Front matter (continued 4)
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Em que pensava Alvaro? Como scismava elle em sua prima? Amava aquella mulher, que vira cinco annos antes. Não formava idéa alguma da mulher, que era cinco annos depois. Nunca mais a vira, nem quizera ver. Desde que pessoa descuriosa lhe disse, sem proposito, que a vira, muito outra do que era, em casa da prima condessa de tal, e no theatro de S. Carlos, Alvaro deixou de frequentar o theatro, local unico onde o levava a suave tristeza da musica.
Dizia-lhe sua mãe, um dia, que Leonor se queixava a Eufemia de não ser convidada para casa de sua tia. Alvaro respondeu:
—A mãe póde recebel-a; mas avise-me com antecipação para nos não encontrarmos.
—E, todavia, meu filho—replicou a mãe—estás sempre perguntando-me se a mezada será sufficiente para o bem-estar de Leonor!...
—Que tem que ver uma cousa com outra, minha mãe!? É um pouco de dinheiro inutil, dinheiro que nunca me lembrou quando eu pensava em ser feliz com Leonor. Se o dinheiro não entrava por nada nas minhas contas, signal é de que não representa algum affecto de coração a minha prima.
—E se ella se despenhasse em novo precipicio? Se casasse com um homem que a expozesse a novas miserias?
—Dando-me minha mãe licença, continuaria a soccorrel-a, e a luctar contra a estrella fatal d'aquella infeliz.
—E crês tu na fatalidade, filho?...
—Creio, minha mãe.
—E a virtude que fica sendo?
—A fatalidade do bem.
—Não achas mais racional submetter á Providencia Divina, e á deducção dos actos humanos o que tu chamas fatalidade?!
—Eu—disse Alvaro com profunda amargura—não sei o que é melhor, nem mais racional, minha mãe... Se quer que eu lhe diga o que sinto... o melhor é... não viver; o bem supremo da vida é esquecêl-a. O que é a embriaguez no homem de espirito que conhece o travo da peçonha que bebe? O que é o suicidio, senão a passagem para o esquecimento?
—Deves ter soffrido muito, meu filho, porque te vejo sem religião?...
—Não tenho a religião que ora, tenho a que perdôa, e se amisera de amigos e inimigos. Minha virtuosa mãe tem esta, e a da oração. Deus me será bom e piedoso pelos merecimentos de minha mãe...
Este dialogo foi interrompido por um recado de uma senhora que desejava fallar a Alvaro.
—A mim!?...—disse elle, admirado—e foi á sala onde o esperava a senhora.
Viu elle uma dama trajada de preto, com semblante de quarenta annos amargurados, e um complexo de adornos, que denotavam pobreza.
—Não a conheço, minha senhora—disse Alvaro.
—De certo, não. Eu sou a mãe de dous filhos de seu pae—respondeu ella em italiano—sou a desgraçada que acompanhou seu pae do theatro de Milão para Lisboa ha dezeseis annos. Vi o snr. Alvaro criancinha ao peito de sua ama, e torno a vêl-o homem com a reputação igual á das virtudes de sua nobre mãe.
A italiana enxugava as lagrimas.
—Queira continuar—disse Alvaro.
—Quando seu pae me abandonou ao meu funesto destino, tinha eu dous filhos, dos quaes elle quiz senhorear-se; eu, porém, sobre ser infeliz, era caprichosa, e não sei mesmo se boa mãe: não lhe dei os filhos. Em quanto a belleza me inflorava o vicio, aturdi-me nas pompas, e nos delirios d'uma brilhante ignominia; mas não olvidei a educação dos meus pobres filhos: sustentei-os n'um collegio, até 1832, época em que eu envelheci, e de repente cahi dos ouropeis da minha opulencia ao charco da miseria. Tirei do collegio os meus filhos: o mais velho era um demonio, o outro um anjo. O anjo levou-m'o Deus um anno depois, quasi fulminado pela colera-morbus; o outro ficou ao pé de mim como instrumento nas mãos da Providencia para minha expiação. Meu filho pedia-me contas do luxo, que vira em minha casa, quando criança: eu não podia responder-lhe. Quiz eu forçal-o a respeitar-me, e elle reagiu com ameaças á minha severidade. Um dia desamparou a minha casa, roubando-me as poucas alfaias de algum valor, que eu guardava para não ir tratar-me na ultima doença a um hospital. Passados dias, soube que elle estava no Limoeiro, preso por furto. Desfiz-me de quanto tinha para as primeiras necessidades do meu uso, e consegui restituir o furto ao dono, e a liberdade a meu filho. Fui, depois, lançar-me aos pés d'um homem, que me conhecera em tempos felizes... felizes!... que falsa apreciação!... Pedi uma qualquer occupação para meu filho, e alcancei empregar-se na alfandega, em lugar de bastante responsabilidade. O desgraçado parecia regenerar-se; não houve queixa d'elle em dous annos; eu julgava-me bemquista da sorte, e contava com o pão da velhice. Ha oito mezes que um grande roubo se descobriu na alfandega, e meu filho é convencido de ladrão de grandes valores, valores que elle perdeu no jogo e dissipou na libertinagem. Ha quinze dias que o filho de seu pae, senhor Alvaro, foi condemnado á grilheta por toda a vida.
A italiana esperou que os soluços a desafogassem, e continuou:
—Eu não venho pedir ao generoso filho do pae do condemnado que o salve, pagando o roubo, que sobe a muitos contos de reis. O que venho de mãos erguidas supplicar é que vossa excellencia empregue o valimento dos seus amigos para que a pena seja commutada em degredo perpetuo, sem o ferro aos pés, que assim o pede o desgraçado.
Alvaro ergueu'a mulher, que ajoelhara, e disse-lhe:
—O nome de seu filho?
—É Julio de Macedo.
—Farei o que poder. Vá a senhora dizer-lhe que espera alguma cousa dos meus esforços.
A italiana fez menção de ajoelhar outra vez, desconfiada da frieza d'aquellas palavras: impediu-a Alvaro, e seguiu-a até ao topo da escada.
Maria da Gloria, mais por amor de mãe que por curiosidade de mulher, tinha ouvido tudo. Sahiu, como desapercebida ao encontro de Alvaro, e disse-lhe risonha:
—Com que então as damas de Lisboa vem assim á hora do dia procurar-te em casa!? Queira Deus que me não raptem o meu Alvaro!...
Sorriu-se o moço, e ficou pensativo, cogitando no modo como fallaria a sua mãe.
—Em que pensas, filho!?—tornou ella rindo em gargalhada—Estás ainda arrobado na visão da deidade, que te veio roubar o socego?!... Diz o que sentes, Alvaro!
—Logo, minha mãe, logo...—respondeu Alvaro, cada vez mais enleado.
—E por que não ha-de ser já?!—redarguiu Maria da Gloria com gravidade—Estarás tu espantado, ou envergonhado de saber que uma boa arvore produziu fructos tão maus!?
Alvaro encarou com assombro em sia mãe, e tartamudeou alguns monossyllabos.
—São aberrações—proseguiu ella—Não lhe ouviste dizer á pobre mulher que o mais novo era um anjo? Ahi tens... Foi como as arvores que dão aromas e veneno... Não tens porque scismar, meu Alvaro. Faz a tua vontade completa e generosa como eu a adivinho. Tens authorisação minha para levantares o dinheiro que quizeres. O teu fausto, segundo vejo, é a caridade obscura: pois bem, goza plenamente as regalias que a fortuna te dá.
Alvaro Teixeira foi encarregar o advogado de sua casa de solicitar o perdão do condemnado a preço da quantia em que fôra avaliado o roubo. O solicitador desanimou quando lhe disseram o avultado da quantia. Alvaro, porém, authorisou-o a advogar o livramento, por todo o preço. Julio de Macedo foi um dia chamado para receber o alvará de soltura, e appareceu em casa de sua mãe, quando esta, esperançada nas promessas de Alvaro, desfazia os ultimos lençoes para fazer camisas, que seu filho levasse para Africa. O perdoado não sabia dizer como fora livre; a mãe, desvariada de alegria, não atinava a contar ao filho o modo como o salvara. N'este lance, appareceu Alvaro, e recebeu nos braços a italiana, e o filho de seu pae, a quem chamou irmão.
