A VOZ DO PROPHETA
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SEGUNDA SERIE
Iniquitas surrexit in virga impietatis; non ex eis, et non ex populo, neque ex sonitu eorum, et non erit requies in eis.
EZECHIEL, VII-11.
I
Lisboa, cidade de marmore, rainha do oceano, tu és a mais formosa entre as cidades do mundo.
A brisa que varre os teus outeiros é pura como o céu azul, que se espelha no teu amplo porto, semelhante a grande mar.
Trinta seculos tem surgido depois que tu surgiste, e sorvendo milhares de existencias cahiram todos no abysmo do passado.
E tu os has visto nascer e morrer; e sorriste-te, porque julgavas que a vida te estava travada com a vida do universo.
Escondendo nas trevas dos tempos remotissimos a tua origem, dizias ás demais cidades da Europa:—Sou vossa irmã mais velha.
Nobre e rica outrora, quando o Oriente e a Africa te mandavam o ouro das suas veias, os extranhos vinham assentar-se-te ao pé dos muros e abastecer-se com as migalhas cahidas das mesas dos teus banquetes.
Cada um dos teus velhos palacios abrigou já os ultimos dias de um grande capitão; em cada pedra dos teus templos ha uma recordação das virtudes passadas; em muitas lousas de sepulturas nomes que não morrerão.
Nas eras de tua gloria, os monarchas dos ultimos confins da terra se haviam por honrados com chamar irmãos a teus filhos; e filhos teus davam e tiravam coroas.
As tuas armadas aravam as campinas do oceano, e neste nem uma vaga deixou de gemer debaixo das naus do Tejo.
Para as frotas da nova Tyro, os golpes de machado resoavam ao mesmo tempo nos bosques da Europa e da Africa, do Oriente e do Novo-Mundo: os lenhos do Indostão cosidos com os da Nigricia fluctuavam por mares distantes, e sobre elles se hasteiava um signal de terror para o orbe: era o pendão das Quinas.
Então, oh cidade do Tejo, reinavas tu e eras forte, mais do que Roma ou Carthago; mas o imperio e a força vinham-te das virtudes de teus filhos, dos homens a quem sem pudor chamamos nossos avós.
Vivificavam-te o seio um sem numero de bem nascidos espiritos, e eras seminario feracissimo de corações generosos.
Porém, que te resta hoje do antigo esplendor, da gloria de tantos seculos? Um echo do passado nas paginas da historia, o sol puro da tua primavera, os restos dos paços e templos que os terremotos te não consumiram, e o grande vulto das aguas do amplo ádito do Tejo.
II
Mas este echo da historia, que devia ser para ti como um grito de remorso, não ha ouvidos que o escutem, e soa em vão e morre no meio do vozeiar descomposto da plebe:
Mas este céu puro que te cobre, e que testemunhará no grande dia as virtudes de nossos maiores, testificará também perante o Senhor a tua corrupção actual:
Mas este porto, que a liberdade regrada de tres annos começava a povoar de entenas, torná-lo-ha o reinado da licença tão ermo como os extremos dos mares gelados:
Mas pelos palacios de marmore já não retumba a voz dos heroes, e os templos estão desertos: só por lupanares e praças sussurra o clamor dos populares, ou entoando os canticos das orgias, ou tumultuando em assuadas e preparando o dia em que satisfaçam a sede do roubo e do assassinio.
Viuva prostituida, os vicios corromperam-te a seiva da vida, e a gangrena e os herpes corroem-te os membros, que ainda vestes de trajos louçãos, mas onde a morte se encarnou ha muito.
Formosa ainda no aspecto, assemelhas-te ao sepulchro do evangelho, alvo e polido no exterior, mas cheio de podridão e negrura.
Nova Jerusalém, a dextra do Senhor vergou pesando-te os crimes e, como a antiga, saberás se por ventura são asperas as angustias que o Omnipotente manda aos povos no dia da sua justiça.
Rapida é a carreira do malvado pelos atalhos do crime: porque esses atalhos levam, de despenhadeiro em despenhadeiro, ao abysmo da perdição.
Breve empallidece o outono as folhas das arvores; breve as desprende dos troncos; breve as espalha e some, arrebatando-as sobre as azas dos ventos.
Esse curto praso bastou ao povo para esgotar os thesouros da misericordia divina, que os erros e culpas de seculos não haviam podido empobrecer.
Os feitos portentosos de dous annos de combates civis foram amaldicçoados pelo povo em uma noite de sedição, e a arvore da liberdade cerceiada juncto da terra.
E as esperanças de salvação e de felicidade passaram como o sonho matutino que se desvanece ao alteiar do sol.
III
Como a antiga Jerusalém se afundou em mar de crimes, assim a moderna Sião, a grande cidade do occidente, se mergulhou em torrente de perversidades.
E a maldicção celeste que sumiu aquella d'entre as nações pesará ainda mais rijamente sobre a desgraçada Lisboa, sobre esta caverna de vicios e de desenfreiamento.
Á roda dos muros de Solima apinhavam-se os cavalleiros de Babilonia, e as tendas de Nabuchodonosor estavam assentadas ao pé da torrente de Cedron.
E as catapultas arrojavam pedras sobre os eirados do templo, no cimo do Moria: os arietes batiam os baluartes, que vacillavam até os fundamentos, e o granizo das settas sibilava, passando por entre as mal defendidas ameias.
