dera á civilisaçao. E como poderia deixar de o ser, se a epopêa era maravilhosa. Andava-se em ethereo paraizo. Tudo era fausto, tudo gloria, tudo um sonho infindo como infindo o horisonte que o nauta persegue.
Notabilissimos os serões d'essa côrte faustosa que começava a effeminar-se na ociosidade da victoria e no goso das inexgotaveis riquezas conquistadas, e que, assim, preparava proximos desastres. A sua pompa e sumptuosidade excedia tudo quanto se poderia conceber. A imaginação mais viva e ardente luctaria por os descrever em todo o brilho. A sua fama foi em um crescendo continuo, passou as fronteiras e repercutiu-se lá fóra, até se tornar universal. Os não menos famosos da côrte pontificia de Leão X ficaram-lhe sempre áquem e muito.
O doutor Francisco de Sáa, elle proprio, tomou parte em os certamens poeticos realisados n'essa côrte esplendida. Ahi se encontrou em contacto com os homens notaveis da epoca, sobretudo poetas. Em a côrte se relacionou Sá de Miranda com o bucolista Bernardim Ribeiro a quem tomou amizade sincera e por quem sempre foi dedicado. De então datam, egualmente, as estreitas relações que manteve em toda a vida com o principe Dom João, filho de el rei D. Manuel, relações que se sustentaram atravez de todos os acontecimentos, pois que o mesmo D. João, quando já no throno, jámais deixou de patentear a sua estima ao poeta, de o proteger e de lhe apreciar as producções.
A estrella de maior brilho da côrte de D. Manuel era ao tempo ainda a tão formosa quanto esquiva D. Leonor de Mascarenhas, diz-se que dama da rainha D. Maria. Senhora de dotes e qualidades pouco vulgares, constituia ella o alvo das attenções dos mais galantes cavalleiros a par de inspirados poetas, como D. João de Menezes, Fernam da Silveira e outros. A espada que galhardamente lhes pendia do cinturão, emquanto trovavam á sua dama, e que matava o audaz rival, era, tambem, a lusa espada pelejadora pela patria e pela religião.
Em o Cancioneiro de Resende encontram-se muitas referencias a essa illustre senhora. A fidalguia porfiava em agradar-lhe, cercava-a de galanteios para lhe merecer os sorrisos. Não consta que ella se tenha rendido a qualquer d'elles. A tradição dá-a como um modelo de esquivança.
Mais tarde, quando a fumarada das primeiras fogueiras do Santo Officio ennegrecia o azul alegre e puro do nosso admiravel ceo, a suspeita e o temor invadiam as consciencias, Sá de Miranda relanceava os olhos pela estrada do seu passado, revia os tempos da sua mocidade e recordava-se com profundissima saudade d'esses serões. Não que ao poeta seduzisse o fausto, mas a fina e intelligente companhia que n'elles havia, n'aquelles serões de subtis e delicados motes.
Os momos, os seraos de Portugal, Tam falados no mundo, onde são idos? E as graças temperadas do seu sal? Dos motes o primor, e altos sentidos? Ums ditos delicados cortesãos, Que é d'eles? Quem lhes dá sómente ouvidos?
E com que energia fustigava a decadencia miseravel que levára a essa desolação!
Lançou-nos a perder engenhos mil E mil este interesse que haja mal, Que tudo o mais fez vil, sendo ele vil!
Os ultimos trovadores do Cancioneiro de Resende, Sá de Miranda ainda os conheceu ou ouviu as suas poesias. Em começo de frequentar a côrte repercutiam-se n'ella os ultimos echos dos cantares do mimoso D. João de Menezes, um dos mais afamados d'aquelle tempo, e que devia a sua nomeada ao chiste, á graça arrebatadora, á facilidade com que glosava os motes apresentados pelas damas do paço. Cavalheiro amabilissimo, eximio na arte do galanteio, D. João de Menezes fizera-se adorado. As suas canções, foram ouvidas e estimadas ainda muito tempo após a sua morte, revestindo a sua memoria lendaria uma aureola de consagração.
Particularmente bem acceito, amimado mesmo, o dr. Francisco de Sá de Miranda, espirito engenhoso, talento a desabrochar, deixou-se influenciar pela maneira e pela fórma das poesias dos ultimos trovadores da côrte manuelina. Foi em sua corrente, poetando como elles, tomando-os como modelos e seguindo-os na esteira. Sobretudo, as poesias de D. João de Menezes mereceram-lhe especial consideração e estudo.
D'esse tempo a maior parte dos seus vilancetes e cantigas. Composições faceis, de estructura simples e superficiaes, algumas d'ellas são, entretanto, como as aprecia a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, perolas de raro valor e flores de delicioso perfume. Sá de Miranda cultivou, assim, n'esse primeiro periodo de seu labor, a tradição da chamada escola velha. Pode-se affirmar, sem receio de contradicta, que o fez com notoriedade. Muitas das suas poesias de então apparecem no Cancioneiro geral.
Tem-se levantado grande celeuma sobre um pretendido sentimento de acerbo desgosto, de profunda tristeza, manifestado n'essas primeiras composições poeticas, desgosto a que se pretende ligar uns infelizes amores por uma tal Celia. Que estes amores sejam ou não ficção, é ponto hoje controverso e sel-o-ha, talvez, por muito tempo. A verdade é que a taciturnidade do nosso poeta não era extemporanea. Vinha do temperamento proprio de Sá de Miranda, um pouco do caracter ethnico da região de sua naturalidade e a evidencial-o está a inclinação philosophica de toda a sua vida.
É provavel que o moço dr. Francisco de Sá se não esquivasse a qualquer intriga amorosa em palacio. No verdor dos annos, em uma côrte a corromper-se, com as facilidades que de per si se proporcionavam, como poderia deixar de se prender pelo donaire de qualquer gentil dama? Envolver-se-hia em algum caso mais serio e escandaloso, e d'ahi o dizer-se, posteriormente, que a sua viagem á Italia tivera por causas primordiaes questões na côrte.
A Vida sustenta que, levantando-lhe a philosophia o pensamento ao desprezo de todas as cousas de cá quis peregrinar pollo mundo, porque no repouso a que determinava recolher-se o não inquietassem as novas do que não vira. Pode-se d'aqui deprehender que esse
Homem de um só parecer, de um só rosto, e d'ũa fé, d'antes quebrar que torcer,
começava a profundar a base falsa da sociedade em que vivia? Será dado inferir-se que era a decadencia que elle antevia imminente, que o levava a despresar os folguedos e a aborrecer as cousas de cá? Talvez.
Sá de Miranda era um espirito observador e comparativo. De temperamento taciturno, grave na pessoa, melancolico na apparencia, mas facil e humano na conversação, engraçado nella com bom tom de falla, e menos parco em fallar que em rir, fatigar-se-hia, por vezes, dos passatempos frivolos da côrte estouvada e procuraria em o estudo um refugio para retemperar a sua actividade. De mais, illustrado e laborioso, não pensaria apenas em folgar e poetar. Applicava as suas faculdades intellectuaes, analysava e produzia. Ninguem melhor do que elle conheceria o trabalho espiritual de sua época.
O movimento litterario tornara-se essencialmente palaciano no reinado do feliz D. Manoel. Natural attracção da realeza esplendorosa. Tambem, o soberano venturoso iniciara a politica de unidade monarchica com as celebradas Ordenações Manuelinas, cujo pensamento capital, traduzido pela reforma dos foros, era a concentração, em o poder real, dos privilegios locaes e a extincção das antigas tradições feudaes.
A poesia cessára, portanto, de ser puramente popular, nacional, de se inspirar directamente nos actos da vida do povo, para se converter em graciosa e cortezã. Não que aquella desapparecesse de todo, pois, felizmente, não deixara de se manifestar a reação. As formas palacianas tinham conquistado, porém, o predominio sobre as classes mais illustradas.
Admiravel e prestadia manifestação poetica, o trovadorismo acabara por se estagnar nas superficialidades da côrte, ao contacto dos costumes de uma nobreza propensa á ociosidade e á fatuidade pelo saciamento do oiro. Reduzira-se a um lyrismo artificioso e destituido de sentimento pela carencia absoluta de motivos emotivos, de actos inspiradores. O seu fim era, sobretudo, o bom dito, a impressão sobre os presentes, impressão, está bem de ver, muito pessoal e passageira.
E decaira tanto o trovadorismo que se pozera servilmente a imitar os hespanhoes e até a adoptar a lingua d'aquelles para as composições poeticas. Precaria, então, a existencia da portugueza, nobre e bella como nenhuma outra. O melhor testemunho d'essa decadencia encontra-se no Cancioneiro geral de Resende, archivo da fina flor da poesia palaciana do tempo, como ironicamente lhe chamou um conhecido escriptor.
Essa poesia, falta de ideal, de um motivo emocionante, sem uma unica das qualidades que constituem a obra d'arte, recorria aos artificios da forma, a um exagerado abuso de allegorias metaphysicas para se fazer valer. Carecendo de sentimento verdadeiro, pedia vida á casuistica amorosa que apresentava ao mais elevado refinamento.
Privilegio das classes elevadas, como o aponta o sr. Theophilo Braga, ella servia de passatempo nos ocios da guerra, era a expressão da galanteria com as damas e o meio de dar celebridade aos casos anedocticos que se passavam detraz dos pannos de Arras. Mero entretenimento, como tal, descambava quasi sempre para a banalidade. Futilissimos, assim, os themas de inspiração, umas grandes barbas, um pelote de peludo, um macho ruço e quejandas cousas.
Felizmente, a Renascença abrira novos horizontes e os seus fulgurantes clarões vinham já alumiando até Portugal. Para isso concorria, sem duvida, as estreitas relações em que se estava com a Italia e o acolhimento que entre nós encontravam os que d'ahi chegavam. Ninguem melhor do que Oliveira Martins, em sua Historia de Portugal, assignala o ponto de partida d'esse movimento revivificador, dizendo que os filhos de el-rei D. João I, abrindo as portas da nação á cultura da Renascença, chamando sabios, viajando, fundando bibliothecas, tinham lançado á dura terra do velho Portugal as sementes italianas.
A transformação, porém, não se operou de momento, em um convulsionismo rapido. Seguiu lenta, infiltrando-se pouco a pouco, tanto que, como o sustenta a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, na litteratura como nas artes e nas sciencias, os vestigios da influencia italiana foram quasi insensiveis até 1520, vesperas da partida de Sá de Miranda para o estrangeiro. Mas, nem o proprio creador do theatro nacional, o talentoso, embora inculto, Gil Vicente, tão aferrado á escola da tradição nacional, escapa á sua influencia. Manifesta-o a ironia de suas farças, aquella mordacidade que nada poupava e ia até desrespeitar as crenças religiosas, ironia que annunciava o proximo advento da Reforma, o despertar da razão humana escravisada pela esteril escolastica.
