O RETRATO DE VENUS POEMA
Reading edition
.... while it pursues Things unnattempted yet in prose, or rhyme. Milt. Parad. loste: book I. V. 15.
CANTO PRIMEIRO
Doce mãe do universo, ó Natureza, Alma origem do ser, germe da vida, Tu, que matizas de verdor mimoso Na estação do prazer o monte, o prado, E á voz fagueira de celeste gôso De multimodos entes reproduzes A variada existencia, e lh’a prolongas; Que, no fluido immenso legislando, Libras sem conto ponderosos mundos, Que na ellipse invariavel rotam fixos, Ó alma do universo, ó Natureza, Teus sacros penetraes em vôo ardido Busco, rasgo-lhe o véo, prescruto, e vejo Insondaveis mysterios: puro, e simples Nunca ouvidas canções na lyra entôo. Nua d’enfeites vãos a face amena Tu volve ao mundo, que te ignora errado. Qual és, qual foste, qual te apura os mimos A arte engenhosa, tu lhe amostra e ensina. Como é dado aos mortaes bellezas tuas C’o divino pincel, co’as magas tintas Estremar com primor, colher-lhe o bejo, Sem donosas ficções meu canto ensine. Ficções!... E aureas ficções desdenha o sabio? A douta, a mestra antiguidade o diga. Não; fabula gentil, volve a meus versos; Orna-me a lyra c’os festões de rosas, Que ás margens colhes da Castalia pura: Flores, que outr’ora de Epicuro ao vate C’o austero assumpto lhe entrançaste amenas, Essas no canto me desparze agora. Venus, Venus gentil! Mais doce, e meigo Soa este nome, ó Natureza augusta. Amores, graças, revoae-lhe emtorno, Cingi-lhe a zona, que enfeitiça os olhos; Que inflamma os corações, que as almas rende. Vem, ó Cypria formosa, oh! vem do Olympo, Vem c’um mago surrir, c’um terno bejo Fazer-me vate, endeusar-me a lyra. E quanto pódes c’um surriso, ó Venus! Jove, que empunhe o temeroso raio; Neptuno as ondas tempestuoso agite; Torvo Sumano desenfreie as furias... Se dos olhos gentis, dos labios meigos Desprender um surriso a Idalia deusa, Rendido é Jove, o mar, o Averno, o Olympo. Mas quanto é bello, é grato o vencimento, Se á dor suave do pungir fagueiro, Da ferida se encontra amigo balsamo, E nos olhos da linda vencedora Do ardimento o perdão brando se accolhe! Tu, Marte, o dize, o Cyprio moço, o Teucro; E vós, que ousais na terra imitar numes, Que do summo prazer rompendo arcanos, N’um momento gosais da eternidade. Emquanto nas lidadas officinas, Forjando o raio vingador dos numes, Vive o coxo marido sem receios, Ja deslembrado da traidora rede; Do Cynireo mancebo entre os abraços, Jaz a espôsa gentil ennamorada. Nas languidas pupillas lhe transluze O prazer divinal, que a opprime, e anceia; Nos inflammados bejos, nas caricias, No palpitar do seio voluptuoso, No lascivo apertar dos braços niveos, Nos olhos, em que a luz quasi se extingue, Na interrompida voz, que balbucia, Nos derradeiros ais, que desfalecem... Quem do prazer não reconhece a deusa No excesso do prazer quasi espirando? Surri-lhe ao lado o filho de travesso, E d’entre o myrtho as candidas pombinhas C’o estremecido arrulho a dona imitam. Ah! se o gôsto supremo a um deus não peja, Porquê mesquinhas leis nos vedam barbaras Tam suave pecar, doce delicto, Antes virtude, que natura ensina! Dest’arte as breves horas decorriam Aos alheados, férvidos amantes; E vezes tres rotára o disco argenteo Trivia gentil, semque no Olympo, ou Lemnos A espôsa de Vulcano apparecesse. Ja na etherea mansão vagos juizos Maliciosos forma a inveja, a intriga; E surriso maligno ás deusas todas, Do marido infeliz excita o fado. Em zelosa vingança affana e freme O despeitoso Marte; corre, voa, E em busca da infiel vagueia o mundo. Coxeando o segue o malfadado espôso, Dos antigos errores esquecido: Tal é, paixão zelosa, o teu imperio! Eis do somno d’amor espavoridos, Os dous amantes c’o ruido accordam. De pavor esmorece o joven timido; Por elle anceia a carinhosa amante, Descuidosa de si; geme, soluça. E do amado na dor, sua dor recresce. Que fará?... vacillante... Adonis... Marte... O espôso... Ideias, que alma lhe confundem! Com o amante ficar, morrer com elle? Defender com seu peito o peito amado? E salval-o é possivel d’esta sorte? Deixa-lo?... Fera ideia!... Ir as suspeitas Dos numes dissipar com sua presença? Que! deixa-lo! o seu bem! Venus a Adonis! Tanto não póde a mesma divindade. Mas este só lhe resta unico meio: É forçoso: comsigo ao carro o sobe; Voa a Paphos, e ás Graças lisongeiras O precioso pinhor saudosa entrega, Que n’um basto rosal mimoso o guardem, Velem sempre por elle, té que aos deuses Se esvaeça o furor. Subito ao Olympo, Composto o vulto, serenando os olhos, N’um momento chegou: mago atractivo Que lhe spira dos labios, das pupillas, Do todo encantador, odios, suspeitas Desfaz, esquece em animos divinos: Tam pouco, ó bellas, persuadir-nos, custa! Arde voltar ao suspirado asylo; Mas teme a vejam desconfiados olhos; E em tanto Adonis geme, e o seu tormento Mais que o proprio penar lhe punge n’alma. Disenhos volve... Alfim um lhe suscita Novo a mente engenhosa: ei-lo abraçado. Jaz muito alem do tormentorio cabo, (Sempiterno brasão da Lusa gloria) Em não sabido mar, jamais sulcado, Ilha aprazivel, deliciosa, e breve. A mão dos homens destruidora, e barbara, Mimos da creação não lhe estragára. A seu grado crescia o bosque, a selva; Vecejava sem leis o prado ameno; D’alvas pedrinhas pelo leito amigo Se espreguiçava o crystalino arroio, Sem temer que impia dextra ouse perversa, No brando curso interromper-lhe as aguas. Prêsas não gemem fugitivas Nayas, Nem Dryades gentis feridas choram: Sem arte a natureza era inda a mesma. No mais escuro do copado bosque Ternas suspiram maviosas rôlas; E em mais alegres sons, prazer mais ledo, A meiga ave d’amor no arrulho exprime. Outro vivente algum a aura fagueira Não ousa respirar. Silencio eterno Impera na soidão, dobra-lhe encantos. Tam suave mansão nem mesmo os numes No ceo conhecem. Da ternura a deusa, Só Venus sabe do recanto ameno. Tu, do universo creador principio, Venus! oh mãe d’amor, oh mãe de tudo! Que amor é tudo, que só tu com elle, Ambos creastes e regeis o mundo, Que a natureza sois, ou ella é vossa: Cypria, Cypria gentil, pódes acaso Ignorar uma só das obras tuas? «Mãe, (lhe diz, entre alegre e malicioso, Mas compassivo, o filho), «nessa ignota «Ilha do Indico mar...»—Um doce bejo O concelho pagou.—Subito parte. Lá chega; e nova se difunde a vida Na solitaria estancia; em novos germes O deleite, o prazer renascem, pulam. Quam doces d’antemão gosou delicias A mui fagueira deusa! O sitio ameno Extasiada contempla. «Oh! quam ditosos (Clamou) «seremos! Ignorado, occulto, Ó doce amante, viverás sem medo. Aqui, no seio da ventura e gôso, Nos meus braços...» Parou suspensa, e geme: Cruel lembrança lhe assomou na mente; Agros deveres, perfidas suspeitas, Quantas vezes do amante hão de aparta-la! Suspira: as rosas do prazer se esvaem Das lindas faces niveas. Pensativa, Melancolica, e triste... (Eis fausto agouro!) Estremecido arrulho alvas pombinhas Deram á sestra mão. Ah! sim: é elle: Amor, apoz a mãe, veio ajuda-la. «Filho (co’a voz lhe diz, que impera em Jove, Que tam suave rege a natureza), «Tu me feriste; não accuso o golpe: Amo, adoro esse ferro, que me punge, Que na chaga, que abriu, doçura entorna; Só quero, só te peço (que não peja De implorar-te soccorro a mãe ferida) Derradeira mercê: oh! deixa um pouco D’humanos corações facil conquista: Cesse qualquer amor quando ama Venus. A culta Europa rapido discorre, E a progenie d’Apollo, almos, divinos, Os pintores me traze aqui n’um ponto. Pasmou c’o rôgo inesperado o numen: A causa inquire. «Ah! não: (lhe torna a deusa) Não cumpre ainda revelar-t’a, ó filho; Cubra o véo do mysterio o doce intento.» Mal disse: e o raio mais veloz não rue Da rubra dextra do Tonante irado, Do que a tuba dos candidos amores Á voz da deusa fende os ares liquidos. Quaes voam de Minerva ao sabio clima, Hoje torpe, e servil c’o bruto imperio: Quaes á augusta senhora do universo; Senhora, emquanto Roma era inda Roma: Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco: Á formosa Bolonha, á gran Veneza; Grande emquanto reinou sobre o Oceano: Quaes á suberba Gallia, á Iberia, a Lysia; Que de Lysia tambem, tam cara ás musas, Da poesia a rival, a irman tem filhos. De toda a parte a obedecer contentes Correm ao mando de Cyprina bella, Da natura em despeito, homens creadores, Prometheus, que á materia informe e bruta C’o divino pincel dão fórma, e vida; Erguem da campa gerações extinctas; Plantam copados, que enfloream, bosques; Co’a viva historia os homens eternisam; E, fitando no ceo audazes vistas, Aos pasmados sentidos apresentam Visivel, sem rebuço a divindade. Da fertil em prodigios, d’alta Grecia O pae d’arte divina, Apelles marcha, Thimante, Zeuxis, e Parrhasio, e quantos A culta Grecia, a deliciosa Roma Famosos produziu em sec’los d’ouro. Cimabúe famoso apoz caminha, Que as esfriadas cinzas animando Do engenho, do talento, o faxo vívido Fez na Europa brilhar, e abriu de novo O caminho gentil da natureza Do barbaro furor fechado, ha muito. Aos golpes crebros, incessantes, duros Da ferrea mão do avaro despotismo, Sem fôrças, sem vigor jazia, ha muito, A misera Bysancio. Em surda guerra Fallaz superstição d’infames bonzos, Fanatismo cruel, bifronte, e iniquo, Hypocrisia vil, perfida e dobre, Ruina infausta lhe apressava, e morte. Ávidos sorvos de Roman cubiça, Da Latina ambição, riquezas, pompa Roubado haviam insaciaveis, féros De Constantino á côrte. Espessa nuvem De negros vicios, de perversos crimes Pousou medonha sobre os tristes netos Degenerados, vis d’um povo illustre. Crestadas, sêcas pelo sôpro ardente Da tyrannia atroz definham, morrem Apesinhadas as virtudes candidas; Ao cûmulo chegou desdita, opprobrio Dos fados teus, ó Grecia. Eis ante as portas Da famosa cidade, audaz, suberbo Musulmano feroz, Mahomet se ostenta. Monstros, que o sangue do mesquinho povo Impios bebestes, ah! tremei, que é elle: Austero açoite das celestes iras Sobre vós descarrega a mão divina. Bonzos, no centro aos claustros profanados Embalde a frente d’horridas maldades Carregada escondeis: lá vai, lá chega; Sobre as aras d’um deus, a um deus, que ousastes, Incençando-o, offender, lá vos immola. Artes, sciencias, a guarida extrema, Perdeste’-a em fim: voltai, fugí; que Hesperia Os carinhosos braços vos estende. Ei-las: oh! folga, venturosa Europa. Lá cai a pouco e pouco em terra o throno Da barbara ignorancia: as trevas do êrro Vai accossando da verdade o faxo. Arte divina, magica pintura, Foragida tambem, thesouros, mimos Vens espalhar na mui ditosa Italia. Italia! oh! folga: Raphaeis ja pulam.
