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Os tripeiros

TRIPEIROS. (continued 2)

Reading edition

―Não, alguma cousa era! Diga, diga, Genoveva; meu pae está de mal commigo?

―De mal! elle que não vê outra cousa, que a traz nas palminhas das mãos, apesar daquelle modo assim de poucas palavras?! Se se amofina é...

―Acabe! supplicou a joven.

―Triste já está a menina; para que a entristecer mais? disse a criada mastigando. ―Não me quer entristecer mais? Pois que ha? exclamou a filha de João Ramalho, erguendo-se com a anciedade pintada no rosto.

―É... nada, nada, redarguiu a velha. E baixo accrescentou, tornando a carregar a roca:―Cala-te, bocca. Ora, não ia eu já dizer tudo?

O áparte da cuvilheira, por uma mania que tinha de sempre dar á lingua para que a ouvissem, pareceu-se com todos os ápartes do theatro, e mais anciosa ficou Irene.

―Jesus, Genoveva! Succedeu alguma cousa?

―Nada: é que...

―Acabe por uma vez.

―Como tem de ser... porém, olhe, triste já a menina está, e quanto mais tarde...

―Está a fazer-me mal, minha boa Genoveva! exclamou Irene, juntando e erguendo as mãos em acção de supplica.

―Ora vejam! mal é que eu lhe não queria fazer; mas visto que teima... sempre lhe digo: seu pae embarca por estes dias.

―Embarca... disse a joven tornando a sentar-se. Julguei que fosse outra cousa. Não estou já affeita a vêr partir meu pae, todos os annos, uma, duas e tres vezes para essas terras de Christo? Se podésse fazer com que não andasse sobre aguas do mar, exposto; porém...

―Ao mar, atalhou Genoveva, já o senhor João Ramalho está affeito. Parece que tem todos os santos e santas por elle... e merece-o, que não ha tempestade que mal lhe faça; e mais dizem que são bem más as da Inglaterra e Flandres! Mas não é agora só o mar...

―Então que mais é, Genoveva?

―É... que... que volta a Lisboa... e...

―Jesus! agora... que anda a guerra por lá!...

―Deus ha de querer que nenhum mal lhe venha, e eu hei-de recommendal-o muito á Senhora da Silva e á Senhora do Amparo, as duas santas de mais valimento que ha no céo... de maiores milagres pelo menos... ao Senhor S. Pedro, advogado da gente do mar, e ás almas milagrosas! redarguiu a senhora Genoveva, fazendo uma especie de mesura a cada nome dos beatos patronos que proferia.

―Bem me dizia o coração que destas náus e galés chegadas me viria mal, disse Irene recordando-se naquelle instante das palavras de Fernando.

―Mal... mal? Tenha fé em Deus, que é grande peccado descoroçoar assim. O senhor João Ramalho, seu pae, se anda cuidadoso é por si, menina Irene: como está já uma moça... eu cá me entendo... quer deixal-a bem amparada, em logar seguro; que nestes tempos revoltos, e nos que o não são, todo o cuidado é pouco. Como não vae lobo a redil nem raposa a gallinheiro senão quando acha a porta mal cerrada e não ha mastins para açular, queria deixal-a em abrigo seguro, e lembrou-se de um convento. Já dei recado para uma prima, que tenho, sergente em Entre-Rios, a vêr como poderei ir fazer companhia á menina...

―Então, Genoveva, vamos para tão longe! exclamou a linda moça com voz magoada.

―Ainda não é de certo. É precisa licença do senhor D. João Affonso, e não sei que outras requestas... e como não é para já o caso... por estes dias...

―Genoveva! Genoveva! gritou do andar terreo o senhor João Ramalho, fazendo estacar a falladora cuvilheira, que incetando um Padre-nosso em um tom de voz que, sem offensa da boa da beata, se podia comparar ao rosnar de um cão, desceu as escadas.

―Virgem santa, valei-me! murmurou a joven fechando uma na outra as mãos, brancas e delicadas, e deixando sobre o seio pender o rosto, que não desfeiavam os assomos de tristeza.

Irene assim permaneceu longo tempo, e quando ergueu os olhos orlava-lhe as palpebras uma côr mais rosada que de costume, e as lagrimas borbulhavam mais intensas do que as trazidas pela desconfiança de que Fernando Vasques não correspondesse ao affecto por ella consagrado. Eram mais intensas, porque junto com as arrancadas pelo amor filial―pois bemqueria a joven a seu pae, com um extremo inexplicavel, attenta a rudesa apparente do piloto, se é que uma força occulta a não fazia corresponder ao sentimento por elle votado ao unico ente que na terra lhe restava, á imagem de uma esposa adorada com o fogo que empregam essas almas reconcentradas, os homens que jogam a vida sobre o mais terrivel dos elementos, e passam dias e noites seguidas a soletrar no livro da natureza a pagina do infinito, em circulo fachado por céo e mar;―junto com as saudades e receios por seu pae, se ligavam penas avultadas pela sua imaginação, suppondo-se já separada, longe de Fernando, clausurada para a vida talvez; que no amor tudo é coado por um prisma que engrandece e multiplica os objectos.

Ás lagrimas do travesso moço succedera a resolução: Fernando fizera-se homem; ás lagrimas de Irene succedia o anniquilamento: póde-se dizer tambem que se fizera mulher a pobre menina porque: a coroa do seu sexo é formada por essas perolas nascidas no coração, perolas que resgatam a propria culpa e a alheia. Para o resgate da humanidade Deus, tornado homem, deu o seu sangue; para completar essa regeneração, para abrir ás mulheres as portas da vida, inflar-lhe no seio uma alma, verteu lagrimas uma virgem.

Irene chorava pela segunda vez, depois que se apoderára do seu coração a imagem de Fernando, quando lhe veio ferir os ouvidos um som distante e confuso; confuso porque era grande o arruido que petintaes, espadeleiros e galeotes faziam na praia, sanctificando o dia do descanço com libações frequentes de verde e maduro, cidra e outras bebidas. Era o som de um toque de caça, assobiado por um valente folego. A moça estremeceu, quando se lhe afigurou reconhecel-o; estremeceu e a alegria repelliu naquella fronte as nuvens de tristeza com tanta ou mais rapidez de que nos leva a dar uma ideia dessa mudança. Ergueu-se e correu ao extremo da varanda, encostou á adufa o ouvido attento a linda namorada; mas calára-se a marcha, e os berros da chusma iam em um

rinforzando

prodigioso. Alguns minutos de anciedade assim passou, com o seio a arfar, os lábios meio-abertos, deixando vêr uma enfiada de dentes alvos como o fructo das camarinhas, com os olhos brilhantes, fixos, até que com novo sibilo rompeu um grito da joven, um grito de alegria, e deixando a varanda subiu a assomar a cabeça por aquella historiada janella das flores, onde com ella travamos conhecimento.

A cabeça appareceu e desappareceu logo.

Irene soltou outro grito, porque os seus olhos encontraram os de seu pae, irados, em vez de outros que de certo procurava carinhosos.

Junto com o sibilo, com os gritos, com o bater das adufas da varanda e portadas da janella―junto, se póde dizer, tal foi a rapidez da successão―ouviu-se um grande fragor.

A arvore do cercado oscillára e o muro da quelha fôra a terra.

A filha de João Ramalho deixou-se cahir no estrado em que costumava costurar; o piloto soltou uma praga, e a cabeça da tia Genoveva, que da cosinha presenceára parte desta scena, appareceu de bocca aberta no quarto da donzella, persignando-se e abanando a cabeça como um manequim, pintando em toda esta gesticulação o seu pasmo, e terminando por entre dentes com esta phrase, que havia de ser, como já fôra, repetida milhares de vezes:

―Ora fiem-se lá nas innocencias deste tempo! O mundo vai perdido!

VI.

Causa publica e cousas particulares.

A nenhu era ouvida rezão, nem escuza, que por sua parte dar quizesse, mas como hum falava dizendo: que fohão he delles; não havia cousa que lhe desse vida, nem justiça que o livrasse das suas mãos: e isto era especialmente contra os melhores e mais honrados, que havia nos logares, dos quaes muitos foram postos em grande cajão de morte...

fernão lopes.―Chronic.

Em quanto Irene soluçava, Tello Rabaldo vociferava, sacudindo a poeira do gibão, e João Bispo evitava na rêde de bêccos e escadas do bairro a sanha do bésteiro e de alguns mesteiraes, que o suppunham réo de crime grave, ou queriam nelle desacatar o alcaide, que viam, como a grande parte dos nobres, com maus olhos, no terreiro de S. Domingos havia grande ajuntamento de povo, e na portaria do convento e claustro da igreja se reuniam os homens bons da cidade, burguezes e cavalleiros; que a ordenação de D. Diniz era desattendida durante aquelles transtornos, como o tinha sido por vezes, e depois havia de ser.

Ruy Pereira e a edilidade portuense combinavam os meios, já o sabemos por via de Luiz Giraldes, de corresponder ao appello do Mestre, e corriam as cousas ás mil maravilhas. Affonso Eannes Pateiro e Alvaro da Veiga, bastante compromettidos com a acclamação do novo governo, juntamente com o rico mercador que fôra despertar Gonçalo Domingues sopravam em pequenos conciliabulos o enthusiasmo de amigos e conhecidos, e não perdiam o tempo. Os periodos mais ou menos bombasticos, mais ou menos curtos, tinham, depois de um ou outro commento, como ponto, a deslocação de dous ou tres individuos, que se dirigiam a uma mesa cercada de tamboretes e cadeiras, onde dous homens vestidos de negro, um redondo, de nariz globuloso e vermelho, outro côr de pergaminho e de feições angulares, se viam ao par de alguns vereadores, afagando este com a rama da penna os lábios ressecidos, abanando-se aquelle com um caderno de papel. Um dos patriotas segredava tres palavras ou quatro ao ouvido de um dos alvazires; os burguezes diziam outras tantas; os homens negros traçavam algumas letras e algarismos, que liam em voz alta, e de tudo isto sahia, póde-se dizer, a Milheira, a Estrella e a Sangrenta, o levantamento do cerco e bloqueio de Lisboa, a dynastia de Aviz e―quem sabe?―a salvação e civilisação da Europa. Se julgam paradoxal a ultima parte, provem como sem os donativos daquelles bons homens se accudiria ao Mestre; se este não se veria obrigado a tornar real o fingido embarque para Inglaterra; se, simples João Pires, casaria com a exemplar filha de João de Ghaunt; se haveria quem formasse um viveiro de navegantes tão destemidos, arrojados, para devassar a costa d'Africa e penetrar na Asia pelo Oceano, como o infante D. Henrique; como sem o córte dado naquellas paragens ao poder ottomano, se lhe sustaria a carreira victoriosa dos seus estandartes, que chegaram a tremular junto dos muros de Vienna, na costa da Italia, na Hungria e na Bohemia, que pendiam bafejados pelas tépidas aragens de Aldjesireh, da Arabia, e açoutavam os ares impellidos pelos ventos gelados na Polonia, se espalhavam nas aguas do Mediterraneo, no mar-Negro, no golfo Persico e no Oceano, e acobertavam os recebedores de pareas até ao Dekan.

Se algumas circumstancias concorreram tambem para este gigante resultado foram as narradas nos antecedentes capitulos, desde as dos namoros de Irene com Fernando e de Garifa com João Bispo, até á daquelle virote quebrado.

Não cuidem que um escriptor consciencioso escreva uma linha só com o fim de encher papel; que invente um episodio por seu alto recreio: tudo aqui vem a pello desde o mais somenos facto ao de mais vulto, e os leitores phylosophos, que esquadrinham os fins moraes, procuram o succo de todo o livro e folheto, farejam uma ideia em cada letra impressa, acharão neste romance demonstrações de que grandes successos, que pasmam do mundo, são como os nevões: um floco de neve, que rola do cimo dos Alpes, ao chegar ás fraldas destroe casas e plantios; uns bigodes cortados em 1152, ainda no seculo em que viviam estes nossos heroes, destruia cidades, assim como as bagatellas acima apontadas salvavam este canto da terra de ser hoje em dia... um pachalik ou cousa peior.

E João Bispo, Fernando Vasques, e até para muita gente João Ramalho, Affonso Eannes, Alvaro da Veiga, Domingos Pires das Eiras, Luiz Giraldes e outros com quem o leitor tomará ainda conhecimento, estavam no olvido?!

Lamentemos esta má sina de ingratidão pelos grandes homens... que em vida não tiverem condados d'Ourem, nem terras do Alfeite; lamentemos, e vamos de novo para S. Domingos.

