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O Oraculo do Passado, do presente e do Futuro (5/7)

(BALLADA)

Reading edition

Vae alta a lua! na mansão da morte Já meia noite, com vagar soou; Que paz tranquilla! dos vaivens da sorte, Só tem descanço quem alli baixou. Que paz tranquilla!... mas ao longe, ao longe Funérea campa com fragor rangeu: Branco phantasma, semelhando um monge, D'entre os sepulchros a cabeça ergueu. Ergueu-se ergueu-se!... na amplidão celeste Campeia a lua com sinistra luz; O vento geme no feral cypreste, O mocho pia na marmorea cruz.{30} Ergueu-se, ergueu-se, com sombrio espanto, Olhou em roda... não achou ninguem... Por entre as campas, arrastando o manto, Com lentos passos caminhou além. Chegando perto d'uma cruz alçada, Que entre os cyprestes alvejava ao fim, Parou, sentou-se, e com voz maguada Os éccos tristes accordou assim: «Mulher formosa, que adorei na vida, E que na tumba não cessei d'amar; Porque atraiçôas desleal, mentida, O amor eterno que te ouvi jurar? «Amor! engano, que a campa finda, Que a morte despe d'illusão fallaz; Quem d'entre os vivos se lembrará ainda Do pobre morto que na terra jaz? «Abandonado n'este chão repousa; Ha já tres dias, e não vens aqui... Ai! quão pesada me tem sido a lousa Sobre este peito que bateu por ti! «Ai! quão pesada me tem sido!» e em meio, A fronte exhausta lhe pendeu na mão, E entre soluços arrancou do seio Fundo suspiro de cruel paixão.{31} «Talvez que rindo dos protestos nossos, Gozes com outro d'infernal prazer; E o olvido cobrirá meus ossos Na fria terra, sem vingança ter! —«Oh! nunca, nunca!» de saudade infinda Responde um écco-suspirando além... «Oh! nunca, nunca!» repetiu ainda Formosa virgem que em seus braços tem. Cobrem-lhe as fórmas divinaes, airosas, Longas roupagens de nevada côr; Singéla c'rôa de virgineas rosas, Lhe cerca a fronte d'um mortal pallôr. «Não, não perdeste meu amor jurado; Vês este peito! reina a morte aqui... E já sem forças, ai de mim, gelado, Mas ainda pulsa com amor por ti. «Feliz que pude acompanhar-te ao fundo Da sepultura, succumbindo á dor; Deixei a vida... que importava o mundo, O mundo em trevas sem a luz do amor? «Saudosa ao longe vês no céo a lua? —Oh! vejo, sim... recordação fatal! —Foi á luz d'ella que jurei ser tua, —Durante a vida, e na mansão final.{32} «Oh! vem! se nunca te cingi ao peito, Hoje o sepulchro nos reune emfim... Quero o repouso do teu frio leito, Quero-te unido para sempre a mim!» E ao som dos pios do cantor funéreo, E á luz da lua de sinistro alvor, Junto ao cruzeiro, sepulchral mysterio, Foi celebrado, d'infeliz amor. Quando risonho despontava o dia, Já d'esse drama nada havia então, Mais que uma tumba funeral vasia, Quebrada lousa por ignara mão. Porem, mais tarde, quando foi volvido Das sepulturas o gelado pó, Dous esqueletos um ao outro unido, Foram achados n'um sepulchro só.{33}

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