E ao longe scintillavam os ferros das lanças e o bronze dos elmos e dos cossoletes, e ouvia-se o nitrir dos cavallos.
Surgira o dia extremo para a cidade das maravilhas, para a reproba Solima. E d'alli a um anno, sobre as ruinas della estava assentado um velho.
Era o propheta de Anathot, que, em cima da ossada dos palacios e do templo, entoava uma elegia tremenda, a elegia da sua nação.
IV
Tambem o dia em que, entre os vestigios da cidade maldicta, algum vate levante um grito de agonia, um grito de desesperança, não tardará a chegar.
Porque Deus ergueu-se no seu furor, e mandou descer sobre este paiz o anjo do exterminio.
Mais cruel será o teu castigo, oh terra do meu berço, do que o de Jerusalém: porque ella pereceu a mãos de extranhos, e seus filhos morreram defendendo os lares paternos.
Mas a ti é um matricidio popular, é a febre ardente das sedições que te vae arremessar ao sepulchro.
Os teus muros converter-se-hão em circo: pelas praças e ruas pelejar-se-hão pelejas como de gladiadores, combates como de mastins e feras.
Porque o temor de Deus saiu do coração do povo, e entraram nelle todas as raivas do inferno.
Aspero é para o que morre assassinado não poder clamar ao céu justiça contra o seu matador.
E neste mau caso cahirá o povo; porque serão as suas proprias mãos que lhe rasgarão as entranhas: será elle quem lavre a sua sentença de morte.
Elle se amaldicçoará a si, e o remorso e a desesperação de toda a humana piedade lhe dobrarão as agonias do passamento.
V
Os que pelejaram contra os tyrannos purpurados mal sabiam que lhes quebravam o sceptro de ferro, para metter a espada da assolação na dextra de tyrannos cobertos de vermes e farrapos.
Mal pensavam que uma raça corrupta não conhece outra estrada senão a da servidão ou a da licenciosidade.
A nação, esmagada pelos reis, tinha muito tempo gemido debaixo da propria miseria.
Mas surgiu um principe que deu a liberdade ao povo e que veio morrer para lh'a restituir, quando elle vilmente a deixou baqueiar por terra.
E estes homens, que pouco antes haviam dobrado o joelho perante o despotismo, mostraram-se tão orgulhosos e insolentes, quanto, até então haviam sido abjectos e timidos.
E n'uma orgia popular fizeram resoar gritos insultuosos nos ouvidos daquelle que duas vezes os libertara, e invocaram-lhe a morte. Nesse momento longe estavam os seus soldados, e muitos delles arquejavam moribundos no campo onde se pelejou a ultima batalha da patria.
Em verdade vos digo que tal crime é dos que Deus não perdoa; porque a ingratidão é a mais horrenda de todas as perversões humanas.
Elles apressaram o repouso do tumulo para o salvador da republica: mas o nome de parricidas será o que sobre a jazida lhes escreverá a historia.
VI
O sonho da liberdade, o sonho da minha juventude, esta fonte da poesia e de acções generosas, converteu-se para mim n'um pesadello cansado.
Digno era o povo de compaixão quando estava em ferros, e por bom feito se tinha entre as almas puras o affrontar-se o homem com a morte pela salvação dos seus semelhantes:
Porque, subindo ao patibulo ou expirando entre o estrondo das armas, a voz da consciencia assegurava ao que fenecia as lagrymas e as bençãos dos vindouros, e que algum dia cyprestes se plantariam na terra que lhe bebesse o sangue.
Mas isto era crer na virtude popular: era apenas um sonho, e a consciencia mentia.
A corrupção estava no amago das existencias. A arvore da vida social carcomiu-a a servidão. Cumpria que as tempestades politicas a derribassem; que os vermes da sociedade lhe roessem e desfizessem os troncos.
E estes vermes são as turmas de uma plebe invejosa, que incessantemente trabalham na grande obra da publica destruição.
Almas virtuosas, que nos paizes ainda escravos preparaes no silencio a queda dos tyrannos, não apresseis o grande dia da emancipação popular.
Porque nesse mesmo momento sereis amaldicçoados pelos que salvastes, e cubertos de escarneos e de injurias, sabereis que a plebe lança em poucos mezes mais crimes na balança da eterna justiça do que os tyrannos ahi hão lançado por seculos.
VII
Certo dia, o conde de Avranches entrava nos paços de Affonso quinto, e os cortesãos calumniavam sem pudor o bom duque de Coimbra, o salvador da republica.
E o conde disse-lhes:—mentis, como desleaes; e aos melhores tres de vós prova-lo-hei á lança e á espada: innocente e justo é o mui nobre filho de meu senhor e rei, Dom João de excellente memoria.
E ninguem ousou responder ao velho cavalleiro da Garrotéa; porque bem sabiam que a sua consciencia era pura e o seu montante pesado.
D'ahi a alguns dias elle provou o dicto. Na batalha de Alfarrobeira, sobre um montão de cadaveres, cahiu defendendo a innocencia e bom nome do seu desventurado amigo.
Onde estavam os do valente capitão da nova Diu, do rei soldado da patria, quando o vulgacho no meio da praça publica, assentado no seu lodaçal mandava derrocar as leis, as recordações e a gloria d'uma nação inteira?
Onde estavam os amigos de D. Pedro, quando a memoria do grande homem era amaldicçoada na condemnação da sua obra; quando sobre as suas cinzas a dissolução cuspia escarneos; quando a liberdade morria ás mãos da licença popular?
