III O PARTO
Reading edition
Estendeu seu manto a noite;
O sol escondeu o brilhar;
As trevas são o que reinam;
A luz perdeu-se pelo ar;
As estrellas que o ceu tinha Perderam todo o fulgor; Os echos emmudeceram; A terra não diz amor;
A corrente perdeu o brilho, Voltou á fonte natal; As flores seccaram todas, Seccaram todas no val';
O sol escondeu a fronte, A lua seguiu-o tambem; Os astros se sepultaram Nas trevas que o mundo tem;
As aves já não tem canto, Tem medo da solidão;{22} A terra já não responde, Não falla á voz do trovão:
É tudo negrura immensa, Ou cataclysmo infernal; Oh! é ave que, perpassando, Nos trouxe o genio do mal...
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Mas, emfim, lá vem cahindo Um espectro n'amplidão; Oh! que formas nunca vistas Que elle traz! que negridão!
Tudo treme! n'esse instante Parece o mundo acabar; Ou já o ceu que pouco a pouco Quer sobre nós repousar.
Oh! que gritos! que soluços Solta o filho junto á mãe! Ao ver perto o grande abysmo, Que vem buscal-o tambem.
O pisco levanta as pernas Para sustental-o no ar; As aves vão timoratas Com elle se nivelar.
Outros fogem para a fralda Do monte que sobe ao ceu;{23} Outros, emfim, tomam armas... Arcabuzes... que sei eu?
Tudo busca um doce abrigo... Querendo matal-o no ar; Mas o espectro vem descendo E mui suave em seu andar.
E quando todos attentos Fitavam triste a visão, Uma rajada de vento Arremessou-a pr'o chão.
Nas alturas de Lisboa Parou ella, azas abriu: Desprendeu mil gafanhotos! Cousa assim nunca se viu!
Tinham fórmas mais que humanas Pois algumas nunca as vi! Uns cavallos com taes azas! Voando tanto por si...!!!
E depois, como voavam! P'ra terra tanto a descer! Estas cousas, tão confusas! Nunca as pude comprehender.
E tambem já na cidade Desgracas aconteciam,{24} Que gritos da turba tremula! Que soluços lá se ouviam!
Os pinheiros, cuja fronte Tinha ainda algum verdor, Largaram da terra as pernas, Galopavam com fervor.
Mas que pobres! na viagem Maceraram face linda! Mas qu'importa se chegaram Com elles á festa infinda?
Chegaram junto da olaia, Onde a cigarra cantava; Pasmaram todos viventes; Era o saráo começava.
E a minha musa atrevida Fugiu de junto de mim... ............................. Pois hei de lhe dar pateada Se a ouvir fallar por fim.{25}