Ao passo que os burguezes davam que fazer a Gonçalo Pires, escrivão de chancellaria e ao seu companheiro, na casa do capitulo, bocejavam os poucos cavalleiros que tinham adherido, como hoje se diz, ao pronunciamento do Porto, por vontade, ou circumstancias. Dissemos que bocejavam; pois movimento, acção em poucos se notava, a não ser um alguns dos recem-chegados de Lisboa, dos quaes o mestre soubera captar a benevolencia com aquella largueza de mãos, que o deixaria rei das estradas de Portugal, se não fossem depois as garnachas, de que já se queixavam então, e em alguns pobres infanções e simples cavalleiros. Ruy Pereira reunia em volta de si, os dous sobrinhos do rei de Castella, D. Pedro e Affonso Henriques de Transtamara, misser Manoel Pessanha, João Rodrigues Guaday, Ayres Pires de Camões, Affonso Furtado e os irmãos d'Alvalade, e em uma das extremidades da quadra segredavam, ou antes fallavam quasi por signaes o alcaide de Monsaraz, Affonso Darga, o irlandez Down-Patrick e o velho fidalgo de Riba-Tua. Do resto, faziam uns retinir pelo sobrado os acicates dos seus sapatos de ferro, que vinham em traje de guerra não poucos, outros descançavam nas grandes cadeiras de espaldar, que os reverendos para alli tinham feito conduzir. De tempos a tempos um pagem ou um leigo entravam com recado para o tio do condestavel, ou este fallava a alguns dos seus homens, que estanceavam á porta, e elles partiam ás carreiras para diversos pontos.

Ruy Pereira tractava de aproveitar o tempo o melhor possivel, como bom cabo de guerra e bom politico, depois de ter conferenciado com os influentes da cidade, conferencia que déra em resultado decidir-se que se chamasse ao partido do defensor o conde Gonçalo, combinação que não era mais do que uma lisonja aos bons burguezes: pois, soprada pelo mensageiro de sua senhoria a Domingos Pires, e por este appresentada, fôra já decidida nos paços de S. Martinho. D. João resolvera comprar o conde com os bens pertencentes á irmã desthronada, bens que já tinham servido de engodo a outros. O escolhido para o ajuste do balsão do nobre senhor, de quem tinham sido já indagadas as ambições―que se iam encontrar com as de Nuno Alvares, felizmente bastante patriota para ceder ás circumstancias;―o escolhido fôra o alcaide de Monsaraz, Gonçalo Rodrigues de Sousa, e devia seguir logo com alguns navios para a Figueira, emquanto outros iriam correr a costa da Galliza, inquietar em casa o inimigo, e nos seus barcos, pescarias e alfandegas procurar um reforço para as arcas exhaustas do thesouro.

O movimento dos pagens, dos sergentes do convento, dos bésteiros e homens d'armas tinha produzido o ajuntamento da pequena praça ou terreiro, que ficava em frente do convento, e das tortuosas ruas visinhas. Na praça, vistas do alto, as cabeças dos curiosos formavam uma massa, que ondeava como as espigas de trigo sazonado, impellidas pelo vento, e no meio de borborinho constante, especie de gemer de tempestade em praia cheia de recifes, surgiam ora estrepitosas gargalhadas, ora gritos, apodos e vivas. As gargalhadas eram provocadas pelo bôbo da cidade. O Porto não era uma terra de pouca monta para não ter um bôbo seu, como qualquer principe, mesmo no meio daquellas calamidades e sustos, e tinha-o até que não ficava nada a dever aosque se importavam de França, por aquellas epochas, com o mesmo cuidado com que se haviam de importar cabelleireiros―o que, entre parenthesis, não quer dizer que para escolha dos primeiros se expedissem tão gordas personagens como para o dos segundos―.Voltando ao nosso caso, ao bôbo da cidade: os leitores que comnosco fazem esta viagem ao seculo XIV e ao terreiro de S. Domingos, devem confessar que a verba votada no orçamento municipal, verba insignificantissima, não devia ser chorada. D. Golias era uma raridade; uma creatura de seis palmos de alto, se tanto, comprehendendo esta medida uma desmarcada cabeça, cortada de lado a lado no terço inferior por uma bocca, cousa unica que correspondia naquelle todo ao nome com que o tinham baptisado. D. Golias áquella bocca, mais do que ao infésado da estatura e uma mobilidade de feições extraordinaria, devia o seu emprego e a sua popularidade. Os mesteiraes e burguezes que o encontraram, vindo do acampamento, onde exercia as suas funcções, tinham-lhe feito um acolhimento brilhante, uma ovação, e elle, escarranchado sobre um vádio espadaúdo e meio idiota, com o seu vestido variegado e o seu capirote, notavel por duas immensas orelhas asininas, correspondia a tanto extremo disparando, entre esgares e tregeitos, epygrammas para a direita e esquerda, na portaria do convento.

Uns bons dous terços destes gracejos, dos mais pesados, eram dirigidos a nobres senhores ou a alguns ricos burguezes, o que os fazia ser acolhidos com prazer pela gente da praça.

―Olé, mossem Methusael, D. Methusael, tio Methusael! ginchou elle sacudindo os cascaveis do vestido e da palheta, dirigindo-se ao arrabi-menor, que por entre a multidão abria caminho; o vinho que á socapa comprastes a mestre Manoel do Arco, subiu-vos á cabeça, ou foi exconjuro que vos trouxe aqui?! Mossem Methusael, as vossas dobras vão tinir como a minha jornea, e o vinho vae desfazer-se em lagrimas! Não é verdade, manos, que vai haver juderega dobrada e tresdobrada. Mossem Methusael antes quer que elles roubem a pequena Lea do que um punhado das boas barbudas da arca!

O arrabi resmungou algumas pragas, que se perderam entre as risadas do povo, e appressou o passo, seguindo um cavalleiro, na direcção da portaria, a fim de em tal companhia ter mais facil accesso.

―Guarda! berrou o bôbo, attravessando a palheta; guarda! Se queres entrar pede a frei Roque que te lave em agua-benta!

―Tira a tua vara, truão, gritou o cavalleiro, ao pousar o pé no limiar da porta.

―Arreda, Portugal! tornou Golias; arreda, que ahi vem Castella em peso! Passe lá, don cavalleiro; eu levanto o meu sceptro e arredo-me, porque não quero tocar em scismaticos. Don cavalleiro, tornou, quando o fidalgo subia já a escadaria, tendes novas do mano Garcia Manrique? Quando lhe ides dar a mão?!

E voltando-se para o leigo porteiro, que, depois de fazer uma grande reverencia ao nobre recem-chegado, o fitava, espantado da ousadia, proseguiu:

―Eh! beguino de má morte, se cuidas que te estás a vêr a espelho de Veneza, enganas-te: estas orelhas são do capirote. As tuas são mais compridas e mais felpudas!

Estes e outros gracejos, que não é licito escrever, pois não curava o truão da polidez da linguagem, nem eram por esses tempos malsoantes palavras que o são hoje; estes e outros gracejos eram a pedra de toque da popularidade dos individuos a quem os dirigiam: a gargalhada e os assobios, as palmas, os grasnidos e murmurios que provocavam, diziam a conta em que eram tidos. Quando a vaia partia, e o povo se calava, não insistia o bôbo, certo de que era a personagem aggredida estimada por aquella boa gente, e não teria, por isso, defensor, se algum syllogismo contundente fosse servir de censura ás suas burlescas reflexões. Regulando por este thermometro, o piloto e mercador João Ramalho e Gonçalo Domingues eram bemquistos na cidade da Virgem. O forçureiro, sahindo açodado pela porta do convento, esbarrára em cheio com o piloto que entrava, e do choque resultou a oscillação dos dous corpos, que procuravam o equilibrio, e um regougo abafado do burguez. A risada foi inevitavel, pois as pequenas desgraças teem sempre o riso por caudatario; mas um olhar do pae de Irene engasgou nas fauces de Golias o motejo.

João Ramalho não vinha para graças.

Ao olhar sevéro dirigido ao bôbo seguiu-se outro lançado a mestre Gonçalo, que lhe estendia a mão com a costumada lhaneza, e o piloto começou, quasi sem tomar folego, uma lenga-lenga de recriminações, que fizeram abrir os olhos do burguez desmarcadamente. Porque se espantava um, adivinha-o o leitor, porque desabafava o outro a sua cólera, se o não sabe, aventa-o: Fernando sahira contra ordem expressa da rua dos Pellames e fôra colhido em flagrante delicto de namoro, acompanhado das aggravantes circumstancias de escalada e destruição de um muro. O piloto deduzira de tanto ruido peccado mais gordo do que sonhára o mancebo, e, como este se lhe tinha salvado da furia, valendo-se da sua agilidade na carreira, avinha-se com o tio. Mestre Gonçalo Domingues, se naquelle instante apanhasse a geito o travesso rapaz, de certo o punha em maus lençoes, tal era a indignação e raiva, traduzidas nas faces em uma côr arroixada, que lhe incitava a narração deste successo, feita pelo rude marinheiro. O sangue subia-lhe á cabeça e ameaçava-o com uma apoplexia. Sem o querer, applicou-lhe o pae de Irene o remedio; porém, continuou a aggressão tão viva contra o travesso rapaz; chegou a taes ameaças, que o forçureiro julgou dever fazer algumas observações a esse respeito, e as observações fizeram desviar o raio de uma cabeça para outra. A culpa daquelle attentado, tão grave para o cego piloto, era de Gonçalo Domingues, que não soubera morigerar o seu pupillo; que lhe déra largas illimitadas; que lhe deixára damnar alma e corpo com ruins paixões. Quem ouvisse aquella recapitulação de queixas e accusações tomaria o namorado de Irene por um D. Juan, se Tirso de Molina já tivesse modelado no

Burlador

o typo famoso, que, com um arrebique para aqui, uma limadella para acolá, um nariz de cartão, uma cabelleira empoada, ou os tezos e cortantes colarinhos de um mylord tem servido a tanta e tão boa gente. O bom do tio, posto que chofrado, e duvidando de tanto aggravo, julgou o caso de consciencia, comtudo, e mentalmente resolveu a questão por um dos lados; por onde a lei, se fossem veridicas as supposições do forçureiro, a resolveria, mesmo naquelle tempo, visto que não havia desigualdade de castas. O rico burguez não mettia em linha de conta a vaidade do piloto, não se recordava tambem de que o commercio e industria com que se locupletara eram marcados com despreso tradicional, despreso ecclipsado para as maiorias pelo brilho das dobras, é verdade; porém não de todo para os mais pechosos. João Ramalho, á primeira phrase em que o forçureiro dava a entender a sua resolução, feriu-o vivamente no fraco, e emcambulhando-se as palavras em dialogo alternado, a voz do tio de Fernando chegava ao diapasão da do pae da linda namorada deste, quando arruido maior lhes abafou as vozes, e uma onda de povo os separou, lançando um para um lado, outro para outro.

Para explicar esse alvoroço voltemos outra vez ás assoadas de D. Golias, o bôbo da cidade.

Como em baile de etiqueta annunciava o maninelo quanto individuo de seu conhecimento se approximava do mirante semovente, em que se empoleirara, quando um claro se fez do lado do arco, que dava serventia para as Cangostas, rua que não desmente ainda hoje o nome posto, para a Bainharia e almuinhas, e appareceu açodado o nosso conhecido João Bispo. Se a pressa, que mostrava trazer, e o conservar na mão a adaga não fizessem notada a pessoa do ex-subordinado de Tello, chamariam sobre elle a attenção os gritos de Golias.

―Upa! acima sineiros da maldição, berrava elle. Os sinos não tangem? Beguino, frei velhaco! campas e sino grande, tudo a chocalhar! Venha toda a monjaria de cruz alçada, que chega o senhor bispo, o bispo João! Sua mercê traz pressa; mas nem por isso deve ser recebido sem as honrarias de usança. Vá: deitem-lhe agua benta aos olhos, para que não veja por ahi moura perdida pelas celas!

E terminando a exclamação imitava com a bocca o repique de sinos, baloiçando-se sobre os hombros do espadaudo vadio, em quanto este, que não tinha a insensibilidade de campanario, grunhia incommodado pelo revolver dos pés do bôbo ante os olhos, e arrepelões dados na hirsuta cabelleira.

A cidade ficava de certo sem o importante Golias; pois que o vadio estava já disposto a sacudil-o no lagedo, como o besoiro, que lhe fizesse cocegas no cachaço, e de certo o estatelava, senão se ouvissem gritos no meio da praça, e o novo bésteiro de Gaya se não viesse embaraçar, tentando penetrar na portaria, nas pernas da victima do bôbo, ao mesmo tempo quasi que o acontiado do municipio.

