Condições geraes do paiz
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Entre o Zambeze e o Aruangua ou Pungue
Esta região contém antigos prazos da corôa e o reino do Barue.
Durante muito tempo os prazos da corôa da margem direita do Zambeze, a jusante da serra da Lupata, todos sujeitos á jurisdicção de Senna, eram invadidos annualmente pelos landins. Estes levantavam pesados tributos, não só nos prazos, mas na propria villa de Senna, onde ao principio, se não havia coragem e meios sufficientes para resistir ao pagamento d'estes tributos, havia a riqueza necessaria para a elles satisfazer. Os landins, com que agora viajei, disseram-me que um antigo modo de os tributar consistia em abrir um furo no alto da cobertura conica de palhotas circulares, e obrigar a deitar por esta abertura fazendas até que a palhota se recusasse a receber mais. Custa a comprehender como tal exagero podia realisar-se. Por estes motivos os prazos invadidos foram successivamente abandonados e a villa de Senna chegou ao miseravel estado de que não mais se levantará.
Cabe ao sr. major Braga, actual governador do districto de Tete, o merecido elogio de, entre muitos serviços que fez como commandante militar de Senna, ter sido levado pelo seu caracter valente e decidido a auxiliar quanto podia os intentos do cidadão Manuel Antonio de Sousa, natural de Goa, negociante sertanejo, sobrinho de um antigo residente no districto, que pretendia repellir pela força as correrias dos landins aos prazos de Senna. Manuel Antonio de Sousa, chamado pelos cafres Gouveia, foi nomeado capitão mór de Manica e Quiteve, e veiu assentar a sua casa na serra da Gorongosa, em uma posição naturalmente fortificada por tal modo, que um homem resolvido a defender-se não tinha mais a temer n'esta base de operações os ataques dos landins. A serra da Gorongosa estava absolutamente deserta quando Manuel Antonio aqui chegou com os pretos que reuniu a si; nas mesmas condições quasi se achava todo o prazo d'este nome. Foram duros os primeiros tempos em que toda esta gente tinha que ir buscar, com os meios que Manuel Antonio tinha obtido e ia obtendo com o seu commercio, mantimento aos prazos limitrophes, todos muito afastados d'este ponto, ao reino do Barue e ainda á Maganja, no outro lado do Zambeze, quando houve fome em toda a margem direita do rio. Hoje muitos milhares de pessoas habitam em centenas de povoações a serra e os territorios que a rodeiam, tanto na Gorongosa como no reino do Barue. Desde que Manuel Antonio para aqui veiu como barreira, todos os prazos cobertos pelo da Gorongosa começaram a gosar de não interrompido socego e a verem desenvolver-se n'elles a cultura dos generos de exportação, com proveito dos indigenas, até ao presente os unicos agricultores, bem como dos que com elle negoceiam e em geral do paiz.
Se a villa de Senna se não resentiu da mudança de circumstancias, a não ser pelo descanso dos que n'ella continuam a vegetar, é porque se acha em situação e condições taes, que a obrigam forçosamente{8} a desapparecer. De ha muito que pela variação do leito do rio deixou Senna de ser um bom porto de abordagem para os que navegam no Zambeze, qualidade que antigamente motivára a creação e grandeza d'esta villa, apesar da bem merecida fama de insalubridade que sempre teve.
O actual talweg do rio correrá a mais do 2 kilometros da villa, e na estiagem é necessario atravessar a descoberto um ardente areal d'esta largura para chegar da margem acostavel ás primeiras casas. O areal porém não é plano, e quando não está todo descoberto na estiagem ou coberto pelas grandes cheias, periodo em que as aguas do rio voltam a correr junto ás muralhas da velha praça de S. Marçal, formam-se n'esta zona de 2 kilometros varios mucurros, cujas aguas deixam muitas vezes de correr, e que não só augmentam a insalubridade da villa pelas suas emanações, mas tornam na maior parte do anno a villa do Senna um dos pontos da margem do Zambeze de mais difficil accesso.
N'este trabalho só desejo dizer que sou de opinião que a villa de Senna, como tem sido proposto, deve sair da margem direita do rio, passando com todo o commando militar d'este nome para a outra margem; pois não devo demorar-me a mostrar as grandes vantagens que este commando militar, pertencente ao districto de Quelimane, quando tiver a sua séde em ponto escolhido, ou nas alturas em frente de Senna, onde as casas Regís e Hollandeza têem já grandes edificios, ou um pouco mais sobre o Zioé Zioé, ha de ter no desenvolvimento da nossa acção na valiosissima região limitada pela margem direita do Chire, pelo Zioé Zioé e pela margem esquerda do Zambeze até á Lupata no ponto onde vier a terminar o districto de Tete.
Comquanto o prazo Gorongosa siga ao longo do Aruangua até avistar o mar, não chega elle até á costa, porque a confluencia do Urema na bacia que supponho ser um bom porto de mar, traz com a margem esquerda d'este rio uma porção do grande prazo Cheringoma a interpôr-se entre a Gorongosa e o Oceano. É nesta altura que os landins que se desacostumaram de pisar como conquistadores o prazo Gorongosa, passam hoje para os terrenos ao norte do Pungue atravessando o deserto prazo Cheringoma (onde julgo que tambem deixam algum destacamento) para, graças ao terror que inspira o seu nome e o apparecimento de um só de entre elles entre os pontos da foz do Zambeze, irem sugar alguns d'estes pretos e mesmo mosungos que estejam nos prazos marginaes a jusante do Gorongosa, isto é, os prazos Caia, Inhamunho, Chupanga, Luabo e Melambe.
