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Pranto de Maria Parda

TESTAMENTO

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A minha alma encommendo A Noé e a outrem não, E meu corpo enterrarão Onde estão sempre bebendo. Leixo por minha herdeira E tambem testamenteira, Lianor Mendes d'Arruda, Que vendeo como sesuda, Por beber, at'á peneira.

Item mais mando levar Por tochas cepas de vinha, E hua borracha minha Com que me hajão d'encensar, Porque teve malvasia. Encensem-me assi vazia, Pois tambem eu assi vou; E a sêde que me matou, Venha pola cleresia.

Levar-me-hão em hum andor De dia, ás horas certas Que estão as portas abertas Das tavernas per hu for. E irei, pois mais não pude, N'hum quarto por ataude, Que não tivesse agua pé: O sovenite a Noé Cantem sempre a meude.

Diante irão mui sem pejo Trinta e seis odres vazios, Que despejei nestes frios, Sem nunca matar desejo. Não digão missas rezadas, Todas sejão bem cantadas Em Framengo e Allemão, Porque estes me levarão Ás vinhas mais carregadas.

Item dirão per dó meu Quatro ou cinco ou dez trintairos, Cantados per taes vigairos, Que não bebão menos qu'eu. Sejão destes tres d'Almada, E cinco daqui da Sé, Que são filhos de Noé, A que som encommendada.

Venha todo o sacerdote A este meu enterramento, Que tiver tão bom alento Como eu tive ca de cote. Os de Abrantes e Punhete, D'Arruda e d'Alcouchete, D'Alhos-Vedros e Barreiro, Me venhão ca sem dinheiro Até cento e vinte e sete.

Item mando vestir logo O frade allemão vermelho Daquelle meu manto velho Que tem buracos de fogo. Item mais, mais mando dar A quem se bem embebedar No dia em que eu morrer, Quanto movel hi houver E quanta raiz se achar.

Item mando agasalhar Das orphans estas nó mais As que por beber dos paes Ficão proves por casar. Ás quaes darão por maridos Barqueiros bem recozidos Em vinhos de mui bôs cheiros; Ou busquem taes escudeiros, Que bebão coma perdidos.

Item mais me cumprirão As seguintes romarias, Com muitas ave-marias. E não curem de Monção. Vão por mim á Sancta Orada D'Atouguia e d'Abrigada, E a Curageira sancta, Que me derão na garganta Saude a peste passada.

Item mais me prometti Nua á pedra da estrema, Quando eu tive a postema No beiço de baixo aqui. E porque gran gloria senta, Lancem-me muita agua benta Nas vinhas de Caparica, Onde meu desejo fica E se vai a ferramenta.

Item me levarão mais Hum gran cirio pascoal Ao glorioso Seixal Senhor dos outros Seixaes; Sete missas me dirão E os caliz encherão, Não me digão missa sêcca; Porque a dor da enchaqueca Me fez esta devação.

Item mais mando fazer Hum espaçoso esprital, Que quem vier de Madrigal Tenha onde se acolher. E do termo d'Alcobaça Quem vier dem-lhe em que jaça: E dos termos de Leirea Dem-lhe pão, vinho e candea, E cama, tudo de graça.

Os d'Obidos e Santarem, Se aqui pedirem pousada, Dem-lhes de tanta pancada Como de maos vinhos tem. Homem d'Entre Douro e Minho Não lhe darão pão nem vinho; E quem de riba d'Avia for Fazê-lhe por meu amor Como se fosse vizinho.

Assi que por me salvar Fiz este meu testamento, Com mais siso e entendimento Que nunca me sei estar. Chorae todos meu perigo, Não levo o vinho que digo, Qu'eu chamava das estrellas, Agora m'irei par'ellas Com grande sêde comigo.

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