Quem se ergueu, seguro em boa consciencia, para lançar a luva em defesa da justiça, e dizer ás turbas:—sois desleaes e mentis?
Ninguem! Todas as espadas ficaram embainhadas. Em Portugal já não ha um cavalleiro. Na batalha de Alfarrobeira morreu o conde de Avranches, e a sua espada foi sepultada com elle.
VIII
Quando os reis se assentavam em thronos de ferro; quando a lisonja os rodeiava de prestigios, e o terror estava assentado ás portas dos seus palacios, era bello e generoso affrontar-se o homem com a tyrannia e menoscabar as dores dos supplicios.
Então era ousado o propheta, quando, nos paços de Balthasar, lia nos muros, escriptas pela mão de Deus, palavras de condemnação.
Eram sublimes os martyres, quando perante os cesares davam testemunho do evangelho, e escarnecendo dos apparelhos de morte, se deitavam tranquillamente sobre a cruz da agonia.
Era bello ouvir o poeta de Florença trovejar contra a prostituta Roma, denunciar ao mundo a corrupção e os crimes dos pontifices do Tibre, e comer no desterro um pão eivado de lagrymas e esmolado por estranhos.
Era bello, quando nós, assentados sobre os gelos do Norte, saudavamos do desterro a terra que nos deu o berço, e vinhamos, fracos pelo numero, mas fortes de coração, lançar as nossas baionetas na balança da Providencia, onde a tyrannia tinha tambem lançado as suas.
Tudo isto era bello e generoso; porque então os pequenos gemiam oppressos debaixo dos pés dos grandes, e ao homem justo incumbia fazer resoar na terra a voz da eterna justiça, o grito da liberdade.
Mas hoje que a plebe reina e, como ampla voragem, ameaça tragar a virtude, a liberdade, a justiça e todas as recordações sanctas do passado, para o homem de boa consciencia sê-lo-ha, tambem, o morrer.
Sê-lo-ha o bradar no meio das turbas, e derramar sobre ellas a condemnação, que Deus confiou em todos os seculos aos labios do innocente e virtuoso.
Sê-lo-ha chegar aos tribunos populares, apontar-lhes para o céu, e apresentar a cabeça ao cutello dos lictores.
IX
Povo, hoje és tu quem impera, e absoluto é o teu poder; porque te dizes unica fonte delle.
Toma, pois, em tuas mãos a vara do magistrado, e assenta-te uma vez mais no teu throno, amassado com sangue e pó.
Vem assentar-te, e julga-nos, a nós, que tu maldizes, e aos tribunos, aos instigadores de tumultos, que cobres de amor e de bençãos.
Porque isto diz o Senhor Deus: se a plebe julgar com justiça, a plebe ainda será salva.
Desça o terror da tua vingança sobre o coração do que te houver offendido; volvam-se no pó as frontes onde tu achares estampado o ferrete do crime.
Recorre as acções da nossa vida, recorre as obras passadas das vidas dos teus tribunos, e por preço do perdão de Deus, julga-nos com justiça.
Quando tu jazias na servidão, e os grilhões, encarnando-se-te nos pés e nos pulsos, te roçavam pelos ossos, peleijavamos nós por te salvar; derramavamos o nosso sangue por ti.
Por ti viamos o irmão e o amigo morder o pó dos campos de batalha, e calavamos; sentiamo-nos descahir de fome, e não soltavamos um queixume.
Porque guardavamos os ais para o silencio das trevas. Soldados da patria, ousariamos acaso queixar-nos diante da luz do sol?
E elles, que faziam, emquanto as nossas noites eram veladas debaixo de um céu de ferro e de fogo, emquanto os nossos dias se consumiam entre o sibilar dos pelouros?
Elles? Nos lupanares e tabernas de paizes extranhos, folgavam nos banquetes da embriaguez; reclinavam-se no leito da prostituição.
Elles? Cubriam-nos de insultos, chamavam loucura e vaidade á nossa nobre ousadia, e riam-se do juramento que faziamos de morrer ou dar a liberdade a nossos irmãos.
Elles? Buscavam por todas as vias semeiar a zizania e os odios, damnar a nossa causa sancta, e fazer-nos perecer debaixo das ruinas de uma cidade illustre.
Eis o que elles fizeram em proveito da patria. No meio do foro, diante de teu tribunal terrivel, descubra quem o ousar o peito, e mostre e conte as cicatrizes das feridas que recebeu pela salvação da republica.
Um só delles as mostrará; porque esse foi valente e amigo da virtude. Anjo de luz, porque te despenhaste no abysmo?
A historia escrevia o teu nome na pagina das bênçãos: tu mesmo o riscaste e o foste escrever na pagina das maldicções………………. …………………………………………………………….. ……………………………………………………………..
X
Porém, debalde invocariamos justiça perante o tribunal popular; porque o povo é abastado de injustiça e ingratidão.
Os que estão cubertos de cicatrizes, os que foram longamente saciados de angustias por salvá-lo seriam condemnados, e os tribunos, os concitadores da anarchia, cujas obras unicas tem sido conduzir a patria ao abysmo da perdição, seriam absolvidos, seriam abençoados.
Embora: a nossa consciencia está tranquilla, e no grande dia é Deus quem a todos nos julgará.
Houve um propheta outrora em Israel, e chamava-se o Filho do Homem.
E este propheta amava os humildes e os pobres, e reprehendia os poderosos.
E condemnava os hypocritas da religião, e por isso era abominado pelos grandes e pelos sacerdotes.