O filho da italiana não conhecia o filho de seu pae. Balbuciava palavras de gratidão, tão envergonhado do crime, como assombrado d'uma virtude em que não acreditava. Alvaro atalhou assim as exclamações da antiga locataria do palacio de Belem:
—Seu filho inutilmente pediria hoje um emprego. A senhora não póde contar com os meios d'elle para a sua sustentação. Meu pae, como a senhora sabe, tinha uma propriedade nos arrabaldes de Napoles, que eu conservo ainda, da qual, com o consentimento de minha mãe, lhe faço doação. Acho acertado que a senhora e seu filho vão lá viver, e levem as lições da desgraça para a conservarem.
D'um mesmo impulso, mãe e filho se lançaram aos pés de Alvaro, com exclamações e lagrimas.
—As lagrimas são um segundo baptismo em alguns olhos—disse Alvaro—Permitta Deus que o filho de meu pae se regenere com as que lhe vejo no rosto.
D. Maria da Gloria firmou a doação, e a milaneza com seu filho, partiram para Italia. Vinte e dous annos depois, me disse aquelle santo dos Olivaes que a antiga actriz morrera velha e feliz; que Julio de Macedo conservava ainda a quinta, e honrava uma alta patente no exercito da Sardenha. Perguntando-lhe eu quanto lhe custou a regeneração d'aquelle homem e a velhice venturosa da amante de seu pae, elle me respondeu:
—A fortuna de duas familias independentes.
XVII
Un groupe de Dalila et de Sanson avec celui de la farouche Judith serait toute la femme expliquée.
BALZAC.
Tinham decorrido dous annos depois da viuvez de Leonor. Na correnteza d'este espaço e quasi no termo d'elle, falleceu Sebastião de Brito, legando simplesmente alguns rolos de pergaminhos e a memoria dos seus desvarios senis. De paixão d'alma diziam os facetos que elle tinha acabado; mais serias averiguações, porém, dão que o homem succumbiu a uma febre gastrica, procedente de uma cêa no Farrobo, em casa do hospedeiro e luxuoso conde d'aquelle titulo. Não devem esquecer alguns desastrados successos pertinentes a esta época, e vem a ser que o fidalgo de Porto-Alvo morreu envenenado, consoante a fama dizia; e que sua sobrinha passou a segundas nupcias com um primo de Alemquer, e vivia ainda honrada e feliz em 1859. Achei tambem nota de que a criada, confidente da morgada, dias depois do assassinio de Miguel de Sotto-Mayor viera á margem direita do Tejo, cuspida por uma onda, e com claros vestigios de ter sido estrangulada. E de presumir que o fidalgo atirasse ao Tejo com a unica testemunha do seu crime. Se o boato da peçonha é exacto, não será peccado dizer que a casa do Porto-Alvo, não desfazendo no seu brazão, encerrava uma tribu de scelerados.
Leonor, não podendo com a soledade dos Olivaes, pediu a sua tia licença para viver em Lisboa. Maria da Gloria hesitava em conceder lh'a; mas Alvaro achou rasoavel o pedido, e desculpou a solicitação de sua prima.
Transferiu-se para Lisboa a viuva e com ella o seu trem. Tomou um palacete em Buenos-Ayres, e abriu os seus salões a uma partida semanal de parentes e amigos intimos. Estes chapados «amigos intimos» são ás vezes os inimigos de fóra. Taes foram os que vulgaram o cortejo da viuva a um moço sem nascimento nem posição, homem de letras em disponibilidade, insinuando-se, a titulo de genio, entre as pessoas, tambem de genio tão benevolo e tolerante que o recebiam.
Soube Maria da Gloria as atoardas que corriam á conta de sua sobrinha, e communicou-as a Alvaro.
—Pois a mãe que esperava!?—disse este—Leonor teve treguas de dous annos. A fatalidade refez-se de vigor, e volta á lucta.
—E qual achas tu que é o nosso dever?
—Luctar a favor da mais fraca. Aconselhe-a, minha mãe; e, se não podér nada com ella, ampare-a como até aqui.
—E se eu lhe retirasse os meios—replicou Maria da Gloria—crês tu que o segundo calculista a não deixaria em paz?
—Deixaria: mas Leonor desceria na escala social até achar um indigente como ella.
—Á vista d'isso, filho, julgas incurável tua prima!?
—Julgo, mãe.
Foi Maria da Gloria a Buenos-Ayres, em hora de não receiar concorrencia, e poz logo o dedo na chaga.
—O teu mau anjo não te deixa, Leonor?
—Porque falla assim, minha tia?
—Dizem-me que estás á beira d'um segundo abysmo. São falladas as tuas intelligencias com um homem, que offerece menos condições de felicidade que o primeiro. Como tens tu coração para o amor, filha? Por que não quer Deus que chegue para ti a hora da reflexão? Como pagas tu o que deves a ti, á sociedade, e a mim? Levanta-te d'essa miseria, Leonor! Recobra a tua dignidade enxovalhada! Lembra-te das lagrimas, que choraste nos braços de Eufemia! Medita um pouco no nobre coração de meu filho, cuja alegria mataste, e envergonha-te dos novos ultrajes que preparas áquelle anjo, que te protege!
Leonor sahiu d'uma reconcentração de minutos para beijar a mão de sua tia, soltando estas palavras:
—Agradeço a esmola a minha tia, e a meu primo a philantropia. Agora fallarei, se me dá licença. Meu primo tem-me beneficiado: eu bem sabia que elle não era estranho á esmola que tenho recebido; mas quizera antes a certeza de que esta beneficencia pertencia exclusivamente a vossa excellencia. Meu primo tem-me favorecido para me humilhar.
—Explica-te, Leonor...—atalhou Maria da Gloria estarrecida de espanto.
—Eu vou explicar-me, minha tia. Se Alvaro olhasse com piedosa vista para os meus infortunios, aliás respeitaveis por serem do coração, teria apparecido a meu lado, não como o amante despeitado, mas como o parente, que sacrifica os caprichos do coração ao dever misericordioso de rehabilitar moralmente uma mulher. Fui muito desgraçada, e era-o mais por entender que meu primo se regosijava a cada escaleira, que me via descer para a miseria, na esperança d'elle ahi descer com alguns punhados de ouro a fartar-se de vingança. Quando minha tia me enviou a sua criada com a primeira esmola, cuidei que mais tarde acharia nos meus parentes proximos a esmola de consideração, que mais necessaria me era. Passaram mezes, e o vilipendio do ouro vinha regularmente ás mesmas horas, e no mesmo dia; mas uma palavra de amor, o pão do espirito, essa nunca. Eu aceitava o ouro porque tinha um marido que me culpava da minha pobreza; porque tinha um pae que me regalára a mocidade com magnificencias superiores ás suas posses; porque tinha um nome que as sombras do infortunio empanavam, como se a arvore de tronco illustre se atascasse no lodaçal da pobreza; porque tivera uma educação com que a penuria se não conformava; porque, finalmente, humilhada por parentes, começava a sentir-me despresivel aos meus proprios olhos. Depois de viuva, permaneci dous annos nas austeridades que raros exemplos me tinham ensinado. Contrafiz a minha indole para bem merecer a estima de Alvaro; esperei que elle fosse á minha soledade santificar a esmola com uma palavra de irmão. Se elle ahi tivesse ido, eu curvaria a cabeça diante do heroe, e pedir-lhe-ia licença para beijar a terra honrada pelas suas botas. Vim para Lisboa, depois de dous annos de humilhação; e pedi licença a minha tia, porque receei que meu primo, não saciado ainda da desforra, contrariasse a minha vontade, e me reduzisse a voltar ao ermo dos Olivaes por não ter com que comprar a vida luxuosa de Lisboa. Quer minha tia saber como eu denomino este acto de desesperação? É uma cousa que modernamente chamam «cynismo»; é aquillo que eu já disse—o despreso de mim propria. Agora vamos ao ponto da sua inesperada visita. E certo que eu amo um homem, que nasceu não sei de que mulher, e tem tanto a dizer-me das suas qualidades pessoaes que nunca fallou das qualidades dos seus avós. É pobre como eu. Não pede a ninguem o pão de cada dia; lavra-o com a sua intelligencia. E creia, minha tia, que elle acha quem lhe dê por duas horas de trabalho o que me não dariam a mim pelas pedras de armas da quinta que meu pae desbaratou. Este homem pobre é quem convém á mulher nas minhas circumstancias. Eu hoje comprehendo melhor as privações com um amigo do que as pompas na solidão. Tenho vinte e sete annos. E cedo para o claustro, e é tarde para esperar, no recato de donzella, que algum singular amante da Thebaida me vá procurar na minha obscuridade. Se minha tia me vem dizer que retira a sua esmola, beijo-lhe as mãos pelo que lhe devo, e beijaria as de meu primo tambem pela sua philantropia. Ámanhã voltarei para os Olivaes. É verdade que os bens que possuo estão hypothecados a uma antiga divida de meu pae a meu tio Manoel, e vossa excellencia póde mandal-os tomar como seus. Não importa. Está lá uma casinha, que eu mandei fazer para uma velha criada de minha avó. A velha morreu ha pouco, e testou-me a casinha, que os credores de certo não querem; irei lá viver.