Lá fóra rompera já acirrada a lucta entre as duas escolas litterarias. Uma procurava manter intransigentemente as tradições da edade media e da poesia nacional e a outra ia inspirar-se em os monumentos da litteratura classica, tendendo a imital-os, se não seguil-os servilmente. Havia-se ferido os primeiros combates em forma entre os partidarios de uma e os sectarios da outra, combates que tinham tido uma natural repercussão em nosso paiz. São os eruditos conjurando-se contra Gil Vicente, cuja originalidade contestam, e considerando as suas obras de rasteiras e ordinarias. Com que fino tacto epigrammatico, porém, o auctor de Ignez Pereira os apodou de homens de bom saber! De bom saber!...
Sá de Miranda, de uma instrucção variadissima, innegavelmente conhecia desde a infancia os livros dos escriptores gregos e latinos. A Vida offerece a preciosissima noticia de que elle soube tanto da lingoa grega, que lia a Homero nella, e anotava de sua mão em grego tambem. Devia ter seguido com interesse a evolução da poesia italiana que a tão grande altura se estava levantando.
Approximando as producções dos poetas italianos das dos seus contemporaneos, Sá de Miranda media bem a inferioridade da nossa poesia. Comprehendia e avaliava a necessidade de a vitalisar egualando-a com a grandiosidade epica que estava attingindo o espirito guerreiro dos portuguezes. Tomou-o o desejo de exaltar o pensamento revestindo-o de novas e vigorosas formas. Em seu animo de patriota, concebeu a vontade ardente de fazer vibrar a mentalidade nacional com scintillações desusadas a par dos coriscantes raios despedidos pelas espadas vibradas por braços energicos.
Um vilancete brando, ou seja um chiste, Letras ás invençõis, motes ás damas, Ũa pregunta escura, esparsa triste! Tudo bom! quem o nega? mas porque, Se alguem descobre mais, se lhe resiste?
A renovação litteraria e artistica, importante e fecunda de resultados immediatos, que se operava em Italia, devia attrahir o sonhador poeta como o luzir do dia chama a passarada chilreante. Sá de Miranda, votando ao desprezo as cousas de cà, sentir-se hia tomado de um vehemente desejo de ir verificar de perto, avaliar de visu, por assim dizer, a intensidade d'esse grande movimento intellectual que começava a ter echo em toda a Europa, visitar esse meio que a tuba da Fama dizia o mais culto.
Estamos, assim, de accordo com a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos em que a viagem de Sá de Miranda á Italia não teve origem primordial em questões da côrte. Não. Tudo é porque o seu motor foi—a anciedade espiritual do poeta, o desejo de estudar a arte, de pôr em concordancia a elevação do pensamento com a heroicidade das acções portuguezas que o expatriou. Altamente patriotico, pois, e proprio do seu nobre caracter, o emprehendimento que se propozera o poeta.
Sá de Miranda demorou-se lá por fóra bastantes annos. Viagem larga e que lhe permittiu, visitando primeiro os mais celebres lugares de Espanha, percorrer com vagar e curiosidade Roma, Veneza, Napoles, Milão, Florença e o milhor de Cicilia. Verdadeira missão de estudo a que não escaparam as cidades então mais em evidencia e onde se encontravam os homens mais illustres da Renascença.
Vi Roma, vi Veneza, vi Milão Em tempo de Espanhoes e de Franceses, Os jardins de Valença de Aragão Em que o amor vive e reina, onde florece, Por onde tantas rebuçadas vão.
A saída do poeta para a Italia deve ter-se effectuado por 1521 e o regresso ao reino por 1526. É o que se conclue do verso
Em tempo de Espanhoes e de Franceses
Era a epoca em que o imperador Carlos V, de Hespanha, andava em guerra com Francisco I, de França, por este haver, tambem, aspirado ao throno da Allemanha. Exactamente n'esse anno de 1521 encetou Carlos V as hostilidades contra o rei de França, abrindo o primeiro periodo de guerra que teve por campo de batalha, sobretudo, a Italia, e que veiu a terminar, depois da batalha de Pavia (1525), em que Francisco I caiu prisioneiro dos hespanhoes, pelo tratado de Madrid que deixou a peninsula italica em poder dos ultimos (1526).
A viagem de Sá de Miranda deve, portanto, ser collocada entre os annos de 1521 e 1526. Esta data está completamente de accordo com a indicação de seus proprios versos, além de que todos os factos a que elles se referem a confirmam. Quando o poeta se tornou ao reino, já avia muito que reynava el-rei D. João III.
A peninsula italica encontrava-se, então, em plena febre de renascimento. Seus povos, escravisados successivamente por allemães, francezes e hespanhoes, sem forças para se libertarem dos dominadores, procuravam em o engrandecimento do passado o esquecimento das desgraças que soffriam, da decadencia do presente. A imagem de Virgilio, cantor das glorias nacionaes, apparecia-lhes como um protesto patriotico e, o que era mais, como um balsamo fortificante das energias abatidas.
As recordações dos tempos idos incutiam os estimulos para a lucta que a Italia sustentava. Por isso principiou ali a Renascença bafejada pelas lembranças sempre vivas de uma tradição patriotica jamais extincta, na phrase elegante e justa do sr. Simões Dias. E foi assim que ella conseguiu engrandecer-se como nunca, levantar-se á maior altura da arte, em concepções grandiosas, com artistas que attingiram a um renome perduravel.
Em meio de uma actividade assombrosa, a Italia caminhava para conquistar, entre as nações neo-selticas, a posição intellectual dominante que posteriormente gosou. Palmo a palmo, alcançava um triumpho tão glorioso quanto indelevel. Aos genios de Dante, Petrarcha e Boccacio, iniciadores d'esse movimento extraordinario e inegualavel, em o periodo em que as trovas provençaes ainda eram o divertimento das classes patricias, e de Leonardo de Vinci, succedera uma geração toda illustre. Ao tempo de Sá de Miranda, a Italia era o campo de gloria de Ariosto, Sanazarro, Bembo, Tasso, Machiavello, Vittoria Colonna, Raphael, Miguel Angelo, etc.
Em seus versos, Sá de Miranda refere-se, por vezes, aos diversos homens illustres dessa vicejante Italia. O conhecimento que d'elles mostra auctorisa a affirmativa de que tratou pessoalmente com os mesmos. A posição que occupava na côrte portugueza, o prestigio do nome da familia a que pertencia, para mais ainda aparentada com a opulenta casa Colonna por seu avô paterno João Rodrigues de Sá, pol-o em estreitas relações com homens notaveis como Giovanni Ruccellai, Lattanzio Tolommei e outros. Ao excellente lyrico e notavel bucolico da Arcadia chama o bom velho Sanazarro.
Floresciam, então, com o mais vivo esplendor, os talentos mais insignes. De um a outro extremo da formosa peninsula, o genio irrompia audaz e scintillante. A Italia foi, d'esta sorte, um verdadeiro deslumbramento para Sá de Miranda. Affirma a Vida que o poeta viu Roma, Veneza, Napoles, Milão e Florença, os centros d'essa admiravel elaboração intellectual, com vagar e curiosidade. Assim deve ter sido.
Não houve homem notavel que o nosso poeta não conhecesse ou de que não indagasse o merito artistico. Em Roma, encontraria o celebre cardeal Bembo, intimo do magnificente Leão X, imitador acerrimo de Cicero a ponto de aconselhar os seus amigos a não lerem as epistolas de S. Paulo para não macularem o estylo e que, ao celebrar o sacrificio da missa, recitava odes de Anacreonte, em vez das orações do ritual. Ao visitar Veneza, a bella rainha do Adriatico, ouviria fallar do implacavel poeta satyrico Aretino, verdadeira lingua viperina, que vendia publicamente os seus terriveis epigrammas a quem mais lhe dava.
Sá de Miranda cita, outrosim, Ariosto, em pleno florescimento na côrte de Ferrara, e que introduzira em a poesia o sensualismo elegante e a phantasia pura. Machiavello, o famoso secretario da republica de Florença, preparava tres seculos de acerrima controversia com o seu não menos celebre livro Principe, apologia emphatica do poder absoluto. Era, ainda, Trissino, grammatico e lyrico, mais conhecido pela tragedia Sophonisba, escripta á maneira grega; o cardeal Sadoleto, esse outro secretario de Leão X, insigne latinista e poeta lyrico; Guicciardini, jurisconsulto notavel e Julio Scaligero, hellenista de fama. Seria necessario quasi um volume para enumerar todas as individualidades d'essa geração illustre.
As relações de Sá de Miranda com os artistas e eruditos italianos abriram novos horisontes ao seu espirito e este insensivelmente foi recebendo a direcção que devia dar ao genio da Renascença em Portugal. Mas não era apenas o contacto com esses homens de talento, sim, tambem, a observação d'essas maravilhosas obras de arte disseminadas por toda a Italia, em palacios, monumentos e templos grandiosos, as incomparaveis telas de Raphael, espirito todo luz, harmonia e amor, a branca visão do Thabor, como lhe chamou Henri Martin, e de Miguel Angelo, o austero e solitario pintor, o anjo das trevas divinas. Era a acquisição dos mais bellos trabalhos da brilhantissima litteratura italiana, que relia e estudava com sofreguidão e cujas excellencias saboreava com dôce embriaguez, mais tarde, em sua quinta da Tapada, longe do bulicio da côrte.
Liamos os Assolanos De Bembo, engenho tam raro Nestes derradeiros anos Os pastores italianos Do bom velho Sanazaro.
Sá de Miranda teve egualmente occasião de vêr em scena a comedia classica em prosa, moldada pela da antiguidade. Observador como era, não lhe escapou a importancia d'esse novo germen litterario e analysou-o cuidadosamente para o introduzir e adaptar em sua patria. A par da comedia manifestava-se uma outra especie nova, o dilettantismo musical. Para mostrar o agrado com que o veria o poeta, bastará dizer que elle tangia violas darco e era dado á musica.
Nos palacios, outros tantos fócos de Renascença, discutiam-se todas as questões de arte e de litteratura. As festas n'elles celebradas não eram puramente de distracção como as da côrte portugueza, mas essencialmente productivas. Em casa do marquez de Pescara reuniam-se os talentos mais em evidencia. Comprehende-se bem o que seriam os serãos ali realisados.