―Castelhano! gritou este, deitando as mãos ao namorado de Garifa, castelhano, aqui não te valem os fidalgos traidores!

O homem do virote, que sentira subir-lhe o sangue á cabeça com a ameaça de Ayres Gonçalves, correra, mal este embarcára, a procurar desafogo em João Bispo, e mais desesperado pela velocidade da carreira deste e pelo emmaranhado dos beccos por onde seguira, quando o encontrou, ao dobrar o arco, sentiu o despeito renascer; o nosso bésteiro, porém, deitou-o no chão com um cambapé e seguiu caminho. A vontade de tirar desforço do novo desappontamento trouxe aos lábios do homem do virote aquella palavra «castelhano». João Bispo correra menos risco quando lhe chamaram ladrão, entre os bons burguezes, na baixa, do que baptisado com semelhante nome.

―Castelhano?! exclamaram alguns mesteiraes correndo para junto dos dous soldados, emquanto João se desembaraçava do seu aggressor.

E um sussurro indicador de que a tempestade, as iras populares estavam eminentes se levantava no terreiro, ao passo que a portaria era invadida.

―Mata, mata! gritaram em seguida alguns garotos do outro extremo da praça; mata o castelhano!

João Bispo sentiu um suor frio correr-lhe pelo corpo todo, e murmurou dando um salto, encostando-se a uma das hombreiras da porta, e cobrindo o peito com a adaga:

―Castelhano... castelhano? Quem falla aqui em castelhano? Affastar, proseguiu em voz mais forte, affastar! Em castelhanos vou eu pôr o dedo.

―Mata, mata! berraram com os garotos alguns dos homens mais esfarrapados da chusma; e uma pedra veio ferir fogo nos umbraes do convento.

O amante de Garifa, metteu a mão no seio e tirou uma pequena tira de pergaminho, ao passo que o bôbo, atterrado com o arremesso de projectis em semelhante direcção, julgava dever intervir:

―Sús, boa gente; quem chama castelhano a João Bispo? Frei João não foi sagrado pelo papa dos scismaticos... foi pelo papa dos velhacos.

―Oh! é João Bispo? perguntaram duas ou tres vozes d'entre a chusma.

―João Bispo, ou o bispo João, tornou o bôbo, fazendo mesuras ao publico, ao qual soubera modificar as iras com o seu gracejo.

O homem do virote via de novo escapar-se-lhe a victima.

―Vêde, vêde, gritou elle apontando para o pergaminho, que o bésteiro segurava na mão, e tentando apoderar-se delle: vêde como quer esconder aquillo.

João Bispo levantou o braço para furtar o escripto, que trazia a Ruy Pereira, á mão do bésteiro do municipio, ao mesmo tempo que Golias estendia o braço e o apanhava.

―Ui que esgaravunhos! pipitou elle desenrolando a tira. Isto é esconjuro de bruxa, ou pacto de venda de alma de judeu?

―Ou mensagem para os do arcebispo! resmungou um dos mesteiraes.

―Mensagem para os do arcebispo... disseste a verdade, mal-cuidando! accudiu o bésteiro de Gaya, soltando ao mesmo tempo uma praga, e com a raiva pintada no rosto dando um salto para rehaver o pergaminho.

O escripto voou das mãos do truão assustado para junto de João Ramalho, que, levantando-o, passou pelos olhos as primeiras linhas:

―Traidor, Gonçalo de Sousa?! exclamou elle.

―Traidor, sim, disse João Bispo; e ainda ha pouco aqui tramou não sei que outras villanias! Estes cães que trouxe ás pernas não me deixaram...

João não proseguiu. O alcaide de Monsaraz desembocava no pateo, acompanhado de Affonso Darga, vindo do lado da casa do capitulo. Entre os mesteiraes entrados na portaria reinava profundo silencio. O joven cavalleiro fallava com o commandante da flotilha enviada pelo Mestre de Aviz ás aguas do Douro:

―Senhor Gonçalo de Sousa...

Como João Bispo não acabára a phrase não a acabou tambem Affonso Darga. João Ramalho dirigira-se para o alcaide, e batendo-lhe com uma das mãos no hombro, appresentou-lhe o escripto. Aquelle pergaminho apanhara-o o ex-noviço ao capellão de Ayres Gonçalves. Scismando nas palavras ouvidas atraz do reposteiro, quando, ao regressar de uma visita á ucharia, se perdera nos lanços de escada e corredores dos paços de Gaya, pensou que no aposento do frade lhe acharia a explicação. A prova de que não pensou mal era o ter encontrado alguma cousa, e essa cousa―o pergaminho―fizera perder a côr ao alcaide de Monsaraz.

Á pallidez, seguiu-se o rubor, e depois de novo a pallidez. Gonçalo de Sousa sacudiu a mão do mercador, como se fosse um reptil, que lhe tivesse pousado nos hombros; quiz fallar e a voz prendeu-se-lhe na garganta; a espuma produzida por um accesso de bilis appareceu-lhe aos cantos da bocca. O nobre senhor, nesse instante, temia menos as iras das turbas, sentia menos a deshonra, se deshonra via na sua traição, do que a ousadia do homem do povo, que assim se arvorava em seu juiz.

―Arreda, villão! gritou, mal a voz se desembaraçou.

―Villão! repetiu João Ramalho, refece é quem assim atraiçoa a terra que o viu nascer; não é, senhor alcaide?

A voz do piloto tremia; mas não de susto. Gonçalo Rodrigues de Sousa arrancou-lhe das mãos o pergaminho, e rasgando-o, lançou-lhe os pedaços ao rosto.

―Quereis resposta? disse elle com um sorriso nervoso, symptoma de um excesso de raiva; quereis uma resposta? Eil-a... Outra só a darei quando o meu accusador não fôr da tua ralé.

O punhal de João Ramalho lampejou no ar. O alcaide de Monsaraz contára aquella hora como a ultima da vida, se uns poucos de mesteiraes e bésteiros do municipio não fizessem o mesmo, lançando-se sobre elle, embaraçando-se uns aos outros.

A onda popular, levantada pelas primeiras palavras do homem do virote, pela accusação feita ao namorado de Garifa, crescera furiosa, estuara no meio dos gritos de «morra o traidor, o castelhano». A portaria do convento fôra invadida, esmagado quasi o porteiro, apeiado e pisado o pobre D. Golias, e azevans, ascumas e agomias luziam ameaçadoras por cima daquellas cabeças inquietas, como na crista das vagas os flocos de espuma feridos pelos raios do sol. Quatro braços possantes seguraram o alcaide, mais já lembrado de que era homem do que fidalgo: Affonso Darga e uns dous monges, que o quizeram cobrir com o corpo, foram repellidos em um abrir e fechar d'olhos.

―Ao pelourinho, ao pelourinho! gritou um dos mesteiraes arvorados em justiceiros. Açoutado e enforcado!...

―Jesus! gritou o dominico, tentando salvar Gonçalo Rodrigues; Jesus! o que ides fazer é um homizio, e o sangue...

―Vamos fazer justiça. A traidor como a traidor! Peões, não temos cepo nem cutello; mas temos boas cordas de canave.

―Ao pelourinho, ao pelourinho!

―Morram os traidores!

―Bésteiros, a mim bésteiros! gritou o alcaide de Monsaraz, vendo apparecer do lado do claustro dous acontiados da esquadra.

―Quem é aqui por traidores?! exclamou um dos que empunhára o alcaide.

Os bésteiros não se moveram. A celeuma na praça crescia.

―Por Christo crucificado! tornou o dominico pacificador, erguendo a cima da cabeça a imagem do Redemptor. Quem com ferro matar, morrerá pelo ferro...

―Ide-vos, homem de Deus; ide-vos, senão quereis que vos tomem por traidor.

A voz de Ruy Pereira, avisado do risco em que estava Gonçalo de Sousa, trovejou por cima daquella celeuma:

―Quem falla aqui em traições? Traidores, se os ha, deixai-os á justiça do regedor. D. João vol-a fará boa e prompta, bons homens! Senhor meirinho, senhor meirinho!

―O povo do Porto sabe fazel-a tão bem e tão boa como o de Lisboa.

―Senhor meirinho, senhor meirinho, gritava o tio de Nuno Alvares, barafustando para se approximar do commandante das galés do Mestre, e procurando com o vista o meirinho da cidade, que abafava entre os mesteiraes.

―Ao pelourinho! vozeavam estes.

Um bésteiro neste momento atravessava o terreiro, soffreando o cavallo em que montava, para não pisar o povo, nessa occasião soberano em verdade. Conhecido de alguns dos amotinados, abaixara-se a fallar-lhes, e pouco e pouco, á proporção que se approximava da portaria do convento, ao berreiro de «morras» succedia um borborinho destas palavras trocadas em voz baixa:

―Os gallegos! os gallegos!

―Os gallegos! exclamou o mesteiral que segurava o alcaide e parecia ter grande influencia nos seus companheiros; os gallegos veem? Boa idéa: mandar-lhe-hemos este bom cavalleiro para o arraial. As machinas que estão do lado das Hortas podem com pesos maiores. É uma boa lança que enviamos aos do arcebispo. Não é para elles que se queria partir?

Uma gargalhada saudou a lembrança, apesar de não ser original.

Gonçalo Rodrigues de Sousa estava salvo com aquelle addiamento das vinganças populares.

VII.

Recontro de Leça.

Todo oro que se afina Es de mas fina valia, Porque tiene mejoria De cuando estaba en la mina, Ansi se apura y retina El hombre y cobra valor En la fragoa del amor.

gil vicente.―fragoa d'amor.

―Bofé, por aqui?!

―É verdade, João.

―Mas como? Se o não vira com estes olhos que a terra ha de comer...

―Pois eu sou.

―Como S. Thomé, parece-me que será preciso tocar-vos para crêr. E como vindes armado! Nem moço escudeiro vos leva as lampas! Mas ainda o não posso acreditar. E mestre Gonçalo?

―Meu tio...

―Sim! O bom do velho veio tambem na arrancada. É o que faltava vêr... elle que não é para estas cousas, apesar de bom portuguez. Mas, em fim, está ahi o Porto em peso; velhos e cachopos... até mouros. Por pouco vinham as mulheres! Ala fé, mestre Gonçalo Domingues...

―Meu tio não veio...

―Então...

―Ai, João, se souberas?!

―O que?

―Estou como tu; sem leira nem beira.

―S. Jorge e todos os santos batalhadores sejam commigo! Que foi o que vos succedeu, Fernando? Morreu mestre Gonçalo?

―Não morreu, não... nem Deus queira tal.

―Então, que foi?

―Ai, João, hontem foi um dia bem de mau sestro!

―Para mim tambem: por um argueiro duas vezes escapei á morte!... Pois não vi, ao sahir de Gaya, nem gato preto, nem chapim de sola para o ar, nem velha varrendo lixo: nem ouvi piar a coruja, nem uivar os cães! Valeu-me o anjo da Guarda...

―A mim não me quizeram matar; mas... parece-me que me foi peior...

―Peior?!

―Sim, João: lembras-te de me encontrares nos Banhos, e de te fallar em certos amores? ..... Fui vêl-a.

―Ah! fostes vêr a tal menina, e estava arrufada...

―Não, João; Irene...

―Irene? chama-se Irene? é um nome que não é feio.

―E ella é mais linda; mas, como te ia contando, fui vel-a. Ia a subir a um muro do lado do quintal para lhe fallar―queria tirar um peso que tinha no coração; dizer-lhe que, apesar de meu tio ralhar, lhe havia de querer muito e... nem eu sei o que mais; mas queria-lhe fallar, vel-a―ia a subir ao muro, e o muro... zas... no meio do chão, e cara a cara dou com o pae...

―Ora! E por tal é essa amofinação?

―Olhe, João, que não é o caso para folgar! Como não ralharia elle á minha pobre Irene, elle, que não tem ar de palavras de mel, e ficou com um senho... que descarregou nella... de certo...

―Isso de nada vale, Fernando.

―Ainda não ficou ahi o mal. Deitei a correr... eu sei lá para onde! Quando me lembrei de voltar para casa era tarde; pouco faltava para o sol posto. Appressei o passo, lembrado de que se meu tio me não encontrasse nos Pellames, elle, que me guardava má tenção por me haver encontrado já na maldita arvore, faria de sorte que eu não tornaria a pôr pés na rua. Ao chegar quasi a S. Domingos, havia uns alaridos, um grande vozear, e parara ao pé do arco, quando mestre Duarte, o nosso visinho, veio aonde eu estava, e contou que vira o pae de Irene fallar com meu tio, e que ambos esbravejavam, por palavras que lhes ouvira, contra mim. Voltei a Miragaya...