FIM DO CANTO PRIMEIRO
CANTO SEGUNDO
Mas eis, distinctos esquadrões formando, As escholas assomam; reina entre ellas Vivaz emulação, que gera os sabios: Vão-lhe na frente os affamados chefes, Que a patria honraram c’o pincel divino. No bello antigo modelando as graças, Que em mais sabio pincel, mais bellas surgem, A frente airosa sobre erguendo ás outras, Vem tribu excelsa dos Romãos pintores. Deram-lhe o grau supremo ardua sciencia Das attitudes, d’expressão, verdade, De audaz composição, nobre elegancia, O correcto desenho, e puro, e grave, E quanto inspira Apollo ás almas grandes, Em extasi sublime altas ideias. É filho seu (que mais sobeja glória!) Raphael, o divino, o mestre, o numen Da moderna pintura, eterno brilho, Que os Apelles offusca, e Roma, e Grecia; Que, as barreiras transpondo á natureza, Olhou de face a face a divindade, E as glórias do Thabôr fez ver ao Tybre, E aos d’arte amantes desejar com Pedro Junto ao prodigio habitação ditosa.[1] Julio o mestre imitou, foi digno d’elle: Forte, ardida expressão lhe anima os traços, Que ás proficuas lições dão glória e lustre. Em cêrca aos muros da gentil Parthénope, Onde aprimora a natureza os mimos, E a voz do creador soou mais bella, Onde, entre montes de sulphureas cinzas, Umas sobre outras, as cidades jazem, E a rôdo os d’atro fogo horridos rios A poeticas ficções dão ser terrivel; Alli, silencio eterno ergueu severo Religiosa mansão; firmou-lhe as bases Austera, descarnada penitencia. Sobre as azas do ingenho, á voz d’um numen, Vigoroso, expressivo Spanholeto, Lá foste, e a assomos do pincel terrivel Em longas vestes surgem, pulam, vivem Fatidicos anciãos; ás portas velam Da estancia outr’ora silenciosa, e sancta. E quando atroz, hypocrita veneno, Lavrando a furto sob o sacco, e cinza, Os muros profanou, que ergueu virtude, Inda no mesto panno afflictos suam; E a gloria do pintor fulge entre o crime.[2] Fostes, como elle, heroes da arte divina, Polidoro gentil, vivaz Fattore, Saliente Caravaggio, que exprimiste, Senão bella, fiel a natureza. Nobre, altivo Cortona, quanto vivem Scenas famosas da nascente Roma! Nas mães trementes, pallidas filhinhas, Ve como a mesma dôr redobra encantos! E o fero aspeito dos Quirinos Martes, Onde a furto da glória amor scintilla! Ah! proximo o prazer vai dar ao mundo Prodigios de valor, extremos d’honra, Prole Romana... Eis o universo em ferros.[3] Amavel, terno Sacchi, a ti surriram Do mago cinto de Erycina as graças; Meigos, suaves dons te esparzem n’alma, Que nos quadros gentis reflectem doces. Belligero Cerquozzi avulta aos olhos Brandir no panno, lampejar mil ferros, E aos roucos sons da sanguinosa guerra, Entre as phalanges baralhadas rôtas, Entre abysmos d’horror alçar-se a morte.[4] Quam magos fulgem divinaes, sublimes, Maratti encantador, facil Giordano, Mimoso Dolce, e vós, que á nova Roma Ingenhos tantos, insondaveis, grandes, Por guerreiros tropheos, suberbos róstros, Triumphos cem do ovante Capitolio, Dais, se menos viril, menos heroico, Ornamento gentil, belleza, encantos. Ja de acurvados reis não brilha o fasto Da escravidão contentes; não se antolha Em cada senador um nume, um Jove. Ja nas praças, nos templos não campeiam Os despojos do mundo; o Circo, o Fóro, Prodigios d’arte, da opulencia, e luxo, Da barbara ignorancia ás mãos cederam. Cheio de Livio o viajante absorto Não ve do Capitolio a frente erguida Torreada avultar com ferros cento, Não ve povo d’heroes girar-lhe entôrno; Da inesp’rada mudança pasma, e geme, E no centro de Roma a Roma busca. Porem, se amiga mão lhe guia os passos, Se o Vaticano e mil prodigios nota, Que do antigo explendor moderam fama; Então Roma conhece, então venera Nobres resquicios de gloriosos évos. Taes da moderna Roma os filhos iam Por travesso menino conduzidos; E d’altiva belleza ornada a frente, A magestosa, Florentina eschola De perto os segue: no atrevido ensejo Parece disputar-lhe o grau supremo. Co’a sublime expressão, desenho ardido, Gigantesca maneira, audaz, mas bella, Se antolha ennobrecer a natureza. Brandas graças d’amor, ternura, encantos Feroz desdenha; só lhe avulta á mente O nobre, a pompa da ideal grandeza. Não foi sobre o Synai mais formidavel, Que d’Angelo entre as mãos, Moysés terrivel; Nem lá no extremo, derradeiro dia Julgamento final será mais horrido. C’o deus, que o peito vos perturba, anceia, Mais pavorosas não rugís, Sibylas. Da mão nervosa cada traço é raio, Que espanta os olhos, que deslumbra a mente; Que enxofrado clarão, medonhas larvas Em todo o horror do Averno ostenta horrivel; Que, se um deus pinta, é do castigo o numen, Que em longa geração pune um só crime, O deus, que no deserto, entre os relampagos, Entre o rouco estampido das trombetas, Pela voz do trovão legisla ao mundo. Eis, desdobrando hydraulicos segredos, E as mechanicas leis com sabia dextra Movendo a seu sabor, á glória sua, Vinci tam caro aos reis, de o ser tam digno, Seu correcto, purissimo desenho, Engenhoso compor o eleva aos astros, Aos astros, onde fôra em vôo ardido Os pinceis escolher, buscar as tintas, Com que d’ultima ceia debuxára Amor, transportes, mysteriosas scenas. Ah! gire o teu prodigio o mundo inteiro; E de grado a razão cede ao mysterio. Côres roubando á natureza, e mimos, Bello como ella, o inimitavel Porta Ao gelado silencio de ermo claustro Chamou das nove irmans o chôro arguto. Urbino o conheceu; e o sceptro augusto Curvou ante elle; e, confundindo os raios, Os dous d’alma pintura astros brilhantes, Sem negro eclypse, scintillaram juntos. Vens, ó Sarto, apoz elle, ameno, e brando; Vens, Peruzzi gentil, fertil Pantorma, Que ao nobre assômo do pincel nervoso, C’o doce encanto das mimosas tintas Fizeste a Raphael, a Buonarrotti D’arte a coroa estremecer na frente. Sec’los famosos d’Alexandre, e Augusto Na Italia renovou macio Allori; E as meigas cores do pincel Lombardo Quasi Ciogli usurpára ao grão Corregio. Ah! veda a musa, e pequenez do ingenho Seguir-vos todos, divinaes pintores: Segura a fama vossa alteia a frente, E o vate ao longe vos contempla os vôos. Gentil Bolonha, que na Europa barbara O faxo das sciencias accendeste, Que o Gothico stupor tiraste ás artes, E as cinzas da virtude apesinhadas Por sanctos crimes de sagrados monstros C’um Benedicto consolaste em Roma, Eis vem dignos de ti, teus sabios filhos, Numerosa familia, antiga e nobre, Que o mel das graças delibando férvida Em quantas flores produzíra Apollo, Nobre desenho modelou no antigo, Á natura usurpou vivaz belleza, E o mago, o puro dos gentis contornos, A verdade, a expressão, o rico d’ordem, E o colorido inimitavel, bello, Que emparelha com a arte a natureza. Assim brilhou divino o gran Corregio, Assim Francia gentil, assim Mantegna, E Bolognese vigoroso, e forte; E tu, que o terno amor, e seus encantos, Simplices graças da natura virgem, Da innocencia infantil o mimo, os jogos, As singelas beldades exprimiste No mavioso pincel, mavioso Albano. Nem deslembre de Guido a fertil mente, Talento universal, vago, mas bello... C’a expressão de Zampieri ordem, nobreza, Ve d’Agnese gentil a ardua constancia Como os p’rigos desdenha, e ve risonha Ja do ferro do algoz pender-lhe a morte. Ferino aspeito dos ministros barbaros, Da augusta religião viril triumpho Aos engolfados olhos se apresenta, E, arrebatando o esp’rito a deus, ao vate, Um prodigio a prodigios amontoa. Ve Guerccino tambem, que ora nervoso, Ora sombrio, e fero, e terno outr’ora, Mas sempre encantador, em cada rasgo C’um portento de mais a arte enriquece. Qual vira a Palestina o pae dos crentes[5] De fe, de submissão dar nobre exemplo; Tal vive no pincel, tal inda avulta Co’as veneraveis cans, e honrado aspeito. Misero velho! desgraçado infante! Que! tu mesmo, infeliz! co’a mão paterna Hasde cortar-lhe o fio á tenra vida, Unica esp’rança de cançados annos, De mui doces promessas? Como... ai triste! Oh! como voltará sem elle á tenda? Com que olhos fitará maternos olhos? Com que voz lhe dirá?... Mas parte: e a dextra Ja, ja quasi... Suspende: um deus o ordena; Um deus é pae tambem: suspende o crime: São leis da natureza as leis divinas; Em premio da tua fe recebe o filho. Ah! se ao nome Lombardo é pouco tanto; Eis triplice ornamento á patria, ao mundo, Doutos Caraccis, que o divino ingenho, Ou co’a dextra gentil ornando a Italia, Ou dando á juventude almos preceitos Da arte formosa, perpetuando-a aos évos, Nova, estremada lhe augmentáram glória.