Mas respeitava as leis, e ensinava a obediencia: mandava que se pagasse o tributo das duas drachmas do templo, e o tributo de Cesar.
E affeiava aos populares os seus vicios e abominações; e por isso era tambem malquisto da gentalha.
E, condemnado á morte pelos poderosos, o povo, a quem tinha trazido a luz e a vida eterna, o povo, que elle tanto amava, cubria-o de opprobrios.
E podendo salvá-lo do supplicio, antepunha-lhe um grande criminoso, e clamava aos algozes:—Pregae-o na cruz, e cáia o seu sangue sobre a nossa cabeça e sobre a cabeça de nossos filhos.
E este propheta era o Messias, era o redemptor do genero humano, era o filho de Deus.
Consolem-se, pois, aquelles que sobre os hombros tomaram o odio dos tyrannos por amor do povo, e a quem o povo paga com injurias e pragas.
Como Jesu-Christo, os hypocritas e os oppressores das nações abominam-nos: como a Jesu-Christo, o vulgacho cobre-nos de affrontas, e pede para nós aos seus tribunos a condemnação e o supplicio.
E que nos cumpre fazer para seguirmos em tudo o exemplo do Justo assassinado, do Deus que nos deixou na terra o consolo e a esperança?
Pedir morrendo ao Eterno Pae o perdão de nossos perseguidores e, como o divino Mestre, lançar á conta da ignorancia as culpas de corações corruptos.
Imitando o Salvador na cruz, seja um pensamento de benção o nosso pensamento extremo; porque o derradeiro suspiro do christão deve ser um murmurio de affecto grande para os que o amaram, mas ainda maior para os que o odeiaram e perseguiram.
XI
E ainda uma vez, filhos da perdição, ainda uma vez vos falarei em nome do Senhor nosso Deus.
Que foi o que fizestes assassinando as esperanças da salvação publica, derribando a sancta tradição da patria?
Até no crime fostes apoucados. Porque não se ergue um de vós, perverso, mas sublime, como o archanjo das trevas, e diz:—fui eu o concitador do motim popular, fui eu o primeiro que clamei «quebrem-se as taboas da lei?»
Louvaes a sedição, chamaes-lhe obra illustre, e nenhum de vós acceita a gloria de ser o bem-feitor do seu paiz?
Quando combatiamos pela liberdade gravavamos os proprios nomes em nossas armas, e o inimigo que ousasse vê-las de perto, ahi os lería inteiros.
Não combatiamos nas trevas; e os nossos capitães diziam ao mundo:—Vede:—e mostravam a face diante da luz do sol.
Hypocritas, que enganaes o povo, credes porventura que tambem enganareis o Senhor e que, semelhantes á prostituta que engeita o fructo de seu crime, engeitareis diante delle a obra da vossa iniquidade?
Não! Lá se levantarão os nossos e os vossos filhos, para quem preparaes berço de miseria, vida de amargura e morte de desesperação.
E elles testemunharão contra vós na presença do Altissimo: e haverá ahi choro e ranger de dentes.
XII
Ambiciosos, que desvairaes o povo, o Senhor leu no fundo dos vossos corações e revelou-me o que ahi está escripto!
A cubiça do mando e do ouro é o vosso amor de patria; a vossa ancia de liberdade a sêde de tyrannia.
Merecedores de jazer perpetuamente na escuridade, e ermos de virtude e de sabedoria, não podendo fulgir com luz celestial, tentastes romper as trevas de vossos caminhos com o clarão torvo do inferno.
E a serpente vos emprestou a sua vã sciencia, as suas corruptoras palavras, e alumiados por fulgor de morte, alguns vos creram illustrados pela luz que mana do throno de Deus.
Mas os que foram enganados vos amaldicçoarão no dia em que patenteardes a hediondez das vossas intenções, e o Pae de misericordia lhes perdoará um erro de intelligencia.
Eis o que diz o Senhor:—Vós sois os assassinos da republica, mas debaixo das suas ruinas ficarão tambem esmagadas as vossas frontes, e os vossos membros quebrantados e sumidos.
Tambem vós tereis quem maldizer na hora do passamento: os dias futuros justificarão o Verbo de Deus.
XIII
Os soldados que arrastavam o Justo ao Golgotha, quando o povo de Jerusalém pedia o sangue innocente, poseram sobre a cabeça do Filho do Homem a inscripção—Este é Jesus rei dos Judeus.
Porque o povo não sabe commetter um crime, sem, afora o crime, blasphemar e escarnecer da virtude.
Assim os tribunos da plebe, depois de rasgarem o pacto social, disseram por irrisão:—Reuna-se o conselho dos anciãos, dos sabios e dos prudentes, e façam-se leis para o regimento da republica.
Como se não houvesse ahi lei; como se os eleitos do povo não tivessem sido expulsos pela relé e separados uns dos outros.
Então os malfeitores rodeiaram a urna onde d'antes os cidadãos podiam livres lançar o voto da sua consciencia.
E todos os bons se afastaram dessa urna; porque a mão do crime a tinha collocado no templo, e á roda della sómente sussurravam ameaças de morte.
E por isso os nomes que d'alli sairam foram nomes opprobriosos ou desconhecidos, e como extranhos no meio de nós.
Um erro trouxe outro erro, e o punhal passou da praça para o templo, e houve ahi mysterios das trevas, mysterios de perversidade.