Sá de Miranda, de natural perscrutador, não deixaria, certamente, de se interessar pelas questões politicas e religiosas, que tambem agitavam a esse tempo a Italia e que constituiam os grandes factos da Reforma attingindo o seu extremo, na Dieta de Spira, com a proclamação da liberdade de consciencia. Provavelmente, como catholico devotado e ardente, lhe não seria em principio sympathica a Reforma, mas nem por isso escapou á influencia d'ella, nem deixou de votar a mais profunda repugnancia ao excesso de intolerantismo da reacção.
Intelligencia altamente lucida, Sá de Miranda sentiu-se tomado de uma intensa fascinação por esse extraordinario movimento intellectual que tinha a felicidade de observar de perto, de apreciar pessoalmente, tratando com os seus principaes corypheus. Como o seu coração de patriota, ardente, não pulsaria actuado por uma forte vontade de tirar a sua patria do profundo marasmo a que decaira para a levantar á maior altura do culto da arte! Avalia-se e dá-se razão ao enthusiasmo com que se tornou a Portugal.
Aqueles cantares finos, A que liricos disserão Os Gregos e os Latinos, Digão me donde os houverão Salvo dos livros divinos? Quantos que d'ahi ao seu Trouxerão auguas á mão. Regou Pindaro e Alceu, E em môres prados Platão! Mas é a que ora aprendo Ler por eles de giolhos. De que sei quam pouco entendo. Mas fossem dinos meus olhos, De cegar sobre eles lendo! Que, dos seus misterios altos Assi lubrigando vejo Que não são pêra tais saltos: Gemo sômente e desejo.
Em 1526, Sá de Miranda encontrava-se, sem duvida, de volta a Portugal. Reinava, avia muito, o seu nunca desmentido amigo, el rei D. João III. Passava dos trinta e cinco annos. A sua mentalidade achava-se enriquecida com os preciosissimos conhecimentos adquiridos em sua excursão por Italia.
Seu animo retemperado e energico casava perfeitamente com a firmeza de seu caracter. Traçara os seus planos e estava resolvido a executal-os. Como sustenta a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, tratava de dar novas sendas ás lettras patrias, de estimular os poetas com o exemplo, de provar a possibilidade de um aperfeiçoamento ou antes renovamento fundamental da poetica portugueza, de fazer, emfim, a transplantação das formas e dos metros italianos.
Sá de Miranda lançou-se afoitamente á lucta, contando com uma facil victoria. Enganou-se. A resistencia foi mais porfiada do que certamente esperava e morreu mal tendo chegado a vêr os primeiros fructos de seus esforços.
Desde a sua volta a Portugal, Sá de Miranda foi decididamente o chefe da escola classica, da escola que, como disse Pinheiro Chagas, pautava as suas obras comicas pelos modelos de Plauto e de Terencio, as suas eclogas e cartas pelas de Horacio e de Ovidio, a que substituiu a redondilha popular, até então quasi exclusivamente usada, pelo verso hendecasyllabo jambico italiano e as pastoraes ainda trovadorescas de Bernardim Ribeiro pelos idyllios virgilianos e pelas imitações de Theocrito. Quebrou o grande poeta o encanto e as velhas fórmas gastas do Cancioneiro de Resende, com a futilidade da poesia palaciana, foram completamente abandonadas.
O douto e grave poeta, porém, não foi apenas o propulsor da escola classica em Portugal, mas tambem verdadeiramente o reformador da chamada escola velha, a que deu novos dias de gloria. Os rhythmos nacionaes, o grupo das singellas quintilhas e decimas, levantou-os elle á maior perfeição em suas celebres Cartas satyricas. Longe de romper fundamentalmente com a tradição, continuou a empregar os antigos metros nacionaes, voltando com frequencia ás graciosas redondilhas e até ás esparsas, vilancetes e glosas, de uma ligeira improvisação. Em o ultimo periodo de sua existencia deixou-se dominar mais absolutamente pelo classicismo que, em todo o caso, apparece em suas producções atravez do renovamento italiano.
Pena é não haver sido Sá de Miranda um poeta genial, inspirado como Camões. Com as qualidades de estudo e de observação de que era dotado ter-se-hia tornado uma poderosa individualidade.
Innegavelmente são relevantissimos os serviços por elle prestados á litteratura portugueza. É o que a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos põe em relevo ao affirmar que o illustre poeta provou que a lingua portugueza era capaz de se elevar até ás concepções mais bellas do lyrismo moderno com o soneto e a canção de Petrarcha, os tercetos de Dante, enlaçados em elegias e capitulos segundo o estylo de Bembo, a oitava rima de Policiano, Boccacio e Ariosto, e as ecloglas de Sanazarro com os seus versos encadeados e a variação melodica dos rhythmos e, finalmente, introduzindo o hendecasyllabo jambico italiano.
Propriamente a Sá de Miranda nada se deve em o que respeita a fórmas metricas. O poeta da Tapada, admirador enthusiasta dos modelos estrangeiros que estudara, imitou, em geral escrupulosamente, a estructura das estrophes, introduziu fórmas novas, reformou e aperfeiçoou, mais nada. Podia ter ido muito longe, variar os typos por meio de leves modificações no encandeamento da rima, e no agrupamento dos septenarios na Canção, mas não ousou arcar com essas responsabilidades. Unicamente quanto ao assumpto e á linguagem se reservou uma completa e perfeita originalidade e d'esse modo concorreu bastante para o aperfeiçoamento da lingua portugueza, ainda rude e pouco melodiosa, além de que poude legar á posteridade as suas sempre apreciadas Cartas. Isso o salvou, tambem, do fiasco de algumas mal succedidas tentativas de innovação.
Tem-se pretendido negar a Sá de Miranda a iniciativa quanto ao emprego de novas fórmas metricas. Faria e Sousa foi o primeiro que contestou a actividade e influencia do illustre poeta como reformador, ridicularisando-o e rindo-se de suas pretensões. O satyrico e faceto Diogo Camacho de Sousa, que nem o grande epico, o immortal auctor dos Lusiadas, poupou, chamava-lhe
poeta até o embigo.
Tolera-se ou desculpa-se que Faria e Sousa e Camacho aquilatassem por essa forma o merito de Sá de Miranda. Não se podia esperar outra cousa de seu engenho satyrico.
De outra ordem é a affirmativa, feita por criticos respeitaveis, de que os proprios versos que se dizem italianos e introduzidos por Sá de Miranda já eram conhecidos na peninsula do uso dos provençaes que os imitaram dos arabes. José Maria de Andrade Ferreira, em seu Curso de Litteratura Portugueza, vae até declarar cathegoricamente que, no tocante a artificio metrico e variedade rhythmica, nada se póde produzir que não fosse adoptado por aquelles poetas.
Assim, na opinião de certos escriptores, e para mais auctorisados, foram os portuguezes os inventores da medida grande, limitando-se os italianos simplesmente a seguir o trilho dos poetas lusitanos. Querem esses que o infante D. Pedro, o das sette partidas e que desastradamente encontrou a morte em Alfarrobeira, haja escripto os primeiros sonetos portuguezes. Segundo esses, ha hendecassyllabos e septenarios italianos, como tambem muitissimas oitavas rimas, não sómente em o Cancioneiro de Resende, em Bernardim Ribeiro e Christovão Falcão, mas até no poema do Cid e no de Alexandre e em muitas coplas dos Cancioneiros da Vaticana, Collocci Brancuti e de Ajuda. Portanto, como pretende Andrade Ferreira, pouco deveria o parnaso portuguez aos chamados quinhentistas.
O erudito Dias Gomes foi mais commedido e mais sensato em sua apreciação. Attribuindo a introducção do soneto, em Portugal, ao famoso infante D. Pedro, concedeu, todavia, que Sá de Miranda o aperfeiçoou e estabeleceu da maneira que ao presente o vemos. Admitte, egualmente, que o poeta da Tapada nos ensinou a estructura da canção, da oitava rima e do terceto. O sr. Theophilo Braga, em sua Historia dos Quinhentistas, cita a opinião de Dias Gomes e accrescenta que foram essas formas quasi exclusivas que abraçaram depois os poetas da escola italiana, do que se deprehende que a partilha.
Mais recentemente, deve-se á ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos o relevante serviço ás lettras patrias de verificar até que ponto eram fundadas as criticas dirigidas contra a obra de Sá de Miranda. D'esse estudo resultou tomar aquella senhora a peito a defeza de haver elle iniciado—a escola nova italiana, introduzindo o hendecasyllabo, ensinando a estructura do soneto, dos capitulos (ou elegias) em tercetos, as fórmas fundamentaes da canção e a oitava rima italiana, e mostrando tambem como estas tres formas estrophicas se podem combinar na ecloga. Não que tão conscienciosa escriptora queira negar a filiação historica, a origem commum do decassylabo limosino e do hendecasyllabo italiano, ou antes, a relação de dependencia do segundo para com o primeiro, mas, em vista da pouca clareza com que os dois metros têm sido classificados, em Portugal, accentuar a sua differença.
Exactamente á confusão resultante da falta de methodo no contar e medir das syllabas e á pouca clareza na terminologia dos versos portuguezes, attribue a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos a contestação de que fosse Sá de Miranda um innovador. Uns, attendendo unicamente aos sons, aos agudos, contam por syllabas de um metro as que se preferem até á ultima aguda, metrica, ou seja pausa, desprezando as breves que se lhe sigam. Outros, pelo contrario, tomando por norma do verso portuguez o grave ou inteiro, contam as syllabas accentuadas, grammaticaes realmente, além da pausa. D'ahi que uns chamaram ou chamam hendecasyllabo, ou de onze syllabas, ao verso que outros denominam decasyllabo jambico limosino, inventado pelos trovadores da Provença e imitado em Italia, Catalunha, Castella e Galliza. Ainda segundo prova a illustrada senhora, as oitavas rimas que os mesmos criticos descobriram na antiga poesia portugueza são, em realidade, estrophes de oito linhas ou oitavas, mas estas estrophes ou se compoêm de duas quadras peninsulares ou são oitavas hespanholas em versos de arte maior.
A nosso vêr, a argumentação da ex.ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos resolve satisfatoriamente a questão. Pode-se d'ella concluir a affirmativa cathegorica de que, antes da viagem de Sá de Miranda á Italia, não existiam, em Portugal, a oitava rima, o soneto, a elegia em tercetos e a canção italiana. Tão pouco se compozera qualquer poesia em hendecasyllabos e septenarios, com accentos fixados á maneira toscana. Sá de Miranda bebeu na nascente, inspirou-se pessoalmente em a propria Italia, com seus grandes e immorredoiros artistas, e, quando de lá voltou á patria, poz-se a seguir as formas ali em uso, o que, de resto, elle proprio confirma e confessa ingenuamente nas rubricas de suas poesias.