Quando em 1881 vim pela segunda vez á Zambezia e fiz o conhecimento do Manuel Antonio de Sousa, disse-me elle que se o governo do districto de Quelimane lhe desse de arrendamento os prazos de Chupanga e Cheringoma, pelo preço rasoavel que então quizesse marcar, mas com a condição de que os não poria em praça durante nove annos, tempo por que andavam arrendados os prazos do districto de Tete, a fim de evitar que passados tres ou quatro annos de despezas, trabalhos e perigos, outros viessem concorrer em igualdade de condições para o goso dos resultados obtidos, elle, assim como tinha fechado aos landins a villa de Senna e os prazos envolvidos pelo da Gorongosa, se{9} compromettia a pôr no prazo Cheringoma uma barreira que evitasse para sempre a passagem dos landins para os prazos Caia, Inhamunho, Luabo e Melambe: disse-me mais que já tinha proposto ao arrendatario do Cheringoma que se oppozesse aos landins, mas que este apenas se contentava em aproveitar o prazo para mandar caçar alguns elephantes ou apanhar borracha que n'elle abunda, pagando successivamente ao Musila os tributos de fazenda que a este fossem contentando. Não apreciei então devidamente o grande poder que a rara intelligencia ou perspicácia especial, a actividade, a coragem, o amor do trabalho, a generosidade e a acção absoluta que estas qualidades exerciam sobre milhares de indigenas davam a Manuel Antonio, nem o grande valor que para o paiz tinha a sua proposta, e não a communiquei a pessoa alguma.
No meu diario, 20 de dezembro de 1884, encontro umas palavras que escrevi ao chegar á margem do rio Pungue, quando me via em frente de um poderoso obstaculo que exercitos munidos com bons trens de pontes não deixariam de respeitar. Espero fazer bem transcrevendo-os: «O terreno na ultima parte percorrida é park-like como todo o que precede, mas ainda tem melhores pastagens e melhores terras para agricultura,—terras soltas que serviriam para mendobim—grés e muitos filões de quartzo, nas margens granito. Póde-se considerar verdadeiramente sujeita á soberania portugueza, ou a Manuel Antonio, com relação ao Barue, toda a vasta area comprehendida entre o Zambeze e o Aruangua. Vejo que todos os que me rodeiam assim o reconhecem; assim como consideram como terras de landins as dos regulos da margem direita do rio. É necessario e urgente occupar aqui um ponto na margem esquerda do Aruangua. Estou certo, agora, que as nossas relações com os landins vão ser muito boas, e espero alcançar alguma cousa para o sul do Aruangua; só um acto de hostilidade declarada é que os poderia trazer em massa ao que elles consideram nossas terras, apesar de costumados a fazer com meia duzia de homens o que n'ellas fazem; mas a este acto nas circumstancias em que estamos podiamos bem resistir. Assim, por um modo ou por outro, Cheringoma, Luabo[1], Melambe, Chupanga, Inhamunho e Caia ficarão de futuro abertos com segurança aos nossos pretos e em breve se acharão habitados.»
Esta riquissima região proximo da costa, que por si só, quando aproveitada, póde render bem mais do que toda a actual provincia de Moçambique, acha-se deserta e de todo desaproveitada, só pelo terror que causa o nome dos landins e a chegada annual de uns vinte ou trinta pretos adornados com pelles e pennas, e armados com um escudo e duas pequenas zagaias. Em dias, que é de esperar não estarão longe, custará a acreditar que um tão aviltante estado de cousas se possa ter continuado por tantos annos n'uma tal localidade.
Alem dos prazos da corôa de que tenho fallado, ha mais, entre o rio{10} Zambeze e o Quelimane para leste do Aruenha, uns muito pequenos prazos juntos ao prazo Gorongosa ou mesmo n'elle encravados, arrendados por Manuel Antonio; alguns pequenos prazos nas proximidades de Senna arrendados por diversos, o muito povoado prazo Chemba, arrendado por Manuel Antonio e d'onde elle tirou mais de dois mil cypaes que levou á guerra do Matacanha (pois para esta guerra não teve que tocar na gente da Gorongosa); o prazo Amoesa, o prazo Chiramba marginal, como o Chemba o é, do Zambeze, tambem arrendado por Manuel Antonio, mas parte invadido por gentes do Bonga, o grande prazo Tambára, de ha muito sertão abandonado, e os prazos todos occupados pela gente do Bonga, incluindo o prazo Masangano.
Em toda a valiosa região de que estou fallando, comprehendida entre o Zambeze e o Aruangua encoutrâmos apenas dois obstaculos ao seguro desenvolvimento dos seus grandes recursos naturaes. O primeiro, pouco importante, é o Bonga; o segundo são os landins. Ha dois unicos homens, dedicados ao paiz, que têem poder sobre os indigenas que habitam a maior parte das terras da antiga capitania dos Rios de Senna. São os dois homens que com toda a probabilidade salvaram ha poucos mezes a soberania portugueza na Zambezia. São Manuel Antonio de Sousa e Anselmo Ferrão. Este, comquanto capitão mór de Senna, habita hoje a margem esquerda do Zambeze e tem d'este lado um vasto campo onde empregar utilmente a sua acção. Fica Manuel Antonio de Sousa e é só contando com o auxilio d'este capitão mór que praticamente se poderão remover, dentro da area de que trato, estes dois obstaculos. O centro de acção, a base de operação de Manuel Antonio de Sousa, é a serra da Gorongosa, e é na serra da Gorongosa que se acha provisoriamente a séde do governo de Manica; por este motivo e pelo mais que fica dito parece natural e conveniente que os territorios desde o ponto de resistencia á passagem dos landins no prazo Cheringoma, até á aringa do Bonga na foz do Aruenha façam parte do districto de Manica.