E homens imberbes, ignorantes e ignobeis ir-se-hão assentar no conselho dos legisladores, no logar destinado para os velhos, para os sabios e para os homens virtuosos.
Mas a plebe ahi estará também, com seu gesto hediondo, como um espectro de terror, como a imagem do supplicio nos ultimos dias de um criminoso depois da sua condemnação.
Ella ahi estará; e o seu grito será mais alto que o das consciencias, se é que podem consciencias falar no conselho de homens corruptos.
Ella ahi estará; e as leis serão feitas por ella; porque errados vão os que pensam que o povo larga jámais o poder que a imprudencia ou a maldade lhe depositaram nas mãos.
Homens a quem a dissolução social vestiu a toga de senadores, para debaixo da campa levareis nas frontes duplicado o ferrete da infamia e do aviltamento.
Nellas vo-lo escreveu uma eleição fraudulenta, em que votou o punhal do assassinio e o obulo da embriaguez, preço porque a plebe vendeu aos tribunos o exercicio de um direito que não era seu e que ella tinha roubado por noites de sedição.
E nellas vo-lo estampará tambem o grito insultuoso do vulgacho que vos ergueu do pó para sanctificardes a sua rebellião, para serdes cumplices nos seus decretos de morte, e para depois vos quebrar em pedaços, como um vaso fragil quando se torna inutil.
XIV
De fel e de trabalho me cercou o Senhor. Esta é uma das suas visões, que elle me enviou em espirito.
N'um campo extensissimo estava eu, e cerrava-se-me o coração, como traspassado do frio do terror. Era ao cahir das trevas.
Havia por ahi sepulchros, mas sepulchros semelhantes a dorsos de montanhas: havia por ahi cyprestes, mas cyprestes seculares como o universo, e cujos cimos avultavam como a espessura de um bosque primitivo.
O sitio em que eu estava era o cemiterio das nações e dos seculos.
Sobre muitos desses tumulos espantosos já tinha cahido a campa; já o musgo e as sarças lhes dissimulavam as juncturas, e o estellio e o áspide passavam por cima, rangendo como as folhas seccas.
Outros havia lá que ainda estavam abertos, e tinham as lousas erguidas sobre uma das bordas, juncto da qual um anjo derramava lagrymas. Jaziam nestes muitos seculos de nações modernas.
Algumas sepulturas ahi estavam inteiramente descubertas e ainda alvejantes, como collocadas de pouco em meio do campo sancto: nem lousas estavam ao pé dellas.
Mas ao longe ouvia-se como o gemido de eixos que vergavam e de homens que altercavam e que pareciam trabalhar em uma obra de Deus.
E este gemido era semelhante ao do oceano revolto, e o borborinho soava como o clamor de milhões de vozes.
Na frente de cada um dos jazigos estava escripta a historia do povo ou do seculo que lá repousava ou que lá devia cahir.
E algumas destas inscripções eram antigas e meio gastadas, e de roda tinham esculpidos symbolos de gentilidade.
Apenas sobre uma dellas estava gravado o nome de Jehovah; mas fechavam a campa sete sellos, cuja lenda era:—até a consummação dos seculos.
E mais alguns monumentos ahi se erguiam, já cubertos com a lousa final: e em cima delles estava plantada a cruz, e a inscripção acabada.
Juncto destes ajoelhei e derramei lagrymas: eram sepulchros das raças que educara o evangelho: dormiam lá irmãos meus.
E os reinos e as republicas da idade media eram os que nesse logar estavam sepultados: áquelles tinham-nos anniquilado loucuras e tyranias de reis; a estas a licença e a corrupção popular.
XV
Lá estava tambem o monumento da nossa patria.
E nelle repousavam os cadaveres de muitos seculos.
E a historia de cada um destes lia-se na face da pedra, escripta pela mão do archanjo que velava o sepulchro e que forcejava por suster a campa, que já pendia, como para os encubrir á luz.
E esta era a lenda sepulchral:
Deus escolheu para si a nação do extremo occidente, e a benção do Altissimo desceu sobre o berço della.
E passou glorioso o primeiro seculo da sua existência, rico de combates e victorias: elle herdou ao seguinte a cruz plantada nos coruchéus dos alcorões, e uma raça valente e virtuosa, que defendesse a terra conquistada.
«De incremento e prosperidade foi o segundo seculo; e posto que ahi houvesse dias de turbação, o povo cresceu; porque o Senhor o abençoava.
E na terceira era soou em paiz extranho uma voz que falava de servidão. O povo português lançou mão da espada e da lança, e em vinte combates provou a sua independencia, e que o Deus dos exercitos fora o Deus de seus paes.
E na quarta era chegou a idade viril da republica: a sua estatura assemelhava-se á de um gigante, os seus braços aos de um athleta.
E na quinta ella estendeu a mão para o oriente, e aferrando centenares de povos, metteu-os debaixo dos pés.
Então commetteram-se crimes, a corrupção estendeu-se, e a face do Senhor turbou-se.
Aqui na inscripção seguia apenas um nome de poeta, o depois uma longa beta negra. Esta significava que de infamia e servidão fora a sexta idade da republica.
E a lenda tumular proseguia:
Surgiu um dia o povo, e quebrando os grilhões que tyrannos estranhos lhe haviam lançado, açacalou de novo a sua espada esquecida, e combateu quasi um seculo.
E recobrou a independencia, senão a liberdade.
