PROPHECIA
Reading edition
De um Lavrador velho e cego, da freguezia da Maia, a qual foi achada debaixo do travesseiro, depois do seu fallecimento.
Cessem todos os estrondos Para em bella harmonia Ouçam todos mais attentos Esta real prophecia. De um authentico Soberano Distincto e inspirado Que alem de ser Monarcha Tambem tem prophetisado. Cujo Soberano escreveu A qual me mandou lêr Do que no futuro anno N'este reino se ha de vêr.{37} Prophetisou que para o anno Tudo o que fôr vegetal, Causará terror e espanto No reino de Portugal. Toda a terra portugueza Dará fructo desmarcado Como nunca se tem visto Desde que o mundo foi creado. As nabiças darão grellos Tão altos e engrumados, Que dê mastros de navios, E serrando-os taboados. Cada nabo será tal Que se o escavar por dentro Possa dar casa bastante Para córte d'um jumento. Taes repolhos vereis creados Em todos os repolhaes, Que o menor seja bastante P'ra pezar vinte quintaes. Pois só as folhas de fóra D'aquelles mais bem creados Poderão servir de vellas Para estender nos eirados. As couveiras crearão Tão altos pés e grossos; Que d'elles se farão bombas Para tirar agua dos poços.{38} Vereis cebollas como pipas Batatas como toneis Tomates como gigas Alhos como canistreis. Que só os dentes dos alhos Tão volumosos serão, Como que fossem quartos De aboboras ou de melão. As pereiras darão peras Tão grandes e tão bastas Que uma só pera aos pedaços Encha bem sete canastras. Taes limões vereis creados Nos limoeiros azedos, Que um limão seja bastante P'ra carregar seis gallegos. E que nozes tão grandes Se hão de ver pelas Nogueiras, Que das cascas d'uma só Se farão duas maceiras. E do que tiver por dentro Gostosos doces farão, E muitas se hão de moer Que não hão de dar mau pão. Tambem promette abundancia De pão trigo e centeio Porque só cada espiga Dará alqueire e meio.{39} As mulheres farão fogueiras Queimarão fuzos e rocas Por que ha de nascer linho Prompto já em maçarocas. Pois só cada melancia Tão grande ha de ser, Que precisem de dez homens Com pancas para a mover. Da tona grossa e dura Com talos tão bem creados Que só possam ser partidos Com alviões ou machados. Cada videira do Douro Tantos cachos ha de dar Que de vinho e bagaço Possa encher um lagar. A cinco reis o almude Quem quizer beberá vinho Do melhor do Alto Douro N'esta provincia do Minho. No tempo que o vinho fôr A cinco reis o almude Muito ha de haver quem diga: «Cá vae á sua saude.» Velhos e velhas vereis Dar saltinhos de contentes Porque até terceira vez Lhe hão de nascer novos dentes.{40} Até os brancos cabellos Vereis tomar novas côres, Iguaes ás d'aquelle tempo Em que tinham seus amores. Os que forem corcovados A corcova hão de perder, Até cegos vereis com vista, Que já não esperavam vêr. Tudo quanto tenho dito Afianço e asseguro, Que se nada fôr verdade Ha de ser mentira tudo. D'esta forma terminou Esta real prophecia, Só a todos desejo Vida, paz e alegria.{41}