―Para que?

―Nem o sei dizer. Receiava de meu tio... e não receiava. Quando de novo me dirigi á porta da cidade estava fechada. Do lado da Esnoga via-se um grande clarão, e continuava o alarido...

―Era a chamusca da casa de mossem Moysés, o irmão de D. David Algaduxe; era o escote dos judeus.

―Assim me disseram de manhã.

―Passastes a noite ao relento?!

―Passei, João, e se visse sequer uma luz á janella, parece-me que ficava consolado. Ao alvorecer, como depois daquella noite assim corrida maiores razões tivesse para não voltar aos Pellames, subi a encosta em cata de mestre Pedro, e, como o não encontrei, fui pelas Hortas. No campo, a chusma das galés, os acontiados da cidade, e a gente de armas dos ricos homens vindos de fóra, estava tudo em movimento; chegava povo a todos os momentos e sahia no meio de vivas; ao pé da torre, junto á porta, do lado de dentro, distribuiam armas. Um anadel deu-me um encontrão, e disse-me que fosse buscar tambem alguma cousa, e fui; pozeram-me a caminho para aqui, e puz-me a caminho tambem...

―Amores! amores! E agora que ides fazer?

―Boa pergunta, disse, erguendo e cabeça com certo enthusiasmo, o namorado de Irene, Fernando Vasques, de certo já reconhecido, bem como João Bispo desde as primeiras linhas deste dialogo; agora é batalhar, e ou ficar para ahi, ou fazer acção de fama; e depois...

―E depois ides pôr a espada aos pés da vossa dama, como naquelle conto da Tavola-Redonda ou naquell'outro que tinha frei Gumado... Ama... Ama...

―Amadis, queres dizer?

―Isso é: um em que havia combates de gigantes e uma princeza muito formosa: deixai vêr se me lembra o nome... Oriana!...

―A dama de Amadis.

―Bonitos contos, Fernando, esses de cavallerias e amores; pena é que hoje nada succeda assim de geito.

―Pena que não haja quem tenha a vontade de boas acções e famosas! O senhor Nun'Alvares, tem-se, ainda assim, havido como alguns dos mais pintados, e ouvi contar a meu tio, que o viu simples pagem, acompanhando a rainha Leonor, pela qual depois foi armado.

―Tomou o leão para o fazer lebreo de estrado; mas elle, mal chegou a idade, mostrou-lhe os dentes todos, e foi para o monte a monteal-a. Desde nado trouxe boa sina Nuno Alvares. Mestre Thomaz, grande astrologo, que andava em casa de seu pae, leu nas estrellas, e viu que empresa em que se mettesse seria boa, e elle sahiria vencedor, se fosse para bem sua tenção.

―Por isso deixou elle a rainha Leonor; pois em serviço della não andava bem, e podia-se quebrar o encanto com que foi fadado.

―A mim tambem me leram a sina; porém a maldita da moura que o fez disse uma tal embrulhada, de que só percebi que havia de entrar em grandes batalhas, e salvaria um rei...

―Não ouvis? atalhou Fernando, sobresaltado.

―Ouço.

―Além do rio...

―Um como tropear de gente, e quebrar de ramos. Estas fogueiras não deixam vêr bem. As vigias dormirão?

―Não... olha, não vês alli ao pé daquelle fraguedo, onde bate o luar, aquella que se move? está bem desperta. Ainda ha pouco se recolheu uma rolda, a que acompanhou frei Patinho.

―Escutai, tornou João Bispo, deitando-se no chão para melhor distinguir a direcção do rumor, depois de retesada a corda da sua besta.

A noite descera havia muito; os galos de algumas choças visinhas tinham já annunciado que ia alta, a meio do seu curso, e a lua erguia-se redonda, avermelhada, semelhando um escudo candente, por entre as ramas dos pinheiros, que fechavam ao nascente o horisonte, fazendo destacar a uns por contornos negros, cobrindo de uma luz phantastica os curutos de outros, e projectando sombras immensas pelas clareiras. Á proporção que ella minguava no céu, tornavam-se mais vivos os reflexos azulados com que tingia alguns objectos, fazendo contraste com os fogos dos dous acampamentos áquem e álem de Leça―fogos que em pontos ainda se mostravam vivos, fazendo ressaltar vultos negros, tocados, sobretudo nos arnezes, braçaes e grevas dos homens d'armas, de linhas ardentes, vermelhas quasi; em outros quasi extinctos, mostrando, através de uma luz vaga, fórmas indecisas, movendo-se, tregeitando. Aqui o ferro de uma azevan, volteando, espelhava um raio da lua, e imitava os fogos fátuos; acolá o bacinete polido de um bésteiro de polé lampejava, ao cruzar rápido por pé dos fogos das vigias. De vez em quando o relincho dos cavallos se reproduzia nos eccos; as vozes das roldas se alteava; erguia-se aqui uma risada, alli um clamor, e depois recahia tudo em um silencio, que só interrompia, alguma conversa a meia voz, como a que cortaram os nossos dous namorados.

Pela bocca de um delles já todos sabem que os combatentes de que podia dispôr a cidade da Virgem, homens e rapazes se tinham nessa dia de madrugada posto a caminho de Leça, e se estão lembrados da noticia dada pelo bésteiro em S. Domingos, noticia que tirou Gonçalo Rodrigues das mãos dos populares e o entregou á justiça, que lhe fez grande favor em o reter preso em Gaya; se se lembram de que D. João Manrique, arcebispo de Santiago, abalára de Braga com setecentas lanças e dous mil infantes, portuguezes, partidarios de D. Beatriz, e gallegos, e quando chegára a mensagem do Mestre acampava perto da cidade, atinarão qual o intento que ahi os levava. Alguns corredores do bando inimigo tinham, ao tempo que pecuniariamente se salvava a patria, chegado a Paranhos, alarmando os poucos camponezes não recolhidos á cidade, e os bons burguezes, que já os tinham esperado duas vezes sem verem apparecer uma só lança, haviam resolvido affugentar estes hospedes importunos.

Seis a sete mil homens, pois, acampavam áquem do Leça, occupando uma extensa linha.

Esta tropa, superior á do arcebispo em numero, era, encarada por outro lado, talvez inferior. Dos nobres que com os seus homens d'armas tinham seguido as hostes populares, em alguns não eram firmes as crenças de partido, como vimos; nos outros, em geral, havia certa má vontade por vêrem ao seu lado cavalleria burgueza, para a qual olhavam pouco mais ou menos com os mesmos olhos com que ainda hoje, no seculo XIX, olha o militar para o miliciano que marcha ao seu lado. Os bésteiros da behetria, trezentos ao todo, era gente de animo resoluto, porém fracos atiradores, e os quinhentos, tirados da esquadra e de Gaya, tinham os outros quasi na mesma conta que ás lanças que rodeavam a bandeira onde entre torres a Virgem apparecia mostrando Jesus inda menino, aquelles que seguiam balsões historiados, e mesmo ainda ao mais historiado labaro, museu de imagens santas ideado pelo futuro condestavel.

Cinco mil homens, exceptuando a chusma da armada, pertenciam a essa gente que parecia entregue a uma mascarada, quando levamos o leitor aos adarves que tinham vista para Miragaya. Eram porém estes, era o povo e os acontiados do municipio que tinham de fazer retirar os muito esforçados cavalleiros Lopo de Lira, Fernão Gomes da Silva, Martim Gonçalves de Athaide, Gonçalo Pires Coelho e outros nobres, que seguiam com elles o arcebispo de Santiago. As ascumas e os mangoaes affaziam-se, a passar aquellas entre o gorjal e a barbuda, a malhar estes em cimeiras; amestravam-se para a grande tarefa de Aljubarrota.

Como dissemos, os defensores do Mestre estendiam-se na margem do Leça por bom espaço. João Bispo e Fernando Vasques encontravam-se em uma das extremidades da linha, ou acampamento, quando extranho ruido vindo de uma mata visinha os fez interromper o dialogo que ahi fica exarado. O amante de Garifa, depois de se conservar por alguns segundos deitado, com o ouvido attento, ergueu-se, fez um signal ao seu companheiro, e, empregando o maior cuidado possivel para não fazer rumor, dirigiram-se ambos para o lado do poente, onde de novo se pozeram a escutar.

―São os nossos, disse o bésteiro novel a Fernando; são os nossos, que estão abrindo caminho no bosque.

Palavras não eram ditas, um grito sahia da selva, e um bésteiro levantava quasi debaixo da cara do sobrinho de Gonçalo Domingues a sua besta armada, mirando-o.

―Eh! Gil! abaixa lá isso, gritou João Bispo: guarda os teus virotes para os

gallegos!

Que desbravar de matto é esse?

―Eramá! estás ahi, João? tomei-vos por esculcas desses condemnados! Abrimos caminho na mata, e vamos passar o rio. João Ramalho está lá em baixo com trezentos dos da cidade.

―Começa o folguedo?

―Boa festa! Vamos fazer dançar os do arcebispo ao som de assobiar de virotes, e ranger de polés e garruchas. Os malditos deste lado dormem, ao que parece, e não é mau despertal-os.

O amante de Garifa deu alguns passos para se internar na mata. Fernando reteve-o.

―Espera, João, eu sei um sitio onde se póde passar melhor do que ahi.

―Sabes?

―Além, abaixo daquelle casal que está a alvejar, pelo açude.

―Bom discorrimento teve o cachopo! exclamou o bésteiro, com um sorriso de escarneo. Vão lá passar pelo açude! É o mesmo que fazer caminho para o outro mundo. Dous homens na outra margem tragam-vos uma hoste, como a uma tigella de migas.

―E se de lá não houver ninguem?

O bésteiro, como unica resposta, voltou as costas, encolhendo os hombros; João Bispo, depois de curta reflexão, tomando a mão do seu companheiro, exclamou:

―Vámos ao açude!

O desbaste do arvoredo continuou com affinco, e uma hora passada, havia uma soffrivel clareira aberta, onde tinham já penetrado alguns homens d'armas. No campo inimigo, em frente, não se ouvia senão o ciciar da aragem. Um troço de bésteiros e populares, armados estes com toda a sorte de armas, desde o montante farpeado e o machado, a maça de puas, até ao chuço e mangoal, começaram a passar o pequeno rio pouco abaixo do mosteiro dos Hospitaleiros. Cem homens teriam tomado pé na outra margem, quando um sibilo se ouviu, e um virote se veio cravar em um velho roble, ao pé do qual João Ramalho dava ordens aos acontiados da cidade. Em seguida, a outro sibilo juntou-se um grito, o som da queda de um corpo na agua, e logo um alarido immenso. Bésteiros de pé e a cavallo, burguezes e mesteiraes, que se tinham lançado ao Leça, recuaram.

Do campo do arcebispo haviam notado o movimento da gente do Mestre, e o silencio guardado fôra alliciente para os chamar além. Cem homens estavam na outra margem prisioneiros, se o grosso da força não avançasse.

―Santiago! Santiago! gritaram os castelhanos; e a margem appareceu como por encanto coberta de frecheiros, e d'ahi a momentos o relinchar dos ginetes e o som das trombetas eccoava pelos valles.

―S. Jorge e Portugal! gritou João Ramalho, arrebatando a bandeira da cidade das mãos de um cavalleiro do municipio, e lançando-se ao rio. Ávante, filhos, ávante!

Um troço de mesteiraes lançou-se em seguida do caudilho popular; porém recuou de novo.

As folhas das arvores cahiam, como varejadas, e os troncos lascavam aqui e alli, que os bésteiros de Garcia Manrique faziam a sua obrigação.

―Assim deixaes os vossos nas mãos daquelles perros?! exclamou Nicolau Domingues, apontando para a outra margem onde havia um concerto de pragas, vivas e morras. Bésteiros! bésteiros, pela Virgem de Vandoma, ávante!

―Ávante! responderam alguns mesteiraes e acontiados, seguindo o exemplo de João Ramalho.

A lucta travada além do Leça era uma temeridade. O luar alto já, allumiava o necessario para o inimigo vêr o inimigo que tinha junto de si, para uma lucta quasi corpo a corpo; e os homens d'armas do arcebispo, avançando sobre o ponto invadido, iam dar cabo dos attrevidos portuenses; demais, os fundibularios e bésteiros d'aquem temiam ferir os seus, ao passo que os gallegos, prolongando-se de lado opposto pela margem, enviando tiros mesmo ao acaso, difficultavam a passagem. Martim Correia, o escrivão da chancellaria, Gonçalo Pires, e o filho do Mestre de Santiago, D. Pedro de Transtamara, com alguns escudeiros e um troço de cavalleria da cidade, forcejavam em vão por enfiar mais além a estreita ponte, ainda hoje existente naquellas paragens. O grosso dos homens d'armas e cavalleiros embaraçavam-se uns e outros, nos vallos, fraguedos e silvados, pelos sitios onde tinham acampado, alarmados pelo rebate extemporaneo.