NOTAS DE RODAPÉ:
FIM DO CANTO SEGUNDO
CANTO TERCEIRO
Musa, deixemos a mansão terrestre, Sobre o infido elemento estende os vôos. Eis sobre as ondas c’o pincel divino Maga pintura, legislando ás vagas, Enfreia as iras de Neptuno indomito. Ve d’Adria o gôlpho tempestuoso, e fero Á voz da liberdade agrilhoado. Surge do seio das domadas aguas A cidade gentil: pasmou de ve-la, E corou de vergonha a natureza. E a mão do creador, ao ver confusos, Baralhados antigos elementos, Se ao homem, que os trocou, não dera a vida, Quasi, quasi um rival temêra nelle. Alli, fugindo aos clamorosos brados, Ao jugo, á servidão da tyrannia, Homens, poucos, mas homens, começaram Com ância a defender sacros direitos. Emporio foi depois do rico Oriente, E do alado leão tremeu gran tempo O atrevido colosso Mussulmano. Hoje (ideias de dor, lembrança amarga!) Da poppa olhando o navegante ao longe: «Veneza aquella foi»—exclama, e geme; E segue a esteira das cortadas ondas. Veneza foi: compridas, longas eras Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios; E as dadivosas musas lhe outorgaram Egregios filhos, que o talento, as vidas Á formosa sciencia consagraram; Que imitando fieis a natureza, Olhos seduzem, e deleitam alma, Que nos toques graciosos, na belleza Da gentil invenção, doce magia Do claro-escuro, rico invento d’arte, Aos mais sabios pinceis não cedem nada. Deusa, acode á avidez, que o vate enleia, Fere nas cordas da estremada lyra Dos famosos varões o nome e os dotes: Dize a Ticiano, dize quaes natura Lhe entornou dadivosa encantos simples, Que, ou arte ignoram, ou subtis a escondem; Ja d’humanas feições transsumpto exacto, Ja co’as nativas côres exprimindo No ingenhoso pincel tudo o que existe. Adriades gentís, oh! vinde, as frentes Coroadas de dor, na campa avara Humido pranto derramar saudoso! Ai do triste mancebo! o fado iniquo, Só por chora-lo, o concedêra ao mundo! Oh! com quanta expressão, nobre altiveza Castel-franco brilhou, fulgiu mais que homem! E tam breve lhe deu a sorte a vida! E no fuso cruel a Parca dura Um fio tam gentil fiou tam curto! Oh! suspendei as lagrimas formosas: Longa carreira os ceos marcaram próvidos Aos dous Bellinis, venerandos chefes Da nomeada eschola; á glória vossa Vivem padrões eternos; Piombo illustre, Que a fama ousou balancear d’Urbino; Pordenone inventor, de quem Ticiano Temeu roubadas as divinas côres; Completo Palma, a quem mostrou natura Sempre formoso o variado aspeito; Animado Bassano verdadeiro; Fertil, e vivo Tintoreto rapido; E tu, Paulo gentil, delicias, mimo Dos voluptuosos olhos da donzella; (Mui grato enlêvo do insoffrido amante) Qual Verona folgou com seu Catullo, Tal comtigo: mil graças, mil encantos Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera Nua de pompas vans, a natureza: Seu renome inda vive; e o teu com elle, Emque lhe péze á inveja, e seus furores, Hade eterno brilhar. Assim raivosas, Frustradas gralhas invejosas grasnam Á ave olympia de Jove; e entanto os vôos Ella ao sol remontando, as mofa, e burla. Porem mais longe da rinhosa Hesperia Voltemos a attenção: ve como em Flandres, Scena outr’ora infeliz da glória Franca, Da Cypria deusa demandando a estancia Vai turba immensa dos rivaes d’Italia. As graças naturaes, singellas, puras Á porfia a accompanham: não se enfeita Por suas mãos a simples natureza: Em loução desalinho bella, e nua Mimos lhe outorga, que ella só conhece, Que a vós é dado só, magos pintores, Com arte ignota do universo ao resto No pincel exprimir fiel, divino. Prodigios fallem de Van-Eick famoso, Do correcto, vivaz, firme Duréro; Dize-o por todos; se inda alguem no mundo Ignora tanto, que te ignore os dotes; Fertil, brilhante, verdadeiro Rubens. Rubens! Oh nome! Ó filhas de Memoria, Vós, que no Pindo entre o verdor mimoso Lhe bafejastes divinal espirito, Quando, librado sobre as azas d’ouro De sublime, elevada allegoria, Viu, pintou... Ah! fez mais: creou, deu vida A chymericos entes, vãos, mas bellos, Que o vivo imaginar lhe debuxara. Quam doce, e meiga a enternecida Venus Com suspiros, com ais, com ternos bejos Tenta a furia applacar, retter nos braços Gradivo impaciente! Olha do monstro O torvo gesto, o faxo sanguinoso... Ella!... a guerra cruel! a horrivel frente Co’a máscara da glória esconde ao numen, E o veneno lethal lhe infunde n’alma. Lá baqueia de Jano o templo augusto; As artes, as sciencias calca o monstro; E a d’auradas espigas, rubros pomos Gentil coroa á agricultura arranca. Ternura, horror, assolação, belleza Com portentosa mão juntaste, ó Rubens.[6] Quam bello é na expressão Vaén correcto! Hólbein sublime, vigoroso, nobre! Van-Rin saliente, harmonioso, e doce! Quam firme é Wanderwérff singello, e puro! E tu, mimoso Van-Dernér, que em Gnido Bebeste as graças, possuiste os risos. Ah! ja cançada se me affrouxa a lyra: Rouca, e sem voz mal associa ás cordas Difficeis nomes de estremados mestres. Um por tantos direi; e o nome illustre Te baste, ó Flandria, a coroar-te a gloria: O bello, o simples, verdadeiro, e grande, Do mestre a obra maior, Vandick insigne. Mas, qual ruido, que tumulto, ó musas, Do Pindo a sacra paz impio disturba? Quanto vivem!... Que heroes da patria raios! Armas! guerra! o furor! o sangue! a morte! Destrôço! horror! assolações! ruinas! Eis dos Alpes franqueado o gêlo eterno; Nada resiste: c’o rugido extremo Baqueia exangue de Pyrene a fera. Co’a Europeia ruina Africa nuta, Asia treme; e nas praias de Colombo A fugitiva liberdade apporta. A longes terras se accolheu Minerva, Sem rumo as artes desgrenhadas fogem, A Roma de Catão, d’Augusto a Roma Não é de Pio a effeminada côrte; E em vez d’um Fabio tardador, d’um Quincio, D’um Bruto, um Manlio; prostituta prole No deshonrado Capitolio avulta. Quem, bellezas d’Italia, hade amparar-vos? Quem!... Animos cobrai; volvei sem medo Artes, sciencias: já no Sena ovante O proprio vencedor no seio amigo Vos accolhe, e accarinha, e no alto alcaçar Augusto solio perenal vos ergue. No Sena ovante (oh do porvir assombro!) Em quanto os filhos seus, terror do mundo, Raios desferem, que o universo atterram; Renasce mais gentil, vive mais fúlgido O sec’lo de Luiz; succede á velha, Á pedante Sorbona, almo Instituto. Eis novos Raphaeis, arte divina! Não lamentes Poussin, Gallia ditosa, De Mignard, e Blanchard divinas côres, De Lebrun a expressão, fieis costumes, Paizagens de Lorrain, maga ternura Do voluptuoso, encantador Santerre, Grandioso stylo do vivaz Subleyras: Teus modernos heroes excedem tudo; E ao seio da opulencia amamentados, Á voz da glória redobrando exforços, Talvez irão com denodado arrôjo Do solio d’arte derribar a Italia. Se, entre barbaras mãos gemendo outr’ora, Devêste a Belisario a vida, ó Roma; Se das furias crueis d’horrida guerra O juramento te isentou d’Horacios; Se quanto foste em gloriosas quadras A um necessario roubo, á paz, que o segue, Ao ferro audaz de Romulo devêste;[7] Treme d’elles agora, treme, ó Roma; Que no heroico pincel David illustre As cinzas lhe animou; marcham por elle Tua fama a conquistar, roubar teus louros: De Urbino, e Buonarrotti o throno prostram; Eis campeia David!—Não longe d’elle O terno Girodet, suave, e brando, Que, do Meschacebeu vingando as margens, C’o vate insigne emparelhou nos vôos, E na pasmada Europa ergueu d’Americo As pomposas florestas, e a nobreza, Ornamento feroz d’um mundo virgem: Que os encantos d’amor, e os seus furores, O podêr da virtude, e os seus exforços Dignos d’elle exprimiu, e fez de novo Olhos sensiveis afogar em pranto. Eis á voz de Gérard das campas rompem Extinctas gerações: Saturno as azas Indignado encolheu, e a prêsa antiga Viu roubar-lh’a o pincel, quebrar-lhe os éllos Da impreterivel, perenal cadeia.