Assim, parece que o limite norte a recommendar para o districto seria toda a margem esquerda do Zambeze desde a costa até á foz do rio Aruenha.
O conhecimento porém, que hoje temos da importancia do porto do Inhamissengo, os resultados que se prevêem da fundação da villa Mesquita, proposta pelo sr. capitão-tenente Augusto de Castilho, fazem esperar um tal desenvolvimento á importação e exportação directas de todo o commercio da Zambezia, a realisar de futuro por esta via e porto, que dar toda a margem direita do Zambeze, dar a villa Mesquita e o porto do Inhamissengo ao districto de Manica causaria um grande abalo no systema financeiro de Quelimane. Evita-se de todo este inconveniente, conservando no districto de Quelimane os dois prazos Luabo e Melambe, que têem parte dos seus terrenos no delta do rio, passando agora para Manica por inteiro os restantes prazos, ficando para mais tarde a rectificação da fronteira dos dois districtos desde a margem do Zambeze até á costa, se se encontrar uma linha de separação mais natural do que o poderão ser as para nós desconhecidas confrontações dos prazos Luabo e Melambe com os prazos Chupanga e Cheringoma.{11}
D'aqui resulta que o commando militar já creado na Chupanga ficaria pertencendo ao governo de Manica, o que teria a vantagem de fazer abrir caminho da séde de commando, ou forte que se fez ou está fazendo no antigo Luane do Prazo (a mais solida casa da Zambezia) para villa Gouveia, devassando e rasgando um paiz compacto, cheio de recursos, hoje deserto, e que não tardaria a ir sendo habitado ao longo da linha de communicação.
O commandante militar de Chupanga, dependendo do governo de Manica, havia de vir á séde do seu governo e atravessar a area do seu commando; dependendo de Quelimane, fará geralmente, como geralmente fazem os commandantes militares de Senna, que chegam ao seu commando vindo de Quelimane, navegando pelo Zambeze acima, desembarcando proximo de casa, e não saíndo mais da villa de Senna senão para voltar a Quelimane.
A adopção dos limites, que proponho, imporia a realisação previa ou simultanea da, tantas vezes proposta, mudança do commando militar de Senna, e da villa d'este nome para a margem fronteira; pois seria absolutamente impossivel, a querer trabalhar-se para resultados praticos, o introduzir desde já no nascente districto de Manica, a aperfeiçoada legislação, mais perfeita que a de qualquer colonia de qualquer outro paiz, que vigora nos restantes districtos da provincia, e portanto na actual villa de Senna.
Provisoriamente a praça, e só a praça de S. Marçal, deveria ficar sob as ordens do commandante militar de Senna, que n'ella poria um fiel e os homens necessarios para a arrecadação do material que n'ella se quizesse guardar.
Não é possivel, porém, conservar como occupadas enormes areas com um numero de auctoridades como o que até ao presente temos tido na provincia de Moçambique; e por isso o commando militar de Senna, passando para a margem esquerda do rio para ficar no districto de Quelimane, não deve deixar de ser substituido por um outro, com a séde não longe da actual villa de Senna, mas em logar mais recommendavel pela sua salubridade e facil acostamento. Parece-me que facilmente satisfará a estas condições algum ponto escolhido no muito povoado prazo Chemba, pouco a montante da foz do rio Musingase.
O terreno, que eu bem conheço, é elevado e saudavel. Ha n'elle formosissimas arvores de grande sombra, nas quaes se deveria pensar ao escolher o logar para as habitações e limitar os jardins que as rodeiem.
O novo commando militar poderia receber o nome de commando militar de Chemba.
Chemba seria uma excellente testa de estrada para o centro do Barue e para os importantissimos campos de oiro do Alto Aruenha e dos seus affluentes, estrada que podia ser para nós muito util, quer nós mesmos vamos occupar estes campos, quer deixemos tranquillamente os estrangeiros d'elles se apoderarem, pois uma das soluções em breve terá logar.
Os campos de oiro a que me refiro, e que ficam ao sul de Tete, estão mais proximos desta villa que de Senna, mas o caminho para elles partindo de Tete passa por serras muito cansosas de atravessar,{12} parte das quaes eu conheço desde que fui ao Rio Mazoe; e por isso quando os Campos de Oiro do Imperador Guilherme e outras minas vizinhas eram trabalhadas pelos nossos antepassados, era de Senna que elles partiam para ellas.
O caminho de Chemba torneará a serra da Lupata e todas as que rodeiam Tete, seguindo como o de Senna por terrenos planos até ás origens dos rios, e tem sobre este decidida vantagem por causa das condições relativas em que se acham as duas testas de estrada, e que eu indiquei.
Reino do Barue
Com os prasos da corôa da antiga capitania de Rios de Senna, e ainda nos terrenos ao norte do Aruangua, de que me estou occupando, confinam os extensissimos territorios do reino do Barue, seguindo-se-lhes para sudoeste e oeste, e ao sul do districto de Tete, territorios de outros regulos, que se consideravam vassallos do Macombe, o fallecido rei do Barue; territorios valiosissimos pelas incontestaveis riquezas em minas de oiro, que em si contêem.