Calou-se Leonor.
Maria da Gloria, já em pé, olhou com muita amargura a sobrinha, e disse:
—Foste injusta, Leonor. Devem até os anjos compadecer-se da alma injuriada de meu filho. Não te castigue Deus, que eu, em nome de Alvaro, te perdôo. Cumpre o teu destino, desgraçada; e, quando o remorso te perseguir no extremo refugio do que tu chamas «cynismo», foge para mim que eu te abrirei os braços.
Leonor não ergueu os olhos das alcatifas: era de soberba, e não de abatida, que ella desfitara a vista do magestoso aspecto de sua tia.
Sahiu Maria da Gloria, e não teve que dizer ao filho. Interrogada por elle, escassamente referia alguns dos queixumes de Leonor, como a necessidade d'um amigo, a negação para a vida solitaria, o cançasso do sofrimento, e a sympathia que a ligava ao homem, com quem desejava casar-se.
Alvaro apparentou natural placidez, e, n'outro ensejo em que fallavam sobre o mesmo motivo, disse:
—Esse homem julgará rica a prima Leonor?
—Cuido que não: elle deve saber que Leonor vive da beneficencia dos seus parentes.
—Hei-de sabel-o com certeza. Se o homem a ama pobre, e não conta com o beneplacito nem com os recursos dos parentes para o casamento, é um nobre caracter. Estou que a belleza de Leonor não fascina alguem...
—Como has-de tu sabel-o, filho. Conheces por ventura o homem?
—Conheço-lhe os escriptos, e recordo-me vagamente de o ter visto no collegio, nos meus ultimos tempos.
Foi Alvaro ao collegio, e fallou largo tempo com o seu antigo amigo, professor de inglez. Dias depois, procurou-o o mestre, e respondeu assim ao encargo, que recebera:
—Fallei com o jornalista. Aquillo é uma alma lavada como pedras de amolar! Apenas lhe toquei no assumpto, accendeu o cachimbo, cobriu as pernas com as abas do chambre de sêda desbotada, e refestelou-se na poltrona velha como um turco, para me dizer o seguinte: «Não ha duvida que eu namoro a viuva, primeiro porque é romantica, segundo porque é romantica, terceiro porque é romantica.»
—E porque é rica—atalhei eu.
—Ah! sim! e porque é rica: então é por quatro razões, e não por tres. Acho eu que vem a ser quatro as razões...
—Não, senhor, são simplesmente tres, porque a quarta é uma sem-razão. D. Leonor é pobre.
—Pobre! ora essa! conte-me isso, meu bom amigo!
Disse-lhe eu que a viuva vivia da beneficencia dos seus parentes, e que os parentes da viuva não estendiam a sua caridade até aos maridos inconvenientes das suas parentas necessitadas.
—Mas aquelle palacete dos Olivaes, que eu hontem fui vêr—redarguiu elle—e aquell'outro de ruinas tão poeticas; e aquellas duas quintas que se espreguiçam na margem do aurifero Tejo... que me diz o senhor a isto?
—Digo-lhe que os palacetes e as quintas não são mais da viuva que meus. Tudo aquillo está hypothecado, penhorado, consumido, &c., &c. Mas—conclui eu—as tres razões, que o meu nobre amigo expendeu, prevalecem, apesar de tudo. A viuva Sotto-Mayor é sem questão tres vezes romantica.
—Diz muito bem—acudiu elle:—o casamento ha-de fazer-se, quando eu for tres vezes romantico; mas, por em quanto, bem vê o meu caro mestre e amigo que eu laboro na prosa villôa do artigo de fundo.
—Quer dizer...
—Que hei-de abrir o meu coração á viuva, e a minha bolsa mesmo, se ella quizer. Se me não engano, a viuva é litterata, e sabe da seita philosophica, que tinha, como eu tenho, horror ao vacuo. Resta-me agradecer-lhe as tão espontaneas como miudas informações, e aqui estou ás ordens.
—Aqui tem o senhor Alvaro—continuou o professor de inglez—o que passei com o litterato Mascarenhas. Agora, peço perdão da liberdade com que expuz fielmente o texto da nossa conversação.
Alvaro, tendo contado a sua mãe o picaresco dialogo do litterato e do mestre de inglez, disse:
—Agora, minha mãe, esperemos. Não estão muito no meu genio estas encobertas operações; mas a intenção é salvar Leonor.
Mascarenhas foi á partida da viuva, como costumava. Nunca tão amorosa e manifestamente se revelara Leonor, a elle e aos hospedes maravilhados. Ao despedir-se do escriptor, disse-lhe ella:
—Extremamente desejo fallar-lhe ámanhã depois do meio dia. O cavalheiro de certo não falta.
—Oh! minha senhora!... quem quer faltar á sua propria dignidade!?
—E por que não diz «ao seu proprio coração...»?—retorquiu ella com despeitado sorriso.
—O coração, minha senhora, é tão de vossa excellencia, que não se atreve a entrar nos juizos do espirito...
Leonor achou conceituosa a razão alambicada do litterato, e esperou anciosa o dia seguinte.
—Vou responder—disse ella—cathegoricamente ás suas cartas. O pensamento reservado de todas ellas é uma ligação, que faça respeitavel e sagrada a paixão que o meu amigo encarece nas suas cartas, não é assim?
—Com que outro intento podia eu dirigir-me a vossa excellencia?!
—Bem! Resolvido está por tanto a ser meu marido?... Não lhe cause estranheza o estilo secco e desornado da pergunta... assim é preciso.
—Respondo, minha senhora. Primeiro que tudo, eu amo tanto vossa excellencia quanto a respeito. Acima d'estes dous sentimentos está o da amisade, que lhe dedico, e o da gratidão à benevolencia com que me tem distinguido em sua casa. Vossa excellencia não ama os grandes preambulos, e por isso vou já direito á materia sujeita. Se eu acceitasse a honra, que vossa excellencia me dá de querer alliar-se á minha vida, sacrifical-a-ia, minha senhora. O mesmo seria obrigal-a a trocar por um coração dedicado as regalias de que se está gozando com grande inveja das suas amigas. Que vale um coração dedicado em confronto do bem-estar, da segurança do dia seguinte, das considerações desveladas, que rodêam vossa excellencia?
—Elucide-me...—atalhou Leonor—A sua linguagem é escura!
—Escura é a existencia sem meios de a fazer brilhar, minha senhora. Eu sei, tambem como vossa excellencia, que os seus muitos recursos procedem da amisade d'uma tia millionaria, que vossa excellencia tem.
—Não ha duvida; mas eu não disse ainda a vossa senhoria que me dotava com estes recursos, e vossa senhoria, nas suas cartas, falla-me da felicidade da solidão, e da doçura do pão ganhado com o nobre trabalho da intelligencia.
—Tambem é certo—redarguiu algum tanto confuso o jornalista—era, porém, intento meu fazer o elogio da mediocridade em relação áquelles que não conheceram a opulencia. Neste caso não está vossa excellencia: estou eu; mas eu é que não devo sacrificar a felicidade real da senhora D. Leonor ás minhas phantasias de philosopho. Todavia...
—Queira dizer-me—interrompeu a viuva—a quem pediu informações dos meus recursos?
—Não as pedi, minha senhora: seria grandemente ignobil o pedil-as; não as averiguei; deram-m'as.
—Quem?
—Conhece vossa excellencia por ventura um mestre de inglez!?
—Conheço.
—Como conhece, minha senhora?
—Fallou-lhe esse homem em meu primo Alvaro Teixeira de Macedo?
—Não, minha senhora; limitou-se a dizer-me que vossa excellencia não tinha absolutamente nada que lhe segurasse a futura subsistencia, se contrahisse segundas nupcias contra vontade dos seus parentes.
Leonor ergueu-se, sahiu da sala pisando com soberana arrogancia, e o litterato ficou perplexo com os olhos cravados na porta por onde a vira sahir.
Instantes depois, entrou um criado de farda, e disse ao cavalheiro:
—Sua excellencia manda sahir.
