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Poetas do Minho I - João Penha

III

Reading edition

Para João Penha, como poeta lírico, o amor parecia não ser mais que uma idealização, uma fantasia de artista.

Eu não encontrava, nos sonetos do Vinho e Fel, a abstracção absorvente de Petrarca, a paixão abrasadora como lava, o Vesúvio que vulcaniza o coração, reduzindo-o a cinzas.

A Ironia andava de braço dado com o{40} Amor, no lirismo de João Penha, mais como um efeito pitoresco da Arte, supunha eu, do que como a crua expressão da Verdade.

Não descobria através das Rimas o tipo constante, persistente, de uma mulher, embora se me afigurasse que de recordações avulsas e de perfis diferentes criara o poeta o elemento feminino dos seus poemas.

Nunca os versos de João Penha me deram, na taça do Vinho e Fel, a impressão de uma grande catástrofe psicológica, que lhe precipitasse a alma na voragem do cepticismo.

Parecia-me que a sua musa obedeceu à orientação romântica, que se comprazia em polvilhar de gotas de fel, como um efeito decorativo, puramente ornamental, a corola das flores ideais do Sentimento.

É verdade que no escrínio das Rimas havia a miniatura de uma mulher, mas eu considerava-a, se me permitem a expressão, um retrato de fantasia:{41}

Um rosto encantador, quase moreno, De uns grandes olhos verdes animado: Negro o cabelo, em tranças enastrado; Correcto o supercílio, íris sereno;

Vermelho o lábio, sorridente e ameno; Breve a cintura; o colo, acetinado; Um donaire, das outras invejado; Magras as mãos; o pé, leve e pequeno:

Eis a dama por quem chorando anelo! Rival das graças do cinzel iónio, Mas fria como a neve: o meu flagelo!

Eis a minha Natércia, o cruel demónio Por quem vivo perdido, mas tão belo Que nem lhe resistira Santo António!

Este soneto afigurava-se-me como o primeiro elo de uma concepção artística de poeta, de um plano literário preconcebido, que visava a produzir efeitos pela antítese do Amor e da Ironia, pelo contraste da veia alegre do boémio com a inspiração sentimental do lírico.

Assim não tardava muito que a musa dicaz do epigrama deixasse cair sobre o retrato da{42} primeira pagina o peso de um paio roliço de Lamego, que se esborrachava em rúbidas gorduras sobre a miniatura delicada:

Mal pode fantasiar-te a mente acesa Tão gentil como quando, venturoso, Te vi a vez primeira, ébrio de gozo, Estático de pasmo e de surpresa.

Que prodígio de esplêndida beleza! Que lábios, que sorrir, que olhar piedoso! Que opulento cabelo... um mar undoso Onde esconderas a gentil nudeza!

Assentada num banco de verdura, Junto à margem do múrmuro Mondego, De um Corregio venceras a pintura.

Ai! perdi, desde então, paz e sossego: Se estavas tão graciosa em tal postura, E comias um paio de Lamego!

E logo, como na travação lógica de um poema, cuja traça foi gisada calculadamente, o paio continuava a materializar a desilusão do poeta, que não encontrava na realidade{43} da vida a mulher ideal das suas noites de fantasia romântica.

O paio parecia-me na obra de João Penha um símbolo de salutar desengano para os que criam na espiritualidade etérea da mulher e que, regressando alquebrados do País do Sonho, ainda podem achar reabilitação salvadora na despensa, no réstaurant, e na cava.

És minha, és minha, oh venturoso fado! Cedeste à chama que em meu peito alento! Chegou por fim o divinal momento, O dia de meus sonhos anelado!

O céu, há pouco torvo, hei-lo azulado: Sussurra esmorecido ao longe o vento; Esplende o sol no etéreo firmamento; Recende aromas o florente prado.

Quando há pouco a teus pés (oh quadro lindo!) Te disse o meu amor, em doce esmaio Senti volúpias de um prazer infindo.

Oh camênas agrícolas, cantai-o! Ela, a minha formosa, ela fugindo, Deixou-me o coração, deixou-me o paio.{44}

Desfeito o sonho, fica nas mãos do poeta como um refém da sua esperança perdida, das suas ilusões derrotadas, o paio,—a porção mais subjectiva do eu espiritual da dama, o paio, um símbolo, o paio, uma filosofia, como o porco do rebanho de Epicuro, Epicuri de grege porcus.

Se alguma dúvida pudesse restar sobre a interpretação deste símbolo culinário, que atravessa toda a obra do poeta, bastaria a desvanecê-la a clara exegese deste soneto:

Aquela Rosa branca, a flor mais viva Dos jardins olorosos de Granada, Já não parece a flor enamorada, Triste por viver só, viver cativa.