Ruge fremente o mar, bramindo, e ronca Nas oucas rocas, nas quebradas fragas Do tormentorio mar... Lá se ergue ingente, E immenso troa o colossal gigante. Treme d’entôrno o mar, e a terra, e o mundo; E a voz, que os polos com fragor desloca, Pela primeira vez á gente Lusa Pallida imprime a sensação do medo. Só impavido, um só, Vasco lhe arrosta: Pasma a ousadia d’um mortal a um nume.
Oh lagrimas d’Ignez, sangue innocente, Correi, correi do milagroso panno; E em lagrimas de sangue o applauso eterno Aos vates recebei, aos vates ambos. Oh Gérard! oh Camões! qual mão divina Vos uniu, vos juntou? Oh! folga, ó patria! E tu, Sousa immortal, grata homenagem Recebe eterna da mui grata Elysia.[8] Ve nas mãos de Guérin qual geme e anceia Pincel, que hervou na dor, que embebe em pranto, Que incestos, crimes (de Trezena horrores) C’o Euripides Francez disputa ainda. Quem de pavor, de compaixão não gela Ao ver nas murchas, esmyrradas faces Da bella ainda, miseranda Phedra Surgir do panno, que as conter mal póde, D’um criminoso amor, violencia, e fogo?[9] Guerreira a mente de Vernet fulmina Os raios de Mavorte, o horror das armas; E sobre os quadros de Le-Gros famoso Os manes folgam de Rollin, Voltaire. Mas tanta glória inda não basta, ó Francos, Para o completo, universal triumpho: Que no Ibero pincel inda refulge O nome de Ribera, o de Murillo, E duvida d’Albion mosqueada fera, Vaidosa d’West, conceder-te a palma; Inda lhes guardam justiçosas musas No bifido Parnaso um grau distincto. Assim quando no ceu, callada a noute, Candida brilha sup’rior Diana, Se com menos fulgor, astros com tudo, Gentis avultam nitidas estrellas.
NOTAS DE RODAPÉ:
FIM DO CANTO TERCEIRO
CANTO QUARTO
Eia! colhamos as cançadas vélas, Musa: o filhinho da amorosa Venus Ja pelos ares liquidos se entranha, E ledo corre co’as donosas tribus Dos illustres rivaes da natureza. Da Europa toda ja voaram férvidos Da voz ennamorada ao som fagueiro, Só Lysia falta... A minha Lysia, ó Venus! A patria dos heroes, a mãe dos vates, A patria de Camões, do teu Filinto! Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes Sempre em teu nome resoou na lyra! Onde a teu culto, mais que em Roma, ou Grecia, Em cada coração se eleva um templo! Lysia, de Venus esqueceram filhos! Ah! volve os olhos immortaes, divinos, Aos seculos remotos; ve no Tejo Como entre as sombras da ignorancia Gothica Brilham nas trevas Lusitanas tintas; Ve do gran Manoel na épocha d’ouro Sobre as bellas irmans como se eleva A divinal pintura; ve mais perto, Em quanto geme c’o ferrenho jugo A flor, a augusta das nações princeza, Erguer das ruinas sobranceira a frente; E alfim nas quadras que marcara o fado Ao brio Lusitano extremo exforço; Calcando a juba de Leões gryfanhos, Parando ás Aguias remontados voos, Como á porfia sobre o Tejo e Douro Apelles mil e mil revivem, fulgem; Brilha o Luso pincel... Ah! se aura amiga Continúa a soprar... Não; ferrea pésa A mão do despotismo, opprime, esmaga, Destroe renovos das mimosas artes. Mas qual ouço confuso borborinho! E sois vós! Ah! perdoa, alma Erycina: O teu povo fiel tu bem conheces; Nem chama-lo cumpria: é-lhe sagrada, Inviolavel lei um teu desejo. Ei-lo corre: que luz, que ethereo brilho De louro e rosas lhe engrinalda as frentes! Olha entre a nevoa de allongados évos, De atroz barbaridade embrutecidos, Como Alvaro rebrilha, um Nuno, um Annes, E do energico Vasco a fertil mente; E Duarte, e Gomes tam famosos ambos, Tam caros ao gran rei, Manoel ditoso. Ve do illustre Resende a mão facunda, Trocando a penna, que mandara aos évos Os feitos dignos de perenne historia, Pelo arguto pincel; o sabio Carlos, Que ao divino Correggio usurpa as cores; Dias, que á patria transportara ovante O mel, e as graças dos famosos mestres; Harmonioso Christovão, claro Sanches, Que os monarchas d’Europa inteira vira D’honras, de bens, accumulá-lo anciosos. Eis sobre as azas de elevado arrojo Vinga altivo Campello o cume erguido Dos montes de Judá. La surge, e avulta No mysterioso panno um deus, um homem. Pasmou a natureza ao ver confusos No seio maternal o pae e o filho. Mago pintor lhe renovou prodigios; E aos tormentos d’um deus tremeu de novo A longa serie dos criados mundos.[10] Sensiveis corações, vinde espelhar-vos Nos ternos quadros, que sagrou virtude; Vinde á sombra do vate, ao seio augusto Da sancta religião, da mãe caroavel De humanas afflições verter o pranto: Vinde; e entre a dor vos surgirão prazeres, Prazeres do Christão, doçuras d’alma. Quanta glória Fernando ao sabio mestre, Quantos louros grangeou! Lopes sublime Juntou d’Urbino aos expressivos rasgos A ardideza gentil d’Angelo altivo. Vasques douto, e regrado os traços mede No exacto petipé da natureza. E tu, Leonor, d’entre a nobreza e fasto, Origens sempre de brutal inercia, Soubeste ás artes levantar o espirito. Qual do Luso pincel nos fastos vive. Hollanda creador! Deusas do Pindo, Eis novo esmêro vosso, invento novo! Vastos arcanos da pintura se abrem, Accumulam-se a rodo almos tesouros; Graças lhe admira o árbitro da Europa, E na boca dos reis louvores fulgem. Hollanda venturoso! Ah! de tuas ditas Taes as menores são: mais déste ás musas, Mais a ti, ao teu nome, á patria, ao mundo No filho, o grande filho, a glória nossa, Mimo ao patrio pincel do numen louro. Cedendo á voz d’um deus, que o chama a nome, O Cicero Africano erros abjura; Sancto prelado o omnipotente invoca, E d’agua exulta candido Agustinho. Portento d’expressão, viva faisca Do lume eterno, que lhe ardeu na mente. Vate!... Ah! não vate: um anjo, um deus te guia, Move o arguto pincel na sabia dextra. Do Olympo eis surge a magestade, a pompa; Olha d’Ambrosio o venerando aspeito, Os olhos, onde em goso alma trasborda, D’Agustinho a humildade, e o gesto vívido, Onde a força transluz d’activa mente, Da eloquencia viríl, saber profundo.[11] Pereira natural, severo e forte O terrivel pincel por entre ruinas, Entre chammas e horror meneia ardido. De novo a cinzas reduzida Troia Por elle foi; por elle Pyrro ingente C’o faxo assolador vagou por Illion. Antolha ouvir-se em pavidos lamentos O confuso ulular da mãe, que espira, E no extremo bocejo aperta os filhos, Do pae tremente, que a rugosa face Entre o seio da filha esconde, e geme, E quizera morrer no doce amplexo. O crepitar das estridentes chammas, O baquear dos templos, dos palacios, E quantas vozes de terror, d’espanto, Quantas scenas d’horror cantaram vates Nas Gregas cordas, Mantuana lyra.[12] Elementos, cedei-lhe ao mago encanto Das vozes do pincel! Stridentes rompem Com ruidoso estampido as cataratas; Confunde a natureza a essencia, os termos, Na face do universo impera a morte, Mysterioso baixel ao longe avulta; E de novo o castigo formidavel Os olhos da razão cega d’espanto.[13] Olha como apoz elle vem seguindo Valle expressivo, delicado e grande, Nobre Gonçalves, entendido e ornado, Rebello audaz, o Buonarrotti Luso, E as do patrio pincel divinas Saphos, Ayalla, e Guadalupe, e Ritte, e Browne, E Luiza gentil, que os sabios tempos Ao Porto renovou da Grega Aspasia. Fastoso monumento d’alta Iberia, Voragem, golphão, que absorveste os rios Do precioso metal, que a ti correram Do Chily, e Potozi, das Indias duas, Soberbo Escurial, onde se aninham, Sob apparente sacco o vicio, o crime, Tu de Claudio por mim celebra o nome, Do Camões da pintura, a quem deveste De teus ornatos o maior, mais bello. Nem sorva o Lethes de confuso olvido Victorino engraçado, André mimoso, Verdadeiro Apparicio, simples Barros, Vivaz Alexandrino, destro Senna, Barreto original, brando Oliveira, E tu, Rocha correcto, ameno e vívido, Que obscuras scenas da marinha Pathmos, E o confuso vêdor nos exprimiste. Olhos em alvo, mysteriosos seguem Prophetico furor, que o volve e agita. Na dextra a penna mal segura fórma Nunca entendidas, enredadas notas.