No rio, se se ouvia o chapejar, era o de um ou outro burguez fugitivo; no bosque o estallar dos ramos, o rumorejar dos fetos não era só produzido pela queda de virotes; era tambem pela queda de homens. Nicolau Domingues gritava a bom gritar; mas a chusma da esquadra, vinda de reforço, não se resolvia a ir juntar-se aos acontiados do Porto, quando um sucesso inesperado deu um fim brilhante ao que até então não se podia dizer mais que uma imprudencia do pae de Irene, e da sua gente.

O mosteiro dos Hospitaleiros appareceu illuminado por uma luz avermelhada: nas ameias da egreja e das torres veria quem dellas se approximasse vultos negros correndo de um para outro lado açodados, e um alarido immenso se casava ao fragor do combate da margem.

Fernando Vasques e João Bispo tinham passado o açude e approximado, fazendo um rodeio, do acastellado mosteiro, pelo lado do norte, lado desguarnecido, e bastante custára ao namorado da filha do velho Humeia a suster o seu companheiro, que na effervescencia do seu amor, cheio de enthusiasmo, imbuido de mais na leitura dos livros de cavallerias, para conquistar renome se dispunha a commetter temeridades, que serviriam apenas para alarmar os castelhanos e arriscar a vida. João persuadiu-o a voltar á outra margem, a procurar reforço para uma ideada surpresa, e não tinham do lado de áquem dado muitos passos quando lhes chegou aos ouvidos um vozear confuso, e toparam com uma mulher, que, soluçando, com os olhos arrasados de lagrimas, conduzia pela mão uma creança, chorosa tambem. Guiados por essa mulher, a quem Fernando, condoido, perguntára a causa daquelle pranto, foram ter a um casal. As portas todas da casa estavam arrombadas: por uma sahia um grande clarão. Uma velha arca e outros trastes ardiam ao canto de uma adega, e á volta das pipas tripudiava um troço de bésteiros. O vinho derramado em uma grande celha de pau, e que, trasbordando, se esbanjava pelo chão, mostrava em que estado tinham as cabeças, e mais ainda o modo porque recebiam as admoestações de micer Guilherme: dançavam, tregeitavam, grunhiam e berravam em várias linguas e dialectos, chegando alguns dos que se mostravam menos firmes nas pernas ao nariz do nobre aventureiro uma escudella a trasbordar. Para bem da verdade deve-se dizer que o irlandez, pretendendo conter os seus patricios, os inglezes, escocezes, gascões e normandos, que, recrutados pelo chanceller em Londres, tinham vindo nas galés, deitava á escudella um olhar tão terno, que não era para delle esperar grande sanha contra os indisciplinados, nem grande vontade de se metter á agua.

João Bispo via no meio de gargalhadas e motejos desfazer-se o plano combinado com o sobrinho de Gonçalo Domingues, quando este se lembrou de notar aos nossos fieis alliados por palavras e gestos que o vinho dos cavalleiros de S. João devia de ser cousa muito superior ao de pobre lavrador. Um hurrah saudou Fernando, e, cambaleando, a turma tomou o caminho do açude, apesar dos protestos de Down-Patrick.

Vinte homens, se tanto, seguiam aos dous namorados: uma duzia de archeiros de Gilles de Montferrand e alguns subordinados de Tello Rabaldo, encontrados tambem na adega do casal: os demais, embriagados, tinham ficado pelo caminho, e uns dous ou tres afogados no Leça. Bésteiros e vádios penetraram na cerca com o maior silencio em quanto João e Fernando rodeavam um páteo junto da igreja, onde os do arcebispo tinham amontoada bagagem, carros e grande porção de escadas, com que ameaçavam um assalto á cidade. A sentinella, posta desse lado, dormia, cabeceando, encostada á lança, quando Fernando deitou mão de uma das escadas para a encostar ao muro. O pobre archeiro, extremunhado, abriu os olhos, esgaziados logo pelo terror, e a bocca para dar o signal de alarme; porém aquelles embaciaram, e desta sahiu apenas uma golphada de sangue; deu umas outras duas passadas, cambaleando, estendendo as mãos como a procurar appoio, e cahiu no chão soltando um som rouco e um assobio, como de homem que desperta de pezadello. O castelhano, não despertava; adormecia para sempre: aquelle estertor sahia pela garganta e feridas abertas no peito por João Bispo.

―S. Jorge e Portugal! exclamou o namorado de Irene, abraçando-se ás ameias do eirado, e arrancando a bandeira dos partidarios de D. Beatriz, que tremulava ao pé da vermelha dos cavalleiros. S. Jorge e Portugal!

―Estamos perdidos! resmungou João, ouvindo o grito do mancebo; e estropeando o nome do aventureiro irlandez, gritou: Micer D. Patrico! micer D. Patrico, por aqui! por aqui! A mim, bésteiros!

Nas torres ergueu-se um alarido immenso: alguns penedos cahiram do eirado no páteo, e uma nuvem de virotes sibilava nos ares. Ao chamamento de João apenas tinham acudido Pedro Choca e tres vádios. O sobrinho de Gonçalo Domingues, com a haste da bandeira defendia-se dos castelhanos, que, alarmados, mais tratavam de lançar a escada a terra do que de se desfazerem do temerario inimigo.

―Abaixo, Fernando, abaixo! gritou João; e no alto das torres appareceram algumas luzes.

―Viva o Mestre de Aviz! gritou o mancebo quasi ao mesmo tempo que lhe fugia a escada debaixo dos pés, deixando-o suspenso das ameias e estribado em uma enorme salamandra de granito, que servia de goteira ao eirado.

―Ahi vem ginetes, disse Pedro Choca, fazendo um esgar. Recommendemos a alma a Deus!

―Se elle t'a quizer! redarguiu um dos vádios soprando a uns tições alli deixados em rescaldo, que embrulhára em uma pouca de palha.

―Fernando! exclamou João Bispo, encostando outra escada ao muro, apesar dos arremessos; afferra-te, Fernando, que eu sou comtigo.

―S. Jorge! S. Jorge! se ouviu do outro lado do mosteiro em altas vozes.

―A mim, bésteiros, a mim! tornou João Bispo, em quanto o seu amigo se defendia na goteira, procurando saltar no eirado.

―Hurrah! S. Jorge!

―Malditos! aquelles odres onde estarão! Micer D. Patrico!

―Arriba, João, arriba! accudiram os vádios, marinhando pela escada, que de novo tinham erguido. Aquelle endemoninhado cachopo vai morrer!

Uma grande lavareda, de repente, illuminou a lucta travada entre Fernando Vasques, os seus companheiros e alguns homens d'armas do eirado. Pedro Choca tinha lançado fogo a uns carros de palha, e este ateava-se aos enormes pavezes de vime, proprios para assalto, amontoados entre as escadas e bagagens. Era uma fogueira soberba que dentro em pouco faria estalar o travejamento dos aposentos de D. Mafalda, ao mesmo tempo que os castelhanos abandonavam o eirado da egreja.

―Os do Mestre! os do Mestre! se ouvia por todos os lados; e nas torres, besteiros e fundibularios perdiam os seus tiros.

―Hurrah! continuavam, já roucos, a berrar, do outro lado da cerca, os inglezes.

―S. Jorge e Portugal! gritaram algumas vozes, com boa clara, pronuncia portugueza, do lado do rio, apparecendo por entre os castanheiros, retirando os homens d'armas de Garcia Manrique.

―Ter! gritou um dos seus caudilhos, ameaçando com o estoque os mais medrosos; ter, rapazes! Não se diga que retiramos diante de meia duzia de villões!

―Ter, ter! exclamou o guerreiro arcebispo, apparecendo no meio dos fugitivos.

―Os do Mestre estão no bailiado! disse uma voz d'entre a multidão. Vêde, o mosteiro está a arder, e foi derribada a bandeira!

―Por Sanctiago! tornou o arcebispo para os seus companheiros, espantado da audacia dos portuenses, embrulhados já com os gallegos, e suppondo-se cortado por forças immensas; estes excommungados estão decididos a morrer, e trazem comsigo o poder do mundo. A caminho de Braga, senhores! Temos tempo sobejo para desforra.

―Covarde! resmungou João Rodrigues Portocarreiro, esporeando o seu ginete para se lançar sobre os do Mestre. Covarde! repetiu; e o fogoso animal, ferido nos peitos por um virotão, ergueu-se com as mãos no ar, e cahiu, arrojando com ruido o portuguez rebelde a alguns passos de distancia, abollando-lhe a armadura e o capacete e fracturando-lhe o craneo.

―Covarde! repetiu tambem o arcebispo com um sorriso de mofa, voltando-se para um dos seus capitães, e designando o fidalgo portuguez: temeridades não aproveitam.

A ponte tinha sido forçada ao mesmo tempo quasi, e a cavallaria de D. Pedro de Transtamara cortava já pelo meio dos gallegos, atterrados.

―A caminho de Braga! tornou a gritar o arcebispo D. João, que, lançando-se na estrada partiu, a galope, seguido de grande porção de cavalleiros, e pouco depois de todo o exercito, deixando os apprestes d'assalto, viveres e bagagens nas mãos dos burguezes do Porto.

―Senhor conde, senhor conde, aqui está a bandeira de Castella, exclamava momentos depois, attravessando no meio de vivas por entre as hostes do Mestre, o sobrinho de Gonçalo Domingues, com as mãos cheias de sangue, de feridas do corpo e da cabeça, mas tão contente, que nada lhe doia naquelle instante, e, em vez do perigo corrido, se recordava tão sómente de Irene, alegrava-se por saber que o seu nome lhe havia de chegar aos ouvidos na historia daquelle recontro.

Era um heroe feito pelo amor .............................................................

O mosteiro dos Hospitalarios tinha sido abandonado, mal o incendio mostrou aos seus guardas as hostes portuenses além já do Leça, abatida a bandeira e em fuga Garcia Manrique. No entanto, ainda do lado da cerca, sol já nascido, as mesmas vozes roucas gritavam:

―Hurrah! S. Jorge!

―Onde demonio estarão estes bargantes? perguntou o namorado de Garifa, procurando o sitio donde sahia aquelle vozear.

Uma gargalhada estrondosa se seguia, pouco depois, á pergunta. Os besteiros encontrados no casal, não se esqueceram, chegados ao mosteiro dos cavalleiros de S. João, que vinham para humedecer a garganta com bom vinho, e foi a adega a primeira cousa que procuraram. Era de lá que tinham, com os seus hurrahs, ajudado a alarmar os gallegos.

Desta vez micer Guilherme Down-Patrick não resistira á tentação.

VIII.

Torneio.

E elles no Porto por ledice de sua vinda ordenarão hum torneo vespora de S. Iohão, que era em que os moradores daquella cidade costumavam fazer gram festa.

(fernão lopes. Chronic.)

Por uma tarde de mez de Junho, pouco mais de uma hora seria, caminhavam em direcção ás Hortas, no meio de extraordinario concurso, mestre Gonçalo Domingues e Fernando Vasques. O feito de Leça, tornando um heroe, entre os patriotas da terra, o moço namorado, os gabos por elle publicamente recebidos de Martim Correa e do conde D. Pedro, a ovação feita pelos populares, que em charola, o conduziram, quando perdidas as forças, pelo sangue derramado, cahira ao voltar do recontro; tudo fizera passar por alto ao bom tio a fuga da loja. O velho abraçou-o enthusiasmado tambem, com o riso nos labios e ao mesmo tempo umas duas lagrimas nos olhos e só se lembrou de fazer algumas reflexões sobre as imprudencias da mocidade, quando em casa notou a necessidade de chamar um medico, ou physico, como então se dizia.

Gonçalo Domingues tinha, como muita gente, na cabeça uma boa dóse de ideas em opposição com as inspirações e sentimentos do coração, sobretudo a respeito de seu sobrinho. Se dissessemos que queria ao mancebo tanto como ás suas dobras, diriamos que lhe tinha affeição de pae; porém, ia mais longe o velho: queria-lhe mais; pois bom dinheiro sem dó com elle tinha dispendido. E comtudo dava-se de vez em quando a perros por causa de certas travessuras e inclinações do filho de seu irmão, sobre as quaes fazia observações muito sisudas, cheias de um positivismo tal, que obrigava a dizer aos que o ouviam que elle era um homem de grande tino e prudencia. Reflexões e ralhos, terminavam quasi sempre por aquelle sorriso que lhe viram os leitores quando elle voltava de Miragaya.