D'aqui ávante, falava o letreiro de existencias e de largos annos; mas de existencias sem gloria, e de annos semelhantes apenas á decrepitude de homem que foi robusto.
E havia ahi guerras e victorias e leis: mas as victorias coroavam o general e não o soldado, porque o soldado era servo: as leis eram talvez justas, mas desciam do throno dos reis sem a sancção popular, e o povo dobrava o joelho.
E isto era impio. O servo que acceita sê-lo é só meio-christão. Do evangelho deriva a liberdade, como condição impreterivel do homem, responsavel por seus actos perante Deus. A liberdade póde rasgar-se do evangelho; não separar-se delle.
Depois lia-se o nome de um rei; e este nome era grande e honrado, como os dos antigos reis portugueses, e a sua historia estava escripta no monumento da eternidade. Após esta, seguiam-se algumas palavras de esperança.
E d'alli por diante a pedra estava em branco; porque a oitava era da republica ainda não tinha adormecido juncto do umbral do passado.
XVI
E eu meditava em silencio, e o meditar era amargo para o meu coração.
Subito senti um ruido remoto, semelhante ao ruido de bosque sacudido pelo vento e granizo.
E divisei por entre os cyprestes um vulto, que se approximava da clareira onde estava a sepultura, e as suas passadas, posto que apressadas, soavam como se fossem de pés de bronze.
E chegou. Fitando os olhos no vulto, descortinei uma figura humana de desmesurada altura.
A sua cabeça tinha muitas faces e muitos olhos: do tronco saía-lhe uma grande multidão de braços.
E com todas as suas linguas proferia palavras immundas e blasphemas, e maldizia a religião e a justiça.
E vinha salpicado de sangue.
E parou diante do monumento.
Ficou immovel por algum tempo; depois, como excitado por um accesso de raiva infernal, procurava aluir o sepulchro.
Mas a immutabilidade do passado era a immutabilidade delle. Tinha-o posto alli a mão de Deus.
Então o vulto começou a raspar a inscripção, mas as letras cada vez mais se avivavam. Lá do intimo soou um longo gemido.
E o vulto soltou uma praga tremenda, e transpoz a borda do sepulchro; e estava em pé dentro delle.
E começou a afundar-se nas trevas; e estendendo os braços, os braços lhe ficavam hirtos.
E nos olhos, que até alli chammejavam furor, já fluctuavam lagrymas de homem que morre.
E descia, e descia!
E quando a fronte lhe topetava com a borda, a campa escapou das mãos do anjo, que trabalhava por sustê-la, e cahiu dando um som profundo.
E a face do sepulchro, abaixo da inscripção, tingiu-se de negro até o rez da terra.
E as ultimas palavras, palavras de esperança, converteram-se em outras tão horríveis, que a minha lingua não ousa proferi-las.
E a visão desappareceu.
XVII
Reprobo sería aquelle que, vendendo seu pae por preço de opprobrio, o entregasse á servidão de extranhos.
Reprobo, mil vezes réprobo, sería tal homem; porque este crime fôra mil vezes mais negro do que o parricidio.
Quem, por noite tempestuosa, o acolheria debaixo de tecto hospitaleiro? Quem, vendo-o mirrado de sêde, lhe offereceria um pucaro de agua?
Ninguem: porque o seu hálito inficionaria o ar que respirasse: os seus labios empestariam o vaso por onde bebesse.
No seu leito de morte, que sacerdote ousaria dizer-lhe:—Eu te absolvo em nome do Deus que perdoa? Nenhum: e o que o dissesse mentir-lhe-hia; porque nos thesouros da piedade divina não ha resgate para semelhante divida.
Mas que é este crime, comparado ao daquelle que vende a patria? Esse, não vende o progenitor sómente: vende a familia, os ossos de avós, a fonte do baptismo, a cruz do cemiterio; vende as saudades, os affectos e as esperanças de todos os seus irmãos.
E todavia, nos conciliabulos dos tribunos proclama-se que no anniquilamento está o segredo da nossa futura grandeza. Rebeldes de sete seculos, seremos applaudidos e respeitados no mundo, quando, de joelhos perante os nossos orgulhosos senhores, fizermos penitencia do glorioso delicto de mais de vinte gerações de antepassados!
São homens destes que as turbas insensatas victoreiam!
Cegou Deus a intelligencia do povo, porque o quer perder; porque o afastou de sob as azas da sua Providencia amorosa.
E por isso a visão do sepulchro me foi mandada, e vi cerrar-se a campa da eternidade em cima da derradeira epocha da monarchia de Valdevez, de Aljubarrota, e de Montes-Claros.
XVIII
Povo desvairado, doe-te de ti proprio. Sabes, acaso, a quem os homens das trevas pretendem submetter-te e a teus filhos e netos?
Dir-to-hei, oh povo, para que nos futuros momentos de afflicção não digas ao Eterno:—Senhor, salva-me, porque eu não soube o que fiz!
Odio de sete seculos te separa desses futuros senhores: vinte batalhas, em que os teus cavalleiros venceram os seus, jazem não vingadas nas suas recordações.
Houve tempo em que elles poseram o pé no collo de nossos maiores, e a vida destes foi durante esse periodo tecida de amargura e de infamia.
Então, além do oceano, nos campos de tua gloria, sentia-se um ruido incessante. Eram as tuas fortalezas que desabavam; eram as tuas naus que se affundiam; era o teu poder que expirava.