Não me é possivel indicar os contornos do reino do Barue; só direi que a villa Gouveia está na margem direita do rio Inhandue, e que as colinas fronteiras na margem esquerda pertencem ao Barue; que para vir de Senna ou de Chemba pelo caminho mais curto para este ponto se atravessa o Inhandue quasi em frente da villa, e portanto se passa pelo Barue; e que nos dois itinerarios, que tenho seguido para ir ha tres annos a Manica e agora ao Gunguneana, passei o rio Vunduse, que sei ser, até á sua confluencia no Aruangua, limite do praso Gorongosa e do reino do Barue.
Os reis do Barue eram antigamente coroados por uma auctoridade portugueza, mas nunca auctoridade portugueza exerceu jurisdicção sobre este reino. Mesmo durante a grande prosperidade da nossa feira e villa de Manica, os negociantes que transitavam entre esta villa e a de Senna, e eram obrigados a atravessar o reino do Barue, soffriam vexames dos baruistas, aos quaes tinham sempre que pagar algum tributo.
Nos tempos do fallecido Macombe, Senna recebeu muitas embaixadas insolentes, foi muitas vezes obrigada vergonhosamente a responder a ellas, mandando grandes tributos em fazenda, e, satisfazendo favoravelmente á exigencia de que mandasse um certo numero de pretos, com suas familias, para escravos do Macombe.
Manuel Antonio do Sousa, a quem a villa de Senna deve o ter cessado de pagar tributo aos landins, depois de ter antigamente negociado no Barue e trazido de lá uma das filhas do rei, com quem teve relações, das quaes resultaram os dois rapazes, que por conta do governo estão sendo educados em Lisboa na escola academica, tendo sido victima de varios roubos e vexames, que a elle e a outros negociantes faziam os baruistas, começou, como particular, só por si e com despeza unicamente sua, uma lucta com o Macombe, que durou muitos annos, e terminou ha pouco mais de um anno com o tomar elle{13} posse do reino do Barue e ser reconhecido como seu chefe ou rei, e seu filho, neto do Macombe, como seu successor.
A região entre o Zambeze e o Aruangua, comprehendendo os antigos prasos e o reino do Barue, constitue só por si uma importantissima colonia, com todos os elementos necessarios para ter um rapido desenvolvimento.
Os prazos Cheringoma e Chupanga são riquissimos em madeira e borracha, e tanto estes prasos como as terras marginaes do Zambeze se prestam a toda a cultura tropical.
A serra da Gorongosa, onde a vinha brava rebenta por toda a parte, pede o immediato ensaio da cultura da vinha. Se os resultados forem, como parece deverem ser, ter-se-ha introduzido, só por este ramo, uma grande fonte de conforto, de commercio e de riqueza na provincia.
No Barue e na Gorongosa, onde ha uma quantidade prodigiosa de excellente agua, facilmente se encontram terrenos, onde o milho cresce e produz por modo que na Europa não poderá facilmente acreditar-se, onde a cultura de todos os cereaes deveria ser ensaiada e a do trigo provavelmente poderia ser emprehendida em larga escala.
Finalmente é nas terras de um pequeno regulo, que sempre se considerou vassallo do Barue, terras que, occupado este reino, viriam a constituir novos commandos militares do oeste do districto de Manica, que se encontram visiveis provas dos extensos trabalhos mineiros feitos pelos antigos portuguezes nos campos de oiro, que Mauch visitou e achou tão importantes, que os designou com o nome de Campos de Oiro do Imperador Guilherme, chamando Bismarck e Moltke ás duas serras entre as quaes elles se acham situados. Dahi para o norte e para o oeste até ao Zambeze continua a extensa região aurifera, a que o proprio Mauch se refere, e que os nossos trabalharam em varios pontos nas minas de Tete e do Zumbo.
Para sueste, diz Mauch, a serra Moltke commanda o jazigo aurifero de Manica, conhecido já de ha seculos, e certo é que os tres jazigos auriferos (do Mogoe, dos Campos do Imperador Guilherme e da Manica) vão rivalisar.
Os Campos de Oiro do Imperador Guilherme estão comprehendidos na area da concessão, que me foi feita em 1878. Nunca os poude visitar.
Portugal está ainda hoje em condições de se apoderar de grandes centros de riqueza, de prosperidade, de força, de prestigio, empregando limitadissimos esforços; d'estes centros poderá depois expandir-se do que é seu para o que não é seu, sem que estrangeiros tenham a intervir.
Deixar porém attingir esses centros de vida e pretender depois fechar-lhe as communicações é cousa que hoje se tornou absolutamente impossivel.
Direi ainda que n'esta admiravel provincia, comprehendida entre o Zambeze e o Aruangua, onde milhões de homens poderiam empregar-se em trabalhos de agricultura, trabalhos de minas e em todos os ramos da actividade humana, onde ha regiões tão sadias e proprias{14} para o desenvolvimento da raça branca, como as mais sadias da Europa, onde temos a assegurar e desenvolver a nossa occupação, não haverá alem dos empregados do governo umas seis pessoas brancas!