Fizera-se, realmente, sentir o classicismo na peninsula hispanica, mas a sua influencia poetica havia sido fraca e desapparecera quasi sem deixar vestigios. E mesmo se limitara a um vago conhecimento da escola dantesca, inaugurada por Imperial e em que se enfileiraram João de Mena, o Marquez de Santilhana e D. Fradique de Vilhena. O Marquez de Santilhana, antes de 1458, escrevêra já alguns sonetos. Outros poetas metrificaram em tercetos. Imperial, em seu Dezir a las siete virtudes, imitou o verso de onze syllabas.
Essas innovações foram, porém, prematuras. Não fructificaram por falta de meio apropriado e em breve cairam em o mais completo abandono. Quanto não custou a Sá de Miranda implantar as suas! Não ha provas, de resto, de que aquellas tenham sido conhecidas em Portugal, ou, pelo menos, de que se lhe haja ligado a minima importancia. Apenas em o Cancioneiro geral se nota uma tendencia accentuada para o symbolismo e allegoria e uma forte inclinação para o didactismo, em um gosto de eruditismo escolastico.
Sá de Miranda é, pois, incontestavelmente, senão o fundador, o propulsor da escola classico-italiana em Portugal. Visitando a Italia, quando esta peninsula attingia o maximo de sua elevação intellectual, preso de um santo enthusiasmo, dedicou-se com alma a reformar a nossa poetica segundo os modelos que lá fóra vira tão apreciados. Não quiz classisar a litteratura patria exclusivamente, mas levantar a poesia de sua decadencia por meio dos modelos italianos que estudara. Com justiça, pois, o nome de Sá de Miranda abre um novo periodo na historia litteraria portugueza, que com Ferreira e Camões se ergue ás maiores alturas.
Para as imperfeições metricas e rhythmicas de Sá de Miranda, perdoaveis em quem, como elle, tinha a luctar com as difficuldades da amoldação e com as rudezas de uma lingua ainda não desbravada de todo, já a Vida, verdadeiro espelho do pensamento dos seus contemporaneos, teve a attenuante de que foi elle o primeiro que compos versos grandes neste Reyno, bastante desculpa das miudezas que se tachão em alguns seus desta medida pera aquelles homens, ao menos que attendendo ao que se diz, não curão muito do modo. A Vida considera os defeitos do poeta como accidentes de nenhuma importancia, attendendo a que elle não somente foy inculpavel na gravidade das sentenças, na agudeza dos conceitos, na propriedade dos termos, na moralidade das figuras, na imitação dos Poetas, na observação das regras, senão inimitavel tambem na pureza com que fallou em materias amorosas.
É pouco de estranhar que Sá de Miranda não tivesse em suas obras a inspiração de Camões, porque devia luctar com grandes difficuldades para amoldar o portuguez duro e rude dos heróes da Africa e da India ao espirito philosophico das suas idêas e á harmonia das novas formas poeticas que pretendia introduzir em Portugal. D'ahi a sua inferioridade manifesta e incontestavel na parte em que mais se inclina para os modelos da escola classico-italiana, inferioridade que ainda mais põe em relevo o brilhantismo das suas redondilhas tão nacionaes.
Innovador convicto, preoccupava-se com a imitação dos modelos estrangeiros que o deslumbravam e aos quaes desejava egualar, senão exceder. Estudava constantemente procurando seguir com o maior rigor as regras da arte. Fel-o tão a contento dos partidarios de sua escola, que a Vida chega a sustentar que os que attentamente o passarem não lhes ficará necessidade de lêr em as Poeticas de Aristoteles e Horacio, que elle, parece, não largaria da mão.
O poeta, em sua sêde de perfeição, não se dava nunca por satisfeito com a sua obra. Continuamente refundia os seus trabalhos, cortava aqui, accrescentava além e, pode se dizer, morreu sem deixar uma forma definitiva de sua enorme producção poetica. A grande quantidade de variantes tem sido a maior difficuldade para as edições de suas obras.
Sá de Miranda desejava hombrear com os extraordinarios talentos que admirara em Italia e cujos livros eram os seus ocios de todos os dias. Sentia-se fraco de forças e não se cançava em procurar aperfeiçoar-se. O proprio poeta o confessa lealmente em o soneto com que fez acompanhar a remessa do seu terceiro manuscripto de versos ao principe D. João, filho de D. João III, espirito culto prematuramente apagado.
Tardei, e cuido que me julgão mal, Que emendo muito e que emendando, dano. Senhor, que hei grande medo ao desengano, D'este amor que a nos temos desigual. Todos a tudo o seu logo achão sal: Eu risco e risco, vou me de ano em ano.
E este mal contido suspiro pela sua impotencia:
Ando cos meus papeis em diferenças! São perceitos de Horacio, me dirão. Não posso em al, sigo o em aparenças.
A sinceridade de Sá de Miranda é a melhor justificação das imperfeições que se lhe possam notar.
Ao voltar a Portugal, Sá de Miranda observou com profundo desgosto a completa transformação que se operava na côrte. Os symptomas da decadencia moral da fidalguia tornavam-se evidentes, salientavam já como manchas negras. Dominada pela febre do ouro que se fizera contagiosa, a nobreza esquecia o proverbial cavalheirismo e atirava-se desatinamente á mercancia para obter a todo o preço dinheiro e muito dinheiro.
A sede do ouro e dos prazeres, sede desenfreada e que nada saciava, substituira a elevação culta dos serões do tempo de D. Manuel. Quão mudados andavam os tempos! Da poesia já poucos queriam saber. E o mal augmentava em um resvalar pavoroso que ia trazer a Inquisição e levar até á infamissima cobardia que entregou Portugal a Castella.
Posteriormente, já em o retiro a que resolvera recolher-se, em carta dirigida ao seu amigo Antonio Pereira, Sá de Miranda descreve admiravelmente a situação deploravel em que caira o paiz. As causas são bem apontadas e a comparação com as eras passadas não pode ser mais bem feita.
Não me temo de Castela Donde guerra inda não soa, Mas temo me de Lisboa, Que o cheiro d'esta canela O reino nos despovoa, E que algum embique ou caia! O longe va, mao agouro Falar por aquela praia Na riqueza de Cambaia, Narsinga das torres de ouro. Ouves, Viriato, o estrago Que ca vai dos teus custumes: Os leitos, mesas, os lumes, Tudo cheira: eu olios trago, Vêm outros, trazem perfumes. E aos bons trajos de pastores Em que saístes ás pelejas Vencendo tais vencedores, São trocados os louvores, São mudadas as envejas! É entrada polos portos No reino crara peçonha Sem que remedio se ponha. Ums doentes, outros mortos, Outro polas ruas sonha. Fez nos a ousada avareza Vencer o vento e o mar, Vencer caje a natureza. Medo hei de novo a riqueza Que nos torne a cativar,
Sá de Miranda, que já se sentira aturdido com a desenvoltura, a dissolução dos costumes que presenciara em Italia, ficou apavorado ao conhecer o avassalador mercantilismo da côrte portugueza. Com que energia a invectiva depois:
Escravos mais que os escravos, Por rezão e por justiça Deixai-vos dos vossos gabos, Que vos vendeu a cobiça A mar bravo e a ventos bravos!
Homem recto, consciencia impolluta, Sá de Miranda não se poude ter que se não retirasse logo para Coimbra, a sua querida, a sua adorada terra natal. Mas, quando fugia á côrte, esta, escorraçada pelos horrores da peste, que fazia de Lisboa um horrivel cemiterio, seguia-o ahi, a acolher-se temporariamente á hospitaleira cidade.
Sá de Miranda possuia em Coimbra, ou em seus arredores, alguma propriedade situada junto ao Mondego e com a vista sobre a serra, certamente deixa de seus paes. É o que se tira de seus proprios versos,
No lugar onde me vistes De agua e do monte cercado
N'essa propriedade, pensaria o poeta encontrar um refugio contra as tentações com que ainda o poderia seduzir a côrte. Ahi contaria, com effeito, mais dias
De ledos que não de tristes.
A ida de D. João III a Coimbra constituiu verdadeiramente uma simples visita. De todas as supposiçoes que se tem feito ácerca da saída do monarcha de Lisboa, por causa da peste, a mais verosimil é que essa epidemia deu logar a pequenas excursões. A estada da côrte, em 1527, em a Athenas portugueza foi tão rapida, que el-rei passou o Natal em Lisboa, encontrava-se a 15 de fevereiro de 1528 em Almeirim e achava-se de volta a Lisboa de fevereiro a junho de 1530.
Sá de Miranda, que estava em suas terras nas margens do Mondego, ao saber da viagem do seu excellente amigo o monarcha e da joven rainha, que pela primeira vez ia a Coimbra, correu á cidade a recebel-os, a promover festas em sua honra e elle proprio pronunciou o discurso de recepção dos regios personagens. E, com vontade ou sem ella, restabeleceu, então, as suas relações com a côrte. Consolou-se, talvez, por ver que se lhe offerecia occasião de iniciar a propaganda a favor das idêas e formas poeticas que trouxera de Italia, de as defender calorosamente e de mostrar as bellezas dos seus grandes vultos litterarios, Sanazarro, Dante, Petrarcha, Ariosto, Bembo e Dante, cujas obras possuia.
Certamente, a conversação com Sá de Miranda devia ser procurada pelos fidalgos mais illustrados que faziam parte do sequito do rei. A consideração que gozava pelo respeito que infundia a sua rectidão de caracter, a longa viagem feita pelo estrangeiro e de onde ainda ha pouco regressara, o muito que devia ter visto e aprendido durante sua excursão, tornavam-o, sem duvida, reclamado em a côrte. O poeta aproveitou este seu predominio para pugnar pelo triumpho dos grandes mestres de Italia, estimulando a curiosidade dos espiritos mais illustrados e intelligentes, patenteando-lhes as perfeições litterarias dos seus trabalhos, emfim, preparando-os para bem receber as suas projectadas obras. Ao mesmo tempo, ia desassombradamente atacando com vigor as producções dos escriptores nacionaes, apontando e condemnando os defeitos que lhes encontrava.
Não foram baldados os esforços de Sá de Miranda. A côrte teve que se render ante o seu talento e a sua erudição. Como diz a Vida, co as colidades de sua pessoa e boas partes que nelle concorrião, sem outra alguma ajuda das que costumão levantar ainda os indignos, se fez tamanho lugar, que foy sem controversia, senão o mayor hum dos mais estimados cortesãos de seu tempo, concorrendo cos milhores que este Reyno teve por ventura, e isto não só dos companheiros, mas del Rey e dos Principes, e o que he mais dos vallidos com quem ordinariamente nam adiantão os amigos de antes quebrar, que torcer (como elle diz) tomando em desprezo proprio a estimaçam alhea e sentindo como injurias particulares a detestaçam que os judiciosos e discursivos fazem dos vicios em geral. Com effeito, Sá de Miranda atou e sustentou relações de estreita amizade com alguns dos mais nobres fidalgos, como D. Luiz da Silveira, D. Manuel de Portugal, Pero Carvalho e outros.