Nas veigas, o arado ficava esquecido no meio do sulco, e no prado e no monte os novilhos mugiam debalde pelo seu guardador:
Porque os mancebos eram levados a combater em paizes remotos, para sustentar a tyrannia de seus senhores, e, novo genero de ludibrio, tambem oppressos, quinhoavam as maldicções lançadas sobre os oppressores da sua patria.
Á viuva e ao orphão era arrebatado o obolo do tributo, e este ia accumular-se nos cofres dos extranhos e servir, depois, ao luxo e á devassidão.
O soldado hespanhol estava em pé, encostado á lança, juncto ás ameias de nossos castellos, e o escravo português que passava ao sopé dos muros pregava os olhos no chão, e a dor acabrunhava-lhe o espirito.
As cidades foram saqueiadas, os patibulos ergueram-se, os homens de valor e virtude derramaram-se pela face da terra.
Mas os portugueses lembraram-se um dia de que o eram, e levantando os braços para o céu, com os grilhões que lh'os roxeiavam esmagaram os craneos dos oppressores estrangeiros.
E breve os campos da Hespanha talados, as suas aldeias arrasadas, os seus valentes postos á espada, pagaram injurias de sessenta annos.
E na terra adubada com cinzas e sangue se lançaram sementes de malevolencia perpetua entre as duas nações.
Ai de nós, ai da patria, se o leão da Iberia podesse rugir solto pelas nossas montanhas, e vir acoutar-se debaixo de nossos tectos!
E isto é o que pretendem os destruidores da liberdade, os suscitadores da anarchia.
Saúde pois o povo os tribunos e obedeça-lhes, emquanto elles não consumam a sua abominavel obra; emquanto o não entregam, como um rebanho de ovelhas, nas mãos dos seus futuros algozes.
Nós, os que não nascemos para a servidão, ergueremos as campas de nossos paes, e ricos com estes restos queridos, iremos depositá-los debaixo do cypreste do desterro.
Não, o hespanhol orgulhoso não calcará as cinzas dos nossos valentes, embora possua esta terra corrupta e serva; embora venha riscar da face della todos os monumentos dos seculos da nossa gloria.
XIX
Tal é, oh povo, o futuro que para ti guardam os teus tribunos no thesouro de maldade de que são ricos os seus corações.
Tu gemerás captivo e não ousarás queixar-te; e as orações e as lagrymas das tuas noites de tribulação e vigilia não romperão os céus, tornados para ti de bronze.
Eis porque os filhos da perdição suscitaram no teu seio o grito da guerra civil: foi para que a espada da fratricidio devorasse os teus fortes, e se fartasse e embriagasse com o sangue delles.
Para que, inerme e enfraquecido, estendesses os braços ás cadeias e curvasses o joelho ante aquelles de quem receberam o preço da tua liberdade.
Acaso poderão negá-lo?—Não: porque o mysterio da iniquidade foi revelado, e a voz que o patenteiou era bem alta, e resoava desde o Tejo até as alturas dos Pyrenéus.
Crê, agora, plebe illudida, crê que os homens que te vendem a extranhos, melhor te venderiam a um tyranno domestico.
Crê que se homens taes fossem a unica barreira alevantada entre ti e aquelle que nós expulsámos e tu maldisseste em teus hymnos populares, semelhante dique fora facilmente transposto pela torrente das vinganças do despotismo.
Que um pouco de ouro se espalhasse, e as comportas que rebatem o oceano de sua cólera seriam por elles abertas de par em par, para te mergulharem em um pélago de agonias.
Tu os verias até combater por soldar o sceptro de ferro que quebrámos, se nessas almas mesquinhas houvesse valor para escutar o silvo do pelouro, para ver o lampejar da espada erguida.
Ouvi-los-hia protestar que as suas mãos estavam puras do sangue vertido nas luctas da liberdade, nas luctas de um contra dez; que entre si e esse cantinho de Portugal revolvido durante um anno pelas bombas e granadas, varrido pela metralha, fustigado pelo granizo das ballas, visitado longamente pela fome e pela peste, tinham mantido com esmero a moderada distancia que medem as solidões do oceano.
E falariam verdade; e sería porventura o unico dia da sua vida hypocrita em que assim o fizessem.
XX
N'uma visão ajuncta Deus o passado e o futuro; porque para elle não existem nem espaço nem tempo. Visão, pois, do Senhor foi a que se me representou.
Parecia-me ver uma grande cidade: rodeiavam-na antigos muros e baluartes, cruzavam-se ruas estreitas e tortuosas dentro do seu ambito, semelhantes á rede do pescador, e, por entre uma selva de edificios humildes, surgiam, aqui e acolá, torres ponteagudas subtilmente lavradas, e templos alumiados por frestas esguias ornadas de vidros corados, que reflectiam o sol occidental em espectros de luz variadissima.
Grande numero de cavalleiros corriam pelas praças, e iam armados de elmos e saios de malha e grevas de aço, que scintillavam, e nos seus olhos e faces assomavam espíritos valorosos.
E os campos circumstantes estavam cultivados, e a cruz plantada em todos os termos dos caminhos e em todas as encruzilhadas.
E conhecia-se nos rostos dos homens que passavam pela cidade e pelos campos que em seus corações havia virtude e contentamento.
E proxima desta povoação estava outra muito mais aprazivel no primeiro aspecto: as suas ruas eram espaçosas: aformoseiavam-na os jardins e hortos, e surgiam no meio della nobres e opulentos edificios.
Viam-se ainda ahi alguns templos, mas arruinados e solitarios, e como que monumentos da queda de toda a crença.