[14] Terra fertil d’heroes, solo fecundo, Salve! Eis novo clarão, eis novos louros Sobre a frente gentil pululam, vivem! Eis do patrio esplendor eterna gloria, Raios de Lysia, que a remotas praias, Do magico pincel nas azas d’Iris Levaram em triumpho o Tejo e Douro, Dous Vieiras! Não ousa a minha lyra Dotes brilhantes numerar nas cordas: Assaz por meu silencio o dizem, cantam Lysia, Hesperia, Britania, Europa, o mundo. Dest’arte á voz da meiga Cytherea, D’amor guiados, sobre as azas do éstro, Rapidos voam num momento, e chegam: Pasmam de vêr a face á natureza, Tam bella e simples qual na infancia ao mundo; Os bosques entram: no matiz do prado Vão com delicia apascentando os olhos. Eis outeiro gentil se eleva á dextra; Sobre elle... Assombro quem já viu, que iguale Dos illustres varões subito assombro? Amor, o mesmo amor parou de espanto, De maravilha subita cortado. Sobre altas se ergue Doricas columnas De fino jaspe cupula suberba. Brilha c’o azul do ceo linda saphira Nos capiteis, nas bases. Das cornijas Scintilla em fogo do carbunculo a chamma. Mimos, riquezas de pomposo fausto, Quantas com larga mão semeou profusas Nas entranhas da terra a natureza, Na vastidão dos mares; tudo aos olhos Extasiados se ostenta. Riu do encanto, E a causa do prodigio amor conhece: Entra; e apoz elle os estremados chefes. Languidamente o braço repousado Nos hombros niveos do formoso Adonis, Ei-la ao encontro a deusa da ternura Lhes sai, e assim lhes falla: «Ésta, que vêdes, Consagrada ao prazer, mansão ditosa, Ergueu á minha voz a natureza. De per si se puliu, lavrou-se o marmor, E se entalharam gemmas. N’um instante Meu doce intento completado houvera, Se o que vós só podeis, dar-lhe eu pudera. Frio, e sem vida não me falla ao peito, Não falla ao coração todo esse esmêro. Oh! cortai-lhe a mudez, dai-lhe existencia, E c’o mago pincel tornai-o á vida.» Disse: e a divina voz do ouvido aos peitos Chammas d’estro, e de ingenho accende aos vates; E em breve espaço divinaes assomos D’aqui, d’alli se apinham. Clio alteia Com portentosa mão contados feitos; Alem da natureza o vôo erguido Alça a maga, gentil Alegoria; Desalinhada, rustica beldade, Singella, e pura a Paizagem doce Sem mysterio, sem véo candida ostenta. Ja vida é tudo; satisfeita a deusa Vai alfim completar os seus intentos; E c’um meigo surrir, c’um doce agrado, Que vale tanto, que enamora tudo, Assim lhes falla a carinhosa Venus: «Vinde, ó filhos; que um nome tam suave Vossos dotes merecem; vinde: e a empresa, Que na mente revolvo, effeituai-me. Não mando, peço... (Ah! d’uma bella o rogo Quanto mais vale, que uma lei d’um nume!) Retratai-me, ó pintores.» Nisto a deusa O mimoso sendal, ja pouco avaro Do thesouro, despiu. Quantas bellezas, Que divinos encantos não descobrem, Não pesquizam, não vem avidos olhos! Sonhos da phantasia, ah! não sois nada! Guindado imaginar, ideal belleza, É frouxo o vôo, limitado o arrôjo; Não tenteis franquear mysterios tantos. Cai das mãos o pincel, sem que o percebam, Aos pintores na vista embevecidos; No Olympo os deuses, ignorando a causa, De insolito prazer sentem banhar-se. A natureza inteira revolveu-se; Sonhada Pythagorica harmonia Nas espheras soôu mais branda e doce. Aos entes todos pelas veias lavra O incentivo do gosto: gemem ternas, Que ha pouco uivaram, pelo bosque as feras; Arrulharam d’amor meigas pombinhas; Correu á esposa o nadador salgado; E nos olhos da amante leu ditoso O constante amador perdão á culpa; Á doce culpa tam querida e bella! Ah! muitas vezes não descubras, Venus, Magos encantos; ou verás que em breve Á força de prazer se extingue o mundo. Ja do extasi accordada um pouco a turba Dos vates se prepara ao doce emprego. Tintas fornece amor, pinceis as graças; E eis no panno avultando a pouco e pouco Assomos divinaes!... É ella... é Venus! Eis a fórma gentil do corpo airoso Salta, deslisa o fundo apavonado; Roseos descurvam, se arredondam braços; Ondeiam n’alva frente as tranças d’ebano; Doce brilham d’amor os olhos meigos, Os meigos olhos, que prazer scintillam, Que o facho accendem dos desejos soffregos, E contra o debil resistir do pejo Do atrevido mancebo a audacia imploram. Nas lindas faces purpureia a rosa, Que insensivel esvai na côr de neve; Surri nos labios o delirio, o encanto, Que importuna razão tam doce affasta, Que ávidos bejos, deliciosos, ternos, Annuncios de prazer, mutuam fervidos. Despontam no alvo, crystallino collo Os arcanos d’amor, que anceiam d’elle, Que a furto ousaste, mui ditoso Anchises, Nas trevas do prazer palpar ardido; Formosos pomos, que ao pastor Idalio Pelo tam cubiçado outr’ora déste... Déste; que bem o sei: (não te envergonhes) Era pobre o pastor, e os seus thesouros Juno lhe franqueou, seus mimos Pallas: Sem troca tam gentil tu não vencêras. Mas quanto voa nas mui sabias dextras O divino pincel! Que eburneas fórmas Voluptuosas surgir das tintas vejo! Que exactas, lindas proporções esbeltas! Que norma tam gentil as regra, as mede! Ja, por milagre de Cyprina, é prompta N’um momento a grande obra. Ei-los de novo Á vista do retrato absortos, raptos, E, novos Pygmaliões, por elle anceiam. De transportada a deusa ao doce amante Nas mãos a entrega; e: «Esta (lhe diz) conserva Copia fiel da tua amada Venus. Com ella, ausente, ó caro, te consola, Quando longe de ti me retiverem Crueis deveres, perfidas suspeitas.» Admira o joven a belleza, as graças Do mimoso traslado; beja, e rega Com lagrimas d’amor qual um, qual outra. Co’elle, em quanto viveu, sempre abraçado As poucas horas, que ficava ausente, Mitigava a saudade: e quando a morte O mancebo infeliz roubou sem pejo, No templo a deusa o collocou de Paphos, E longas eras recebeu d’amantes Ternas off’rendas, amorosos votos. Alli, quando natura se empenhára Em dar-te ao mundo, carinhosa Annalia, Um e um copiou meigos encantos, Que, ó minha Venus, te compõe, te adornam. Alli, olhos no quadro, os teus formosos Estremada rasgou; alli as faces De neve, e rosas coloriu divinas; Alli risonha boca, onde contino Foi aninhar-se amor, te abriu mimosa; Alli o collo d’alabastro puro; Os lacteos pomos, que devoram bejos Do faminto amador; lisas columnas, Que sustentam avaras mil segredos; Segredos, que... Perdoa: eis-me calado. Volve a meus versos, compassiva amante, Benignos olhos: para ti voando, Da critica mordaz censuras fogem: Se accolheres o rude offertamento, Serão meus versos, como tu, divinos.
FIM DO ULTIMO CANTO
NOTAS DE RODAPÉ:
NOTAS
Notas ao canto primeiro
«Alma origem do ser, germe da vida.»
..... Per te quoniam genus omne animantum Concipitur, visitque exortum lumina solis; ...................................... ....... tibi suaves dedala tellus Summittit flores.
Lucret. de rer. nat. Lib. I.
«Que na ellipse invariavel rotam fixos.»
Todos sabem, que tal é a orbita, que todos os planetas descrevem.
«Qual és, qual foste, qual te appura os mimos A arte engenhosa.»
Artes repertæ sunt, docente natura.
Cic. de leg. Lib. I, 8.
«Como é dado aos mortaes bellezas tuas.»