Outrora, em seu mirante, pensativa, Muitas vezes a luz da madrugada A via entre boninas, enlevada, Nos sons duma guitarra fugitiva.

Agora, a Beatriz do Poeta abstruso, A Eleonora das canções do Tasso, A Natércia gentil do cantor luso,{45}

Sol perdido em nevoeiro escuro e baço, A cítaras prefere a roca e o fuso, Aos meus cantos,—presuntos de Melgaço!

Sente-se na simbólica de João Penha a alma alegre de uma geração que teve sangue, que teve vigor, que adorou a vida porque a podia gozar.

Respira-se aí o aroma aperitivo de um suculento jantar fradesco, como na antiga cozinha dos bernardos de Alcobaça, que ainda hoje, apesar de vazia, dá a impressão do apetite salubérrimo da ordem de Cistér.

Como que se ouvem os passos dos leigos conduzindo da copa os cangirões bojudos, da ucharia as viandas gelatinosas, e da frescura dos coutos, regados por água diamantina, as frutas deliciosas e maduras.

Um braço invisível parece encaminhar o nosso espírito à vasta mesa do refeitório cisterciense, onde a gula monástica levanta castelos de comezana maciça, que o apetite{46} voraz há de em breve vencer e desmoronar.

Sobe ao púlpito, enquanto os outros devoram pingues vitualhas, um pregador aguado, que, com os olhos postos no gordo repasto, fala, sem fé e sem unção, da diabólica atracção dos sete pecados mortais, que os setecentos filhos de S. Bernardo ali reunidos devem a todo o custo evitar.

E especifica: a soberba, a avareza, a luxúria...

Deglutindo truculentamente, um velho frade, saturado do mundo, dirá para o fundo do prato com os seus botões:—Que mulher conheci eu por lá que valesse esta bela petisqueira de Alcobaça?

Assim João Penha, como o bernardo guloso, exclama no soneto:

Cantai-me a vida, e o sonho transitório! Cantai, enquanto à dor busco remédio Nos vastos caldeirões do refeitório.

A raça, no breve lapso de vinte anos,{47} histerizou-se excessivamente em nervosismos e melancolias, que alucinam funebremente o cérebro dos poetas modernos.

Vede bem! João Penha cantava o Paio, celebrava o Presunto, preconizava a Vida, ao passo que António Nobre deixa entenebrecer o seu espírito no simbolismo tétrico da Velha (a morte) e do Hotel da Cova (a sepultura).

E, todavia, Coimbra, onde um gozou e o outro se aborreceu, continua a ser talqualmente a mesma, pesa sobre a Universidade a mesma Torre de pedra, sobre os ombros do doutor Pedro a mesma Torre de ciência, há o mesmo cheiro a lente catedrático e a bolor autoritário, a Pandecta rançosa fala ainda mais alto que toda a concepção do Direito moderno explanada pelo sr. M. Fratel, porque, nessa Coimbra vetusta, há só uma coisa que fala mais alto que a Universidade,—é a Cabra.

Continuando o meio a ser o mesmo, sendo{48} mesmíssima a atmosfera social onde a mocidade académica respira, é claro que a variedade das impressões recebidas se há de explicar pelas condições especiais, tanto psíquicas como físicas, do individuo que as recebe.

Assim, pois, temos em João Penha a musa viva que floresce o amaranto, rubro como a púrpura e como... o paio: em António Nobre temos a musa lânguida que desabrocha a pálida cecém, perfumada, mas branca como a neve.

Depois de haver escrito a Carta a Manuel, António Nobre, sedento de ideais consolativamente calmantes, vai, luziada errante, procurar a Vida no Bairro Latino, e lá mesmo se encontra só e desgraçado.

João Penha, durante o seu tempo de Coimbra, saltou, como um funâmbulo, por sobre todos os desgostos do amor íntimo, sem entornar a taça repleta de falerno.{49}

Não há dor que resista a um vinho ardente, Nem ao fácil amor de uma espanhola.

Porque a verdade, ao contrário do que eu e outros poderíamos supor de longe, enganados pela aparência picarescamente irónica dos versos de João Penha, a verdade é que ele amou, embora não andasse lutuosamente vestido de almáfega, nem passeasse merencório e sinistro como os bardos melodramáticos, que aliás caricaturou.

Os humoristas levam ás vezes a estes erros de apreciação, porque, em vez de fazerem da sua dôr um poema, segundo a expressão de Goethe, fingem que lhe sopram, como a uma nuvem de fumo, para dissipá-la...