E os campos que se dilatavam ao redor della estavam áridos e ermos. Nem uma só cruz lá se descobria.
E os homens passavam silenciosos uns por outros. Das almas, turbadas por paixões tempestuosas e por crimes, subiam-lhes ás frontes annuviadas, em ondas de sombras, os escuros pensamentos.
E estas duas cidades eram a imagem dos tempos que foram e dos tempos que hão de ser.
XXI
E na cidade do passado os coruchéus e eirados dos seus apinhados edificios eram para os meus olhos, que divisavam tudo quanto se passava no interior dos aposentos, como o crystal translucidos.
Em uma das quadras de um desses edificios estava um velho, e derredor delle suas filhas, que o cercavam de amor.
E ao canto via-se um arnez, por muitas partes falsado e roto, e um elmo abolado e com as enlaçaduras quebradas. Só ahi faltava uma espada.
E quando eu considerava este velho guerreiro rodeiado dos seus e as alfaias e os adornos desta habitação tranquilla; quando bebia o halito de paz que tudo ahi espirava, um mancebo armado entrou na sala: na cincta trazia mettido um estoque largo e curto, espada do homem valente, cujo punho em cruz lhe assentava sobre o coração.
E dos labios das donzellas partiu um grito: este grito dizia que o mancebo era seu irmão. Abraçando-o, os olhos se lhes arrasavam de lagrymas.
O velho ergueu a cabeça e olhou com aspecto severo para o soldado, que se aproximou de seu pae, como se estivera perante o seu juiz.
Fronteiro d'Africa!—disse o ancião—posso acaso abençoar-te como filho, ou cubriste de infamia o meu nome e a minha espada? Quaes foram teus feitos no serviço da patria, da religião e do rei?
E o moço, calado, desenlaçou a couraça e, afastando as roupas que lhe cubriam o peito, mostrou as cicatrizes de golpes da lança do arabe e do alfange mourisco.
E o velho, alevantando-se tremulo, contava-as, e as lagrymas também lhe banhavam o rosto, e depois apertou o filho entre os braços por largo tempo.
D'ahi a pouco, armas ainda não ferrugentas estavam encostadas ás do ancião no angulo da sala, e afóra ellas, via-se lá uma espada.
E esta familia era feliz; porque havia ahi virtude, honra e amor filial e fraterno.
Mas esta parte da visão passou, como um sonho formoso; como os homens virtuosos dessas epochas, sobre os quaes dorme o silencio dos tempos que já não são.
XXII
E o espirito de Deus collocou-me sobre a moderna cidade.
E aos meus olhos estavam patentes os segredos domesticos e a vida intima da sociedade, e observando-os, o coração me desfallecia á vista de tantas abominações.
Via a corrupção em quasi todas as familias; crimes em grande numero dellas; temor de Deus quasi em nenhuma.
E clamei ao Senhor na minha afflicção, e disse-lhe:—Oh meu Deus, porque abandonaste este povo?
E dos céus me foi respondido:—O povo é que abandonou os caminhos da salvação e se afastou de sob as azas da piedade divina.
O perjurio foi sanctificado pelos que se chamaram eleitos do povo, e este os victoriava quando elles assim quebravam o mais forte vinculo social, e preparavam a quéda da republica.
A religião avíta apresentou-se ás portas do senado, pedindo a esses homens soberbos a deixassem subsistir neste paiz desgraçado, para enxugar lagrymas de desditosos e ser a ultima esperança daquelles que perderam todas as outras.
Porém, como prostituta vil, a religião de nossos paes foi coberta de motejos, e, entre risadas, lançada fóra do sanctuario das leis.
E houve ahi quem dissesse:—Que temos nós com Deus?—E as turbas approvaram o dicto.
E o Dominador dos orbes respondeu:—Nada terei comvosco!
E o universo tremeu a estas palavras, que logo foram escriptas no livro da morte.
Ai daquelles que romperam o pacto do Creador com a creatura: ai daquelles por cuja bôca falou o espirito das trevas. A blasphemia cahirá sobre a cabeça dos blasphemadores; e o sepulchro lhes dirá onde é a patria dos que motejam de Deus!
E esta voz de cima acabrunhou-me o coração; porque não sabia como desculpasse perante a Providencia os peccados do povo. O anáthema estava lançado, e a consciencia me dizia que o céu tinha sido justo: nem ousei implorar outra vez a misericordia divina.
Então olhei para a cidade que me ficava debaixo dos pés, onde sussurrava um ruido de vida, mas ruido semelhante ao de mar procelloso e ameaçador de naufragios.
E só descobri rixas e bandos civis, e assassinios atraiçoados e dissoluções, e o roubo e a embriaguez.
O filho passava por juncto do feretro materno, que homens pagos levavam com escarneos ao campo do esquecimento, e perguntava o nome desse cadaver.
Juncto ao leito de pae moribundo, as filhas entregavam-se á prostituição, e ao velho, morrendo, era ultimo sentimento o do opprobrio.
Longa era esta scena de crimes, e parecia-me que fechava os olhos para não ver tão horrivel espectaculo. Neste momento a visão desvaneceu-se, e achei-me banhado em suor frio e repassado de amargura.
E por impossivel tinha que tão negro futuro houvesse nunca de verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que diziam:—Guerra á religião do Christo!
Então cri na visão que o Senhor me enviara, e apagou-se-me na alma o ultimo clarão de esperança.