Mascarenhas tomou o chapéo, e retirou-se tão affrontado como se tivesse espirito muito susceptivel ás injurias.
Leonor não recebeu alguém n'aquelle dia. O seguinte era o ultimo de Setembro de 1838. Eufemia era esperada com a mezada n'esse dia. Não era esperar, era ancear em phrenesis a agitação de Leonor.
Quando Eufemia entrou, estava a viuva vestida de preto, com o fato avelhentado do lucto de ha quatro annos e já de chapéo.
—A senhora vai sahir, e de lucto carregado?!—disse a criada—Que tem, senhora D. Leonor?! a menina tem febre!
—Trazes-me a esmola?—disse Leonor com desabrimento—Leva-a a tua ama, e ao teu amo. Diz-lhes mais que venham tomar conta do que esta casa encerra. Tudo isto não vale um terço do dinheiro, que recebi; mas é honra pagar pouco, e ficar sem nada. Diz a meu primo que esta nobre desgraçada repelle a mão bemfeitora que larga o ouro, e aperta o cabo do punhal com que se mata a dignidade dos infelizes. Diz a meu primo que o rotulo da sua caridade é um insulto a mim, que não lhe esmolei o seu ouro, ganhado sobre o balcão. Diz a minha virtuosa tia que a virtude não está sómente nos temperamentos de gelo, que facilmente são virtuosos. Diz isto. Agora, vai, ou fica.
Leonor ia a sahir, e Eufemia abraçou-se a ella, chamando soccorro, por julgal-a demente. Os criados vieram; mas recuaram ante o olhar imperioso de sua ama. Leonor sahiu a pé, só, com os olhos raiados de sangue, e o coração em convulsões. A longa distancia de casa, entrou n'uma sege de praça, e deu ordens ao boleeiro.
Eufemia contou o succedido. Maria da Gloria chorou, e pediu a Deus que não desamparasse da sua vista a perdida mulher. Alvaro ouviu serenamente repetirem-se os afrontamentos de sua prima, e parecia gozar-se dos novos espinhos, que lhe sangravam o coração.
—Esperemos...—disse elle a sua mãe.
XVIII
N'aurez-vous point pitié, jeune homme?... Non, non, j'en ai le pressentiment, une ère nouvelle commence...
R. de LORGUES. (L. das Communas.)
Leonor, apeando no pateo do palacete dos Olivaes, chamou o feitor, e pediu a chave da casa da Luiza: por este nome era conhecida a casa que Leonor dera á sua velha criada, e herdara d'ella, mezes antes. A passo firme abriu a porta, fechou-se dentro, abriu os dous postigos envidraçados, e sentou-se no bahú, que estava aos pés da cama em que morrera a criada. Alli estava tudo como a fallecida o deixára, pobre, mas limpo, a não ser a capa de pó que assentara no verniz de alguns velhos moveis, que Leonor lhe dera. O feitor, se bem que prohibido de a seguir, teimou em vigial-a, suspeitoso do descuido em que a vira vestida, e do desconcerto do rosto. Afoutou-se a pedir-lhe que abrisse a porta, e entrou, rogando que não repellisse o seu velho servo, se estava afflicta. Leonor pediu-lhe um copo de agua, e a chave do bahú de Luiza, parte da herança que ella não tivera tempo de examinar, nem quizera dar a outras criadas, que lh'a pediam, como farrapagem inutil á herdeira.
Abriu Leonor o bahú, e entre a roupa branca, recendendo a alfazema, encontrou um embrulho de dinheiro em prata. «Isto é que é verdadeiramente meu, disse ella; posso com este legado da minha Luiza resistir á morte da fome por alguns dias.» Como o mordomo persistia em rondar as avenidas da casinha, Leonor deu-lhe dinheiro para lhe comprar um jantar como costumava ser o de Luiza, e accrescentou:
—Não cuide que isto é dinheiro de minha tia... É meu, que m'o deixou a minha criada. Achei-o no bahú. A boa velha, que criou minha mãe, economisou toda a sua vida para matar a fome de alguns dias á filha da sua ama, a Leonor de Brito, á ultima morgada dos Olivaes.
O tom d'este dizer dava azo a que o mordomo ia tivesse em conta de douda. Assim o creu, e mandou aviso a Maria da Gloria.
Alli passou o restante do dia. Ao trazerem-lhe o jantar, recebeu-o por um dos postigos, e tomou d'elle o prato menos exquisito, uma pouca de vacca, dizendo que não tinha posses para mais. Pernoitou no leito de Luiza, e abriu alta noite as janellas porque sentiu aquelle especial e nauseabundo cheiro das exhalações cadavericas.
De madrugada, abriu a porta, e sentou-se no unico degrau. Estava abrazada em febre, e, a intervallos, deixava pender para o seio a cabeça extenuada de vagados. Quando presentiu passos nos arredores da casa, recolheu-se e fechou a porta: era o feitor, que passara a noite velando a casinha onde dormia a filha de seus amos.
A febre abrazou-se até ao delirio. Leonor prostrou-se na barra, e sacudia vertiginosamente os braços e a roupa. O feitor chamou criados, arrombou a porta, e collocou sua mulher ao pé do leito da febricitante. Como recobrasse alentos, e se visse rodeada de gente pobre da aldêa, Leonor sorriu a todos, e pediu que a deixassem. Queria ficar de força a mulher do mordomo; ella, porém, tão affligida se mostrou da contrariedade, que conseguiu ficar sósinha. Ergueu-se, cambaleando aturdida, e trancou a porta, porque a fechadura tinha saltado aos empuxões de fóra.
Depois, abriu o bahú, tirou o cesto de costura da criada, e experimentou na extremidade do dedo indicador da mão esquerda a ponta d'uma tesoura. Feita a experiencia e ensanguentado o dedo, escreveu no verso de um papel sellado, que era a certidão de idade da defunta criada, as seguintes palavras, com a cabeça de um alfinete:
«A minha tia Maria da Gloria.
«Não posso com a dependencia, nem tive educação para agenciar a independencia com o meu trabalho. Matei-me d'uma só vez para não morrer mil vezes, aceitando esmolas com a condição de me fazer escrava d'ellas. Dou louvores a Deus por me ter defendido de alguma tentação deshonrosa, até cahir n'esta desgraça. A minha memoria será longo tempo escarmento para infelizes; mas não será vexame para os meus parentes. Agradeço o bem que me fez minha tia; e sinto não ter tido uma alma bastante vil para se não conhecer aviltada. Escrevo no meu perfeito juizo.
Leonor de Brito.»
Dobrou o papel, e collocou-o sobre a mesa em que o escrevera. Arregaçou a manga do vestido, e cravou a ponta da tesoura no sangradouro do braço esquerdo. Como a cisura apenas revesse o sangue, ligou e comprimiu o braço com uma tira de lençol. O sangue espirrou com força; e, de o ver, turvou-se-lhe o animo de modo que já não pôde passar á cama.
Era á hora do jantar. A mulher do feitor batera e chamára sobresaltada; o marido veio depós ella, e quebrou os caixilhos das vidraças, por onde saltou dentro.
Estava Leonor cahida no pavimento. O braço nú gotejava sangue, que salpicava e fazia rego no soalho. Tomou-a nos braços, e levou-a sem sentidos ao leito. Sondou-lhe o pulso, e achou-a viva. Mandou chamar o cirurgião, que morava a um quarto de legua, e vedou-lhe o sangue com pannos adhesivados e compressas.
De repente, deram passagem a alguem os muitos visinhos, que alli chamara a gritaria da mulher do feitor, e se agrupavam á porta: era Alvaro Teixeira.
Foi direito á barra, onde Leonor arquejava, com a vista terrivel de mortal espasmo.
—Leonor! minha prima!—exclamou elle—passando-lhe a mão na fronte—Que sangue é este?!—bradou, vendo as compressas tingidas.
—É que a senhora morgada abriu a veia do braço com uma tesoura...—disse o feitor.
—A minha carruagem depressa aqui!—bradou Alvaro—Ajudem-me a transportal-a.
Tomou-a elle em todo o peso nos braços, fez entrar a mulher do feitor na carruagem, e, com o auxilio d'ella, pôde encostar Leonor ao respaldo, e, com duas cadeiras, formou-lhe apoio para o restante do corpo. Recebeu das mãos do mordomo o papel escripto com sangue, leu-o quanto as lagrimas lhe permittiam, e mandou seguir a carruagem para Lisboa, a passo.