Platão, fallando da musica, diz: (De republ.) que se não deve conceituar pelo prazer, nem preferir a que não tem outro objecto, senão o prazer; mas a que em si contiver a similhança da bella natureza. Esta sentença é perfeitamente applicavel á pintura. E tal é d’ha muito a opinião de todos os rhetoricos e philologos. (Vid. Aristot., Le Batteux, Laharpe, Lemercier, etc.) Não nos enganemos porém com esta—natureza bella.—Nem só aquillo que tem bellas e lindas fórmas, é bello; e nem tudo aquillo, que as tem, o é. Boileau o declara manifestamente, e o prova:
Il n’est point de serpent, ni de monstre odieux, Qui, par l’art imité, ne puisse plaire aux yeux. D’un pinceau délicat l’artifice agréable Du plus affreux objet fait un objet aimable.
Boileau: Art. Poet. Chant 3.
«A mestra, a sabia antiguidade o diga.»
Quid virtus, et quid sapientia possint Utile proposuit nobis exemplar.
Horat. Ep. II, L. I.
......... Fabularum cur sit inventum genus, Brevi docebo. Servitus obnoxia... etc.
Phoedr. Lib. III, prolog.
«Não: fabula gentil, volve a meus versos.»
......... Et, s’il est vrai, que la fable autrefois Sut á tes fiers accents mêler sa douce voix; Si sa main délicate orna ta tête altière; Si son ombre embellit les traits de ta lumière, Avec moi sur tes pas permets-lui de marcher. Pour orner tes attraits, et non pour les cacher.
Voltaire: Henr. Chant I.
Cosia egro fanciul porgiamo aspersi Di soave licor gl’orli del vaso, etc.
Tasso: Gerusalem Canto I, stanz. 3.
«....... O Cyprio moço, o Teucro.»
Adonis, filho de Cyniras, rei do Chypre (Cyprum) Anchises, Troiano etc.
Achises conjugio Veneris dignate superbo.
Virg. A En. Lib. 2.
«Em quanto nas lidadas officinas.M»
Retumbam nas lidadas officinas Echos gostosos das nascentes almas, Que novos corpos a habitar caminham.
Filint. Elys. Ode a Venus (Tom. 5).
«C’o estremecido arrulho a dona imitam.»
Presentem ja no estremecido arrulho Os propinquos prazeres.
Filint. Elys. ibid.
«Porque mesquinhas leis nos vedam barbaras Tam suave pecar......»
Si il peccar è si dolce, E’l non peccar si necessario; ò troppo Imperfetta natura, Che repugni ala legge! O troppo dura legge, Che la natura offendi!
Guarini: past fld.
Se este crime é tam doce, Se tanto fugir delle é necessario; Imperfeita parece a natureza, Que fraca á lei repugna, Ou lei muito severa, Que a natureza offende.
Traducç. de Thom. Joaq. Gonzaga.
«E do amado na dor, sua dor recresce.»
Che l’esempio del dolore È un stimolo maggiore, Che richiama a sospirar.
Metastaz: Artass. atto I.
«Dos antigos errores esquecido.»
Errores é usado por Camões no sentido de—longas, e desvairadas viagens—; Ferreira porem, e outros classicos de igual nota o tomaram na mesma accepção, em que aqui se toma.
«Com o amante fugir, morrer com elle?»
Uma deusa não póde morrer: me diz ja algum critico, muito contente do quinau. Assim é, Sr. critico; mas no delirio das paixões quem se lembra da sua natureza?—Uma deusa com paixões!—Os deuses da mythologia, os numes dos Gregos, e Romanos não são o mesmo que o deus do philosopho (digno de tal nome) que, satisfeito de reconhecer a existencia d’um ente supremo, pára, onde se lhe acabam as forças, nem prosegue em investigações, onde se lhe apaga a luz da fraca razão; nem empresta á desconhecida causa das causas os habitos, as paixões, a fórma, e toda a natureza da fragil e apoucada humanidade. O orgulho de se occultar a si proprio a sua fraqueza, e de abaixar até á sua mesquinhez a idea de deus, por não poder subir até á altura d’ella, nasce da nossa vaidade, da nossa ignorancia e da nossa miseria. Por isso os theologos desbocadamente nos pintam, e nos querem fazer crer em um deus vingativo, irado, e capaz em fim de todos os crimes e vicios, que elles em sua alma alimentam e nos querem vender por virtudes.
«..... Comsigo ao carro o sobe.»
Subir é um verbo neutro; mas é este um idiotismo bem notavel da nossa lingua, usar de taes verbos com força activa, como o fazem os nossos classicos a cada passo.
«Que lhe spira dos labios, das pupillas.»
Aquelle não sei que, Que spira não sei como, Que invisivel sahindo, a vista o vê.
Camões: Ode 6.
Spirem suaves cheiros De que se encha este ar todo.
Ferr. Castr. act.
«Arde voltar ao suspirado asylo.»
... Jamdudum errumpere nubem Ardebant.
Virgil. AEneid. L. I. v. 580.
«Disenhos volve...........»
Esta palavra mui portugueza e antiga (embora de origem estrangeira) não é gallicismo; exprime bem o—dessein—francez, e tem por si a auctoridade d’um escriptor bem notavel e bem antigo, qual é Damião de Goes. (v. Chron. de D. Man. part. I, cap. 4, e passim).
«Que tam suave rege a natureza.»
......... Omnis natura animantium Te sequitur cupide.
Lucret. Lib. I. v. 15.
«Mal disse; e o raio mais veloz não rue.»
Este verbo muito adoptado por Filinto Elysio, e pelo erudito traductor da lyrica de Horacio, Antonio Ribeiro dos Santos; e cujos compostos, e derivados ja tinhamos (correr, decorrer etc.) tem todas as qualidades necessarias para a sua naturalisação.
«Da rubra dextra do Tonante irado.»
........ Et rubente Dextra sacras jaculatus arces Terruit urbem.
Horat. Od. 2, Lib. I.
«Á voz da deusa fende os ares liquidos.»
......... Per liquidum aethera:
Virg. AEn. Lib. I.
«Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco.»
Florença na Toscana, ou antiga Etruria, dita mysteriosa em razão dos seus áugures.
«Á formosa Bolonha...»
De Bolonha conta Ganganeli (ou antes Carracioli) nas suas cartas, que um Portuguez, encantado de sua belleza, exclamara: «Não se devia mostrar senão ao domingo.»
«E fitando no ceo audazes vistas.»
Coelum ipsum petimus stultitia
Horat. Lib. II, Od.
«Aos golpes crebros, incessantes, duros.»
O imperio Grego acabou em 1448 pela morte do ultimo Constantino, e entrada de Mahomet II em Constantinopola, a cujos muros se limitava, ha muito, o vasto imperio Grego e Romano. Os horrores desta tomada de Cp., a immensidade de familias que fugiram para a Italia, e principalmente para Veneza, Genova e Florença, o adiantamento, que este successo causou ás sciencias e artes do occidente; são cousas sabidas de todo o mundo. (Vid. Anquétil: Précis de l’hist. univers. tom. 4, pag. 249, etc. e Chateaubriand: Génie du Christ. part. 3, liv. I).
Notas ao canto segundo
«Vão-lhe na frente os affamados chefes.»
Aquelles sam sós homens que se affamam.
Ferreir. Cart. 6, Liv. I.
«No bello antigo modelando as graças.»
O verbo modelar está geralmente adoptado mas que não seja antigo. Assim como de molde se fez, e deduziu moldar; de modelo se póde derivar modelar.
«Vem tribu excelsa de Romãos pintores.»
Gregos, Romãos, e toda a outra gente.
Ferreir. Cart. 3, Liv. I.
«E quanto inspira Apollo:......»
O fito que neste poema levei, foi simplesmente celebrar os louvores da pintura, e de seus principaes mestres. Sou apaixonado amador desta sublime poesia; contento-me de admirar; mas nunca dei a menor lapizada. A leitura, a observação curiosa, e exacta do pouco, que tenho visto, me deram os limitados conhecimentos, que em tam comprida materia possuo. Ideias vastas, ainda mesmo na historia só da pintura, apenas poderão ser o fructo de longos estudos, que a minha pouca idade, e mais sérias, mas que ennojosas occupações prohibem. Declaro pois que, se êrro encontrarem os professores, mui grata e grande mercê me farão de me avisar; e conhecerão pela minha docilidade na emenda a pouca presumpção do auctor.
«E aos d’arte amantes desejar com Pedro Junto ao prodigio....»
Faciamus hic tria tabernacula.
Matth. Evang.
«Em cêrca aos muros da gentil Parthénope.»
Napoles, assim ditta antigamente de Parthénope, uma das sereias, que se enchêram de desesperação por não poder vencer Ulysses com o seu canto. Junto ao tumulo desta simideusa ou nympha se edificou uma cidade, que della tomou nome. Destruida ésta, se tornou em seu mesmo logar a edificar outra nova, dita Napoles (Neapolis—Νεαπὸλις—cidade nova) nome que inda hoje conserva.
«Umas sobre outras as cidades jazem.»
Pelos fins do seculo passado se descubriram nas visinhanças do Vesuvio as antigas cidades de Herculano e Pompeia. A cidade de Portici está quasi situada sobre a antiga Pompeia, que, assim como o Herculano, fôra submergida em uma explosão do Vesuvio.
«E a rôdo os d’atro fogo horridos rios.»
Nas grandes irrupções do Vesuvio corre do alto da montanha um, como rio, de fogo, que dá uma imagem das fingidas torrentes do sonhado Averno.—Virgilio, que de certo dos volcões de Napoles houve a idea do seu Phlegetonte, situou por aquelles logares os seus—Plutonia regna.—(Vid. Stael na Corin.)