Fernando vinha ainda alguma cousa pállido, debilitado, ao que no corpo mostrava; porém nos olhos havia um fogo extraordinario, uma alegria pintada em todo o semblante, e nos movimentos uma força, uma rapidez, que não parecia de quem entrára pouco havia em convalescença. O tio bem lhe dizia que moderasse o passo, pois lhe fazia mal aquella violencia, e elle mesmo a custo o poderia seguir sem correr; mas o mancebo, se o affrouxava, era por instantes.

O sol, ainda quasi a prumo, podendo, dardejar os raios por entre as esguias e altas edificações das estreitas ruas, que percorriam, rarefazia o ar, appresentando nos terreiros á vista a illusão de um como doudejar de átomos no ambiente, um tremor que fere os olhos; porém Fernando nada sentia. Ia vêr Irene, Irene que não vira desde o esboroamento fatal do muro; Irene, que João Ramalho, em vesperas de se fazer de véla para a Figueira, d'onde seguiria para Lisboa, recolhera ao castello de Gaya, recommendando-a a D. Catharina. A nobre senhora era bastante astuciosa para não affagar em quanto fosse conveniente um homem popular como o piloto mercador, e fallando elle em metter a joven em um convento, em quanto ia servir o Mestre, para a guardar dos riscos a que a idade a expunha, se offerecera para a tomar como donzella sua «e tel-a como filha» palavras della. D. Catharina devia ir ao campo das Hortas nessa tarde, e por João Bispo soubera o mancebo que á sua namorada fôra concedida a honra de formar parte do seu cortejo. Em logar do sol que fazia, podia queimar o dos tropicos, que o mancebo o sentiria tanto como a aragem fagueira por sesta do outomno, ou a gellos de hinverno.

O recontro de Leça deixára desassombrada a cidade, e os bons burguezes entregaram-se todos aos cuidados de aprestar as embarcações e mais soccorros pedidos pelo Mestre de Aviz, posto em apuros pelo aperto do sitio e bloqueio. Em quanto o abbade de Paço de Sousa se dirigia a Coimbra, transtornada, como vimos, a embaixada do alcaide de Monsaraz, as galés vindas de Lisboa e outras do Porto, já prestes, para não perderem tempo tinham-se feito de véla pela costa da Galliza, capitaneadas pelo conde D. Pedro, lançando contribuições aos povos que não queriam experimentar o nosso ferro. Destruido completamente o Ferrol e queimadas algumas naus, pelos fins de Junho de novo a frota appareceu nas aguas do Douro, rebocando umas sete presas, e carregada de despojos.

Os sinos de todas as torres da cidade balouçaram-se, atroando os ares; berrou-se em todas as escalas os vivas do costume, e os edis, no fogo do enthusiasmo, decretaram uma festa esplendida, como appensa á de S. João, santo sempre popular e mais nessa quadra, por ser o do nome do Mestre, que o povo tinha por um Messias, como diziam os partidarios de D. Beatriz. A vespera da commemoração do nascimento do Baptista, morto por ter desdenhado da dança, devia ser celebrada com danças, guinolas, touras, momos e por um vistoso torneio, que tinha de ser o assombro da terra, pouco affeita a tão graúdos folguedos.

Desde o amanhecer do dia 23 o campo das Hortas estava cheio de gente embasbacada para o tablado levantado na vespera, que alguns operarios cobriam com tapeçarias, em quanto outros davam a ultima demão ao circo, ou estacada, adornando-a com bandeiras, panoplias e festões de ramagem.

Aos gritos e cantigas dos trabalhadores, aos commentos dos curiosos, ás risadas pouco e pouco se juntavam os pregões das vendilhonas de fructa, dos taberneiros, fritadeiras e padeiras, que assentavam as suas mezas, as suas tendas, ou os carros enramados por todos os lados, que o circo deixava devolutos, e pouco antes do meio-dia era já difficil mover-se no campo, apinhando-se além disso um gentio immenso nos adarves e torres da cidade, por aquelle lado, e na encosta dos dous montes do Olival e Batalha. Se até ahi os bons burguezes tinham aberto a bocca para as tapeçarias onde a agulha ou a lançadeira traçara os episodios dos contos de cavallerias, mostrando o rei Arthur, Amadis, Lisuarte, Galaor, a duqueza Iguerna, Mabilia, Oriana, Urganda, Brisena e outras muitas personagens, que para maior illucidação dos seus feitos e ditos tinham a sahir pela bocca o texto da «illustração»; se ficavam embellesados nos grandes pannos de ouro, trazidos da cathedral para enfeitar o esperavel do estrado das damas, nos estandartes, onde havia divisas de toda a sorte, bordadas ou pintadas, mais pasmaram quando começaram a apparecer os mantenedores das justas, os improvisados arautos, mestres e juizes de campo, passavantes, sergentes, menestreis e trovadores, que para a festa tinham sido igualmente apenadas as musas.

O Porto, behetria havia muito, entregue todo ao commercio, quando não se divertia a jogar as cristas com os seus bispos e a pugnar pelas suas liberdades, o Porto tinha visto passar os cortejos de alguns reis e principes; mas de fugida, meios envergonhados, como o de D. Fernando, ou em som de guerra, e em devota romagem e peregrinação: cortejo assim, festa egual nunca se déra, pois nunca, como então, se reuniram de muros a dentro tantos e taes elementos: tinha uma côrte de seu. Os mesteiraes e os burguezes nesse dia, tão enlevados estavam nas louçanias que se desenrolavam, que abriam caminho com a melhor vontade aos cavalleiros, e alguns mesmo suspiravam por que fosse levantado o interdicto a quem com tanto garbo soffreava um ginete, vestia tão airosamente, e fazia tão acabadas mesuras.

Tinham as corporações apparecido com as suas bandeiras, precedidas pelas figuras que davam para abrilhantar o acto, como na procissão de Corpus: tinham-se reunido, amontoado os trajes mais variados, desde as vestes negras, compridas dos juizes, alvazires e meirinhos, as jorneas partidas, de panno bristol, de seda e velludo, os briaes blasonados, as marlotas dos mouros dançarinos, as olandilhas, as opas dos foliões e jograes, os arnezes polidos, espelhando o sol, adamascados ou tingidos de vivas cores, os vestidos de brocado, de panno de ouro e prata, os arminhos e zibelinas das damas e donzellas, a almafega e o burel de certos momos; casavam-se os preludios de todos os instrumentos; o arrabil e o tiorba, a charamela e o clarim, o tambor e o pandeiro, estrugiam, chiavam, rangiam; mas tudo aquillo dava vida e animação, afinava, no meio da sua desafinação, permitta-se dizer, com o ressalte das côres, que como em brazão pareciam postas, com os alaridos, as risadas e os vivas, quando Fernando penetrou no palanque, onde seu tio, como notabilidade da terra, conseguira bom logar.

O mancebo, mal entrou, estendeu a cabeça, a procurar com a vista não os arautos improvisados, que se pavoneavam de ambos os lados da liça, vistosamente trajados de branco e azul, com as armas da cidade bordadas no peito, nem os mestres de campo, montados já em bem ajaesados corceis, e correndo de um para o outro lado: foi para o estrado ou cadafalso das damas. Estava porém cerrada a cortina, e, que não estivesse, no palanque era tal o reboliço, tanta gente estava de pé, que não seria facil descobrir lá alguem, a não estar em logar eminente. Mestre Gonçalo Domingues, parte por natural

curiosidade

, parte por desejo de ostentar perante os visinhos, como os paes costumam, quando se embellesam nas prendas dos filhos, inquiria a significação de todas aquellas tapeçarias, e amofinava-se por ver que o sobrinho mal lhe prestava attenção, respondendo de tal sorte, que facil era ver que nem sequer olhava para o sitio indicado.

De repente notou-se um marulhar de cabeças, e á algazarra succedeu o silencio. Os alvazires appareceram no estrado para elles preparado, e em outro, contiguo ao das damas, os juizes do campo―Ruy Pereira e Ayres Gonçalves de Figueiredo.

As trombetas soaram; alvazires e juizes tomaram assento, e depois de feitas as costumadas ceremonias, um dos trovadores ergueu-se, desenrolou um pergaminho cheio de illuminuras, e começou em voz alta a recitar o seu poema, que era nada menos que um elogio aos guerreiros da espedição maritima. A poesia nessa epocha era tida em grande conta, e as attenções, por tanto, da assemblea voltaram-se todas para o bardo. Uma cabeça, uma só se volvia attenta para outro lado, e esta cabeça era a de Fernando.

A cortina de cadafalso das damas fora corrida por dous pagens, e D. Catharina e mais umas oito damas da nobresa das visinhanças da cidade tinham apparecido rodeadas pelas suas donzellas.

Os trovadores podiam dizer bocados de ouro sobre façanhas militares, que as palavras eccoavam como sons vagos aos ouvidos do namorado moço; os versos de amores, esses, como se affinados pelo sentimento que o dominava, ligados por uma corrente magnetica, faziam-no sorrir e córar, sem comtudo desviar os olhos do estrado.

Depois que as palmas de todos os lados, e as trombetas soaram, quando o vencedor proclamado, appresentando o seu manuscripto a Gonçalo Pires, escrivão da chancellaria, com uma corôa de louros, recebeu em soberba bandeja um bonito sacco de argempel, rico pelo bordado, e mais ainda pelas boas dobras que o pejavam, premio votado pela municipalidade, segundo antigas usanças, appareceu no meio da liça o mantenedor das justas.

D. Pedro de Transtamara vinha, sobre garrido, aprimorado, formoso.

Bem fraca figura fazem hoje nas nossas festas e folguedos, com a esguia casaca preta e a gravata branca de rigor, os alindados do seculo XIX á vista da que faziam os nossos avós. Para o namorado de hoje em dia no baile não ha meio de se distinguir, de lisongear o amor da sua dama, como então nos torneios, nos jogos de cannas e argolas, nos bafurdios e cavalgadas; não apparecem hoje os vistosos trajes de seda, ouro e prata, as mangas bordadas, de honra, as charpas ou bandas, nas quaes em cores preferidas pela donzella querida se via a tenção ou divisa, que recordava a ambos um protesto, uma confidencia, ou descobria um pensamento. O amor tinha, sobretudo no cavalheiresco seculo a que transportamos o leitor, um culto, que hoje não tem, hoje em que arrancaram a aljava a Eros, o facho ao Hymeneo, e a ambos deram por distinctivo um saquitel de lona, como a imagem globulosa de bemfeitor de confraria. (Entre parenthesis, faço aqui excepção dos meus leitores: os que são casados, o são por amor, e os solteiros e as solteiras ainda não deram um sorriso, um olhar a dote algum de boa somma, simplesmente pelo dote e nada mais. São a nata das creaturas.)

O conde D. Pedro vestia sobre ricas armas de Toledo cheias de relevos, esmaltes e

embutidos

, um brial côr de cereja, onde, em vez do brasão proprio, havia bordadas chammas de ouro, e no escudo, esmaltado da mesma côr rubra, e taxeado de ouro, lia-se a palavra «

Cuydado

» entre duas palmas, que enramavam um sol feito de espadas. Um malicioso notou que o desenho do escudo podia figurar a roda de navalhas de Santa Catharina, e que a esposa de Ayres Gonçalves trajava um corpete de tela, da côr favorita do mantenedor do torneio, adornado com um peitilho e fraldilhas de arminho; todos poderiam notar egualmente que, quando, ao fazer caracolar o seu ginete, o conde deu uma volta á roda do circo, antes de tomar das mãos do escudeiro que o seguia o elmo, a lança e o escudo, entre elle e a nobre castellã se cruzára um olhar expressivo; porém, o governador de Gaya mostrava-lhe um sorriso de agrado, e eram tão sabidos os recentes amores, que o tinham feito abandonar a côrte de seu tio, que a maledicencia achava-se um pouco embaraçada nos vôos.

O mantenedor do campo foi saudado com tanto enthusiasmo ou mais que o trovador, e da mesma sorte foram acolhidos, em seguida, os contendedores, que se appresentaram: Vasco Martins de Mello, Gil Esteves, Affonso Darga, Henrique Fafes, um dos irmãos Alvalade, micer Manoel Pessanha, Affonso Henriques de Transtamara, e outros mancebos, todos tão adornados e vistosos, que á multidão iam-se-lhe os olhos nelles, não sabendo a qual dar primazia. Depois das ceremonias do costume e de um bafurdio, jogo em que cada um mostrava a destreza no arremesso das lanças, diversão tomada dos arabes, começou o combate. Vasco Martins, Henrique Fafes e Alvalade perderam a sella, não supportando o embate das lanças; micer Manoel, como mais affeito ao mar que á terra, ao dar a volta em um dos extremos da liça, para arremetter contra o seu antagonista, o fez de sorte, que, roçando pela barreira com o cavallo, o arremessou este para o outro lado, deixando-o menos maltractado que a uns dous burguezes, que lhe amacearam a queda com o corpo.