Sá de Miranda não se limitou, porém, a propugnar pela divulgarisação dos modelos classicos. Foi mais além e começou a atacar com energia os vicios do tempo, a corrupção que alastrava sem dique. A renovação de seu trato com a côrte permittiu-lhe estudar a fundo os novos costumes dos principes e dos aulicos e analysal-os com olhos de ver para melhor lhes applicar o ferro candente.
Em Coimbra, os cortezãos, e a cohorte de parasitas que os seguira até ali, foram de uma insaciedade fora de commum. A nobreza da cidade exhauriu-se até de recursos para proporcionar uma vida regalada aos exigentes fidalgos, mas nada os contentou. Acostumados ás montarias aventurosas da graciosa Almeirim e á vida regalada da farta Santarem, não cessaram de clamar contra a existencia atribulada e parca que levavam na soturna cidade. Sentiram-se bem quando a deixaram, voltando para o sul do paiz.
Sá de Miranda, que fôra dos que promoveram a mór parte das festas em honra dos famelicos cortezãos de seu amigo D. João III, conteve a custo a indignação. Mas, quando a côrte d'ali retirou, a sua ira rompeu caustica como um ferro em brasa. Dirigiu, então, a Pero Carvalho, guarda roupa do rei, essa famosa carta, coriscante diatribe que foi ferir certeiramente os alvejados.
N'essa carta, o poeta começa por exprobrar a maledicencia da fidalguia e lançar-lhe em rosto a sua ingratidão para com uma cidade que toda se esmerara em bem recebel-os. Fal-o, não por um exclusivo sentimento de amor á terra natal, mas por um acto de justiça, homenagem á verdade.
Que tenção todos tomastes Á terra que me criou De que tanto praguejastes? Por que? Que vos acoutou Da peste com que i chegastes. Fostes mal agasalhados? Não, certo, que té as fazendas, Vos davão parvos honrados. Pois, por que? Porque os privados Tinheis longe vossas rendas? O que eu por parcialidade Nem outros respeitos digo: Da antiga e nobre cidade Som natural, som amigo, Som porém mais da verdade.
Após a retirada dos famelicos, a cidade sente-se aliviada de um grande peso. O proprio poeta viu-se desafrontado.
Como vos partistes de i, Logo abrigados achei Em que me desencolhi. Seguramente dormi, Seguramente velei.
Para envergonhar os cortezãos ingratos que lhe preferiam a insignificante Almeirim, põe em relevo a honra de Coimbra possuir o corpo de D. Affonso Henriques.
Cidade rica do santo Corpo do seu rei primeiro Que ainda vimos com espanto, Ha tam pouco, todo inteiro Dos anos que podem tanto.
E diz-lhe que aquella cidade é tradicionalmente a mais nobre e leal.
Outro rei, tanto sem mal Que lhe empeceu a bondade, O quarto de Portugal, Qual teve ele outra cidade Tam constante e tam leal?
A nobreza ociosa e interesseira.
Homens que sempre aos proveitos E a vosso interesse andais, Vestidos de falsos peitos, Quam pouco que nos lembrais Dos sãos, dos comuns respeitos. Pôr esta causa se ve Diferença nos conselhos E chega inda o mal até Desacreditar nos velhos A sã prudencia e a fe.
A côrte é magnificamente pintada.
Essa Circes feiticeira Da corte tudo trasanda; Um faz ũa onça ligeira, Outro faz lobo que manda, Outro cão que a caça cheira. Cantão ó passar sereas Que fazem adormecer. Correndo todas as veas De sono e tal sabor cheas, Não se pode homem erguer.
A ociosidade nociva a que se entregava a fidalguia recebe uma condemnação severa. Sá de Miranda, para revestir da maior auctoridade as suas palavras, poe-a em confronto com a sua vida toda de trabalho e de estudo.
O nome da ociosidade Soa mal, mas se ela é sã, Bem empregada em vontade, Socrates da liberdade Sempre lhe chamou irmã! Dou vos Enio por autor: Quem não sabe usar do ocio Cansa e anda d'arredor, Que vem a têr mais negocio Que um grande negociador. Que ó menos sabe apos que anda, Estoutro a si não se entende, Quanto anda, tanto desanda, Não se obedece nem manda, Ora se apaga, ora acende. Ve-lo ir, ve-lo tornar, Ve-lo cansar e gemer E em busca de si andar, Cobrar a cor e perder. Que se não pode topar! Mas eu, porque passa assi, Que seja muito, direi: Dias ha que me escondi, Co que li, co que escrevi, Inda me não enfadei.
Satyra directa e violenta, a carta a Pero Carvalho provocou uma surda irritação de despeito, mal contida pelo temor do valimento do poeta junto do monarcha. Os fidalgos attingidos não poderam tirar immediatamente o desforço, tiveram que ouvir e calar, mas, d'ahi em diante, poude Sá de Miranda contar com alguns inimigos que deviam aguardar com anciedade o momento da vingança.
O unico passatempo da côrte era, então, as diversões scenicas, os autos ou comedias representadas perante a nobreza. Gil Vicente, emquanto a côrte esteve em Coimbra, ia ahi propositadamente, de Santarem, onde habitualmente residia, segundo se infere de suas producções, divertil-a com suas farças. Com esse fim compoz a Comedia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra, a Tragicomedia Pastoril da Serra da Estrella, a Farça dos Almocreves e o Dialogo sobre a Resurreição.
Talento dramatico genial mas inculto, viva encarnação do espirito popular, satyrico e motejador, Gil Vicente arremettia audaciosamente com todos e com tudo, não respeitando sequer as coisas divinas. Seus autos e farças eram um tanto grotescas, por vezes excessivamente livres, algumas extraordinariamente louvaminheiras dos cortezãos. O dialogo não era dos mais apurados nem a acção muito cuidada.
Sá de Miranda, que assistira, em a scena italiana, a representações de comedias classicas em prosa, originaes, com um fino dialogo, limadas de allusões facêtas, acção escolhida, não poupava censuras nem criticas aceradas ás producções de Gil Vicente. Sobretudo, condemnava asperamente a liberdade com que o creador do theatro nacional tirava das sagradas escripturas os elementos de todos os seus autos hieraticos. Catholico fervente, não lhe perdoava que tratasse coisas serias em estylo chocareiro, zombeteando escandalosamente de quanto lhe era respeitavel.
E, para mais pôr em evidencia a elevação da comedia classica em prosa, para estabelecer o confronto de esta com o theatro nacional, compoz e apresentou Os Estrangeiros, em a opinião da ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos a primeira comedia classica portugueza em prosa, sendo-lhe posterior a Eufrosina de Jorge Ferreira de Vasconcellos. Foi acolhida com interesse.
Houve quem applaudisse enthusiasticamente Os Estrangeiros por seu estylo sentencioso, muy limado e novo, que a tudo excedia em brevidade, grandeza e decoro e que guardava as regras da arte com summa perfeição. Os partidarios do theatro nacional, envolvidos por Sá de Miranda nos gracejos do Prologo, sentiram-se attingidos e receberam a novidade com zombarias. A lucta contra a innovação, acirrada de certo pelos inimigos de um e outro poeta, parece ter se tornado porfiada, d'ahi em diante.
Das relações pessoaes entre Sá de Miranda e Gil Vicente, o mais fiel representante da tradição nacional, não se pode, em verdade, mais fazer que conjecturas. É provavel que Sá de Miranda não tivesse Gil Vicente em grande consideração pela liberdade com que usava e abusava dos livros sagrados, facto que o magoava a elle que, embora não fosse fanatico nem exaltado, era, todavia, sincero e respeitador. Não se encontra, porém, em suas composições poeticas, uma unica allusão directa, incisiva, sobre o emerito auctor da Ignez Pereira.
Qual o proceder de Gil Vicente para com o acerrimo propugnador dos modelos classicos? O sr. Theophilo Braga vê, no final da Comedia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra, em o elogio dos Menezes, um acto de louvor a Sá de Miranda, descendente de aquella familia, por parte de seu antepassado João Rodrigues de Sá de Menezes. Por seu lado, o grande romancista Camillo Castello Branco viu em a farça Clerigo da Beira uma satyra a Sá de Miranda, pessoal de mais para se considerar mera casualidade.
Em a alludida farça, Gil Vicente refere-se a um filho de clerigo, de nome Francisco, de más manhas e peor lingua, com costella de lavrador e pretensões de cortezão. O proprio pae, parece que com pleno conhecimento de causa, lhe diz:
Filho de clerigo és, Nunca bom feito farás.
Frei Mendo não anda muito de accordo com o filho, é um continuo conflicto entre os dois. O clerigo, menoscabando as qualidades d'elle, invectiva-o:
Medraria este rapaz Na côrte mais que ninguem, Porque lá não fazem bem Senão a quem menos faz Outras manchas tem assaz, Cada uma muito bôa: Nunca diz bem de pessoa, Nem verdade nunca a traz. Mexerica que por nada Revolverá San Francisco Que para a côrte é um visco, Que caça toda a manada.
Realmente, esta allusão aos filhos de frei Mendo, sendo o pae de Sá de Miranda o conego Gonçalo Mendes, parece tencional. A farça, porém, foi representada em 1520, em Almeirim, e não se sabe como conciliar essa data com a do regresso do poeta de sua viagem á Italia. Ou será necessario admittir-se que, em fins d'esse anno, elle estaria de volta a Portugal e já gosava o favor da côrte? Pode ser.
Em tal caso, comtudo, essa allusão viria mais da popularidade de Sá de Miranda, de sua presumpção pelo muito que vira e ouvira no estrangeiro e não seria resultante de suas tentativas de innovador, embora logo após o seu regresso houvesse começado a atacar os defeitos que encontrava em as obras portuguezas. Seria mesmo uma satyra impessoal, caracteristica de uma entidade do tempo. Quantos conegos Mendes haveria então? como hoje Marias e Manueis.
Indubitavelmente, as innovações de Sá de Miranda deviam encontrar opposição e as suas obras detractores. Sim, que o poeta era um severissimo censor, um caracter immaculado. Sá de Miranda não recuou e a breve trecho lançou um novo desafio á escola do theatro tradicional portuguez com a bella Fabula do Mondego, em forma de canção e que, ao que resulta de algumas de suas passagens, foi representada em a côrte na estação calmosa, em um certo e determinado dia festivo, talvez o anniversario de el-rei, 6 de junho. A seguir, appareceu a ecloga Aleixo e varios sonetos que mais vieram augmentar a reputação de Sá de Miranda e, tambem, os seus rivaes.