Tudo convida a colonisar, com portuguezes e portuguezas misturados com hespanhoes, este paiz. Em parte alguma das nossas possessões poderão colonos encontrar mais auxilio para a sua installação, maior numero de braços indigenas promptos a empregar em seu serviço por uma modestissima remuneração. Com segurança poder-se-ia mandar já da Europa uns dez ou vinte colonos nas condições em que até ao presente o governo tem mandado colonos para a Africa, porque com os poucos recursos disponiveis do governo do districto e outros recursos locaes, estes homens poderão receber o necessario amparo até que o producto do seu trabalho os possa sustentar e lhe dê a independencia. Com não menos segurança de resultado favoravel poderia o governo mandar em viagens successivas, e com sufficiente aviso previo, alguns centenares de colonos, se, por meio de uma combinação qualquer, lhes assegurasse, ou por intervenção de uma empreza particular, por adiantamentos a serem mais tarde reembolsados pelos colonos, meios efficazes de trabalho, em terrenos, ferramentas e braços dos indigenas e sustentação durante pelo menos o espaço de dois annos.
Não é porém nas margens do Zambeze que convem colonisar com gente branca, e o trazer colonos de Quelimane até á serra da Gorongosa, pelo Zambeze, emquanto não houver estradas e meios de transportes convenientes tanto fluviaes como terrestres, é despendioso e não póde deixar de offerecer perigo. Assim, se não houver a possibilidade, ou empregando o pequeno vapor que a empreza de navegação é obrigada a ter sempre em serviço na provincia, ou por qualquer outro meio, de fazer desembarcar os colonos na margem do Aruangua ou do Urema, para onde desde já o governo do districto trata de abrir bons caminhos, a partir da villa Gouveia, será preferivel não mandar colono algum.
Entre o Aruangua e o Revue
Passando o Aruangua ou Pungue para a margem direita entra-se no Quiteve ou Utévé, como se diz ahi. O paiz que do Aruangua ao Revue percorri é encantador; não é plano, nem muito montanhoso; geralmente com arvores nem muito grandes, nem muitos densas, tem de espaço a espaço pequenos bosques muito fechados ao lado dos quaes se passa. Por toda a parte campinas admiraveis para a creação de gado, e excellentes terrenos para agricultura.
Está o Quiteve dividido por differentes regulos todos sujeitos aos landins. Estes não habitam parmanentemente o paiz, não têem ahi povoações suas, mas por um ou outro motivo percorrem-o constantemente, sustentando-se á custa das povoações indigenas. Qualquer que seja o numero de landins que chegue a uma povoação ou grupo de povoações, por mais miseraveis e pequenas que ellas sejam, é necessario que appareça farinha para fazer massa e cabritos ou gallinhas para quissâo para todos. Isto sempre e sempre. Mais ainda, se os landins têem cargas,{15} ao chegar ao Quiteve nunca mais pegam n'ellas, e são os habitantes que as levam de uma para outra povoação.
Qualquer preto landim, por mais baixa que seja a sua categoria entre os seus, procede assim com os povos de Quiteve. Se o indigena por troca ou por presente possue um panno ou um lenço, o landim que passa junto a elle não deixa de lh'o levar. Todas as raparigas de regular apparencia são obrigadas a viajar para o sul para serem lá mães de landins nas suas terras.
Comprehende-se assim como a degeneração da raça dos quitevistas progride rapidamente e o estado de infelicidade e de miseria de todas as povoações, apesar dos verdejantes campos e das extraordinariamente bellas varzeas de milho e outros cereaes de que as vi rodeadas.
Alem d'estas rapinas individuaes feitas pelos landins que acontece passarem, ha-as feitas por outros que vem, como os dos destacamentos que tributam os nossos prazos da margem do Zambeze, encarregados de receber dos regulos tributos de fazenda, que apesar de pequenos não sei como ainda possam continuar a ser pagos.
Os regulos não se distinguem facilmente dos seus subditos. Em certas terras é praxe antiga que o regulo seja mulher, que se diz não ser casada. Muitos d'estes regulos só conservam o nome por tradição; não penso que tenham a menor acção sobre as povoações que se acham espalhadas nas vastas areas que dizem pertencer-lhes.
Assim o regulo mulher Mahongo, cujo nome se vê nas antigas cartas, e deve ter tido grande prestigio, possue ainda nominalmente extensas terras. Passei por muitas povoações relativamente consideraveis, de grandes de Mahongo. A povoação da propria Mahongo ficava-me no caminho; naturalmente suppunha encontrar centro mais importante do que as povoações que tinha visto, e foi com grande estranheza que um dia, chegando a uma meia duzia de miseraveis palhotas espalhadas n'um vasto campo soube que a palhota isolada junto á qual, por acaso, eu me achava era a do regulo, e que a velhinha quasi nua que estava sentada á porta era a propria Mahongo.
O regulo mais importante do Quiteve, entre o Pungue e o Revue é a rainha Gomani. Comquanto passasse por muitas povoações dos seus grandes e não longe da sua propria povoação e lhe mandasse alguns presentes, não me desviei do caminho que seguia para a ir ver, e não a posso comparar com a Mahongo.
Os regulos do Quiteve que limitam com o Aruangua a partir da foz do rio, são: o regulo Pica, nas terras do qual estão as minas de oiro que dizem muito ricas, de Inhaoxo.
A região das minas está hoje abandonada e é de muito facil accesso, podendo-se chegar ás minas com pequena marcha por terra, se se aproveita o rio Pungue e o seu affluente rio Muda.
Todo o baixo Quiteve, ou região do Quiteve junto á costa é uma perfeita planicie á excepção do logar onde se levanta a serra isolada da Chiruvo, onde estão as minas de Inhaoxo e de onde sáe o rio Muda, que dizem navegavel até quasi á base da serra.