As damas debruçavam-se curiosas na balaustrada do cadafalso, e mais curiosas do que as damas as donzellas de honra e as burguesas, para quem tudo aquillo era inteiramente novo e de fortes impressões, como hoje se diria. D. Catharina de Figueiredo, entre as do seu sexo, era a excepção, como Fernando entre os homens. Alguma cousa lhe prendia a attenção, e essa cousa ficava perto da bancada onde estava o mancebo. Seguindo a direcção dos olhares frequentes da bella dama, encontrar-se-hiam as vistas do sobrinho do forçureiro, e ao primeiro relance dir-se-hia que se provocavam e comprehendiam. D. Catharina notara Fernando; notara nos olhos os reflexos do incendio ateado no coração, e illudira-se, como se poderia illudir muita gente. Extranhar a audacia a principio, podia-a extranhar; porém, mulher, havia de achar-lhe indulgencia, por virtuosa que fosse. Não o era. De sangue ardente, fogosa por temperamento pertencera, demais, á corte de Leonor Telles; era uma das damas com que a astuta rainha jogara, para formar partido, cativar a benevolencia dos cavalleiros a principio um pouco do parecer do povo que apedrejara os paços de apar S. Martinho, e não desdissera depois da escóla em que se criara. Nos seus galanteios não encontrara nunca um olhar de adoração como o que interceptava; Fernando Vasques fizera-lhe mesmo uma impressão mais que extraordinaria: fizera-lhe não só, alli, esquecer o conde; mas, depois, ainda mais, a distancia em que estava ella, dama de alta linhagem, de um simples burguez, um peão.

A illustre dama não contava com Irene, que se occultava, córando, atraz da poltrona em que se sentava: o filho do mestre de Santiago não contava tambem com o sobrinho de Gonçalo Domingues; mas via claramente que as côres e divisas que tomara podiam ser taxadas de vaidade, presumpção e nada mais.

Quando um novo contendor entrou na liça, estava tão preoccupado o nobre mantenedor, a procurar quem lhe podia roubar completamente as attenções, que não reparou que era esse o mais destro de todos, affeito aos jogos dos arabes de Granada, a medir-se com os cavalleiros da Africa ao serviço dos Alhamarides; que era seu proprio irmão, Affonso Henriques. O moço castelhano, passando junto do conde guiou tão destramente o cavallo, que lhe roçou pelas joelheiras, e dando um geito á lança, na carreira, desviou completamente a do seu antagonista e tocou com a sua no escudo de tal sorte, que o braço que o segurava, estendeu-se; a mão abriu-se e aquella arma defensiva foi ao chão. D. Pedro, ao ouvir os applausos levantados a seu irmão, e com a cabeça perdida pela distracção da sua dama, ergueu-se furioso nos estribos e arremetteu contra elle. A sua lança desfez-se desta vez em hastilhas no arnez do mancebo; porém este não saltou da sella, e em poucos instantes estava outra vez em frente do conde. A lucta tornou-se então um verdadeiro duello, e as regras do cartel apresentado no principio, consentindo tudo que fosse destresa, e mandando parar ao primeiro ferimento ou queda, pois que não era justo que grande mágoa enlutasse tão grande festejo, foram despresadas. O conde tinha sido desappontado nos seus galanteios como homem, e nos seus brios como cavalleiro. Ás lanças succedeu a espada; e as espadas como a lança quebraram, amolgando os elmos, disjuntando e torcendo peças dos braçaes. Tomaram um a maça, outro o machado, e furiosos correram um para outro.

O tio de Nuno Alvares Pereira e Ayres Gonçalves de Figueiredo, estavam tomados de assombro para intervirem na lacta; os mestres de campo, que a principio haviam tentado manter com os arautos as condições do cartel, tinham-se, embaraçados, por noviços, retirado para junto das bancadas, e olhavam uns para os outros e para os juizes, procurando conselho, que não viam nos olhos de ninguem. Os espectadores, homens e mulheres, esses applaudiam os epysodios da lucta.

A massa ressoou na armadura de Affonso Henriques, e a um rugido, um regougo seguiu-se um fio de sangue a correr por entre as fendas do gorjal sobre o arnez. Os contendores tinham-se esquecido de que eram irmãos. D. Pedro, sobretudo, estava cego. O brial do conde fez-se em farrapos, enrodilhado pela machadinha; o ginete em que montava D. Affonso, ferido na cabeça, apesar de acobertado de ferro, cahiu na arena levando o cavalleiro. Os gritos da multidão, como nos circos romanos, eccoaram pelos montes visinhos.

―A pé, a pé! gritaram alguns cavalleiros enthusiasmados, exigindo a egualdade de combate.

Não foi preciso repetir a exigencia: ou melhor fôra ella escusada: o conde de Transtamara lançara-se abaixo do cavallo, e corria direito para o irmão, que, já erguido, com o machado no ar o esperava.

―Cavalleiros, cavalleiros! exclamou Ruy Pereira ao mesmo tempo que Ayres Gonçalves, querendo sustar o combate.

Os passavantes e o mestre de campo correram para a arena, porém quando chegaram junto dos irmãos, um delles, D. Pedro, soltáva um grito doloroso, e cahia com todo o peso do corpo, fazendo ranger e estallar todas as peças da armadura.

O guante de ferro que lhe guarnecia a mão direita estava despedaçado, e despedaçado o pulso. O sangue tingiu a areia da liça.

―Jesus! se ouviu do lado das damas e depois uma borborinha correu pela assemblea; pois a queda do sobrinho do rei de Castella, tomada como o baquear extremo, produzira no povo uma impressão desagradavel.

Aquelle rumor e assombro fizeram cahir em si Affonso Henriques.

Os momos que se seguiram ao torneio foram sem interesse para os espectadores entretidos a commentar o combate extraordinario dos dous nobres castelhanos. Se recrearam alguem foi a Fernando Vasques e a Irene, e pela duração; não por outra cousa.

D. Catharina não havia tambem despregado os olhos do mancebo. Ao cavalleiro que a invocára no torneio, se concedera um olhar, fôra de curiosidade. Quando este tornára a si do desmaio em que a dôr e o sangue perdido o haviam feito cahir, passando junto delle, ao entrar para as andas em que viera de Gaya, teve algumas palavras; mas ainda, se não dirigidas, allusivas ao sobrinho de Gonçalo Domingues, que tratára de seguir Irene, apesar das exclamações do velho forçureiro, pouco amigo de se metter em apertos, lembrado do desembarque de Ruy Pereira.

―Bello pagem se fizera daquelle mancebo... se fôra de linhagem! Não é certo, micer Guilherme? disse ella.

―Bello pagem! disse o irlandez, que de certo devia ter achado a festa menos divertida que o recontro de Leça, e sem mesmo olhar para o joven que D. Catharina designava com a vista.

Fernando, perto da linda filha de João Ramalho, mais formosa agora e esbelta com as galas que lhe consentira a castellã, embellecido o rosto pelo amor; Fernando não ousára erguer os olhos, e sustentára assim a illusão para a antiga donzella de Leonor Telles, que repetio:

―Bello pagem!

IX.

Garifa.

Cade in tanto dolor, che si dispone Allora allora di voler morire......

Ariosto―Orland. fur. cant. V.

Maravilhou a todos o spectaculo Inesperado... Que será? disse emfim um rumor surdo De vozes dos que tremulos pararam...

Garrett―D. Branca―cant. I.

―Para longe o agouro! Ora esta! dizia, horas depois do torneio, em Gaya, junto da fonte do rei Ramiro, a mulher de um galeote.

―Pois que é, tia Dordia? interrogava outra.

―Que ha de ser? Vindo ás vozes do lado do monte, ouvi fallar em affogado, e bem sabe que o meu Manoel anda por esses mares!

―Para longe o agouro, repetiu a outra mulher. Isto de agouros nem sempre são certos. Fé em Deus, que elle fará as cousas pelo melhor.

―Fé em Deus tenho eu; mas bem mau é que em noite de S. João se ouçam cousas destas! A velha Mafalda, o anno passado, ouviu, ao passar ao arco de S. Domingos, fallar em um justiçado, e bem sabe o que aconteceu ao filho.

―São signaes que cada um traz ao nascer. Mas ainda não é meia-noite, proseguiu a mulher, querendo consolar a senhora Dordia da crença ainda hoje existente junto da foz do Douro, de que, quando, vespera de S. João, ao cahir da meia-noite, se procura um prognostico, ou noticias da sorte de pessoa ausente, as dão as primeiras palavras de qualquer conversa.

―Deus a ouça, visinha... Deus a ouça; mas parece-me que já será: o sete-estrello vai alto!

―Não é, não. Ólá, João Canhoto, meia-noite será?

―Não é, tia Luiza. Quer ir saltar as fogueiras?

―Eu não: forças para tal Deus as déra. O meu tempo já passou. Quando rapariga!...

―Então deitou ovo em escudella?

―Para que?

―A vêr se lhe sahe arco de egreja, respondeu o homem, que dava pelo nome de João Canhoto, rindo.

―A mim agora só se me sahir tumba. Isso é bom para cachopas.

―Vamos, vamos, tia Luiza; ainda está féra, rija como um virote, e um noivo agora era mel pelos beiços.

―Seu bargante! exclamou a velha, mostrando no rosto que a mofa do galeote não era inteiramente recebida como tal.

―Então, ainda não é meia-noite? tornou a perguntar a senhora Dordia, bastante impressionada pelo agouro tomado, para delle tirar o sentido, não obstante os gracejos dirigidos pelo galeote á sua amiga.

―Qual meia-noite! Ao cantar do gallo toda a chusma, que anda por ahi, ha de vir em descante. É uma festa de estrondo cá da gente. Verá se lá os da cidade nos levam as lampas! Só violas é uma meia duzia, e os rapazes que as tangem são mestres acabados. É de se abrir a bocca. E o Safio? Se ha por ahi quem saiba deitar uma cantiga como elle, que eu beba agua toda a minha vida! O Safio vem no rancho.

―Então, temos grande descante? interrogou uma outra mulher.

―É esperar para ver.

―O sitio não é lá dos melhores.

―Dizem que por aqui...

―O que?

―Que em noite de S. João apparece na fonte uma moura encantada... Ora uma moura de não sei que rei...

―Bôa, bôa! exclamou o galeote. As mouras não se vem metter assim com um homem do mar, por mais tresloucadas que andem. Se ella quizesse bailar na festa...

―Credo! Não diga isso, que o póde ella ouvir! exclamaram duas ou tres mulheres ao mesmo tempo.

―Ai, senhor João, bem se vê que não é da terra, e não sabe que é certo o apparecer ás vezes ahi a maldicta. Minha avó, que Deus haja, quando era rapariga, viu-a, disse a tia Luiza.

―E vi-a eu, vai em tres annos, com estes que a terra ha de comer, accudiu a tia Dordia.

―E eu, disse outra.

―E eu, exclamaram em seguida mais cinco ou seis.

―Então, como é a moura?

―Ora como ha de ser a moura? É uma figura branca, toda branca, muito branca, com os cabelos, nem fios de ouro, soltos pelas costas; e apparece a bailar na agua de um para o outro lado...

―Hoje quebra-se-lhe o encanto, atalhou o galeote, que era para o seu tempo um grande incredulo ouvindo um desfinar de instrumentos do lado da povoação.

―Alli vem a festa! Lenha para ahi! exclamou em seguida, dirigindo-se a um rancho de creanças de ambos os sexos, que saltavam por cima do brazido deixado pela fogueira.

A festa annunciada não tardou com effeito a apparecer. Uma grande porção de galeotes, petintaes e espadeleiros de Gaya e Villa Nova arranhavam em violas, tocavam tamboril, ou cantavam, fazendo coro, a canção entoada por um rapaz alto e de ar jovial, que era nem mais nem menos o Safio apregoado por João Canhoto. Para se dizer toda a verdade, deve-se accrescentar que a desafinação dos instrumentos não destoava das vozes, um pouco roucas, como as de todos os embarcadiços, e demais ressentindo-se de brodio feito em tasca.

Uma voz cantava:

Em noite de S. João Até no mar traiçoeiro Accendem anjos ou fadas Em cada vaga um luzeiro. E, velas de seda ao vento, Passa a galé encantada; Remos de ouro batem n'agua Ao som de branda toada. No ceo bailam as estrellas Bailam as mouras nas fontes... ...........................................