A ecloga Aleixo! Foi a melhor arma que Sá de Miranda poude collocar em as mãos de seus inimigos.
De varias formas tem sido explicado o abandono definitivo da côrte por Sá de Miranda, entre 1533 a 1534, para se retirar á Commenda das Duas Egrejas. As causas d'esse exilio voluntario, a par de forçado, foram, decerto, complexas e multiplas, ao que se pode ler em as entrelinhas de suas poesias e nas do seu anonymo biographo, muito prudente para com uma allusão directa fazer reviver rancores mal apagados.
A Vida dá como motivo immediato da saida de Sá de Miranda da côrte o odio de hua pessoa muito poderosa d'aquella era em desprazer de quem se interpretava mal polla mesma enveja hum lugar de sua Egloga de Aleyxo. Temos por tão auctorisada a Vida, que não ousamos duvidar da veracidade de sua noticia, além de que a interpretação da ecloga Aleixo, como perfeitamente o provou a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, explica cabalmente o obscuro successo. Porém, nem todos os escriptores têm interpretado o caso como vem evidenciado em a Vida.
Indo de encontro á cathegorica affirmativa do desconhecido biographo, o sr. Theophilo Braga quer que tenha sido a ecloga Andrés e não Aleyxo, a causadora immediata da intriga que provocou o exilio de Sá de Miranda. Ora, exactamente essa ecloga foi escripta quando já o poeta se encontrava em a Tapada, após o seu casamento e annos depois da morte de todos os que se podiam offender com as allusões n'ella contidas, allusões que Sá de Miranda dava, de resto, como uma simples recordação de annos passados. Não podem, pois, as referencias ao caso escandaloso do casamento do infante D. Fernando, que arrancára D. Guiomar Coutinho ao marquez de Torres, com quem secretamente se desposara, para casar com ella, ter concorrido em cousa alguma para que Sá de Miranda se visse compellido a abandonar a côrte.
Tão pouco satisfaz o espirito ou resolve o problema, a hypothese avançada por Camillo Castello Branco. O facto de seus primos e amigos, a par de companheiros de infancia, Simão de Miranda Henriques e Gonçalo de Miranda da Silva, haverem sido iniquamente esbulhados dos seus haveres, devia, certamente, feril-o profundamente em seu coração, indispôr ainda mais seu animo contra a torpe fidalguia, azedar o seu caracter, mas não impôr a sua saida da côrte.
O erudito escriptor Manuel Pinheiro Chagas attribuiu exclusivamente o rompimento definitivo de Sá de Miranda com a côrte ao seu amor ao retiro, inclinação propria do temperamento melancolico e um pouco misanthropo do poeta, aggravado pela morte de uma mulher que amara profundamente e que apenas seria conhecida pelo pseudonymo pastoril de Celia. Parece demasiado accesso de romanticismo quando este ainda não estava em voga.
Não foi nenhuma d'estas circumstancias isolada, mas sim todas juntas a causa do exilio de Sá de Miranda. Os successivos escandalos da côrte, que se multiplicavam prodigiosamente, o constante accrescendo da attitude aggressiva de seus inimigos, cujos desvarios não poupava, o convencimento de que, por então, não podia levar por diante o seu ideal de reforma litteraria e de engrandecimento da poesia portugueza, haviam chocado muito o animo forte e persistente de Sá de Miranda. O espirito do poeta, de si propenso para a solidão, foi-se aggravando.
Haviam terminado os bons tempos. Emquanto os chronistas, attentando unicamente em o brilho das exterioridades, continuavam a entoar hymnos ao engrandecimento do paiz, Sá de Miranda profundava em todo o seu horror a enorme decadencia moral, analysava a corrupção que tão intensamente lavrava e divisava em o sombrio horisonte os pavores de um futuro de aniquilamento. Ninguém quiz ouvil-o. Desilludiu-se e pouco a pouco foi radicando-se em sua mente a idêa de abandonar para sempre a vida turbulenta e miseravel da côrte, tanto que começou a solicitar de seu amigo D. João III a commenda das Duas Egrejas.
Deu-se, então, o successo da ecloga Aleixo. Veiu elle epilogar o conflicto travado em a consciencia do poeta.
A antiga amizade de Sá de Miranda por Bernardim Ribeiro mantivera-se, senão avigorara, atravez das vicissitudes de um e outro poeta. Em a ecloga Aleixo, ao que parece composta e representada por 1530, Sá de Miranda referiu-se ao desterro de seu amigo, defendendo-o com palavras dedicadas.
Juan No sé como no llorava. Sabes porque sospirava? Porque aqui canto Ribero, Aqui nuestro amo escuchava, Rodeavan lo pastores, Colgados de la su boca Cantando el los sus amores. Gente de firmeza poca Que le dió tantos loores, I aora ge los apoca! Anton Eso falta, Juan pastor! Soncas, porque sospirar? I a que se pueden alzar Ia los ojos sin dolor? Ni a que se pueden bajar Donde los pornás enjutos? Adelante, o cara atras? Las tierras niegan sus frutos: El sembrar es por demas, Los aires andan corrutos, Los hombres cada vez mas. De aquel gran pino a la sombra... Ia ves quanto que ensanchó! Que el prado i zarzas cobrió I los vezinos asombra.
A allusão, o gran pino, entendia-se com o valido de el-rei, o conde de Castanheira D. Antonio de Athaide. Este, como todos os favoritos poderosos, orgulhoso e despotico, abusava com frequencia de seu prestigio e, no caso a que se referia a ecloga, elle não deixaria de concorrer grandemente para o desenlace que se deplorava.
Embora franca e rude, a allusão era, comtudo, digna e não deprimente. Os inimigos de Sá de Miranda aproveitaram-a para tecer uma habilissimateia e afastarem para longe o atrevido poeta, implacavel para com os seus desmandos. Intrigando na sombra, torceram a interpretação da ecloga e deram ao trecho incriminado um sentido que, certamente, não tinha. Apresentaram-o como um ataque directo. O conde de Castanheira, cioso de seu valimento, comprehende-se bem, não poude levar á paciencia a intervenção do poeta e muito menos tolerar o que considerou atrevidos insultos.
Quaes as consequencias da torpissima intriga e do furor do valido, eis o que não é precisamente conhecido. Dos versos de Sá de Miranda pode-se inferir que foi cruelmente perseguido, correndo talvez mesmo grave risco de, quem sabe, ser assassinado. Com effeito, mais tarde, quando já em seu retiro, escrevia a seu irmão:
Agora, por que vos conte O que vi, tudo é mudado: Quando me acolhi ó monte, Por meus imigos de fronte Vi lobos no povoado:
e tambem:
Polo qual a este abrigo, Onde me acolhi cansado E ja com assaz perigo, A essas letras que sigo, Devo que nunca me enfado, Devo a minha muito amada E prezada liberdade Que tive aos dados jugada. Aqui sômente é mandada Da rezão boa e verdade.
A bella Canção a Nossa Senhora parece ter sido escripta quando o poeta soffria duro captiveiro. Pelo menos, se se tomar á lettra estes versos:
ao meu destroço, Assi tam perseguido como vedes, D'antres tam altas, tam grossas paredes, De ferro carregado,
Note-se que essa canção, como o proprio Sá de Miranda declara, foi feita por aquela de Petrarcha: «Virgine bella». Longe de constituir uma vaga reminiscencia, é uma imitação positiva, embora livre, e que se pode acompanhar com o modelo. Se nãohouvesse a confissão do consciencioso poeta em seu ms., bastaria a simples confrontação para o provar. Dias Gomes, que a analysou com uma minucia de grammatico estrophe por estrophe, verificou que o poeta portuguez até lhe deu o mesmo numero de estancias e versos, a mesma disposição metrica e simulcadente, começando, como retrarcha, cada uma d'aquellas pela palavra Virgem.
Não ha duvida em que a factura da Canção seja posterior ao regresso do poeta ao paiz. Mas seria composta por esta epoca? A ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos julga que sim.
A illustrada senhora, reconhecendo que o assumpto foi tratado magistralmente e que a Canção de Sá de Miranda excede em muito o seu modelo, quanto á profunda expressão e intensidade do sentimento, não concorda com Dias Gomes em que ella seja a producção mais sublime que se encontra nas composições do illustre poeta da Tapada. A nosso ver, a Canção, realmente admiravel pelo sentimento que a vivifica, tem o seu tanto ou quanto de artificiosa.
Se não, veja-se:
............................... Virgem, seguro porto e emparo e abrigo Ás môres tempestades; ah que tinha Ós ventos esta vida encomendada Sem olhar a que parte ia ou vinha, Vãmente descuidado do perigo, Surdo aos conselhos, tudo tendo em nada, Não vos seja em despreço ũa coitada Alma que ante vos vem, Por rezõis que tem, De imigos grandes mal ameaçada. E que eu tam pecador e errado seja, Vença vossa piedade Minha maldade grande e assi sobeja. Virgem, do mar estrela, neste lago E nesta noite um faro que nos guia, Pera o porto seguro um certo norte; Quem sem vos atinar, quem poderia Abrir sômente os olhos vendo o estrago Que atras olhando deixa feito a morte? Quem proa me daria com que corte Por tam brava tormenta? De toda a parte venta, De toda espanta o tempo feo e forte. Mas tudo que será? coa vossa ajudaNévoa que foge ao vento Que num momento s'alevanta e muda. ..................................... Virgem, nossa esperança, um alto poço De vivas aguas, donde a graça corre Em que se matão pera sempre as sedes; Não de Nembrot, mas de David a torre, Donde socorro espero ao meu destroço, Assi tam perseguido como vedes, D'antre tam altas, tam grossas paredes, De ferro carregado, Um coração coitado Chama por vos envolto em bastas redes. Esse que eu som, sinais inda algums tenho De ser do vosso bando, Que a vos bradando por piedade venho. Virgem do sol vestida, e dos seus raios Toda cuberta e ainda coroada De estrelas, e debaixo o sol, a lua, São vindas minhas culpas d'assuada Sobre mim tantas; valei-me ós meus desmaios! De tantas que possa ir chorando algũa! Não me deixárão desculpa nenhũa Os meus erros sobejos; Levarão me os desejos O milhor das idades ũa e ũa. Quem tromenta passou por toda a praia Cos ventos contrastando, Saia nadando, ja coa vida, e saia. Virgem, horto cercado, alto e defeso, Rico ramo do tronco de Jessé Que milagrosamente enflorece, Custodia preciosissima da fe Que toda junta tivestes em peso Quando um e o outro sol sua luz perdeu; Rompão os meus sospiros o alto ceo, E a vos cheguem, senhora, Que assi voa de ora em ora Envolto n'este cego e basto veo; De dia em dia, vou me de ano em ano, A minha fim chegando Dessimulando a vergonha e o dano.