Por informações mais recentes parece que Inhaoxo é uma pequena serra contigua á de Chiruvo, mas d'ella separada justamente pelo rio Muda que vem de mais longe no Quiteve.{16}
N'estas condições comprehende-se quanto nos seria facil a occupação da serra Chirua e o dar absoluta segurança a um sitio que dizem conter riquezas importantes, que é elevado e deve ser sadio, e onde se estaria tão proximo da costa, e com ella em tão facil communicação. A occupação de Inhaoxo teria ainda uma grande importancia para a execução de qualquer projecto tendente á reoccupação de algumas terras, ou antigos prazos para o districto de Sofalla.
A montante do regulo Pica, seguo-se o regulo Guenjere, a montante de Guenjere o regulo Chaurumba, a montante do Chaurumba o regulo Ganda. As terras d'este confinam, junto ao Aruangua, com as do do reino de Manica.
Foi com grande surpreza que fui vendo que o extraordinario poder de Manuel Antonio se estende ao Quiteve. O regulo Pica propõe-lhe fazer entrega de todas as suas terras que vão do Aruangua até ao Busi, e, por pouco que o governo podesse fazer, a occupação da Chiruvo e terras vizinhas em breve estaria realisada.
O regulo Guenjere abandonou ha pouco as suas terras, e passou com a sua gente para a Gorongosa.
O regulo Chaurumba, rapaz forte e de aspecto valente, parece ser um homem inteiramente dedicado a Manuel Antonio, e ás escondidas dos landins tem muitas armas por este fornecidas. O regulo Ganda actual é que não está bem com Manuel Antonio. Ha não sei bem que desavenças de familias n'estas terras; o que sei é que Manuel Antonio já o bateu e que Ganda, cujas terras muito extensas se estendem até ao Revue, abandonou as proximidades do Aruangua e acha-se no alto das grandes montanhas que n'essa longitude já existem entre os dois rios. Dois filhos ou sobrinhos de Ganda estão em Gorongosa, talvez sendo preparados para mais tarde substituir o pae ou o tio.
Os landins servem-se da gente do Quiteve como de cousa sua, e é claro que no caso, pouco provavel, de um ataque feito por elles ás terras da margem esquerda do Aruangua, elles mandariam na sua frente com a zagaia nos rins, como primeiras tropas landinas toda a gente que encontrassem no Quiteve e não tivesse tido tempo de fugir como amiga para este lado.
Todas estas circumstancias, e as relações que em substituição de Manuel Antonio, convem que as auctoridades do governo de Manica tenham com os regulos do Quiteve, mostram a necessidade de fazer comprehender legal, embora theoricamente, no districto de Manica todo o territorio comprehendido entre o Pungue e o Revue.
Disse que o reino de Manica limita com as terras do regulo Ganda, junto ás margens do Aruangua. Junto ao Aruangua o reino de Manica póde considerar-se como deserto, e facil será chegar com o rei a um accordo para nos ceder esta porção do seu territorio que elle não occupa.
O reino de Manica estende-se muito para o sul e é para o sul do Revue e já na margem de um afluente do rio Save que está a aringa do Mutaça, rei de Manica.
O antigo territorio portuguez de Manica está no valle do Revue, e a velha villa, junto á margem esquerda d'este rio, e portanto comprehendido entre elle e o Aruangua.{17}
Na viagem que ha tres annos fiz a esta villa segui o itinerario marcado no esboço junto, atravessando da bacia do Aruangua para a do Revue, n'uma longitude onde o terreno é muito accidentado e a divisoria das duas bacias hydrographicas de cota muito elevada.
Desde então a occupação da serra Humbe por Manuel Antonio fez d'este ponto do Barue, ponto forçado do caminho entre a Gorongosa e Manica; e comquanto menos directo, poderá ser preferivel ao que eu segui, se alem do Aruangua houver a subir e a descer serras menos altas e menos asperas.
Não é porém pela Gorongosa o caminho natural entre Manica e a costa. A viagem que acabo de fazer permittiu-me tomar conhecimento de um caminho direito, que convenientemente limpo e rectificado permittirá chegar, vindo da costa a Manica com uns quatro dias de facil viagem a pé. Com melhor estrada, havendo cavallos, poderia vir a ser vencido em menos de dois dias. O ponto de partida para a viagem de terra seria a margem direita do rio Pungue na altura das terras de Guenjere, em ponto onde sempre poderá chegar o vapor que fizer o serviço do rio.
Não inscrevo aqui o itinerario detalhado. No terceiro dia de viagem por este caminho é cortado o que eu segui indo ás terras dos landins. No quinto dia ficam os pretos na margem do rio Musa, affluente do rio Chimesa, que é affluente do rio Revue.
N'este ponto da margem do Musa disseram-me, que havia ainda hoje ruinas de um antigo forte, muralhas de altura de homem e vestigios de importantes trabalhos de minas. A antiga villa e feira de Manica fica a poucas horas de caminho do rio Musa.
Entre o Revue e o rio Mussapa
Terreno muito elevado e accidentado, coberto de um a outro rio por continua e densa floresta. Passei a garganta da divisoria, que fica muito mais proxima do Mussapa que do Revue, n'uma altitude de 2:230 pés, mas no seguimento do caminho, subindo e descendo sempre, attingi varias vezes altitudes não muito inferiores a este maximo.