―Jesus! exclamou uma mulher, pallida, com os olhos espantados, lançando-se a tremer no meio da festa.

As violas calaram-se, o cantor, que desta vez dizia versos, que não eram de sua lavra; os coros, que repetiam no fim de cada estrophe um estribilho maritimo, calaram-se tambem; os rostos tornaram-se de finados, como se tornara o da mulher. Esta, com o braço estendido, designava a fonte de D. Ramiro.

Se vós, leitora, que talvez por mais de uma vez apregoastes que não credes em muita cousa natural, quanto mais nas que o não são, visseis o que Safio e os festeiros de Gaya estavam vendo, a côr do rosto vos fugira, como a elles lhes fugiu, e talvez, como a vossa organisação não é a de qualquer petintal, um desmaio vos tirasse de sustos.

A lua no extremo da sua carreira, redonda, mergulhava no mar, marcando nas aguas uma esteira tremula, de um brilho duvidoso. O disco, meio embaciado pelos vapores do occeano, podia servir para uma imagem funebre: dir-se-hia que era o espectro do sol. Na outra margem, para o lado da cidade, por entre fogos vermelhos, appareciam e desappareciam figuras negras, como possuidas de uma vertigem, de frenesi, e a aragem trazia nas azas humidas pelo orvalho, um concerto de rizadas em todas as notas possiveis da escala, e uma discordancia de instrumentos, como em ronda de feiticeiras. O rosto tornava-o negro uma immensa fogueira feita na praia. Os reflexos da luz davam ao rosto dos marinheiros de Gaya, tomados de assombro, um todo phantastico, assustador. Toda esta scena momentos antes era alegre. Uma só cousa bastára para a transtornar. Entre o fundo escuro em que se mergulhava a margem opposta, em consequencia da fogueira que fizera avivar João Canhoto, e o lanço do rio tocado pelos derradeiros raios da lua, junto da fonte, á beira da agua, via-se uma figura branca, indefinida em tudo que não era o contorno, movel, conforme as oscillações e intensidade dos fogos, accesos que parecia, mais do que a pousar na terra, suspensa do ar, baloiçada por fio invisivel.

Aquella apparição, como transtornára o aspecto da scena, como déra aos cantos e aos risos um tom sobrenatural, tornára immoveis quasi os collegas de Safio. Se não fosse o movimento que faziam para se aconchegar uns aos outros, dir-se-hia que ella os havia petrificado. O suor innundara-lhes a fronte, e o frio corria-lhes pela espinha dorsal.

A campa do convento de Corpus-Christi dobrou compassada marcando a meia-noite, e ao mesmo tempo quasi uma nota plangente vibrou no ar. Marinheiros, que tinham affrontado a tempestade com

o coração

sereno, que nas galés reaes ouviram

sibilar os pelouros

, sentiram perto do craneo o embate do machado no machado tremeram como as folhas dos alamos. Das mulheres nem fallamos. Todas as orações, todas as fórmas de esconjuros se lhes embaralhavam na memoria, e os lábios negavam-se a pronuncial-as.

―Meia-noite, tartamudeou João Canhoto, momentos antes emprazador de phantasmas, e fazendo ao soar a ultima badalada o signal da cruz ás avessas.

―Valham-me os santos e santas do céu!

―Jesus! bento nome de Jesus!

O silencio que estas exclamações interrompiam era tal que se ouvia o respirar não muito desembaraçado daquella boa gente, e o terror tambem era tamanho, que as passadas e mesmo a apparição de um homem junto do rancho dos festeiros não foi por elles notada. Daquelle pasmo pasmou o recem-chegado, mas não por muito tempo.

―Ui, Canhoto, exclamou elle; que mau olhado vos deu, e em toda essa gente, que tendes cara de quem viu o trêpo em encruzilhada?!

―Jesus! bento nome de Jesus! repetiram as mulheres, deitando a correr para o lado da povoação, como se a presença daquelle homem quebrára o encanto de terror em que estavam.

―Ui! tornou elle, que demonio se lhes metteu no corpo?! Nem bando de cotovias que farejaram besta armada. Eh! Canhoto, que feio esgar que estás a fazer! Estás mudo, homem? Aquelles pergaminhos velhos de saias que fugiram a grasnar eram bruxas? Em noite de S. João...

João Bispo, pois era o nosso conhecido o recem-chegado calou-se, e recuou espantado, fitando um gesto dos galeotes de Gaya a apparição phantastica que os atemorisára, e quasi ao mesmo tempo dous gritos se confundiram com o baque de um corpo no rio. O phantasma branco, a moura encantada durante a enfiada de perguntas de João Bispo, approximara-se da margem do Douro, erguera os braços ao céo, como em supplica, e precipitara-se na corrente. Durante este movimento o bésteiro reconhecera naquelle vulto um ente querido, e ao grito, soltado como em adeus extremo ao mundo, juntara-se outro de angustia tambem. O pasmo produzido pelo reconhecimento feito em taes circumstancias não foi longo, porém; ao baque na agua do corpo da moura seguiu-se outro, o do bésteiro.

―João! João! exclamaram alguns galeotes perplexos; sem saber como traduzir na sua intelligencia o passo do condiscipulo de Fernando.

João não ouviu sequer aquelles gritos.

―A moura saltou ao rio! disse um espadeleiro, que se attrevera a procurar com a vista a causa do terror geral.

―Foi para casa de

Brazabu

! redarguiram dous ou tres, tomando de um folego o ar necessario para cem homens, e limpando com as costas da mão o suor frio que lhe banhava o rosto.

―João! João! tornaram os que mais perto estavam da praia.

―Arrastou-o a maldita. Não viram os olhos que ella deitava. Eram dous luzeiros.

―Guay delle! Aquillo não era moura; era o tinhoso, resmungou o espadeleiro, fazendo o signal da cruz, o vigessimo talvez nessa noite.

―A modo que sim, tio Vasco. Cheira aqui a não sei que.

―Olhem! olhem! disse com voz abafada outro marinheiro, que se attrevera a approximar-se da margem, e de novo recuára atterrado. Olhem! olhem! Não veem na agua aquelle marulhar? A moura filou o bésteiro.

―A Virgem santa seja com elle! murmuraram tres ou quatro a um tempo, dando o nosso homem como perdido de corpo e alma.

No rio, mesmo na esteira que prateava a lua, com effeito apparecia e desapparecia, para de novo surgir á flor d'agua, um vulto, a bracejar. De uma das vezes não veio só. O vestido da moura alvejou, tocado por um raio de luz, e a crença, dos marinheiros, de que João Bispo era arrastado por um espirito ou pelo demonio, mais se confirmou, levando-os a novos esconjuros. O bésteiro sobraçando o corpo e segurando com os dentes as vestes da infeliz, embaraçado nos movimentos, luctava com a corrente afim de alcançar a margem.

―A mim! a mim! gritou elle de uma das vezes em que veio ao lume d'agua; porém os marinheiros olhando espantados uns para os outros não se moveram em seu auxilio.

―S. Pedro seja com sua alma, murmurou o velho Vasco, recuando ao passo que o bésteiro se approximava da margem, um pouco escarpada naquelle sitio e então mais do que hoje. Que se apegue com a Virgem, não com a gente, que nada póde com encantos.

―Oh de terra! soccorro, por Deus, que se me fina esta desgraçada! tornou João Bispo com uma inflexão de voz, que denotava o desespero que ia naquelle coração.

Safio e Canhoto, por um impulso sobre o qual nem tempo tiveram de reflexionar, correram á praia. Safio approximou-se da rocha junto da qual o bésteiro se debatia, segurando sempre a mulher de branco.

―Uma mão a esta pobre, que já mal respira.

―É uma rapariga! exclamaram os dous marinheiros, estendendo os braços a segurar aquella que, momentos antes, tomavam todos por um ente sobrenatural.

Os petintaes, galeotes e mais festeiros pouco a pouco se tinham approximado, ouvida esta exclamação, e vendo que se não tratava de mais do que de arrancar á morte uma creatura, o exemplo de Safio e Canhoto foi seguido, e, instantes depois, João Bispo a depositava em terra a sua preciosa carga.

De novo reinou o silencio. Os marinheiros atordoados com as sensações diversas experimentadas em tão curto espaço de tempo, formaram roda ao corpo da mulher, que inane, desmaiada haviam conduzido para junto de uma fogueira, e deitado sobre um monte de trevo, alfombra improvisada das moças da terra, dispersas pouco havia. João Bispo com o olhar fixo, espantado, as mãos pendentes, os lábios entreabertos contemplava o rosto da moura, pois moura era a desfallecida. Parecia ter-se-lhe apagado completamente da memoria o que acabava de se passar: o corpo alli prostrado era uma surpresa. De repente deu um grito; lançou-se de joelhos junto da moura, tomou-lhe a cabeça no regaço, e palpou-lhe as faces e o seio, a vêr se encontrava o calor da vida, e, curvando-se, entre carinhos, como se com elles a quizesse acordar daquelle lethargo, exclamou:

―Garifa! Garifa!

Garifa não respondeu. Os lábios contrahidos, lividos, perdido o fogo que animava aquelle rosto moreno, quando, pelas grandes festas, nas danças e folias, com que as da sua raça contribuiam, fazia girar sobre a cabeça o adufe, ou agitava os cascaveis que lhe adornavam o curto saio; os olhos cerrados; as longas cilias cheias de gotas d'agua, como se a morte a surprehendesse entre prantos, nem um suspiro desprendia; nem um movimento, por leve que fosse, se lhe notava.

―Morta! tornou a meia-voz, atterrado, o bésteiro, tirando do cinto o punhal, e chegando-lhe a folha aos lábios depois de a ter limpado.

Um raio de luz, um raio de alegria passou pelos olhos do magoado amante, quando o fraco alento da moça formou uma mancha na folha luzidia.

―Garifa! Garifa! tornou elle a exclamar.

―É viral-a de cabeça para baixo! resmungou o velho Vasco; é a mésinha dos afogados.

―Garifa... minha pobre Garifa! murmurava o bésteiro.

―Safio, chega-lhe vinho; um trago não lhe fará mal, gritou João Canhoto; e em seguida, tomando o pichel que o seu companheiro trazia á cinta, derramou algumas gotas sobre os lábios da desfallecida moça, ao passo que este resmungava, vendo correr o licôr a que não parecia desaffeiçoado:

―Boa cera com ruins defuntos!

João Bispo lançou-lhe um olhar terrivel, e fez um movimento, como se tentasse desafogar em cólera contra o imprudente marinheiro todo o peso do coração, e estallar, quando Garifa moveu os lábios fazendo um gesto de repugnancia.

―Basta, Canhoto, basta! acudiu Safio, que não reparara no bésteiro; vais fazer perder a alma á rapariga. No céu dos mouros... que é o inferno, accrescentou por entre dentes... não entra quem prova do sumo da uva, ouvi dizer.

O bésteiro arredára Canhoto, e, com um braço debruçando-se sobre o corpo da sua namorada, tomava-lhe as mãos entre as suas, quando ella abriu os olhos, murmurou algumas palavras inintelligiveis, e tornou a fechál-os, soltando um suspiro.

―Garifa! Garifa! tornou a exclamar o amigo de Fernando.

―Quem me chama? perguntou a moura, como se acordára de um somno, com voz fraca, descerrando de novo as palpebras, e fazendo um esforço para se erguer.

―Eu, eu, Garifa! acudiu João Bispo cheio da alegria.

―Porque me não deixaram morrer? murmurou a filha de Humeia cobrindo o rosto com as mãos.

―Morrer, Garifa?! E que querias depois que eu fizesse no mundo! exclamou o mancebo affastando-lhe com brandura as mãos do rosto. Que faria eu? proseguio... Morrer... morrer tambem!

A moura meneou a cabeça; fixou a vista, como admirada no besteiro; estremeceu toda, e dos olhos rebentou-lhe o pranto ao mesmo tempo que os soluços do peito. João Bispo, que, em alguns minutos apenas experimentara os mais contrariados affectos, a extrema dôr e a alegria, redobrou os seus carinhos, as palavras affectuosas; mas as lagrimas continuavam a correr em fio dos olhos de Garifa.

―Garifa, minha Garifa, porque choras? Deixa esse pranto com que me amofinas. Eu estou aqui, Garifa, e ninguem nos ha de agora separar. Tu cumpres a tua promessa... e teu pae, que não espera já vêr-te...

―Oh, meu pae, exclamou a moça interrompendo-o, e de novo cobrindo as faces; com que rosto lhe poderei eu apparecer?!...

―Elle perdoará tudo, Garifa; esquecerá tudo... e que não perdôe, eu...

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