Não será exactamente a referencia á prisão artificio poetico? A Vida assevera que Sá de Miranda viu com desgosto a errada e malevola interpretação do Aleyxo, mas que, nem querendo declarar-se milhor, nem esperar á vista os effeitos da ira declarada, tendo-lhe el Rey dado hua Comenda do Mestrado de Christo, que chamão as duas Igrejas, preferiu retirar-se voluntariamente da côrte. Isto afasta, portanto, a idêa da perseguição.
Como se poderia explicar que o poeta soffresse duros tratos se contava com a amizade provada do seu bom amigo D. João III e com a terna affeição do herdeiro da corôa que lhe mandava pedir suas poesias! É natural que se tenha manifestado acceso, a pretexto da Aleyxo, o odio dos inimigos de Sá de Miranda, mas não parece provavel que o soberano consentisse em o ver perseguido como um animal damninho a que fosse necessario encurralar. Vamos mesmo porque se metteu de permeio agraciando Sá de Miranda com a Commenda de Santa Maria das Duas Egrejas, conhecedor de sua grande vontade de se recolher á solidão.
O facto é que Sá de Miranda abandonou a côrte para nunca mais voltar a ella. Deixou o mimo da Corte, a conversaçam dos amigos, a esperança de mayores merces assegurada no favor do Principe Dom João, que em muito tenra idade, começava a fazer lhe grande, e do Cardeal Dom Henrique, que com mostras de particular affeição assistia a suas cousas. Tudo pôz de parte preferindo-lhe o socego corporal e espiritual.
O Minho, com a sua verdura de esmeralda, o seu azul purissimo, a fertilidade de seu solo, a simplicidade encantadora de primitiva de seus costumes, prendeu o philosophico poeta. A Commenda das Duas Egrejas, a que se retirara, ficava perto do Pico de Regalados, na margem esquerda do Rio Neiva, margens deliciosas como todas as do norte portuguez accidentado e exuberante de vegetação.
Por lá se deixou ficar Sá de Miranda, no encanto e socego da paisagem, a descançar das agitações da côrte e a inspirar-se em o doce decorrer de uma tranquilla existencia. Ali, que até a natureza é tocante de candura, que tudo encanta a alma e enleva o espirito, se fortaleceu o seu animo abatido pelos desgostos experimentados na côrte e foram produzidas as suas melhores composições poeticas.
Proximo da Commenda das Duas Egrejas vivia, em propriedades suas, Antonio Pereira Marramaque, senhor de Basto, homem tido por mui douto e versado em humanidades. Antonio Pereira entregava-se á vida placida dos campos, não sem que votasse os seus maiores ocios ao estudo, acompanhando com vivo interesse o movimento intellectual da Europa. Seguia os resultados do conflicto provocado pela Reforma e defendia-a com calor. Poetava tambem.
Entre Sá de Miranda e Antonio Pereira estabeleceram-se relações que rapidamente se estreitaram e tornaram das mais intimas. Os dois poetas foram mesmo quasi inseparaveis durante cerca de dois annos, sendo Sá de Miranda hospede assiduo e considerado da casa de Basto, onde passava a maior parte do anno.
Das mãos de Antonio Pereira recebeu Sá de Miranda o primeiro exemplar das obras de Garcilaso e isto antes de 1536. Foi talvez esse offerecimento o ponto de partida da amizade que os dois sustentaram. Esse exemplar era, sem duvida, manuscripto, pois que a primeira edição d'aquellas obras appareceu em 1543. É certo que para o primeiro anniversario da morte de Garcilaso, em 1536, compôz Sá de Miranda a sua ecloga Nemoroso em que evidencia o mais intimo conhecimento não só das poesias do grande lyrico hespanhol como de sua propria vida.
Apraziveis dias passaram os dois poetas. Gozaram a pulmões cheios o encanto dos prazeres campezinos. Sá de Miranda, era inclinado á caça dos Lobos. Não faltaram egualmente festas caseiras nem representações de comedias improvisadas a que vinham assistir os mais nobres dos arredores. Ás vezes, como era amigo de musica, Sá de Miranda tangia viola de arco.
Assim foram os primeiros annos que Sá de Miranda passou em o campo. Tudo tem fim n'este mundo e essa magnifica existencia da casa de Basto terminou por haver Antonio Pereira partido para a côrte com a sua casa toda, como o poeta diz em a carta que lhe dedicou.
Não é precisamente conhecida a causa nem a data da partida de Antonio Pereira para Lisboa. Ha escriptores que affirmam ter-se ella realisado depois de 1540, isto é, em epoca em que o senhor de Basto começava a preoccupar-se com o futuro de seus filhos, nascidos por 1530, e entendia dever apresental-os na côrte. Parece a outros que Pereira pensava em os levar a frequentar a Universidade, o que não é possivel admittir-se pois que aquella, reformada por iniciativa de D. João III, voltou para Coimbra em 1537.
Seja qual fôr a causa que a determinou, a ida de Antonio Pereira para Lisboa deve ter-se effectuado antes de 1536. Accusam-o diversos indicios, entre outros os versos da carta que lhe dirigiu Sá de Miranda e pelos quaes se conclue que, ao tempo em que era escripta, viviam ainda Garcilaso e Gil Vicente. De resto, não se encontra n'ella a minima allusão a seu casamento, o que era natural dar-se sendo, como eram, os dois tão intimos amigos e constituindo aquella por assim dizer, um precioso inventario da feliz temporada que elles haviam levado em sua convivencia.
Sá de Miranda assistiu com immenso desgosto á partida de Antonio Pereira. A proposito, escreveu a esplendida carta em que lhe faz amarissimas reflexões e reprova as enormes despezas que a mudança exigia. Depois, o perigo de seu bom amigo se perverter ao contacto com essa côrte de que elle fugira!
Como eu vi correr pardaos Por Cabeceiras de Basto, Crecer em cercas e em gasto, Vi por caminhos tam maos Tal trilha, tamanho rasto, Nesta ora os olhos ergui Á casa antiga e á torre Dizendo comigo assi: Se nos deus não val aqui. Perigoso imigo corre!
Sá de Miranda recorda saudosamente, em sua carta, o bello periodo de convivio doce e sereno que tivera com Antonio Pereira, convivio simples e puro em que a conversa attrahente e erudita do respeitavel poeta que viajara por Italia era apreciada como o merecia. Confronta bellamente esse viver de provincia, á antiga, com o dos cortezãos sempre famelicos.
Os bons convites antigos, Antes de se tudo alçar, Erão pera conversar Os parentes e os amigos, Que não pera arrebentar.
Os mezes mais calmosos do anno, julho e agosto, passavam-o os dois em a fonte da Barroca. A meza era frugal, a remir dias, placidamente, em suave conversação.
Á vossa fonte tam fria Da Barroca em julho e agosto (Inda me é presente o gosto) Quam bem que nos i sabia Quanto na mesa era posto! Ali não mordia a graça, Erão iguais os juizes, Não vinha nada da praça, Ali da vossa cachaça, Ali das vossas perdizes! Ali das fruitas da terra, (Que dá cada tempo a sua) Colhida á mão cada ũa! Nunca o sabor a vista erra, Cheirosa, formosa, e nua. Oh ceas do paraiso Que nunca o tempo vos vença, Sem fala da nossa ou riso, Nem carregadas do siso, Nem danadas da licença!
Os dois poetas liam, saboreavam e discutiam as melhores producções dos poetas antigos e contemporaneos d'elles. Falavam de Ariosto, de Bembo, de Sanazarro, de Laso e de Boscan, e Sá de Miranda apontava as bellezas dos modelos que procurava introduzir, advogava colorosamente suas innovações.
Des i, o gosto chamando A outros môres sabores, Liamos pelos amores Do bravo e furioso Orlando, E da Arcadia os bons pastores. Se eu isto estimado agora Vira como d'antes era, Por meu conto avante fora, Mas não diz ora com ora: Vão se como ó fogo a cera!
Ou como se lê em uma outra variante de sua carta;
Liamos os Assolanos De Bembo, engenho tam raro Nestes derradeiros anos, Os pastores italianos Do bom velho Sanazaro. Liamos ao brando Lasso Com seu amigo Boscão Que honrárão a sua nação Ia me meu passo a passo Aos nossos que aqui não vão,
Desejando pôr Antonio Pereira a coberto das tentações da côrte, Sá de Miranda descreve-lhe o máo estar do paiz, aponta-lhe os perigos que corre e condemna energicamente os desvarios de uma perdida nobreza. O seu amigo, assim prevenido, decerto se acautelaria e prudentemente havia de resistir ao refluxo da absorvente maré.
É entrada polos portos No reino crara peçonha Sem que remedio se ponha. Ums doentes, outros mortos, Outro polas ruas sonha. Fez nos a ousada avareza Vencer o vento e o mar, Vencer caje a natureza. Medo hei de novo a riqueza Que nos torne a cativar.
Em torno de Sá de Miranda como que se fez um vacuo enorme após a partida de seu inseparavel companheiro de estudos litterarios. Para bem avaliar a grandeza daquella amizade bastará apontar o logar que o nome de Antonio Pereira occupa em as poesias do cantor do Neiva. A elle communicou as impressões de suas viagens em cartas infelizmente perdidas e a elle dedicou as eclogas Nemoroso e Aleixo. Ao irmão Nunalvarez offereceu a sua esplendida Basto.
Então, tambem por 1536, parece ter Sá de Miranda passado a habitar a Tapada, vasta e magnifica vivenda com quinta e bosque que demandava a pequena distancia da Commenda. Esta transferencia de habitação tem sido mal comprehendida por alguns escriptores, inclusivé pela ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos que acha de todos os casos muito menos provavel que Sá de Miranda possuisse a Quinta da Tapada antes de obter a mercê da Commenda e que D. João III escolhesse Duas Egrejas exactamente como a mais proxima do retiro que o poeta havia preferido.
O anonymo biographo da Vida affirma expressamente que Sá de Miranda, tendo-lhe el-Rey dado hua Comenda do Mestrado de Christo, que chamão as duas Igrejas... recolheu-se a hua quinta que tambem tinha ahi perto chamada a Tapada. Indiscutivel, pois, que a quinta não fazia parte da Commenda e ainda mais indiscutivel que o poeta a possuia antes e independentemente de receber Duas Egrejas. Lá está o desconhecido contemporaneo a attestal-o por uma forma cathegorica.