«Inda no mesto panno afflictos súam.»
....... Sudant in marmore mœsto.
Sili. Ial. Lib. I.
«Saliente Caravaggio, que exprimiste.»
Saliente; porque as figuras de seus quadros tem um ar de relêvo, que engana. É necessaria metonymia, de que uso muitas vezes para caracterizar os pintores, segundo suas mais distinctas qualidades.
«Ja de accurvados reis não brilha o fasto.»
O simples nome de Roma basta para fazer nascer uma infinidade de ideias grandes e de magestade. Todos os pensamentos sublimes, que a imaginação póde crear, todas as sérias reflexões, que póde suscitar a razão, todas as memorias augustas, que a virtude e a humanidade podem fazer nascer, occorrem e borbulham associadamente na alma do homem pensador com a simples ideia de Roma. O exfôrço dos Horacios, a castidade das Lucrecias, a integridade dos Brutos e Catões, o patriotismo dos Fabios e Scevolas, a magnanimidade e valor dos Scipiões, a eloquencia dos Ciceros, o saber dos Plinios, a liberalidade dos Augustos, a grandeza dos Trajannos, a humanidade dos Titos, tudo se recorda com a memoria illustre da cidade por excellencia.
Imagine-se um homem cheio de toda a magnificencia destas ideias, possuido de respeito e veneração, ao entrar em Roma.—Ruinas, sepulcros, templos derrocados, estradas solitarias, ruas desertas... são os miseraveis objectos, que lhe ferem os olhos, mui de longe preparados para admirar a senhora do universo. De espaço a espaço descobre (é verdade) um templo magnifico, um grande palacio; mas breve se desvanece este vislumbre de grandeza, e subito se esvai a nascente esperança de encontrar a Roma de Augusto. Estes palacios, estes templos, que se elevam do meio das choupanas (habitação da indigencia e da fome) carregados d’ornatos, de sobejo embellezados, serão acaso aquelles esmeros de architetura grande e magestosa, suberba e varonil dos edificios Latinos? Poderá algum d’elles similhar-se ao Fóro, ao Palacio, ao Amphitheatro? Descubrir-se-ha n’alguma d’estas modernas praças o menor vestigio dos Rostros? O Capitolio, o terrivel, o venerando Capitolio, onde se julgava dos destinos das nações, onde os reis curvavam os sceptros, e depunham os diademas; d’onde sahiam os irrevogaveis e tremendos decretos, que dispunham da sorte dos povos, e legislavam ao universo, que é feito d’elle?—O solicito viajante ainda o descobre; o seu cicerone (guia) ainda lhe mostra o logar d’elle.—E será este?—Differente estrada conduz ao cimo do monte; o palacio do senador, alguns restos de quebradas estatuas, de desfigurados relevos são todas as riquezas, todos os tropheos, todos os despojos, que ornam o antigo alcaçar do mundo.
Confuso, humilhado, o viajante não se atreve ja a encarar nenhum edificio.—«Os habitantes ao menos (diz elle) talvez conservem alguma cousa ainda de Romanos. Tantas virtudes, tanta grandeza não podiam extinguir-se de todo.»—Um bando de miseraveis, uma plebe indigente, vil e sem costumes, são os successores do povo rei; uma côrte effeminada, e entregue aos deleites do ocio occupa o logar dos Brutos e Catões; declamadores sem gôsto, com affectadas e guindadas phrases (que ou não entendem ou não crem) fazem retenir aquelle mesmo ar, que ouviu os eloquentes e numerosos sons de Cicero e Marco Antonio; assucarados trovadores infectam com os seus—concetti—a degradada lyra de Virgilio e Horacio; os Scipiões, os Emilios, os grandes generaes, as invenciveis tropas da triumphante republica são substituidas por um bando de assoldados Suissos, cujas grandes proesas e valor, cujos guerreiros exforços são o fazer a guarda do papa. Em vez do augusto e venerando senado, um ajuntamento d’homens ambiciosos, insaciaveis d’ouro, regem despoticamente; não os direitos das nações, e deveres dos reis e povos pelas invariaveis leis da justiça, como os antigos conscriptos; mas o corpo invalido da igreja por elles arruinada e depravada, levando simplesmente o fito em pescar para a barca do humilde S. Pedro as riquezas das nações com o sagrado anzol das indulgencias, reliquias e breves.—«Roma! oh Roma! (exclamará o contristado viajante) tu ja não existes; a tua liberdade expirou em Catão, e tu com ella! A liberdade te conservava as virtudes, que, mais que tuas façanhas, te constituiram no imperio do orbe. Perdeste-a; e desde então caminhaste sempre com gigantescos passos ao abysmo de miseria e vileza, em que jazes sepultada para eterno exemplo do universo.
E com effeito, tal é a sorte de quasi todas as nações! Florecem, reinam em quanto a liberdade, ou a larva della subsiste; apenas se eleva a tyrannia, cai de rôjo com a liberdade o amor das virtudes; a servidão embrutece o homem; a sociedade se muda em um rebanho de escravos; e a miseria succede á opulencia. Assim cahiu Roma, assim Sparta, assim Hollanda, assim tantas outras. Que exemplos para os tyrannos, e que terrivel escarmento para os povos! Miseraveis despotas, embreve estendereis o sceptro de ferro sobre montões de ruinas. Os Vandalos, os Godos, os Arabes não se acabaram ainda; e vós os chamais com tanta ancia![15]
NOTAS DE RODAPÉ:
Notas ao canto terceiro
«Enfrea as iras de Neptuno indomito.»
Imperio premit, et vinclis, et carcere frœnat.
Virg. AEn. Lib. I, v. 54.
«Ve d’Adria o golpho tempestuoso e fero.»
É o golpho de Veneza, antigamente chamado de Adria, ou Adriatico, d’uma cidade d’este nome.
«Alli, fugindo aos clamorosos brados.»
No meio do seculo V, foram destruidas por Attila, rei dos Hunos, as cidades de Aquilea, Altino, Concordia, Opitergo e Padua, todas visinhas ao golpho, então chamado Adriatico. Os habitantes destas cidades, fugindo ao furor irresistivel, e cruel ferocidade dos barbaros, se foram refugiar nas pequenas e desertas ilhotas do mar Adriatico, e fundaram assim o começo de Veneza. (Vid. Anquétil, Millot, e la Istoria de Vinegia per ***)
«Emporio foi depois do rico oriente.»
Antes que ha India fosse descuberta pelos Portuguezes, ha mayor parte da especiaria, droga, e pedraria se vazava pelo mar roxo, donde ya ter á cidade Dalexandria, e dalli ha compravão hos Venezianos, que a espalhaavão pela Europa.
Castanheda Lib. I, cap. 1.
«E do alado Leão tremeu gran tempo.»
Um leão com azas era o timbre, ou armas da republica, ou senhoria de Veneza.
«E segue a esteira das cortadas ondas.»
Esteira, ou esteiro, que assim, e indifferentemente escrevem e usam os nossos classicos, é aquelle sulco, que os navios vão fazendo e deixando depoz si nas aguas, e que bom espaço se conserva depois. Maior é talvez o numero das pessoas que sabem a simplicissima razão physica deste natural phenomeno, do que o das que o nome portuguez lhe conhecem.
«Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios.»
.......... All’ Adria in seno Un popolo d’eroi s’aduna......
Matest. Ezio: atto I.
«Adriades gentis, oh! vinde as frentes.»
Assim como de Tagus Latino fez Camões Tagides; e outros do Douro—Durius—Duriades etc.; quem me impede a mim, que de Adria, faça Adriades?
«Qual Verona folgou com seu Catullo.»
.......... Gaudet Verona Catullo, Pelignae dicar gloria gentis ego.
Ovid. Trist.
«......... Mil graças, mil encantos Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera.»
Assim como Catullo, Paulo Veronese é notado de pouco honesto. Todos sabem a lascivia e voluptuosidade dos versos do primeiro: os quadros do segundo tem uma poesia d’este genero bem mais expressiva.
«Em que lhe peze á inveja, e seus furores.»
Eu, que apezar da inveja, e seus furores Aos astros levo o nome Lusitano.
Elpin. Nonaer. Od. a Vasc. da Gam.
Em que lhe peze, e em que lhe pez são phrases dos melhores classicos: mil exemplos, por um, pudera appresentar; mas citarei o que tenho aqui mais á mão, que é o P. Vieira (Vozes saudosas: voz histor.)
«Scena outr’ora infeliz da gloria Franca.»
As provincias Flamengas foram um dos principaes theatros das ambiciosas guerras de Luiz XIV com a Hollanda. (Vid. Voltaire Siécl. de Louis XIV).
«Lhe bafejastes divinal espirito.»
Quasi divino quodam spiritu inflari.
Cicer. pro Arch. §. 8.
«E o veneno lethal lhe infunde n’alma.»
Sic effata, facem juveni conjecit, et atro Lumine fumantis fixit sub pectore tædas.
Virg. AEn. Liv. VIII, v. 56, e seg.
«Quam bello é na expressão Vaén correcto.»
Porventura não serão os verdadeiros accentos da pronúncia nacional, os que ponho aqui neste e nos outros nomes dos pintores flamengos: puz-lhe os necessarios para o rythmo, que é a minha obrigação; dos outros não sei, pois que ignoro a tal lingua; no que, segundo creio, não perderei nada.
«Difficeis nomes d’estremados mestres.»
E bem difficeis, com effeito, para accomodar ao verso com os seus—kk—rr—etc.: não são daquelles, de que Horacio diz:
Verba loquor socianda chordis.