No fundo da biografia de João Penha está efectivamente a memória de um amor, que inspirou O Vinho e Fel e O Tancredo, poema no género do Onofre, e que, como muitas outras composições, perdidas, ou publicadas em jornais, não saiu nas Rimas.{50}

—Nós em Coimbra, dizia-me João Penha, bebíamos, não para apagar a sede ou para afogar paixões,—mas para dar tom aos nervos e activar os movimentos do maquinismo intelectual. Todavia não deve esquecer-se que o vinho é o grande consolador dos tristes: date vinum moerentibus et lætobunt...

Esta frase rasga o véu de um segredo, que o vinho letificante diluiu na taça da bonomia.

Mas ri-se como quem chora, O bardo das cenas várias, Qual ri o mocho sombrio Sobre as loisas funerárias.

A noite na adega esconsa, D'uns candís à luz escassa, Quantas vezes não procura O esquecimento na taça! ....................... Que já li sobre uma lage, Oculta, numas cavernas, Este sinistro epitáfio Do fantasma das tabernas:

«Aqui jaz o bardo triste Junto à bela Carolina:{51} Riu-se a bela do rapaz, Riu-se o rapaz da menina.»

Mais de um rugido de paixão leonina estruge na adega esconsa, à luz fumenta dos candis, enquanto a tia Camela despeja do pichel um gorgolão vermelho de falerno:

Venho pedir-te o retrato Que te dei por amizade: Não quero servir de ornato Nos alcouces da cidade.

Quero lavá-lo nas ondas, Que gemem na praia agreste, Daquelas manchas hediondas Dos beijos que tu lhe deste.

Quero arrancar-lhe a moldura, O teu cabelo, e trocá-lo Por uma trança mais pura Das crinas do meu cavalo.

Estes gritos de desespero fazem lembrar aquela sazão plena de romantismo, em que Dumas Filho obtinha um duplo triunfo no romance e no palco quando Armand Duval arremessava a bolsa recheada de oiro à face de Margarida Gautier.{52}

És da raça dos Borgias! vocifera o poeta, mas traça a capa de estudante, e vai procurar o contra-veneno da paixão

... nos bojos da ânfora vetusta.

Diz Gonçalves Crespo que a mulher amada do poeta pôs, um dia, o pé no estribo, e partiu para Lisboa. Mas a verdade é que quem partiu foi ele, deixando-a a ela, aos sinceirais do Mondego, ao País azul do sonho e à vida murciana de Coimbra. Nessa hora surgiu mais um advogado em Braga.

Poderiam, erradamente, supô-lo volúvel, inconstante no amor os que não conheciam os segredos da sua biografia, que a resposta não tardava, pronta e cabal:

Mais frio que Blondin sobre o Niagára, Julgas minh'alma em vis paixões acesa; E contudo nas ostras da beleza Eu só procuro o amor, pérola rara.

Mas, não encontrando a pérola rara, tomava{53} o partido de comer ostras, temperando-as com pimenta e limão, e com o sorriso tolerante de Pangloss, para quem tudo era pelo melhor no melhor dos mundos possível.

Convém notar que João Ponha deu o título de Lira de Pangloss a uma das subdivisões das suas Rimas.

Saindo de Coimbra, não chorava sobre as ruínas dos seus sonhos desfeitos, das suas ilusões perdidas. Vinha desenganado, mas gordo. O espírito,

Aquele meu espírito opulento, Que vivia na luz dos sonhos belos,

vira morrer os «últimos anelos», mas resistira, graças ao sábio formulário do doutor Pangloss. E o corpo, sadio e forte, continuou a florescer

... em tão doce obesidade, Que dentro em pouco me vereis no transe De tomar ordens e fazer-me abade.

A gente sai da leitura das Rimas tão bem{54} disposta como João Penha saiu de Coimbra.

Ordinariamente um livro de versos, especialmente os modernos, deixam no nosso espírito a impressão de um cemitério sombrio, umbroso de ciprestes e chorões, dealbado de mausoléus luarentos, como diria um nefelibata, e de cruzes tiritantes de frio na gélida nudez do mármore.

Pelo contrário, as Rimas de João Penha são como um pomar do Minho, ubérrimo e cantante, onde a cor dos frutos se tinge de tonalidades sadias, onde o despenho da água sobre a relva viçosa espuma em borbotões sonoros, e onde os pássaros, nas latadas verdes, assobiam numa bambochata feliz de colegiais em liberdade.

É com a impressão de ter visitado um destes pomares feracissimos e alegres que a gente fecha o volume das Rimas.{55}

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