É, por isso, racional admittir-se que a quinta fosse propriedade do poeta, talvez de familia, e tanto assim que continuou na posse dos seus descendentes, ao passo que a Commenda já por 1607 havia passado a outras mãos. Admissivel, tambem, que Sá de Miranda solicitasse a Commenda por se encontrar situada proximo da Tapada que já possuia. Provavel, finalmente, que a moradia em a Commenda tivesse em vista, apenas, dar tempo a realisarem-se na casa da Tapada as adaptações necessarias para receber o poeta. É de tudo o mais logico.
Sá de Miranda nem um unico momento afrouxou em sua actividade desde que se retirou ao Minho. A ociosidade foi para elle sempre uma palavra vã.
O nome da ociosidade Soa mal, mas se ela é sã, Bem empregada em vontade, Socrates da liberdade Sempre lhe chamou irmã!
As obras dos poetas contemporaneos andavam em constante leitura. Ellas o estimulavam a proseguir.
Co que li, co que escrevi, Inda me não enfadei.
Depois, com a auctoridade de seu nome e de seu caracter, principiava a ganhar adeptos sinceros. A sua musa é, então, vigorosa como nunca. A acuidade do poeta desenvolve-se extraordinariamente.
Sá de Miranda acompanhava do Minho, com o mais vivo interesse, os menores acontecimentos politicos. Preoccupava-o o destino do paiz e não lhe era indifferente nem as prosperidades nem as desgraças que gosava ou soffria a existencia dos homens que dirigiam os destinos da patria. Esta parecia agora renascer brilhante como em os tempos aureos do venturoso D. Manuel. O movimento litterario renovava-se fazendo esperar novos dias de radiosa gloria. Na côrte, as boas lettras, a poesia, os estudos classicos, patrocinados pela familia reinante, prosperavam. A Universidade, reformada em 1537, passava a Coimbra, para que o bulicio da capital não fosse estorvo ao estudo, e para a dirigir vinham do estrangeiro professores dos mais illustres.
Sempre coherente de pensamento com as acções, esperançado em melhores epocas, Sá de Miranda escreve as suas Cartas a el-rei D. João III e ao seu velho amigo e parente João Rodrigues de Sá e Menezes. O patriota emerito mostra n'ellas o mais profundo conhecimento do que se passava na côrte e ataca com o seu costumado vigor as ambições dos aulicos. Em seu dizer sentencioso, severo mas commedido, tenta accordar as consciencias, arrancar a nobreza aos deleites de uma vida capuana e trazel-a ao estricto cumprimento do dever.
Infelizmente, os appellos do poeta foram completamente perdidos e o cataclysmo, que havia de afogar as consciencias em ondas de sangue, vinha annunciado já pelas nuvens negras que appareciam da banda de Italia. A 20 de setembro de 1539 realisava-se o primeiro auto da fé. As chammas das sinistras fogueiras, elevando-se para o ceo com esgares satanicos, eram como maldições que arrastavam Portugal até ao anniquilamento de 1580.
A ecloga Basto e as Cartas a El-rei, a João Rodrigues de Sá e Menezes e a Antonio Pereira, este esplendido grupo de poesias pertence, em o parecer da ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, parecer com que nos conformamos, ao curto espaço de tempo que mediou entre a retirada da côrte e o casamento do poeta com D. Briolanja, em 1536.
Scintilla n'essas composições a quintilha, admiravel de vivacidade, sublime de causticidade sentenciosa. Como muito bem considera a illustrada escriptora, sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, a ecloga Basto e as Cartas representam o que ha de mais original e de mais valioso entre todas as composições poeticas de Sá de Miranda. São essas as que ainda hoje mais captivam as attenções. Lêm-se com agrado, prendem o espirito pela sua graça e dominam pela forte convicção que respiram.
O sr. Theophilo Braga estima, egualmente, as Cartas de Sá de Miranda como o que ha de melhor na poesia dos quinhentistas. E diz com razão que a quintilha, em o verso de sete syllabas, popular, torna-se facil e tão engenhosa que se presta a todas as descripções, a todos os dizeres e locuções particulares da lingua, aos apophtegmas já metrificados pela tradição. Como satyras, as Cartas em nada desmerecem ás de Horacio ou de Tolentino. De resto, Sá de Miranda era, sobretudo, um moralista e a poesia prestava-se, principalmente na redondilha, para os dizeres conceituosos.
Das Cartas destaca-se, pela energia, pela hombridade e rectidão de caracter com que se affirma o poeta, a dirigida a el-rei. Como bellamente assignala a ex.ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos, não se sabe que admirar mais n'ella, se a nobreza da linguagem, se a alma do patriota, se o grande caracter do fidalgo, se a ironia aguda do moralista. Antes deve admirar-se, essa carta, por todo esse conjuncto de predicados raramente reunidos.
A Carta a El-rei foi, por assim dizer, a despedida do poeta a D. João III, o seu adeus á côrte. Sá de Miranda dirige-se ao monarcha como vassallo leal, cuja confiança lhe permitte fallar com desassombro, não como cortezão lisongeiro. Tem em vista expor a verdade, não a intriga. E fal-o empregando uma fórma aphoristica e sentenciosa que mais impõe a severidade de seu caracter.
Sá de Miranda relata ao rei o estado de degradação a que o paiz chegara, aponta-lhe o servilismo enganador dos fidalgos que o rodeiam, indica-lhe os perigos de que precisa defender-se e incita-o a uma acção energica para limpar e purificar a corrupta sociedade que o cerca. A consciencia do poeta, a sua grande amizade ao monarcha, o convencimento que lhe dá o conhecer intimamente os males de que enferma a côrte, a auctoridade do seu caracter, emfim, o sentimento do dever e um sentimento rigoroso e inabalavel que, de resto, se nota em todas as suas poesias, leva-o a nada encobrir ao rei. A carta a D. João III é filha de uma convicção profunda, clara e persuasiva.
Não ha duvida que a humanidade de si esconde vicios. Mas a falsidade é o peior mal e que mais irreparaveis damnos póde causar.
Onde ha homens, ha cobiça, Ca e la tudo ela empeça, Se a santa igual justiça Não corta ou não desempeça Quanto a malicia enliça.
Sá de Miranda experimentara os maiores desenganos n'essa côrte corrupta e enganadora que repugnava ao seu caracter franco e leal e que o levara a retirar-se para o Minho. Dando satisfação d'esse passo ou antecipando-se a solicitações a que não desejava acceder, justifica-se cabalmente de seu procedimento.
Quem graça ante o rei alcança E i fala o que não deve, (Mal grande da mâ privança!) Peçonha na fonte lança De que toda a terra bebe! Quem joga onde engano vai, Em vão corre e torna atras, Em vão sobre a face cai. Mal hajão as manhas màs De que tanto dano sai! Homem d'um sô parecer, Dum sô rosto e d'ũa fe, D'antes quebrar que volver, Outra cousa pode ser, Mas de corte homem não é. Gracejar ouço de ca Dos que inteiros vêm e vão Nem se contrafazem la: Como este vem aldeão! Que cortesão tornará.
A famelica côrte, astuciosa e matreira, ria-se da rudeza do aldeão. Demais o sabia Sá de Miranda. Elle, porém, não se ri, mas com a sua penna acerada fal-os sangrar e enraivecer. Anima-o a ser franco a bondade com que, espera-o, el-rei se dignara acolhel-o.
Senhor, hei vos de falar (Vossa mansidão me esforça) Craro o que posso alcançar:
El-rei estava rodeado de uma camarilha infame, mansos cordeiros apparentemente, mas por dentro lobos robazes. Espinha de vime e falas de assucar, lisongeiros emeritos, os cortezãos não curam de mais que dos interesses proprios e, explorando torpemente a bondade do rei, pensam unicamente em servir o seu vil egoismo.
Andão pera vos tomar Por manhas, que não por força. Por minas trazem suas hazes, Os rostos de tintoreiros. Falsas guerras! falsas pazes! De fora mansos cordeiros, De dentro lobos robazes! Tudo seu remedio tem; Que é assi, bem o sabeis, E o remedio tambem. Querei-los conhecer bem: No fruito os conhecereis. Obras que palavras não! Porem, senhor, somos muitos, E entre tanta obrigação Trasmalhamos nossos fruitos Que não saibais cujos são. Um que por outro se vende, Lança a pedra, a mão esconde, O dano longe, se estende. Aquele a quem doi, se entende, Com sôs sospiros responde. A vida desaparece; Entretanto geme e jaz O que caiu! e acontece Que d'um mal que se lhe faz, Môr despois se lhe recrece. Pena e galardão igual O mundo em peso sostem. É ũa regra geral Que a pena se deve ao mal, O galardão ao bem. Se algũa ora aconteceu Na paz, muito mais na guerra, Que d'esta lei se torceu, Faz se engano ás leis da terra, Nunca se faz ás do ceo.
São saccos sem fundo os miseraveis, exploradores ignaros dos fracos. Nomes e rostos honrados encobrem bandidos consummados. Desgraçados dos pequenos que nem sequer podem fazer chegar seus clamores até ao rei. Esteja o monarcha vigilante e atalhe com firmeza o mal.
Não têm fundo aqueles sacos. Inda mal com tantos meos Pera viver dos mais fracos E dos suores alheos. Que eu vejo nos povoados Muitos dos salteadores Com nome e rosto de honrados Andar quentes e forrados De pelos de lavradores. E senhor, não me creais Se não as achão mais finas Que as dos lobos cervais, Que arminhos nem zebelinas. Custão menos, valem mais. Ah senhor, que vos direi Que acode mais vento ás velas? Nunca se descuide o rei, Que inda não é feita a lei, Ja lhe são feitas cautelas. Então tristes das molheres, Tristes dos orfãos cuitados, E a pobreza dos mesteres! Que nem falar são ousados Diante os môres poderes.
Esplendido caracter o de esse homem de uma franqueza verdadeiramente sem egual. Se os reis tivessem sempre conselheiros assim leaes, quantas desgraças não evitariam aos seus subditos, quantas injustiças não lhes poupariam! E, necessariamente, essa admiravel carta encerra allusões directas a acontecimentos conhecidos de D. João III, mas que hoje são difficeis de traduzir.
A ex.ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos, considerando particularmente a Carta a El-Rei, aprecia-a como um desforço contra a injustiça com que trataram o poeta, porque só ouviram seus inimigos e não lhe concederam sequer o direito de pedir satisfação pelas armas ao poderoso que o calumniou. Não iremos tão longe, mesmo porque não está ainda averiguada a certeza da perseguição de que se diz ter sido victima Sá de Miranda, mas, dado que a escrevesse com uma intenção de desforra, nem por isso se deixará de avaliar em seu justo valor a famosa carta.