Em parte da floresta encontra-se uma grande quantidade das trepadeiras de que tiram a borracha e que dão um fructo que, embora bastante acido; é muito agradavel ao paladar. Cultivar n'uma grande area da floresta esta trepadeira constituiria sem duvida uma industria consideravelmente remuneradora. Cruzando o caminho, e sem necessidade de menor pesquiza vêem-se duzias de grandes filões de quartzo, havendo probabilidades de que muitos d'elles sejam auriferos. Toda esta região entre o Revue e o Mussapa fazia parte do alto Quiteve. O paiz que fica junto á margem do Revue no ponto onde atravessei este rio é o Zauve, e é n'elle, um pouco a oeste do meu itinerario, que está encravado o antigo territorio portuguez do Bandire, hoje abandonado, e que contém as valiosas minas d'este nome.
O chefe do Zauve é o regulo Murinane, que foi antigamente de grande importancia; apesar de se vestir como os outros pretos, de como elles se sentar no chão, ainda se apresenta com uma certa grandeza comparado com todos os mais chefes que eu vi. D'este regulo{18} recebi muitas informações ácerca das minas, que estão situadas nas montanhas do Bandire, tanto na vertente do Revue como na do Mussapa.
Não me parece haver ahi um placer aurifero como incontestavelmente o ha em Manica; o trabalho das minas é todo em rocha, e é por isso que penso que dos numerosos filões que encontrei entre o Revue e o Mussapa alguns pelo menos têem probabilidade de ser auriferos. Comquanto Murinane, que é um preto de cincoenta annos, de bello aspecto, me dissesse tanto como todos os outros regulos do Quiteve com quem primeiro estive, que muito desejaria ver-se livre dos vexames dos landins, e escondesse d'aquelles que me acompanhavam os presentes que lhe dei, notei grande differença entre o que vi na grande povoação d'este regulo e a miseria das gentes de áquem Revue.
Na povoação do Murinane nota-se maior independencia; já ahi todos têem as orelhas rachadas, quasi caracteristicas dos landins; todos, a começar pelo regulo, fallam bem o vatua, ou a outra lingua dos landins.
As rochas Inharumirua, que offerecem o primeiro obstaculo á navegação no Revue, desde a costa pelo Busi, ficam a menos de duas horas a jusante da povoação de Murinane; conversando pela manhã, pelas oito horas com o regulo a respeito d'esta obstrucção e da distancia ao ponto onde estavamos, mostrou elle entre os homens que estavam sentados no chão ao redor do nós, um que me disse ser o chefe de uma povoação mesmo junto a estas rochas e que n'aquella mesma manhã de lá tinha partido. Para irem da povoação de Murinane ás minas do Bandire dormem um dia no caminho, chegando no seguinte de manhã; vê-se portanto a que curta distancia estas minas estão de uma via fluvial; quando mesmo ella não seja bem navegavel em todo o tempo, para transporte de pesos muito consideraveis, e que não ha a remover constantemente, póde-se bem escolher a estação propria.
O elevado macisso de montanhas que ha entre o Revue e o Mussapa desce rapidamente do lado d'este ultimo rio, cujo valle é uma larga planicie verdejante, sem quasi arvore alguma, na qual serpenteia de um e outro lado o leito do rio.
N'este valle muito cultivado ha já algumas povoações de landins com o caracteristico bode ou rodella de cêra preta na cabeça. O contraste é bem notavel entre estas povoações landinas, onde cada um se sente seguro em sua casa e gosa tranquillamente do que é seu, onde as mulheres e creanças sabem que não podem ser levadas pelos primeiros que passem, e as infelizes povoações do Quiteve principalmente as que se acham entre o Aruangua e o Revue. As povoações landinas da margem esquerda do Mussapa são muito poucas e só formam, como testas de ponte para as densas povoações da outra margem; o territorio de Bandire é nosso, e o regulo Murinane e outros da margem direita do Revue, apesar de obedecerem hoje aos landins e de deverem marchar contra nós, se a isso forem forçados, muito prefeririam estar sujeitos directamente e só á soberania portuguesa. Não vi se, para jusante da foz do Mussapa, na pouca extensão da margem esquerda do Mufomose e do Lusito que ainda segue até ao Busi, e em toda{19} a margem esquerda d'este rio, desde a foz do Lusite até á costa, ha ou não muitas povoações de landins. Os limites do districto de Manica, se bem que theoricos, não devem ser só fixados com as terras do Gunguneana, mas, proximo da costa, tambem com o districto de Sofalla. Pelo que tenho dito parece-me haver decidida vantagem em considerar a margem esquerda do rio Mussapa e a continuação d'essa margem na altura do Mufomose, Lusite e Busi até ao mar, como limite sul do districto de Manica. O districto de Sofalla confinaria ao norte, de leste a oeste, com o de Manica, e a oeste, de norte a sul, com as terras do rei de Gasa, com limites a determinar e que restituissem a Sofalla todos os seus antigos prasos ao sul do Busi, e mais terras hoje invadidas pelos landins.
Ao sul do districto de Manica e a oeste do de Sofalla haveria um grande potentado, vassallo portuguez, que teria toda a liberdade da dictar a lei no governo das suas terras e do seu povo, afastaria a dominação estrangeira e poderia, sendo bem aconselhado, e recebendo bem os conselhos, desenvolver no seu paiz varias industrias agricolas, como a da creação de gado, a que o terreno se presta admiravelmente, e producção de lã e mohair, que dariam uma grande prosperidade ao porto de Chiloane, ou a outro porto vizinho que parece existir em melhores condições o dever vir a substitui-lo para o serviço dos paquetes.