A meio caminho, Leonor reconheceu seu primo, e estremeceu. Fitou os olhos esgazeados nas compressas, e agitou o braço direito como se tentasse arrancar o apparelho. Alvaro segurou-lhe o braço, e disse:
—Que queres fazer, minha prima?! Espera mais algum tempo... Morre, quando me não vires n'este mundo... Deixa-me viver, e vive tu, o tempo necessario para ires d'este teu inferno com a certeza de que eu te amei sempre...
Dilataram-se os labios roxos de Leonor n'um gesto que podéra chamar-se um sorriso, e murmurou:
—Um cadaver...
Alvaro tomou para o peito a cabeça, outra vez, desfallecida de Leonor, e chorou-lhe sobre a face algumas d'aquellas lagrimas, que são no coração humano, como o alimento, a seiva das ultimas esperanças.
E contemplou-a.
Nunca mais a vira desde aquella noite de Julho de 1832. D'aquelle viço esplendido, d'aquella belleza viva e irrequieta, da exuberancia de vida que lhe sahia aos olhos em faiscas e em risos expansivos aos labios, restava a pelle cortada dos ardores da febre, os ossos descarnados, o pallor da agonia, e a desfiguração inteira de todas as feições. E parecia absorvido n'aquelle atormentador enlevo! A expressão dos seus olhos não a soube dizer elle mesmo! Fôra-lhe aquella uma infernal hora de cujas sensações a alma, desmemoriada de tamanho horror, não guardou lembrança.
A carruagem parou á porta de Alvaro. Maria da Gloria e as suas criadas, chamadas pelo desvariado moço, desceram ao pateo, e ajudaram a tirar Leonor, e leval-a a um leito.
—Creio que vem morta...—disse Alvaro—e sahiu para logo voltar com dous medicos. Do exame rapido que estes fizeram, concluiram por esperanças de vida; mas vida de continuados padecimentos, disseram elles.
—A vida da alma—dizia Alvaro com assombro dos medicos—deem-lhe a vida da alma, que eu quero que ella me veja, e me julgue antes de morrer! Um corpo varado de dores, não importa; mas um espirito com a luz da razão!
E, fallando assim, erguia as mãos supplicantes aos medicos. D'estes dizia um ao outro com o frio desdem da sciencia:
—Espirito sem luz de razão creio eu que é o d'elle.
E o outro bamboando sinistramente a cabeça, dizia ao ouvido do collega que Leonor perdera em sangue o que Alvaro perdera em sizo.
Maria da Gloria, a martyr sem treguas, andava repartida entre Deus, e o filho, e Leonor. Invocava o Altissimo pedindo-lhe a vida da sobrinha, que chamava e beijava, cuidando que o halito dos seus labios lhe coavam vida; abraçava-se ao filho alvoroçado, rogando-lhe que esperasse em Deus o salvamento da prima.
Leonor descerrou os olhos quebrantados, mas serenos. Reconheceu a tia e comprimiu-lhe a mão, que sentiu na sua; fitou-os com doçura em Alvaro, e balbuciou:
—Salvam-me as tuas lagrimas, meu amigo!... Pobre Alvaro!... o que tu tens penado!...
Não se enganaram os medicos. A vida voltou lentamente a Leonor, mas jamais a saude. Afrouxaram-lhe os musculos motores de todas as articulações; generalisou-se a enervação, a atrophia, e a frialdade, excepto na cabeça, de que se ella queixava como de fogo que lhe estivesse calcinando as fontes. A isto succederam espasmos, senão antes intermittentes de paralysia em parte dos vasos sanguineos, que formam o coração. O ancear d'estas horas era angustissimo.
Maria da Gloria e Alvaro revesavam-se ao pé do seu leito. Um e outro, conversando, chamavam-lhe o espirito ás ridentes imagens d'uma esperançosa viagem que os tres fariam aos locaes mais pittorescos da Italia. Leonor agradecia-lhes, com sinceras lagrimas de remorso, o amor com que velavam os seus longos paroxismos, e dizia que a viagem a fazer era certa, e de encantadoras visões para sua virtuosa tia e primo; mas não para ella.
É bem de vêr que então a mãe de Alvaro se desentranhava em encarecimentos á misericordia divina, convidando a sobrinha a rezar com ella as orações que soror Joanna das Cinco Chagas lhe ensinára. E Leonor rezava, e com ardente fé, e muito pranto, em cujo espectaculo o coração de Maria da Grioria se embriagava de santas delicias.
Alvaro simulava jovial semblante a sua prima. Fechado, porém, no seu quarto, desafogava chorando, ou escrevendo paginas de muitissima tristeza, mixto de saudade e desespero, saudade da Leonor da sua mocidade, e desespero de não poder tornal-a á belleza de alma e de feições, perdidas para sempre. Cegueira da sua paixão! Alma, com as bellezas da innocencia, quando a teve a fatidica Leonor? Ai! a belleza das fórmas essa é que não ha olhos enxutos que a vejam fenecer de hora a hora; essa é que influe ao animo um pungimento de saudade tão vivo, que eu não sei se ha dor a igualar-se áquella saudade da perdida formosura da mulher que amamos, perdida tambem para nós, no instante em que mais fervorosa adoração lhe da vamos!...
O primeiro dia em que Leonor sahiu do leito, foi festejado não com bailes nem banquetes, mas com liberalidades de esmolas, levadas por Alvaro, de ordem de sua mãe, a muitas familias indigentes, que a denominavam anjo de beneficencia, e gloria do céo. A todos os conventos de religiosas pobres, ou empobrecidas pela mudança do regimen, enviava Maria mensalmente uma delicada dadiva, e Alvaro tinha de sua mão soccorrer alguns egressos, que corriam de noite as ruas de Lisboa, estendendo a mão á caridade indifferente d'aquelles primeiros annos rancorosos do velho odio civil.
Com o lento crescer de forças, accedeu Leonor ao empenho de Alvaro e sua tia: sahiram de Lisboa no estio, correram as provincias do norte, e visitaram Vairão, onde Cecilia, sempre saudosa da sua cella, se deixou ficar esperando a morte bemaventurada dos que a esperam ao pé do altar. Nas visinhanças de Hespanha, Maria da Gloria, desde muito valetudinaria, e então muito quebrantada, causou receios a seu filho, e retrocedeu para Lisboa. Aqui, melhorou de aspecto, e transferiu a sua residencia para a quinta do valle de Santarem.
Leonor escassamente se vigorisára para um curto passeio. Tinha semanas de soffrer e chorar, pedindo a Deus que lhe tirasse a vida. Alvaro era o consolador d'estes desconfortos, umas vezes rodeando-a de improficuas juntas de medicos, outras abalando-lhe o espirito com alegres esperanças. Perguntava-lhe se a convivencia com as suas relações lhe seria desagradavel; experimentou, apesar d'ella, chamando alguns parentes e amigos ao campo, e preenchendo as horas tristes, que lá se vivem, com o que podia inventar o seu espirito attento a minorar as amarguras da inconsolavel doente: inutil tudo, Leonor rogou a seu primo que a não obrigasse a esconder os seus soffrimentos de pessoas estranhas; que a deixasse gozar os instantes de allivio na companhia d'elle e de sua mãe.
—Se não podes dar-me vida, Alvaro—dizia ella—que vem aqui fazer esta gente, a quem o espectaculo da dor enfada?! Cuidas tu que os move a piedade d'este meu estado? Deixa de ser a candida alma, que tens sido, meu primo! Estas familias, que vieram a um teu aceno, souberam que eu vivia miseravel nos Olivaes, e encarregavam-se de exaltar a Providencia Divina, dizendo que eu estava expiando; e, como o valerem-me seria contrariar a vontade de Deus, abandonaram-me... Se me eu tivesse esvaido de sangue n'aquella casinha, onde o nosso fatal anjo te encaminhou, estes parentes, obrigados a fallarem de mim a quem lhes perguntasse a razão do seu lucto, diriam que o meu fim desastrado tinha sido o natural remate das minhas loucuras. Por que não estudaste o mundo, Alvaro? Quando te eu ralava o coração de desgostos, se tu cedesses á curiosidade interesseira do mundo que te chamava, serias a esta hora feliz!...
—Feliz!...—atalhou Alvaro, contemplando Leonor, e cuidando vêl-a formosa, como a tinha amado, quando amava e esperava.