Horat. Lib. II, Od.
«Do mestre a obra maior, Wandik insigne.»
Voltaire diz algures, fallando de Tasso, que, se é verdade o que vulgarmente se diz, que os Lusiadas, e seu auctor formaram a Gerusalem do primeiro, fôra esta a melhor obra de Camões. Não estou absolutamente por este espirituoso dito de Voltaire; mas com justiça o appliquei a Rubens, e Wandick.
«E em vez d’um Fabio tardador......»
Assim traduziu Filinto Elys. o Fabius cuntactor dos Latinos. (Vid. Filint. Ode á Liberdade).
«......... Ja no Sena ovante.»
Sobre a margem feliz do rio ovante, Donde arrancando omnipotencia aos fados Impoz tropel d’heroes silencio ao globo.
Bocag. Od. a Filint.
«Que do Meschacebeu vingando as margens.»
Este é o verdadeiro nome do célebre rio da Luisiana, na America Septentrional, chamado vulgarmente Mississipi. (Vid. Chateaubriand: Génie du Christ. Part. III, Liv. 5).
«C’o Euripides Francez disputa ainda.»
Racine bem se póde assim chamar, não somente por suas absolutas e eminentes qualidades; mas pela relativa, e mui particular da similhança dos ingenhos, e feliz imitação de Racine. (Vid. Laharpe: Cours de Littér.; Lemercier: ibid.; e o P. Brumoy no Theatr. dos Gregos).
«Ao ver nas murchas, esmyrradas faces.»
J’ai langui, j’ai séché dans les feux, dans les larmes.
Racin. Phoedr. Act. II.
Desfalleci, murchei no ardor, no pranto.
Trad. ms. do Sr. H. E.
«D’um criminoso amor violencia e fogo.»
Quand je suis toute en feu, vous n’êtes que de glace.
Phoedr. Act. II.
«Os manes folgam de Rollin, Voltaire.»
Le-Gros é pintor historico; e Rollin e Voltaire foram historiógraphos francezes.
Notas ao canto quarto
«Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes.»
Outros quaesquer poetas, e de mais nomeada porventura, pudéra eu citar; mas quiz, quanto em mim era, e o permittia o assumpto e a obra, prestar homenagem a dous ingenhos, que honraram a patria e a lingua; e dos quaes o primeiro depois d’uma fama gigantesca, e maior que seu merecimento, passou a ser enxovalhado por quanto Mevio e Bavio sabe dizer—Traduziu, traduziu, traduziu tudo—como se um traductor como Bocage não fosse um poeta de muito merecimento, e de muito maior, que tantos originalistas de nome (de nome sim; que realmente deus sabe o que é); como se Pope, Dryden, Annibal Caro, João Franco Barreto, e tantos outros illustres traductores não figurassem mais na republica litteraria que tantos epicos modernos... Eu não sou dos apaixonados do privilegio exclusivo, que ha certo tempo obtiveram entre nós as traducções. Uma nação que assim obra por espirito de priguiça, ou menos-preço de si propria, em vez de enriquecer sua litteratura, empobrece-a e perde-a. De J. B. Gomes e da sua Castro tanto mal como bem se tem dito. Não a dou por uma tragedia perfeitamente regular, não a comparo ás grandes peças de Racine e Alfieri; mas sei que tem muitas bellezas, e que n’um theatro tam pobre, como o nosso, é digna de muita e muita estimação. Para criticar a Castro de Gomes é preciso enchugar muitas vezes as lagrimas, que ella excita continuamente.
«Calcando a juba dos Leões gryphanhos, Parando ás Aguias etc.»
Revoluções de 1640 e 1808.
«........Ah! se aura amiga Continúa a soprar......»
Em Roma, assim como na Grecia, se formariam Zeuxis e Apelles, se os Romanos dessem a Fabio as honras, que seus talentos mereciam. Diz Cicero algures nas Questões Tusculanas.
«Inviolavel lei um teu desejo.»
Nação nenhuma (diz Florian no avant propos de Sancho) possue a arte d’amar, como a portugueza.
«Os feitos dignos de perenne historia.»
........as cousas........... Que merecerem ter eterna historia.
Camões. Lus. Cant. 7.
«Sensiveis corações, vinde espelhar-vos» etc.
Vidi sæpius inscriptionis imaginem, et sine lacrymis transire non potui.
S. Gregor. II. Concil. Nicen. act. 40.
«Prazeres do christão, doçuras d’Alma.»
Le nouveau testament change le génie de la peinture. Sans lui rien ôter de sa sublimité, il lui a donné plus de tendresse.
Chateaubriand. Gen. du Chr. part. III, Liv. I, cap. 4.
«Portento d’expressão, viva faisca Do lume eterno...»
Les peintres... famille sublime que le souffle de l’esprit ravit au dessus de l’homme.
Chateaubriand, ibid.
«Fastoso monumento d’alta Iberia.»
Resta ainda resolver o grande problema: Se a descuberta da America foi util ou prejudicial á Europa; o qual, emquanto a mim, depende d’outro mais generico: Se as conquistas, principalmente longinquas, podem ser uteis a uma nação. Não me atrevo a resolver nem um nem outro. As theorias falham quasi sempre em politica, bem como em moral. So noto imparcialmente, que a Hespanha foi poderosissima nação antes do XVI seculo; que Portugal, se nos tempos de D. Manoel e João III floreceu, e deu brado na Europa e no mundo; depois não fez mais que luctar contra innumeraveis desgraças: que não tivemos mais um João II; e que as conquistas d’Asia e Egypto deram por terra com o imperio Romano.—Provêm isto das descubertas em si?—Provêm do uso que d’ellas se fez?—Continúa a minha ignorancia.—Os monarchas hespanhoes fundiram no Escurial, e n’outras cousas d’esta ordem, as immensas riquezas das Indias occidentaes, ganhas á custa de tantos crimes, barbaridades, irreligião, fanatismo e sacrilegios de Cortêz e de mil outros. Diminuiu no continente hespanhol a população; não se fez o menor caso da agricultura; o commercio não foi senão passivo; e, depois d’um breve esplendor, a suberba Hespanha cahiu na miseria d’uma nação pobre e falta de tudo, a pezar de toda a sua prata.—E que diremos de nós?—O mesmo, com alguma differença para peior. Todo o homem, que pensa, sabe o que eu poderia dizer neste artigo; como para estes só escrevo, elles me entendem; e eu, com o meu silencio, me poupo ás criticas da ignorancia e da sordida adulação. (É bem facil de ver que ésta nota foi igualmente escripta antes do dia 24 d’Agosto).
«Terra fertil d’heroes, solo fecundo, Salve!........»
Salve magna parens frugum... tellus, Magna virum.
Virg. Georg.
«O mimoso sendal, ja pouco avaro.»
O véo dos roxos lirios pouco avaro.
Camões Lus. Cant. 9.
Diripui tunicam, nec multum rara nocebat.
Ovid. Eleg. Lib. I, Eleg. 5.
«Que divinos encantos não descobrem» etc.
E tuto ciò, che piú la vista alletti.
Tasso Gerusal. Canto XV, st. 59.
«Sonhada, pythagorica harmonia.»
A harmonia das spheras é um dos sonhos de Pythagoras. Póde-se ver a satyra galantissima destas e outras philosophicas extravagancias no celebre poema allemão—Musarion—de Wielland: Canto II.
«Arrulharam d’amor meigas pombinhas.»
Presentem ja no estremecido arrulho Os propinquos prazeres.
Filint. Elys. Ode a Venus. (Tom. 5).
«Roseos descurvam, se aredondam braços.»
Ν’μος δ’ ὴῥιγυἑια φάυη ροδ οδ άϰλυλος ὴὠτ.
Homer, Odyssea B. (Lib. II.)
«Ondeiam n’alva frente as tranças d’evano.»
Os cabellos e olhos pretos eram os mais estimados dos Romanos—Nigra oculis, nigraque capillis: Horat.—Se é mau gôsto, confesso que o tenho. Quem amar mais os louros, não tem senão dizer:
«Ondeiam n’alva frente as tranças d’ouro.»
Assim, eu, e o leitor ficamos ambos satisfeitos. De mais, até lhe posso ensinar um texto, com que provar o seu gôsto. É a auctoridade de Petrarca, que não é pêca neste ponto:
L’auro, e i topazj al sol sopra la neve Vincon le bionde chiome presso agli occhi.
Petrarca, rim. Part. I. cans. 9.
«Déste; que bem o sei........»
Assim é de crer piamente; e, comquanto o não digam os DD., eu o penso. O leitor póde ficar pelo que quizer—salva fide—pois estas materias são de mythologia, e não de theologia.
«Ja por milagre de Cyprina é prompta.»
Manca il parlar; di vivo altro non chiedi. Ne manca questo ancor, se agli occhi credi.
Tass. Gerus. Cant. XVI.
«E novos Pygmaliões por elle anceiam.»
Pigmalion, quanto lo dar ti dei Dell’ imagine tua, se mille volte N’avesti quel, ch’io sol’ una vorrei.
Petrarca, rim. Part I, sonett. 58.
«Admira o joven a belleza........»
Faria, pouco mais ou menos, as mesmas extravagancias com o retrato, que o amante de Julia com o da sua bella.
(Vid. Nouvell. Héloï. Part. II, Lett, 22).
«Os lacteos pomos.........»
Le pome accerbe, e crude...
Tass. Gerus. Cant. XVI.
«Serão meus versos, como tu, divinos.»
Me juvat in grœmio doctæ legisse puellæ, Auribus et puris dicta probasse mea: Hæc si contingant......... .......... Domina judice, tutus ero.
Propert. Eleg.