Disse que o valle do Mussapa é uma planicie bastante larga; pareceu-me, pelo exame que fui fazendo de varios pontos do meu itinerario, que em parte seguindo este valle e ao sul do macisso de montanhas que separa o Mussapa do Revue, ha uma facha de terreno plano que sobe gradualmente para o interior, que passa não muito longe da povoação de Murinane, que passará junto á base das montanhas do Bandire e continua na direcção de Manica, cujas serras eu distinctamente via n'esta direcção.
Assim, haverá, a partir da costa, dois caminhos naturaes para a região de Manica.
O primeiro, é o que indiquei, pelo rio Pungue, e depois da margem d'este rio, seguindo obliquamente para a bacia do Revue. É o unico caminho da costa que por muito tempo nos poderá interessar.
O segundo, que parece proprio para o assentamento de uma linha ferrea, e que só agora indico como nota que possa vir a ser util para algum trabalho futuro, seria o que partisse do fundo do que dizem ser o excellente porto a que ha pouco me referia, formado por traz da ilha Boene, ou da margem esquerda do rio ou braço de mar denominado Mutizane, seguisse pelos terrenos planos do baixo Quiteve, atravessasse o Busi, talvez nas proximidades do arco Inhambimbe, ou foz do Lusite, e seguisse pelos valles e margens esquerdas dos rios Mufomose e Mussapa, passando junto ao Bandire até Manica.
Terrenos ao sul do Mussapa
Pouco me resta a dizer a respeito de terrenos, que nos interessem directamente, pois devemos considerar os territórios ao sul de Mussapa,{20} como pertencendo ao rei de Gasa; isto até que em epochas futuras todas as terras dos landins venham a passar ao dominio directo da nação.
Atravessei, como disse, o Mussapa na sua confluencia com o Mufomose; depois de uma hora de caminho em planicie, e suppondo que estava sempre no valle do Mufomose achei-me nas margens do Lusite, e passado este rio, continuei, sempre em paiz plano, até á base da serra Citatonga contra a qual me levaram, e sobre a qual tive que passar; á esquerda do meu caminho a planicie continua até á costa; á direita as montanhas elevadissimas de onde nascem o Mussapa, o Mufomose, o Lusite, o Busi, e outros affluentes d'estes rios, montanhas que separam o systema hydrographico do rio Busi do da bacia do rio Save. Este ultimo rio vem muito mais do norte, tendo as suas origens proximo da divisoria das aguas para o Zambeze, e origem do affluente do rio Aruenha, affluente do Zambeze em Masangano; corre do norte ao sul recebendo do lado do oeste as aguas de affluentes que vem das terras do Muzilicatze, do lado de leste as que nascem nas vertentes de oeste das serras de que acabo de fallar, e é junto á margem de um d'estes affluentes que está a aringa do rei Mutaça; depois, em maior latitude, volta rapidamente para leste para desaguar no oceano Indico por muitos braços formando um extenso delta a que Chiloane pertence. Os rios Busi o Save junto á costa correm portanto quasi como parallelos entre si. A villa de Sofalla fica approximadamente a meia distancia entre a foz dos dois rios.
Como se vê no esboço junto e como eu vi do alto da serra Citatonga, o rio Busi, depois de passada esta serra, corre para o norte a ir receber não muito longe, e em terreno perfeitamente plano, as aguas do Lusite; o que prova que desviando um pouco o itinerario para leste, poderia ter contornado a serra Citatonga em logar de ter passado duas vezes pela sua cumiada, o que, principalmente pela garganta por que passei na volta, é bastante custoso.
Passada a serra Citatonga, o caminho segue em terreno plano, apenas com ligeiras ondulações em alguns pontos, ficando proximo, á direita, as montanhas onde nascem o Busi e um importante affluente d'este rio, pela agua que leva, por entre rocha, o rio Muzirisi, junto á margem esquerda do qual, na pequena povoação de Cuzova, terras do grande Mugomugomo, terminou a minha viagem. Proximo da margem direita d'este rio, um pouco a montante do logar onde eu estava, e a umas cinco ou seis horas de caminho, é que está a povoação do Gunguneana.
Do valle do Muzirisi, diz o explorador inglez Mr. Erskine o seguinte: «O valle do Muzirizi (que elle chama Umswelisi) está destinado a ser um dia uma das mais productivas regiões d'este lado do continente. Assucar e café dar-se-íam ahi admiravelmente; e por causa da sua elevação supponho que será perfeitamente sadio».
Mais longe diz: «A agua transparente d'este rio é abundante e seria sufficiente para irrigar este extenso e fertil valle, e ainda para mover moinhos, para o que a sua rapida quéda o torna muito proprio».
Do Aruangua, do Revue e de todos os menores rios, affluentes d'estes, se póde em geral dizer outro tanto.{21}
A parte das terras do valle do Muzirisi que não está cultivada com milho, mapira, feijão, etc., é destinada á pastagem das numerosas cabeças de gado que o Muzila tinha, e o Gunguneana conserva e trata de augmentar, e que se acham divididas por manadas entregues aos chefes das differentes povoações. A manada na povoação de Cuzova tinha a especialidade de ser exclusivamente composta de gado muito novo, ou vitellos que iam sendo separados das mães nas manadas vizinhas.