—Feliz, sim; terias odiado, e esquecido a tua pobre Leonor... Se a visses infamada, e perdida nos mais baixos sedimentos da sociedade, passarias por ella, sem que o pejo te dissesse que era nobre estender-me a tua mão. A sociedade não ousaria dizer-te: «valha áquella mulher!» porque a sociedade, se censurasse a tua indiferença la fóra, ao pisar os tapetes das tuas escadas, subiria estudando phrases de louvor á tua probidade. E tu, meu Alvaro, louvado e querido em particular e em publico, andarias feliz e convencido de tua honra. Muita gente diria de ti: «E tão nobre que nem falla d'ella, nem dá margem a que lhe fallem. Os seus amigos, com medo de lhe ferirem o nobre coração, não se atrevem a pedir-lhe que dê as migalhas da sua toalha a Leonor.» E não eras tu assim tão venturoso, Alvaro?! De que te ha servido a tua riqueza? Poderás dizer-me que tens remediado a pobreza de muita gente, principiando por mim e acabando por essas famílias indigentes, cujas bençãos te enchem a alma de thesouros do céo. Pois sim; mas que contentamento é esse da alma, que te não transparece no rosto?! Por que te vejo eu sempre triste?! Por que não ha-de a virtude ostentar as exterioridades de jubilo, que eu muitas vezes senti, sendo tão culpada e contando tantas horas cortadas de desgostos?
Alvaro reprimiu a resposta que, repulsa dos lábios, fallou em lagrimas. Leonor tomou-lhe as mãos com estremecimento carinhoso, e disse-lhe:
—Por que é, meu querido primo? Por que te não dá Deus a felicidade que mereces?
—Dá, minha Leonor...—balbuciou o internecido moço—Dá... é a tua amisade... são as melhores lagrimas do teu coração... Que lhe tenho eu pedido? N'aquelle tempo em que eu olhava para esta época, e te via continuando a estação de felicidade que minha santa mãe me trouxera do seu carcere... n'aquelle tempo, Leonor, gozei horas de alegria celestial... Eu, sem ti, não sabia recordal-as, e nem o bem da saudade me era dado. Agora, quer Deus que a minha alma se alumie á luz dos meus dias alegres... pallida luz, como a da lampada do sacrario ao amanhecer... mas, aqui estou vendo os olhos, que me viram feliz... E tu, Leonor, o teu espirito vive e falla... O melhor de ti era o sentimento que hontem acordou... e a amisade sem os dissabores da paixão... N'aquelle tempo...
—Oh! por piedade, cala-te, Alvaro!...—atalhou Leonor, afogada de soluços...—Não me castigues tu, meu anjo de desgraça e de compaixão...
XIX
.... Já dava no rosto a friagem da noite da eternidade; só faltava regelar de todo... e cahir.
A. F. DE CASTILHO (Fr. F. de Monte-Alverne).
Leonor, ao cabo de dous annos de padecer, difficultosamente sahia do leito. A extrema fraqueza e tremor espasmodico das pernas seguiu-se a paralysia, e a inteira inactividade. Se a tiravam do leito, transferiam-na a uma poltrona de rodas, que Alvaro com sua mão conduzia a uma varanda envidraçada, onde Leonor ficava horas embebecida nas bellezas do céo, e do valle de Santarem. Duas maravilhas então occorreram: nunca mais Leonor se lastimou da sua desgraça. E se acontecia Maria ou Alvaro olharem-na com piedade, sorria ella, e dizia:
—O espirito é feliz; e as dôres abrandaram muito, desde que metade do corpo morreu. Vejo-me meia morta, e não me aterro.
A outra maravilha foi o remoçar-se-lhe o rosto, até á formosura que ella naturalmente conservaria, com vida quieta e bonançosa, nos seus vinte e nove annos. A nutrição encheu-lhe os sulcos das faces; a pelle amaciou-se e restaurou a antiga alvura; volveram as cores purpurinas, e contornou-se o oval do rosto. Eufemia esmerava-se em toucal-a, em quanto ella, sorrindo, dizia:
—Queres por força que a morte se namore de mim!
Alvaro depunha muitas vezes o livro, com que sua prima se recreava, e extasiava-se nos olhos d'ella; mas que amargura elle escondia n'aquelles extasis!
—Vejo os teus dezoito annos, Leonor!—disse-lhe elle um dia.
—Valho hoje mais, Alvaro! Perdi meio corpo, e ganhei o coração!—respondeu ella—A primeira paralysia era a peor...
Maria da Gloria chamou uma vez o filho ao seu quarto, e disse-lhe:
—Vaes ouvir-me, sem sobresalto, meu Alvaro. Eu tenho até hoje escondido de ti o unico segredo, que devia esconder—a sensivel aproximação do meu fim.
—Que é, minha mãe?!—exclamou o filho, correndo a abraçal-a.
—Não é isso o que eu te pedi, Alvaro!... Escuta-me com socego: sê até ao meu ultimo dia o homem forte. Pedi ao meu medico que nunca te revelasse a minha molestia, depois que lhe arranquei a confissão de que ella é incuravel. Eu morro do coração. Os rebates d'esta dolorosa doença senti-os no meu primeiro anno de convento. A minha vida tem sido um milagre. Quiz Deus por intercessão das almas que me presaram, que eu chegasse até aos teus vinte e sete annos, filho. E choras como aos dez, Alvaro! e tiras-me assim as forças de que eu tanto carecia para te dizer o fim para que te chamei!...
—Diga, minha mãe...—atalhou Alvaro com simulada quietação.
—Pois, sim; socega, escuta-me, filho... Que farás tu, depois da minha morte? Em que destino tens tu pensado? Assistirás á agonia de Leonor, ou acabarás por pedir ao mundo um quinhão do contentamento qualquer que te compense da triste vida que tens vivido!? Acharás um dia uma esposa com o coração de tua mãe, ou ficarás esperando a tua hora final, depois que deres a mortalha a tua prima? E a ti quem te amortalhará, meu pobre Alvaro!?
—Hei-de eu amortalhar-me, minha mãe—respondeu elle tranquillamente após alguns instantes de concentração—Agora, rogo-lhe, por quanto amor lhe tenho, que me não faça mais perguntas.
No dia seguinte, pediu licença a sua mãe, e foi Alvaro a Lisboa. Apresentou-se ao cardeal-patriarcha, e demorou-se algumas horas em pratica secreta. Commetteu importantes encargos ao advogado de sua casa, e voltou ao valle. No caminho encontrara o medico de sua mãe, e, como quem ouvira da enferma o terrivel segredo, obteve do medico a confirmação d'uma breve morte. Era a doença um scirro no coração, já em seu periodo final.
Alvaro encontrou sua mãe animada, fóra do leito, ouvindo Leonor, que lia os manuscriptos de seu primo, na maior parte traducções, feitas no collegio. A que ella estava lendo, era a do «Cura do Wakefield» de Goldsmith. Reviam lagrimas suaves os olhos de ambas, quando Leonor lia o XXIX capitulo que eu inculco muito d'alma a todos os desgraçados, e que vem assim intitulado: Demonstração da equidade da Providencia para com felizes e infelizes. Resulta da propria natureza do prazer e da dôr, que os desgraçados devem encontrar na vida futura compensação dos seus soffrimentos.
Alvaro não consentiu que Leonor fechasse o manuscripto, e sentou-se a ouvil-a, até estas linhas que a leitora já lêra a custo, de turvada que tinha a vista por lagrimas: «A morte nada é, e todo homem póde mostrar-lhe rosto sereno; mas os tormentos é que são provações horriveis, que poucos sabem supportar.»
—Não leias mais, filha...—disse Maria da Gloria—conta-nos o que fizeste em Lisboa, Alvaro... Devia de parecer-te nova a cidade! Ha tres annos que lá não tinhas ido!... Com quem fallaste, filho?
—Com poucas pessoas, minha mãe. Passados dias, tenho de me lá demorar algum tempo para negocios nossos.
—Algum tempo!—disse Leonor—e com que placidez de espirito dizes isso, primo! Pois tu deixas-nos por algum tempo!? E podes, Alvaro?
—São sacrificios necessarios, minha prima. Eu hei-de aligeirar a minha demora o mais que possa...
—Soubeste—atalhou Maria—se teem sido cumpridas as nossas determinações?
—As mezadas?... tem sido pontualmente pagas, minha mãe... Parece-me que a vejo reanimada!...
—Estou, filho... Por que te admiras?! No final das jornadas parece que o vigor do caminhante se recobra para maior caminho. A esperança é tudo, meu Alvaro, e, a morte é nada... não o ouviste ainda agora?
Nos tres dias consecutivos, Maria padeceu muito, e perguntou placidamente ao seu medico se seria chegado o termo. Não era. As dôres abrandaram; e o descanço de alguns dias faria reviver esperanças a quem as tivesse vivas e anciosas no espirito.
Leonor, desde que sua tia acamou, pediu que lhe não dessem outro local, senão o quarto d'ella; Alvaro entregou-lhe á sua vigilancia a mãe, e foi para Lisboa.
Ao termo de quatro dias, foi chamado por uma carta de Leonor, atribulada pelo receio de ver morrer sua tia, posto dizer a enferma que não morreria sem ver seu filho, com um ar de certeza e contentamento que parecia instincto do céo. Em carta, escripta de seu proprio punho ao filho, dizia ella: «não te apresses nem alvoroces, filho, que eu pão morro sem te dar o ultimo suspiro.»
A tempo foram as cartas de estar cumprida a diligencia que o levara a Lisboa. Sem respiro, transpoz Alvaro as doze leguas que o separavam de sua moribunda mãe. Diziam as criadas, e Leonor com ellas, que Maria da Gloria, sem delirio nem fraqueza de espirito, horas antes da chegada do filho, estava sempre dizendo, com sombra de jubilo, estas e outras exclamações:
—Como elle vem triste; mas que linda é a sua auréola de justo!
—O senhor condoeu-se da mãe innocente, e deu-lhe aquelle filho. Bemdito seja o Senhor no improfundavel mysterio dos seus juizos!
Foi Aivaro offegante ao quarto de sua mãe, que tinha a cabeça encostada ao peito de Eufemia, e os olhos postos no crucifixo. Maria, ao vêr o filho, nem sequer se aterrou no rosto, a não ser o sorriso instantaneo, que se abriu, na custosa articulação d'estas palavras:
—Não te disse eu que não era pressa, filho? Estou agora socegada; e, se assim morrer, suave é a morte. Tinham-me dito que o morrer d'este mal era horrivel de agonias! Deus faz o que os medicos não sabem... Estás fatigado, Alvaro? Vai descançar... Almoçaste, filho? Vai tratar d'elle, Eufemia... A nossa Leonor, coitadinha, não póde ir... A tua irmã querida... Deixo-t'a como filha.
—Eu vou comtigo, Alvaro?—disse com muita doçura Leonor—Ajuda-me? levas comtigo este meu esquife?
—A mãe quer estar sósinha?—disse Alvaro.
—Quero, filho: está ahi o meu confessor...
Sahiram da camara, e acharam fóra o confessor e o medico. O segundo pediu venia ao medico da alma para vêr a doente. Demorou-se instantes, e disse ao padre:
—Agora é toda sua a missão. Eu não venho em cata de esperanças; vinha espantar-me da serenidade da moribunda.
Depois de confessada, preparou-se o quarto para a recepção do Sagrado Viatico.
Alvaro, quando soube que sua mãe ia ser ungida, entrou no quarto, beijou-lhe a mão com torrentes de lagrimas, e pediu-lhe licença para vir da igreja acompanhando o Senhor. Maria fez um gesto de gostoso assentimento.
Soava já o toque lugubre da campainha, e o «bemdito» do povo, que acompanhava a extrema-unção. Os servos da casa ajoelharam na ante-camara da agonisante. Leonor estava já aos pés do leito, n'um recanto escuro, com as mãos erguidas.
Entrou o ostiario, e ao lado d'elle um outro sacerdote com as ambulas dos santos-oleos.
Ouviu-se um ai agudo, e o nome de Alvaro proferido com espanto. Leonor reconheceu-o, Maria descerrou as palpebras, e balbuciou:
—Não está aqui meu filho!?
E o levita, que entrára a par do vigário, aproximou-se da cabeceira do leito, e disse:
—Aqui estou, minha mãe.
Maria da Gloria estremeceu, estendeu os braços ao vulto que fallára na voz de seu filho, abriu a boca para deixar sahir a respiração convulsa, correu as mãos na face de Alvaro, que se aproximára da sua, e pôde exclamar:
—Tu!... Alvaro!... tu!... ministro de Jesus!
—Já vê que fico amortalhado, minha santa mãe...—disse o padre Alvaro.
Maria poz as mãos, cerrou os olhos, e murmurou:
—Infinitas graças, meu divino Senhor! Bemdito seja o vosso nome, Virgem Mãe de Jesus! Joanna das Cinco Chagas, santa, filha escolhida do meu Deus! pede um raio da tua gloria para a alma da tua serva!
Ajoelharam todos. Maria commungou, e foi ungida. Terminada a ceremonia, e desempedido o quarto, a moribunda acenou ao filho, que continuava de joelhos. Alvaro foi, e curvou-se sobre o leito, applicando-lhe o ouvido aos labios. Os labios de Maria já não tinham palavras; se estavam ainda quentes, era o calor do ultimo suspiro. Tomou-o Alvaro no coração quando a boca se entre-abria proferindo a palavra «mãe!»
Fez-se o terror do silencio alli n'aquelle quarto. Ninguem se desafogou em gritos, porque era de todos a dôr que os afoga na garganta.
XX
CONCLUSÃO
Oublie-toi! dévoue-toi! sacrifie-toi!
J. SIMON (Le devoir.)
E não ha um remançoso abrigo onde saiam a repousar-se e a deleitar-nos estes desafortunados dos prazeres reaes da vida!
De força ha-de o animo do leitor compenetrar-se dos regalos intimos da virtude, para entender que a virtude é boa?
Quando raiará o dia de felicidade para Alvaro?
Quando entardeceu o dia de contentamento para Maria da Gloria?
Peccaminosa pergunta, se o leitor duvida das consolações mysteriosas com que Deus acode e se amerceia dos que o confessam e chamam nas atribulações.
Que ante gosto da bemaventurança não provou Maria, abraçando aquella mortalha de seu filho! Que suave doer, e dulcissimo anhelar a Deus não será o d'aquelle levita na correnteza dos annos, de penitencia voluntaria, e de evangelica abnegação? Não duvidemos: abaste-nos o orgulho da nossa miseria, e não façamos do nosso scepticismo um cadafalso injurioso á dor e á fé. Se em volta de nós não vemos senão imagens nossas, e almas aferidas no padrão vulgar; se a nossa idéa do prazer a aceitamos do vulgo, remodelada nas suas apreciações; será justo que não desdenhemos a felicidade que nos fica incomprehensivel áquem da baliza onde o curto alcance do espirito viciado nos leva.
Se Alvaro foi feliz?! Perguntemos a Deus se os seus martyres correm n'este mundo os estadios de suas dores, sem que a luz ineffavel de seus olhos os não guie ao horisonte da bemaventurança, assignalado pela cruz! E o caminhar sem desvio nem tropeços á patria infinita que nome tem, se não é a felicidade suprema?
Oito dias depois do trespasse de Maria da Gloria, padre Alvaro fallou a sua prima, n'um tom de voz e magestade de postura, que denotava a mudança do homem, ou o esforço d'elle sobre o coração do homem amortalhado.
—Leonor—disse elle—bem me vês: vesti-me assim para a mim me vêr e convencer de que tudo se acabou para mim, menos a vida da alma e as voluntarias mortificações do meu sacrificio. Este caminho é o das alegrias da virtude, por elle irei indo ao lado da sombra de minha mãe, até me identificar com a luz da sua gloria. Se errar o passo dificultoso, a santa pedirá por mim ao Pae compassivo dos que se levantam da queda, chorando. Aqui tens o amigo da tua infancia, minha prima: os teus infortunios ganharam para sempre a dedicação, que a tua paciencia merece, e me ensina a praticar. Deus perdoar-me-ia se te eu agora contasse a longa historia, os longos trabalhos que me custou o morrer do coração. Tu é que me não desculparias a inutil crueza de te dar um espectaculo de angustias, que eu de mim proprio forcejava por esconder. Lá vai tudo. Agora, perdão e paz. Nem lagrimas me dês ás cinzas da paixão desgraçada! Escuta, Leonor, tu tens nos Olivaes uma casa em ruinas. Venho-te pedir que m'a cedas para os dias todos da minha vida.
—A casa é tua, Alvaro; é teu tudo quanto o mundo chamava meu...
—Não sei se eram minhas as ruinas dos Olivaes, Leonor; sei que sinto prazer em pedir-t'as.
—E poderemos alli viver, Alvaro?—atalhou Leonor.
—Eu viverei.
—Tu! e eu não, meu primo?!
—Não, Leonor—respondeu o padre com um ar de firmeza, que não animava a ser contrariado—Ficas aqui, com as criadas de minha mãe, senhora d'estes nadas que pouco importam á tua triste existencia; mas o teu lugar é este onde recende ainda o perfume da mulher virtuosa, que nos levou a Deus a conta das nossas lagrimas.
—E queres que eu aqui fique, Alvaro? não poderei pedir-te que me deixes escolher outra residencia? Respeitarás, ou terás piedade do coração que t'a pede, do coração que não morreu ainda?
—Escolhe, Leonor; quererás voltar a Lisboa? queres antes viver na casa que lá temos?
—Não, meu primo. Dá-me uma cella n'um convento, e uma criada, que me sirva.
—E a chorar me pedes um convento, Leonor?
—Quem deixaria de chorar a esta hora, Alvaro!...
—Eu, bem vês.
—Tu, sim, primo... Só podiam ser do coração as tuas lagrimas!...
—Não são, não devem ser...—Alvaro concentrou-se, levantou ao céo os olhos, e continuou:
—Irás para um convento, deixando-me sem condições a licença de regular a tua casa. As criadas de minha mãe irão comtigo, menos Eufemia, que me embalou o berço, e me ha-de fechar o caixão. Ámanhã iremos para Lisboa. Se, durante a noite a reflexão alterar o teu proposito, dir-m'ohas, Leonor.
No proximo dia, sahiu Leonor com as suas criadas para Lisboa. O padre Alvaro anticipou-se algumas horas, e foi em direitura ao convento de Santa Joanna, e d'alli ao conseguimento das licenças ecclesiasticas para a reclusão de sua prima.
N'esse mesmo dia, entrou Leonor de Brito no mosteiro de franciscanas, e depós ella uma sumptuosa mobilia.
O padre abraçou-a no portico do convento, e disse-lhe:
—A paciencia faz os anjos: pedirás a Deus por mim, quando te sentires alumiada da graça que fortalece e santifica.
Leonor soluçava em gemidos, que lhe tomavam a voz. Alvaro pôz-lhe a mão de leve no rosto, e murmurou:
—Não sejam as ultimas que chores por saudade de nossa mãe... Nossa, de certo, minha irmã!... Juntos seremos em cada prece que ella fizer a Deus.
Alvaro cortejou a prioreza e outras religiosas que assistiam á entrada de Leonor, e sahiu.
No mesmo dia, foi o padre para as ruinas dos Olivaes, onde Eufemia o estava esperando. Em quanto fazia habitavel uma parte do edificio alluido, viveu na casinha, onde encontrara Leonor esvaida de sangue. Reconstruída uma pequena porção do palacio, transferiu-se para lá, e decorou-a com parte dos moveis, que conhecia desde a sua infancia em casa de Sebastião de Brito. Entre estes objectos, de sua casa levara apenas o leito em que morrera sua mãe, e o retrato de João de Mattos.
Os bens de fortuna de padre Alvaro Teixeira eram ainda grandes. Adjudicou a maior parte d'elles ao tratamento de Leonor, e a pensões de algumas religiosas necessitadas do convento d'ella. Para si tomou uma pequena parte dos rendimentos de um capital, que doara a Eufemia. Dizia elle muitas vezes á velha criada «que estava vivendo da beneficencia d'ella.»
Este viver assim durou desde 1839 até 1859. Vinte annos!
N'este longo termo, quando alguem acertava de perguntar por aquelle exquisito Alvaro Teixeira, os melhores informadores diziam em tom de plangente hypocrisia que o pobre moço endoudecera. Lembrem-se do que a tal respeito o sacerdote me disse. Como ninguem soubesse atinar com a razão d'aquella virtude, os mais cordatos chamavam-lhe misanthropia, e os poetas achavam-no digno de ser cantado; mas ninguem cantou o heroe obscuro: a piedade era assumpto mingoado para o estro ambicioso dos romanticos d'aquella época. Esqueceu, por tanto, Alvaro Teixeira amortalhado no seu habito.
É de crêr que lêsse muito, porque a sua instrucção era admiravel, e que soffresse muito porque os seus quarenta e cinco annos eram a decrepidez.
Visitava Leonor ás temporadas, e a secular de Santa Joanna vinha á grade, transportada na sua poltrona de rodas, e chorava a cada traço novo de extemporanea velhice, que divisava no rosto de Alvaro.
Algumas vezes supplicou-lhe que a deixasse ir estar com elle, algum tempo, nas suas ruinas. Alvaro respondia que o seu pacto com ella era encontrarem-se na presença de Deus.
Tinha o padre um amigo em Lisboa; era o seu mestre de inglez, aquelle homem que assistiu commigo ao sublime espectaculo da morte do justo. Accrescentado pelas liberalidades do sacerdote, o professor abandonara o officio, e chegara a merecer por suas virtudes uma distincta posição entre os homens uteis d'este paiz. Se elle tivesse passado, e se a gloria da virtude não fosse a modestia, eu escreveria aqui o nome do amigo digno de Alvaro Teixeira.
Não sei que mais lhes possa dizer da vida d'aquelle padre dos Olivaes. Recordem os primeiros capitulos, e suave lhes será relembrar os santos dictames d'aquella boca ungida das lagrimas que lhe sulcavam o rosto venerando.
Já sabem porque elle se esquecia contemplando a janella fronteira das suas ruinas. N'aquella janella ouvira elle, em noite de baile, vinte e nove annos antes, as palavras de Leonor com que o seu amor inflorára a garganta do abysmo onde cahira entre os braços da piedade e da honra. Tambem se lembram da rapida sabida, que elle fez para Lisboa, ao annunciarem-lhe a agonia de Leonor.
Eu fui ao convento de Santa Joanna, e perguntei a historia dos ultimos instantes da entrevada. Disseram-me, debulhadas em pranto as religiosas, que a morte de Leonor fora o remate de um colloquio com o espirito de Maria da Gloria. E, como eu me detivesse em amiudar os pormenores d'este vago dizer, tiveram as senhoras a bondade de me contar que o rosto de Leonor, nos seus ultimos mezes, brilhava de um resplendor, que não era natural; e, ao sahir d'aquelles extasis, dizia ás suas amigas que estivera vendo no céo a imagem de sua tia. N'um d'estes arrobamentos é que Leonor expediu o espirito, dizendo estas palavras: «Abre-nos o teu seio, santa! leva para ti os teus dous filhos, e não me lances de ti, que as minhas lagrimas purificaram-me.»
Eu quiz, não por duvidar, mas por escrupulo, combinar dous factos inconciliaveis.
—Se Leonor morreu de repente, como foi avisado o padre Alvaro de que ella estava em agonia da morte?
—Não se lhe deu tal aviso;—respondeu a prioreza—Leonor, na vespera do seu trespasse, tinha dito que, se o seu primo não viesse vêl-a até ás quatro horas do dia seguinte, só na presença de Deus a veria, Ora, nós tanta confiança tinhamos nas previsões da virtuosa senhora, que nos apressamos a chamal-o.
—Deu-se, por tanto um milagre!—atalhei eu.
—Milagre foi, louvado seja por isso o Senhor, que escolheu a sua serva para nos edificar—respondeu a prelada—O padre Alvaro chegou minutos depois da hora que ella dissera.
—Serei importuno fazendo mais uma pergunta?
—Queira dizer.
—Leonor tinha reminiscencias magoadas, ou mesmo saudosas d'um passado, anterior a trinta annos?
—Não sabemos—respondeu promptamente a prioreza—o que podemos dizer-lhe é que Leonor, logo que entrou n'esta casa, quiz que as suas criadas lhe chamassem Magdalena.
Pensei na palavra, e puz ponto na minha curiosidade.
Já fóra da portaria do convento, meditei no que teriam sido vinte annos de horrivel immobilidade, de paralysia, com o coração vivo, e o fogo da indole e do instincto inextinguivel n'elle. Não me entendia com o mysterio de semelhante conversão.
Alheado n'estes pensamentos ingratos e inconcludentes, ouvi uns sons de orgão, cuja toada vinha do templo do mosteiro. Retrocedi, entrei na igreja, ajoelhei, orei, e tudo comprehendi, encarando no retabulo de um dos altares. Era o painel significativo da contrição de S. Pedro; e, á orla inferior, li estas palavras: Flevit amàre: CHOROU AMARGAMENTE.
Os infelizes chorem, que á ultima lagrima da penitencia segue-se a primeira da santificação.